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sábado, 15 de setembro de 2012

A Cidade Antiga. Estudo sobre o Culto, o Direito da Grécia e de Roma. «Este fogo tinha algo de divino; adoravam-no, prestavam-lhe verdadeiro culto. Davam-lhe como oferenda tudo quanto julgavam pudesse agradar a um deus: flores, frutas, incenso, vinho»

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O fogo sagrado
«Toda a casa de grego ou de romano possuía altar; neste altar devia haver sempre restos de cinza e brasas. Era obrigação sagrada do dono de cada casa conservar o fogo dia e noite. Desgraçada casa aquela onde o fogo se extinguisse! Ao anoitecer de cada dia se cobriam de cinza os carvões, para deste modo se evitar que eles se consumissem inteiramente durante a noite; ao despertar, o primeiro cuidado do homem era avivar o fogo e alimentá-lo com alguns ramos secos. O fogo só deixava de brilhar sobre o altar quando toda a família havia morrido; lar extinto, família extinta, eram expressões sinónimas entre os antigos.
E, evidentemente, o uso de manter-se sempre o fogo sobre o altar remonta a antiga crença. As regras e os ritos observados a este respeito mostram-nos não ser então este entre as gentes um qualquer costume insignificante. Não lhes era permitido alimentar este fogo com qualquer espécie de madeira; a religião distinguia, entre as árvores, aquelas espécies que podiam ser empregadas com este fim, e aquelas outras de que era impiedade servirem-se. A religião ensinava ainda como este fogo devia permanecer sempre puro, o que em sentido literal significava que nenhum objecto sujo lhe devia ser atirado e que, em sentido figurado, nenhuma acção culposa deveria cometer-se em sua presença. Havia determinado dia no ano, entre os romanos, o 1º de Março, no qual cada família devia apagar o seu fogo sagrado e reacender logo outro em seu lugar. Mas, para se acender o novo fogo havia ritos que necessariamente tinham de ser observados com todo o escrúpulo. Deviam sobretudo evitar fazer lume usando de ferro e pederneira. Os únicos métodos permitidos eram os de fazer incidir num ponto o calor dos raios solares ou de friccionar dois pedaços de madeira de determinada espécie e deles fazer saltar a faísca.
Estas diferentes regras provam de sobejo como não estava no juízo dos antigos apenas o facto de produzir ou de conservar um elemento útil e agradável; estes homens viam mais do .que isso no fogo que ardia sobre os altares.

Este fogo tinha algo de divino; adoravam-no, prestavam-lhe verdadeiro culto. Davam-lhe como oferenda tudo quanto julgavam pudesse agradar a um deus: flores, frutas, incenso, vinho. Imploravam-lhe protecção, que supunham poderosa. Dirigiam-lhe fervorosas preces para dele conseguirem os fins eternos desejados por todo o homem, saúde, riqueza, felicidade. Uma destas orações, que nos foi conservada numa colecção de hinos órficos, está assim concebida:
  • ‘Torna-nos sempre prósperos, sempre felizes, ó lar; ó tu que és eterno, belo, sempre novo, tu que nutres, tu que és rico, recebe de bom coração as nossas oferendas, dando-nos em troca a felicidade e a saúde que é tão doce’.
Assim, via-se no lar o deus benfazejo conservador da vida do homem, o deus rico alimentando-o com os seus dons, o deus forte protector da casa e família. Em presença de qualquer perigo, procurava-se refúgio junto dele. Quando o palácio de Príamo foi invadido, Hécuba arrasta o velho rei para junto do lar:
  • ‘As tuas armas não saberão defender-te, diz-lhe ela, mas este altar nos protegerá a todos’.
In A Cidade Antiga, Fustel de Coulanges, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1981.

Cortesia de LC Editora/JDACT

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A Cidade Antiga. Estudo sobre o Culto, o Direito da Grécia e de Roma. «Não era mesmo necessário ter sido homem virtuoso: tanto era deus o mau como o homem de bem; somente o mau continuaria na sua segunda existência com todas as suas más inclinações já reveladas durante a sua primeira vida»



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O Culto dos Mortos
«Desde os mais recuados tempos, deram estas crenças lugar a normas de conduta. Como, entre os antigos, o morto necessitasse de alimento e de bebida, concebeu-se ser dever dos vivos satisfazer-lhe esta sua necessidade. O cuidado de levar aos mortos os alimentos não esteve a cargo do capricho ou dos sentimentos variáveis dos homens; foi obrigatório. Assim se estabeleceu toda esta religião da morte, cujos dogmas cedo desapareceram, durando, no entanto, os seus ritos até ao triunfo do cristianismo.
Os mortos eram tidos como entes sagrados. Os antigos davam-lhes os epítetos mais respeitosos que podiam encontrar no seu vocabulário; chamavam-lhes bons, santos, bem-aventurados.
Tinham por eles quanta veneração o homem pode ter pela divindade que ama ou teme. Para o seu pensamento cada morto era um deus. Esta espécie de apoteose não era somente apanágio dos grandes homens; entre os mortos não havia distinção de pessoa. Cícero diz-nos:
  • ‘Os nossos antepassados quiseram que os homens que tivessem deixado esta vida fossem contados no número dos deuses’.
Não era mesmo necessário ter sido homem virtuoso: tanto era deus o mau como o homem de bem; somente o mau continuaria na sua segunda existência com todas as suas más inclinações já reveladas durante a sua primeira vida.
Os gregos davam de bom grado aos mortos o nome de deuses subterrâneos. Em Ésquilo, o filho invoca seu falecido pai por estas palavras: ‘Oh tu que és um deus sob a terra’. Eurípides, falando de Alceste, acrescenta: ‘Junto do teu túmulo o viandante parará e dirá: Aqui vive agora a divindade bem-aventurada’. Os romanos davam aos mortos o nome de deuses manes. ‘Prestai aos deuses manes quanto lhes é devido, diz Cícero, são homens que abandonaram esta vida terrena; considerai-os como seres divinos’.
Os túmulos eram os templos destas divindades. Por isso tinham a inscrição sacramental “Dis Maníbus”. O deus vivia enterrado no seu túmulo, “Manesque sepulti”, no dizer de Virgílio. Diante do túmulo havia um altar para os sacrifícios igual ao que há em frente dos templos dos deuses.
Achamos este culto dos mortos entre os helenos, os latinos, os sabinos e entre os etruscos; encontramo-lo também entre os árias da Índia. Os hinos do Rig-Veda referem-se-lhe. O livro das leis de Manu fala deste culto para no-lo apresentar como o mais antigo culto professado pelos homens. Viu-se já neste livro como a ideia da metempsicose passou por cima desta velha crença; e, apesar de a religião de Brama já anteriormente estar estabelecida, contudo, sob o culto desta religião ou sob a doutrina da metempsicose, subsiste ainda viva e indestrutível a religião das almas dos antepassados, a obrigar o redactor das leis de Manu a tomá-la em consideração e a admitir ainda as suas prescrições no livro sagrado. Não é singularidade menor deste livro tão excêntrico conservar as regras relativas às antiga crenças, sendo evidentemente redigido em época em que já predominam crenças inteiramente opostas. Isto nos prova que, se é preciso muito tempo para as crenças humanas evolucionarem, ainda muito mais tempo se torna necessário para as práticas exteriores e as leis se modificarem. Ainda em nossos dias, depois de tantos séculos passados e de tantas revoluções, os hindus continuam fazendo as suas oferendas aos antepassados. Estas ideias e estes ritos são o que de mais antigo encontramos na raça indo-europeia, sendo também o que ali tiveram de mais persistente.
O culto na Índia era o mesmo que na Grécia e na Itália. O hindu devia oferecer aos manes a refeição chamada “sraddha”. Que o chefe da casa faça o “sraddha” com arroz, leite, raízes e frutos, para conseguir a benevolência dos manes. O hindu acreditava que, quando oferecia o repasto fúnebre, os manes dos antepassados vinham sentar-se junto dele e aqui tomavam o alimento que lhes era oferecido. Acreditava ainda que esta refeição prestava aos mortos grata alegria». In A Cidade Antiga, Fustel de Coulanges, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1981.

Cortesia de LC Editora/JDACT

terça-feira, 13 de março de 2012

A Cidade Antiga. Estudo sobre o Culto, o Direito da Grécia e de Roma. «Temia-se menos a morte do que a privação de sepultura. Porque na sepultura está o repouso e a bem-aventurança eterna. Não nos devemos surpreender quando vemos os atenienses a mandarem matar aqueles generais que, depois de uma vitória no mar, negligenciaram o enterramento dos seus mortos»

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Crenças sobre a alma e sobre a morte
«E deste motivo vieram-nos as crenças nas almas do outro mundo. Toda a antiguidade se persuade de que, sem sepultura, a alma vive desgraçada e que só peto seu enterramento adquiria a felicidade para todo o sempre. Não era pelo aparato da dor que se realizava a cerimónia fúnebre, mas para repouso e felicidade do morto.
Atentemos bem não bastar que o corpo fosse depositado na terra. Era ainda preciso observarem-se certos ritos tradicionais e pronunciarem-se determinadas fórmulas. Encontramos em Plauto a história de uma alma do outro mundo; história de certa alma andando forçosamente errante, porque tinham enterrado o seu corpo sem a prática dos ritos. Suetónio conta-nos que, tendo sido enterrado o corpo de Calígula sem esse acto de a sua sepultura se haver feito acompanhar da cerimónia fúnebre, a sua alma andou errante e apareceu aos vivos, até ao dia em que se decidiu desenterrar o corpo e dar-lhe sepultura segundo os ritos. Estes dois exemplos revelam claramente a importância pelos antigos atribuída aos ritos e às fórmulas da cerimónia fúnebre. Uma vez que, sem eles, as almas andavam errantes e apareciam aos vivos, é porque só mediante a sua rigorosa observância se fixavam e encerravam nos túmulos. E como existiam fórmulas com esta virtude, também os antigos possuíam outras fórmulas tendo eficácia contrária: a de evocar as almas e fazê-las sair momentaneamente do sepulcro.
Pode ver-se em escritores antigos como o homem constantemente viva atormentado pelo receio de que, depois da sua morte, se não observassem tais ritos. Era isto motivo para amargas inquietações.

NOTA: Vide na “Ilíada”, Heitor pede ao seu vencedor que este o não prive de sepultura: ‘Eu te suplico de joelhos, pela tua vida, por teus pais, que não dês o meu corpo aos cães junto dos navios dos gregos; aceita o ouro que meu pai te oferecerá em abundância e entrega-lhe o meu corpo, a fim de que os troianos e troianas me concedam a minha parte nas honras da fogueira’.

Temia-se menos a morte do que a privação de sepultura. Porque na sepultura está o repouso e a bem-aventurança eterna. Não nos devemos surpreender quando vemos os atenienses a mandarem matar aqueles generais que, depois de uma vitória no mar, negligenciaram o enterramento dos seus mortos. Estes generais, discípulos dos filósofos, talvez distinguissem já entre alma e corpo, e, deste  modo, por não acreditarem que a sorte de uma estivesse 'presa da do outro, teriam assim pensado que ao cadáver tanto importaria decompor-se na terra como na água. Não tinham portanto querido arrostar com a tempestade só pela vã formalidade de recolher e enterrar os seus mortos. Mas a multidão, mesmo em Atenas, presa da velha tradição, imediatamente vem acusar estes mesmos generais de impiedade, e fá-los morrer. Se pela sua vitória estes generais haviam salvado Atenas, pela sua negligência tinham perdido milhares de almas. Os parentes dos mortos, pensando no longo suplício que estas almas viriam a sofrer, vieram ao tribunal em-trajos de luto e reclamaram vingança.

Cortesia de wikipedia

Nas cidades antigas a lei pune os grandes culpados- com um castigo desde sempre considerado terrível: a privação de sepultura. Punia-se-lhes assim a sua própria alma, infligindo-lhe um suplício quase eterno.
É preciso observar-se ter tido ainda aceitação entre os antigos outra crença sobre o destino dos mortos. Concebiam eles certa região, subterrânea também, mas infinitamente mais vasta do que túmulo, e na qual todas as almas, apartando-se dos seus corpos, vinham viver juntas, sendo as penas e as recompensas distribuídas segundo a conduta que o homem tivera durante a vida. Mas os rituais da sepultura, tais como acabamos de descrevê-los, surgem-nos em manifesto desacordo com estas outras crenças: prova certa de que na época em que esses ritos se estabeleceram não se acreditava ainda no Tártaro e nos Campos Elísios. O primeiro juízo formado por estas antigas gerações foi o de o ser humano viver no túmulo, a alma se não separar do corpo e se fixar naquela parte do solo onde estivessem enterrados os ossos. O homem não tinha nenhumas contas a prestar da sua vida anterior. Uma vez encerrado no túmulo, nada tinha a esperar, nem recompensas, nem castigos. Opinião certamente grosseira, mas a revelar, na sua infância, a noção de vida futura.
O ser que vive debaixo da terra não se encontra tão desprendido do humano que não tenha necessidade de alimento. Por isso, em certos dias do ano, se leva a refeição a cada túmulo». In A Cidade Antiga, Fustel de Coulanges, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1981.

Cortesia de LC Editora/JDACT

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

A Cidade Antiga. Estudo sobre o Culto, o Direito da Grécia e de Roma. «Por mais antigas que sejam estas crenças, delas nos ficaram testemunhos autênticos. Esses testemunhos estão nos ritos fúnebres, sobreviventes em muito às crenças primitivas, e, porque certamente nascidos com estas, podem portanto melhor fazer-no-las compreender»

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Crenças sobre a alma e sobre a morte
«Até aos últimos tempos da história da Grécia e da de Roma, vemos persistir entre o homem do povo determinado conjunto de pensamentos e de usos, por certo datando de época muito afastada, mas onde já poderemos reconhecer as ideias primitivas concebidas pelo homem quanto à sua própria natureza, a sua alma, sobre o mistério da morte.
Por muito que remontemos na história da raça indo-europeia, de que as populações gregas e italianas descendem, notamos não ter esta raça acreditado que tudo com a morte se acabasse para o homem, depois desta curta vida. As mais antigas gerações, muito antes ainda de existirem filósofos, criam já em uma segunda existência passada para além desta nossa vida terrena. Encaravam a morte, não como decomposição do ser, mas como simples mudança de vida.
Porém, em que lugar e de que maneira se viveria esta segunda existência? Acreditava-se que o espírito imortal, uma vez evadido do corpo, ia dar vida a um outro corpo? Não; porque a crença na metempsicose nunca conseguiu botar raízes nos espíritos das populações greco-italianas; não era essa também a crença seguida entre os antigos árias do Oriente, por os hinos dos vedas se lhe oporem. Cria-se em que o espírito subisse ao céu, para a região da luz? Também não, porque o pensamento de que as almas entravam em morada celeste é de época relativamente moderna no Ocidente; a habitação celeste apenas se considerava recompensa dada a alguns grandes homens e aos benfeitores da humanidade.
De harmonia com as mais antigas crenças dos italianos e dos gregos, não era em um outro mundo que a alma ia passar essa sua segunda existência; ficava perto dos homens, continuando a viver na terra, junto deles.

NOTA: ‘Sub terra consevant reliquam vitam agi mortuorum’, Cícero. Esta crença estava tão arreigada, acrescenta Cícero, que, mesmo quando se estabeleceu o uso de queimar os corpos, ainda então se continuou a crer em que os mortos mantivessem a vida debaixo da terra.

Acreditou-se mesmo, durante muito tempo, que nesta segunda existência a alma continuava associada ao corpo. Nascida com o corpo, a morte não os separava; alma e corpo encerravam-se juntamente no mesmo túmulo.

Cortesia de stgemma

Por mais antigas que sejam estas crenças, delas nos ficaram testemunhos autênticos. Esses testemunhos estão nos ritos fúnebres, sobreviventes em muito às crenças primitivas, e, porque certamente nascidos com estas, podem portanto melhor fazer-no-las compreender.
Os ritos fúnebres mostram-nos claramente como, quando se metia um corpo no túmulo, se acreditava em que, ao mesmo tempo, se metia lá alguma coisa com vida. Virgílio, descrevendo sempre com tanta precisão e escrúpulo as cerimónias religiosas, termina a sua narrativa dos funerais de Polidoro por estas palavras:
  • ‘Encerrámos a alma no túmulo’.
Igual expressão se encontra em Ovídio e em Plínio, o Moço; não queremos dizer tenha isto correspondido propriamente às ideias formadas por estes escritores sobre a alma, mas somente afirmar que, desde tempo imemorial, isto mesmo se perpetuara na linguagem, atestando deste modo crenças antigas e correntes.

NOTA: Virgílio: Animamque sepulcro condimus. Ovídio, Tumulo fraternas condidit umbras. Plínio: Manes rite conditi. A descrição de Virgílio refere-se ao uso dos cenotáfios; admitia-se que, quando se não pudesse encontrar o corpo de um parente, se fizesse certa cerimónia reproduzindo exactamente todos os ritos da sepultura e acreditava-se que se encerrava a alma no túmulo à falta do corpo.

No final da cerimónia fúnebre havia o costume de chamar por três vezes a alma do morto, e justamente pelo nome que este havia usado em vida. Faziam-se-lhe votos de vida feliz debaixo da terra. Dizia-se-lhe por três vezes: Passa bem. E acrescentava-se: "Que a terra te seja leve".
A tal ponto se acreditava em que o mesmo ser ia continuar a viver debaixo dessa terra e lá conservando o usual sentimento de bem-estar e de sofrimento! Escrevia-se sobre o túmulo a afirmar que homem ali repousava: costume que sobreviveu a estas crenças e que, transmitindo-se de século em século, chegou até os nossos dias. Empregamo-lo ainda, embora já hoje ninguém acredite que um ser imortal repouse no túmulo.

Mas na antiguidade supunha-se tão firmemente que o homem ali vivia sepultado que nunca se deixava de, juntamente com o homem, se enterrar os objectos de que se julgava viesse a ter necessidade, vestidos, vasos, armas. Derramava-se vinho sobre o seu túmulo para lhe mitigar a sede; deixavam-se-lhe alimentos para o apaziguar na fome. Degolavam-se cavalos e escravos, pensando que estes seres, encerrados com o morto, o serviriam no túmulo, como o haviam feito durante a sua vida. Depois da tomada de Tróia, os gregos regressaram ao seu pais, cada um deles conduzindo a sua bela cativa, e tendo Aquiles, morando já debaixo da terra, reclamando também a sua, deram-lhe Polixena.

Cortesia de mosaicosdosul

Um verso de Píndaro guardou-nos certo curioso testemunho destes pensamentos das gerações antigas. Frixos fora obrigado a deixar a Grécia e fugira para a Cólquida. Morreu neste país: mas embora morto queria regressar à Grécia. Apareceu então a Pélias e ordena-lhe que vá à Cólquida para de ali trazer a sua alma à Grécia. A sua alma sentia sem dúvida a saudade do solo pátrio, do túmulo da família; mas, vivendo ligada aos seus restos corporais, evidentemente que não poderia abandonar a Cólquida sem os trazer consigo.
Desta crença primitiva derivou para o homem a necessidade de uma sepultura. Para a alma se fixar na morada subterrânea destinada a esta segunda vida, impõe-se igualmente que o corpo, ao qual a alma está ligada, se cubra de terra. A alma que não tivesse o seu túmulo, não tinha morada. Era errante. Em vão aspiraria ao repouso que amava, depois das agitações e dos trabalhos desta vida; ficava condenada a errar sempre, sob a forma de larva ou de fantasma, sem jamais parar, sem nunca receber as oferendas e os alimentos de que tanto carecia. Desgraçada, cedo essa alma se tornaria malfazeja. Atormentaria então os vivos, enviando-lhes doenças, devastando-lhes as searas, atormentando-os com aparições lúgubres, para deste modo os advertir de que tanto o seu corpo como ela própria queriam sepultura». In A Cidade Antiga, Fustel de Coulanges, Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1981.

Cortesia de LC Editora/JDACT