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quarta-feira, 16 de março de 2011

Jaime de Maiorca. Jaffuda Cresques: A cartografia no tempo do Infante Navegador.

Cortesia de vallenajerilla 

 Jaime de Maiorca
«As notícias sobre a vinda, por iniciativa do Infante D. Henrique, de um cartógrafo chamado Jaime, oriundo da ilha de Maiorca, são-nos fornecidas por Duarte Pacheco Pereira. João de Barros ampliou as informações e atribui lhe também a capacidade de construir instrumentos náuticos.

A maioria dos historiadores, baseando se na investigação levada a cabo por Gonçalo Reparaz Filho, na década de 30 do século XX, considera que este Mestre Jaime de Maiorca seria o célebre cartógrafo maiorquino Jaffuda Cresques. Filho do não menos célebre cartógrafo, Abraham Cresques, Jaffuda teria nascido cerca de 1360. Devido à perseguição que foi movida contra os judeus de Maiorca converteu se ao cristianismo tendo mudado o seu nome para Jaime Ribes. Na década de 20 do século XV mudou se para Portugal ficando ao serviço de D. Henrique.

Investigações mais recentes levantam dúvidas sobre a identificação deste Mestre Jaime, referido por Pacheco Pereira, com o célebre Jaime Ribes. De acordo com a tese do catalão Jaume Riera Sans o cartógrafo que trabalhou para o Infante D. Henrique não poderia ser o tal Jaffuda Cresques pois este teria falecido antes de 1410, tendo neste ano o Infante apenas 16 anos.

Cortesia de asgrandesnavegamaritimas 
De qualquer modo, a crer nas palavras de Pacheco Pereira, e não existem razões para que não acreditemos, realmente existiu um Mestre Jaime, cartógrafo, oriundo da ilha de Maiorca, que teria estado ao serviço do Infante para transmitir os seus conhecimentos na arte da cartografia. E esta arte encontrava se bastante desenvolvida em todo o Mediterrâneo, portanto esse mestre teria transmitido aos Portugueses os mais avançados conhecimentos que na época se conheciam sobre o assunto». In António Costa Canas, Instituto Camões.
Bibliografia
ALBUQUERQUE, Luís de, “Maiorca, Jaime de”, in Joel Serrão, [dir.], Dicionário de Hsitória de Portugal, vol IV, Porto, Livraria Figueirinhas, [s.d.], p. 141.
MARQUES, Alfredo Pinheiro, “Maiorca, Jaime de”, in Luís de Albuquerque [dir.], Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses, vol II, Lisboa, Círculo de Leitores, 1994, pp. 649 651.

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

domingo, 18 de abril de 2010

Duarte Pacheco Pereira: Cosmógrafo. Um génio comparável a Leonardo da Vinci

Duarte Pacheco Pereira (1460-1533) foi um navegador, militar e cosmógrafo português. Nasceu em Lisboa (afirma-se ainda que em Santarém) e um dos seus antepassados de nome Diogo Lopes Pacheco, foi  um dos executores de Inês de Castro.
Duarte Pacheco foi cavaleiro da casa de D. João II. Contrariamente à tradição é pouco provável que tenha ido em 1482 a São Jorge da Mina, onde Diogo de Azambuja iniciava a construção do Feitoria de São Jorge da Mina. De acordo com a obra Décadas da Ásia, do cronista João de Barros, na viagem de retorno do cabo da Boa Esperança, em 1488, Bartolomeu Dias, encontrou-o gravemente doente na ilha do Príncipe.
Reconhecido geógrafo e cosmógrafo, em 7 de junho de 1494 assinou, na «qualidade de contínuo da casa do senhor rei de Portugal», o Tratado de Tordesilhas.
Em 1498, D. Manuel I encarregou-o de uma expedição secreta, organizada com o objectivo de reconhecer as zonas situadas para além da linha de demarcação de Tordesilhas, expedição que, partindo do Arquipélago de Cabo Verde, se acredita teria culminado com o descobrimento do Brasil, em algum ponto da costa entre o Maranhão e o Pará, entre os meses de Novembro e Dezembro desse mesmo ano. Dali, teria acompanhado a costa Norte, alcançando a foz do rio Amazonas e a ilha do Marajó.
Em relação ao descobrimento do Brasil ou da eventual exploração das Antilhas e parte da América do Norte, tendo em conta as revelações cartográficas contidas no Planisfério de Cantino, o autor apresenta informações no segundo capítulo da primeira parte. Resumidamente, o trecho relata:
«Como no terceiro ano de vosso reinado do ano de Nosso Senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além a grandeza do mar Oceano, onde é achada e navegada uma tam grande terra firme, com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela e é grandemente povoada. Tanto se dilata sua grandeza e corre com muita longura, que de uma arte nem da outra não foi visto nem sabido o fim e cabo dela. É achado nela muito e fino brasil com outras muitas cousas de que os navios nestes Reinos vem grandemente povoados». .«...que se estende a setenta graus de latitude contra o pólo árctico (...) e do mesmo círculo equinocial outra vez em vinte e oito graus de latitude contra o pólo antárctico».  
Esta é a famosa afirmação que fundamenta a opinião de muitos historiadores quando defendem que Duarte Pacheco Pereira teria sido precursor de Pedro Álvares Cabral, pois teria percorrido muitas léguas da costa americana, incluindo a brasileira.
Trata-se do primeiro roteiro de navegação português a mencionar a costa do Brasil e a abundância de pau-brasil (Caesalpinia echinata), nela existente. No Atlântico Sul, entre as ilhas oceânicas, apresenta, com suas «ladezas» (latitudes) conhecidas à época:
  • A ilha de Sam Lourenço (ilha de Fernando de Noronha);
  • A ilha d'Acensam (ilha da Trindade);
  • A ilha de S. Crara (ilha de Santana, ao largo de Macaé);
  • O cabo Frio.
Em 1503, comandou a nau Espírito Santo, integrante da esquadra de Afonso de Albuquerque à Índia. Ali guarneceu a Fortaleza de Cochim com 150 homens e onde sustentou vitorioso o cerco do Samorim de Calecute. Retornou a Lisboa em 1505. Nesta cidade e em todo o lado os seus feitos da Índia foram divulgados, sendo enviados ao Papa e a outros reis da cristandade. Foi como uma espécie de herói internacional que, nesse ano iniciou a redacção do Esmeraldo de situ orbis, obra que ele interrompeu para procurar e aniquilar o corsário francês Mondragon que actuava entre os Açores e a costa portuguesa, atacando as naus vindas da Índia. Duarte Pacheco localiza-o, em 1509, ao largo do cabo Finisterra, onde o derrotou e capturou.
Cortesia twcenter
«A experiência é a madre de todas as cousas, per ela soubemos redicalmente a verdade...». In Esmeraldo de Situ Orbis, p. 196

Em 1519 foi nomeado capitão e governador de São Jorge da Mina, onde serviu até 1522. A lenda de Duarte Pacheco Pereira desenvolveu-se após a sua morte. Luís de Camões, n'Os Lusíadas chama-lhe fortíssimo e Grão Pacheco Aquiles Lusitano. Mais tarde, no século XVII, Jacinto Cordeiro consagrou-lhe duas comédias bastante longas em castelhano e, Vicente Cerqueira Doce, um poema em dez cantos, de que se perdeu o rasto.
Principio do Esmeraldo «de situ orbis»
De acordo com um de seus mais importantes biógrafos, o historiador português Joaquim Barradas de CarvalhoDuarte Pacheco foi um génio comparável a Leonardo da Vinci. Com a antecipação de mais de dois séculos, o cosmógrafo foi o responsável pelo cálculo do valor do grau de meridiano com uma margem de erro de apenas 4%.
Wikipédia/JDACT

sábado, 17 de abril de 2010

Mestre José Vizinho: Cosmógrafo. O Empenho e Dedicação em prol dos Descobrimentos

Cortesia instituto-camoes
No reinado de D. João II a arte de navegar conheceu grandes desenvolvimentos, tendo para isso sido importante a contribuição da comunidade judaica residente no país. Tradicionalmente os judeus eram detentores de conhecimentos especializados nomeadamente ao nível da medicina e da astrologia, que na época andavam geralmente ligadas. Entre os membros daquela comunidade que se distinguiram nestes campos do conhecimento encontra-se Mestre José Vizinho. Médico da corte do Principe Perfeito estaria presente na altura em que aquele monarca faleceu.
No campo da náutica são conhecidas diversas contribuições de Vizinho. O desenvolvimento da navegação astronómica implicava a existência de tabelas preparadas pelos astrólogos para uso dos navegantes. Nos finais do século XV, um dos mais famosos textos desse género é o Almanach Perpetuum da autoria do astrólogo Abraão Zacuto, publicado originalmente em hebraico. Mestre José Vizinho foi o responsável pela tradução deste texto para latim e para castelhano. O facto de terem sido impressos em 1496, pouco após a introdução da técnica de impressão em Portugal, ilustram bem a importância posta na divulgação da informação neles contida. Esta importância é ainda realçada pelo facto de os textos traduzidos por Vizinho serem os únicos textos não hebraicos saídos da oficina do impressor, também ele judeu, Abraão Samuel Dortas.
Nos primeiros tempos em que se começou a praticar navegação astronómica utilizava se o quadrante e observava se a estrela Polar. No entanto, conforme se caminhava para sul aquela estrela ia ficando cada vez mais baixa desaparecendo quando se cruzava o Equador. Uma alternativa seria utilizar o Sol, visível todos os dias, pelo menos nas águas praticadas pelos portugueses. O primeiro problema que a utilização do astro rei apresenta é a variação da sua declinação ao longo do ano. No entanto, a resolução deste problema encontrava se nas já mencionadas tabelas com dados astronómicos presentes por exemplo no Almanach Perpetuum. A utilização do Sol para determinar a longitude implicava outras alterações à prática seguida anteriormente com a Polar. Em primeiro lugar, o instrumento usado, o quadrante, não era o mais adequado para observar o Sol, pois implica o seu uso olhar directamente para o astro, o que implicava o encandeamento do observador. A solução passaria pela adaptação de um instrumento usado há muito tempo pelos astrólogos, o astrolábio, que permitia medir a altura do astro sem ser necessário olhar directamente para ele.
Além disso, era necessário desenvolver regras apropriadas ao cálculo da latitude. Estas regras deveriam ser testadas e, ao mesmo tempo, convinha conhecer o valor daquela coordenada para a maior parte dos locais praticados pelos Portugueses na época.
«Ainda no reinado D. João II, Mestre José foi enviado para a região da Guiné, na companhia de outro médico astrólogo, Mestre Rodrigo, com o objectivo de adaptar o astrolábio para as necessidades dos navegantes e de estabelecer as regras necessárias ao uso do Sol para conhecimento da latitude. Esta missão foi fundamental para o conhecimento das condições de navegação naquela região e para o progresso das navegações para Sul, conforme nos relatam os cronistas da época. Diversos historiadores consideraram que ele teria feito parte da famosa Junta de Matemáticos criada pelo Príncipe Perfeito. A dita junta, enquanto tal, nunca existiu, no entanto o facto de ele ser considerado um dos seus membros ilustra bem a excelência dos seus conhecimentos a nível da astrologia, especialmente no que se refere à sua utilização pelos homens do mar». In António Costa Canas.

Mestre José Vizinho, natural de Viseu, embora uma personalidade praticamente desconhecida entre os viseenses, também conhecido como Mestre José ou Mestre José Judeu, por ser de origem judaica, tornou-se num vulto notável do século XV pelo contributo prestado à gesta dos descobrimentos. Médico, astrónomo e matemático privou com personalidades como Cristóvão Colombo e João de Barros, também viseense, e acompanhou D. Fernando, o Infante Santo, no seu período da cativeiro no Norte de África, não o abandonando, apesar de ter em sua posse uma carta de seguro que lhe permitiria voltar; mesmo assim, acompanhou o cativo na transferência de Arzila para Fez, em 25 Maio de 1438, que fatalmente terminaria na alvorada de 25 de Outubro de 1495.
Homem de particular firmeza, cativou a confiança do rei, D. João II, sendo convidado por este a tomar lugar na chamada Junta de Matemáticos ou Cosmógrafos, conjuntamente com D. Diogo Ortiz, o bispo de Ceuta e mais tarde bispo de Viseu, e mestre Rodrigo, que à sua semelhança desempenhava a função de médico e astrónomo. Esta Junta, cujo objectivo tinha por base o estudo de problemas de navegação astronómica, nunca terá existido, como defende Luciano Pereira da Silva. No entanto, é incontestável que José Vizinho tenha desempenhado uma distinta actividade náutica, pois ficou reconhecido pelo facto de ter traduzido o Almanach Perpetuum, obra de Abraão Zacuto, escrita originariamente em hebraico e traduzida na sua totalidade, pelo seu discípulo, para latim, e a sua introdução ainda para castelhano («cânones»). Esta obra terá sido publicada por Abraão Ortas em Leiria, à cerca de 500 anos: «sub coelo leirea». Muitas foram as obras sobre astrologia escritas não apenas por judeus como por árabes, alvo de traduções encomendadas por príncipes e grandes senhores. A astrologia, segundo Luís de Albuquerque, apesar de ser condenada por teólogos ortodoxos, que pretendiam restringir a actividade desta prática, esta era vista todavia, também, como algo útil e indispensável ao exercício da medicina. Deste modo, a presença de médicos - astrólogos nas cortes era vista com bons olhos . Muitos seriam os reis ou senhores, que à semelhança dos contemporâneos , ambicionavam desvendar os presságios reservados no futuro. Muitos médicos e astrónomos de origem judaica e hebraica, que serviram em território português, ficaram na História. José Vizinho, é apenas um exemplo que, quer pela sua conduta humana, quer científica fora distinguido e protectorado pelo rei.

Devemos a esta figura viseense, assim como a mestre Rodrigo, já referenciado, os primeiros trabalhos na adaptação das regras de astrologia náutica; foi a partir então, da obra de Abraão Zacuto - Almanach Perpetuum que desenvolveram esta outra forma de navegação, ajudando deste modo os mareantes portugueses no avanço para sul, elaborando tábuas com as coordenadas celestes do sol necessária ao calculo de latitudes: «os quaes acháram esta maneira de navegar per altura do Sol, de que fizeram suas taboadas pera declinação delle, como se ora usa entre os navegantes, já mais apuradamente do que começou, em que se viam estes grandes astrolábios de páo» (João de Barros, Ásia, Década I, livro IV, cap.II) . Apesar deste facto, devemos também aferir que, João de Barros, cronista da época, atribui um papel conjunto de colaboração com Martinho da Boémia. No entanto, podemos aferir com segurança que a origem das tábuas usadas pelos marinheiros lusitanos no primeiro século de navegação astronómica foi o Almanach Perpetuum. A determinação de latitudes por alturas meridianos do sol foi um problema estudado por Rodrigo e Vizinho, sendo provavelmente os redactores da primeira versão do regimento expressa no exemplar de Munique.

Através de uma nota manuscrita que, felizmente chegou até nós, escrita provavelmente às mãos de Colombo ou do seu irmão Bartolomeu que, «o sereníssimo rei de Portugal enviou à Guiné, no ano de 1485, mestre José, seu físico e astrólogo, para saber a altura do Sol em toda a Guiné». Foram os seus conhecimentos em astronomia que levariam o rei a tomar a decisão de enviá-lo à Guiné, na companhia de mestre Rodrigo. Aí os dois realizaram observações que permitiriam o aperfeiçoamento do astrolábio, para que desta forma os navegadores portugueses pudessem avançar para sul, navegando através da náutica astronómica, já efectuada no hemisférico Norte, mas que após a linha do equador, e uma vez perdida de vista a estrela polar (o seu guia), era necessário algo que os orientasse. As observações realizadas por Vizinho e Rodrigo, foram de primordial importância, para o avanço no Atlântico Sul, permitindo mais tarde a dobragem do Cabo das Tormentas e, a consequente abertura entre os mares do Atlântico e do Índico.

Como conselheiro do rei, em assuntos de navegação astronómica e na própria concepção do globo, Mestre José terá sido consultado aquando Cristóvão Colombo propôs ao rei, D. João II, chegar ao Japão navegando por Ocidente. Apesar da opinião desfavorável, Vizinho não deixa por isso, de ser uma figura fulcral para o êxito dos Descobrimentos portugueses.
O lançamento de A Matemática no Tempo do Mestre José Vizinho, livro coordenado por António Costa Canas e Maria Eugénia Ferrão. Câmara Municipal da Covilhã. A mais recente obra dos «Temas de Matemática», uma colecção SPM/Gradiva.

A importância de Mestre Vizinho, pelo seu empenho e dedicação em prol dos Descobrimentos, levou ao geógrafo inglês Clements Markham, a afirmar numa conferência proferida em Londres que, «Todo o trabalho realizado desde o cálculo das tábuas de declinação de Zacuto e a preparação do admirável Regimento por mestre José, até à memorável observação de Vasco da Gama, foi puramente português sem qualquer auxílio externo».
Mestre José Vizinho é, apesar de tudo uma figura que marcou pelo esforço que dedicou, para que o sonho português fosse possível: chegar às Índias.
Cortesia spm/JDACT