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domingo, 6 de julho de 2014

The Shadows. Instrumental. Adolescência / Juventude. «E os telhados de Lisboa têm tábuas de chão e asas de silêncio atravessam o rio. Passeei contigo na solidão dos assentos etéreos dos amantes mal amados»

jdact e wikipedia

Era o Mar
«Era o mar límpido e movente
as pedras rasgadas por séculos de bater
há quanto não via o mar fascinante mover
salgada maresia no corpo deslizante
meu corpo deslizante para uma próxima dormência.
Eterna dormência que já sinto pesar
e há quanto tempo o mar foi
meu relógio de água, clepsidra para o fogo
futuro de uma justiça desejada movimento de maré
constante, comandado pela lua pálida mas forte no seu querer…».


JDACT

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Poema. Recordação. Outros tempos... Fernando José. Filomeno Borges. «Ontem apenas fomos o povo a chorar na sarjeta dos que, à força, ultrajaram e venderam esta terra, hoje nossa»

jdact

Somos Livres
Ontem apenas
fomos a voz sufocada
dum povo a dizer não quero;
fomos os bobos-do-rei
mastigando desespero.

Ontem apenas
fomos o povo a chorar
na sarjeta dos que, à força,
ultrajaram e venderam
esta terra, hoje nossa.

Uma gaivota voava, voava,
assas de vento,
coração de mar.
Como ela, somos livres,
somos livres de voar.

Uma papoila crescia, crescia,
grito vermelho
num campo qualquer.
Como ela somos livres,
somos livres de crescer.

Uma criança dizia, dizia
"quando for grande
não vou combater".
Como ela, somos livres,
somos livres de dizer.

Somos um povo que cerra fileiras,
parte à conquista
do pão e da paz.
Somos livres, somos livres,
não voltaremos atrás.
Ermelinda Duarte


JDACT

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A Voz. O Talento. Simone de Oliveira. «É milho-rei, milho vermelho, cravo de carne, bago de amor, filho de um rei que sendo velho, volta a nascer quando há calor»

Cortesia de wikipedia


Desfolhada
Corpo de linho
lábios de mosto
meu corpo lindo
meu fogo posto.
Eira de milho
luar de Agosto
quem faz um filho
fá-lo por gosto.
É milho-rei
milho vermelho
cravo de carne
bago de amor
filho de um rei
que sendo velho
volta a nascer
quando há calor.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
Minha raiz de pinho verde
meu céu azul tocando a serra
oh minha água e minha sede
oh mar ao sul da minha terra.
É trigo loiro
é além tejo
o meu país
neste momento
o sol o queima
o vento o beija
seara louca em movimento.
Minha palavra dita à luz do sol nascente
meu madrigal de madrugada
amor amor amor amor amor presente
em cada espiga desfolhada.
Olhos de amêndoa
cisterna escura
onde se alpendra
a desventura.
Moira escondida
moira encantada
lenda perdida
lenda encontrada.
Oh minha terra
minha aventura
casca de noz
desamparada.
Oh minha terra
minha lonjura
por mim perdida
por mim achada.

Poema de Ary dos Santos


JDACT

terça-feira, 31 de julho de 2012

A Bela Poesia. O meu Dia. Recordar. «… Chamo aos gritos por ti, não me respondes. Beijo-te as mãos e o rosto, sinto frio. Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes por detrás do terror deste vazio»



jdact

In Memoriam de MLAC e JLT

Testamento do Poeta

Todo esse vosso esfoo é vão, amigos:
Nnão sou dos que se aceita... a não ser mortos.
Demais, já desisti de quaisquer portos;
o peço a vossa esmola de mendigos.

O mesmo vos direi, sonhos antigos
de amor! olhos nos meus outrora absortos!
Corpos já hoje inchados, velhos, tortos,
que fostes o melhor dos meus pascigos!

E o mesmo digo a tudo e a todos, - hoje
que tudo e todos vejo reduzidos,
a ao meu próprio Deus nego, e o ar me foge.

Para reaver, porém, todo o Universo,
a amar! e crer! e achar meus mil sentidos!....
Basta-me o gesto de contar um verso.

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'


Mãe
Mãe:
que desgraça na vida aconteceu,
que ficaste insensível e gelada?
Que todo o teu perfil se endureceu
numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa
cansada de palavras e ternura,
assim tu me pareces no teu leito.
Presença cinzelada em pedra dura,
que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti — não me respondes.
Beijo-te as mãos e o rosto — sinto frio.
Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes
por detrás do terror deste vazio.

Mãe:
Abre os olhos ao menos, diz que sim!
Diz que me vês ainda, que me queres.
Que és a eterna mulher entre as mulheres.
Que nem a morte te afastou de mim!

Miguel Torga, in 'Diário IV'

JDACT

quarta-feira, 4 de abril de 2012

In Memoriam a Fernando José. «… dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno»


 
(1944-4 de Abril de 1992)
Cortesia do expresso

In Memoriam a Fernando José.

Deixai que a Vida sobre Vós Repouse
Deixai que a vida sobre vós repouse
qual como só de vós é consentida
enquanto em vós o que não sois não ouse

erguê-la ao nada a que regressa a vida.
Que única seja, e uma vez mais aquela
que nunca veio e nunca foi perdida.

Deixai-a ser a que se não revela
senão no ardor de não supor iguais
seus olhos de pensá-la outra mais bela.

Deixai-a ser a que não volta mais,
a ansiosa, inadiável, insegura,
a que se esquece dos sinais fatais,

a que é do tempo a ideada formosura,
a que se encontra se se não procura.

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Cantar do Amigo Perfeito
Passado o mar, passado o mundo, em longes praias,
de areia e ténues vagas, como esta
em que haverá de nossos passos a memória
embora soterrada pela areia nova,
e em que sobre as muralhas quanta sombra
na pedra carcomida guarda que passámos,
em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas esta, ó meu amigo?

Aqui passeámos tanta vez, por entre os corpos
da alheia juventude, impudica ou severa,
esplêndida ou sem graça, à venda ou pronta a dar-se,
ido na brisa o sol às mais sombrias curvas;
e o meu e o teu olhar guiando-se leais,
de nós um para o outro conquistando
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó meu amigo?

Também aqui relembro as ruas tenebrosas,
de vulto em vulto percorridas, lado a lado,
numa nudez sem espírito, confiaa
tranquila e áspera, animal e tácita,
já menos que amizade, mas diversa
da suspeição do amor, tão cauta e delicada
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda as recordas, diz, ó meu amigo?

Também aqui, sorrindo em branda mágoa,
desfiámos, sem palavras castamente cruas,
não já sequer os íntimos segredos
que o próprio amor, porque ama, não confessa,
nem a vaidade humana dos sentidos, mas
subtis fraquezas vis, ingénuas e secretas
- em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
ainda recordas, diz, ó amigo?

Partiste e foi contigo a juventude.
Ficou o silêncio adulto, pensativo e pródigo,
e o terror de não ser minha estátua jacente
sobre o túmulo frio onde as cinzas da infância
desmentem - palpitar de traiçoeira fénix! -
que só do amor ou só da terra haja saudade.
Em longes praias, outras nuvens, outras vozes,
tu sabes que a levaste, ó meu amigo?

Poemas de Jorge de Sena, in ‘As Evidências’ e ‘Pedra Filosofal

Sempre com amizade. Dá um abraço ao F. de J.
JDACT

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Feliciano Falcão. Memória Viva: «...Depois, era a Festa da Senhora da Penha: com a irmã, as duas de saia cinzenta às preguinhas e camisas de seda com botões de pérola, de mãos dadas com o pai, a tropeçarem nas pedras soltas do caminho que levava à ermida.»

(1911-1988)
Portalegre
Cortesia de edicoescolibri-cmdeportalegre

Com a devida vénia e amizade a MJFalcão e António Ventura.

A Morte do Pai
«Iam a pé, devagar, seguindo o carro, em direcção ao cemitério. Era um fim de manhã de Agosto, o ar sufocante, o céu azul do Alentejo, parado, lá no alto. Juntara-se muita gente, velhas de negro com olhos cheios de outros mortos, mulheres, homens pensativos, rapazes e raparigas, sérios, de olhos baixos. Imaginava?

Cortesia de picasa
Talvez. Como ele gostaria de saber que tinham vindo acompanhá-lo, ele que amava tanto a juventude!
Era levada pela multidão, agora o ombro de uma amiga a ampará-la, a mão apertada da irmã, o beijo da outra irmã, depois o braço do filho a agarrar o seu com força, silencioso e presente, olhos escondidos detrás dos óculos escuros.
«Sabes, o avô é o meu ídolo», dissera um dia.
Não pusera luto e escolhera uma gravata azul de seda. Lá longe, a imagem da filha, e nos braços o seu pedido:

Cortesia de sempretops 
«Leva onze rosas vermelhas ao avô... ». Não eram onze, eram as poucas rosas vermelhas de Agosto, roubadas no jardim. Levava-as chegadas ao peito, enredadas no ramo selvagem que, de madrugada, colhera à volta da casa onde o pai vivera.

A noite passara-a ao lado da caixa escura em que, de vez em quando, pousava a mão sem sentir nada, batia com os dedos a chamá-lo, baixinho, e a saber que não podia estar ali e que se fora embora, para sempre. Rostos desconhecidos passavam em frente, vagos murmúrios, mãos que apertavam a sua. E a solidão. O pasmo de não querer aceitar aquela morte. Depois, foram ficando os velhos amigos, as criadas tristes, vestidas de escuro, apertando as malinhas, torcendo lenços. E a irmã mais velha que se agitava, se agitava, a falar para todos os lados, sem conseguir ter paz. A outra irmã levara a mãe para a casa da serra. A mãe, pequenina, frágil e perdida. À volta, as flores, no chão, as fitas de cores tristes, vozes de amigos, o adeus, «amigo, tu lá vais...», lá fora. E a noite negra, as estrelas pequeninas e a manhã a nascer, indiferente. A cidade branca dormia recortada no azul de metileno que lhe gelava o peito. As torres da sé dum lado, o castelo do outro e os pinheiros a subirem pela encosta.

Cortesia de fotoseimagens
De manhãzinha, tinha voltado à casa, que lhe parecera vazia. Tremia, nessa manhã de Agosto, a cara molhada e os olhos – doíam-lhe - fixos nas coisas que ele amara. E arranjara o ramo que agarrava com força, com as rosas, que a picavam. Arranhara-se a colher o botão de rosa amarela, ainda fresca, o fruto vermelho do medronheiro, uma laranja que não chegara a crescer, as flores humildes e, da azinhaga, um malmequer branco. As coisas simples que o pai soubera amar. Como se nesse ramo pudesse fixar para sempre o que os olhos dele tinham visto, como se acreditasse que pudesse levar, ali, uma lembrança da vida. Passavam agora na Corredora. Em baixo, o jardim, os chorões debruçados sobre o lago dos peixes encarnados. Existiria ainda o banco do José Duro?

Cortesia de avozportalegrense

Cortesia de alvaromendes
Um turbilhão de imagens coloridas. A música frenética do carrossel:
«Papá, posso ir na girafa?».
As barracas da feira cheias de luzes e de sorrisos, os palhaços no circo, às cambalhotas, ela a rir, a rir, os trapézios a voar. Palmas, palmas...

As festas dos santos populares, elas e o pai corriam os altares, desde a Rua da Mouraria ao Corro, onde estava uma orquestra e havia baile. Depois, era a Festa da Senhora da Penha: com a irmã, as duas de saia cinzenta às preguinhas e camisas de seda com botões de pérola, de mãos dadas com o pai, a tropeçarem nas pedras soltas do caminho que levava à ermida. O São Cristóvão e a escadaria até, ao alto, a Festa dos Aventais, nos Olhos d'Água e, sempre, o pai. A Senhora d'Alegria, em Alegrete, e lá estavam sentadas nos joelhos do pai e a pequenina ao colo da mãe. E os foguetes, a música, o cheiro dos bolos, o brilho nos olhos das pessoas, o sono.

Cortesia de avozportalegrense
Às esquinas, os homens tiravam o chapéu:
«Não sabia que tinha morrido o senhor doutor...».
Passavam em frente do liceu, o velho liceu da sua infância, da sua adolescência. E voltava a bater-lhe o coração. Ali se apaixonara. Naquele pátio. Cortara-se num vidro, a perna sangrava:
«Papá, vai-me doer?».
«Não dói nada, vais ver», e dois agrafos fecharam, delicadamente, a ferida.

Um dia de Natal. A dor, o medo:
«Papá, vou ser operada?».

Cortesia de pbase
Os dedos a segurarem-lhe o pulso, os olhos preocupados, a espreitarem o relógio, e a voz a tranquilizá-la:

«Não, está a passar... Não tenhas medo».

Adormecia, a dor passara.
As férias. A praia. As conchinhas cor-de-rosa e minúsculas de São Torpes, a mãe de vestido amarelo às flores, na água límpida até aos joelhos, o mar a perder de vista como a sua planície. O pai de fato de linho branco, sem tirar os sapatos, num banquinho, ao pé do toldo, a ler, sem ver o mar. O campo. A borboleta enorme, de asas douradas e castanhas.
«Venham ver... Não lhe toquem!...».

E a borboleta voava, voava. A gaiola do grilo que comprara no mercado e depois iria soltar nos campos amarelos. As calhandras, os cucos, os milhafres, o rouxinol. O canto do rouxinol, que ele lhe ensinara a reconhecer. O rouxinol que ouvira uma noite, lá longe, que parecia chamá-la e por isso viera ainda vê-lo antes de morrer.

Cortesia de labacm
O hospital. Lá fora, a cidade branca numa manhã de Maio. O céu azul, algumas nuvens. E as torres da Sé, à direita, o castelo, à esquerda e os pinheiros a treparem pela serra.
As andorinhas cortavam o céu, corriam, volteavam em frente da janela.
«Gostei muito que tivesses vindo. Gosto tanto de te ver...».
Era a última vez e os dois sabiam.
A cidade branca enevoava-se-lhe, as andorinhas já lá não estavam.
«Também eu. Papá…».

Cortesia de flickr
Entraram no cemitério. Os netos pegaram no caixão. Cinco, que a dor fizera crescer de repente. Eram cinco homens que levavam aos ombros o fim da infância. O esquife desceu, e a terra, as pedras, começaram a bater na madeira. As rosas vermelhas, o ramo selvagem, as flores serviram-lhe de leito. Ali ficou, coberto de restos. Olhou em frente, para lá dos ciprestes, e viu as terras douradas ao sol do meio-dia, a perderem-se no horizonte. Viu a planície sem fim. Baixou os olhos para o que cobria tudo. Nunca mais». In A morte do Pai, MJFalcão, Feliciano Falcão-Memória Viva, Edições Colibri e CMPortalegre, ISBN 972-772-440-X, 2003.

Cortesia de Edições Colibri/CMPortalegre/JDACT