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terça-feira, 20 de dezembro de 2016

Os Passos Perdidos. Alejo Carpentier. «E já me livrara de quem regressava dos estádios mimando os jogos nas suas discussões, quando umas gotas geladas me salpicaram as mãos»

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«(…) Do asfalto das ruas emanava um calor azulado de gasolina, atravessado por vapores químicos, que estagnava em pátios fedendo a detritos, onde algum cão arquejante se estirava como se fosse um coelho esfolado, para encontrar canteiros de frescura na mornidão do pavimento. O carrilhão martelava uma avé-maria. Tive a insólita curiosidade de saber que santo se festejava nessa data: 4 de Junho. São Francisco Caracciolo, dizia a edição vaticana por onde eu estudara outrora os hinos gregorianos. Totalmente desconhecido para mim. Procurei o livro da Vida dos Santos, impresso em Madrid, que a minha mãe me lera vezes sem conta, no meu país, durante as ditosas enfermidades da infância que me livraram de frequentar a escola. Nada constava de Francisco Caracciolo. Mas encontrei algumas páginas com os seguintes títulos piedosos: Rosa recebe visitas do céu; Rosa luta contra o diabo; O fenómeno da imagem que sua. E uma guirlanda festonada, em que se misturavam palavras latinas: Sanctae Rosae Limanae, Virginis, Patronae principalis totius Americae Latinae. E esta estrofe da santa, apaixonadamente dedicada a seu Esposo: Ai de mim! Ao meu amado quem o detém? Tarda, é meio-dia, e ele que não vem.
Um travo amargo fincou-se-me na garganta ao evocar através das palavras da minha infância tantas recordações acumuladas. Decididamente, estas férias amoleciam-me. Bebi o que restava do xerez e fui novamente para a janela. As crianças que brincavam debaixo dos quatro abetos poeirentos do Parque Modelo abandonavam por vezes os seus castelos de areia cinzenta para olharem com inveja um grupo de fedelhos metidos na água de um tanque municipal, nadando entre pedaços de jornais e pontas de cigarros. Isso sugeriu-me a ideia de ir até a uma piscina fazer algum exercício. Não era nada aconselhável ficar em casa sozinho. Porém, ao procurar o fato de banho, que não encontrei nos armários, ocorreu-me que seria mais saudável apanhar um comboio e descer onde houvesse bosques, para assim respirar um pouco de ar puro. Dirigia-me já para a estação do caminho-de-ferro, quando me detive frente ao Museu onde se inaugurava uma grande exposição de arte abstracta, anunciada por móbiles suspensos de mastros, cujos cogumelos, estrelas e laços de madeira giravam num ar impregnado de cheiro a verniz. Preparava-me paru subir a escadaria quando reparei que o autocarro do Planetarium, cuja visita, de repente, me pareceu extremamente necessária, para sugerir ideias a Mouche acerca da nova decoração do seu estúdio, estacionava ali mesmo ao pé. Mas como estava muito demorada a sua partida, acabei por andar de um lado para o outro, aturdido com tantas opções, parando na primeira esquina para seguir os desenhos traçados sobre o passeio, com giz de cor, por um estropiado com o peito coberto de medalhas militares. Quebrado o desenfreado ritmo dos meus dias, liberto, por três semanas, da empresa alimentar que me comprara já vários anos de vida não sabia em que empregar esse tempo de lazer. Estava como que doente do meu súbito repouso, desorientado em ruas conhecidas, indeciso perante desejos incompletos. Tinha vontade de comprar a Odisseia, ou os últimos romances policiais, ou as Comédias Ameríndias de Lope expostas na montra da Brentano's, para voltar a encontrar-me, ainda que só pudesse multiplicar e somar em espanhol (contando pelos dedos), com a língua que deixara de falar. Mas havia também o Prometeu Libertado, que me afastou rapidamente dos livros, pois o seu título estava demasiado ligado ao velho projecto de uma composição que, depois de um prelúdio rematado por um grande coral de metais, não passara, no recitativo inicial de Prometeu, do soberbo grito de revolta.
Na verdade, o ter tempo disponível para olhar as montras das lojas, depois de um afastamento de meses, tornava-as da maior importância para mim. Podia ver-se, aqui, um mapa de ilhas rodeadas de galeões e rosas-dos-ventos; mais adiante, um tratado de organografia: acolá, um retrato de Ruth, reluzindo de diamantes emprestados, para a propaganda de um joalheiro. A recordação da sua viagem produziu-me uma repentina irritação: era ela, na realidade, quem eu perseguia agora; a única pessoa que eu desejava ter a meu lado, nesta tarde sufocante e enevoada, cujo céu escurecia por detrás da monótona agitação dos primeiros anúncios luminosos. Porém, uma vez mais, interpunham-me um texto, um palco, uma distância, uma vez mais, entre os nossos corpos, que já não voltavam a encontrar, no Convívio do Sétimo Dia, a alegria das primeiras relações. Era ainda muito cedo para ir a casa de Mouche. Fatigado de ter de escolher um caminho entre a multidão que caminhava em sentido contrário, rasgando papéis prateados ou descascando laranjas com os dedos, desejei um sítio onde houvesse árvores.
E já me livrara de quem regressava dos estádios mimando os jogos nas suas discussões, quando umas gotas geladas me salpicaram as mãos. Ao fim de algum tempo cuja medida me escapara, agora, por causa da aparente brevidade do seu percurso num processo de dilatação e de recorrência que então me fora insuspeitável, recordo essas gotas caindo sobre a minha pele em alfinetadas deliciosas, como se fossem a primeira advertência, ininteligível para mim, na altura, do encontro. Encontro trivial, de certo modo, como são, aparentemente, todos os encontros cujo verdadeiro significado só se revelará mais tarde, na trama das suas consequências... Devemos procurar o começo de tudo isto, seguramente, na nuvem que se desfez em chuva naquela tarde, com tão inesperada violência que os trovões pareciam chegados de outra latitude». In Alejo Carpentier, Os Passos Perdidos, 2008, tradução de António Santos, Saída de Emergência, 2010,m ISBN 978-989-637-244-6.
           
Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Os Passos Perdidos. Alejo Carpentier. «Caíramos na era do Homem-Vespa, do Homem-Ninguém, onde as almas não se vendiam mais ao Diabo, mas ao Contabilista ou ao Carcereiro. Compreendendo que toda a revolta era vã»

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«(…) Estava longe do aturdimento e da confusão dos estúdios, num silêncio que não era quebrado por músicas mecânicas nem vozes amplificadas. Nada me afligia e, talvez por isso mesmo, sentia-me objecto de uma vaga ameaça. Nesse quarto abandonado, onde o perfume revelava ainda uma presença, encontrava-me como que desconcertado pela possibilidade de dialogar comigo mesmo. Surpreendia-me falando-me a meia-voz. Novamente deitado, olhando o tecto, rememorava os últimos anos passados: via-os rolar do Outono à Primavera, do vento gelado ao amolecimento do asfalto, sem ter tempo de os viver, sabendo, repentinamente, pelos anúncios de um restaurante nocturno, do regresso dos patos selvagens, do bom estado das ostras, ou do reaparecimento das castanhas. Sabia, às vezes, também, da passagem das estações pelos sinos de papel vermelho em exposição nas vitrinas das lojas, ou pela chegada de camiões carregados de pinheiros cujo perfume deixava a rua como que transfigurada durante uns segundos. Havia enormes lacunas de semanas e semanas na crónica da minha vida; períodos que não me deixavam qualquer recordação que valesse a pena, alguma marca de excepcional sensação, alguma emoção duradoira; dias em que todos os gestos me causavam a obsessiva impressão de os ter feito já em circunstâncias idênticas, de me ter sentado no mesmo recanto, de ter contado a mesma história, olhando o veleiro aprisionado no cristal de um pisa-papéis. Quando se festejava o meu aniversário no meio das mesmas caras, nos mesmos lugares, com a mesma canção repetida em coro, assaltava-me invariavelmente a ideia de que ele não diferia do aniversário anterior a não ser pelo aparecimento de mais uma vela sobre um bolo cujo gosto era igual ao precedente. Subindo e descendo a encosta dos dias, com a mesma pedra aos ombros, sustinha-me por meio de um impulso adquirido à força de paroxismos, impulso esse que cederia mais tarde ou mais cedo, a uma data que talvez figurasse no calendário do ano em curso. Mas evadir-me disso, no mundo que o destino me reservara, era tão impossível como tentar reviver, na época actual, certas gestas santas ou heróicas. Caíramos na era do Homem-Vespa, do Homem-Ninguém, onde as almas não se vendiam mais ao Diabo, mas ao Contabilista ou ao Carcereiro. Compreendendo que toda a revolta era vã, após um desenraizamento que me fez viver duas adolescências, a que ficava do outro lado do mar e a que aqui se encerrara, não via onde encontrar alguma liberdade fora da desordem das minhas noites, em que tudo era um bom pretexto para me entregar aos mais reiterados excessos. A minha alma diurna estava vendida ao Contabilista, pensava eu, escarnecendo de mim próprio; mas o Contabilista ignorava que, de noite, eu empreendia estranhas viagens pelos meandros de uma cidade invisível para ele, cidade dentro da cidade, com moradas para esquecer o dia, como o Venusberg e a Casa das Constelações, quando um vicioso desejo, avivado pelo álcool, não me levava aos secretos apartamentos, onde o nome se perde ao entrarmos lá. Subjugado à minha técnica, entre relógios, cronógrafos, metrónomos, em salas sem janelas, revestidas de feltros e matérias isolantes, sempre iluminadas com luz artificial, procurava, instintivamente, quando me encontrava todas as tardes na rua já anoitecida, os prazeres que me faziam esquecer a passagem das horas. De costas para os relógios, bebia alegremente, até cair de borco ao pé de um despertador, invadido por um sono que eu procurava adensar colocando sobre os olhos uma mascarilha negra que me daria, adormecido, um ar de Fantomas em repouso... Esta cómica imagem pôs-me de bom humor. Emborquei um grande copo de xerez, decidido a aturdir a voz da razão que se levantava na minha consciência; tendo recuperado, com este vinho, o calor que o álcool me comunicara na véspera, pus-me à janela do quarto de Ruth, cujos perfumes começavam a recuar perante um persistente odor de acetona. Depois dos cabelos grisalhos entrevistos ao despertar, chegara o Verão, escoltado por sirenes de navios que se respondiam de rio a rio por cima dos edifícios. Lá no alto, entre as evanescências de uma bruma morna, eram os píncaros da cidade: as agulhas sem pátina das igrejas cristãs, a cúpula da igreja ortodoxa, as grandes clínicas onde ficavam Eminências Brancas, sob os travejamentos clássicos, demasiado escorados por causa da altura, daqueles arquitectos que, em princípios do século, perderam o sentido dos estilos. Maciça e silenciosa, a agência funerária de infinitos corredores parecia uma réplica em cinzento, com a sua sinagoga e sala de concertos ao centro, da imensa Maternidade, cuja fachada, despida de qualquer ornamento, tinha uma fileira de janelas todas iguais, que eu costumava contar aos domingos, da cama da minha mulher quando os temas de conversa escasseavam». In Alejo Carpentier, Os Passos Perdidos, 2008, tradução de António Santos, Saída de Emergência, 2010,m ISBN 978-989-637-244-6.
           
Cortesia de SEmergência/JDACT

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Os Passos Perdidos. Alejo Carpentier. «Silêncio é palavra do meu vocabulário. Tendo trabalhado a música, usei-o mais do que os homens de outros ofícios. Sei como se pode especular com o silêncio, (sempre cdu…) como se pode medi-lo e enquadrá-lo»

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«(…) Dantes, pelo menos, tentava manter a sua forma por uma contínua releitura dos grandes papéis que sempre desejara interpretar. Passava de Norah a Judith, de Medeia a Teza, com uma renovada ilusão; porém, essa ilusão fora vencida, finalmente, pela tristeza dos monólogos declamados frente ao espelho. Na impossibilidade de fazer coincidir normalmente as nossas vidas, as horas da actiz não são as do empregado, acabámos por dormir cada um em seu lado. Ao domingo, pelo fim da manhã costumava passar uns momentos na sua cama, cumprindo com o que eu considerava um dever de esposo, sem saber, no entanto, se na realidade esse meu acto correspondia a um verdadeiro desejo de Ruth. Era provável que ela, por sua vez, se julgasse obrigada a entregar-se a essa prática física semanal em virtude de uma obrigação contraída no momento da assinatura do nosso contrato matrimonial. Eu, por meu lado, agia impulsionado pela ideia de que não devia ignorar a possibilidade de uma necessidade que me era dado satisfazer, calando assim, por uma semana, certos escrúpulos de consciência. O certo era que esse amplexo, ainda que maquinal, voltara a apertar, uma vez mais, os laços frouxos pela divergência das nossas actividades. O calor do corpo restabelecia uma certa intimidade, que era como um breve regresso ao que fora nos primeiros tempos a nossa casa.
Regávamos o gerânio esquecido desde o domingo anterior; mudávamos um quadro de lugar; fazíamos as contas dos gastos domésticos. Porém, os sinos de um carrilhão vizinho advertiam-nos de que a hora da reclusão era chegada. E ao deixar a minha mulher no palco, ao princípio da tarde, tinha a impressão de a devolver a uma prisão onde cumprisse uma condenação perpétua. Ouvia-se o disparo, o falso pássaro tombava do segundo terço de bambolinas, e dava-se por terminado o Convívio do Sétimo Dia. Hoje, no entanto, alterara-se o preceito dominical, por culpa daquele soporífero ingerido de madrugada para conseguir um sono rápido, que não me chegava como dantes, quando vendava os olhos, a conselho de Mouche. Ao despertar, dei-me conta que a minha mulher tinha partido, e a confusão de roupas meio saídas das gavetas da cómoda, os tubos de maquilhagem atirados para um canto, as caixas de pó-de-arroz e os frascos de perfume abandonados por toda a parte, denunciavam uma inesperada viagem. Ruth regressava, agora, do palco, acompanhada por um rumor de aplausos, desatando pressurosamente os colchetes de seu corpete. Fechou a porta com um coice que, de tanto se repetir, desgastara a madeira, e a crinolina, lançada por sobre a sua cabeça, esparramou-se na alcatifa de uma ponta à outra. Ao libertar-se dessas rendas, o seu corpo branco causou-me uma agradável revelação, e já me aproximava para o acariciar, quando sobre a sua nudez caiu um veludo que tinha o odor dos retalhos que minha mãe guardava, na minha infância, nas profundezas da sua arca de mogno. Uma onda de cólera subiu-me à cabeça, contra o estúpido papel que sempre se interpunha entre as nossas pessoas como a espada do anjo das hagiografias; contra aquele drama que dividira a nossa casa, arrastando-me para a outra, aquela cujas paredes se adornavam de símbolos astrais, onde o meu desejo encontrava sempre um espírito propício ao abraço. E fora para favorecer essa carreira nos seus difíceis começos, para ver feliz aquela que então muito amava, que dei um rumo diferente à minha vida, procurando a segurança material no oficio de que era escravo, assim como ela do seu! Agora, de costas para mim, Ruth falava-me através do espelho, enquanto manchava o rosto inquieto com as cores gordurosas da maquilhagem: explicava-me que, depois da representação, a companhia empreenderia, de seguida, uma digressão à outra costa do país e que por essa razão trouxera as suas malas para o teatro. Perguntou-me distraidamente pelo filme apresentado na véspera. Ia contar-lhe do êxito alcançado, lembrando-lhe que o fim desse trabalho significava o começo das minhas férias, quando bateram à porta. Ruth pôs-se de pé, e eu vi-me perante quem, uma vez mais, deixava de ser a minha mulher para se transformar em protagonista; prendeu uma rosa artificial à cintura, e, com um ligeiro gesto de desculpa, encaminhou-se para o palco, cujo pano à italiana acabava de abrir-se levantando no ar um cheiro a poeira e a madeiras velhas.
Entretanto, voltou-se para mim, num aceno de despedida, e tomou a vereda das magnólias anãs... Não me senti com coragem de esperar pelo intervalo seguinte, em que o veludo seria trocado pelo cetim, e uma nova camada de cosméticos se espalharia sobre a anterior. Regressei a nossa casa, onde a desordem da partida pressurosa revelava ainda a presença da ausente. O peso de sua cabeça imprimira-se sobre a almofada; havia, na mesa-de-cabeceira, um copo com água meio bebido, com um precipitado de gotas verdes, e um livro aberto num fim de capítulo. A minha mão podia sentir a mancha ainda húmida de uma loção derramada. Uma folha de agenda, que eu não vira quando entrara no quarto anteriormente, informava-me da inesperada viagem. Beijos. Ruth. P S. Há uma garrafa de xerez na secretária. Senti uma terrível sensação de solidão. Era a primeira vez, em onze meses, que me via sozinho, fora da cama, sem uma tarefa a cumprir no momento, sem ter de correr para a rua com medo de chegar atrasado a algum sítio». In Alejo Carpentier, Os Passos Perdidos, 2008, tradução de António Santos, Saída de Emergência, 2010,m ISBN 978-989-637-244-6.
                                                                                                                              
Cortesia de SEmergência/JDACT

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Os Passos Perdidos no 31. Alejo Carpentier. «A selva era o mundo da mentira, da armadilha e do falso semblante: ali tudo era disfarce, estratagema, jogo de aparências, metamorfoses. Mundo do lagarto-cogombro, de castanha-ouriço, da crisálida-centopeia e do peixe eléctrico que fulminava desde a quietude das linhaças». Para sempre cdu…

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«Há quatro anos e sete meses que eu não via a casa de colunas brancas, com o seu frontão ornado de carrancudas molduras, que lhe dava um ar austero de palácio de justiça, e agora, perante móveis e velhos trastes colocados nos mesmos lugares tinha a quase penosa sensação de que o tempo regredira. A mesma cortina cor de vinho, a mesma gaiola vazia, a mesma roseira a trepar pela parede. Mais além, estavam os ulmeiros que eu ajudara a plantar nos dias de grande euforia, quando todos nós colaborávamos na obra comum; junto ao tronco envelhecido, o banco de pedra que fiz ressoar como madeira, com o bater dos meus tacões. Por detrás, o caminho para o rio, com as suas magnólias anãs, e o gradeamento de intrincados arabescos à maneira de Nova Orleães. Como na primeira noite, andei pelo átrio, ouvindo a mesma ressonância oca sob os meus passos e atravessei o jardim para chegar mais rapidamente ao local onde se moviam, em grupos, os escravos marcados a ferro, as amazonas de saias enroladas no braço e os soldados feridos, esfarrapados, com ligaduras mal atadas, aguardando a sua hora no meio de sombras tenebrosas, fedendo a betume, a feltros velhos, a suores acumulados nas mesmas labitas. Saí a tempo da zona iluminada, quando o disparo do caçador se fez ouvir e um pássaro tombou no palco do segundo terço de bambolinas. A crinolina de minha mulher voou por cima da minha cabeça, pois encontrava-me precisamente no sítio por onde ela entrava em cena, estorvando-lhe a passagem já de si estreita. Por ser menos penoso, dirigi-me ao seu camarim, e aí tomei consciência do tempo: tudo demonstrava claramente que quatro anos e sete meses não se passavam sem desgastar, desluzir e murchar. As rendas dos remates estavam ruças; o cetim negro da cena do baile perdera a bela rigidez que o fizera ranger em cada reverência, como um revolutear de folhas secas. Até as paredes do aposento se tinham deteriorado, por serem sempre tocadas nos mesmos sítios, mostrando assim as marcas da sua longa convivência com os cosméticos, as flores retardadas e os trajes da fantasia. Sentado agora no divã, que de verde-mar passara a verde-cinza, consternara-me pensar quão dura se tornara, para Ruth, essa prisão de tábuas e artifícios, com suas pontes volantes, suas teias de cordel, suas árvores pintadas. Na altura da estreia dessa tragédia da Guerra da Secessão, quando nos tocou a nós ajudar o jovem autor, servido por uma companhia recém-saída de um teatro experimental, entrevíamos no máximo uma aventura de vinte noites. No entanto, atingimos as mil e quinhentas representações, sem que as personagens, ligadas por contratos sempre prorrogáveis, tivessem alguma possibilidade de se evadir da acção depois que os empresários, utilizando o generoso ardor da juventude em proveito dos seus grandes negócios, receberam a obra na sua sociedade. Assim, para Ruth, longe de ser uma porta aberta sobre o vasto mundo do Drama, uma forma de evasão, este teatro era a Ilha do Diabo. Suas breves fugas, quando se permitia tomar parte em espectáculos de beneficência, sob o penteado de Pórcia ou a túnica de alguma Ifigénia, não lhe traziam grande alívio, pois por debaixo de um vestido diferente os espectadores procuravam a rotineira crinolina, e na voz que pretendia ser a de Antígona, todos encontravam as inflexões de contralto da Arabela, que agora no palco aprendia com Booth, numa situação que os críticos tinham por prodigiosamente inteligente, a pronunciar correctamente o latim, repetindo a frase: Sic semper lyrannis. Seria necessário, no entanto, ter o génio de uma trágica ímpar para se libertar desse parasita que se alimentava do seu sangue; daquela hóspede de seu próprio corpo, incrustada em sua carne como um mal sem remédio. A vontade de romper com o contrato não lhe faltava. Porém, essas revoltas pagavam-se, no ofício, com um longo desemprego, e Ruth, que começara a dizer o texto com a idade de trinta anos, via-se chegada aos trinta e cinco, repetindo os mesmos gestos, as mesmas palavras, todas as noites da semana, todas as tardes de domingo, sábados e dias feriados, sem contar com os espectáculos das digressões estivais. O sucesso da obra aniquilava lentamente os seus intérpretes, que iam envelhecendo à custa do público de dentro de suas roupas imutáveis, e quando um deles morrera de enfarte, certa noite, pouco depois de cair o pano, a companhia, reunida no cemitério na manhã seguinte, exibira, talvez, sem se dar conta, uma aparatosa roupa de luto que mais fazia lembrar um daguerreótipo. Cada vez mais desgostosa, menos esperançada em atingir uma carreira que, apesar de tudo, amava por profundo instinto, a minha mulher deixava-se arrastar pelo automatismo do trabalho imposto, como eu me deixava arrastar pelo automatismo da minha profissão». In Alejo Carpentier, Os Passos Perdidos, 2008, tradução de António Santos, Saída de Emergência, 2010,m ISBN 978-989-637-244-6.

Cortesia de SEmergência/JDACT