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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Essas alianças matrimoniais ganhavam ainda, significados políticos quando realizadas sob o amparo da Igreja e o reconhecimento público dos súbditos dos reinos envolvidos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

«(…) Foi no contexto dessas divergências contra a nobreza e o clero que a rainha Isabel e dom Dinis haveriam de enfrentar seus primeiros anos como rainha e rei. Com o objectivo de realizar um entendimento político com o papado, o monarca português promoveu uma série de emendas à Corte com esse objectivo. Essa tentativa pode ser percebida igualmente por meio de uma carta que dom Dinis enviou ao Papa Martinho IV (1281-1285) solicitando que fossem suspensas as interdições que recaíam sobre o reino de Portugal. Como já havia ocorrido com Inocêncio IV (1243-1254), o papa Martinho IV (1281-1285) e seu sucessor, Honório IV (1285-1287) notabilizaram-se pelas suas acções nos assuntos políticos de diversos reinos. O primeiro ficou famoso pelos atritos com os Hohenstaufen da Alemanha na luta pela posse da Sicília. O segundo e o terceiro apoiaram abertamente a França, inclusive oferecendo a ela o reino da Sicília contra Aragão que naquela altura também se apresentava como herdeiro da ilha devido ao casamento de Pedro III, pai da Rainha Isabel com Constança, filha de Manfredo Hohenstaufen.

Ao Santíssimo Padre, & senhor Dõ Martinho pela prouidencia de Deos Summo Pontifice da Santa Igreja de Roma, Dionysio pela graça de Deos Rey de Portugal, & Algarue, beja os pés bemauenturados. Porque na terra tendes plenariamente as vezes de aquelle que he paz nossa, fazendo de ambas as repubicas de Céu, & terra huma, o medianeiro entre Deos, & homes Christo Iesu: não duuidamos que tambem voz alegraes entranhauelmente nas cousas que encaminhão â paz de Ierusalem a Santa Madre Igreja. Por esta causa determinamos manifestar a alteza de vossa Santidade, que promulgando em tempo passado o senhor Papa Gregorio Decimo de santa memoria, com conselho de seus irmãos, hua ordenação, ou prouião contra nosso pay Dom Afonso (...) & sendo tem tenção daquele Papa expressada na mesma prouisão, que nos comprehendesse ella tambem a nos. Finalmente despois de morto o dito nosso pay, (...) considerando o estado dos Reinos Sobreditos, & em particular por respeito da profunda destruição das almas de seus naturaes, as quaes de longo tempo atras estão priuados da douçura da graça dos Sacramentos…

A falta de boas relações com Roma e com seus representantes locais provocava grande instabilidade política para Portugal naquela época, pois a excomunhão seguida da interdição era uma arma utilizada pelos Papas contra os poderes laicos. A excomunhão afastava os pecadores da vida em comunhão, e o interdito recaía sobre os que possuíam poderes políticos no momento da excomunhão e privava os territórios, que estavam sob seus domínios, dos ofícios religiosos e administração dos sacramentos, entre outros. Segundo Félix Lopes, quando Dinis se casou com a Infanta Isabel de Aragão, no reino português, as igrejas mantinham suas portas fechadas e os fiéis encontravam-se privados das bênçãos e dos actos solenes. Porém, a interdição do Papa não impediu que o casamento fosse realizado com magnificência pública e muitos festejos. Ainda segundo esse autor:

 ...fez-se bodas, grandes e ruidosas, com os velhos ricos-homens trovadores e os moços trovadores, criados com o moço rei, à compita nos jogos de armas e cantares, nas alegrias e folguedos. E os festejos prolongaram-se em Trancoso por todo o mês de Julho. Depois a corte passou à Guarda onde ainda demorava a 18 de Setembro.

Essas alianças matrimoniais ganhavam ainda, significados políticos quando realizadas sob o amparo da Igreja e o reconhecimento público dos súbditos dos reinos envolvidos. Muitas vezes, elas iniciavam-se no privado, com longas negociações que envolviam os dois lados interessados, representados pelos elementos mais ilustres dos dois reinos». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel, 

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Depois que ali chegarom, acharom o infante D. Afonso de Portugal, irmão delrey D. Dinis, e o conde de Portugal a que diziam D. Gonçalo, e outros muitos cavaleiros de Portugal e prelados, que ali atendiam a rainha…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

«(…) Assim como em relação ao nascimento, as informações relacionadas à infância de Isabel também são escassas. Alguns autores indicam que a futura rainha de Portugal viveu seus primeiros anos em Saragoça, sob a tutoria do avô, Jaime I; período em que ela realizou seus primeiros contactos com os frades franciscanos, que mantinham uma relação muito próxima com a corte aragonesa. Com a morte do avô, em 1276, a Infanta passou aos cuidados dos pais, porém continuou a receber uma formação educacional e religiosa nos princípios franciscanos até completar dez anos, quando foi a Portugal para casar-se com o rei Dinis.

Como estratégia política, o ritual que envolveu o casamento de Dinis com Isabel foi marcado por um período de intensa troca de informações entre os dois reinos para se certificarem de que se tratava de uma aliança benéfica. Nessas negociações, como em outras que aconteceriam durante a vida da Rainha Isabel, o papel dos procuradores foi de fundamental importância para estabelecer os compromissos e obrigações entre as duas monarquias peninsulares. As negociações iniciaram-se, em 1280, com a visita dos embaixadores portugueses à corte aragonesa, E avendo dous anos que elRey D. Denjs reynaua, (...) ouujndo a fama e bondade da Iffante, desejou de a auer por molher. E estando em Estremoz, ordenou seus procuradores (...) e emujoua a pedir a el Rey de Aragão seu padre. Em Fevereiro de 1281, foram assinados os acordos, em Barcelona, pelos embaixadores dos dois reinos e, em Abril do mesmo ano, os representantes dos dois reinos reuniram-se em Vide, agora com a presença de Dinis para selarem o contrato matrimonial.

As negociações foram retomadas em Novembro de 1281, quando Dinis nomeou os embaixadores portugueses para fazerem o casamento, que se realizou em Fevereiro de 1282, em Barcelona, sem a presença do rei português: Eu Isabel filha do Excelente D Pedro, por graça de Deos illustre Rey de Aragão, faço entrega de mim para muher legitima a vos Dõ Dinis pela graça de Deos Rey de Portugal, & Algarue, e ainda que ausente, mesmo que se estiuereis presente.

A ausência do rei na cerimónia é apenas mais um detalhe, entre outros, que envolvia os rituais de casamento naquele período: No entanto, as bênçãos matrimoniais só foram celebradas na igreja de São Bartolomeu, em Trancoso, em Julho de 1282, onde o rei e os representantes da corte esperavam a infanta Isabel.

Depois que ali chegarom, acharom o infante D. Afonso de Portugal, irmão delrey D. Dinis, e o conde de Portugal a que diziam D. Gonçalo, e outros muitos cavaleiros de Portugal e prelados, que ali atendiam a rainha. E, depois que o ifante D. James aqueles achou, tornou-se pera Castela e leixou a rainha aaqueles portugueses; e chegarom com ela aa vila de Trancoso, e ali chegou elrey D. Dinis e ali se fezerom as bodas e deu elrey oficiaes e terras aa rainha.

Estabelecidos os compromissos entre os dois reinos, o casamento do rei português com a Infanta aragonesa necessitava ainda, para ser finalmente reconhecido pelos súditos do reino, ser legitimado pela Igreja, questão esta que não seria resolvida de imediato devido às constantes lutas entre a Coroa e a Igreja. As inúmeras tentativas de assentar um acordo com o papado para o restabelecimento das práticas religiosas no reino era um legado que o pai de dom Dinis, Afonso III (1248-1279), havia lhe deixado. Segundo Mattoso, as rivalidades entre os monarcas da primeira dinastia portuguesa com o clero local estão relacionadas também, à tentativa dos reis de estabelecer um limite aos poderes senhoriais da nobreza e do clero sobre as terras da coroa. Embora os reis procurassem se acercar de uma nobreza que lhes desse apoio, procuravam, por meio dos laços de vassalagem, um grupo limitado formado pelos mais poderosos; o que não excluía a rivalidade. Essa tentativa de equilíbrio, realeza/nobreza, alterou-se desde o reinado de Afonso II (1211-1223) devido à prematuridade da afirmação do poder régio contra os privilégios dos poderes senhoriais, fossem eles do clero, das ordens militares, da alta ou da pequena nobreza. A conjuntura política do reino ficaria mais delicada ainda no governo de Sancho II (1223-1248). Esse rei, diferentemente do seu antecessor, não conseguiu travar o avanço dos poderes senhoriais sobre as terras do reino e sobre os poderes da Igreja local, situação que levaria, a partir de 1245, os descontentes do reino e os bispos portugueses, com o apoio do papa Inocêncio IV (1243-1279), a destituí-lo do poder e nomear seu irmão, Afonso III, como substituto ao trono. Ainda segundo Mattoso, os contactos que Afonso III havia feito com o desenvolvimento da centralização monárquica foram postos em prática pelo rei francês Luis IX (1226-1270), no tempo em que esteve naquele reino como conde de Bolonha. Isso possibilitou-lhe, após a guerra civil (1245-1248) e a morte do rei Sancho II, reorganizar a administração do reino sujeitando clero e nobreza, tanto na esfera da política fiscal como da judicial. Facilitado pela decadência das antigas linhagens, dom Dinis avançaria, ainda mais, a política de centralização do reino por meio do aperfeiçoamento da justiça e da recuperação dos direitos senhoriais sonegados pela nobreza, por meio de repetidas inquirições». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

 JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel, 

domingo, 13 de novembro de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «E, quando esta rainha dona Isabel naceo, andava a era de Cesar em mil e III e nove anos, e, porque a madre delrey D. Pedro fora filha delrey d’Onglia e fora irmãa de Santa Isabel (tia da Rainha Isabel de Portugal canonizada no ano de 1235, pelo Papa Gregório IX)…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

«(…) António Vasconcelos também aceita a data de 1270, porém esse autor não indica o dia e o mês do nascimento da Rainha Isabel. Já José Agostinho, Le Brun e Simas Alves Azevedo afirmam que a rainha Santa Isabel nasceu no ano de 1271. Na ausência de um documento oficial que determine categoricamente a data do nascimento da Rainha Isabel, os estudos contemporâneos oscilam entre 1269 e 1271, ou seja, adoptam uma data aproximada com base nos cálculos aplicados para identificar a época exacta em que o texto anónimo Livro que fala da boa vida que fez a raynha de Portugal, dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte havia sido escrito. Nesse documento, a data do nascimento da infanta está registada desta maneira:

E, quando esta rainha dona Isabel naceo, andava a era de Cesar em mil e III e nove anos, e, porque a madre delrey D. Pedro fora filha delrey d’Onglia e fora irmãa de Santa Isabel (tia da Rainha Isabel de Portugal canonizada no ano de 1235, pelo Papa Gregório IX) foy posto a esta rainha de Portugal nome de Isabel. E em tempo que ela naceo avia grande descordia antre elrey D. James e o ifante D. Pedro, seu filho, padre desta Dona Isabel, em tanto que elrey nom queria veer seu filho D. Pedro, nem alguu de seus filhos, pero que, em vivendo elrey D. James, eram já todos os que ouve nados, e escolheo esta Dona Isabel, e criava-a e amava-a muito, dizendo por vezes dela, que sa criada e neta avia de seer a melhor molher que saira da casa de Aragom; e foy em aquel tempo aviido do ifante D. Pedro com elrey D. James, seu padre.

Apesar das controvérsias quanto à data do nascimento da Infanta Isabel, é possível afirmar que, quando ela nasceu, o trono aragonês era ocupado por seu avô paterno Jaime I, o Conquistador (1213-1276), esposo de Violante da Hungria. Isabel era filha do Infante Pedro, herdeiro do trono aragonês, futuro Pedro III, o Grande (1276-1285) e de Constança Hohenstaufen, filha de Manfredo, rei da Sicília e de Nápoles. Nascido em Valência, no ano de 1240, o pai da Infanta Isabel foi o primeiro filho de Jaime I e de sua segunda esposa, Violante. Com a morte da mãe, no ano de 1251, a formação do Infante Pedro ficou sob a responsabilidade de nobres catalãs, o que lhe proporcionou uma educação literária trovadoresca e, principalmente, político-militar. Tal educação lhe valeu a confiança por parte do rei Jaime I, ao nomeá-lo, em 1257, como Procurador Geral do principado da Catalunha. Com a morte de Afonso, em 1262, único filho que Jaime I havia tido com sua primeira esposa, Leonor de Castela, o Infante Pedro III, transformou-se no único herdeiro do trono do Reino de Aragão, Valência e do Condado de Barcelona, excepto Maiorca e a Sardenha que ficou para o seu irmão menor, Jaime, futuro Jaime II de Maiorca.

Ao morrer Jaime I, em 1276, Pedro III já contava com 30 anos de idade e muita experiência na política e na guerra, pois como Príncipe da Catalunha havia realizado importantes contactos com seu cunhado Alfonso X (1252-1284) de Castela, Felipe III (1270-1285) da França, viúvo da irmã Isabel e com os muçulmanos, que ocupavam diferentes posições geográficas no mediterrâneo. A rainha teve cinco irmãos legítimos: Afonso III (1285-1291), sucessor de Pedro III; Jaime II (1291-1327), rei da Sicília e, depois, de Aragão, após a morte de Afonso III; Fradique ou Frederico III (1295-1337), também rei da Sicília, Pedro, que morreu sem descendentes e Violante, que se casou com Roberto, rei de Nápoles.


In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

terça-feira, 17 de maio de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Porém, em ambos os casos, segundo esse mesmo direito, o matrimónio tornar-se-ia indissolúvel quando consumado por união carnal entre os esposos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

Alianças Políticas na Península Ibérica nos Séculos XIII – XIV

«(…) O direito canónico vigente em Portugal durante o período em que este trabalho se insere, reservava como elemento essencial para a concretização de uma aliança matrimonial, a decisão final aos próprios cônjuges de se aceitarem por marido e mulher e partilharem uma vida comum. Tal disposição poderia ser expressa por palavras de presente, arranjo que efectivava o compromisso prontamente ou por palavras de futuro, que constituía exclusivamente uma promessa de casamento (noivado) e implicava um compromisso com direitos e deveres entre os envolvidos, no entanto ele só seria efectivado quando o casal concretizasse os acordos por meio das palavras de presente. Porém, em ambos os casos, segundo esse mesmo direito, o matrimónio tornar-se-ia indissolúvel quando consumado por união carnal entre os esposos.

A segunda situação, palavras de futuro, foi muito comum entre os reinos peninsulares. Por meio dessa prática, reis e rainhas serviram-se muitas vezes de seus filhos, ainda impúberes, para realizar alianças matrimoniais como uma prerrogativa de materialização de acordos políticos. Neste sentido, as alianças matrimoniais realizadas entre as monarquias da Península Ibérica durante a Idade Média eram acontecimentos que ultrapassavam as solenidades jurídicas e religiosas e compunham, além de uma liturgia, uma questão política. Na configuração de uma nova família, essa ocorrência ganhava mais importância ainda quando duas casas reinantes procuravam concretizar novos acordos de cooperação económica e militar, demarcar novos espaços territoriais, modificar suas alianças políticas, reatar a paz ou iniciar longas crises com a Igreja de Roma, entre outras possibilidades.

No centro das negociações dessas alianças, não eram consideradas a vontade e a liberdade de decisão dos futuros esposos, mas sim as disposições traçadas pelas duas casas régias com o apoio das mais ilustres famílias nobiliárias que também viam nelas um acontecimento ideal para alcançar vantagens económicas e políticas. Nesse sentido, esses acordos possibilitavam igualmente a formação de uma rede de relações amistosas entre os reinos, que afectavam todo o corpo social ao possibilitar a criação de núcleos familiares que traduziam a constituição de uma organização de parentesco que alterava o panorama social e político de toda a comunidade.

De Infanta Aragonesa a Rainha a Rainha de Portugal

Não existe unanimidade entre os pesquisadores em apontar com exactidão o dia, o mês ou mesmo o ano do nascimento da infanta Isabel de Aragão. António Silva Pinto afirma que ela nasceu a 11 de Fevereiro de 1270, data também admitida por Cruz Coelho. Vitorino Nemésio assegura que ela deve ter nascido entre o Inverno de 1269 e 1270. António Nogueira Gonçalves, por sua vez, declara que dona Isabel, da casa de real de Aragão, nasceu no ano de 1270, provavelmente a 11 de Novembro». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel, 

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Outro autor que também estudou a vida da rainha foi Fernando Félix Lopes. Por meio de uma série de artigos publicados entre as décadas de 50 e 60 do século passado…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

«(…) Outro autor que também estudou a vida da rainha foi Fernando Félix Lopes. Por meio de uma série de artigos publicados entre as décadas de 50 e 60 do século passado, esse autor dedicou-se especialmente aos conflitos entre dom Dinis e o irmão, e dom Dinis e o filho, e a algumas actividades religiosas e políticas da rainha entre outras. Pode-se destacar, ainda, o livro de Mário Domingues, D. Dinis e Santa Isabel, evocação histórica, publicado em 1963. Inspirado por uma leitura marxista, essa obra procura exaltar as realizações de dom Dinis, pois, segundo ele, a lenda em torno da vida da rainha Santa Isabel havia obscurecido a importância do papel político do monarca português: A lenda é demasiada injusta para com o soberano. No transparente intuito de valorizar a santa, tratou de amesquinhar um homem que, no decurso de toda a sua vida, não deu senão provas inequívocas de generosidade e carinho pelas classes desprotegidas. No entanto, com a publicação, em 1987, da obra da historiadora espanhola, Ângela Muñoz Fernández, já é possível conhecer alguns aspectos da vida da rainha Isabel analisados sob o enfoque das contribuições de uma historiografia actualizada e crítica. Neste estudo, a medievalista espanhola analisou diversas composições literárias sobre a rainha Isabel, como exemplo de modelos ético-normativos que a Igreja medieval projectou sobre a figura da mulher. O objectivo deste estudo é realizar uma investigação da figura da rainha Isabel enfocando a sua actuação política e religiosa e não dos milagres que realizou após a morte sobre os quais há farta bibliografia. Nele, a finalidade principal é uma reflexão sobre o papel e a actuação da rainha Isabel nas estratégias políticas da Península Ibérica, no final do século XIII e na primeira metade do século XIV, mais precisamente entre 1280, data provável dos primeiros contatos entre Portugal e Aragão para ajustarem o seu casamento com dom Dinis, e 1336, data da sua morte.

Para tal tarefa, foram selecionadas, além do já citado texto anônimo do século XIV: Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, D. Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte, as Crónicas dos sete primeiros reis de Portugal, as Crónicas de los Reys de Castilla. Além dessas fontes, foram selecionados também testamentos, doações e cartas de autoridades civis e eclesiásticas, publicadas como apêndice documental em diversos estudos sobre o período e, principalmente, um corpus documental composto por correspondências que a rainha Isabel manteve com muitas autoridades da época. Demarcando a temporalidade específica e delimitando as fontes, no primeiro capitulo realizou-se um estudo sobre a importância das alianças matrimoniais como expediente utilizado pelos reinos Ibéricos na tentativa de estabelecer profícuos acordos políticos, principalmente, do significado do casamento da infanta Isabel com dom Dinis para estabelecer uma aliança política entre aqueles reinos. Entendendo a casa régia enquanto um espaço político e cultural que sustentava a sociedade política daquele período, no segundo capítulo foram examinadas as actuações políticas da rainha nos diversos assuntos internos do reino português, mais precisamente seu envolvimento nas divergências entre o marido e o irmão e entre o marido e o Infante herdeiro, Afonso, futuro rei dom Afonso IV, bem como seu empenho na administração de seus bens, nomeação de fiéis servidores e na intervenção directa nas negociações dos casamentos dos filhos bastardos de dom Dinis. No segundo capítulo, também foi feita uma reflexão sobre as acções da rainha, situando-a no seu próprio contexto histórico, ou seja, uma rainha que adicionava aos códigos legislativos da época, os exercícios religiosos franciscanos como forma de governar e conduzir os assuntos internos do reino. No terceiro capítulo, investigou-se a participação da rainha Isabel no envolvimento do reino português diante dos conflitos e dos acordos com o reino de Castela e de Aragão, sobretudo sua participação nas mediações diplomáticas que envolveram os reinos de Portugal, Aragão e Castela. No quarto capítulo, foram discutidas as acções da rainha Isabel depois da morte de dom Dinis, em 1325, dando ênfase à sua actuação política na busca de soluções para os novos conflitos externos envolvendo seu filho, dom Afonso IV, rei de Portugal, seu neto, Alfonso XI, rei de Castela, e seu sobrinho, Alfonso IV, rei de Aragão e ao significado político das aspirações tomadas pela rainha deixadas nas suas declarações testamentárias». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

 JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «… discutiu o desenvolvimento e as implicações político-religiosas do culto à rainha depois do depósito do seu cadáver no mosteiro de Santa Clara de Coimbra»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

«(…) A actuação das autoridades religiosas e eclesiásticas para oficializar o culto da rainha deu-se em diferentes datas: em Abril de 1516, ela foi beatificada pelo Papa Leão X; em 1556, o Papa Paulo IV ampliou o culto da rainha a todo o território português; em 1560, foi criada, em Coimbra, a Confraria da Rainha Isabel; em 1612, seu túmulo foi aberto pela primeira vez; em 1625, o Papa Urbano VIII declarou-a Santa; Rei Felipe IV, também denominado III pelos portugueses, elegeu-a Protectora do Reino; em 1677, o corpo da Rainha Santa foi transferido provisoriamente para a capela do novo mosteiro de Santa Clara, no Monte da Esperança; em 1687, o corpo da Rainha Santa foi transferido, com grande solenidade, da capela provisória para o novo convento; em 1691, a Santa foi transferida para o coro alto da Igreja; em 1747, foi publicada a bula áurea da canonização pelo Papa Bento XIV e, em 1755, a Câmara Municipal de Coimbra elegeu a rainha Santa Isabel como Padroeira da Cidade. É importante observar ainda que, o empenho das autoridades constituídas, para canonizar a rainha, contribuiu para a recolha e a preservação de muitos relatos sobre a sua vida, o que colaborou também para a revitalização e a actualização do seu mito e da sua lenda.

Se por um lado, tanto o texto do século XIV, quanto os textos dos séculos XVI e os subsequentes foram importantes para perpectuar os contornos sobre-humanos da rainha, por outro, eles contribuíram, para elevar e transformar os gestos ordinários característicos de uma mulher que pertencia à realeza e que cumpria as funções políticas do seu tempo, em gestos de uma rainha santificada ainda em vida, o que não corresponde ao período em que a rainha viveu. Nesse sentido, esses autores, ao escreverem, pintarem ou esculpirem obras sobre os feitos da rainha Isabel, potencializaram sua vida com eventos extraordinários e essencialmente sagrados, combinando suas realizações políticas em vida com sua lenda e seu mito, ambos construídos posteriormente ao seu falecimento.

Em relação a esse aspecto, as referências sobre Santa Isabel são exemplares, uma vez que, segundo os cronistas e hagiógrafos, depois do casamento, a rainha viveu entre as intrigas da corte, o ciúme das damas, as rivalidades amorosas, as acusações de adultérios que recaíam sobre sua pessoa e a do rei e, principalmente, entre sua fé e suas orações como único meio para solucionar as conturbações políticas porque passava o reino português naquela época. Essas imagens atribuídas à rainha serviram para reforçar ainda mais sua importância como modelo de mulher perfeita, contribuindo para que ela ficasse conhecida pelo povo português, entre outros atributos, como um exemplo de esposa dedicada, de mãe perfeita e uma autêntica heroína, apenas feita de amor, de perdão, de paz e de santidade. Essas imagens ganhariam novos contornos com a morte de dom Dinis, em 7 de Janeiro de 1325. Segundo os cronistas, foi durante esse período de 11 anos em estado de viuvez que a rainha Isabel desempenhou fielmente todas as acções de uma verdadeira santa, ao se recolher no mosteiro de Santa Clara e viver uma verdadeira vida franciscana, empregando todo seu tempo a serviço dos necessitados e dedicando-se aos exercícios de compaixão e de mortificações.

Porém, as referências em relação à vida da rainha e à evolução do seu culto não estão cingidas apenas ao conhecimento da hagiografia. Numa tentativa de superar essa visão, alguns estudos propuseram novas reflexões sobre essa personagem. O exemplo mais clássico é o livro de António Vasconcelos Dona Isabel de Aragão, a Rainha Santa. Publicado em dois volumes e em edição facsimilada, nos anos de 1891 e 1894, essa obra foi pioneira na tentativa de realizar uma leitura isenta do culto à rainha Santa Isabel. Nela, o autor confessaria que não seria seguro remontar seu estudo ao tempo em que ela viveu e, assim começaria por indagar sobre as primeiras manifestações culturais do espírito religioso do povo dirigidas à dona Isabel de Aragão logo após a sua morte. Foi, portanto, a partir dessa premissa que António Vasconcelos desenvolveu sua pesquisa, ou seja, discutiu o desenvolvimento e as implicações político-religiosas do culto à rainha depois do depósito do seu cadáver no mosteiro de Santa Clara de Coimbra. Uma das primeiras obras que tem por objectivo realizar uma leitura do papel político da rainha Isabel foi realizada por Maria Teresa Lobo Ávila em 1923. Apresentada como tese de licenciatura à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, esse estudo, apesar de a autora destacar alguns episódios da participação da Rainha nos assuntos políticos do reino, carecem, porém, de uma reflexão crítica sobre o significado das acções políticas e religiosas da rainha Isabel». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,

segunda-feira, 16 de maio de 2022

A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336. José Carlos Gimenez. «Apoiando-se num corpus documental de fontes primárias e secundárias formado por cartas, crónicas, bulas e testamentos reproduzidos em edições modernas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

 Com a devida vénia ao Doutor José Carlos Gimenez

«Apoiando-se num corpus documental de fontes primárias e secundárias formado por cartas, crónicas, bulas e testamentos reproduzidos em edições modernas e em edições originais localizadas no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e nas Bibliotecas da Universidade de Coimbra, esta tese discute a participação da Rainha Isabel de Portugal (1270-1336) nas estratégias políticas da Península Ibérica na Baixa Idade Média. A Rainha Isabel, filha do Rei Pedro III de Aragão (1285-1291), ao se casar com o Rei Português dom Dinis (1279-1325), no ano de 1282, iniciou uma importante acção diplomática como mediadora nas divergências entre o Rei português, cujo anseio era uma política de centralização da monarquia contra parte da nobreza. Esta defendia os privilégios senhoriais e era representado por dom Afonso, irmão de dom Dinis e, depois, pelo filho e futuro Rei de Portugal dom Afonso IV (1325-1357). A Rainha também se notabilizou pelas acções diplomáticas que realizou com reis e rainhas de Castela e Aragão sempre com o objectivo de promover os acordos de paz como uma alternativa aos enfrentamentos bélicos, principalmente por meio da realização de alianças matrimoniais dos filhos e dos netos entre essas mesmas casas régias. Consciente da importância do seu papel, a Rainha manteve uma intensa correspondência por meio de cartas e mensageiros de sua confiança com os reinos peninsulares e autoridades eclesiásticas. Também, como uma personalidade franciscana da Baixa Idade Média, actuou intensamente nos projectos sócio-religiosos ao promover a distribuição de esmolas e construção de albergues, orfanatos, hospitais e casas para abrigar religiosos. Como viúva, dividiu as suas acções entre o exercício religioso e a diplomacia para solucionar as divergências políticas entre Portugal, Castela e Aragão». In Resumo

«A vida da rainha Isabel, esposa do rei de Portugal dom Dinis (1279-1325) pode ser conhecida por meio de uma vasta literatura construída ao longo de muitos séculos. No entanto, grande parte dessa literatura pertence ao género hagiográfico e, como é próprio desse género literário, as acções dessa rainha, resignação diante das aventuras extraconjugais do marido, acolhimento afectuoso dos filhos bastardos do rei, atos de benevolência para com os pobres, empenho filantrópico na construção de albergues e de hospitais para leigos e religiosos, interferência providencial para estabelecer concórdias nas divergências internas do reino e nas conturbadas e delicadas relações políticas dos reinos ibéricos, entre outras, são rememoradas como atributos de uma rainha extraordinária que, muitas vezes, solucionou parte deles por meio de diversos milagres. Tais referências hagiográficas que recordam os feitos da rainha não ficaram circunscritas apenas aos relatos literários ou religiosos, pois a repercussão em torno de seus actos miraculosos alimentou também outras manifestações culturais, como a pintura e a escultura, contribuindo, para que sua imagem de santidade sobrevivesse como representação plástica na memória cristã do povo português até aos dias de hoje.

Uma das primeiras obras literárias que difundiu a figura da rainha como um ser excepcional e que, de certa maneira, continua exercendo forte influência como paradigma da santidade de Isabel é a obra intitulada Livro que fala da boa vida que fez a Raynha de Portugal, Dona Isabel, e dos seus bõos feitos e milagres em sa vida e depoys da morte. De autor desconhecido, esse texto, do século XIV, escrito provavelmente em seguida à morte da rainha, mostra, além das actividades da Santa nos assuntos políticos e religiosos, a posição por ela ocupada no reino português, os momentos finais da sua vida, a jornada dramática do seu corpo de Estremoz para o Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra e, sobretudo, seus milagres. Trata-se, portanto, de um texto que fundou uma tradição literária sobre a vida da rainha Isabel ao ressaltar e perpetuar imagens supra-humanas. Inspirados principalmente nos relatos do texto hagiográfico do século XIV, diferentes autores dos séculos XVI e XVII retomaram, reproduziram e difundiram outras versões sobre a história de vida da rainha. Essa ocorrência não é mera casualidade, principalmente se se considerar que essas obras literárias foram elaboradas no contexto em que os poderes político e eclesiástico da época envidaram as primeiras iniciativas para concretizar a canonização da rainha Isabel». In José Carlos Gimenez, A Rainha Isabel nas Estratégias Políticas da Península Ibérica 1280-1336, Teses de Doutoramento, UF do Paraná, Ciências Humanas, 2005.

 Cortesia de UFParaná/CHumanas/JDACT

JDACT, José Carlos Gimenez, Caso de Estudo, Península Ibérica, Rainha Isabel,