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sábado, 26 de março de 2022

Teresa Medeiros. A Conquistadora. «Quando o Sol nasceu na manhã seguinte, Conn e Silent Thunder seguiam já rumo ao norte. O dia amanhecera com uma brisa quente do sul a afagar-lhe as feições, como se quisesse apagar as rugas de preocupação gravadas na sua testa»

 

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«(…) A chuva caía e a Lua começava a sua lenta descida quando chegou a uma clareira e desmontou. A maçã que trazia na mochila foi parar à boca do cavalo e Conn sorriu pela primeira vez desde que deixou a fortaleza. Silent Thunder atravessara o oceano no porão de um navio de carga para se tornar o seu cavalo de batalha. Passou as mãos pelo negro acetinado da garupa do animal. Nem uma mancha a estragar a solidez da sua beleza. Enrolou as rédeas num arbusto e deixou-o pastar. Sacudindo a chuva do cabelo, vagueou pela floresta recolhendo ramos e folhagem suficientes para proteger a sua pessoa e a fogueira da água que caía obstinada. Estendeu as mãos para as chamas, a fim de aquecê-las, e pensou que seria bom ter ali Nimbus para quebrar o silêncio. Memórias de outras florestas acumularam-se em seu redor; o calor de outras fogueiras aqueceu as suas mãos. Os espíritos dos cinco mortos rodearam-no, rindo e tagarelando, planeando batalhas futuras. Durante uma fracção de segundo, o seu nariz detectou o aroma de carne de veado assado ao ar livre. Pôs-se de pé, amaldiçoando as suas fantasias. Pareceu-lhe que a floresta se agitava à sua volta e voltou a sentar-se perguntando a si mesmo se dormir ia ser difícil ou impossível. Com os dedos tensos esfregou um bocado de queijo num naco de pão. O fogo da sua ira ardia demasiado fundo para dar espaço ao medo. Desmascararia o assassino encapuzado, dar-lhe-ei uma morte impiedosa. Embrulhou-se na capa e preparou-se para dormir. No dia seguinte àquela hora alcançaria a gruta. Tinha de estar em forma. Mergulhou no abismo de um sono felizmente desprovido de sonhos.

Quando o Sol nasceu na manhã seguinte, Conn e Silent Thunder seguiam já rumo ao norte. O dia amanhecera com uma brisa quente do sul a afagar-lhe as feições, como se quisesse apagar as rugas de preocupação gravadas na sua testa. Cotovias e andorinhas cantavam num céu da cor do azul delicado de um ovo de tordo. De vez em quando uma nuvem, branca e felpuda como o ventre de um cordeiro após o nascimento, atravessava devagar a sua tela serena. À medida que avançava para norte, o terreno tornava-se mais montanhoso, e sob os cascos do cavalo o tapete verde-esmeralda dava lugar a pedras e arbustos raquíticos.

O Sol surgiu com a forma de uma gloriosa bola laranja por detrás do horizonte ocidental, tão diferente da despedida mal-humorada da tarde anterior. Tinham chegado às colinas. Os contrafortes eram íngremes, mas seguiam até aos montes e planícies que rodeavam a enevoada montanha de Tara. A escuridão envolveu a paisagem. Conn acendeu uma tocha para iluminar o caminho. Pedras traiçoeiras espalhavam-se pelo chão, dispostas a fazer qualquer cavalo tombar. Os olhos de Conn mal discerniam as reentrâncias obscurecidas nos rochedos onde ele sabia que se escondiam pequenas grutas. Pelos seus cálculos, a gruta maior que procurava devia ficar a menos de uma légua de distância. Um fio de suor escorreu-lhe pela nuca. Parou Silent Thunder, fechou os olhos e entregou-se aos seus pensamentos. Um jovem desesperado por se juntar ao Fianna fizera aquele mesmo percurso para conquistar a criatura que já tinha dado a três membros do grupo mortes sangrentas. Foi o único a voltar. A sua descrição histérica de um gigante envolto numa capa que retirou no último minuto a ponta da espada da sua garganta apavorada e a libertá-lo não tardou a chegar aos ouvidos de Conn. Justamente o que a fera pretendia, pensou com amargura. Ainda de olhos fechados, tentou imaginar o rosto de cada um dos homens que morreu naquela gruta. Cinco valorosos guerreiros desaparecidos, deixando em suas mãos a tarefa de vingar o seu sangue». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/Gplaneta/JDACT

JDACT, Teresa Medeiros, Literatura, Irlanda,

quinta-feira, 24 de março de 2022

A Conquistadora. Teresa Medeiros. «O silêncio do salão transformou-se em tumulto. Protestos em voz alta misturaram-se aos gritos de encorajamento, numa algazarra ensurdecedora»

 

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«(…) Apenas o som do choro acompanhou Conn, que desceu do estrado pasmo com o que via à sua frente. Os seus olhos eram farrapos de gelo azul. Quando se aproximou do cavalo, estendeu as mãos e embalou a cabeça do seu querido amigo. Inclinando-se como para sussurrar qualquer coisa, Conn emitiu um ruído que começou como um urro na sua garganta. Os cabelos da nuca de Nimbus eriçaram-se com o grito de batalha que exteriorizou o desgosto de Conn. O salão espocou numa actividade febril. Dos lábios cerrados dos homens do Fianna que rodearam Conn saltaram pragas negras e sangrentas. Conn virou-se para o soldado mais próximo e murmurou qualquer coisa que tirou toda a cor do rosto do homem. O homem correu e Nimbus seguiu-o de imediato. De braços erguidos, Conn silenciou o salão: Eu próprio vou matar o miserável. Os seus lábios retorceram-se numa careta. Sean O’Finn, foi preparar a minha montaria. Mer-Nod será o regente até ao meu regresso.

O silêncio do salão transformou-se em tumulto. Protestos em voz alta misturaram-se aos gritos de encorajamento, numa algazarra ensurdecedora. Mer-Nod saiu do seu lugar junto à parede e dirigiu-se a Conn, tentando fazer-se ouvir por cima da cacofonia de vozes. Conn, está louco! Não podemos dar-nos ao luxo de te perder! Com os olhos brilhando, Conn replicou: Não me vão perder. Quando regressar a Tara, trarei comigo a cabeça do monstro que assassinou Kevin. Homem ou fera morrerá às minhas mãos. Sean O’Finn regressou. Desviando o olhar, disse a Conn: A sua montaria está pronta. Há mantimentos para cinco dias. Nimbus também reapareceu, arrastando com dificuldade uma espada maior do que o seu corpo. Conn pegou na espada e ergueu-a no ar. A sua voz trovejou pelo salão: Por Kevin, por Fianna, por Erin, a criatura tem de morrer! Embainhando a espada, correu porta fora e saltou para o dorso do enorme garanhão que o aguardava. Incitou o cavalo a galopar e atravessou intempestivo o portão do baluarte.

Nimbus permaneceu no meio da multidão, onde quase não se dava por ele. Uma mão pequena e encardida subiu para abrandar o latejar das suas têmporas. O céu desolado começou a render-se a uma escuridão ainda mais desoladora enquanto Conn se afastava a galope da fortaleza. Farrapos de nuvens deslocavam-se no horizonte, empurradas por impulsos nervosos do vento frio. Sem o calor do Sol, a unidade do dia acentuou-se à medida que a luz foi desaparecendo ao oriente. Nas árvores, as folhas estremeceram anunciando a noite que se avizinhava. O clarão roxo do crepúsculo permeou a paisagem, transformando os campos verdes num veludo escuro. Os únicos sons que cortavam o anoitecer cada vez mais profundo eram as pancadas cadenciadas dos cascos do cavalo de Conn e o grito solitário e distante de uma andorinha-do-mar. Quando Conn saiu da estrada e se meteu por um terreno encharcado, começou a cair um chuvisco. A última claridade do dia desapareceu enquanto ele punha o cavalo em trote e adentrava no arvoredo mais espesso pelo emaranhado de trepadeiras e folhagens. Aconchegou a capa contra si enquanto o cavalo avançava com cuidado por entre a mata. A fúria corria em círculos dentro da sua cabeça. Reagia ao gelo do ar como se outra pessoa estivesse com frio e fosse seu dever agasalhar esse mortal. A imagem de Kevin sem vida parecia gravada no seu cérebro por um ferro em brasa. O Kevin outrora exuberante e irascível, imóvel e a escorrer sangue. O seu corpo teria que ser amortalhado, entregue ao seu clã pelo Fianna como uma triste recordação do juramento feito quando se juntou às suas fileiras: Juraram aceitar a morte ou a incapacitação de Kevin sem pedir satisfações e sem vingança, excepto a que os seus irmãos guerreiros quisessem levar a cabo. A escuridão da raiva borbulhou nas veias de Conn. Mal saiu da floresta e entrou num prado, mandou o cavalo galopar». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/Gplaneta/JDACT

JDACT, Teresa Medeiros, Literatura, Irlanda,

quarta-feira, 23 de março de 2022

A Conquistadora. Teresa Medeiros. «Para que fez aquilo?, perguntou Conn enquanto se sentava no trono. Não gosto de O’Caflin. O olhar dele não me inspira confiança. Já que é tão bom para avaliar pessoas, diga-me, qual é a sua opinião sobre mandarmos Kevin lutar?»

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«(…) Um soldado bem-apanhado de olhos castanhos juntou a sua voz ao coro: Somos ou não o povo que empurrou Eoghan Mogh, o inimigo de Erin, para sul, para uma terra tão negra e árida como a sua alma? Os malabaristas começaram a atirar as suas maçãs douradas ao ar, uma a uma. E os romanos estão ou não receosos de pôr os pés nas nossas praias, com medo que os enviemos de volta, em lágrimas, às suas deusas da guerra?, gritou uma camponesa esquelética. Dois dos poetas começaram a contar em uníssono a história de Macha Mong Ruad, a amazona de cabelos cor de fogo, filha de Red Hugh. A sala alterou-se, os olhos brilharam de esperança. Por todo o salão ergueram-se taças em brindes às proezas de Kevin, à generosidade de Conn e aos sonhos de uma nova nação baseada na honra e no cavalheirismo. Conn esperou que o trapézio parasse de balançar, arrancou dele o pequeno homem e com cuidado colocou-o de pé no chão. Caminharam juntos até ao trono, mas Nimbus parou uma vez para puxar o cabelo de um soldado louro mal-encarado que o seguia com olhos semicerrados enquanto esfregava a cabeça dolorida.

Para que fez aquilo?, perguntou Conn enquanto se sentava no trono. Não gosto de O’Caflin. O olhar dele não me inspira confiança. Já que é tão bom para avaliar pessoas, diga-me, qual é a sua opinião sobre mandarmos Kevin lutar?, perguntou Conn, afagando a barba. Nimbus encarrapitou-se no braço do trono e afagou o queixo numa imitação perfeita do rei. Desviando-se da mão distraída de Conn, respondeu: A criatura é apenas um homem e não um monstro ou um gigante. Um homem capaz de matar sozinho, quatro membros do Fianna? Não me faça rir, Nimbus. Além disso, continuou Nimbus como se ninguém o tivesse interrompido, creio que o homem é aliado de Eoghan Mogh, enviado para antagonizá-lo e nos distrair a todos. Mer-Nod, que tinha ouvido tudo quando avançou para se encostar à parede, disse: Eoghan Mogh fugiu para o Sul como uma criança, para junto dos que o criaram. Não vai dar-nos trabalho durante algum tempo. Conn soltou uma gargalhada de desprezo. Há quem diga que ele construiu um reino no Sul e planea atacar Tara. No estado em que o deixei, não deve conseguir arranjar ouro nem para erguer uma tenda. Nimbus deslizou do trono e, com um ar travesso, começou a arrancar penas do manto de Mer-Nod. Conn fechou os olhos e recostou-se no trono.

Conta-me uma história, Mer-Nod. Estou cansado e preciso ouvir falar em coisas gloriosas. Quando abriu a boca para responder, Mer-Nod sentiu alguém puxar repetidamente pela parte posterior da sua túnica. Virou-se e lançou a Nimbus um olhar furioso quando o viu reaparecer com uma mão-cheia de penas vermelhas e douradas. Que os deuses o amaldiçoem, raquítico. Larga a minha capa! Conn sorriu e Mer-Nod, que se orgulhava da sua aparência digna, começou a correr em volta do trono, atrás de Nimbus que ria à gargalhada. Uma corneta tocou no exterior do baluarte, interrompendo o ímpeto assassino de Mer-Nod, bem como qualquer outra actividade no salão. As mãos de Conn fecharam-se, implacáveis. Nimbus deu meia volta, retomou a sua posição contra a parede e, com esforço, deu ao seu rosto uma expressão indiferente. Várias maçãs douradas caíram ao chão quando um malabarista se virou para a porta. Os poetas calaram-se no meio dos seus versos, com as suas histórias abortadas no meio da batalha. As crianças que por ali corriam foram imobilizadas pelas mãos das suas mães. Conn levantou-se enquanto as duas partes da porta maciça se abriam de rompante. Um véu protector baixou para lhe esconder os olhos. Como um prado soalheiro escurecido por uma grande nuvem de trovoada, o rosto dele fechou-se numa máscara ilegível. À porta estavam um homem e uma mulher cobertos de suor e imundície. Eram corredores, atletas lendários capazes de dar a volta à ilha de Erin num só dia. A mulher saiu e quando reapareceu, após vários minutos depois, a causa da sua demora tornou-se dolorosamente evidente. Voltou conduzindo um cavalo para o meio da sala. No seu dorso malhado, Kevin O’Artagain fizera a sua derradeira cavalgada. Um soluço abafado irrompeu da multidão e uma jovem caiu ao chão num desmaio fatal. O corpo de Kevin jazia perpendicular ao dorso do cavalo com uma espessa camada de sangue colada ao seu cabelo ruivo. As manchas cor de ferrugem contrastavam vivamente com a palidez da morte. A cabeça retorcia-se para um lado; os olhos fitavam o vazio enquanto o cavalo avançava para o centro do salão. Os que estavam mais próximos estremeceram e recuaram um passo, imaginando o que teriam, aqueles olhos aterrorizados, visto pela última vez. A borda esfarrapada de uma ferida abria-lhe as costas no ponto em que a espada tinha deixado o seu coração. Vários membros do Fianna pensaram ter ouvido o eco do riso de Kevin nos corredores das suas memórias. Com as mãos trémulas, um soldado que observava o sinistro desfile esvaziou a sua cerveja de uma só vez». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/Gplaneta/JDACT

JDACT, Teresa Medeiros, Literatura, Irlanda,

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

A Conquistadora. Teresa Medeiros. «A tensão quebrou-se e as gargalhadas encheram o salão. Um sorriso largo estampou-se no rosto de Conn, que avançou para o meio da multidão»

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«(…) Não era homem de esconder as suas emoções, e se o encostavam à parede seus olhos azuis escureciam, brilhantes e impenetráveis como pedras preciosas. Chamavam-lhe Conn, das Cem Batalhas e varrera a ilha de Erin como o fogo numa floresta, unificando e conquistando até ter toda a região sob o seu jugo. Mer-Nod permitiu que um sorriso raro se desenhasse nos seus lábios. A caminhada de Conn rumo ao trono foi interrompida por apertos de mãos, palmadas nas costas e um ou outro beijo a uma criança obrigada por alguém a encostar o rosto ao seu.

Conn piscou um dos olhos a Mer-Nod quando chegou à cadeira do juiz. Para quê esse ar taciturno, poeta! Renuncio aos seus impostos em troca de um sorriso genuíno. Em pé diante do trono, ergueu os braços cumprimentando o povo. De imediato o salão se calou. Apenas o choro estridente de um bebé rompia o silêncio. Todos os olhares se concentraram em Conn, que declarou: os mensageiros aproximam-se pelo norte. Devem chegar dentro da próxima hora. Trazem as notícias que aguardamos. As vozes subiram de tom, depois voltaram a silenciar-se enquanto ele deixava a estreita plataforma e caminhava para trás e para frente diante do trono. Vejo muitos rostos assustados. Parou para lançar à multidão um olhar acusador, mas logo retomou as suas passadas. Puseram-nos perante um grande desafio..., um dragão ávido dos nossos espíritos. Desejoso de destruir os nossos homens, mas também as nossas vontades. Conn virou-se para a multidão, as mãos tocando levemente os quadris. A questão é..., vamos deixá-lo ser bem sucedido nas suas tentativas?

Na fila da frente, uma mulher mordeu nervosa o lábio inferior, e dois soldados entreolharam-se, de pé no chão abaixo do rei. Uma voz nasalada, por cima da multidão, fez-se ouvir: e a resposta é... Todos os olhos, incluindo os de Conn, se viraram para ele. Acima da parede via-se uma prateleira estreita e empoeirada, nessa plataforma um anão agarrava um trapézio pendurado no tecto. A multidão suspirou em uníssono quando o pequeno homem deixou graciosamente o seu poleiro com os joelhos dobrados em volta da barra do trapézio. De pernas para o ar, quase bateu com a cabeça nas dos homens mais altos do Fianna. Terminou a sua frase com uma careta: ... não, pelo menos enquanto eu for vivo!

A tensão quebrou-se e as gargalhadas encheram o salão. Um sorriso largo estampou-se no rosto de Conn, que avançou para o meio da multidão. Quando o anão voltou a passar por ele, Conn puxou o trapézio e virou para si o corpo do acrobata. Em nome de Behl, que esta fazendo, Nimbus?, perguntou. Tendo perdido o chapéu devido à precariedade da posição em que se encontrava, o bobo arrancou um do homem que estava mais próximo. Excelência, que maravilhosa surpresa! A multidão rompeu às gargalhadas enquanto Conn torcia o trapézio com uma lentidão agonizante.

Rendo-me!, gritou Nimbus. Estes súbditos leais de vossa excelência podem ficar revoltados se eu despejar em cima das cabeças deles a sopa de feijão que comi ao almoço. Vários homens e mulheres fugiram correndo da terrível ameaça. A única coisa revoltante aqui é você, retorquiu Conn, puxando o anão pelas orelhas até o ter de novo à sua frente. Nimbus encostou-se ao ouvido de Conn e segredou: receei que estivesse perdendo a atenção deles, excelência. Só quis ajudar. Conn respondeu no mesmo tom: sempre é melhor do que fingir que estava enforcando-se como fez da outra vez. Eu quase tive uma apoplexia. Sem pré-aviso, empurrou o trapézio, que balouçou de novo fazendo Nimbus guinchar.

Conn gritou à multidão: embora me custe admiti-lo, o bobo tem razão. O nosso espírito tem de triunfar. Desviou-se para evitar que Nimbus lhe puxasse pelo nariz quando o trapézio voltou a passar por ele. Os aplausos não se fizeram esperar. Um homem, identificado como talhante pelo avental amarrotado e ensanguentado, ergueu a voz e a taça: civilizamos este país! As aclamações transformaram-se num bramido». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/GPlaneta/JDACT

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Teresa Medeiros. A Conquistadora. «Assentou um pé na cadeira e olhou por cima da multidão. Uma pequena onda de ansiedade atravessava o ar agreste como as lâminas reluzentes enfiadas nas bainhas dos homens…»

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«(…) O dia estava cinzento, tão sombrio e calmo como os rostos que enchiam o salão da entrada. As nuvens que se acumulavam no céu do fim da tarde prometiam chuva; a tensão pairava no ar e não parecia querer desaparecer tão cedo. Mer-Nod franziu o sobrolho, vincando mais as rugas que lhe marcavam a testa, enquanto contemplava a rara tristeza que se abatera sobre a corte naquele dia melancólico. Não se ouviam vozes arrebatadas discutindo. Não se ouviam gargalhadas, música, as histórias dos poetas. Uma espessa camada de apreensão pousava sobre as línguas das pessoas, reduzindo centenas de vozes a um murmúrio. Os poetas sentavam-se aos pés de Mer-Nod, identificando-o como o seu chefe apesar do seu silêncio. Encostadas às paredes de teixo macio, as harpas continuavam por tocar, como brinquedos esquecidos. Pelo salão circulavam criados que enchiam as taças de cerveja e os ouvidos de boatos. Com a cabeça inclinada para trás e os olhos fechados numa prece muda a Morigu, um malabarista sentado no chão de pernas cruzadas embalava as nove maçãs douradas que tinha no colo.

Mer-Nod puxou para trás o cabelo longo e escuro que lhe caía sobre os ombros. Madeixas grisalhas emolduravam-lhe o rosto, suavizando a severidade do seu nariz aquilino e dos seus olhos escuros e penetrantes. Um lábio inferior carnudo contradizia a solenidade do queixo proeminente, onde despontava a barba grisalha de um dia. Assentou um pé na cadeira e olhou por cima da multidão. Uma pequena onda de ansiedade atravessava o ar agreste como as lâminas reluzentes enfiadas nas bainhas dos homens, que se empertigavam em todos os pontos de observação do salão. Nos seus rostos queimados pelo sol desenhavam-se as linhas finas que só o vento sabe gravar. Gibões justos sem mangas expunham corpos sólidos e musculosos sem um grama de gordura. Os guerreiros espalhavam-se pelo salão de entrada, alguns fazendo a corte às jovens, outros conversando em voz baixa com camponeses e pastores. Quando atravessaram o salão, foram recebidos com palmadinhas nas costas e palavras de estímulo da multidão que abrira caminho para lhes dar passagem. Eram os membros do Fianna, os protectores e adoradores de Erin. Guerreiros e caçadores, que percorriam a ilha fazendo amor e criando lendas a cada hora dos seus dias errantes. E agora muitos deles morriam, um a um, os seus corpos mutilados apodrecendo na humidade dos bosques.

Mer-Nod suspirou e fechou os olhos, sabendo que assim ninguém ousaria dirigir-lhe a palavra. Todos partiriam do princípio de que ele estava compondo. Como gostaria de agradar-lhes! A sua mão ansiava por uma pena. Que história vitoriosa haveria sobre a vitória de Kevin sobre o monstro! Já fazia planos para a métrica da peça, os dedos longos martelando o compasso no braço de carvalho da sua cadeira. À porta, o burburinho subia de tom e as pessoas empurravam-se umas às outras numa grande excitação, dando passagem ao rei, que ia participar com eles na vigília. Os rostos fechados de tanta inquietação abriram-se em sorrisos encorajadores, não se atrevendo a mostrar medo ao homem que com eles se misturava. As suas passadas eram longas e seguras. Substituíra o traje de cerimónia por uma túnica curta, semelhante à usada pelos seus soldados. Com um metro e oitenta, tinha a altura mínima requerida para entrar no Fianna. O seu corpo era musculoso e uma graciosidade leonina caracterizava cada movimento.

Um ou outro fio branco crescia obstinado na cabeleira escura e cacheada. O seu rosto atraía as atenções. Olhos azul-escuros rodeados por uma espessa franja de cílios espreitavam por trás da madeixa de cabelo que ameaçava escondê-los. O nariz era recto, não fino o suficiente para ser considerado aristocrático. Uma barba escura cobria-lhe o queixo, em volta dos lábios cheios. A boca alargava-se num sorriso juvenil que deslumbrava os seus cortesãos; uma boca que se reduzia a um traço quando comandava seus homens numa batalha». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/GPlaneta/JDACT

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quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

A Conquistadora. Teresa Medeiros. «Continuou, avançando lateralmente, como um caranguejo aleijado, sempre de costas para a parede. Uma tocha muitíssima grande ao fundo da gruta incendiou-se com o estalido de uma pequena explosão»

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«Mais de mil anos antes de sir Thomas Malory imortalizar a lenda do rei Artur e de seu Camelot, um reino emergiu das brumas da Irlanda, um reino fundado na coragem, na honradez e nos sonhos de um homem. Conn, das Cem Batalhas derrotou o seu rival, Cathair Mor, e unificou a Irlanda sob uma só coroa. Os talentos do guerreiro Conn precederam a sua reputação como estadista e rei. Depois de fixar o trono em Tara, Conn dedicou-se à criação de uma legião de guerreiros chamada de Fianna, à qual se deve uma era gloriosa de proezas admiráveis. Pela primeira vez na história da Irlanda, homens ajoelharam-se diante do seu rei para tomar os votos da cavalaria, conquistando o coração e o espírito do povo irlandês durante séculos sucessivos. Mestres no amor e na guerra, Conn e o seu Fianna ainda hoje são celebrados na poesia, na lenda, na canção, bem como no romance A Conquistadora, a história de um rei poderoso e de uma jovem que, com o seu amor, o levou a pôr a prova tudo aquilo em que acreditava...» In Nota

«Kevin O’Artagain entrou na gruta desembainhando a espada com as mãos trémulas. A vergonha misturou-se com o medo quando recordou o juramento feito perante o seu rei. Por menores que fossem as probabilidades de vitória, a sua arma nunca devia estremecer nas suas mãos. Se os seus camaradas de armas o vissem agora, ficariam incrédulos dos seus membros vacilantes. Tinham-no visto atacar selvagemente homens e feras, de dentes cerrados e sorriso gozador nos lábios. Mais alto do que a maioria dos seus adversários, não era homem com que muitos gostassem de se deparar na escuridão. E ali estava ele no corredor sombrio da gruta, sentindo um formigar no couro cabeludo enquanto o suor lhe escorria por entre as tranças, gelado e serpenteante. O medo brilhava nos seus olhos; as sombras projectadas pelas tochas agigantavam-se nas paredes.

Continuou, avançando lateralmente, como um caranguejo aleijado, sempre de costas para a parede. Uma tocha muitíssima grande ao fundo da gruta incendiou-se com o estalido de uma pequena explosão. Virou para baixo a sua arma, saltou para o centro do corredor e agachou-se atrás de uma pedra que chegava ao tecto. A luz exuberante revelou o que o aguardava. O vazio negro que sentia no estômago aumentou de volume, ameaçando deixá-lo aterrorizado. O espectro perseguia-o silencioso, ágil, traçando sombras funestas nas paredes de pedra. Um capuz de carrasco escondia-lhe as feições. Olhos verdes faiscavam nas pontas do capuz como uma ilusão óptica, levemente vista e depressa desaparecendo. A espada maciça na mão enluvada da demoníaca aparição aproximou-se da rocha atrás da qual Kevin se acocorou, num convite medonho. Kevin fechou os olhos e pensou nos quatro homens que ali tinham entrado antes dele. Quatro guerreiros mortos atirados para o exterior, onde apodreceram como legumes nauseabundos sobre o musgo do bosque.

A fúria começou a acumular-se, tomando o lugar do medo paralisante. Começou no dedo pequeno do pé e subiu por ele acima como uma planta já adulta. Forneceu aos seus membros o amparo de que precisavam para devagar se endireitarem, permitindo-lhe deixar o abrigo improvisado e enfrentar o demónio. Um sorriso temerário entortou-lhe os lábios. Empunhando a espada com as duas mãos, avançou e aparou o primeiro golpe perverso da arma brandida pelo seu inimigo. A volumosa capa negra que embrulhava o monstro dançava a cada investida; Kevin sentiu-se pequeno. A destreza que exibia como uma medalha de honra só servia para transformar o martírio num pesadelo projectado em câmara lenta no espaço mal iluminado. A criatura atingiu-o, rasgando mais um pouco de carne macia, deixando à vista músculo, tecido e uma torrente de sangue que engrossava continuamente.

A tocha ao fundo da gruta faiscou quando Kevin O’Artagain, guerreiro do rei, se baixou numa tentativa de impedir que o movimento rápido da espada lhe furasse o esterno e deixasse no peito um fogo impiedoso. Num gesto de desespero, agarrou no aço fino da lâmina. Apertou-o com a força necessária para que ele lhe cortasse os dedos da mão direita enquanto lia a inscrição gravada no cabo de ouro polido, Vingança. A espada soltou-se das suas mãos com facilidade. A última imagem que ficou marcada no seu cérebro moribundo foi a da criatura que se encontrava à sua frente retirando-se com uma graciosidade rara e caiu sobre o abdómen. O último som que ouviu antes dos seus olhos se fixarem na expressão da morte foi a doce ondulação da gargalhada de uma menina». In Teresa Medeiros, A Conquistadora, 1998, Planeta Manuscrito, Grupo Planeta, 2010, 2014, ISBN 978-989-657-517-5.

Cortesia de PManuscrito/GPlaneta/JDACT

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