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quarta-feira, 5 de junho de 2019

Os Dias da Febre. João Pedro Marques. «Carlos sentiu-se, então, importante, inchado, cheio de si. Essa seria, porém, a sua única façanha militar, pois permaneceu o resto da guerra no Porto…»

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Carlos Cabral
«(…) Após alguns meses de observação dos esforços dos invasores para se manterem à superfície no enclave do Porto, Carlos Cabral decidiu surpreendentemente juntar-se ao Batalhão Académico ou a outra das unidades militares que defendiam a cidade dos ataques absolutistas. Fê-lo contra a opinião quase unânime de amigos e familiares: vais meter-te na boca do lobo, Carlos. Acho que não, meu pai, teimou ele. Ao contrário do que parece, os liberais não estão condenados. Pensa bem, rapaz, insistiu o pai, muito apreensivo. O Porto está sitiado há meses. Eles têm falta de mantimentos, de pólvora e de munições. Vais meter-te na boca do lobo, digo-to eu. Mas Carlos Cabral era um incurável obstinado e em Fevereiro de 1833 pôs-se à frente de um pequeno grupo de voluntários que queriam juntar-se aos combatentes liberais. Compraram um barco de pesca na Figueira da Foz e rumaram em direcção ao Porto, entrando de noite, de vela arreada e em rigoroso silêncio, pela foz do Douro. Contudo, o chapinhar dos remos na água despertou as sentinelas miguelistas. A noite de lua nova iluminou-se de repente com foguetes lançados da margem sul e os miguelistas romperam fogo sobre a embarcação. Uma bala de canhão caiu à proa do pequeno barco, levantando um cachão de água que encharcou os ocupantes e lançou o pânico entre eles. Vários remadores largaram os remos numa aflição desorientada e um deles atirou-se ao rio.
Ninguém foge, todos remam, todos remam, bradou Carlos, que ia ao leme e marcava a cadência da remada. Nesse momento, as baterias da margem norte abriram fogo, respondendo aos miguelistas, e graças aos clarões que rasgavam o breu da noite, e aos chamamentos dos populares que os acompanhavam da margem, Carlos conseguiu aportar à Cantareira sob os vivas dos soldados liberais. Apesar da perícia e rapidez da sua manobra, dois dos voluntários tinham morrido e havia vários feridos, entre os quais ele próprio, atingido superficialmente numa perna e, mais gravemente, na zona do cotovelo. A dor era a tal ponto lancinante que nem chegou a perceber que o aclamavam como herói. Durante dias falou-se no Porto da sua coragem e do sangue-frio que demonstrara debaixo de fogo, e muitos amigos dos seus tempos de Coimbra vieram vê-lo ao hospital para lhe darem as boas-vindas ao ninho liberal e desejarem rápidas melhoras.
Carlos sentiu-se, então, importante, inchado, cheio de si. Essa seria, porém, a sua única façanha militar, pois permaneceu o resto da guerra no Porto, mas não chegou a combater. A recuperação do cotovelo foi demorada e não inteiramente bem-sucedida, nunca mais conseguiu a extensão completa no braço direito, e quando terminou a longa convalescença já os miguelistas, derrotados no Lordelo, tinham levantado o cerco à cidade. O principal teatro de guerra rumara para o sul, mas Carlos não o acompanhou: manteve-se na guarnição do Porto. Se a estada na cidade não lhe garantiu a glória militar, permitiu-lhe, ainda assim, reatar antigos laços das tertúlias coimbrãs e adubar novas relações sociais. Foi durante esse período que se tornou amigo de João Lobo Sabrosa, um homem um tanto mais velho, que se exilara durante anos em Londres e com quem partilhava o gosto pelo jogo». In João Pedro Marques, Os Dias da Febre, Porto Editora, 2010, ISBN 978-972-004-098-5.

Cortesia de PEditora/JDACT

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

Os Dias da Febre. João Pedro Marques. «Pensa bem, rapaz, insistiu o pai, muito apreensivo. O Porto está sitiado há meses. Eles têm falta de mantimentos, de pólvora e de munições»

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Carlos Cabral
«(…) Após alguns meses de observação dos esforços dos invasores para se manterem à superfície no enclave do Porto, Carlos Cabral decidiu surpreendentemente juntar-se ao Batalhão Académico ou a outra das unidades militares que defendiam a cidade dos ataques absolutistas. Fê-lo contra a opinião quase unânime de amigos e familiares: vais meter-te na boca do lobo, Carlos. Acho que não, meu pai, teimou ele. Ao contrário do que parece, os liberais não estão condenados. Pensa bem, rapaz, insistiu o pai, muito apreensivo. O Porto está sitiado há meses. Eles têm falta de mantimentos, de pólvora e de munições. Vais meter-te na boca do lobo, digo-to eu. Mas Carlos Cabral era um incurável obstinado e em Fevereiro de 1833 pôs-se à frente de um pequeno grupo de voluntários que queriam juntar-se aos combatentes liberais. Compraram um barco de pesca na Figueira da Foz e rumaram em direcção ao Porto, entrando de noite, de vela arreada e em rigoroso silêncio, pela foz do Douro. Contudo, o chapinhar dos remos na água despertou as sentinelas miguelistas. A noite de lua nova iluminou-se de repente com foguetes lançados da margem sul e os miguelistas romperam fogo sobre a embarcação. Uma bala de canhão caiu à proa do pequeno barco, levantando um cachão de água que encharcou os ocupantes e lançou o pânico entre eles. Vários remadores largaram os remos numa aflição desorientada e um deles atirou-se ao rio.
no Lordelo, tinham levantado o Ninguém foge, todos remam, todos remam, bradou Carlos, que ia ao leme e marcava a cadência da remada. Nesse momento, as baterias da margem norte abriram fogo, respondendo aos miguelistas, e graças aos clarões que rasgavam o breu da noite, e aos chamamentos dos populares que os acompanhavam da margem, Carlos conseguiu aportar à Cantareira sob os vivas dos soldados liberais. Apesar da perícia e rapidez da sua manobra, dois dos voluntários tinham morrido e havia vários feridos, entre os quais ele próprio, atingido superficialmente numa perna e, e do sangue-frio que demonstrara debaixo de fogo, e muitos amigos dos seus tempos de Coimbra vieram vê-lo ao hospital para lhe darem as boas-vindas ao ninho liberal e desejarem rápidas melhoras. Carlos sentiu-se, então, importante, inchado, cheio de si. Essa seria, porém, a sua única façanha militar, pois permaneceu o resto da guerra no mais gravemente, na zona do cotovelo. A dor era a tal ponto lancinante que nem chegou a perceber que o aclamavam como herói. Durante dias falou-se no Porto da sua coragem Porto, mas não chegou a combater. A recuperação do cotovelo foi demorada e não inteiramente bem-sucedida, nunca mais conseguiu a extensão completa no braço direito, e quando terminou a longa convalescença já os miguelistas, derrotados no Lordelo, tinham levantado o cerco à cidade. O principal teatro de guerra rumara para o sul, mas Carlos não o acompanhou: manteve-se na guarnição do Porto.
Se a estada na cidade não lhe garantiu a glória militar, permitiu-lhe, ainda assim, reatar antigos laços das tertúlias coimbrãs e adubar novas relações sociais. Foi durante esse período que se tornou amigo de João Lobo Sabrosa, um homem um tanto mais velho, que se exilara durante anos em Londres e com quem partilhava o gosto pelo jogo, Carlos assumira a opção liberal no momento certo, arriscara a vida para entrar na cidade, mas encontrava-se agora do lado dos previsíveis vencedores, o que, no futuro, lhe abriria certamente muitas portas.
No fim do conflito, herdou uma confortável posição económica devido à morte quase em simultâneo do pai e de um tio sem filhos que lhe deixou o muito que possuía. Dos imóveis, conservou apenas a casa na Serra de Aire e desfez-se do resto. As propriedades que tinham boas terras de semeadura, bons pomares de caroço, abundância de água, grandes hortas e olivais, venderam-se facilmente. A Quinta do Lírio, com a sua casa nobre e a ermida, também foi depressa, e rendeu bom dinheiro. Outras terras foram mais difíceis de passar, mas acabaram por se vender, quando Carlos já estava em Lisboa à procura de oportunidades financeiras e políticas. Rápido a detectar e a aproveitar os bons negócios, suficientemente novo e endinheirado para arriscar, investiu em actividades muito lucrativas, mas pouco nobres, como a agiotagem, por exemplo». In João Pedro Marques, Os Dias da Febre, Porto Editora, 2010, ISBN 978-972-004-098-5.

Cortesia de PEditora/JDACT

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Os Dias da Febre. João Pedro Marques. «Alguns dias depois, as tropas do Porto revoltaram-se contra o usurpador, mas a revolta foi esmagada»

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Carlos Cabral
«(…) Sim, isso é verdade, reconheceu Carlos, fixando os olhos na bola e desferindo uma tacada seca e certeira. Eu não nego que possa haver um perigo para as liberdades, mas esse perigo parece-me distante. O perigo é iminente, disse, quase num brado, o que primeiro falara. Para já, quero concentrar-me no meu curso, continuou Carlos, como se não tivesse ouvido o amigo. Se o perigo que tanto receiam se concretizar, então eu juntar-me-ei ao Batalhão Académico. Mas não o fez, no imediato, ainda que o perigo se tivesse materializado, como os amigos temiam. O infante Miguel dissolveu a câmara dos Deputados e, depois, convocou cortes à moda antiga, que o confirmaram como rei, assim se consumando a usurpação e o fim do que restava do liberalismo (a Câmara dos Deputados foi dissolvida em Março de 1828 e as Cortes convocadas em 6 de Maio desse ano). Alguns dias depois, as tropas do Porto revoltaram-se contra o usurpador, mas a revolta foi esmagada. Derrotados pelos miguelistas e desmoralizados pela deserção da maior parte dos seus chefes, que fugiram para Inglaterra a bordo do navio Belfast, os homens que formavam o exército liberal passaram para a Galiza e foi só a muito custo, e no meio de grandes provações, que conseguiram seguir para França ou Inglaterra, onde já estavam vários refugiados portugueses.
Carlos Cabral seguiu todos estes acontecimentos à distância, assistindo à desorganização que minara o esforço e a coesão dos liberais. Lamentou os colegas que partiam em condições difíceis para um exílio cuja duração era indeterminada. Mas, interiormente, felicitou-se pela clarividência e o bom senso que o tinham levado a permanecer em Coimbra, apostando na finalização da sua formação jurídica e resistindo a um mar avisado impulso romântico que o teria condenado ao exílio ou a pior sorte. Sabia, claro, que os amigos lhe reprovavam a falta de generosidade. Inicialmente, essa reprovação incomodara-o por sentir, lá no íntimo, que era justificada e durante meses perguntara a si próprio se teria uma deficiência, uma lacuna da alma, que o inferiorizasse perante os outros. Mas esse sentimento de possível inferioridade durara pouco. Carlos rapidamente percebeu que a suposta lacuna era, na verdade, uma vantagem, uma superioridade relativamente a todos os que se perdiam em exaltações e melancolias.
O fim dos seus estudos coincidiu com o reinício da guerra no território português. Efectivamente, após quatro anos de exílio, os liberais tinham obtido um comandante na pessoa de Pedro, que abdicara da Coroa brasileira, algum dinheiro, uma pequena esquadra e um número de homens suficiente para desembarcarem perto do Porto e ocuparem a cidade, o que fizeram no Verão de 1832 (o desembarque no Mindelo e ocupação do Porto ocorreu a 9 de Julho de 1832). Contudo, este primeiro triunfo não teve sequência e os liberais ficaram enquistados no Porto porque o resto do país não se levantou em seu auxílio». In João Pedro Marques, Os Dias da Febre, Porto Editora, 2010, ISBN 978-972-004-098-5.

Cortesia de PEditora/JDACT 

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «… um tal Leonardo, o homem que tinha assassinado o marquês de Loulé à paulada, em Salvaterra de Magos, ao que constava…»


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O Mistério da Foz
«(…) Ora, esse era um sentimento perigoso, à época, e trouxe-lhe grandes dissabores. O primeiro deles foi uma pendência com um tal Leonardo, o homem que tinha assassinado o marquês de Loulé à paulada, em Salvaterra de Magos, ao que constava, a mando ou com a anuência do próprio infante Miguel. O crime horrorizou os homens bem formados mas nada se fez para o castigar, até ao dia em que o tal Leonardo, convencido da sua impunidade, decidiu gabar-se do que fizera à porta de uma taberna e Mateus, que por ali passava em patrulha, lhe deu voz de prisão. O homem resistiu, armou zaragata, mas foi dominado e arrastado até ao quartel da Rua do Salitre.
Aquela acção policial foi louvada pelos superiores e pela imprensa liberal, porém, logo se moveram influências na penumbra dos gabinetes e Leonardo foi solto. Nas semanas seguintes Mateus teve por diversas vezes de se bater para escapar a emboscadas que lhe armavam nas vielas de Lisboa. Numa delas foi ferido por uma feia punhalada, perdeu muito sangue e esteve várias semanas hospitalizado. Ainda que tivesse conseguido salvar a vida, ficou bem ciente de que era uma pessoa marcada para os partidários do então exilado Miguel. E era-o numa cidade onde matar um homem se fazia por dez réis de mel coado.
Essa evidência devia ter feito dele uma pessoa mais discreta e cautelosa. Mas Mateus tinha no cumprimento do dever a bússola orientadora da sua vida e não mudou de atitude nem de caminho. De volta ao serviço continuou a actuar contra as violências e os abusos, viessem de onde viessem. Até certa altura, os sucessivos comandantes da Guarda, que estimavam o seu zelo e a sua rectidão salomónica, deram cobertura aos seus actos, mas em 1828 tudo isso mudou quando Miguel, regressado a Portugal, usurpou o trono e dissolveu as Cortes. A violência ganhava asas, o cacete fervia nas ruas, e começaram a multiplicar-se pelo reino fora as agressões aos malhados (liberais), as suas prisões arbitrárias e, até, as suas execuções. O tio de Trancoso, um dos mais notórios liberais da Beira, foi preso, os seus bens confiscados e acabou por morrer na prisão de Almeida.
Mateus sentiu a morte do tio como uma nova tragédia na sua vida, todavia não quis entendê-la como um sinal de alarme. Ao invés de muitos outros liberais que fugiram do reino, ele recusou a emigração não porque tivesse medo da vida noutro país, mas porque o dever lhe impunha que permanecesse ali. Não sabia ao certo que dever era esse. Talvez uma obrigação para com a imagem que tinha de si próprio; talvez o respeito da memória e da vontade do tio. O facto é que ficou num Portugal onde já não havia espaço para pessoas como ele. Temerário e teimoso, voluntariamente indiferente às nuvens negras que se acumulavam no horizonte, persistiu na sua já lendária rectidão e foi castigado por viárias vezes, despromovido para o posto de tenente e transferido para o Porto, onde não voltara desde a tragédia da Ponte das Barcas.
Chegou à cidade na manhã em que se enforcavam dez liberais. As forcas tinham sido levantadas na Praça Nova e os tambores rufavam, cavernosos, tenebrosos, chamando as pessoas ao suplício. Estava um dia cinzento e caía uma chuva miudinha, que não demovia o povo imenso que se juntara na praça, seguindo tudo com olhos ávidos e cruéis. Na orla daquele recinto apinhado dezenas de senhoras guarneciam as janelas de primeiro e segundo andar, espreitando por detrás de leques, num misto de horror e de curiosidade mórbida.
E Mateus ali ficou a cumprir a sua primeira missão policial no Porto, de dentes cerrados, com a roupa encharcada colada ao corpo, maldizendo a sua índole demasiado respeitadora da lei e a estúpida escolha da carreira militar. Foi nesse estado de desconforto físico e de revolta interior que viu os condenados descerem da Relação, em cortejo, carregando as tumbas da Misericórdia que lhes acolheriam os cadáveres. Lenta e metodicamente as forcas desempenharam a sua negra função e à uma da tarde a tragédia estava consumada. Depois de mortos, as cabeças dos enforcados foram separadas do tronco para serem pregadas e expostas em postes altos, como ele já vira fazer em Lisboa aos estudantes enforcados no Cais do Tojo. E, ao presenciar aquele espectáculo macabro, sentiu uma angústia indizível». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Mateus Vilaverde acabou por ganhar um asco visceral aos corcundas (forma como os liberais se referiam aos miguelistas) e à sua violência infrene»

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O Mistério da Foz
«(…) Fosse por que razão fosse, deu esse passo com tal entusiasmo e empenho que, um ano volvido, já cingia uma banda de alferes. Nesse primeiro momento de recompensa, Mateus congratulou-se por ter dado aquele rumo à sua vida. Era, então, muito atraído pelo luzimento da vida militar e o brio e o mérito com que desempenhava as missões de que o incumbiam, fizeram com que, em breve, chegasse a tenente e, alguns anos depois, a capitão, o mais jovem capitão do regimento. Como prémio pelos bons serviços prestados foi transferido para a Guarda Real de Polícia, ficando a comandar a 4.a Companhia, à qual cabia a patrulha da parte norte de Lisboa e subúrbios.
Sentiu-se honradíssimo com aquele comando. Estavam na Guarda Real os melhores soldados, os mais fortes e mais firmes, e ele fez por merecê-los. Mas os tempos eram difíceis e os mares encapelados. Corria, então, a Primavera de 1822 e os dias revolviam-se na agitação política decorrente da revolução. O rei viera do Brasil no Verão anterior, mas a sua chegada não apaziguara o ódio entre realistas e constitucionais. Pelo contrário, acirrara-o pois na comitiva que, acompanhava o monarca vinham muitos inimigos do espírito liberal, como dona Carlota Joaquina, a megera de Queluz, ou o infante Miguel, que cedo se tornou o chefe da contra-revolução. E, com os meses a passar, o inevitável braço-de-ferro começou a pender para os miguelistas, o que Mateus muito lamentou, ainda que não fosse um liberal assumido. A bem dizer, a política nunca lhe interessara. Na idade em que muitos dos seus camaradas de armas já tinham paixões e convicções ele tinha apenas vagas curiosidades e nenhuma comoção política parecia suficientemente forte para provocar vibrações nos seus nervos. Em seu redor os países explodiam em revoluções e pronunciamentos, os povos reivindicavam liberdades, igualdades, sufrágios, constituições, muitos dos seus colegas liam e decoravam os discursos das assembleias, os escritos de Mirabeau e as doutrinas dos filósofos que preparavam as revoluções, mas ele não costumava perder tempo a pensar nisso. Para quê? Os homens eram todos falsos e venais, fossem eles absolutistas ou constitucionais, e ele já vira como até as mais generosas ideias liberais podiam alienar-se e transfigurar-se em armas tão impiedosas como as baionetas de Soult. A letra da lei era a única coisa em que podia depositar uma confiança cega e ele, um incréu, seguia a legislação civil e os regulamentos militares com uma devoção quase religiosa.
O tio dissera-lhe um dia: ser livre é ser amante da ordem e escravo da lei. Nós não somos livres à maneira dos tigres. Somos livres como homens racionais o devem ser: na obediência da lei, Mateus, na obediência da lei!
Mantivera essa máxima e as leis passaram a ser, a par dos sentimentos que o faziam superar-se ou comover-se, as únicas âncoras da sua existência. Coração e lei iam imprimindo os mapas muitas vezes contraditórios que orientavam os seus rumos; o resto pouco lhe interessava. Todavia, a luta política daqueles dias tumultuosos passava-se à sua frente, debaixo dos seus olhos, e era-lhe impossível não ver que os malhados (designação que os miguelistas davam aos liberais) procuravam seguir a lei e que os seus opositores a violavam e deformavam, sem olhar a meios. Foi, portanto, por razões morais e afectivas que Mateus Vilaverde acabou por ganhar um asco visceral aos corcundas (forma como os liberais se referiam aos miguelistas) e à sua violência infrene». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Mateus Vilaverde tinha nascido em 1800, ali mesmo no Porto. O pai, comerciante de largo trato, soubera erigir e manter uma casa farta…»

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O Mistério da Foz
«(…) Soltou um grito agudo quando um dos rapazes lhe acertou acidentalmente uma pedrada numa perna. Ai, canalha.., ides ver, ides ver, ameaçou, de punho cerrado. Mas logo retomou a sua conversa com Vilaverde: só se for a criada... Quem? A criada do senhor Bessa. Mora ali abaixo e estava prenhe. Dizem que está de cama. Está, está, confirmou alguém do grupo de vizinhos, que, entretanto, se acercara. Então, cá pra mim foi o amásio dela que fez este lindo serviço, sentenciou Eufrásia. Vilaverde assentiu com a cabeça e concluiu, virando-se para o cabo de polícia que o acompanhava: bom, já temos uma suspeita. Interroguem a criada. Eu não tenho mais nada a fazer aqui. Fez um aceno enquanto subia para a sela e já com o cavalo em andamento atirou um rápido cumprimentos ao senhor comissário, afastando-se sem olhar para trás.
O cabo arrebitou a arma e fez uma continência desajeitada. Era um homem esquelético e idoso que parecia deslocado, quase grotesco, naquele arremedo de saudação militar. Vilaverde lamentava aquela gente tosca que, sem remuneração alguma, se prestava a patrulhar as ruas infestadas de criminosos. E lamentava ainda mais os homens velhos que, ali no Porto, eram usados para o serviço da noite. Quando o sol se punha lá iam aqueles pobres de Cristo nas suas rondas, ao ritmo do seu passo arrastado e escudados nas suas armas ferrugentas, sem fechos nem pederneiras. Às vezes eram espancados e roubados. Ser cabo de polícia era um mau negócio para o bolso e para o corpo porque as isenções oferecidas pela lei não compensavam as agruras do serviço.
Os comissários de bairro também não ganhavam nada com a função, mas desses ele não tinha qualquer pena. Eram uns completos inúteis que o chamavam por tudo e por nada, para investigar e deslindar as coisas mais óbvias e comezinhas. Infelizmente não tinha outro remédio senão comparecer à chamada. Havia dois anos que estava, por ordem superior, em missão especial ao serviço da Polícia do Porto, subordinado ao Juiz do Crime e disponível para actuar em qualquer parte da cidade e arredores, da Campanhã até à Foz e da Ribeira à Igreja da Lapa. E que trabalho duro e insano, o seu! Para além da investigação criminal, no terreno, cabia-lhe verificar os relatos que periodicamente os comissários dos bairros enviavam à autoridade superior. Estava farto daqueles papéis ensebados, escritos com má caligrafia e fórmulas repetitivas, e ainda mais farto das vidas sórdidas que eles devassavam e expunham. Já tinha a sua conta de homens esfaqueados e de mulheres espancadas ou abusadas. Ainda anteontem vira morrer nos braços do facultativo a pequena Rosa, uma menina loura e triste que vivia na Bainharia. Dizia-se que o pai abusava dela e Mateus chegara a apertar com o homem e a interrogar os vizinhos.
Mas todos negaram e as suspeitas adormeceram até ao momento em que o chamaram de urgência, juntamente com o médico. Rosinha desfazia-se em sangue, pois o pai dera-lhe uma mezinha qualquer para afazer desmanchar. Uma mulher da vida chamou-o de uma porta com ditos e provocações: tenho aqui uma coisa para ti, lindinho. Olha qu’isto é melhor que seda... Ele ignorou-a e pôs o cavalo a trote, afastando-se dali. Não gostava da Rua de Santa Catarina. Mesmo nos dias luminosos aquelas casas cinzentas entremeadas de granito, nos sítios onde ainda não se edificara, tinham um ar lúgubre, demasiado pesado e escuro para quem queria começar bem o dia. Aquela rua era triste e ele estava cansado de tristezas, saturado da miséria humana com que quotidianamente lidava ali no lodo da sociedade. E, em bom rigor, nada daquilo lhe competia. Apesar do pomposo título de inspector, e de lhe terem permitido manter a farda, o cavalo e um impedido às ordens, a sua era uma missão menor e menorizante, um castigo encapotado a que a sua vida o levara e continuava a levar.

Mateus Vilaverde tinha nascido em 1800, ali mesmo no Porto. O pai, comerciante de largo trato, soubera erigir e manter uma casa farta, acolhedora, confortável, e foi num ambiente próspero e carinhoso que ele viveu até aos nove anos de idade. De súbito, sem pré-aviso, todo o mundo feliz e despreocupado da sua infância ruiu como um castelo de cartas quando as tropas de Soult invadiram a cidade e os seus pais e irmãos se perderam no desastre da ponte das Barcas. Acolhido em Trancoso por um tio materno, coronel de milícias, passou os anos seguintes a dissipar o pungente luto no ar áspero das serranias e a fazer-se homem, sob a enérgica orientação daquele parente de grande coração e imponentes bigodes marciais. Aos dezasseis anos foi para Lisboa assentar praça como cadete no Regimento de Cavalaria 1, aquartelado em Alcântara. O tio encorajou-o a dar esse passo e ele deu-o sem saber exactamente porquê. Talvez para se livrar de Trancoso, que era, podia jurá-lo, uma das mais tristes vilas de Portugal. Ou então, para agradar ao tio para quem os valores militares se sobrepunham a quaisquer outros. Ou, se calhar, para exorcizar, na atmosfera dos quartéis, o desastre de guerra que marcara tão cruelmente a sua vida. Não sabia». In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

O Estranho Caso de Sebastião Moncada. João Pedro Marques. «Eufrásia, que chegava ávida de atenção, estacou como se tivesse embatido numa parede. Mas depressa se recompôs, varreu a decepção do rosto…»

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O Mistério da Foz
«(…) O inspector Vilaverde conduziu o cavalo, a passo, pela Rua de Santa Catarina e quando chegou à casa vinte e oito desmontou, sem pressas. Juntara-se ali uma pequena multidão atraída pela desgraça e ele ordenou ao cabo de polícia que dispersasse a gente que rodeava o cadáver. Era um recém-nascido, parecia de tempo e a sua carinha inocente e engelhada, estava aterradoramente lívida. O inspector pôs-se de cócoras e esteve alguns segundos a observar o solo, como um camponês que meditasse sobre as duras incertezas dos seus torrões. Depois, pegou com cuidado naquele corpo pouco maior do que a sua mão e com um dedo indicador ergueu-lhe o queixinho, vencendo a rigidez da nuca. Havia uma marca avermelhada em redor do pescoço que sugeria um estrangulamento. Aquela pobre alminha nascera viva e fora assassinada aos primeiros respiros. E, pior ainda, as várias equimoses indicavam que tinha sido batida ou, pelo menos, atirada violentamente para aquele pátio.
Mateus Vilaverde ergueu-se devagar com um esgar de repulsa na cara. Era um homem relativamente magro, de corpo flexível e bastante mais alto do que os circundantes, e talvez por isso parecesse que não mais parava de se erguer. O cabelo, curto e negro, reforçava-lhe o ar descrente e a tristeza atormentada no olhar. Usava o uniforme de tenente da Guarda Real de Polícia, casaca azul, calça branca e bota alta, que complementava com um chapéu claro, de aba larga. Uma faixa de algodão, de um vermelho pálido, já desbotado, cingia-lhe a cintura e, sobre ela, um cinto de cabedal de onde pendia uma pistola. Acendeu um cigarro, que arrumou displicentemente a um canto da boca, e esteve alguns segundos de pálpebras fechadas, virado para o sol da manhã. Gostava de ficar assim com o fumo a subir-lhe pela cara e a causticar-lhe a pele, enquanto deixava que a luz avermelhada lhe atravessasse as pálpebras e viesse aquecer-lhe as ideias. Não precisava de ver mais nada para imaginar o que ali se passara. Daí para a frente seria apenas o desfiar das perguntas de rotina: sabes quem fez isto?, perguntou, descerrando os olhos e virando-se para o dono da casa.
O homem fitou-o com ar assustado. Era uma criatura baixa e soprada, de barriga rotunda, barba por fazer e aspecto muito sujo. Abriu os braços num misto de impotência e de ignorância, e respondeu: não, senhor. Eu cá não sei, meu senhor. Pensa bem... Não viste gente por aqui? Não ouviste barulhos? O homem encolheu os ombros e oscilou a cabeça de um lado para o outro, como se negasse, mas confidenciou que ouvira qualquer coisa no quintal, um baque, um ruído, uma restolhada, mas não ligara. Só há pouco é que vimos o santinho aqui no chão. A Eufrásia estava à minha beira, disse, indicando a mulher. Eufrásia era uma figura volumosa, de gestos largos, carrapito oleoso e bigodeira negra, quase masculina. Contava as coisas com grande minúcia, como se tivesse presenciado tudo, passo a passo, e de tempos a tempos lançava as mãos à cabeça e atroava os ares com lamúrias e gritos exaltados. Junto a ela, em semicírculo, um grupo numeroso de vizinhos inteirava-se da ocorrência. Alguns escutavam a mulher com a indiferença de quem já se habituara aos dramas do quotidiano. Outros, sorviam-lhe as palavras, indignavam-se com o que ouviam, davam opiniões. Mais afastado, um bando de rapazes ria e atirava pedras aos gatos, alheio às preocupações dos adultos.
Eufrásia chega-te aqui, mulher. Ora conta tu, ordenou-lhe o marido. Obedecendo ao chamamento, ela virou costas aos vizinhos e dirigiu-se ao inspector numa corridinha pesadona. Trazia um brilho voraz no olhar e vinha pronta a recomeçar a sua narrativa desde o princípio. Mas Vilaverde não precisava de uma nova versão daquele triste acontecimento e, para atalhar caminho, perguntou-lhe directamente, enquanto apagava o cigarro: vossemecê sabe quem foi? Eufrásia, que chegava ávida de atenção, estacou como se tivesse embatido numa parede. Mas depressa se recompôs, varreu a decepção do rosto e limpando as mãos ao avental, negou, com toda a veemência da sua voz esganiçada: eu não, Jesus, credo! Se eu soubesse quem era matava-a. Eu desgraçava-me, mas matava-a com estas mãos, prometeu, mostrando as mãos vermelhas e rudes, de dedos sapudos, muito abertos. Fazer isto ao santinho... Ai, valha-me Deus, Virgem Santa... Aqui na rua não há gente dessa, não senhor!» In João Pedro Marques, O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Porto Editora, 2014, ISBN 978-972-004-495-2.

Cortesia de PortoEditora/JDACT

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Os Dias da Febre. João Pedro Marques. «A criada nova viera de Moitas, uma aldeia próxima. Teria talvez dezasseis anos, um ar dócil e assustado, e os cabelos e olhos tão claros que eram quase descoloridos»

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Carlos Cabral
«(…) O desaparecimento da mãe tivera um impacto estranho em si. Ficara hirto e calado quando a tia Ofélia o chamara de parte e lhe explicara, afagando-lhe o cabelo, que a mãe fora viver outra vida para o estrangeiro. Carlos compreendeu depressa o que aquilo significava mas nunca percebeu ao certo o que sentiu nessa ocasião. Achou que devia sentir algo e, já na cama, à espera de adormecer, forçou-se a chorar, mas a emoção gastou-se em meia dúzia de lágrimas, secando quase de imediato. Não era muito apegado à mãe... De toda a maneira, a partir desse dia houve qualquer coisa, uma dimensão, uma vibração, uma sensibilidade, enfim, qualquer coisa, que mudou dentro de si. A criada nova viera de Moitas, uma aldeia próxima. Teria talvez dezasseis anos, um ar dócil e assustado, e os cabelos e olhos tão claros que eram quase descoloridos. Uma tarde, na cozinha, abraçou-a sem jeito, apertou-lhe o peito, gaguejou-lhe obscenidades ao pescoço e tentou levantar-lhe as saias, enquanto arremetia contra as suas ancas com o pénis rijo e aguçado de fora. Ela debatia-se, rindo de nervoso: ai menino, largue-me! A criada ria, a velha cozinheira, que entretanto entrara, também ria, e ao cabo de alguns minutos de luta desengonçada e burlesca Carlos desistiu. Ofegante, saiu a correr da cozinha, derrubando um banco, sentindo-se humilhado por aquelas duas mulheres que não paravam de rir à sua custa. Mas, se estava humilhado, não estava vencido e jurou a si próprio que aquilo não ficaria assim. Estudou hipóteses, antecipou cenários e um dia em que apanhou a criada de Moitas sozinha na adega, repetiu o assédio e consumou-o. Entrou atrás dela e fechou a porta à chave. Assustada, a rapariga ainda apagou as velas para se diluir na escuridão bafienta da adega, mas sem resultado. Passava alguma luz pelas clarabóias e, de toda a maneira, ele já lhe tinha agarrado firmemente um dos pulsos. Eu grito, menino, ameaçou a criada, em voz baixa. Grita à tua vontade, não está cá ninguém, desafiou Carlos, derrubando-a no chão de terra.
O seu ataque foi dirigido e a resistência dela foi menor do que tinha sido dias antes, na cozinha. Tudo aconteceu muito depressa: o corpo dela a contorcer-se debaixo do seu, um restolhar de roupas, um formigueiro intenso e a conclusão, a disparar através de si como uma enxurrada triunfante. Mas o prazer que sentiu ao sujeitar a criada, ao submetê-la à sua vontade, era sobretudo mental e transcendia em muito o simples gozo de uma ejaculação. Foi esse prazer da vitória que daí para a frente procurou em todas as mulheres que conheceu. Quando era mais pequeno ia aos pardais com a fisga. Às vezes os pássaros morriam logo; outras vezes ficavam moribundos, a palpitar na sua mão. Havia qualquer coisa de vagamente evocativo desses pássaros moribundos quando sujeitava uma mulher e a tinha na sua mão. Carlos usou a criada assiduamente e sempre do mesmo modo bestial, sem um gesto de carinho, sem uma palavra terna, como se fosse uma presa de guerra. Usou-a em locais esconsos e incómodos, no moinho, sob os choupos, no estábulo. Partiu para Coimbra sem se despedir dela. Depois, quando de   tempos a tempos voltava a casa, ignorava-a e fingia que não via os seus olhos húmidos e magoados quando servia à mesa ou se cruzava com ele, na obscuridade do corredor. As mulheres eram trocistas, dissimuladas, indignas de confiança e nada podia dar mais prazer do que subordiná-las e quebrar-lhes o orgulho.
Os seus primeiros anos na universidade coincidiram com o agravamento da situação política em Portugal e com o triunfo do miguelismo. No seguimento da morte de João VI, em Março de 1826, o difícil equilíbrio entre absolutistas e liberais, que o falecido rei soubera preservar apesar dos confrontos e pronunciamentos militares, rompera-se e Portugal ia resvalando para um conflito generalizado. Assim que sentiram a causa liberal em perigo, vários estudantes de Coimbra suspenderam os seus estudos e alistaram-se no Batalhão Académico. Se esse impulso já se justificara após o desaparecimento de João VI, quando algumas unidades militares se sublevaram, assumindo uma posição claramente antiliberal, tornou-se ainda mais premente em 1828, com o regresso do exilado Miguel ao país. Era justamente isso que os amigos de Carlos lhe procuravam fazer sentir, enquanto ele, aparentemente alheado da gravidade da situação, se divertia, no bilhar do Largo da Sé: se não nos mexermos, Carlos, a liberdade está perdida, disse um dos amigos, com ansiosa insistência.
Não te esqueças que o ano passado, o Saldanha, que era a bem dizer o único que representava o partido liberal no governo, foi obrigado a demitir-se. Acho que estão a exagerar, considerou Carlos, enquanto passava meticulosamente o giz pela ponta do taco. Miguel chegou há pouco e cumpriu o que se lhe exigiu. Jurou fidelidade a dona Maria e à Carta Constitucional. Jurou, de facto, mas não está a cumprir, está a subverter o juramento, considerou o outro, agitado, irritado, remexendo-se na cadeira. Repara, Carlos, que logo após ter jurado a Carta Constitucional, demitiu magistrados, mudou o governo e os chefes militares, sublinhou um segundo amigo, rodando o taco entre os dedos enquanto aguardava, pacientemente, a sua vez de entrar no jogo». In João Pedro Marques, Os Dias da Febre, Porto Editora, 2010, ISBN 978-972-004-098-5.

Cortesia de PEditora/JDACT

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Lisboa no 31. Os Dias da Febre. João Pedro Marques. «Passado o turbilhão da guerra, a família regressou à sua vida na planície, mas Carlos não cortou o cordão umbilical que o ligava à serra»

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Carlos Cabral
«(…) Único filho de um fidalgo abastado da região de Ourém, Carlos Cabral nascera em finais de 1810, quando a Beira e o Ribatejo sofriam as inclemências da terceira invasão francesa. Surpreendidos no Buçaco e impedidos de avançar sobre Lisboa pelas fortificações das Linhas de Torres Vedras, os soldados do enorme exército de Massena estacionaram entre Santarém e Rio Maior, derramaram-se pelo terreno e dedicaram os últimos meses do ano a pilhar as povoações e quintas das cercanias, enquanto aguardavam a chegada de reforços e mantimentos (o exército de Massena não seria reabastecido nem reforçado em condições que lhe permitissem abrir caminho para Lisboa, e viria a retirar-se no início de Março de 1811). A insegurança era enorme, havia quadrilhas de salteadores por todo o lado, e o pai de Carlos decidiu avisadamente refugiar-se com a família numa pequena casa térrea, muito discreta e pouco acessível, que possuía na serra de Aire. Foi aí que Carlos nasceu e viveu os primeiros meses de vida.
Passado o turbilhão da guerra, a família regressou à sua vida na planície, mas Carlos não cortou o cordão umbilical que o ligava à serra. Na infância, os seus dias costumavam ser solitários porque os miúdos das aldeias próximas tinham de ajudar os pais nos suores das lavouras e mais trabalhos rurais. Quando se reuniam todos, era um nunca acabar de correr aos ninhos, de roubar fruta nos pomares, de lutas e de banhos no rio. Mas, sem os companheiros, Carlos entretinha-se pouco por casa e, quando não estava retido pelo padre Isidoro, que vinha de Ourém para lhe ensinar contas, gramática e latim, escapava-se regularmente para os contrafortes da serra. Ficava horas esquecidas com os pastores a ouvi-los tocar instrumentos rudimentares e assobiar aos cães e ovelhas. Levava-lhes broa, enchidos e o que pudesse roubar da cozinha, e eles retribuíam com pão duro e cascas de laranja, às vezes, com uma laranja inteira, que naquela paisagem calcária e semiárida, varrida pelo vento, adquiriam um sabor inigualável. Coma mais, menino Carlos, dizia o pastor, cortando o chouriço com o seu canivete e oferecendo-lhe uma rodela prensada entre o polegar e a lâmina enegrecida.
Deixas-me usar o teu canivete, Manuel?, pedia Carlos, de mão estendida, trincando o chouriço. Eu não me corto. Com cuidado..., segurando assim e torcendo no fim, demonstrava o pastor. Atire-me ali uma pedra àquela ovelha que se está a apartar das outras. Deixou de ir à serra quando se mudou para Coimbra, onde fez parte dos preparatórios e cursou leis na austera Universidade. O pai entendera-se com um primo que vivia na cidade com a mulher, para que lhe acolhesse o filho estudante, e durante anos Carlos viveu em casa desses primos já idosos, apoquentando-lhes o sono com os seus horários desgarrados e as suas noites de farra nos bilhares e nas ruas da baixa coimbrã. Com as solicitações da cidade e sem o filtro purificador da serra de Aire, a sua vida mudara do dia para a noite. Ganhara em trepidação e malícia o que perdera em bucolismo e simplicidade.
Em Coimbra, Carlos adquiriu fama de violento. Aparecia regularmente envolvido em cenas de pancadaria e corria nos círculos estudantis da cidade que era desagradável, ou até brutal, com as mulheres que ganhavam a vida nas vielas e nos botequins. Insultava-as, não lhes pagava os serviços, por vezes batia-lhes. Um dia uma dessas prostitutas apresentou queixa contra ele. O primo idoso moveu influências, o caso foi abafado, mas a fama ficou. Era merecida e tinha raízes antigas e profundas. Carlos nunca se esqueceu da sua primeira relação com uma mulher, ou melhor, da sua primeira tentativa, porque nessa ocasião, tinha ele treze anos, não chegou a consumá-la. Tudo ocorrera com uma criada nova, a seguir à fuga da mãe e poucos meses antes de ir para Coimbra». In João Pedro Marques, Os Dias da Febre, Porto Editora, 2010, ISBN 978-972-004-098-5.

Cortesia de PEditora/JDACT

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Os Dias da Febre. João Pedro Marques. «Lisboa tinha uma infinidade de cegos, depositados nas esquinas, perdidos no escuro, com expressões ermas, à espera de esmolas»

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Carlos Cabral
«A Calçada de Santana era péssima, íngreme e muito irregular, como quase todas as calçadas de Lisboa. Elvira detestava a forma como as curvas apertadas lhe quebravam o trajecto; alarmava-se com as guinadas da carruagem, quando o rodado ressaltava pelo empedrado abaixo, e com o matraquear aflito dos cascos do cavalo, à  procura de equilíbrio; angustiava-se com aquele horizonte apertado entre casas e escoado em ruelas vindas sabia-se lá de onde, como veredas numa floresta densa. Elvira não gostava do sítio nem das suas gentes. Odiava a vozearia das mulheres que palravam de umas janelas para as outras, em assomos de voz e gestos bruscos, debruçadas sobre a vida alheia, sem qualquer noção de privacidade; enjoava-se com o cheiro a vinho que pairava, peganhento, no ar e no bafo dos bêbados saídos das tabernas para importunar os transeuntes. Aquele era o trajecto mais curto para chegar ao Rossio e o que fora sensato tomar, porque já estavam atrasados para o teatro. Mas era, certamente, o mais feio e o que mais a perturbava. O contacto com o mundo sórdido dos desfavorecidos era, ali, inevitável e desconfortavelmente próximo, apesar de as cortinas da carruagem irem corridas. Os zarolhos, os amputados, as bocas sem dentes, os cabelos sem pentes, as caras engelhadas de rugas ou sulcadas por cicatrizes, desfilavam a dois dedos da sua janela e eram visíveis, ou, pelo menos, adivinháveis, quando as cortinas se entreabriam com os solavancos do veículo.
Carlos ia a seu lado, mas era como se lá não estivesse. Olhando de soslaio para o marido, Elvira reconheceu a postura distante, vagamente arrogante, que nele era tão comum. A postura de alguém centrado em si mesmo e nos seus pensamentos. Há muito que não trocavam senão palavras contadas e circunstanciais, e nunca falavam sobre assuntos que ele considerasse fúteis, e a Calçada de Santana era, obviamente, um assunto fútil. Mesmo nos primeiros anos do casamento, Carlos nunca se interessara verdadeiramente pelos sentimentos de Elvira, nem se preocupara com as suas ansiedades. Era bem possível que nunca se tivesse apercebido da existência dessa dimensão sensível e inquieta na mulher.
Elvira desviou o olhar do marido e espreitou por uma fresta entre as cortinas. Lá fora um cego dedilhava uma guitarra e cantava um fado qualquer, sobre trágicos amores:

O Conde de Vimioso
um duro golpe sofreu,
quando lhe foram dizer:
tua Severa morreu!

Lisboa tinha uma infinidade de cegos, depositados nas esquinas, perdidos no escuro, com expressões ermas, à espera de esmolas. Por qualquer razão que não entendia, os da Calçada de Santana trespassavam-lhe o coração. A cegueira parecia-lhe ali mais absoluta, e a cruz daqueles desgraçados mais insuportável, do que em outros locais. Quando ouvia as suas vozes e guitarras ressoando nas pedras da calçada, como nesse momento acontecia, a garganta apertava-se-lhe e os olhos enchiam-se-lhe infalivelmente de lágrimas.

Chorai, fadistas, chorai,
que a Severa se finou,
o gosto que tinha o fado,
tudo com ela acabou.

O marido não reparou na sua emoção, raramente reparava em emoções, fossem suas ou dos outros. Para o racional e pragmático Carlos, o silêncio emocionado de Elvira equivalia a um saudável recolhimento e a Calçada de Santana era idêntica a outra rua qualquer: um percurso que tinha de ser feito para ir do ponto A ao ponto B. Tanto quanto se lembrava, nunca deixara que os detalhes, por mais invulgares ou desagradáveis que fossem, o distraíssem das suas metas.
Vinte anos antes, a grande meta de Carlos tinha sido casar com Elvira. Essa meta definira-se com muita rapidez e clareza na sua cabeça, ainda que, olhando retrospectivamente, o caminho até lá tivesse sido demorado, enrolado, sinuoso. Mas, nem por isso, Carlos deixara de o seguir persistente e meticulosamente, como era, aliás, seu timbre». In João Pedro Marques, Os Dias da Febre, Porto Editora, 2010, ISBN 978-972-004-098-5.

Cortesia de PEditora/JDACT