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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «Filomena disse então: isso não importa: desde que eu viva com decência e a consciência não me acuse de nada, que fale quem quiser o contrário»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Enquanto as mulheres assim conversavam, eis que três rapazes entravam na igreja, mas não eram tão jovens que o mais novo tivesse menos de vinte e cinco anos; neles nem a perversidade dos tempos nem a perda de amigos ou parentes nem o temor por si mesmos tinham conseguido arrefecer o amor, que dirá extingui-lo. Um se chamava Pânfilo, o segundo, Filostrato, e o terceiro, Dioneu, sendo todos bastante agradáveis e de bons costumes; e, para se consolarem em meio a tanta perturbação das coisas, iam em busca de ver as suas amadas, que por acaso estavam, as três, entre as referidas sete; das outras, algumas eram parentes deles. Assim que o olhar deles caiu sobre elas, foram eles também vistos por elas; então Pampineia começou, sorrindo: vejam que a sorte é propícia à nossa iniciativa e pôs diante de nós jovens discretos e valorosos que de bom grado serão nossos guias e servidores, se não nos furtarmos a lhes dar essa incumbência. Neifile então, com o rosto totalmente enrubescido pelo pudor, pois era uma das amadas dos jovens, disse: Pampineia, por Deus, veja o que está dizendo; sei perfeitamente que de qualquer um deles só é possível falar bem, e creio que eles sejam aptos a feitos muito maiores que esse; também acho que podem oferecer companhia boa e honesta não só a nós, como também a mulheres muito mais belas e prezadas que nós. Mas, visto que é bem conhecido o facto de estarem enamorados de algumas de nós, temo que, levando-os connosco, possamos incorrer em infâmia e desaprovação, sem culpa nossa ou deles.
Filomena disse então: isso não importa: desde que eu viva com decência e a consciência não me acuse de nada, que fale quem quiser o contrário; Deus e a verdade empunharão armas por mim. Ora, se eles estiverem dispostos a ir connosco, realmente, como disse Pampineia, poderíamos dizer que a sorte é favorável à nossa partida.
As outras, ouvindo-a falar desse modo, não só não discordaram como também disseram unanimemente que deveriam chamá-los, dizer-lhes qual era a intenção delas e solicitar que lhes dessem o prazer de sua companhia naquela viagem. Assim, sem mais palavras, Pampineia, que tinha laços de consanguinidade com um deles, levantou-se e, dirigindo-se a eles, que estavam parados a olhá-las, cumprimentou-os com um sorriso alegre, comunicou-lhes as suas intenções e pediu-lhes em nome de todas que se dispusessem a fazer-lhes companhia com ânimo puro e fraterno. De início, os jovens acharam que estavam sendo burlados, mas depois, vendo que aquela dama falava seriamente, responderam com alegria que estavam prontos para atendê-las; e, passando à acção sem mais delongas, antes de partirem dispuseram tudo o que deveria ser feito para a viagem. E, depois de arrumarem ordenadamente todas as coisas necessárias e de enviarem um mensageiro ao lugar aonde pretendiam ir, na manhã seguinte, ou seja, na quarta-feira ao romper do dia, as mulheres com algumas serviçais e os três jovens com três criados saíram da cidade e puseram-se a caminho; não tinham se afastado mais de duas pequenas milhas quando chegaram ao lugar que haviam determinado como primeiro.
O referido lugar ficava numa pequena montanha, um tanto distante das nossas estradas por todos os lados, era coberto por vários arbustos e plantas com verdes frondes, de aspecto muito agradável; no ponto mais alto ficava um palácio com um pátio bonito e espaçoso no meio, galerias, salas e quartos, tudo belíssimo e ornado com pinturas alegres e notáveis, tendo prados ao redor, jardins maravilhosos, poços de água fresquíssima e adegas cheias de vinhos preciosos: coisas mais adequadas a curiosos bebedores do que a mulheres sóbrias e recatadas. E, para seu grande prazer, o grupo que chegava encontrou tudo varrido, leitos arrumados nos quartos, estando todas as coisas cheias das flores que era possível encontrar na estação, assim como cobertas de junco. E, ao se sentarem assim que chegaram, disse Dioneu, que mais que qualquer outro era encantado e cheio de argúcia: foi a sensatez das senhoras, mais que nossa astúcia, que nos trouxe aqui. Não sei o que pretendem fazer de seus cuidados; os meus eu deixei atrás das portas da cidade quando há pouco saí de lá; por isso, ou se dispõem a divertir-se, rir e cantar comigo (quero dizer, tanto quanto convier à dignidade das senhoras), ou me dão permissão para voltar aos meus cuidados e ficar na cidade atribulada». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.
                                         
Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «Portanto, nenhuma repreensão caberá se tomarmos tal decisão; dor, desgosto e talvez morte poderão advir, se não o fizermos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«[…]
E não só ouvi dizer como também vi várias vezes que esses tais (se é que alguns há), sem fazerem distinção alguma entre coisas honestas e desonestas, movidos somente pelo apetite, sozinhos ou acompanhados, de dia e de noite, fazem tudo o que lhes dê na telha. E não só o fazem as pessoas sem vínculos religiosos, mas também as enclausuradas dos mosteiros, que, convencidas de que aquilo lhes convém e só é proibido às outras, transgredindo as leis da obediência, entregam-se aos prazeres carnais e, imaginando assim salvar-se, tornam-se lascivas e dissolutas. E se assim é (como se vê claramente que é), que fazemos aqui? Que esperamos? Que sonhamos? Porque somos mais preguiçosas e lerdas com nossa saúde do que todo o restante dos cidadãos? Acaso nos consideramos menos importantes que todas as outras? Ou acreditamos que nossa vida está ligada ao corpo com cadeias mais fortes do que as dos outros, de modo que não precisamos nos preocupar com nada que seja capaz de prejudicá-la? Estamos erradas, enganadas; que estupidez a nossa, se acreditarmos nisso! Sempre que nos lembrarmos de quantos e quais homens e mulheres foram vencidos por essa cruel pestilência, encontraremos fortíssimo argumento. Por isso, para não incidirmos, por renitência ou desleixo, naquilo de que podemos escapar de alguma maneira, desde que queiramos (não sei se as senhoras pensarão como eu), creio que seria óptimo se, tal como estamos, tal como muitos antes de nós fizeram e fazem, saíssemos desta cidade; e, fugindo como da morte aos exemplos indecorosos dos outros, fôssemos decorosamente para as propriedades do campo que cada uma de nós tem em grande quantidade; e ali gozássemos da festa, da alegria e do prazer que pudéssemos, sem ultrapassar de modo algum os limites da razão. Ali se ouvem pássaros cantar, veem-se colinas e planícies verdejantes, e os campos cobertos de trigo não ondeiam menos que o mar; árvores há de muitos tipos, e o céu, principalmente, por mais tormentoso que esteja, não nos nega suas belezas eternas, muito mais dignas de admirar do que as muralhas vazias da nossa cidade. Além disso, o ar ali é bem mais fresco, e das coisas todas de que a vida carece nestes tempos a quantidade lá é maior, sendo menor o número de contrariedades. E, embora os lavradores morram tanto quanto aqui os cidadãos, ali a tristeza é menor porque as casas são mais esparsas e há menos habitantes que na cidade. Aqui, por outro lado, se bem percebo, não abandonaremos ninguém; aliás, sem fugir à verdade, podemos dizer que abandonadas fomos nós; porque os nossos, ou por morrerem ou por fugirem da morte, deixaram-nos sozinhas nesta aflição, como se não lhes fôssemos tão próximas. Portanto, nenhuma repreensão caberá se tomarmos tal decisão; dor, desgosto e talvez morte poderão advir, se não o fizermos. Para tanto, quando lhes parecesse melhor, creio que faríamos bem em tomar nossas serviçais e, fazendo-nos acompanhar por todas as coisas necessárias, passarmos um dia num lugar e outro dia em outro, entregues à alegria e à festa que estes tempos podem nos propiciar; e assim permaneceríamos até percebermos (se antes a morte não nos surpreender) que fim o céu destina a estas coisas. E lembrem-se de que é mais conveniente ir embora com decência do que, como ocorre a grande número das outras, ficar sem decência.

As outras senhoras, depois de ouvirem Pampineia, não só louvaram sua sugestão como também desejavam segui-la e já tinham começado a tratar entre si do modo de fazê-lo, como se, levantando-se de seus assentos, quisessem ir já se pondo a caminho. Mas Filomena, que era sensatíssima, disse: senhoras, embora as palavras de Pampineia tenham sido bem pensadas, não será por isso que havemos de fazer tudo correndo, como parece que querem. É bom lembrar que somos todas mulheres, e não há aqui nenhuma que seja tão nova para não saber como as mulheres convivem e se governam sem a previdência de algum homem. Somos volúveis, briguentas, desconfiadas, pusilânimes e medrosas; por isso, duvido muito que este grupo não se dissolva bem mais cedo do que seria necessário e com menos honra para nós, caso não busquemos orientação diferente da nossa; por isso, é bom tomar providências antes de começarmos.
Então Elissa disse: realmente, os homens são cabeças das mulheres, e sem a ordem deles raramente alguma obra nossa chega a bom termo; mas como podemos obter esses homens? Cada uma de nós sabe que a maior parte dos seus morreu, e dos outros que ficaram vivos, uns aqui, outros acolá, sabe-se lá onde, em diferentes companhias vão todos fugindo daquilo de que estamos procurando fugir; e aceitar estranhos não seria conveniente; por isso, se quisermos cuidar de nossa saúde, será bom encontrarmos um modo de nos organizarmos de tal sorte que ao lugar aonde formos em busca de deleite e repouso não sejamos seguidas por contrariedades e escândalos». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.
                                         
Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

quarta-feira, 3 de junho de 2020

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «Minhas caras senhoras já terão muitas vezes ouvido dizer, assim como eu, que quem usa honestamente sua razão não comete injúria contra ninguém»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) A mim mesmo desagrada ficar ruminando demoradamente tais misérias: por isso, desejando agora deixar de lado aquelas que posso oportunamente evitar, direi que, estando nossa cidade em tal situação, quase vazia de habitantes, certa terça-feira pela manhã, conforme fiquei sabendo por pessoa digna de fé, na venerável igreja de Santa Maria Novella, onde não havia quase mais ninguém, sete donzelas assistiam aos divinos ofícios em trajes lutuosos, como a tal momento convinha; eram elas unidas entre si por amizade, vizinhança ou parentesco, nenhuma delas passara dos vinte e oito anos nem estava abaixo dos dezoito, sendo todas sérias, de sangue nobre, formosas e dotadas de bons costumes e elevada dignidade. Seus nomes eu declararia na forma devida, caso não tivesse boas razões para deixar de fazê-lo, e as razões são as seguintes: não quero que, ouvindo no futuro as coisas que narraram (e que seguem adiante), alguma delas venha a sentir-se envergonhada, visto que hoje são um tanto estritas as leis que regem o divertimento, ao passo que então, pelos motivos acima descritos, eram relaxadas, não só para a idade delas, como também para idades muito mais maduras; também não quero dar ocasião para que os invejosos, sempre prontos a criticar toda e qualquer vida louvável, deslustrem de algum modo a honra das valorosas senhoras com palavras indecorosas. No entanto, para que adiante seja possível entender sem confusão aquilo que cada uma disse, pretendo designá-las com nomes ajustados no todo ou em parte às suas respectivas qualidades: a primeira, que era a mais velha, será chamada Pampineia; a segunda, Fiammetta; Filomena será a terceira; e a quarta, Emília; Lauretta será o nome da quinta; e o da sexta, Neifile, sendo a última chamada Elissa, não sem razão.
Estas, sem serem levadas por propósito algum, mas sim pelo acaso, reuniram-se numa das partes da igreja e, sentadas quase em círculo, depois de vários suspiros, deixaram de rezar pais-nossos e começaram a conversar sobre as condições da época e de muitas e várias coisas. Depois de algum tempo, como as outras se calassem, Pampineia começou a falar da seguinte maneira:

Minhas caras senhoras já terão muitas vezes ouvido dizer, assim como eu, que quem usa honestamente sua razão não comete injúria contra ninguém. Dita a razão natural que todos os que aqui nascem podem manter, conservar e defender sua própria vida na medida do possível: e é isso autorizado a tal ponto, que algumas vezes, para defendê-la, houve quem matasse outras pessoas, sem por isso incorrer em culpa. E, se as leis, cuja preocupação é o bem-estar de todos os mortais, fazem tais concessões, muito mais honesto é para nós e para qualquer outro, sem ofender ninguém, adoptar as medidas possíveis para conservar a própria vida! Observando bem, como venho, os nossos comportamentos nesta manhã e ainda mais o de outras manhãs passadas, e pensando em quais são as nossas conversas, compreendo, e as senhoras também poderão compreender, que cada uma de nós teme por si mesma: eis aí algo que não me surpreende nem um pouco, mas me surpreende muito que, tendo todas nós sentimentos de mulher, não se tome medida nenhuma para remediar aquilo que cada uma teme fundamentadamente. Permanecemos aqui, segundo penso, como se quiséssemos ou devêssemos ser testemunhas de quantos cadáveres são trazidos à sepultura ou para ouvirmos se os frades daqui, cujo número está quase reduzido a nada, cantam seus ofícios nas horas devidas, ou para demonstrar a quem quer que apareça, em nossos trajes, a qualidade e a quantidade de nossas misérias. E, se saímos daqui, vemos mortos ou doentes transportados por todos os lados, ou então vemos aqueles que, já condenados ao exílio pela autoridade pública, em decorrência de seus malfeitos, agora escarnecem dessas mesmas leis, ao saberem que seus executores estão mortos ou doentes, e percorrem a região com ímpeto desagradável; ou então vemos o poviléu de nossa cidade, aquecido com nosso sangue, autodenominando-se coveiro, cavalgar e percorrer todos os lugares, zombar de nós e jogar-nos ao rosto os nossos males com canções indecorosas. E não ouvimos outra coisa senão: fulanos estão mortos e sicranos estão para morrer; e, se houvesse gente para chorar, ouviríamos prantos dolorosos por toda a parte. E, se voltamos para casa, não sei se com as senhoras ocorre o mesmo que a mim: eu, que tinha grande número de serviçais, encontrando lá agora apenas minha criada, fico apavorada e tenho arrepios por quase todo o corpo; e, seja qual for a parte da casa aonde vá ou permaneça, parece que vejo as sombras daqueles que se foram, mas não com as expressões que costumavam ter, e sim assombrando-me com uma aparência horrível, que não sei de onde lhes veio depois que morreram. Por todas essas coisas, aqui, fora daqui e em casa eu me sinto mal; principalmente porque também me parece que ninguém que tenha alguma energia e lugar aonde ir, como nós, continua aqui, excepto nós mesmas».
[…]
In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.
                                         
Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «… pela manhã comeram com familiares, companheiros e amigos, e à noite cearam no outro mundo com os seus antepassados!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Era uso (tal como ainda hoje se vê) as parentes e vizinhas do morto se reunirem em casa deste para chorar com as mulheres que lhe fossem mais chegadas; por outro lado, em frente à casa do morto, os vizinhos e muitos outros cidadãos reuniam-se com os seus parentes, e o clero comparecia em conformidade com a posição social do morto; e, sobre os ombros dos seus pares, com pompa fúnebre, círios e cantos, este era levado à igreja escolhida por ele mesmo antes da morte. Essas coisas, depois do aumento da ferocidade da peste, acabaram-se de todo ou na maior parte, surgindo outras no seu lugar. Por isso, não só as pessoas morriam sem muitas mulheres ao redor, como também havia muitos que saíam desta vida sem testemunho de ninguém; e a pouquíssimos foram concedidos o pranto piedoso e as lágrimas amargas dos cônjuges; em vez disso, na maioria dos casos era costume rir, gracejar e festejar entre amigos; e as mulheres, abandonando em grande parte a piedade feminina, aprenderam muitíssimo bem esses usos em nome de sua própria saúde. E eram raros aqueles cujos corpos fossem acompanhados à igreja por mais de dez ou doze vizinhos; seu ataúde não era levado sobre os ombros de honrados e prezados cidadãos, mas alçado aos ombros de uma espécie de sepultureiros surgidos na arraia miúda, que eram chamados coveiros e prestavam serviços mediante pagamento; estes, com passos apressados, na maioria das vezes não o levavam à igreja escolhida antes da morte, e sim à mais próxima, atrás de quatro ou seis clérigos com pouco lume, e em certas ocasiões até sem nenhum; e estes, com a ajuda dos referidos coveiros, sem se afadigarem em ofícios longos ou solenes, metiam o corpo na primeira sepultura que encontrassem vaga. Maior era o espectáculo da miséria da gente miúda e, talvez, em grande parte da mediana; pois essas pessoas, retidas em casa pela esperança ou pela pobreza, permanecendo na vizinhança, adoeciam aos milhares; e, não sendo servidas nem ajudadas por coisa alguma, morriam todas quase sem nenhuma redenção. Várias expiravam na via pública, de dia ou de noite; muitas outras, que expiravam em casa, os vizinhos percebiam que estavam mortas mais pelo fedor do corpo em decomposição do que por outros meios; e tudo se enchia destes e de outros que morriam por toda parte. Os vizinhos, em geral, movidos tanto pelo temor de que a decomposição dos corpos os afectasse quanto pela caridade que tinham pelos falecidos, observavam um mesmo costume. Sozinhos ou com a ajuda de carregadores, quando podiam contar com estes, tiravam os finados de suas respectivas casas e os punham diante da porta, onde, sobretudo pelas manhãs, um sem-número deles podia ser visto por quem quer que passasse; então, providenciavam ataúdes e os carregavam (alguns corpos, por falta de ataúdes, foram carregados sobre tábuas). Um mesmo ataúde podia carregar dois ou três mortos juntos, e isso não ocorreu só uma vez, mas seria possível enumerar vários que continham marido e mulher, dois ou três irmãos, pai e filho, e assim por diante. E foram inúmeras as vezes em que, indo dois padres com uma cruz para alguém, três ou quatro ataúdes, levados por carregadores, se puseram atrás dela: e os padres, acreditando que tinham um morto para sepultar, na verdade tinham seis, oito e às vezes mais. E tampouco eram estes honrados por lágrimas, círios ou séquito; ao contrário, a coisa chegara a tal ponto, que quem morria não recebia cuidados diferentes dos que hoje seriam dispensados às cabras; porque ficou bastante claro que, se o curso natural das coisas, com pequenos e raros danos, não pudera mostrar aos sábios o que devia ser suportado com paciência, a enormidade dos males conseguiu tornar mais sagazes e resignados até mesmo os ignorantes. Não sendo bastante o solo sagrado para sepultar a grande quantidade de corpos que chegavam carregados às igrejas a cada dia e quase a cada hora (principalmente se se quisesse dar a cada um o seu lugar próprio, segundo o antigo costume), abriam-se nos cemitérios das igrejas, depois que todos os lugares ficassem ocupados, enormes valas nas quais os corpos que chegavam eram postos às centenas: eram eles empilhados em camadas, tal como a mercadoria na estiva dos navios, e cada camada era coberta com pouca terra até que a vala se enchesse até a borda. E, deixando de lado todas as particularidades das passadas misérias sofridas pela cidade, direi que aqueles tempos tão adversos que a devastavam nem por isso pouparam os campos circundantes, onde (sem mencionarmos os castelos, que eram cidades em miniatura), nas aldeias esparsas e nas plantações, os lavradores miseráveis e pobres e suas famílias, sem nenhum socorro de médicos nem ajuda de serviçais, morriam nas ruas, nas lavouras e nas casas, de dia e de noite, indiferentemente, não como homens, mas quase como animais. Em vista disso, tornando-se dissolutos como os citadinos nos seus costumes, eles não cuidavam das suas coisas nem dos seus afazeres; ao contrário, como se esperassem a chegada da morte para aquele mesmo dia, não se preocupavam com os futuros frutos da criação, das terras e do trabalho já realizado, e esforçavam-se com todo o empenho em consumir tudo o que tivessem no presente. Com isso, bois, asnos, ovelhas, cabras, porcos, frangos e até os fidelíssimos cães, expulsos de suas próprias casas, saíam andando a esmo pelos campos (onde a messe ainda estava abandonada, sem ser ceifada, para não dizer colhida). E muitos, como se fossem racionais, depois de terem se apascentado bem durante o dia, voltavam saciados à noite para casa, sem serem tangidos por pastores. Que mais se pode dizer (deixando os campos e voltando à cidade), senão que foi tamanha a crueldade do céu, e talvez em parte dos homens, que se tem por certo que do mês de Março a Julho (por força da doença pestífera e porque muitos doentes foram mal atendidos ou abandonados nas suas necessidades, devido ao medo que os sãos sentiam) mais de cem mil criaturas humanas perderam a vida dentro dos muros da cidade de Florença, e que talvez, antes dessa mortandade, não se imaginasse que lá haveria tanta gente assim? Oh, quantos grandes palácios, quantas belas casas, quantas nobres moradas, antes cheios de criados, senhores e senhoras, esvaziaram-se de todos, até o mais ínfimo serviçal! Oh, quantas memoráveis linhagens, quantas grandes heranças, quantas famosas riquezas ficaram sem seus devidos sucessores! Quantos homens valorosos, quantas belas mulheres, quantos jovens airosos, que ninguém mais que Galeno, Hipócrates ou Esculápio teriam considerado saudabilíssimos, pela manhã comeram com familiares, companheiros e amigos, e à noite cearam no outro mundo com os seus antepassados!» In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.
                                         
Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «E, dentre esses que tinham tão variadas opiniões, embora não morressem todos, também nem todos se salvavam: ao contrário, adoeciam muitos que pensavam de modos diversos, em todos os lugares»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) De tais coisas e de muitas outras semelhantes ou piores originaram-se diferentes medos e imaginações nos que continuavam vivos, e quase todos tendiam a um extremo de crueldade, que era esquivar-se e fugir aos doentes e às suas coisas; e, assim agindo, todos acreditavam obter saúde. Alguns, considerando que viver com temperança e abster-se de qualquer superfluidade ajudaria muito a resistir à doença, reuniam-se e passavam a viver separados dos outros, recolhendo-se e encerrando-se em casas onde não houvesse nenhum enfermo e fosse possível viver melhor, usando com frugalidade alimentos delicadíssimos e óptimos vinhos, fugindo a toda e qualquer luxúria, sem dar ouvidos a ninguém e sem querer ouvir notícia alguma de fora, sobre mortes ou doentes, entretendo-se com música e com os prazeres que pudessem ter. Outros, dados a opinião contrária, afirmavam que o remédio infalível para tanto mal era beber bastante, gozar, sair cantando, divertir-se, satisfazer todos os desejos possíveis, rir e zombar do que estava acontecendo; e punham em prática tudo o que diziam sempre que podiam, passando dia e noite ora nesta taverna, ora naquela, bebendo sem regra nem medida, fazendo tais coisas muito mais nas casas alheias, apenas por sentirem gosto ou prazer em fazê-las.
E podiam assim agir estouvadamente porque os outros, como se já não precisassem viver, tinham abandonado as suas coisas e a si mesmos; de modo que as casas, na sua maioria, tinham-se tornado comuns e eram usadas pelos estranhos que porventura chegassem, tal como teriam sido usadas por seus próprios donos; e, apesar desse comportamento animalesco, fugiam dos doentes sempre que podiam. E, em meio a tanta aflição e miséria da nossa cidade, a veneranda autoridade das leis divinas e humanas estava quase totalmente decaída e extinta porque os seus ministros e executores, assim como os outros homens, estavam mortos ou doentes, ou então se encontravam tão carentes de servidores que não conseguiam cumprir função alguma; por esse motivo, era lícito a cada um fazer aquilo que bem entendesse. Muitos outros observavam uma via intermediária entre as duas descritas acima, não se restringindo na alimentação, como os primeiros, nem se entregando à bebida e a outras dissipações como os segundos, mas usavam as coisas na quantidade suficiente para atender às necessidades, não se encerravam em casa, iam a toda parte, alguns com flores nas mãos, outros com ervas aromáticas, outros ainda com diferentes tipos de especiaria, que levavam com frequência ao nariz, pois consideravam óptimo aliviar o cérebro com tais odores, visto que o ar todo parecia estar impregnado do fedor dos cadáveres, da doença e dos remédios. Outros tinham sentimento mais cruel (se bem que talvez fosse a atitude mais segura) e diziam que contra a peste não havia remédio melhor nem tão bom como fugir; e, convencidos disso, não se preocupando com nada a não ser consigo, vários homens e mulheres abandonaram a sua cidade, as suas casas, as suas propriedades, os seus parentes e as suas coisas, buscando os campos da sua região ou das alheias, como se com aquela peste a ira de Deus não tencionasse punir as iniquidades dos homens onde quer que eles estivessem, mas só afligisse aqueles que ficassem dentro dos muros da sua cidade, ou como se achassem que ninguém deveria ficar nela, chegada que era a sua hora derradeira.
E, dentre esses que tinham tão variadas opiniões, embora não morressem todos, também nem todos se salvavam: ao contrário, adoeciam muitos que pensavam de modos diversos, em todos os lugares; e esses doentes, que, quando estavam sãos, tinham dado exemplo àqueles que agora continuavam sãos, definhavam quase abandonados por todas as partes. E, sem contar que um cidadão evitava o outro, que quase nenhum vizinho cuidava do outro e que os parentes raramente ou nunca se visitavam, e só o faziam à distância, era tamanho o pavor que essa tribulação pusera no coração de homens e mulheres, que um irmão abandonava o outro, o tio ao sobrinho, a irmã ao irmão e muitas vezes a mulher ao marido; mas (o que é pior e quase incrível) os pais e as mães evitavam visitar e servir os filhos, como se seus não fossem. Por todas essas coisas, para a multidão incalculável de homens e mulheres que adoeciam não restava outro socorro senão a caridade dos amigos (e destes houve poucos) ou a ganância dos serviçais, que trabalhavam em troca de gordos salários e acordos abusivos, se bem que com tudo aquilo não restassem muitos: e os que havia eram homens ou mulheres de tosco engenho, a maioria não acostumada a tais serviços, que só serviam para pôr nas mãos dos doentes algumas coisas que estes pedissem ou para velar a sua morte; e, cumprindo tal serviço, muitas vezes pereciam junto com os seus ganhos. E, do facto de estarem os doentes abandonados por vizinhos, parentes e amigos e de serem poucos os serviçais, decorreu um costume quase desconhecido antes: nenhuma mulher que adoecesse, por mais graciosa, bela ou fidalga que fosse, se importava de ter um homem ao seu serviço, fosse ele jovem ou não, e de lhe expor todas as partes do corpo sem nenhum pudor, tal qual teria exposto a uma mulher, desde que a doença impusesse essa necessidade; e, nos tempos que se sucederam, isso talvez tenha sido razão de menor honestidade daquelas que se curaram. Além disso, morreram muitos que, se porventura ajudados, teriam escapado; assim, tanto por falta do devido atendimento, que os doentes não podiam ter, quanto pela força da peste, era tamanha a multidão de gente a morrer noite e dia na cidade que causava espanto ouvir dizer, quanto mais presenciar. Desse modo, como que por necessidade, entre os que sobreviveram, surgiram usos contrários aos primitivos costumes dos cidadãos». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.

Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

terça-feira, 10 de abril de 2018

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «… ceifando a vida de incontável número de pessoas, e, sem se deter, continuou avançando de um lugar a outro até se estender desgraçadamente em direcção ao ocidente»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Graciosas senhoras, quanto mais penso cá comigo e contemplo como são as senhoras naturalmente piedosas, mais concluo que esta obra lhes parecerá austera e pesada no princípio, assim como o é a dolorosa lembrança da última peste, com que ela se inicia, para todos os que a viram ou que de algum outro modo souberam de seus estragos. Mas não quero que isso as assuste e impeça de prosseguir, como se, lendo, houvessem de estar sempre entre suspiros e lágrimas. Este horripilante início não deve ser diferente do que é para o caminhante a montanha acidentada e íngreme, atrás da qual se encontre uma planície belíssima e amena, que lhe parecerá tanto mais agradável quanto maior tiver sido o padecimento da subida e da descida. E, assim como os confins da alegria são ocupados pela dor, as misérias têm os seus limites no contentamento que sobrevém. A este breve aborrecimento (digo breve porque contido em poucas linhas) seguem-se logo o deleite e o prazer já prometidos, que talvez não fossem esperados de tal início, caso isto não fosse dito. Na verdade, se me tivesse sido possível levá-las convenientemente àquilo que desejo por outro caminho, e não por esta senda tão árdua, eu o teria feito de bom grado: mas como, sem esta rememoração, não seria possível explicar por qual razão ocorreram as coisas que a seguir serão lidas, disponho-me a descrevê-las como que impelido pela necessidade.
Digo, pois, que os anos da frutífera encarnação do Filho de Deus já haviam chegado ao número 1348 quando, na insigne cidade de Florença, a mais bela de todas as da Itália, ocorreu uma peste mortífera, que, fosse ela fruto da acção dos corpos celestes, fosse ela enviada aos mortais pela justa ira de Deus para correcção das nossas obras iníquas, começara alguns anos antes no lado oriental, ceifando a vida de incontável número de pessoas, e, sem se deter, continuou avançando de um lugar a outro até se estender desgraçadamente em direcção ao ocidente. E, de nada havendo servido os saberes e as providências humanas, como a limpeza das imundícies da cidade por funcionários encarregados de tais coisas, a proibição de entrada dos doentes e os muitos conselhos dados para a conservação da salubridade, e tampouco encontrando efeito as humildes súplicas feitas a Deus pelos devotos, não uma vez, mas muitas, em procissões e de outros modos, era já quase início da Primavera do ano acima quando começaram a manifestar-se de maneira prodigiosa os seus horríveis e dolorosos efeitos. Não se manifestavam como na parte oriental, onde expelir sangue pelo nariz era sinal manifesto de morte inevitável, mas começavam com o surgimento de certas tumefacções na virilha ou nas axilas de homens e mulheres, algumas das quais atingiam o tamanho de uma maçã comum e outras o de um ovo, umas mais e outras menos, e a elas o povo dava o nome de bubões. E os referidos bubões mortíferos, não se limitando às duas citadas partes do corpo, em breve espaço de tempo começaram a nascer e a surgir indiferentemente em todas as outras partes, após o que a qualidade da enfermidade começou a mudar, passando a manchas negras ou lívidas, que em muitos surgiam nos braços, nas coxas e em qualquer outra parte do corpo, umas grandes e ralas, outras diminutas e espessas. E, tal como ocorrera e ainda ocorria com o bubão, tais manchas eram indício inegável de morte próxima para todos aqueles em quem aparecessem.
Para tratar tais enfermidades não pareciam ter préstimo nem proveito a sabedoria dos médicos e as virtudes da medicina: ao contrário, seja porque a natureza do mal não admitisse tratamento, seja porque a ignorância dos que o tratavam (cujo número era enorme, havendo, além dos cientistas, também mulheres e homens que jamais haviam feito estudo algum de medicina) não permitisse conhecer a sua causa, nem portanto usar o devido remédio, não só eram poucos os que se curavam, como também quase todos morriam nos três dias seguintes ao aparecimento dos sinais acima referidos, uns mais cedo, outros mais tarde, a maioria sem febre alguma ou qualquer outra complicação. E a peste ganhou maior força, porque dos doentes passava aos sãos, que com eles conviviam, de modo nada diferente do que faz o fogo com as coisas secas ou engorduradas que lhe estejam muito próximas. E mais ainda avançou o mal: pois não só falar e conviver com os doentes causava a doença nos sãos ou os levava igualmente à morte, como também as roupas ou quaisquer outras coisas que tivessem sido tocadas ou usadas pelos doentes pareciam transmitir a referida enfermidade a quem as tocasse.
É espantoso ouvir aquilo que devo dizer: se tais coisas não tivessem sido vistas pelos olhos de muitos e também pelos meus, eu mal ousaria acreditar nelas, muito menos descrevê-las, por mais fidedigna que fosse a pessoa de quem as ouvisse. Digo que era tamanha a eficácia de tal peste em passar de um ser a outro, que ela não o fazia apenas de homem para homem, mas fazia muito mais (coisa que indubitavelmente ocorreu várias vezes), ou seja, o animal não pertencente à espécie do homem que tocasse as coisas do homem que adoecera ou morrera dessa doença não só adoecia também como morria em brevíssimo espaço de tempo. Tive, entre outras, a seguinte experiência, coisa vista com meus próprios olhos, como há pouco disse: um dia tendo os farrapos de um pobre homem morto da doença sido jogados na via pública, dois porcos se aproximaram deles e, conforme é seu costume, primeiro os fuçaram e depois os tomaram entre os dentes para sacudi-los; em pouco tempo, como se tivessem tomado veneno, após algumas contorções ambos caíram mortos sobre os trapos que em má hora haviam puxado». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.

Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

Decameron. Giovanni Boccaccio (1313-1375). «E quem negará que, seja ele quanto for, convirá dá-lo muito mais às amáveis senhoras do que aos homens? Porque elas, temerosas e envergonhadas, guardam as chamas amorosas escondidas…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«É humano ter compaixão dos aflitos: e, embora em todos ela caia bem, espera-se compaixão máxima daqueles que já precisaram de conforto e o encontraram; entre estes, se alguém há que já precisou dele, que o prezou ou já sentiu a alegria de tê-lo, esse sou eu. Pois, tendo sido sobremaneira inflamado desde a primeira juventude até ao presente por elevadíssimo e nobre amor (talvez, pelo modo como falo, bem mais do que pareceria conveniente à minha baixa condição), ainda que para os atilados que dele tiveram notícia eu fosse louvado e muito mais reputado por tal facto, nem por isso deixou de me ser penoso suportá-lo, não decerto pela crueldade da mulher amada, mas pelo excessivo ardor concebido na mente por um desejo pouco temperado: e este, não me permitindo outrora ficar dentro de limites convenientes, com frequência me fazia penar mais do que seria necessário. E a tais penas deram tanto refrigério os agradáveis colóquios com alguns amigos e suas louváveis consolações que acredito firmemente dever a isso o facto de não estar morto. Mas, como quis Aquele que, sendo infinito, ditou a lei imutável de que todas as coisas do mundo devem ter fim, meu amor, que era mais fervoroso que qualquer outro e não pudera ser destruído nem vergado por nenhuma força de vontade, sensatez, vergonha evidente ou perigo que dele pudesse decorrer, com o passar do tempo diminuiu sozinho, a tal ponto que em minha mente deixou de si apenas o prazer que de hábito ele concede a quem não tenha navegado por seus mais tenebrosos pélagos; porque, embora costumasse ser tão penoso, eliminadas as suas inquietudes, sinto que permaneceu o seu deleite.
Contudo, embora as penas tenham cessado, nem por isso me fugiu a lembrança dos benefícios recebidos daqueles que, tratando-me com benevolência, ficavam pesarosos com as minhas atribulações: tal lembrança nunca desaparecerá, a não ser com a morte, disso estou certo. E como, segundo creio, de todas as virtudes a gratidão é a mais recomendável, sendo condenável o seu contrário, para não parecer ingrato decidi propôr-me, dentro das minhas pequenas possibilidades, oferecer algum alívio (agora que posso dizer-me livre) em troca do que recebi, se não àqueles que me ajudaram e, por serem sensatos e venturosos, talvez não precisem dele, pelo menos àqueles aos quais ele venha a caber. E, embora o meu apoio ou conforto (se quisermos assim dizer) possa ser, como de facto é, pouca coisa para os necessitados, parece-me bom oferecê-lo onde a necessidade se mostrar maior, seja porque então será mais útil, seja porque lhe será dado mais apreço.
E quem negará que, seja ele quanto for, convirá dá-lo muito mais às amáveis senhoras do que aos homens? Porque elas, temerosas e envergonhadas, guardam as chamas amorosas escondidas dentro do peito delicado, e, como bem sabe quem as sentiu, têm estas muito mais força que as chamas declaradas: além disso, coagidas por vontades, gostos e ordens de pai, mãe, irmãos e marido, ficam a maior parte do tempo encerradas no pequeno circuito dos seus aposentos, permanecendo quase ociosas e, querendo e não, revolvendo num mesmo instante diversos pensamentos que não podem ser todos sempre alegres. E, se, em decorrência de tais pensamentos, nascer na sua mente alguma melancolia trazida por ardente desejo, esta ali haverá de ficar, para seu grande pesar, caso não seja afastada por novas conversações: sem contar que as mulheres são muito menos fortes que os homens para opôr resistência; coisa que não ocorre com os homens enamorados, como podemos ver claramente. Estes, se afligidos por alguma melancolia ou por pensamentos pesarosos, têm muitos modos de encontrar alívio ou esquecimento, pois, desde que queiram, não lhes falta a possibilidade de passear, ouvir e ver muitas coisas, praticar lavores em forma de cetra, caça e pesca, cavalgar, jogar ou comerciar: desses modos cada um encontra forças para recobrar o ânimo, no todo ou em parte, e para afastar-se do pensamento pesaroso pelo menos por algum tempo, após o que, de um modo ou de outro, ou se alcança o consolo ou o pesar diminui.
Portanto, para que por meu intermédio seja corrigido o pecado da fortuna, que, onde menos devia, mais avara de amparo foi, tal como vemos nas mulheres delicadas, pretendo prestar socorro e refúgio àquelas que amam, pois às outras bastam a agulha, o fuso e a dobadoura, contando cem novelas ou fábulas ou parábolas ou histórias, como se queira chamar, narradas em dez dias por um honesto grupo de sete senhoras e três rapazes, formado nos tempos mortíferos da peste que passou, bem como algumas canções, cantadas pelas senhoras acima referidas, para seu deleite. Em tais novelas haverá casos de amor agradáveis e pungentes, bem como outras aventuras ocorridas nos tempos actuais e nos antigos; e das coisas divertidas que nelas são mostradas as senhoras que as lerem poderão extrair não só prazer como também orientações úteis, pois reconhecerão aquilo de que se deve fugir e aquilo que deve ser seguido: coisas que não podem ocorrer sem que se livrem de seu pesar. Queira Deus que isso ocorra; e caberá agradecer ao Amor, que, libertando-me das suas cadeias, concedeu-me o poder de dar atenção aos prazeres delas». In Giovanni Boccaccio (1313-1375), Decameron, 1354, Relógio d’Água, ISBN 978-972-708-879-9, L&Pm, 2013, ISBN 978-852-542-941-4.

Cortesia de Ed’Água/L&Pm/JDACT

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Na Romagna. Paul Strathern. «No entanto, durante quanto tempo mais manteria Orsini a aparência de que apoiava Bórgia?»

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Traição e Bluff
«(…) Soderini conteve-se, mas estava sem sombra de dúvida perturbado. Maquiavel pode ter ficado também perturbado, mas além disso sentiu-se impressionado e não deixaria de o transmitir no despacho que enviou para Florença: este senhor é verdadeiramente esplêndido e magnificente e, na guerra, não há empreendimento por maior que seja que não lhe pareça pequeno; é incessante na busca de glória e de território e não conhece perigos nem fadiga. Chega a um lugar antes que qualquer pessoa se aperceba de que saiu do lugar onde estava antes. É amado pelos seus soldados e tem ao seu serviço os melhores homens de Itália. Tudo isto lhe permite ser vitorioso e formidável, particularmente à luz da sua boa fortuna permanente. A notícia de que Bórgia tinha tomado Urbino de súbito, a chegada de noite, fatigado, após longa e dura cavalgada pelas montanhas, o ter sido levado apressadamente para o palácio mal acabara de desmontar, os guardas armados e o trancar das portas depois de terem entrado, e por fim o aparecimento teatral de Bórgia com a luz das velas atrás de si num salão às escuras, tudo isto deve ter contribuído para baixar as defesas de Maquiavel. Este tinha na altura 33 anos e já se encontrara com várias figuras importantes, e, no entanto, esta fortíssima primeira impressão permaneceria com ele para o resto da vida, afectando todos os seus posteriores pensamentos acerca de Bórgia.
Durante este encontro em Urbino, as aptidões políticas de Maquiavel levá-lo-iam a suspeitar de que havia um certo bluff no estilo bombástico de Bórgia. Mas nem isso podia já perturbar a imagem ideal de um conquistador enérgico e sem escrúpulos, que tão fortemente tinha ficado gravada na sua mente. Soderini e Maquiavel não o sabiam ainda, mas a situação de Bórgia tinha sofrido uma modificação drástica nos dias anteriores. Luís XII, que se encontrava prestes a estabelecer a sua corte em Asti, no Norte de Itália, não estivera tão distraído como parecia por causa da sua disputa com a Espanha. Observara a terceira campanha de César na Romagna e estava bem ciente do que ele era capaz. Mas isso ainda não era tudo. Como resultado da tomada traiçoeira de Urbino por Bórgia, os seus inimigos na região tinham fugido e iam a caminho para expor o seu caso a Luís XII, que, ao que constava, tinha ficado em particular aborrecido com o movimento ostensivo de Bórgia sobre Arezzo, em território florentino. Contudo, esta acção de Vitellozzo não era inteiramente da responsabilidade de Bórgia, e este estava bem consciente de que, na melhor das hipóteses, o seu comandante só estava parcialmente sob o seu controlo. Como se isto já não fosse mau o suficiente, Bórgia ouvira falar de uma conspiração contra si, que estaria a ser montada entre os seus comandantes Vitellozzo, Baglioni e Liverotto da Fermo. Muitos dos castelos e domínios que lhes pertenciam situavam-se ao longo das fronteiras ocidental e meridional do ducado da Romagna de Bórgia, e eles acabavam de compreender a sua vulnerabilidade face às contínuas intenções expansionistas de Bórgia. Só virando-se contra ele tinham probabilidades de sobreviver. Mesmo Paolo e Giulio Orsini, que se encontravam com Bórgia em Urbino, tinham, segundo os boatos, sido contactados para se juntarem à conspiração. No momento, ajudavam Bórgia a intimidar a delegação florentina, informando confidencialmente Soderini e Maquiavel de que a conquista de Arezzo por Vitellozzo contara com o apoio encoberto de Luís XII, o que significava que Bórgia podia agora com facilidade desencadear uma acção sobre a própria Florença, se assim o decidisse.
No entanto, durante quanto tempo mais manteria Orsini a aparência de que apoiava Bórgia? Estas eram as últimas famílias aristocráticas poderosas de Roma que ainda conservavam as suas terras e os seus castelos. Alexandre VI tinha anulado o poder das outras famílias notáveis uma a uma, quando surgia a oportunidade, acabando por confiscar os castelos e as terras da família Colonna escassos meses antes, quando esta cometera o erro de alinhar ao lado de Nápoles contra os franceses e os espanhóis. Os Orsini tinham evidentemente começado a pensar quanto tempo demoraria até eles próprios serem eliminados e as suas terras passarem a fazer parte do crescente domínio de Bórgia». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Ao ter conhecimento disto, o rei Alfonso II de Nápoles, que subira ao trono apenas no ano anterior, decidiu abdicar e entrar para um mosteiro»

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«(…) Guicciardini descreveu de modo sucinto o desprezo dos italianos pelo rei francês: não só lhe faltava conhecimento das artes, como também mal sabia ler e escrever. Sentia ganância pela governação, mas ela bastante incapaz na sua prática, porque se deixava influenciar continuamente. Um homem assim mostrou ser seduzido com facilidade por toda a ostentação ancestral sofisticada exibida por Alexandre VI. Quando Carlos VIII se ajoelhou com a intenção de beijar os pés do papa, Alexandre VI ajudou-o graciosamente a levantar-se. Ainda assim, o papa foi obrigado a fazer algumas cedências. Quando Carlos VIII partiu para Nápoles com o seu exército, a 28 de Janeiro de 1495, insistiu em que o cardeal César Bórgia cavalgasse a seu lado, como companheiro amigável (e refém), junto com uma coluna de 19 mulas que transportavam tesouros e ricas tapeçarias. Dois dias depois, o exército francês chegou a Velletri, onde o rei e o seu companheiro de viagem deveriam ser os convidados do bispo local, que não era outro senão o cardeal Giuliano della Rovere. Esta teria sido de facto uma humilhação para o jovem e orgulhoso cardeal Bórgia, que não suportava o mais pequeno insulto pessoal. No entanto, este não chegaria a sê-lo. De acordo com o mestre de cerimónias de Alexandre VI, Johannes Burchard, no dia 30 de Janeiro soube-se que o cardeal César Bórgia tinha iludido o controlo do rei francês e fugira de Velletri disfarçado de palafreneiro das cavalariças reais, e que viajara tão veloz que nessa noite já dormiu em Roma. No dia seguinte, esgueirou-se discretamente da cidade ao nascer do dia. Para cúmulo, Bórgia conseguiu também que metade da coluna de mulas que carregava o tesouro fosse roubada, enquanto as caixas transportadas pelas restantes mulas foram encontradas vazias.
Quando Carlos VIII compreendeu que fora enganado, teve uma fúria e gritou: estes italianos são todos uns canalhas nojentos e o pior deles é o seu Santo Padre! O cardeal Bórgia manteve-se escondido na fortaleza da família em Spoleto durante dois meses, antes de se arriscar a voltar a Roma. No entanto, dias depois de regressar, daria a conhecer a sua presença de maneira bem característica. Um destacamento de soldados suíços que ocupavam Roma em nome de Carlos VIII foi atacado com violência na Praça de São Pedro por várias centenas de espanhóis fortemente armados; no decurso da peleja que se seguiu, foram assassinados 24 suíços e muitos mais conseguiram escapar com ferimentos graves. César Bórgia não era homem para esquecer um insulto: tinham sido soldados suíços os que saquearam a casa da sua mãe e lhe roubaram o dinheiro.
Entretanto, após saírem de Velletri, Carlos VIII e o seu exército continuaram em direcção a Nápoles. Ao ter conhecimento disto, o rei Alfonso II de Nápoles, que subira ao trono apenas no ano anterior, decidiu abdicar e entrar para um mosteiro; pouco depois, o novo rei, o seu filho Ferrante II, fugiu por mar para a Sicília. No dia 22 de Fevereiro, Carlos VIII e o exército francês entraram triunfantemente em Nápoles e logo se instalaram como em casa própria. Várias fontes referem o grande apetite sexual de Carlos VIII e o seu entusiasmo pelas mulheres de Nápoles. Diz-se que teria um livro com esboços dos retratos das preferidas, que ele folheava, salivando ao imaginar os seus favores. Outras confirmam a sua obsessão com as relações sexuais, mas alegam que insistia na novidade e nunca estava com a mesma mulher duas vezes». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

Da Vinci. Maquiavel. Bórgia. Paul Strathern. «As suas aptidões de pintor sempre inovadoras atingiram o seu auge e, na sua busca incansável da originalidade, escolheu uma abordagem inteiramente nova para a pintura de frescos»

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O Mundo que eles Criaram. Uma Constelação Única
«(…) Igualmente espantosos eram alguns dos engenhos militares que Leonardo continuava a esboçar nos seus cadernos de apontamentos: tais como um grande morteiro móvel que dispara pedras como se fosse uma saraivada e um veículo blindado semelhante a um tanque com a forma de um cone achatado, acompanhado por um desenho da sua parte inferior demonstrando como funcionava a sua roda dentada. Estes desenhos estavam bastante à frente do seu tempo: só três séculos mais tarde é que um veículo militar blindado com semelhanças assinaláveis seria experimentado na Guerra Civil Americana. É pouco provável que estes desenhos tenham passado efectivamente à prática, mas experiências recentes demonstraram que a maioria deles funcionaria. Uma excepção assinalável era o carro blindado, cujo motor de rodas dentadas fora concebido de tal maneira que impulsionaria as rodas da frente e as de trás em sentidos opostos. É um erro tão elementar que pode muito bem ter sido cometido de propósito, para que qualquer ladrão inexperiente que tentasse construir sozinho um destes veículos não o conseguisse fazer. Por outro lado, este erro pode muito bem ter ficado a dever-se às desconfianças iniciais de Leonardo acerca deste tipo de trabalho. Apesar da sua crescente mestria na concepção de armas de guerra, ao longo de toda a sua vida manteve-se sigilosamente (isto é, nos seus cadernos de apontamentos) contrário à crueldade dos homens (...) que estarão sempre a lutar uns com os outros, infligindo as maiores perdas e morte frequente a ambos os lados.
Numa linha semelhante, Leonardo desenhou diques para controlar os canais que irrigavam as planícies férteis dos arredores de Milão, mas concebeu também um método para deixar uma inundação de água solta sobre um exército e pontes e muralhas de cidades. Estes planos podem muito bem ter sido inspirados pela inundação do Arno que testemunhou na juventude. Ao mesmo tempo, talvez para conter qualquer futura inundação do Arno, esboçou um mapa com um plano destinado a desviar o rio das proximidades de Florença para um canal que levaria directamente à costa, dando à cidade uma via navegável para o mar. Dadas todas estas preocupações, não é de surpreender que Leonardo tivesse pouco tempo para a pintura. De facto, durante os 17 anos que viveu em Milão, apenas completou seis obras, embora entre elas se contassem algumas das melhores que saíram do seu pincel, a mais notável seria A Última Ceia. Este mural, pintado no refeitório do mosteiro dominicano de Santa Maria delle Grazie, em Milão, revela Leonardo no seu melhor.
As suas aptidões de pintor sempre inovadoras atingiram o seu auge e, na sua busca incansável da originalidade, escolheu uma abordagem inteiramente nova para a pintura de frescos. Uma descrição em primeira mão feita pelo jovem Matteo Bandello, à altura noviço no mosteiro, mostra o sofrimento imenso por que Leonardo passou para concluir esta obra: chegava bem cedo, subia para o andaime e começava a trabalhar. Por vezes, ficava ali desde o nascer do dia até ao pôr do Sol, sem pousar uma única vez o pincel, esquecendo-se de comer e beber, pintando sem cessar. Noutras ocasiões, passava dois, três ou quatro dias sem pegar no pincel, mas ficando uma ou duas horas por dia de pé frente à obra, de braços cruzados, analisando e avaliando as figuras mentalmente. Também o vi, levado por algum ímpeto súbito, sair da Corte Vecchia ao meio-dia, quando o calor do Sol estava no seu máximo, sem procurar as sombras (...) e vir direito a Santa Maria delle Grazie, subir para o andaime, pegar no pincel, dar uma ou duas pinceladas, e ir-se embora de novo.
Cada rosto, cada feição, cada posição e gesto dos 12 apóstolos sentados à mesa com Cristo foram o resultado de uma profunda meditação artística. Cada figura é individual, inspirada em alguém que lhe chamara a atenção e que, de forma disfarçada, esboçara no caderno de apontamentos que trazia pendurado no cinto. Ainda assim, cada figura é reconhecível tanto psicológica como simbolicamente, desde o céptico Tomás com o seu dedo predestinado erguido, até ao afetacdo intelectual Lucas, todos fechados dentro das rígidas formas geométricas do cenáculo, cuja perspectiva conduz permanentemente os olhos para a figura central de Cristo, e depois permite que eles percorrem cada fila de discípulos que gesticulam, criando uma cena teatral repleta de presciência». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

Da Vinci. Maquiavel. Bórgia. Paul Strathern. «Ludovico escolheu como amante uma jovem de 14 anos, inteligente e atraente, Cecilia Gallerani, e uma das primeiras encomendas importantes feitas por Ludovico…»

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O Mundo que eles Criaram. Uma Constelação Única
«(…) Leonardo passaria 17 anos em Milão, e este seria o período mais feliz e produtivo da sua vida. Embora tivesse demorado algum tempo até ser levado à presença de Ludovico Sforza, ficou de boa vontade na cidade, aceitando inicialmente encomendas em conjunto com os artistas florentinos irmãos De Predis. Leonardo apreciava a atmosfera comercial mais descarada e mais vibrante da Milão setentrional e enublada, depois daquela estufa do snobismo e da alta cultura de Florença. E foi aqui que ele arranjou um ajudante de dez anos, a quem deu a alcunha de Salai (traquina), cujos modos irreprimíveis e beleza de adolescente a desabrochar acabariam por cativar o coração do seu mestre. Leonardo comprava belas roupas para Salai, que lhe retribuía roubando-lhe o dinheiro da bolsa. Os cadernos de apontamentos de Leonardo ficaram cheios de referências a este pequeno demónio, a este mafarrico; a dada altura, exasperado, descreve-o mesmo como ladrão, mentiroso, obstinado, ganancioso, mas no entanto, ao mesmo tempo, os desenhos afectuosos que faz de Salai retratam um jovem cativante de uma beleza excepcional.
De maneira muito diferente, Leonardo sentiu-se também atraído pelo poderoso Ludovico Sforza, mais velho do que ele apenas um ano. Ludovico, conhecido como Il Moro (o Mouro) devido à sua pele escura, foi descrito pelo grande historiador suíço do Renascimento Jacob Burckhardt como o tipo perfeito de tirano, aludindo à mão firme com que governava Milão e ao seu desejo de transformar a capital do ducado numa cidade do Renascimento. Retratos de Ludovico mostram-no como uma figura bastante rechonchuda, quase sonolenta, mas esta interpretação é desmentida pelos seus actos, que revelam um homem complexo, enigmático. Quando o seu irmão mais velho, o duque Galeazzo Maria, foi assassinado em 1494, o ducado passaria para as mãos do filho do duque, Gian Galeazzo, então com oito anos, mas Il Moro usurpou o lugar do jovem sobrinho e assumiu o poder como regente, governando de forma secreta a partir do extenso e muralhado Castello Sforzesco, cuja silhueta sombria dominava a linha do horizonte do norte da cidade.
Ludovico escolheu como amante uma jovem de 14 anos, inteligente e atraente, Cecilia Gallerani, e uma das primeiras encomendas importantes feitas por Ludovico a Leonardo foi um retrato da jovem. Nele, Cecilia aparece senhora de si e casta na sua beleza, segurando ao colo um arminho branco, símbolo da pureza. No entanto, a maneira como os seus dedos compridos assentam na pele do animal, acariciando-o, provoca um frémito de sugestão erótica. Depois de estar sexualmente fascinado por Cecilia, Ludovico amou-a, e este retrato reflecte com subtileza a nova posição da jovem na sua vida, como Ludovico teria sem dúvida desejado. Leonardo estabeleceu como é evidente uma relação com Ludovico, mas não tinha quaisquer ilusões acerca do seu senhor, comentando no seu caderno de apontamentos, de maneira invulgarmente direta: a justiça do Mouro é tão negra como a sua pele. Quando Leonardo começou a trabalhar para Ludovico, mudou-se para um apartamento na Corte Vecchia (Corte Velha). Foi aí que o jovem herdeiro legítimo, Gian Galeazzo, esteve de início sob prisão domiciliária, mas naquele momento já havia sido transferido para uma residência fora de Milão, e o palácio estava vazio a maior parte do tempo. O apartamento de Leonardo dava para um dos grandes pátios interiores orlados de pórticos e ele tinha também à sua disposição, como atelier, o vasto antigo salão de baile.
Leonardo começou por ser contratado para produzir entretenimentos para Ludovico e a sua corte. Tocava para eles no seu alaúde de prata, dava recitais de canto, escrevia adivinhas e contava histórias. Para os grandes cortejos, fornecia artefactos engenhosos destinados a surpreender e deliciar Ludovico e os seus convidados, tais como estátuas de gelo, uma complexa mascarada com planetas em movimento e espetaculares exibições de fogo de artifício». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

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sábado, 16 de setembro de 2017

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Alexandre VI manteve-se obstinado na sua posição, mas Della Rovere e os cardeais que o apoiavam pressionavam constantemente o rei para que afastasse da Santa Sé um papa tão cheio de vícios»

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«(…) Antes da chegada dos franceses, as batalhas tinham coreografado em grande medida os assuntos em Itália, dirigidas por condottieri rivais sem o mais pequeno desejo de infligir ferimentos nos mercenários seus adversários, que bem poderiam ser os aliados na época seguinte. Quando uma das partes era empurrada para uma posição indefensável (quer dizer, uma posição da qual não pudesse fugir rapidamente), admitia a derrota, e os dois comandantes rivais chegavam a um acordo mútuo satisfatório. O pesado exército medieval francês não conhecia essas subtilezas. As batalhas eram travadas com um vigor sedento de sangue e terminavam com frequência com o massacre de todos os que não conseguiam fugir. Era assim que a guerra era travada na Europa do Norte, e o exército francês estava bem treinado neste tipo de actividade, pois a Guerra dos Cem Anos, contra os ingleses, tinha acabado apenas umas décadas antes. Ao mesmo tempo, o exército francês levava para Itália uma arma nova: o grande canhão móvel. Os italianos dispunham de canhões mais pequenos, puxados por bois pesadões, e cujas munições consistiam em pequenas balas feitas de pedra, que geralmente se despedaçavam contra os muros sólidos das fortalezas. Os enormes canhões franceses estavam montados de modo a serem puxados rapidamente por parelhas de cavalos através do país, e disparavam enormes balas de ferro capazes de abrir buracos nos mais impressionantes muros das fortalezas. A medida que Carlos VIII marchava em direcção ao sul, as fortalezas situadas no seu caminho capitulavam uma após outra, muitas vezes sem ser preciso disparar um único tiro, tal era o terror que o exército francês infundia mesmo antes da sua chegada.
Ao papa Alexandre VI, em Roma, chegava a notícia de que o cardeal Ascanio Sforza tinha persuadido os seus aliados Colonna a fugir e a tomar os portos costeiros de Óstia e Civitavecchia em nome dos franceses. Roma ficava assim isolada das suas fontes de abastecimento. Quando Carlos VIII se virou para Roma, as forças dos Orsini desertaram também para o lado dos franceses. Alexandre VI compreendeu que a resistência armada seria inútil e enviou as poucas tropas que ainda lhe restavam para Nápoles, no Sul. No dia 14 de Dezembro de 1494, Carlos VIII e o seu exército entraram em Roma sem encontrar resistência. As suas tropas eram tão numerosas que as colunas de soldados de infantaria franceses, mercenários suíços e esquadrões de cavalaria levaram desde as 15 até às 21 horas a passar pelas ruas. À procissão aparentemente interminável seguiu-se o troar dos 36 canhões montados rolando por cima das pedras da calçada, arrastados por cavalos. As multidões pasmavam aterrorizadas ao velem os canhões de quase 2,5 metros, cada um pesando 2700 quilos, os seus canos de bronze a luzir à luz das tochas, as bocas negras suficientemente grandes para lá entrar a cabeça de um homem.
Ainda assim, Alexandre VI recusou-se a uma rendição pública. Junto com o cardeal César Bórgia, seu filho, fugiu através do túnel secreto do Vaticano para a velha e maciça fortaleza de Castel Sant'Angelo. Naquele momento, as ruas estavam em tumulto. Carlos VIII mandou montar cadafalsos públicos, para dissuadir os seus homens de actos de pilhagem, mas os soldados franceses e suíços tentaram trepar os muros barricados dos palazzi, em busca de bens para saquear. Nem a residência da mãe de César, Vannozza, escapou: os mercenários suíços conseguiram entrar e saqueá-la, levando 800 ducados. Por aquela altura, já o inimigo jurado de Alexandre VI, o cardeal Giovanni della Rovere, se juntara a Carlos VIII e encorajava-o a pedir que o papa se submetesse a um concílio que procedesse à reforma do papado. Nas palavras do historiador contemporâneo Guicciardini, para Alexandre VI, a ideia de fazer reformas era um pensamento tão terrível que não havia palavras que o descrevessem.
Alexandre VI manteve-se obstinado na sua posição, mas Della Rovere e os cardeais que o apoiavam pressionavam constantemente o rei para que afastasse da Santa Sé um papa tão cheio de vícios e abominações e elegesse outro. Por fim, Carlos VIII perdeu a paciência e mandou alinhar os canhões frente aos muros do Castel Sant'Angelo; mas, antes que fosse disparado um único tiro, uma grande secção de quase dez metros das muralhas antigas desabou sozinha, arrastando os soldados que guardavam as ameias e sepultando-os num monte de escombros. Mal a nuvem de poeira tinha assentado, já Alexandre VI concordava em reunir-se com Carlos VIII». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

Cortesia do CAutor/JDACT

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «Alexandre VI recebeu mais reforços, mas estes dificilmente foram suficientes para resistir à forte máquina de guerra francesa, com 60 000 homens, que em breve iniciaria o seu avanço para sul»

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«(…) Ao iniciar o seu pontificado, o novo papa prometera uma reforma completa das finanças papais, um assunto caro ao seu coração, e, para espanto de muitos, estas reformas foram de imediato levadas a cabo. Depois, em 1494, Alexandre VI emitiu uma bula papal que teve possivelmente mais efeito em todo o mundo do que nenhuma outra, antes ou depois. Com a descoberta do Novo Mundo pela Espanha e as navegações portuguesas a passar além dos Açores, à volta de África e chegando ao oceano Índico, a perspectiva de um conflito entre estas duas poderosas nações cristãs tornou-se maior do que nunca. O problema foi resolvido pela bula de Alexandre VI, que traçou uma linha de norte para sul através do Atlântico, 100 léguas a ocidente das ilhas de Cabo Verde. Todas as terras que fossem descobertas a ocidente dessa linha pertenceriam a Espanha, as que fossem descobertas a leste pertenceriam a Portugal (esta linha seria mais tarde desviada para 370 léguas a ocidente dos Açores; embora a intenção fosse que o Novo Mundo pertencesse a Espanha, esta nova demarcação significou que, quando o Brasil foi descoberto, situava-se a leste da nova linha e, como tal, caberia aos portugueses; uma herança duradoura desta alteração é o facto de no Brasil se falar português, enquanto no resto da América do Sul o espanhol continua a ser a língua oficial).
A intervenção de Alexandre VI nesta disputa potencialmente desastrosa foi muito apreciada por ambas as partes, embora talvez mais pela Espanha, país ao qual a adjudicação do papa independente atribuía à partida a parte de leão. Como reconhecimento deste favor, o rei Fernando de Espanha estava na disposição de ignorar o seu desprezo pelo filho do papa, Juan Bórgia, o arrivista duque de Gândia. Fernando anunciou que estava preparado para receber Gândia na corte e até permitiu os esponsais de Gândia com a sua prima de sangue real María Enríquez. Mais ou menos por esta altura, Alexandre VI também conseguiu arranjar uma noiva real de prestígio para o seu filho Jofre, que ficou noivo de Sancia, filha ilegítima de Alfonso, filho do rei de Nápoles. O poder imediato dos Bórgia terminaria assim que Alexandre VI deixasse de ser papa, mas tendo os seus filhos casados com mulheres pertencentes a duas famílias reais, era evidente que Alexandre VI alimentava ambições maiores e mais duradouras para a família Bórgia. Com este objectivo, a crescente teia de influência do novo papa estendia-se por toda a Itália e além dela, desde os Sforza em Milão até aos Medici em Florença, do rei de Nápoles ao rei de Espanha.
No entanto, em 1494, os planos de Alexandre VI desmoronaram-se, quando Ludovico Sforza convidou Carlos VIII a entrar em Itália para reclamar o trono de Nápoles. O tosco rei francês era encarado com horror pelos sofisticados italianos; de acordo com Guicciardini: os seus membros tinham umas tais proporções que ele parecia mais um monstro do que um homem. Quando o seu exército varreu tudo no seu avanço para sul, começou a perturbar o equilíbrio precário da política italiana. Quando Pisa foi tomada, libertou-se de Florença. No meio das convulsões, Piero de Medici fugiu de Florença, a qual sofreu a humilhação de ser ocupada pelo exército francês. Antes de retirar o seu exército, Carlos VIII insistiu em que a Signoria assinasse um tratado de amizade, obrigando Florença a apoiar a causa francesa.
No entanto, tudo isto era uma humilhação de pouca monta quando comparado com o que haveria de se seguir. Para chegar a Nápoles, Carlos VIII e o seu exército precisavam de atravessar território papal. Alexandre VI convocou as poucas forças que tinha à sua disposição, muitas delas recrutadas nos exércitos das principais famílias de Roma, como os Orsini e os Colonna. Após um apelo desesperado aos seus aliados napolitanos, Alexandre VI recebeu mais reforços, mas estes dificilmente foram suficientes para resistir à forte máquina de guerra francesa, com 60 000 homens, que em breve iniciaria o seu avanço para sul». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

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domingo, 24 de julho de 2016

O Papa e o Filho Bastardo. Paul Strathern. «No verão de 1493, Alexandre VI decidiu conferir a César, de 18 anos, a categoria de cardeal, apesar de o filho nunca ter sido formalmente ordenado sacerdote…»

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«(…) César foi entretanto nomeado arcebispo de Valência, com uma remuneração de 16 000 ducados ,o cargo que o pai fora obrigado a deixar vago quando foi eleito papa. Durante o seu primeiro ano de papado, Alexandre VI nomeou nada menos do que 11 novos cardeais, incluindo Alessandro Farnese, irmão da sua nova amante, Giulia, que por aquela altura se tornara conhecida em tom de chacota como a noiva de Cristo, depois de dar à luz a filha de Alexandre VI, no ano em que ele ascendeu a papa. Todas as novas nomeações feitas por Alexandre VI para o cardinalato foram familiares dos Bórgia ou amigos muito próximos e fiáveis, anulando assim o poder do cardeal Della Rovere e da sua facção no consistório. Entretanto, o generoso cardeal Sforza tinha sido recompensado com o cargo vago de vice-chanceler. Antes do papado de Alexandre VI, a simonia era quase desconhecida, mas agora ascendia a novas alturas. O poeta napolitano contemporâneo Jacopo Sanazzaro escreveria satiricamente a respeito do novo papa: Alexandre vende as chaves, os altares, o próprio Cristo, e tem direito a vender todas essas coisas porque também ele as comprou.
Alexandre VI em breve demonstraria que nem sequer hesitaria em usar a sua jovem filha Lucrécia para alargar a sua influência política, embora nesse aspecto o seu coração estivesse em conflito com as suas ambições. Adorava Lucrécia de todo o coração e mostrou relutância em deixá-la partir de junto de si. Após começar por prometer Lucrécia, ainda criança, em casamento a um nobre espanhol, e depois de mudar de ideias e promete--la em casamento ao espanhol Gaspare Aversa, conde de Procida e mais bem relacionado, acabaria por decidir casá-la, aos 13 anos, com Giovanni Sforza, primo de Ludovico, Il Moro, consolidando assim a sua aliança com Milão.
No verão de 1493, Alexandre VI decidiu conferir a César, de 18 anos, a categoria de cardeal, apesar de o filho nunca ter sido formalmente ordenado sacerdote. Quando o cardeal Della Rovere soube desta nomeação, soltou uma estrondosa exclamação e caiu numa tal fúria apoplética que foi obrigado a recolher à cama. A notícia chegou ao novo cardeal César Bórgia quando se encontrava de férias com a mãe, Vannozza, no campo, ao norte de Roma. Nessa altura, estava no meio de uma disputa irritada com os governadores de Siena, onde o seu cavalo acabava de ser desclassificado e impedido de ganhar o famoso Palio (depois de o jockey ter recebido instruções de César para se atirar do cavalo no último troço, aliviando assim a carga do animal no seu galope por cima das escorregadias pedras cobertas de areia da praça à volta da qual se disputava a corrida). A corrida foi assim ganha por Francesco Gonzaga, marquês de Mântua, o notável soldado que assumiria mais tarde o comando das forças da Santa Liga contra Carlos VIII. As cartas irritadas de César para Gonzaga ameaçavam ter graves consequências políticas, coisa totalmente contrária à estratégia diplomática de Alexandre VI. César começava a dar sinais de que não se sentia obrigado a satisfazer todos os desejos do pai. No entanto, os primeiros anos de Alexandre VI como papa não foram inteiramente dedicados à simonia e à busca do poder político. Era também um homem de considerável intelecto e capacidades. Uma das suas primeiras medidas foi restabelecer uma aparência de ordem cívica nas ruas de Roma, que começava então a rivalizar com Florença para ser a principal cidade do Renascimento. Apesar disso, Roma continuava em muitos aspectos uma cidade medieval: no meio do esplendor das ruínas abandonadas da Roma antiga e dos magníficos palazzi fortificados dos cardeais e das principais famílias da nobreza romana, as ruas mantinham-se imundas e perigosas. O enorme afluxo anual de peregrinos de toda a cristandade dera origem a uma próspera indústria turística, com todos os atavios habituais que isso implicava. As tabernas e os bordéis floresciam, as ruas laterais estavam infestadas de ladrões, assassinos e raptores, enquanto as autoridades encarregadas do policiamento tinham sido reduzidas a um estado de ineficácia total graças aos subornos. Assim que foi eleito papa, Alexandre VI reforçou a guarda pontifícia, bem como a eficácia das várias autoridades policiais. Foi lançada uma caça minuciosa e generalizada a uma longa lista de conhecidos chefes de bandos e assassinos. Quando eram encontrados, eram enforcados sumariamente e os corpos deixados a apodrecer nos patíbulos que existiam ao longo da ponte sobre o Tibre que conduzia à fortaleza papal de Castel Sant'Angelo, de cujas masmorras se elevavam os lamentos dos inúmeros pequenos criminosos que aí estavam encarcerados». In Paul Strathern, O Artista, o Filósofo e o Guerreiro, Da Vinci, Maquiavel e Bórgia e o Mundo que eles Criaram, Clube do Autor, Lisboa, 2009, ISBN 978-989-724-010-2.

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