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domingo, 28 de dezembro de 2014

Profetismo e Iluminismo no Terremoto de Lisboa de 1755. Luiz Felipe Neves. «As causas estão na própria corrupção da ‘integralidade humana’ pela sociedade e pela sua irracionalidade e incapacidade… As consequências seriam de outra amplitude se não houvesse um número de casas ‘amontoadas’ e com uma população mal distribuída»

Cortesia de wikipedia

Resumo:
«O Terremoto de Lisboa é a expressão linguística de conjunto do que, em perspectiva realista, seria uma configuração de evidências concretas a observar com respeito aos factos. Uma soma de lendas, investigações, repercussões, constituíram na memória social uma obviedade que cria duplo obstáculo epistemológico. O primeiro, o de sua reificação; considera-se o fenómeno como evidente, real, óbvio, consensual. O segundo, de empiricismo mais sofisticado, diria que há um fenómeno real a respeito do qual podemos ter diferentes pontos de vista. Ou seja, já há um objecto definido aceito e sobre o qual teremos visões a ponderar. Autores, contrastantemente conhecidos; Voltaire, Rousseau e Malagrida podem nos ajudar a observar entraves significativos à constituição do terremoto de Lisboa».

«Os objectivos deste trabalho de índole ensaística residem no desejo de discutir a constituição de alguns pontos de convergência de autores que se diferenciam fortemente no campo intelectual do século XVIII. A possibilidade de cotejo nos é dada por fenómeno que observaram e constituíram cada um a seu modo. Assim, o terremoto de Lisboa de 1755 é visto por três estrangeiros que ocupam posições desiguais na história do pensamento. Os dois primeiros de que trato, Voltaire e Rousseau, são mais do que conhecidos e estudados e, deles, apenas sublinharei alguns traços. O terceiro é um, até agora, pouco observado jesuíta italiano que teve intensa e variadíssima actuação em Portugal e no Brasil e que tem obra escrita escassa e de acesso difícil. Iluministas e iluminado que nos deixaram explicações causais para a catástrofe de 1755 e, delas, nos serviremos como um ténue fio condutor. O Poema sobre o desastre de Lisboa (1756), François Marie Arouet, dito, Voltaire (1694-1778) tem como subtítulo ou título alternativo as palavras que se seguem: Ou exame deste axioma: tudo está bem. O axioma a que ele refere, tudo está bem, sintetizaria se assim podemos dizer, as posições centrais de determinado optimismo filosófico contra as quais o escritor francês se volta. As teses optimistas firmam que o mundo, criado por Deus, é organizado pela providência de tal modo que, um mal necessário seja sempre compensado por um Bem sempre maior. Voltaire critica fortemente esta posição notadamente pelos perigos maiores que acarretaria: o fatalismo e a inacção. No caso, toma como instrumento de ataque o terremoto de Lisboa de 1755, que apresenta como exemplo notável do que aquela expressão optimista teria de obstáculo à racional compreensão da realidade. O alvo principal das críticas é Gottfried Wilhem Leibniz (1646-1716), e em ponto menor, Alexander Pope (1688-1744). Postulam que o mundo que  conhecemos é o melhor dos mundos possíveis. Ele é a melhor das alternativas possíveis, escolhido por Deus, e criado por Deus. Voltaire, em seu poema, indaga, com veemência e indignação, como a bondade de Deus permitiu tragédia tão lancinante. Ou: como compatibilizar a existência do mal com a ideia de um Deus permanentemente benfazejo e benevolente na sua Omnipotência. Diz Voltaire: Je ne conçois plus comment tout serait bien: je suis comme un docteur; hélas! Je ne sais rien!
Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) em 18 de Agosto de 1756, na Lettre sur la Providence, assume posição oposta à de Voltaire. Afirma que a culpa estaria, portanto, não em desígnio divino, nem em causa natural; Deus e natureza preservam a sua bondade inata. As causas estão na própria corrupção da integralidade humana pela sociedade e por sua irracionalidade, por sua incapacidade de manter o carácter originalmente bom dos filhos do Senhor. As consequências do fenómeno seriam de outra amplitude se não houvesse um despropositado número de casas amontoadas (segundo ele, vinte mil e de seis a sete andares) e com uma população mal distribuída. Chega o pensador genebrino a dizer que, talvez, nenhum estrago teria ocorrido se fossem observadas as regras que a Razão determina». In Luiz Felipe Baeta Neves, Profetismo e Iluminismo no Terremoto de Lisboa de 1755, Revista Convergência Lusíada, nº 24, 2007, Real Gabinete Português de Leitura, Rio de Janeiro, ISSN 1414-0381.

Cortesia de RCLusíada/JDACT

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Cândido ou o Optimista. François-Marie Arouet. «Eu poderia pôr no mesmo plano as bancarrotas e a justiça que se apropria dos bens dos falidos para frustrar os credores. Tudo isso era indispensável, replicava o doutor zarolho, e as desgraças particulares fazem o bem geral»

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Como Cândido encontrou o seu antigo mestre de filosofia, Pangloss, e o mais que se segue
«(…) Ó Pangloss!, exclamou Cândido. - Que estranha genealogia! Não seria o diabo quem lhe fez o tronco? - Qual história!, replicou o grande homem. – Era uma coisa indispensável no melhor dos mundos, um ingrediente necessário: porque se Colombo não tivesse apanhado numa ilha da América a doença terrível que envenena a fonte geradora, que chega mesmo a impedir a geração, e que evidentemente se opõe à grande finalidade da Natureza, nós não teríamos nem o chocolate nem a cochinilha. Além disso é conveniente afirmar que, pelo menos até aos nossos dias, e no nosso continente, esta doença é nossa propriedade privada, como a controvérsia. Os turcos, os hindus, os persas, os chineses, os siameses, os japoneses, ainda a não conhecem. Mas existe uma razão suficiente para que eles, por sua vez, a conheçam daqui a uns séculos. Enquanto espera, ela vai fazendo progressos maravilhosos entre nós, e sobretudo nesses grandes exércitos compostos de honestos soldados de boa presença que decidem do destino dos Estados. Pode-se garantir que, quando trinta mil homens combatem em batalha ordenada contra tropas iguais em número, há de cada lado cerca de vinte mil sifilíticos. - Tudo isso é admirável, disse Cândido, mas o mais urgente é tratar-vos. - Mas como? - disse Pangloss. - Não tenho vintém, meu amigo. E em toda a superfície da terra ninguém se pode mandar sangrar ou fazer um clister sem pagar, ou sem que haja alguém que pague por nós.
Estas últimas palavras determinaram a resolução de Cândido. Deitou-se aos pés do seu caridoso anabaptista Jacques e fez-lhe uma pintura tão comovente do estado a que o seu amigo estava reduzido que o bom homem recolheu sem demora Pangloss e fê-lo tratar à sua custa. Pangloss, depois de curado, não perdeu senão um olho e uma orelha. Como escrevia bem e sabia perfeitamente aritmética, o anabaptista Jacques nomeou-o seu guarda-livros. Ao fim de dois meses, sendo obrigado a ir a Lisboa por assuntos do seu comércio, Jacques levou no seu barco os dois filósofos. Pangloss explicava-lhe como tudo corria pelo melhor. Mas Jacques não era da mesma opinião. – Decerto, dizia ele, que os homens corromperam um pouco a Natureza, porque não nasceram lobos e tornaram-se lobos. Deus não lhes deu nem canhões de vinte e quatro nem baionetas, e eles imaginaram os canhões e as baionetas para se destruírem. Eu poderia pôr no mesmo plano as bancarrotas e a justiça que se apropria dos bens dos falidos para frustrar os credores. Tudo isso era indispensável, replicava o doutor zarolho, e as desgraças particulares fazem o bem geral. De modo que quanto mais houver desgraças particulares, mais tudo irá bem. Enquanto ele discorria, o ar escureceu, os ventos sopraram dos quatro cantos do mundo, e o barco foi assaltado pela mais horrorosa das tempestades, à vista do porto de Lisboa». In François-Marie Arouet (Voltaire), Candide ou L’Optimisme, Cândido ou o Optimista, Guimarães Editores, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-665-578-7.

Cortesia de GuimarãesE./JDACT

A Princesa de Babilónia. Biblioteca de Babel. Voltaire. «… todo o anfiteatro se ergueu para melhor o contemplar; todas as mulheres da corte fixaram nele os olhares admirados; a própria Formosante, que baixava sempre os olhos, ergueu-os e corou»

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A Princesa de Babilónia
«(…) O rei das Índias chegou logo depois, num carro puxado por doze elefantes. A sua comitiva era mais numerosa e mais brilhante ainda do que a do faraó do Egipto. O último que apareceu foi o rei dos Citas. Não tinha junto de si senão guerreiros escolhidos, armados de arcos e de setas. Montava um tigre soberbo, que ele próprio havia domesticado, e que era tão alto como os mais belos cavalos da Pérsia. A estatura deste monarca, imponente e majestosa ofuscava a dos seus rivais; os seus braços nus, tão nervosos como brancos, pareciam estar já retesando o arco de Nembrod.
Os três príncipes começaram por se prostrar diante do Belo e de Formosante. O rei do Egipto ofereceu à princesa os dois mais belos crocodilos do Nilo, dois hipopótamos, duas zebras, dois ratos do Egipto e duas múmias, com os livros do grande Hermes, que ele julgava ser o que havia de mais raro em toda a terra. O rei das Índias ofereceu-lhe cem elefantes, cada um deles com a sua torre de madeira dourada, e pôs aos pés dela o Veidam, escrito pela mão do próprio Xaca. O rei dos Citas, que não sabia ler nem escrever, presenteou-a com cem cavalos de batalha cobertos de gualdrapas e de peles de raposas pretas.
A princesa baixou os olhos diante dos seus apaixonados e inclinou-se com gestos graciosos tão modestos como nobres. Belo mandou conduzir esses monarcas para os tronos que lhes estavam preparados. - Porque não hei-de eu ter três filhas? - disse-lhes ele. - Hoje faria seis pessoas felizes. Em seguida fez tirar à sorte qual deles seria o primeiro a experimentar o arco de Nembrod. Deitaram num capacete de ouro os nomes dos três pretendentes. Saiu primeiro o do rei do Egipto; em seguida apareceu o nome do rei das Indias. O rei Cita, olhando para o arco e para os seus rivais, não se lamentou de ser o terceiro.
Enquanto se preparavam estas brilhantes provas, vinte mil pajens e vinte mil donzelas distribuíam sem confusão refrescos aos espectadores entre as ordens de bancadas; toda a gente confessava que os deuses não tinham estabelecido os reis senão para darem festas todos os dias, contanto que fossem variadas; que a vida é curta de mais para usar dela por outra forma; que os processos, as intrigas, a guerra, as disputas dos padres, que consomem a vida humana, são coisas absurdas e horríveis; que o homem não nasceu senão para a alegria; que não gostaria dos prazeres apaixonadamente e continuamente se não fosse formado para eles; que a essência da natureza humana é de se divertir e que todo o mais é loucura. Esta excelente moral nunca foi desmentida senão pelos factos. Quando iam dar princípio às experiências que deviam decidir o destino de Formosante, um jovem desconhecido montado num unicórnio, acompanhado pelo seu criado, montado do mesmo modo e sustendo no pulso um grande pássaro, apresentou-se na barreira; os guardas ficaram surpresos por verem com tal equipagem uma figura que tinha o aspecto de divindade; era, como se disse depois, o rosto de Adónis no corpo de Hércules; era a majestade com as graças; os seus negros sobrolhos e os longos cabelos louros, misto de belezas desconhecidas em Babilónia, encantaratn a assembleia; todo o anfiteatro se ergueu para melhor o contemplar; todas as mulheres da corte fixaram nele os olhares admirados; a própria Formosante, que baixava sempre os olhos, ergueu-os e corou; os três reis empalideceram: todos os espectadores, comparando Formosante com o desconhecido, exclamaram: Não pode haver no Mundo senão este mancebo que seja tão formoso como a princesa». In Voltaire, La Princesse de Babylone, A Princesa de Babilónia, Biblioteca de Babel, Editora Vega, Lisboa, 1989.

Cortesia de Vega/JDACT

terça-feira, 13 de maio de 2014

Cândido ou o Optimista. François-Marie Arouet. « Que é feito de Cunegundes? Ela morreu, respondeu o outro. Cândido, ouvindo isto, desmaiou; o amigo reanimou-o com umas gotas de péssimo vinagre que por acaso achou na estrebaria…»

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Como Cândido encontrou o seu antigo mestre de filosofia, Pangloss, e o mais que se segue
«Cândido, mais tocado de compaixão que de horror, deu ao assustador mendigo os dois florins que tinha recebido do bondoso anabaptista Jacques. O fantasma fixou-o por longo tempo, chorou, e saltou-lhe ao pescoço num abraço. Cândido, assustado, recua. - Ah! - diz o mísero ao outro mísero, já não reconheceis o vosso amigo Pangloss? - Que ouço? Vós, meu caro mestre? Vós, nesse estado horrível? Mas que tremenda desgraça vos aconteceu? Porque não estais ainda no mais formoso dos castelos? Que é feito da menina Cunegundes, a pérola das raparigas, a obra-prima da Natureza? - Estou sem forças, respondeu Pangloss. Imediatamente Cândido levou-o para a estrebaria do anabaptista e deu-lhe um pedaço de pão a comer. Quando o viu refeito tornou a perguntar: - Que é feito de Cunegundes?
Ela morreu, respondeu o outro. Cândido, ouvindo isto, desmaiou; o amigo reanimou-o com umas gotas de péssimo vinagre que por acaso achou na estrebaria. Cândido abriu os olhos e exclamou: - Cunegundes morreu! Ah, onde está esse mundo que é o melhor dos mundos? Mas de que doença morreu ela? Não seria pelo desgosto de me ver expulso do belo castelo do senhor barão com grandes pontapés no traseiro? – Não, respondeu Pangloss, morreu esventrada pelos soldados búlgaros, depois de ter sido violada tanto quanto se pode sê-lo. O senhor barão morreu também, com a cabeça esmagada, por tentar defender a filha. A senhora baronesa foi esquartejada, e o meu pobre pupilo foi tratado com a mesma crueldade que a irmã. Quanto ao castelo, não ficou dele pedra sobre pedra; destruíram as granjas; não deixaram um carneiro, um pato, uma árvore. Mas fomos bem vingados, porque os soldados ábares fizeram o mesmo numa baronia das vizinhanças, que pertencia a um senhor búlgaro.
Depois destas palavras, Cândido desmaiou novamente; mas, voltando a si, e tendo dito tudo o que devia dizer, inquiriu da causa e do efeito e também da razão suficiente que tinha conduzido Pangloss a tão lamentável estado.
Ai! - exclamou o outro. - Foi o amor: o amor, o consolador do género humano, o conservador do Universo, a alma de todos os seres sensíveis, o terno amor. Ai! - disse Cândido. Já conheci esse amor, esse rei dos corações, essa alma da nossa alma! Só me valeu um beijo e vinte pontapés no traseiro. Mas porque motivo uma causa tão bela produziu em vós um efeito tão abominável? Pangloss respondeu nestes termos: - Ó meu caro Cândido, conhecestes Paquette, a linda criadinha da nossa augusta baronesa; nos braços dela gozei as delícias do Paraíso, que redundaram nestes tormentos do Inferno que ao presente me devoram e de que ela estava infectada (sífilis), e dessa causa deve ter morrido. Paquette recebeu esse presente de um frade franciscano muito sapiente que a trazia de boa fonte, porque a apanhara de uma velha condessa que a recebera de um capitão de cavalaria, o qual a devia a uma marquesa que a tinha de um pajem, e este recebera-a de um jesuíta que , sendo noviço, a recolhera em linha recta de um dos companheiros de Cristóvão Colombo. Por mim, não a passarei a ninguém, porque morro». In François-Marie Arouet (Voltaire), Candide ou L’Optimisme, Cândido ou o Optimista, Guimarães Editores, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-665-578-7.

Cortesia de GuimarãesE./JDACT

Cândido ou o Optimista. François-Marie Arouet. «Cândido, sempre a caminhar sobre os membros palpitantes de feridos ou através de ruínas, conseguiu afastar-se do teatro da guerra levando alguns mantimentos no alforge e sem nunca se esquecer da menina Cunegundes»

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Como Cândido escapou aos búlgaros e o que lhe aconteceu
«Não havia nada mais belo, mais ágil, mais brilhante, mais bem ordenado, do que aqueles dois exércitos. As trombetas, os pífaros, os clarinetes, os tambores, os canhões, formavam tal harmonia como nunca houve outra igual no inferno. Primeiramente, os canhões derrubaram uns seis mil homens, aproximadamente, de cada lado. Em seguida o tiroteio abateu do melhor dos mundos cerca de nove ou dez mil malandros que infestavam a superfície da terra. A baioneta foi também a razão suficiente para a morte de vários milhares de soldados. O total podia avaliar-se numa trintena de mil almas. Cândido, que tremia como um filósofo, escondeu-se o melhor que pôde durante esta chacina heróica. Por fim, enquanto os dois reis mandavam cantar o Te-Deum nos seus respectivos campos, Cândido tomou o partido de ir para outro sítio raciocinar acerca dos efeitos e das causas. Passou por cima de montões de mortos ou moribundos e alcançou, primeiro, uma aldeia das cercanias. Estava reduzida a cinzas. Era uma aldeia dos ábares, queimada pelos búlgaros segundo as leis do direito público. Aqui, os velhos, crivados de feridas, viam morrer suas mulheres degoladas, com os filhos pendentes dos seios ensanguentados. Além, raparigas esventradas, depois de servirem aos apetites naturais de vários heróis, exalavam o último suspiro. Outras, meio queimadas, clamavam que acabassem de as matar. Massas encefálicas salpicavam a terra ao lado de pernas e braços cortados.
Cândido fugiu sem demora para outra aldeia. Pertencia aos búlgaros e os heróis ábares tinham-lhe dado o mesmo tratamento. Cândido, sempre a caminhar sobre os membros palpitantes de feridos ou através de ruínas, conseguiu afastar-se do teatro da guerra levando alguns mantimentos no alforge e sem nunca se esquecer da menina Cunegundes. Quando chegou à Holanda faltaram-lhe as provisões, mas tendo ouvido dizer que toda a gente nesse país era rica, e que o povo era cristão, não teve dúvidas de que seria tão bem tratado como o fora no castelo do senhor barão antes de ter sido expulso por via dos belos olhos da menina Cunegundes. Pediu esmola a diversas personagens importantes e todas lhe responderam que se ele persistisse nesse ofício seria internado numa casa de correcção para o ensinarem a viver.
Em seguida dirigiu-se a um sujeito que acabava de falar, sozinho, e durante uma hora, sobre assuntos de caridade numa numerosa assembleia. O orador, mirando Cândido de esguelha, disse-lhe: - O que fazeis aqui? Sois pela boa causa? - Não há efeito sem causa, respondeu modestamente Cândido. A mulher do orador deitou a cabeça fora da janela, e ao ver um homem que duvidava que o Papa fosse o Anti-Cristo, despejou-lhe sobre a cabeça um... Ó céus! A que excessos o zelo religioso impele as damas!
Um homem que não tinha sido baptizado, um bom anabaptista, chamado Jacques, observou a forma cruel e ignominiosa como estavam tratando um dos seus irmãos, um ser com dois pés e sem plumagem, e para mais, dotado de uma alma. Levou-o para casa, limpou-o, deu-lhe comida e cerveja, presenteou-o com dois florins, e quis até ensiná-lo a trabalhar nas suas manufacturas de fazendas persas tecidas na Holanda. Cândido, quase ajoelhado aos pés dele, exclamava: - Mestre Pangloss bem me dizia, tudo vai pelo melhor neste mundo, porque eu estou infinitamente mais comovido pela vossa generosidade do que indignado pela dureza desse senhor de capa negra, e da senhora sua esposa. No dia seguinte, passeando, Cândido encontrou um mendigo todo coberto de pústulas, cego, com o nariz comido, a boca de esguelha, os dentes negros, falando em falsete, torturado por uma tosse violenta que lhe fazia escarrar um dente em cada convulsão». In François-Marie Arouet (Voltaire), Candide ou L’Optimisme, Cândido ou o Optimista, Guimarães Editores, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-665-578-7.

Cortesia de GuimarãesE./JDACT

domingo, 11 de maio de 2014

Os Dois Consolados. Voltaire. «Ah, disse a dama, se eu tivesse vivido no tempo delas, ou no das belas princesas, e se lhes tivésseis contado os meus infortúnios, pensais que elas vos teriam escutado? No dia seguinte o filósofo perdeu o seu único filho e quase morreu de dor…»

jdact e cortesia de wikipedia

Os dois consolados
«Dizia um dia o grande filósofo Citófilo a uma mulher desesperada e com grandes motivos para o estar; Minha senhora, a rainha de Inglaterra, filha do grande Henrique IV, foi tão infeliz como vós: expulsaram-na dos seus reinos; por pouco não perecia numa tempestade em pleno oceano; viu morrer o seu real esposo no cadafalso. - Tenho muita pena dela, disse a dama, e continuou a chorar os seus próprios infortúnios.
Mas, disse Citófilo, lembrai-vos de Maria Stuart: amava muito honestamente um jovem músico que possuía uma belíssima voz de barítono. O marido matou o músico na presença dela; e mais tarde a sua boa amiga e parente, a rainha Isabel, que se dizia virgem, ordenou que lhe cortassem a cabeça num cadafalso coberto de panos negros, depois de a ter enclausurado numa masmorra durante dezoito anos. - Isso é tudo muito triste, respondeu a dama, e voltou a cair na sua profunda melancolia.
Ouvistes por acaso falar da bela Joana de Nápoles, que foi feita prisioneira e estrangulada?, perguntou-lhe o consolador. - Lembro-me vagamente, respondeu a triste. Tenho de vos contar, continuou o outro, a aventura de uma soberana que no meu tempo foi destronada depois da ceia, e que morreu numa ilha deserta. - Conheço toda essa história, disse a dama. Então vou contar-vos o que aconteceu a uma outra grande princesa a quem revelei a filosofia. Ela tinha um amante, como todas as grandes e belas princesas. O pai entrou no quarto e surpreendeu o amante com o rosto em fogo e os olhos brilhantes como carbúnculos; a dama também parecia muito animada. A expressão do jovem caiu de tal maneira no desagrado do pai que este lhe deu a maior bofetada de que há memória na região. O amante agarrou numas tenazes e partiu a cabeça ao sogro, que a custo se curou e que ainda hoje tem a cicatriz dessa ferida. A amante, desorientada, saltou pela janela e torceu um pé; agora coxeia um pouco, embora tenha uma figura admirável.
O amante foi condenado à morte por ter partido a cabeça a um tão ilustre príncipe. Podeis imaginar o estado em que se encontrava a princesa quando enforcaram o amante. Vi-a durante muito tempo quando ela estava na prisão; só me falava das suas desgraças. - Por que não quereis então que eu pense nas minhas?, perguntou-lhe a dama. - É porque não se deve pensar nisso, disse o filósofo, e porque vos fica mal desesperar quando tantas damas ilustres foram tão infelizes. Pensai em Hécuba, pensai em Niobe. - Ah, disse a dama, se eu tivesse vivido no tempo delas, ou no das belas princesas, e se lhes tivésseis contado os meus infortúnios, pensais que elas vos teriam escutado?
No dia seguinte o filósofo perdeu o seu único filho e quase morreu de dor. A dama mandou fazer uma lista de todos os reis que tinham perdido os seus filhos e levou-a ao filósofo; este leu-a, achou-a muito certa mas não chorou menos por causa disso. Passados três meses voltaram a ver-se e ficaram espantados por se encontrarem com tão boa disposição. Mandaram erigir uma estátua ao Tempo com a seguinte inscrição: Àquele que consola».

In Voltaire, Os Dois Consolados, Biblioteca de Babel, Editora Vega, Lisboa, 1989.

Cortesia de Vega/JDACT

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Cândido ou o Optimista. François-Marie Arouet. «Aí fazem-no virar à esquerda e à direita, tirar a vareta, colocar a vareta, disparar, deitar-se de bruços, acelerar o passo, e dão-lhe trinta bastonadas. No dia seguinte faz o exercício com menos faltas e por isso só recebe vinte bastonadas»

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O que aconteceu a Cândido entre os búlgaros
«Cândido, expulso do paraíso terrestre, caminhou muito tempo sem destino, chorando e clamando, virando-se a todo o momento para contemplar com olhos saudosos o mais formoso dos castelos, onde ficava encerrada a mais formosa das jovens baronesas. Deitou-se sem cear no meio dos campos, entre dois valados. A neve caía a rodos e Cândido, transido de frio, arrastou-se de manhã para a cidade vizinha, que se chama Valdberghoff-trarbk-dikdorff, falho de dinheiro e morto de fome e de cansaço. Muito triste parou à porta de uma hospedaria. Dois homens vestidos de azul repararam nele. – Camarada, disse um deles, eis aqui um jovem bem talhado e com o tamanho exigido. Avançaram para Cândido com a maior cortesia e convidaram-no para jantar. - Meus senho respondeu Cândido cheio de encantadora modéstia, agradeço a honra e a delicadeza do vosso convite, mas não posso aceitar, porque não tenho meios para pagar a minha parte. - Oh! Senhor, disse logo um dos de azul, as pessoas com a vossa cara e o vosso mérito nunca pagam nada. Não é certo que medis cinco pés e cinco polegadas de altura?
- Sim, meus senhores, é esse o meu tamanho, retorquiu Cândido, fazendo uma reverência. - Oh! Senhor, sentai-vos à mesa; não só vos pagaremos este jantar, como não consentiremos jamais que um homem como vós tenha falta de dinheiro; os homens devem prestar socorro uns aos outros. - Tendes toda a razão, meus senhores, afirmou Cândido, e foi isso mesmo que o professor Pangloss me ensinou, que tudo no mundo vai pelo melhor. Os de azul pediram-lhe que aceitasse alguns escudos, que Cândido recebeu pretendendo dar em troca um recibo; mas não lho permitiram e sentaram-se à mesa sem mais demoras. - Não amais alguém ternamente? – Sim, respondeu ele. -Amo ternamente a menina Cunegundes. - Não é isso, disse um dos cavalheiros de azul, perguntámos se não amais ternamente o rei dos búlgaros. - De forma nenhuma, contestou Cândido, porque nunca o vi. - Como? - fez o outro. - É o mais encantador dos reis e vamos beber à sua saúde. - Com todo o gosto, meus senhores, disse o rapaz. - E bebeu.
- Isto nos basta, disseram-lhe. - Eis-vos o sustentáculo, o apoio, o defensor, o herói dos búlgaros; a vossa fortuna está feita e a vossa glória assegurada. Imediatamente lhe põem grilhetas nos pés e o levam ao regimento. Aí fazem-no virar à esquerda e à direita, tirar a vareta, colocar a vareta, disparar, deitar-se de bruços, acelerar o passo, e dão-lhe trinta bastonadas. No dia seguinte faz o exercício com menos faltas e por isso só recebe vinte bastonadas. No outro dia não apanha senão dez e passa a ser olhado pelos camaradas como um prodígio. Cândido, estupefacto, não compreendia muito bem como era um herói. Num belo dia de Primavera lembrou-se de passear, caminhando sempre em frente, crente de que era privilégio da espécie humana, tal como da espécie animal, poder usar das pernas a seu bel-prazer. Mas não tinha ainda acabado as duas primeiras léguas quando quatro outros heróis de seis pés o alcançam, o prendem e o arrastam para o calabouço. Perguntaram-lhe em termos jurídicos o que preferia, se ser vergastado trinta e seis vezes por todo o regimento, se receber por uma vez doze balas de chumbo no crânio. Apesar de ele afirmar que a vontade é livre e que portanto não queria nem uma coisa nem outra, teve que escolher, e resolveu-se, em virtude do dom de Deus a que se chama liberdade, a passar trinta e seis vezes pelos golpes das varetas dos fuzis do regimento.
Aguentou duas voltas. O regimento era composto de dois mil homens, o que perfazia quatro mil vergastadas, as quais, da nuca às coxas, lhe puseram a nu os músculos e nervos. Como iam continuar com a terceira volta, Cândido, sem poder mais, pediu como favor, que tivessem a bondade de lhe esmagar a cabeça. Obteve essa graça. Vendaram-lhe os olhos e mandaram-no ajoelhar. Mas o rei dos búlgaros passou nesse instante e informou-se do crime do paciente. E como o rei era um homem de génio, logo compreendeu, por tudo o que lhe contaram de Cândido, que se tratava de um moço metafisico, demasiado ignorante das coisas deste mundo, e concedeu-lhe o perdão com tamanha clemência que não cessaram de o louvar em todos os jornais e por todos os séculos. Um hábil cirurgião curou Cândido em três semanas, com os emolientes ensinados por Dioscórides. Já recobrara um pouco de pele e conseguia andar quando o rei dos búlgaros travou batalha com o rei dos ábares». In François-Marie Arouet (Voltaire), Candide ou L’Optimisme, Cândido ou o Optimista, Guimarães Editores, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-665-578-7.

Cortesia de GuimarãesE./JDACT

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Cândido ou o Optimista. François-Marie Arouet. «Pangloss ensinava a metafísico-teológico-cosmolonigologia. Provava de forma admirável “que não há efeito sem causa”, e que, no melhor dos mundos possíveis, o castelo do senhor barão era o mais belo dos castelos…»

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Como Cândido foi criado e expulso de um formoso castelo
«Existia na Vestefália, no castelo do senhor barão Thunder-ten-tronckh, um jovem dotado pela natureza com os sentimentos mais suaves. A sua fisionomia retratava a sua alma. Possuía o raciocínio justo e o espírito simples; era decerto por essa razão, penso eu, que lhe chamavam Cândido. Os antigos criados da casa suspeitavam que fosse filho da irmã do barão e de um bom e gentil fidalgo da vizinhança, com o qual ela não quis casar por ele não ter podido provar mais do que setenta e um costados de nobreza, tendo-se o resto da sua árvore genealógica perdido pelas injúrias do tempo.
O barão era um dos mais poderosos senhores da Vestefália, porque o seu castelo tinha uma porta e várias janelas. A sua sala tinha mesmo o luxo de ser adornada com uma tapeçaria. Os cães que guardavam as suas capoeiras conseguiam formar uma matilha em caso de necessidade; os seus palafreneiros serviam de picadores; o cura da aldeia era o seu capelão. Toda a gente lhe chamava monsenhor e se ria amavelmente quando ele contava histórias.
A senhora baronesa, que pesava cerca de trezentas e cinquenta libras (aproximadamente cento e cinquenta quilos), era por isso mesmo muito considerada, e fazia as honras da casa com uma dignidade tal que a tornava ainda mais respeitável. Sua filha, Cunegundes, de dezassete anos de idade, era muito rosada, fresca, gorducha e apetitosa. O filho do barão parecia em tudo digno de seu pai. O preceptor Pangloss era o oráculo da casa, e o pequeno Cândido ouvia as lições do mestre com toda a boa fé da sua idade e do seu carácter. Pangloss ensinava a metafísico-teológico-cosmolonigologia. Provava de forma admirável que não há efeito sem causa, e que, no melhor dos mundos possíveis, o castelo do senhor barão era o mais belo dos castelos, bem como a senhora era a melhor das baronesas possíveis.
Está demonstrado, dizia ele, que o que existe não pode ser diferente; porque, tendo tudo sido criado para um fim, tudo é necessariamente para o melhor dos fins. Note-se bem que os narizes foram feitos para segurar os óculos e, portanto, nós temos óculos; as pernas foram certamente instituídas para serem calçadas e, por isso, usamos calçado; as pedras formaram-se para serem cortadas e amontoadas em castelos, e eis aqui por que o senhor barão possui um tão soberbo edifício, visto que o mais importante fidalgo da sua região deve ser o mais bem instalado. Porque os porcos foram criados para serem comidos, nós comemos porco todo o ano. Por consequência, quem afirma que tudo está bem diz apenas uma asneira. É preciso afirmar que tudo vai pelo melhor.
Cândido ouvia tudo isto atentamente e acreditava inocentemente, porque achava a menina Cunegundes extremamente bela, apesar de nunca ter tido o atrevimento de lho dizer. Pensava que depois da felicidade de ter nascido barão Thunder-ten-tronckh, o segundo grau de felicidade era poder ser a menina Cunegundes; o terceiro consistia em vê-la todos os dias, e o quarto estava em ouvir o professor Pangloss, o maior filósofo da região e, por consequência, da terra inteira.
Aconteceu um dia que Cunegundes, passeando perto do castelo, no pequeno bosque a que chamavam parque, viu entre os arbustos Pangloss dando uma lição de física experimental à criada de quarto de sua mãe, moreninha bonita e muito doce. Como a menina Cunegundes tinha uma grande queda para as ciências, observou, sem se mexer, as repetidas experiências de que foi testemunha. Viu perfeitamente a razão suficiente do filósofo, os efeitos e as causas, e voltou para casa transtornada, pensativa, cheia de desejo de também ser sábia, sonhando em se tornar na razão suficiente do jovem Cândido, que poderia muito bem vir a ser a sua. Quando regressava encontrou Cândido e corou. Cândido corou também. Ela murmurou um bom dia com a voz sobressaltada, e Cândido respondeu sem saber o que dizia. No dia seguinte, depois do jantar, ao levantarem-se da mesa, Cândido e Cunegundes encontraram-se abrigados por um biombo. Cunegundes deixou cair o lenço, Cândido apanhou-o; ela pegou-lhe na mão com toda a inocência; ele com a maior inocência, beijou a mão da jovem com uma vivacidade, uma sensibilidade, uma graça bem característica. As suas bocas encontraram-se, os seus olhos inflamaram-se, os seus joelhos tremeram, as suas mãos desatinaram. O senhor barão Thunder-ten-tronckh passou perto do biombo e, ao ver a causa e o efeito, expulsou Cândido com grandes pontapés no traseiro. Cunegundes desmaiou; quando a reanimaram foi esbofeteada pela senhora baronesa; e todos ficaram consternados, no mais belo e mais agradável dos castelos possíveis». In François-Marie Arouet (Voltaire), Candide ou L’Optimisme, Cândido ou o Optimista, Guimarães Editores, Lisboa, 2009, ISBN 978-972-665-578-7.

Cortesia de GuimarãesE./JDACT

Memnon ou a sabedoria humana. Voltaire. «As pernas de ambos deixaram de estar cruzadas. Memnon aconselhou-a tão de perto, e deu-lhe indicações tão ternas, que já nenhum deles era capaz de falar de negócios, e não sabiam bem em que ponto estavam»

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«Memnon concebeu um dia o projecto insensato de se tornar perfeitamente sábio. Não há ninguém a quem esta loucura não tenha passado pela cabeça, ao menos uma vez na vida. Memnon disse de si para consigo: para se ser muito sábio, e consequentemente muito feliz, basta que se dominem as paixões; e nada é mais fácil, como é sabido. Antes de mais nada, nunca mais hei-de amar nenhuma mulher; pois sempre que vir uma beleza perfeita direi a mim próprio: Essas faces hão-de um dia ficar cheias de rugas, esses belos olhos ficarão sombreados de vermelho; esse peito redondo ficará chato e descaído; essa bela cabeça ficará calva. Ora bastará olhá-la agora com os mesmos olhos com que então a veria; e com toda a certeza essa cabeça não me fará perder a minha. Em segundo lugar, hei-de ser sempre sóbrio; por mais tentado que me sinta pela boa mesa, os vinhos capitosos, as seduções da sociedade, bastar-me-á pensar nas consequências dos excessos, a cabeça pesada, indisposições de estômago, a perda da razão, da saúde e do tempo; comerei só quando precisar; terei sempre boa saúde, ideais puras e luminosas. É tudo tão fácil que não há mérito nenhum em consegui-lo. Depois, pensava Memnon, terei de pensar um pouco na minha fortuna; os meus desejos são moderados; os meus bens estão solidamente colocados na recebedoria-geral das finanças de Nínive; o que tenho basta-me para viver independente, e este é o maior dos bens. Nunca terei a cruel necessidade de pedir favores a ninguém; não invejarei ninguém, e ninguém me invejará. Isto também é facílimo. Tenho amigos, continuou ele, e hei-de conservá-los, pois eles não terão nada a disputar-me. Nunca me zangarei com eles, nem eles comigo. Isto não tem dificuldade nenhuma.
Depois de ter assim feito o seu planozinho de sabedoria dentro do quarto, Memnon meteu a cabeça pela janela. Viu duas mulheres a passear sob os plátanos que ficavam em baixo. Uma delas era velha e parecia não pensar em nada. A outra era nova, bonita, e parecia muito preocupada. Suspirava, chorava, e isto ainda lhe dava mais encanto. O nosso sábio sentiu-se comovido, não com a beleza da dama (tinha a certeza de não ser acessível a tais fraquezas) mas com a aflição em que a via. Desceu e dirigiu-se à jovem niniviana com o propósito de a consolar com sabedoria. A bela rapariga contou-lhe com ar ingénuo e comovente todo o mal que lhe fazia um tio que não tinha; com que artifícios lhe estava ele tirando uns bens que nunca possuíra, e tudo o que tinha a recear da violência dele. Pareceis-me um homem tão sensato, disse-lhe ela, que, se tivésseis a condescendência de vir a minha casa e de examinar os meus assuntos, tenho a certeza que me poderíeis salvar da triste situação em que me encontro.
Memnon não hesitou em segui-la, para examinar sabiamente os seus assuntos e para lhe dar um bom conselho. A preocupada dama levou-o para um quarto perfumado e mandou-o delicadamente sentar-se junto dela num grande sofá, onde ficaram ambos de perna cruzada um em frente do outro. A dama falava baixando os olhos, dos quais deixava por vezes cair lágrimas, e que ao erguerem-se encontravam sempre o olhar do sábio Memnon. Falava com uma ternura que redobrava de cada vez que olhavam um para o outro. Memnon interessou-se profundamente pelos assuntos dela, e sentia-se cada vez com mais vontade de obsequiar uma pessoa tão honesta e tão infeliz. Com o ardor da conversa, deixaram, sem dar por isso, de estar um em frente do outro. As pernas de ambos deixaram de estar cruzadas. Memnon aconselhou-a tão de perto, e deu-lhe indicações tão ternas, que já nenhum deles era capaz de falar de negócios, e não sabiam bem em que ponto estavam.
No momento em que iam aí chegou o tio, tal como era de esperar: estava armado da cabeça aos pés; e a primeira coisa que disse foi que ia matar, como era justo, o sábio Memnon e a sobrinha; a última que deixou escapar foi que poderia perdoar a troco de muito dinheiro. Memnon foi obrigado a dar tudo o que tinha. Nesse tempo tinha-se a sorte de escapar a um sarilho desses por tão pouco dinheiro; ainda não se tinha descoberto a América; e as damas aflitas não, nem de longe, eram tão perigosas como hoje em dia». In Voltaire, La Princesse de Babylone, A Princesa de Babilónia, Memnon ou a Sabedoria Humana, Biblioteca de Babel, Editora Vega, Lisboa, 1989.

Cortesia de Vega/JDACT

quarta-feira, 23 de abril de 2014

A Princesa de Babilónia. Biblioteca de Babel. Voltaire. «Mas o que havia de mais admirável em Babilónia, o que eclipsava tudo o mais, era a filha única do rei, chamada ‘Formosante’. Foi pelos seus retratos e pelas suas estátuas que, no decorrer dos séculos…»

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A Princesa de Babilónia
«O velho Belo, rei da Babilónia, imaginava-se o primeiro homem de toda a terra, porque todos os seus cortesãos lho diziam e porque os seus históricos grafos lho provavam. Se alguma coisa podia desculpar nele este ridículo, era com efeito os seus predecessores terem edificado Babilónia mais de trinta mil anos antes dele, e ele tê-la embelezado. Sabe-se que o seu palácio e o seu parque, situados a algumas parasangas de Babilónia, se estendiam entre o Eufrates e o Tigre, que banhavam aquelas margens encantadas. A sua vasta casa, de três mil passos de fachada, erguia-se até às nuvens. A plataforma era rodeada por uma balaustrada de mármore de cinquenta pés de altura, a qual sustentava as estátuas colossais de todos os reis e de todos os grandes homens do império. Essa plataforma, composta de duas ordens de tijolos cobertos por uma espessa superfície de chumbo de um extremo ao outro, era carregada com doze pés de terra, e nesta haviam crescido florestas de oliveiras, de laranjeiras, de limoeiros, de palmeiras, de coqueiros, de cravoárias, de caneleiras, que formavam alamedas impenetráveis aos raios do Sol.
Às águas do Eufrates, elevadas por meio de bombas em cem colunas ocas, subiam a esses jardins, onde enchiam vastos tanques de mármore e, descendo em seguida por outros canais, iam formar o parque de cascatas de seis mil pés de comprimento e cem mil repuxos, cuja altura dificilmente se podia medir; voltavam em seguida ao Eufrates, donde tinham partido. Os jardins de Semíramis, que seriam a admiração da Ásia muitos séculos depois, não eram senão uma fraca imitação destas antigas maravilhas porque, no tempo de Semíramis, principiava já tudo a degenerar nos homens e nas mulheres. Mas o que havia de mais admirável em Babilónia, o que eclipsava tudo o mais, era a filha única do rei, chamada Formosante. Foi pelos seus retratos e pelas suas estátuas que, no decorrer dos séculos, Praxísteles veio a esculpir a sua Afrodite e aquela a quem se chamou a Vénus das nádegas formosas. Que diferença, ó céus!, do original para as cópias; por isso, também o rei Belo tinha mais orgulho na sua filha do que no seu reino. Tinha esta dezoito anos; precisava de um marido digno dela, mas onde ir encontrá-lo? Um oráculo antigo havia ordenado que Formosante não poderia pertencer senão àquele que distendesse o arco de Nembrod. Este Nembrod, o forte caçador perante o Senhor, tinha deixado um arco de sete pés babilónicos de altura, de madeira de ébano mais dura do que o ferro do monte Cáucaso, apurado nas forjas de Derbent e nenhum mortal, depois de Nembrod, pudera ainda armar esse arco maravilhoso.
Estava dito também que o braço capaz de retesar esse arco mataria o leão mais terrível e mais perigoso que soltassem no circo de Babilónia. E ainda não era tudo; o armador do arco, o vencedor do leão, devia prostrar por terra todos os seus rivais; mas devia, sobretudo, ter muito espírito, ser o mais belo e magnífico de todos os homens, o mais virtuoso, e possuir o objecto mais raro que houvesse no universo inteiro. Apresentaram-se três reis, que se atreveram a disputar Formosante: o faraó do Egipto, o xá das Índias e o grande cão dos Citas. Belo designou o dia e o lugar do combate, na extremidade do seu parque, no vasto espaço limitado pelas águas do Eufrates e do Tigre reunidas. Ergueu-se em torno da liça um anfiteatro de mármore, que podia conter quinhentos mil espectadores. Em frente do anfiteatro estava o trono do rei, que devia aparecer com Formosante, acompanhada por toda a corte; e à direita e à esquerda, entre o trono e o anfiteatro, havia outros tronos e outros assentos para os três reis e para todos os outros soberanos que tivessem curiosidade de vir assistir a esta augusta cerimónia. O primeiro que chegou foi o rei do Egipto, montado no boi Ápis e trazendo na mão o sinistro de Ísis. Seguiam-no dois mil padres vestidos com túnicas de linho mais branco do que a neve, dois mil eunucos, dois mil magos e dois mil guerreiros». In Voltaire, La Princesse de Babylone, A Princesa de Babilónia, Biblioteca de Babel, Editora Vega, Lisboa, 1989.

Cortesia de Vega/JDACT

sábado, 13 de outubro de 2012

Diálogo do Frango e da Franga. Voltaire. «Que a gulodice provoque hediondos danos! Ouvi, no outro dia, naquela espécie de granja próxima do nosso galinheiro, um homem que falava diante de outros homens que não falavam»

Cortesia de wikipedia

«A Franga; Pois bem! Levantaram altares a esse grande homem que ensinava a verdade ao género humano e salvava a vida ao género animal?
O Frango; Não, foi horrorizado pelos cristãos que nos comem e que ainda hoje repudiam a sua memória; disseram que era ímpio e que eram falsas as suas virtudes, pois que era um pagão.
A Franga: Que a gulodice provoque hediondos danos! Ouvi, no outro dia, naquela espécie de granja próxima do nosso galinheiro, um homem que falava diante de outros homens que não falavam; exclamava que ‘Deus havia feito um pacto connosco e com os outros animais chamados homens; que Deus os havia proibido de se alimentarem do nosso sangue e da nossa carne’. Como podem eles juntar a essa salvaguarda tão afirmativa a permissão de devorar os nossos membros fervidos ou assados? É impossível, quando nos cortam o pescoço, que não reste muito sangue nas nossas veias; esse sangue mistura-se necessariamente à nossa carne; desobedecem, portanto, visivelmente a Deus ao comerem-nos. Além disso, não é um sacrilégio matar e devorar gente com quem Deus firmou um pacto? Seria um estranho acordo aquele cuja única cláusula fosse a de nos livrar da morte. Ou o nosso criador não fez qualquer acordo connosco ou é um crime que nos matem e nos ponham a cozer: não há hipótese intermédia.
O Frango; Esta não é a única contradição que reina entre aqueles monstros, nossos eternos inimigos. São há muito tempo censurados por nunca estarem de acordo seja no que for. Não fazem as leis senão para as violar e o pior é que as violam conscientemente. Inventaram cem subterfúgios, cem sofismas, para justificar as suas transgressões. Servem-se unicamente do pensamento para autorizar as suas injustiças e somente empregam as palavras para dissimular os seus pensamentos. Imagina tu que no pequeno país onde vivemos é proibido comer-nos dois dias por semana; facilmente eles encontram maneira de iludir tal lei, que, aliás, afigurando-se-te favorável, é deveras bárbara: ordena que durante esses dias se comam os habitantes das águas, pelo que os homens vão buscar as suas vítimas ao fundo dos mares e das ribeiras. Devoram criaturas que custam amiúde, cada uma, mais do que o valor de cem frangos: chamam a isso jejuar, mortificar-se. Enfim, não creio possível imaginar uma espécie mais irrisória e mais medonha, mais extravagante e mais sanguinária.
A Franga; Oh, meu Deus! Estarei eu a ver aquele vilão do moço de cozinha com o seu grande cutelo?
O Frango; Pois é, minha amiga, é chegada a nossa última hora; recomendemos a nossa alma a Deus.
A Franga: Se eu pudesse provocar ao desalmado que me comerá uma indigestão que o fizesse rebentar! Os pequenos vingam-se dos poderosos por desejos vãs e os poderosos fazem disso troça.
O Frango: Ai! Agarram-me pelo pescoço. Perdoemos os nossos inimigos.
A Franga: Não aguento; apertam-me, arrastam-me. Adeus, meu querido frango.
O Frango: Adeus, por toda a eternidade, minha querida franga».
In Voltaire, Diálogos do Frango e da Franga, Arbor Littera, 2010, ISBN 978-989-8292-39-1.

Cortesia de Arbor Littera/JDACT

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Diálogo do Frango e da Franga. Voltaire. «… encarceram-nos durante alguns dias, fazem-nos engolir uma farelada de que têm o segredo, rebentam-nos os olhos para que não nos possamos distrair; por fim, chegado o dia da festa, arrancam-nos as penas, cortam-nos a goela e assam-nos. Somos levados diante deles numa ampla travessa de prata; cada um comenta de nós aquilo que pensa»



(1694-1778)
Paris
Cortesia de cafehistoria

«O Frango: Oh, meu Deus, minha galinha, estás tão triste; que tens?
A Franga: Meu caro amigo, pergunta-me, antes, pelo que não tenho. Uma maldita criada tomou-me entre os joelhos, mergulhou-me uma longa agulha no cu, agarrou a minha matriz, enrolou-a à volta da agulha, arrancou-a e deu-a de comer ao gato. E eis-me incapaz de receber os favores do cantor lírico do dia e de pôr ovos.
O Frango: Ai!, minha querida, eu perdi mais do que tu; fizeram-me uma operação duplamente cruel: nem tu nem eu voltaremos a ter consolação neste mundo; fizeram-vos franga e a mim frango. A única ideia que serenou o meu estado deplorável foi a que ouvi, há alguns dias, junto à minha capoeira, debatida entre dois abades italianos a quem tinha sido perpetrado o mesmo ultraje para que pudessem cantar diante do papa com uma voz mais cristalina. Diziam que os homens haviam começado por circuncidar os seus semelhantes e que tinham acabado por os castrar: amaldiçoavam o destino e o género humano.
A Franga; Como? É, então, para que tenhamos uma voz mais clara que somos privados da mais bela parte de nós?
O Frango: Infelizmente, minha pobre franga, é para nos engordar e tornar mais delicada a nossa carne.
A Franga: Pois bem! Quando estivermos gordos, ficá-lo-ão eles ainda mais?
O Frango: Sim, porque pretendem comer-nos.
A Franga; Comer-nos! Ah, os monstros!
O Frango: É o seu costume; encarceram-nos durante alguns dias, fazem-nos engolir uma farelada de que têm o segredo, rebentam-nos os olhos para que não nos possamos distrair; por fim, chegado o dia da festa, arrancam-nos as penas, cortam-nos a goela e assam-nos. Somos levados diante deles numa ampla travessa de prata; cada um comenta de nós aquilo que pensa: um diz que sabemos a avelã, outro gaba a nossa suculenta carne; exaltam as nossas coxas, os nossos braços, a nossa rabadilha. Faz-se uma oração fúnebre e aí está a nossa história neste baixo mundo dada por terminada para sempre.
A Franga: Que horrendos patifes! Estou prestes a desfalecer. Como? Furarem-me os olhos! Cortarem-me o pescoço! Assarem-me e comerem-me! Esses celerados não têm um pingo de remorsos?
O Frango: Não, minha amiga; os dois abades de que te falei diziam que os homens nunca têm remorsos das coisas que têm o hábito de fazer.
A Franga: A detestável corja! Aposto que quando nos devoram ainda se põem a rir e a contar ditos anedóticos, como se nada fosse.
O Frango: Adivinhaste; mas fica a saber, se te serve de consolação, que essas bestas, bípedes como nós, e que estão verdadeiramente abaixo de nós visto que não têm penas, fizeram muito frequentemente o mesmo com os seus semelhantes. Ouvi dizer aos meus dois abades que nenhum imperador cristão ou grego se coibiu de furar os dois olhos aos primos e aos irmãos; que, mesmo no país em que vivemos, um houve, chamado Débonnaire, que fez arrancar os olhos ao seu sobrinho Bernard. Mas quanto a assar os da sua espécie, nada foi mais comum entre os homens. Os dois abades diziam que mais de vinte mil tinham sido assados por alimentarem certas opiniões, que seriam difíceis de explicar para um frango e que não importam por aí além.
A Franga: Seria, aparentemente, para os comer que os assavam.
O Frango: Não ouso assegurá-lo, mas lembro-me bem de ter ouvido claramente que há muitos países, entre os quais o dos judeus, onde os homens são algumas vezes comidos uns pelos outros.
A Franga: É adequado a uma espécie tão perversa que se devore a si mesma e seria justo que a terra fosse purgada desta raça. Mas eu que sou pacífica, eu que nunca fiz mal, eu que dei mesmo de comer a esses monstros ao dar-lhes os meus ovos, serei mutilada, cegada, degolada e assada! Tratam-nos assim no resto do mundo?
O Frango: Os dois abades dizem que não. Sustentam que num país chamado Índia, muito maior, mais belo, mais fértil do que o nosso, os homens têm uma lei santa que desde há milhares de séculos proíbe que nos comam; contavam que houve, inclusive, um homem, “Pitágoras” de nome, que, tendo viajado nesse país de gente tão justa, trouxera para a Europa essa lei humana, então seguida pelos seus discípulos. Aqueles bons curas liam Porfirio, o “Pítagórico”, que escreveu um interessante livro contra os espetos. Oh!, que grande homem! O divino homem que foi Porfirio! Com que sabedoria, com que força, com que respeito afectuoso pela Divindade, provou que somos os aliados e os pais dos homens; que Deus nos deu os mesmos órgãos, os mesmos sentimentos, a mesma memória, o mesmo germe desconhecido do entendimento, que se desenvolve em nós até ao ponto determinado pelas leis eternas e sem o qual nem os homens nem nós podemos alguma vez viver! Com efeito, minha querida franga, não será uma afronta à Divindade dizer que temos sentidos para nada sentir e cérebro para nada pensar? Esta imaginação digna, segundo diziam os abades, de um louco chamado Descartes, não será o cúmulo do ridículo e o vão pretexto da barbárie? Mesmo os maiores filósofos da Antiguidade nunca nos penduravam nos espetos. Empenhavam-se a aprender a nossa linguagem e a descobrir as nossas propriedades tão superiores às da espécie humana. Estávamos em segurança com eles como na idade de ouro. Os sábios não matam os animais, disse Pitágoras; somente os bárbaros e os padres os matam e comem. Este filósofo escreveu aquele admirável livro para converter um dos seus discípulos, que se tinha feito cristão por gulodice». In Voltaire, Diálogos do Frango e da Franga, Arbor Littera, 2010, ISBN 978-989-8292-39-1.

Cortesia de Arbor Littera/JDACT