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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Herança. Danielle Steel. «Uma das críticas que eram apontadas ao seu trabalho era o facto de, por vezes, se embrenhar tanto nas minúcias do que estudava que negligenciava o quadro geral do que expunha»

jdact

«(…) Tinham mais de dezasseis mil estudantes e recebiam mais de trinta mil candidaturas de admissão todos os anos. Alguns dos candidatos eram eliminados sumariamente por insuficiência de notas, mas à medida que o número de possíveis candidatos a admissão ia diminuindo, Brigitte concentrava-se mais no processo de selecção. Era muito meticulosa com tudo o que fazia. Ainda não tinha o doutoramento, embora continuasse a trabalhar nesse sentido, fazendo uma cadeira ou duas todos os semestres. Com trinta e oito anos, sentia-se satisfeita com a sua vida. Havia sete anos que trabalhava num livro. Queria que fosse um trabalho marcante sobre o tema dos direitos da mulher e do direito ao voto a nível mundial. Enquanto trabalhava no mestrado, Brigitte escrevera inúmeros ensaios sobre esse tópico. A sua tese versava sobre a maneira como cada país geria o direito ao voto das mulheres, o que, na sua perspectiva, definia o que um povo era como nação. Acreditava que o voto era um elemento crucial nos direitos da mulher. Os colegas que tinham lido o que escrevera até à data sentiam-se impressionados com a sua eloquência, mas não surpreendidos com a diligência e meticulosidade. Uma das críticas que eram apontadas ao seu trabalho era o facto de, por vezes, se embrenhar tanto nas minúcias do que estudava que negligenciava o quadro geral do que expunha. Tinha tendência para se deixar enredar nos pormenores.
Brigitte era uma pessoa afável e generosa, em quem se podia confiar. Responsáve1, era uma mulher que se preocupava muito com os outros e extremamente trabalhadora. O único reparo que a sua melhor amiga, Amy Lewis, fazia, e que não hesitava em dizer-lho, era a sua falta de paixão. Ela intelectualizava tudo, obedecendo mais aos ditames do seu cérebro do que aos do coração. Brigitte acreditava que a paixão era um defeito e não uma qualidade. Fazia com que uma pessoa perdesse objectividade e sentido de orientação. Brigitte gostava de manter o curso traçado antecipadamente, sem nunca perder de vista os seus objectivos. Não gostava de agitar as águas, nem de correr riscos, fosse no que fosse. Era uma pessoa com quem se podia contar e não alguém que agisse impulsivamente ou que não ponderasse a fundo todas as suas acções. Além de ser a primeira a admitir que era lenta a tomar decisões, o que nunca fazia sem antes ter avaliado muito bem os prós e os contras.
Brigitte calculava que estaria a meio do livro. Era sua intenção começar a escrevê-lo com maior celeridade, o que lhe permitiria acabá-lo dentro de cinco anos, mais ou menos na altura em que concluiria o doutoramento. Doze anos para escrever um livro cujo tema era tão importante parecia-lhe um período razoável, uma vez que trabalhava a tempo inteiro e tinha aulas de doutoramento. Não tinha pressa nenhuma. Se conseguisse concluir o doutoramento e acabar de escrever o livro quando tivesse quarenta e três anos, ficaria satisfeita consigo própria. A sua maneira de lidar com as coisas, constante, inflexível e imperturbável, dava com a amiga Amv em doida. Brigitte não era uma pessoa expedita e detestava mudanças na sua rotina. Amy achava que ela devia tirar o maior partido possível da vida, abraçando as coisas com mais espontaneidade. Amy tinha formação como conselheira matrimonial e de família, além de trabalhar como assistente social. Dirigia o Departamento de Aconselhamento da universidade, não hesitando em dar liberalmente os seus conselhos e opiniões a Brigitte. Eram pessoas com feitios totalmente opostos, o que não obstava a que fossem grandes amigas. Amv encarava tudo, em termos emocionais, intelectuais e profissionais, a toda a velocidade. Brigitte era alta e magra, de formas quase angulares, com cabelo preto-azeviche, olhos escuros, malares salientes e tez morena. Parecia ser oriunda do Médio Oriente ou de Itália, conquanto a sua ascendência fosse irlandesa e francesa». In Danielle Steel, Herança, 2010, Bertrand Editora, Lisboa, 2016, ISBN 978-972-253-206-8.

Cortesia de BertrandE/JDACT

Herança. Danielle Steel. «Com vinte e oito anos, Brigitte matriculara-se na Universidade de Boston, após ter concluído a sua licenciatura universitária, para tirar um mestrado em antropologia»

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«Caía um forte nevão desde a noite anterior. Brigitte Nicholson sentara-se à sua secretária, no Departamento de Admissões da universidade de Boston, a rever meticulosamente os formulários de candidatura. Já haviam sido revistos por outros funcionários, mas ela gostava de se certificar de que se encontravam devidamente preenchidos. Estavam a meio do processo de admissões, pelo que dentro de seis semanas os que se tinham candidatado à universidade seriam informados se poderiam matricular-se ou não. Inevitavelmente, alguns aspirantes a universitários sentir-se-iam contentíssimos, mas o número dos que ficariam tristes seria maior. Era difícil ter-se consciência de que se tinha nas mãos a vida e o futuro de jovens ansiosos. Rever as candidaturas era o período de maior trabalho para Brigitte. A sua função era seleccionar os formulários de admissão que seriam submetidos à apreciação de uma comissão, para o que teria de entrevistar individualmente os estudantes que o requeressem. Nesses casos, apensaria os seus apontamentos e comentários aos formulários. Mas no essencial, as notas, quer dos exames, quer as de passagem de ano, as recomendações de professores, as actividades extracurriculares e o desempenho desportivo contribuíam significativamente para o resultado final. Qualquer candidato representaria, ou não, uma mais-valia para o estabelecimento universitário. Brigitte sentia o peso da responsabilidade que contribuía para a decisão final. Era extremamente meticulosa quando revia os trabalhos que eram submetidos juntamente com o formulário de admissão. Em última análise, tinha de pensar no que era melhor para a universidade, e não para os estudantes. Estava acostumada a receber dúzias de telefonemas e de mensagens por correio electrónico da parte de membros do corpo docente de escolas secundárias, que faziam tudo o que estava ao seu alcance para ajudarem os alunos que se candidatavam ao ensino universitário. Brigitte sentia orgulho por estar associada à Universidade de Boston e, para seu grande espanto, havia dez anos que trabalhava no Departamento de Admissões. Os anos tinham voado. Era a terceira pessoa mais importante na escala hierárquica do departamento, tendo recusado várias oportunidades de promoção em inúmeras ocasiões. Sentia-se satisfeita com a posição que ocupava, e nunca rinha sido muito ambiciosa.
Com vinte e oito anos, Brigitte matriculara-se na Universidade de Boston, após ter concluído a sua licenciatura universitária, para tirar um mestrado em antropologia, depois de ter tido vários empregos pós-universidade, seguidos por dois anos a trabalhar numa casa de acolhimento para mulheres no Peru e outro ano na Guatemala, após o que viajou durante um ano pela Índia e pela Europa. Tinha um bacharelato em antropologia com uma cadeira em estudos do género da Universidade da Columbia. A condição das mulheres nos países subdesenvolvidos sempre fora uma das suas principais preocupações. Brigitte aceitara o emprego no Departamento de Admissões até poder concluir o mestrado. Depois disso, queria ir para o Afeganistão durante um ano, mas, à semelhança do que acontecia com tantos estudantes licenciados que trabalhavam nas universidades em que tiravam mestrados, ela foi-se deixando ficar. O emprego proporcionava-lhe bem-estar e segurança económica, além de um ambiente confortável que lhe agradava sobremaneira. Assim que conseguiu concluir o mestrado, começou a trabalhar com vista ao doutoramento em ciências.
O mundo académico era viciante, com os seus desafios intelectuais, a par da aquisição de conhecimentos e cursos. Além disso, permitia que uma pessoa se escondesse do mundo real e das suas exigências. Era um paraíso para a juventude estudantil. Não se podia dizer que ela adorasse as suas funções no Departamento de Admissões, mas a verdade é que gostava bastante do que fazia. Sentia que era produtiva e útil, além de se empenhar a fundo a ajudar os estudantes com notas suficientes para entrarem na universidade». In Danielle Steel, Herança, 2010, Bertrand Editora, Lisboa, 2016, ISBN 978-972-253-206-8.

Cortesia de BertrandE/JDACT