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terça-feira, 3 de outubro de 2023

Lázarus. Georgette Silen. «A rodoviária estava literalmente um inferno. Multidões caminhavam apressadas para suas plataformas, carregando bagagens enormes, multicoloridas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Bristol. Inglaterra. Junho

«Vamos,  é só dar um passo, só mais um. Você consegue. O que tem a perder? Você não tem mais nada! O pensamento chegou quando a brisa da maré alta soprou. O cheiro de maresia salgada com peixe podre, misturado ao tabaco e bebida que vinham dos bares próximos, dava enjoo. Ou será que eu estava amarelando?

 Não, você já tomou essa decisão, não vai voltar atrás. E voltar atrás para quê? Falava sozinho, olhando para o atracadouro onde as ondas batiam ferozes, respingando nos meus pés. O mar ficava agitado naquela época. Bom, é isso aí. Olhei em volta mais uma vez, para ter certeza de que não tinha ninguém por perto. Não, não havia ninguém. Eu estava sozinho. Sozinho. Como sempre fora a minha droga de vida. Uma porcaria sem fim!

Apertei os nós dos dedos. E daí que estava sozinho? Era melhor assim. Quem iria se importar comigo? Com o idiota e beberrão do Holly Finger? Quem notaria minha falta? Minha ex-mulher, aquela vaca maldita? As prostitutas do Samuel’s? Talvez sim, dei um sorrisinho. Eu mandava bem, isso as vadias poderiam confirmar para qualquer um. Meu senhorio? Ele daria queixa à polícia por falta de pagamento ou pegaria minhas coisas no quarto barato para cobrir o prejuízo. Coitado! Dei risada. Nem mesmo no trabalho dariam por minha falta. Não fui despedido àquela tarde por,  como foi mesmo que o escroto do meu patrão dissera?  Um comportamento inadequado de atrasos e por estar alcoolizado no expediente?

Pelo menos pude desforrar naquele me… um bom par de golpes antes que me jogassem na rua. E o almofadinha ainda ameaçou chamar a polícia! Desgraçado!  À me… com todos eles!,  resmunguei, dando mais um gole na garrafa. O conhaque ardeu e me fez lacrimejar. Eu logo estaria livre de todo aquele bando de corvos fedorentos e carniceiros! Era só dar mais um passo...

E então percebi que não estava sozinho como pensara.  Quem está aí?, chamei para a escuridão. Não conseguia enxergar direito, mas tinha certeza de que alguém estava parado a uns vinte passos.Me…!Tudo o que eu não queria era um mala para bancar o herói. O estranho não se mexeu nem respondeu. Seja lá quem for, você está me atrapalhando aqui, parceiro, engrossei a voz. Melhor ir dando o fora antes que eu... Parei de falar. Não havia ninguém ali. Pisquei os olhos várias vezes para conferir. Comecei a dar risada. Holly, sua besta! Agora você deu para ver coisas?

Melhor acabar logo com isso. Virei-me para o cais e tremi em um arrepio, assim que a brisa aumentou por detrás do meu corpo. Foi tudo muito rápido. Al São Paulo. Dezembroguma coisa me agarrou pelas costas e senti o rasgo na garganta. Apesar da dor, consegui olhar para trás, para o grande par de olhos vermelhos na escuridão.

Terminal Rodoviário do Tieté São Paulo. Dezembro

Feliz Natal! A rodoviária estava literalmente um inferno. Multidões caminhavam apressadas para suas plataformas, carregando bagagens enormes, multicoloridas. Parentes se despediam, mandando lembranças para suas famílias. Lágrimas e choro por toda parte. Enquanto as pessoas se acotovelavam, o risonho Pai Natal continuava a desejar um feliz Natal, distribuindo balas às crianças e folhetos informativos aos passageiros. Lembrei-me de Ben...

Ambulantes passavam oferecendo água, refrigerantes, sucos, biscoitos, em cadências e sotaques dos mais variados. Era impossível livrar-se deles. Estava ansiosa pelo silêncio e a ordem dentro daquele caos. Eu deveria ter tomado um avião. Mas essa provavelmente teria sido a pior solução, se é que haveria alguma boa em meio aos derradeiros acontecimentos. Faziam realmente sentido as últimas 24 horas? Como aquele rastreador conseguiu me encontrar? Eu não deixara vestígios durante o último ano, tudo tinha sido meticulosamente planeado para evitar isso. Era o mínimo que eu poderia fazer: sumir, desaparecer, proteger os que ficaram para trás. Era meu principal objectivo, maior do que qualquer outra necessidade.

Campo Grande, 21 horas e 30 minutos, plataforma 37. Passagens, por favor!, gritou o fiscal da empresa de ónibus, afastando meus devaneios e me fazendo caminhar para a fila de embarque.

Não levava bagagem, apenas duas mochilas com coisas importantes para alguém em minha situação. Por isso, rapidamente entreguei meu bilhete e embarquei. Com alívio afundei o corpo na poltrona nos fundos do veículo e puxei as cortinas, numa tentativa de conseguir paz e silêncio para raciocinar. Foi um golpe de sorte,  o único dentre os problemas que aconteceram,  achar uma passagem disponível naquela época do ano, pois elas se esgotavam bem antes. Uma sorte que não convinha desperdiçar nem abusar». In Georgette Silen, Lázarus, Editora Giz, 2013/2014, ISBN 978-857-855-186-5.

 

Cortesia de EGiz/JDACT


JDACT, Literatura, Inglaterra, Georgette Silen,

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Rainha Branca. Philippa Gregory. «Então não creio que vá querer se demorar, diz ele de maneira desagradável, e segue seu caminho. O solo estremece quando passam…»

jdact

Primavera 1464
«(…) Levante-se, diz ele. Seu tom é baixo, para que só eu o escute. Veio até aqui para me ver? Preciso de sua ajuda, replico. Mal consigo articular as palavras. É como se a poção do amor com que minha mãe embebeu o lenço que ondulava de meu toucado estivesse entorpecendo a mim, não a ele. Não consigo reaver as terras de meu dote agora que enviuvei. Atrapalho-me diante de seu sorriso interessado. Sou uma viúva agora. Não tenho do que viver. Viúva? Meu marido era sir John Grey. Ele morreu em St. Albans, digo. É o mesmo que confessar sua traição e a danação de meus filhos. O rei reconhecerá o nome do comandante da cavalaria do seu inimigo. Mordo o lábio. O pai deles cumpriu o seu dever como o concebia, Vossa Graça. Foi leal ao homem que achava ser rei. Meus filhos são inocentes de tudo. Ele lhe deixou estes dois filhos? O rei sorri para os meus meninos. A melhor parte da minha fortuna, replico. Este é Richard, e este é Thomas Grey.
Ele acena com a cabeça para os meninos, que o olham fixamente, como se ele fosse uma espécie de cavalo de raça: grande demais para afagarem, mas digno de admiração e reverência. Então ele se volta para mim. Estou com sede, diz ele. Sua casa é perto daqui? Nós nos sentiríamos honrados... Olho de relance para a guarda que o acompanha. Devem ser mais de cem homens. Ele dá um risinho. Eles podem prosseguir, decide. Hastings! O homem mais velho vira-se e espera. Siga para Grafton. Eu os alcanço. Smollet pode ficar comigo, e Forbes também. Chegarei em mais ou menos uma hora. Sir William Hastings me olha de cima a baixo, como se eu fosse um bonito pedaço de fita à venda. Dou-lhe, em resposta, um olhar duro, e ele tira o chapéu e faz uma mesura para mim, saúda o rei e ordena que a guarda siga adiante. Aonde está indo, senhor?, pergunta ele ao rei. O rei-menino olha para mim. Estamos indo para a casa do meu pai, o senhor de Rivers, sir Richard Woodville, respondo com orgulho, embora eu saiba que o rei reconhecerá o nome de um homem que gozava de grande prestígio na corte Lancaster, que combateu por eles e ao qual certa vez dirigiu palavras duras quando as famílias York e Lancaster já estavam com as armas em punho. Sabemos o suficiente um do outro, mas é uma cortesia comum esquecer que fomos leais a Henrique VI, até esses o tornarem traidor. Sir William ergue o sobrolho ao ouvir o lugar que o rei escolheu para parar. Então não creio que vá querer se demorar, diz ele de maneira desagradável, e segue seu caminho. O solo estremece quando passam, e permanecemos num silêncio confortável enquanto a poeira se assenta.
Meu pai foi perdoado e teve o seu título restaurado, explico, defensivamente. Vossa Graça mesmo o perdoou, depois de Towton. Lembro-me de seu pai e de sua mãe, replica o rei, equânime. Eu os conheço desde que era menino, estive com eles em bons e maus tempos. Só estou surpreso por nunca me terem apresentado à senhora. Tenho de reprimir o riso. Esse é um rei famoso pela sedução. Ninguém com algum juízo deixaria sua filha conhecê-lo. Gostaria de me acompanhar?, pergunto. É uma curta caminhada até à casa de meu pai. Querem uma boleia, meninos?, indaga ele. Os dois levantam a cabeça como patinhos, implorando. Podem montar, os dois, diz. Ele ergue Richard e o coloca sobre o cavalo, depois faz o mesmo com Thomas, na sela. Agora segurem firme. Você no seu irmão, e você... Thomas, não é? Você segura na maçaneta. Enrola as rédeas num braço e me oferece o outro, e assim caminhamos em direcção à minha casa, pela floresta, à sombra das árvores. Sinto o calor de seu braço através do tecido da manga da sua camisa. Tenho de me controlar para não me inclinar sobre ele. Olho para frente, para a casa, para a janela de minha mãe, e percebo, pelo ligeiro movimento por trás da vidraça, que ela esteve observando e torcendo para que isso acontecesse.
Ela está na porta da frente quando nos aproximamos, o cavalariço da casa ao seu lado.
Faz uma reverência profunda. Vossa Graça, diz ela cortesmente, como se o rei a visitasse todos os dias. É muito bem-vindo a Grafton Manor. O cavalariço vem correndo e pega nas rédeas do cavalo para conduzi-lo ao estábulo. Meus filhos seguram firme na sela ao longo dos últimos metros restantes, enquanto minha mãe recua e faz uma reverência ao rei no hall. Aceita um copo de cerveja?, pergunta ela. Ou temos um vinho muito bom produzido por meus primos na Borgonha. Vou aceitar a cerveja, obrigado, replica ele gentilmente. Cavalgar me dá sede. Está quente para Primavera. Bom dia para a senhora, lady Rivers. A mesa alta no salão está posta com os melhores copos e uma jarra de cerveja, assim como vinho». In Philippa Gregory, Rainha Branca, 2009, Civilização Editora, Porto, 2010, ISBN 978-972-263-012-2.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

sábado, 27 de junho de 2020

Rainha Branca. Philippa Gregory. «Thomas vê a cabeça loura descoberta no meio de toda a fúria e barulho, e grita: hurra!, como o menino que ele é. Ao ouvir sua voz aguda…»

jdact

Primavera 1464
«(…) Meus filhos Thomas, de 9 anos, e Richard, de 8, estão usando as suas melhores roupas; seus cabelos foram humedecidos e assentados, os rostos reluzentes após serem lavados com sabão. Com cada um de um lado, seguro firme as suas mãos, pois são meninos de verdade, e por isso atraem sujeira para si como que por magia. Se eu os soltasse por um segundo, um arranhará os sapatos e o outro rasgará a meia, os dois ficarão com folhas no cabelo e lama no rosto, e Thomas certamente cairá no riacho. Assim como estão, seguros pelo meu punho, pulam de uma perna para a outra num tédio agonizante, e ficam erectos só quando digo: silêncio, ouço cavalos.
Primeiro, soa como chuva e, então, num instante ressoa como um trovão. O tinido dos arreios e o tremular dos estandartes, o tilintar da cota de malha e o bufar dos cavalos, o som, o cheiro e o estrondo de uma centena de cavalos conduzidos com firmeza são esmagadores e, embora eu esteja determinada a avançar e detê-los, acabo recuando. Como deve ser enfrentar esses homens cavalgando para combater, com suas lanças estendidas, como um muro de estacas galopantes? Como alguém pode enfrentar isso? Thomas vê a cabeça loura descoberta no meio de toda a fúria e barulho, e grita: hurra!, como o menino que ele é. Ao ouvir sua voz aguda, vejo a cabeça do homem virar, ver a mim e os meninos, sua mão puxar as rédeas e ele gritar: parem! Seu cavalo empina, forçado a se deter, e todos os outros cavaleiros giram, param e praguejam com a parada súbita. E então, abruptamente, tudo silencia e uma nuvem de poeira eleva-se ao nosso redor.
Seu cavalo bufa, balança a cabeça, mas o cavaleiro no seu dorso é como uma estátua num pedestal. Ele está olhando para mim e eu para ele, e o silêncio é tal que é possível ouvir um tordo nos galhos do carvalho que se estendem acima de mim. Como canta! Meu Deus canta como um murmúrio glorioso, como alegria transformada em som. Nunca ouvi um pássaro cantar dessa maneira, como se fosse um hino à felicidade.

Dou um passo à frente, sem largar as mãos dos meus filhos, e abro a boca para expor a minha causa, mas nesse momento, nesse instante crucial, não sei o que dizer. Pratiquei intensamente. Tinha um pequeno discurso preparado, mas agora não me lembro de nada. É quase como se eu não precisasse de palavras. Simplesmente olho para ele e, não sei como, espero que ele compreenda tudo, o meu medo do futuro, minhas esperanças por meus meninos, minha falta de dinheiro, a piedade irritante de meu pai, que a vida sob o mesmo tecto que ele é algo insuportável para mim, a frieza da minha cama à noite, meu anseio por outro filho, a sensação de que a minha vida acabou. Meu Deus, só tenho 27 anos, minha causa foi derrotada, meu marido está morto. Serei uma das muitas viúvas pobres que passarão o resto de suas vidas ao pé da lareira de outra pessoa, esforçando-se para ser uma hóspede agradável? Nunca mais serei beijada? Nunca sentirei alegria? Nunca mais? O pássaro continua a cantar, como se quisesse dizer que o deleite é fácil para aqueles que o desejam.
Ele faz um gesto com a mão para o homem mais velho ao seu lado, o qual grita uma ordem; os soldados tiram os cavalos da estrada e vão para a sombra das árvores. Mas o rei salta do seu grande cavalo, solta as rédeas e caminha na minha direcção. Sou uma mulher alta, mas minha cabeça bate no ombro dele, deve ter mais de l,80m. Meus filhos esticam o pescoço para olhá-lo, ele lhes parece um gigante. Tem o cabelo louro, os olhos cinza, um rosto bronzeado, franco e sorridente, encantador, com uma graça natural. Esse é um rei como nunca vimos na Inglaterra: é um homem que o povo amará só de olhar para ele. Ele me fita como se eu soubesse de um segredo que precisasse ser guardado, como se nos conhecêssemos desde sempre, e sinto minha face queimar, mas não consigo desviar os olhos do seu rosto.
Uma mulher modesta baixaria os olhos, os manteria fixos nos sapatos; uma suplicante faria uma reverência profunda e estenderia uma de suas mãos suplicantes. Mas eu permaneço erecta, espantada comigo mesma, analisando-o como uma camponesa ignorante, e percebo que não consigo tirar meus olhos dos dele, da sua boca sorridente, do seu olhar que queima o meu rosto. Quem é essa?, pergunta ele, ainda me observando. Vossa Graça, esta é minha mãe, lady Elizabeth Grey, responde meu filho Thomas de forma cortês, tirando o chapéu e apoiando um dos joelhos no chão. Richard, do outro lado, também se ajoelha e murmura, como se não pudesse ser ouvido: este é o rei? De verdade? É o homem mais alto que já vi na minha vida! Faço uma reverência profunda, mas ainda não consigo desviar o olhar. Pelo contrário, encaro-o, como uma mulher que dirige um olhar excitado ao homem que ela adora». In Philippa Gregory, Rainha Branca, 2009, Civilização Editora, Porto, 2010, ISBN 978-972-263-012-2.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

domingo, 19 de abril de 2020

A Irmã de Ana Bolena. Philippa Gregory. «Aquele homem, de pé, no cadafalso, sob a luz do Sol do início da manhã, fora o parceiro do rei em partidas de ténis, seu rival em justas, seu amigo em centenas de sessões de bebida e jogos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Duas Irmãs, um Rei
Primavera de 1521
«Conseguia ouvir o rufar abafado de tambores. Mas não via mais nada, para além dos atilhos do corpete da dama que tinha diante de mim, que tapava a minha visão do cadafalso. Estava nesta corte há mais de um ano e presenciara centenas de festividades, mas nunca uma como esta. Dando um passo ligeiramente para o lado e inclinando o pescoço, consegui ver o condenado, acompanhado pelo padre, caminhando devagar, da Torre para a zona relvada onde a plataforma de madeira o aguardava, o bloco de madeira posicionado ao centro, o executor vestido e preparado para a tarefa, em mangas de camisa e com um capuz a cobrir-lhe a cabeça. Parecia mais uma mascarada do que um acontecimento real, e eu assisti como se fosse um entretenimento da corte. O rei, sentado no trono, parecia distraído, como se estivesse a rever mentalmente o seu discurso de indulto. Atrás dele, estava aquele que é meu marido há um ano, William Carey, o meu irmão, Jorge, e o meu pai, sir Tomás Bolena, todos com ar grave. Eu encolhi os dedos dos pés no interior dos meus chinelos de seda e desejei que o rei se apressasse a conceder a clemência, para que pudéssemos ir todos tomar o pequeno-almoço. Tinha apenas treze anos, estava sempre com fome.
O duque de Buckinghamshire, ao longe, no cadafalso, despiu o seu casaco grosso. Era um parente suficientemente próximo para que eu pudesse chamar-lhe tio. Estivera presente no meu casamento e oferecera-me um bracelete dourado. O meu pai dissera-me que ele tinha ofendido o rei de inúmeras formas: corria-lhe sangue real nas veias e mantinha uma comitiva de homens armados em número demasiado elevado para tranquilidade de um rei que ainda não se sentia totalmente seguro no seu trono; e o pior era que se supunha que teria afirmado que, neste momento, o rei não tinha nenhum filho e herdeiro, não conseguia gerar nenhum filho e herdeiro, e que o mais provável seria que morresse sem um filho que lhe sucedesse no trono. Um pensamento destes não deve ser proferido em voz alta. O rei, a corte, o país inteiro sabiam que a rainha devia gerar um rapaz, e que esse rapaz devia nascer dentro de pouco tempo. Sugerir o contrário era dar o primeiro passo no caminho que conduzia aos degraus de madeira do cadafalso que o duque, meu tio, agora subia, firmemente e sem medo. Um bom cortesão nunca profere verdades incómodas. A vida de uma corte deve ser sempre alegre.
O tio Stafford aproximou-se da frente do palco para pronunciar as suas últimas palavras. Eu estava demasiado longe dele para ouvir, e, de qualquer forma, estava a observar o rei, que aguardava a sua deixa para dar um passo em frente e conceder o indulto real. Aquele homem, de pé, no cadafalso, sob a luz do Sol do início da manhã, fora o parceiro do rei em partidas de ténis, seu rival em justas, seu amigo em centenas de sessões de bebida e jogos, tinham sido companheiros desde a infância do rei. O rei estava a dar-lhe uma lição, uma lição vigorosa e pública, e depois iria perdoar-lhe e todos poderíamos ir tomar o pequeno-almoço. A figura distante voltou-se para o confessor. Inclinou a cabeça para receber a bênção e beijou o rosário. Ajoelhou-se diante do cepo e agarrou-o com as duas mãos. Perguntei-me como seria, encostar a face à madeira suave e encerada, sentir o odor do vento morno vindo do rio, ouvir, lá no alto, o grito das gaivotas. Mesmo sabendo, como ele sabia, que se tratava de uma mascarada e não de um acontecimento real, deveria ser estranho para o Tio pousar a cabeça e saber que o executor estava de pé atrás dele.
O carrasco ergueu o machado. Olhei para o rei. Estava a tardar muito na sua intervenção. Voltei a olhar para o palco. O meu tio, com a cabeça vergada, sacudiu os braços abertos, em sinal de consentimento, o sinal de que o machado podia ser descido. Olhei de novo para o rei, ele deveria levantar-se nesse momento. Mas permanecia sentado, com o seu belo rosto implacável. E enquanto ainda estava a olhar para ele, ouviu-se outro rufar dos tambores, subitamente silenciado, e depois o baque do machado, primeiro uma vez, depois outra, e uma terceira vez: um som tão doméstico como o de partir lenha. Incrédula, vi a cabeça do meu tio ressaltar na palha e um jorro escarlate de sangue emanar do pescoço estranhamente decepado. O homem do machado, que tinha um capuz negro, colocou de parte o enorme machado com manchas de sangue e pegou na cabeça pelo cabelo espesso e encaracolado, para que todos pudéssemos ver aquela estranha coisa, semelhante a uma máscara: negra, com a venda, que ia da testa ao nariz, e os dentes expostos num derradeiro sorriso desafiador.
O rei ergueu-se devagar da sua cadeira e eu pensei, como uma criança: meu Deus, como isto vai ser terrivelmente embaraçoso. Deixou para demasiado tarde. Correu tudo mal. Esqueceu-se de falar a tempo. Mas eu estava errada. Ele não deixara para demasiado tarde, não se esquecera. Queria que o meu tio morresse diante de toda a corte, para que todos pudessem saber que só havia um rei, e que era Henrique. Só podia existir um rei, e esse rei era Henrique. E iria nascer um filho a este rei, a mera sugestão do contrário implicaria uma morte vergonhosa. A corte regressou em silêncio ao Palácio de Westminster em três barcaças, levadas a remos pelo rio acima». In Philippa Gregory, A Irmã de Ana Bolena, Duas Irmãs, um Rei, 2001, Civilização Editora, 2007/2008-2012, ISBN 978-972-262-546-3.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

His Sinful Secret. Emma Wildes. «Talvez. Pode explicar? Ainda não. Esfregou o queixo e semicerrou os olhos. À luz do que aconteceu esta noite, estou analisando as diversas opções para poder formular uma teoria»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Não acho que seja dever dela me entreter. A minha vida já é emocionante por si só, isso para não falar que há alguém aí fora que me quer ver morto. Se não se importa, vamos deixar de lado o assunto sobre a minha jovem noiva; de qualquer modo, nunca vamos concordar sobre isso. Acha mesmo que o ataque pode ter vindo de dentro? Antónia acabou de amarrar as pontas da bandagem, aproximando-se tanto que ele pôde sentir bem o seu cheiro de mulher com um toque de essência de rosas. O cabelo de ébano acariciava-lhe a face, e os dedos hábeis se deslocavam pela pele dele. Não sei, reconheceu ela em voz baixa. Mas penso que pode deixar inquieto qualquer um que saiba o que você é, ... o que representa. Nem ele sabia bem o que era, excepto que era perito em evasivas e truques. Pode ser que algo concreto haja desencadeado tudo isso, reflectiu em voz alta. O empenho em caçar Roget? Não que me pareça errado, sabe. Ele sabia. Talvez. Pode explicar? Ainda não. Esfregou o queixo e semicerrou os olhos. À luz do que aconteceu esta noite, estou analisando as diversas opções para poder formular uma teoria. Já tem uma. Não tente enganar-me, disse Antónia, enfiando as pontas da atadura debaixo da borda da mesma. O último ataque foi aterrorizante, talvez, significativo, não é? Sim, como mesmo disse, ambos foram frustradas tentativas de assassinato; e haverá outros, até que este trabalho termine. Eu lhe agradeceria se não chamasse a minha vida de trabalho, querida. Ela rosnou de forma pouco elegante.
E como devo chamá-lo então? Michael ignorou alegremente a pergunta e prosseguiu: Infelizmente, o primeiro atacante não sobreviveu ao assalto; do contrário, eu teria conseguido respostas no mesmo instante e teria podido evitar o encontro desta noite. Havia sido em defesa própria, e nem sequer fora Michael quem havia matado o atacante; naquela ocasião, o cocheiro havia visto o ataque e sacara de uma arma no melhor momento. Ou no pior, conforme se olhasse. Acabou que o velho tinha excelente pontaria. Uma intervenção infausta, embora oportuna, então. Uma verdadeira lástima. Os feridos soltam a língua logo, já os mortos são mais difíceis, nesse sentido. Mas, agora que aconteceu..., o que pensa fazer?, inquiriu ela, arqueando preocupada as sobrancelhas de cor azeviche. Ele estava decidido a matar-me. Michael agradecia ao brevíssimo lampejo de luz da lua, que quase o salvara, no aço da lâmina. Se não tivesse saltado na direcção errada, teria saído ileso. Aquele erro havia-lhe acarretado um belo problema, mas era melhor do que uma punhalada no coração.
No entanto, como iria justificar o ferimento na noite de núpcias? Até com a luz apagada e debaixo das cobertas a sua noiva notaria as ligaduras. Embora, por sorte, o ferimento fosse grave o bastante para incapacitá-lo, não poderia deixá-lo descoberto senão depois de dois dias, caso contrário o mesmo voltaria a abrir. Céus. Às vezes a vida se complicava uma barbaridade, e aquilo era um exemplo. Não seria nada romântico se ele começasse a sangrar em cima da esposa, por isso teria que encontrar um pretexto. Inferno! Não teria conhaque, teria? Ele precisava não tanto pela dor, mas para clarear um pouco as ideias. Michael remexeu-se, inquieto, na banqueta. Antónia lhe deu um sorriso felino.
É claro que sim. Conhaque francês de contrabando, embora me custe reconhecer que aqueles mal paridos sabem fazer bem alguma coisa. Eu o comprei de alguns ingleses, e isso me consola. Com elegante precisão, levantou-se e foi até ao aposento contíguo para lavar bem as mãos. Havia uma garrafa de bebida e dois copos sobre uma mesinha. Antónia serviu uma dose em cada um e virou-se, descalça, vestida apenas com um robe de cor clara, sempre muito feminina, de impressionante beleza e com aquele brilho permanente nos olhos escuros. Obrigado. Pegou o copo, deu um bom gole e o cheiro embriagante lhe inundou o nariz. Também vou precisar de uma camisa nova. Quiçá Lawrence tenha uma... Devido ao casamento, Southbrook está abarrotada de gente e não vou conseguir passar despercebido, por mais tarde que seja. Vou deixar a minha casaca aqui para que se desfaça dela. Tudo bem, eu encarrego-me seja lá do que for. Michael não deixou de perceber aquela promessa tão sensual. Antónia era tremendamente útil em alguns aspectos, mas não era nada subtil. E eu lhe agradeço pela lealdade e disponibilidade, respondeu ele em tom neutro. Mas continua pensando em se casar com aquela cândida jovenzinha. Ele a olhou por cima da borda do copo. É claro.
Eu levei aquele seu valioso pacote quase até à prestigiosa porta da sua casa. Antónia, sentada diante da lareira, levantou o olhar. O ciúme não lhe cai bem. Lawrence, ele ignorava se era o nome verdadeiro, mas não sabia nada sobre o passado daquele homem, estava de pé junto à porta, com um ombro apoiado contra as dobradiças». In Emma Wildes, His Sinful Secret, 2010, Baror International, Random House Mondadori, Megustaleer, 2011, ISBN- 978-840-138-431-8.

Cortesia de Megustaleer/JDACT

His Sinful Secret. Emma Wildes. «Como disse, eu vou sobreviver. Eu já imaginava, mas isso pressupõe um grave problema para mim»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Diga-me..., o ferimento valeu a pena?, perguntou com exagerada prudência. Não. Ah... Ela deu de ombros enquanto lhe desabotoava a camisa, mas nos seus olhos escuros podia-se ver um lampejo de decepção. Que pena. Resignado, Michael olhou para o corte irregular e inclinou-se para ajudá-la a soltar a camisa rasgada dos ombros. O ferimento, de uns quinze centímetros de comprimento, não tinha bom aspecto, embora supusesse que era todo aquele sangue que fazia com que a aparência do mesmo parecesse pior. Eu me descuidei. Não esperava um ataque naquele momento. Meu suposto informante já havia ido embora fazía um bom tempo. Esta já é a segunda vez. E se o ataque não tinha nada a ver com o seu encontro? Já disse que aquela região é perigosa, principalmente à noite. Antónia soltou a camisa ensanguentada sobre a manta. Ele não me tentou roubar. Porque a sua reacção o surpreendeu. Talvez ele pretendesse matar primeiro, para poder subtrair-lhe o dinheiro sem problemas. Lá fora, no jardim, uma ave nocturna entoava um canto suave e melodioso, em desacordo com a sombria conversa dentro da alcova. Não, eu acredito que os dois acontecimentos estão relacionados, respondeu Michael. O ataque da semana passada foi muito semelhante. Sem aviso prévio, à guisa de emboscada. Eu devia ter previsto isso. A minha intuição costuma ser melhor do que isso. Terei que ficar mais atento. Parecia-me que a coisa estava tranquila demais, e eu perguntei se a nossa presa teria saído do país novamente. Agora já não tenho a certeza. Que desgraça, ele escapou. Mais uma vez.
Quando ela se inclinou à frente, para inspeccionar-lhe o ferimento e limpar o sangue, o cabelo de ébano derramou-se sobre aqueles ombros perfeitos. Ela era de ascendência espanhola, o que se notava pela pele morena e os rasgos chamativos; as faces eram proeminentes e aristocráticas; nariz levemente afilado, e a boca, generosa e de lábios grossos. As curvas exuberantes da sua figura tentariam um santo. Deus sabia que Michael não se encaixava nessa categoria. O robe de Antónia abriu-se um pouco e, mesmo ferido e sangrando, Michael ainda não estava morto, e não conseguiu resistir a admirar aqueles seios redondos e túrgidos, arrematados por escuros mamilos. Ela o excitava? Não; eles já haviam posto fim àquela relação fazia anos. Não obstante, ele continuava sendo homem, e ela era uma mulher muito atraente. Usufruiu do panorama sem se desculpar. Vai sobreviver, sentenciou ela em tom cortante enquanto torcia o pano dentro de uma bacia com água morna. Voltou a pressionar o pano sobre o ponto do ferimento onde ainda brotava sangue. O corte é extenso, mas não muito profundo. Vou pedir a Lawrence para que chame o médico. Não, obrigado. Ela, resmungou, irritada com aquela negativa cortês, mas categórica. Sabia que se ia opor. Isso vai precisar de sutura. Você já viu os meus bordados? Acredite em mim, eu iria deixar outra interessante cicatriz.
Coloque uma ligadura e pronto. Só faltava que corresse o rumor de que o marquês de Longhaven fora apunhalado por um meliante. Chamar a atenção era perigoso. Quanto menos pessoas soubessem, melhor. Antónia colocou as mãos na cintura. Miguel... Pare com isso, por favor. Está muito tarde para discutir. Ela hesitou por um instante, depois negou com a cabeça e ergueu os braços desesperada. Os seus olhos, tão escuros quanto noite sem lua, revelavam rendição. Sei quando sou derrotada, em todo caso. Aprendi com o tempo. Está bem. Como quiser, cabeça dura. Michael a viu entrar no quarto de vestir. Dali a pouco saiu com uma camisola de fino linho. Com uma pequena tesoura, começou a cortá-la em tiras. Em circunstâncias normais, ele teria feito uma piada por receber ligaduras feitas com roupa íntima feminina, mas naquele momento não estava com humor para risadas.
Como disse, eu vou sobreviver. Eu já imaginava, mas isso pressupõe um grave problema para mim. Sentado, deixava-se ser cuidado; ela cobriu o ferimento com um pedaço de tecido enquanto ele olhava compungido para a lareira de mármore ao fundo do quarto. Vou-me casar dentro de dois dias. Terei que inventar algo para me justificar. Antónia olhou-o, com os lábios apertados. Depois pegou uma faixa mais longa do fino tecido branco. Vai mesmo levar isso adiante? Custa-me a acreditar. O quê, o meu casamento? Por quê? Faz meses que estamos formalmente comprometidos. Isso não é próprio de si, Miguel. Eles já haviam tido aquela conversa antes. Ele suspirou resignado. Embora não seja próprio de mim, sim, vou levar isso adiante.  Vai-se casar com alguma menina insípida, recém-saída da escola só porque o seu pai assim o quer?! Eu lhe agradeceria se não chamasse insípida à minha futura esposa. Talvez fosse imaginação sua, mas lhe pareceu que, ao começar a pensar o ferimento, ela apertou com mais força do que o necessário, então proferiu um grunhido de dor. Ela vai matá-lo de tédio. Michael arqueou uma sobrancelha devagar». In Emma Wildes, His Sinful Secret, 2010, Baror International, Random House Mondadori, Megustaleer, 2011, ISBN- 978-840-138-431-8.

Cortesia de Megustaleer/JDACT

His Sinful Secret. Emma Wildes. «Antónia colocou a banqueta dourada do toucador em cima da manta e empurrou Michael devagar para que se sentasse nela. Se bem me lembro…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O erro de cálculo foi fatal. Quando Michael Hepburn se virou, um segundo mais tarde do que o necessário para evitar a facada em cheio, a ténue luz da luz lhe proporcionou uma imagem vaga da figura na penumbra. Percebeu que a afiada lâmina atravessou a fina casaca de brocado e sentiu a fria mordida do aço no corpo. Uma dor aguda o invadiu, inclusive quando, de forma reflexa, deu um golpe com o pé e ouviu o som surdo do pontapé. O assaltante grunhiu e recuou, cambaleando pelo chão de pedra engordurado, mas não demorou a recuperar o equilíbrio e lançou-se de novo sobre ele. Felizmente, dessa vez Michael não estava desprevenido. Ele esquivou-se inclinando o corpo para trás e deixou que o impulso do atacante o aproximasse o suficiente para lhe acertar um soco com a mão direita. Como o beco pestilento estava muito escuro, em vez de acertá-lo em pleno queixo, pegou de mau jeito num dos lados do pescoço. Ouviu-se um gemido agudo e Michael aproveitou para dar outro pontapé no desconhecido, mas desta vez, na entreperna. Jogo limpo era para quem se podia dar ao luxo da derrota. Isso tinha ele aprendido em Espanha. Ter uma morte honrosa tudo bem, mas, na sua opinião, viver era muito melhor, e não lhe ocorria nada mais sórdido do que perder a vida num beco imundo de Londres. O atacante conseguiu esquivar-se do pontapé, o que demonstrava que também ele se vira em mais de uma luta suja e havia previsto o golpe, mas patinou no chão escorregadio e caiu como um saco de batatas. Porém ele perdeu a faca, e enquanto se abaixava para reavê-la, Michael viu a figura pôr-se de pé com dificuldade, dar meia volta e sair correndo. A própria respiração dele abafou o estrondo dos pés correndo ao bater no chão.
Se não fosse pela sensação morna e melada do sangue que ensopava a sua roupa, talvez ele tivesse tentado caçar o homem para lhe arrancar alguma informação. Inferno, resmungou, abrindo a casaca riscada para olhar o ferimento. A camisa branca de linho já exibia um vivo tom de escarlate. Aquele mal parido, fosse lá quem fosse, pretendia causar-lhe dano de verdade. A lâmina devia ter colidido com uma costela, por isso, embora o ferimento sangrasse muito, Michael não considerou que fosse grave. Ele já havia sido ferido o suficiente para saber quando tivesse chegado o momento. Não obstante, aquele ferimento não podia ter sido mais inoportuno. Tirou o relógio do bolso do colete e semicerrou os olhos para poder ver a hora à escassa luz, procurando ignorar o fedor de lixo que o rodeava. Já era muito tarde, mas ele não podia voltar para casa naquele estado porque poderia encontrar alguém ainda acordado. A enorme mansão estava cheia de parentes e convidados de todo o tipo. Felizmente, tinha outras opções. Andou até onde o esperava o veículo que havia alugado a preço de ouro. A carruagem ducal teria chamado muito a atenção naquele lugar de negócios escusos e de contravenções, e albergues de telhados e portas desmanteladas, indicativos da sordidez do entorno. Certamente ele estava um pouco tonto quando chegou ao veículo. O cocheiro, um homem de rosto afilado e barba desastrosa, alarmou-se ao vê-lo aparecer. Caramba, algum problema, chefe? Está falando do sangue?, perguntou Michael com cinismo. Os bandidos estão ficando cada vez mais atrevidos. O cocheiro teve a delicadeza de não mencionar o quão tarde da noite era e o bairro de má reputação no qual se encontravam. Com uma boa gorjeta, ele se esqueceria do que havia visto. Michael deu-lhe um endereço, subiu no velho veículo e se instalou com muito cuidado no assento. O trajecto foi um tanto quanto agitado, mas, felizmente, não muito longo; não demoraram a sair daquele bairro horroroso e chegar a uma parte mais elegante, e segura, de Londres. Tratava-se de uma quinta elegante, mas discreta, nos arredores de Mayfair e, para seu alívio, via-se luz numa das janelas do andar superior. Ele desceu resmungando uma palavra de agradecimento e acrescentou uma quantidade substancial ao preço da viagem. Se me faz o obséquio, esqueça-se de mim e do incidente.
A julgar pelo semblante do homenzinho, decerto ele estava a pensar que as excentricidades da aristocracia, embora impenetráveis, eram proveitosas e, após assentir com a cabeça, voltou para o assento suspenso, incitou o esquálido cavalo e o coche se afastou com grande estrépito. Apesar da hora, a porta da elegante mansão foi aberta por um homem com uma cicatriz no rosto e semblante impassível. Estava de camisolão e o cabelo escuro alvoroçado, o que indicava que já se havia retirado para dormir. Eram quase da mesma estatura e, embora lhe falasse com respeito, o olhar fixo com o qual olhava para Michael não era sinal de comedimento. Afastou-se e o convidou a entrar. Senhor Marquês, entre por favor. Michael entrou. Lamento tirá-lo da cama, Lawrence. Não precisa se desculpar, senhor, em absoluto. Não fossem as gotas de sangue que caíam no esplêndido piso de mármore branco e preto do vestíbulo, pareceria que estavam trocando palavras corteses; mas Michael e Lawrence não eram amigos, apenas companheiros. Lady Taylor está..., ocupada? Esta noite ela está completamente só, milorde, disse Lawrence com ironia, examinando a casaca riscada de Michael. Bom. Pelo menos ele não interromperia nada pessoal. Antónia não costumava falar sobre os seus passatempos íntimos, e ele também nem perguntava. Mas ele desconfiava que entre Lawrence e ela havia algo mais do que uma relação de mordomo e senhora; em todo caso, isso não era da sua conta, pois nenhum dos dois dissera nada sobre isso e ele preferia assim. Eram sócios, embora com uma relação bem mais estreita do que o habitual, e Michael preferia separar os negócios das questões pessoais. Se importaria de lhe comunicar que estou aqui? Ela ficará encantada por recebê-lo, como de costume. Apesar dos ferimentos e das desastrosas consequências, Michael arqueou uma sobrancelha, divertido pelo tom insolente do jovem. Lawrence nem sequer pestanejou ao vê-lo chegar ensanguentado no meio da noite; tampouco lhe fizera perguntas sobre o ferimento. E jamais o faria, claro. Ele já havia visto coisas piores, e sabia manter a boca bem fechada. No entanto, o palpável antagonismo era significativo. Dali a pouco, Antónia andava para lá e para cá perto dele com o sensual corpo envolto em seda e os lábios apertados à guisa de reprovação. Estavam na alcova dela, que estendeu uma manta no chão para que o sangue não manchasse o caríssimo tapete. Pingentes de seda dourado claro enfeitavam a cama com dossel e as janelas estavam abertas para o jardim dos fundos.
Antónia colocou a banqueta dourada do toucador em cima da manta e empurrou Michael devagar para que se sentasse nela. Se bem me lembro, disse ela, puxando a camisa de dentro dos calções, fazendo caso omisso para a careta de dor que ele fez, eu lhe adverti que tivesse cuidado. A minha fonte disse-me que tinha informações sobre Roget, de modo que aproveitei a ocasião e aceitei me encontrar com ele. Além do mais, não me atacaram lá, mas quando eu estava voltando por aqueles becos de má reputação para o coche de aluguer. E isso lhe surpreende? Quem mora em bairros caros não costuma ter informações em primeira mão sobre assassinos e traidores. Certo». In Emma Wildes, His Sinful Secret, 2010, Baror International, Random House Mondadori, Megustaleer, 2011, ISBN- 978-840-138-431-8.

Cortesia de Megustaleer/JDACT

quinta-feira, 18 de outubro de 2018

Os Pecados de Uma Dama. Bronwyn Scott. «As outras cinco? As outras cinco tutoras. Eu as mencionei, srta. Caulfield. Perdeu a parte do libertino também? Maura ergueu o queixo, determinada»

Cortesia de wikipedia e jdact

Maio de 1835. Londres. Abertura oficial da Estação de Festas
«(…) Maura pausou. As suas realizações não pareceram impressionar a sra. Pendergast. Quando o argumento racional fracassava, havia sempre a súplica. Por favor, senhora, eu não tenho para onde ir. Deve haver alguma coisa que eu possa fazer. Posso ser dama de companhia para uma lady idosa, tutora particular para uma garotinha. Posso ser qualquer coisa. Deve existir uma família em Londres que precise de mim. Não deveria ser tão difícil assim. Londres era uma cidade grande, com muito mais oportunidades do que aquelas oferecidas no interior de Devonshire, nos arredores de Exeter, onde todos conheciam todos, uma situação que Maura vinha tentando arduamente evitar. Não queria ser conhecida, embora estivesse descobrindo que essa escolha vinha acompanhada das suas próprias consequências. Era agora oficialmente uma estranha num lugar estranho, e o seu plano calculado com cuidado achava-se em risco. A súplica funcionou. A sra. Pendergast recostou-se a abriu uma gaveta da mesa. Eu devo ter alguma coisa. Ela mexeu dentro da gaveta e retirou um envelope. Não é exactamente uma situação de família. Nenhuma das garotas aí fora irá aceitar esta posição. Eu já enviei cinco educadoras nas últimas três semanas. Todas abandonaram o emprego. Com aquelas palavras fatídicas, a sra. Pendergast empurrou o arquivo na direcção de Maura. O cavalheiro é solteiro, com duas crianças cuja tutela herdou do irmão. Maura estava ouvindo apenas parcialmente, tamanha era a sua empolgação. A senhora continuou: é uma situação difícil. O novo conde é um completo libertino. Passa as madrugadas fora de casa, entregando-se só Deus sabe, que tipo de prazeres, enquanto as crianças enlouquecem em casa. Então há o problema com o irmão do conde. Ela meneou a cabeça em desaprovação e olhou de maneira significativa para Maura, por sobre os óculos, mais uma vez. A maneira como ele morreu foi muito chocante e repentina. Como eu disse, é uma situação difícil, mas se você quiser, a posição é sua. Se ela quisesse? É claro que aceitaria. Não se achava em condições de ser exigente nesse momento. Maura começava a ver como a sua fuga havia sido precipitada, ainda que tivesse sido necessária.
Está óptimo, obrigada. A senhora não se vai arrepender. Ela teria estendido a sua gratidão, mas a sra. Pendergast ergueu uma das mãos. Eu não me irei arrepender, mas talvez você se arrependa. Ouviu uma palavra do que eu falei, srta. Caulfield? Sim, senhora. Não era exactamente uma mentira. Maura ouvira a maioria das palavras. Ouvira novo conde e duas crianças, e algo sobre a natureza suspeita do conde anterior. A situação não parecia tão ruim quanto a sra. Pendergast estava apresentando. Maura tinha uma posição, isso era tudo o que importava. A vida agora poderia prosseguir conforme o plano. A sra. Pendergast comunicou a sua dúvida com um olhar duro. Muito bem, então eu lhe desejo sorte, mas, de qualquer forma, não quero vê-la de volta aqui. Esta é a única posição que conseguirá sem referências. Sugiro que faça dar certo onde as outras, cinco fracassaram. Maura levantou-se, escondendo a sua surpresa. Era óbvio que perdera uma parte da explicação da sra. Pendergast enquanto fazia a sua celebração mental. As outras cinco? As outras cinco tutoras. Eu as mencionei, srta. Caulfield. Perdeu a parte do libertino também? Maura ergueu o queixo, determinada a não mostrar a sua surpresa. Não tinha ouvido tão bem enquanto pensara. A senhora foi muito clara. Obrigada mais uma vez. A parte do libertino era falta de sorte. Ela poderia estar atirando-se ao fogo, trocando um homem libertino por outro. Mas duvidava que alguém pudesse ser tão dissoluto quanto Wildeham, o homem que o seu tio escolhera para se casar com ela. Além disso, duvidava que fosse encontrar o tal conde de Chatham com frequência. Tipos libertinos não ficavam em casa, quando estavam cercados pelos entretenimentos de Londres. Era difícil ser libertino ficando em casa, afinal de contas.
Uma hora depois, uma carruagem de aluguel deixou-a em frente da residência do conde de Chatham, em Portland Square, e partiu com as últimas moedas de Maura. Na sua estimativa, aquele era um dinheiro bem gasto. Sozinha, ela teria andado horas e nunca achado o lugar». In Bronwyn Scott, Os Pecados de Uma Dama, 2012, Nikki Poppen, Editora HR, Harlequin, 2013, ISBN 978-853-980-924-0.

Cortesia de EHR/Harlequin/JDACT

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Os Pecados de Uma Dama. Bronwyn Scott. «Maura respirou fundo, em silêncio repetindo o mantra que a sustentara durante a longa jornada de Exeter: em Londres haverá ajuda»

Cortesia de wikipedia e jdact

Maio de 1835. Londres. Abertura oficial da Estação de Festas
«(…) Tudo isso pareceria muito sórdido se pensasse nos detalhes por um longo tempo ou se não tivesse o bastante para beber. Durante o ano anterior, Riordan descobrira que estava precisando beber cada vez mais para impedir-se de pensar nos detalhes. O seu cantil de prata se achava sempre presente no bolso do seu casaco, e, no momento, ele se encontrava muito sóbrio para seu gosto. Riordan alcançou o cantil, apenas para ser interrompido pela aproximação de um lacaio carregando uma bandeja de prata e uma carta selada. Milorde, perdoe-me a intrusão. Isto chegou para o senhor com muita urgência. Riordan estudou a carta com curiosidade. Ele não tinha interesse em política nem em nenhum investimento de negócios que requeresse a sua atenção. Em resumo, não era de modo algum o tipo de homem que as pessoas procuravam com a espécie de urgência implicada pelo lacaio. Riordan rompeu o selo e leu as quatro linhas curtas escritas a tinta por Browning, o advogado da família. Então releu-as, na esperança de que a repetição tornasse o bilhete menos estranho, menos apavorante. Não são más notícias, eu espero... Os olhos castanhos de lady Meacham se arregalaram com preocupação, provando que ele estava tão pálido quanto se sentia. Não más notícias..., a pior notícia. E ela estaria por toda a cidade de Londres dentro de um dia, mas Londres nunca ouviria aquilo de Riordan. Ele não estava pronto para dissimular para o seu último caso amoroso, no meio da exposição de artes da Academy. Assim, reuniu o que lhe restava de bom senso e deu um sorriso extravagante para lady Meacham, a fim de mascarar as suas emoções crescentes. Minha querida, eu lamento, mas os meus planos mudaram. Ele fez uma reverência curta e sardónica. Se me der licença... Parece que eu me tornei pai. Riordan pegara o seu cantil, mas agora o beber pareceu-lhe inútil. Não havia conhaque suficiente no mundo para aliviar aquilo. Ele ia precisar de ajuda. Aceitaria qualquer ajuda que pudesse obter.

Eu aceitarei qualquer coisa que tiver. Maura Harding estava sentada erecta, com mãos enluvadas e cruzadas comportadamente no colo. Ela se esforçava para soar afável em vez de desesperada. Não estava desesperada. Maura forçou-se a acreditar na quase ficção. Se ela não acreditasse, ninguém mais acreditaria. O desespero a transformaria num alvo fácil. Pessoas podiam sentir desespero como cães farejavam medo. De acordo com o pequeno relógio preso ao corpete do seu vestido, eram 10h30 da manhã. Ela viera directo da carruagem que transportava correspondência para a Agência de Encaminhamento da sra. Pendergast para jovens ladies de boa criação e precisava de um trabalho até o fim do dia. A sra. Pendergast espiou sobre a borda dos seus óculos e hesitou. Eu não vejo referências aqui. O peito volumoso da sra. Pendergast inflou em desaprovação quando ela fez o pronunciamento. Maura respirou fundo, em silêncio repetindo o mantra que a sustentara durante a longa jornada de Exeter: em Londres haverá ajuda. Não desistiria agora simplesmente porque não tinha referências. Afinal de contas, sempre soubera que esse seria um obstáculo provável. É a minha primeira vez procurando uma posição, senhora. Primeira vez usando um nome falso, primeira vez viajando para fora de Devonshire, primeira vez sozinha..., muitas primeiras vezes, sra. Pendergast, se pudesse imaginar... As sobrancelhas da sra. Pendergast arquearam-se numa expressão desconfiada. Ela pôs o papel escrito cuidadosamente por Maura sobre a mesa e deu-lhe um olhar intransigente. Eu não tenho tempo para jogos, srta. Caulfield. O nome falso soava..., bem..., falso para Maura, que passara a vida inteira sendo a srta. Harding. A sra. Pendergast poderia saber? O nome soaria falso para ela? Ela desconfiava? A sra. Pendergast levantou-se para indicar que a entrevista estava terminada. Estou muito ocupada. Tenho a certeza de que não deixou de notar a sala de espera repleta de jovens ladies com referências, todas ansiosas para trabalhar em residências familiares. Sugiro que tente a sorte em algum outro lugar. Isso era um desastre. Maura não podia ir embora de lá sem uma posição. Para onde mais iria? Não conhecia mais nenhuma agência de empregos. Sabia sobre esta somente porque a sua preceptora a mencionara uma vez. Maura pensou rápido. Eu tenho algo melhor do que referências, senhora. Tenho habilidades. Maura gesticulou em direcção ao papel descartado. Sei bordar muito bem, sei cantar, dançar e falar francês. Sei até mesmo pintar aguarelas». In Bronwyn Scott, Os Pecados de Uma Dama, 2012, Nikki Poppen, Editora HR, Harlequin, 2013, ISBN 978-853-980-924-0.

Cortesia de EHR/Harlequin/JDACT

Os Pecados de Uma Dama. Bronwyn Scott. « Riordan soubera pintar mais do que um pouco, certa vez. Mas em algum lugar entre aquela época e agora, pintar deixara de ocupar um lugar central na sua vida, para sua grande tristeza e surpresa»

Cortesia de wikipedia e jdact

Maio de 1835. Londres. Abertura oficial da Estação de Festas
«Rumores diziam que Riordan Barrett podia levar uma mulher ao clímax a quatro metros de distância, usando somente os seus olhos. De perto, as possibilidades eram infinitas, assim como as curvas exuberantes do corpo deleitável de lady Meacham. Riordan descansou a mão de leve nas costas da lady em questão, contemplando aquelas possibilidades, enquanto a conduzia através da multidão reunida em Somerset House, para marcar o início da Estação de Festas, com a exposição anual de artes da Royal Academy. Lady Meacham deu-lhe um olhar recatado que não deixava dúvidas de que estava pensando a mesma coisa. Ele sabia o que ela queria, o que todas queriam: que os rumores fossem verdadeiros. Lady Meacham desejava experimentar o prazer que Riordan tinha a reputação de oferecer. Ele, por sua vez, adoraria perder-se no prazer por algum tempo. Era bom nisso..., em se perder em prazeres. Jogos de cartas, apostas, corridas a cavalo, bebida, os vícios usuais de um cavalheiro... Riodan conhecia todos. Não era estranho às seduções das demi-monde ou às camas das viúvas. Ele e as damas sabiam por quê. Prazer era apenas mais uma palavra para escape; um termo menos desesperado. Já havia desespero, e a Estação de Festas apenas acabara de começar. Quando o esplendor dos bailes de Londres e das lindas mulheres perdera o brilho? Riordan reprimiu o pensamento e conduziu lady Meacham para a frente da mais recente obra de Turner: uma descrição do incêndio da Câmara dos Lordes e Câmara dos Comuns, que ocorrera no último Outubro. Se aquilo desse certo, ele passaria a tarde imerso nos charmes voluptuosos de lady Meacham, esparramado na sua cama, esquecendo. Riordan inclinou-se sobre o ouvido de lady Meacham e começou o jogo a sério. Note como o pincel de Turner transmite a energia das chamas; como o uso dos tons de amarelo e vermelho descreve as temperaturas do inferno. O leve toque dos seus dedos no braço dela sugeria que ele estava criando um fogo diferente. O perfume de lady Meacham preencheu as suas narinas com a sua fragrância cara e forte. Ele preferia algo mais doce, mais suave. É especialista em..., ahn..., técnica de pincelada, murmurou lady Meacham, o corpo angulando subtilmente, de modo que os seus seios roçassem a manga do casaco de Riordan, num convite discreto. Sou especialista em muitas coisas, lady Meacham, replicou Riordan num sussurro particular. Talvez devesse chamar-me de Sarah. Ela bateu na manga dele de brincadeira, com o seu leque. Está tão bem informado. Sabe pintar também? Um pouco.
Riordan soubera pintar mais do que um pouco, certa vez. Mas em algum lugar entre aquela época e agora, pintar deixara de ocupar um lugar central na sua vida, para sua grande tristeza e surpresa. Ele não podia lembrar como isso acontecera, apenas que não mais pintava. Lady Meacham... Sarah olhou-o por baixo de cílios longos, um sorriso convencido brincando nos lábios. O que pinta? Aquela conversa estava indo precisamente na direcção que ambos queriam. Riordan tinha a sua resposta pronta. Nus, Sarah. Eu pinto nus. Elas me dizem que isso excita. Lady Meacham deu uma risada rouca diante da indirecta maliciosa, a confirmação final de que estava disposta a abrir mão do Grande Salão superaquecido de Somerset House por um endereço muito mais confortável em Piccadilly, e os seus pincéis. A mão dela permaneceu tempo demais na manga de Riordan, numa comunicação de familiaridade. Não há mesmo um pingo de decência em si, há? Riordan cobriu-lhe a mão enluvada com a sua, a voz baixa e profunda, agora só para ela: nem um pingo, lamento. Os olhos de Sarah se iluminaram diante das possibilidades que a frase invocava, um sorriso tímido na boca beijável. Acho tal qualidade deliciosa num homem, sem dúvida alguma. Ela estava mais do que disposta, e era menos do que um desafio. De alguma maneira, era decepcionante que tivesse sido capturada com tanta facilidade. Entretanto, ele devia sentir-se mais excitado sobre a conquista, mais desejoso. Afinal, Sarah Meacham era um prémio, realmente. O marido dela saíra em viagem com a amante, e fofocas no clube White’s diziam que Sarah se tornara ansiosa para tomar o seu primeiro amante desde o nascimento do filho reserva, no último Outono. Houve apostas sobre quem seria esse amante. Riordan fora à cidade especialmente para ganhar aquela aposta, para o caso de alguém duvidar que não houvesse um osso redimível no seu corpo. Não poderia permitir que pensassem que Riordan Barrett vinha perdendo o seu toque; que o seu irmão, Elliott, enfim lhe colocara algum juízo na cabeça. O destino decretara que Elliott, o herdeiro, devia ser bom, muito bom, e Riordan, o reserva, devia ser mau, muito mau, uma justaposição natural para a bondade do seu irmão amado. Então lá estava ele, mais cedo na cidade, interrompendo uma visita ao seu irmão em Sussex, para fazer sexo com a esposa de outro homem e provar a todos que Riordan Barrett era tão pervertido quanto os rumores reportavam». In Bronwyn Scott, Os Pecados de Uma Dama, 2012, Nikki Poppen, Editora HR, Harlequin, 2013, ISBN 978-853-980-924-0.

Cortesia de EHR/Harlequin/JDACT

domingo, 11 de junho de 2017

Esplendor de Honra Julie Garwood. «Que engano tão terrível tinha cometido o seu cativo ao deixar arrastar-se pela temeridade! Sim, Duncan, o poderoso barão dos feudos do Wexton, tinha entrado na fortaleza do seu inimigo»

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Inglaterra. 1099
«Pretendiam matá-lo. O guerreiro estava de pé no centro do pátio deserto, com as mãos atadas à costas e sujeita por uma corda a um poste que tinha sido colocado no chão detrás das suas costas. A sua expressão achava-se desprovida de toda a emoção enquanto olhava para diante, sem fazer aparentemente caso dos seus inimigos. O cativo não tinha oferecido nenhuma classe de resistência, permitindo que os seus captores o despissem até a cintura sem nem sequer levantar um punho ou pronunciar uma palavra de protesto. A sua magnífica capa para o inverno, forrada de pele, a sua grossa cota, a sua camisa de algodão, as suas meias e as suas botas de couro tinham-lhe sido arrancadas e jogadas no chão gelado, diante dele. A intenção que guiava a seus inimigos não podia ser mais clara. O guerreiro morreria, mas sem que a sua morte chegasse a trazer consigo nenhuma nova marca para acrescentá-la ao seu corpo, já famoso pelas cicatrizes da batalha. Enquanto a sua ávida audiência olhava, o cativo podia dedicar-se a contemplar os seus objectos enquanto ia congelando pouco a pouco até morrer.
Doze homens rodeavam-no. Com as facas desembainhadas para dar-se valor, aqueles homens andavam em círculos ao redor do cativo, zombando dele e gritando insultos e obscenidades enquanto os seus pés calçados com botas chutavam o chão num esforço por manter algum calor na gélida temperatura. Mesmo assim, todos e cada um deles se mantinham a uma prudente distancia dele, se por acaso chegasse a dar o caso de que o seu no momento dócil cativo trocasse subitamente de parecer e decidisse liberar-se das suas ataduras e atacá-los. Não lhes cabia nenhuma dúvida de que era perfeitamente capaz de tal façanha, porque todos tinham escutado as histórias que se contavam da sua hercúlea fortaleza. Alguns inclusive tinham podido presenciar numa ou duas ocasiões as tremendas proezas que era capaz de levar acabo no curso da batalha. E se o cativo se libertasse das cordas que o sujeitavam ao poste, os homens ver-se-iam obrigados a utilizar as suas facas, mas não antes de que o guerreiro tivesse enviado a três, possivelmente inclusive a quatro deles, à morte, que mandava aquele grupo de doze homens não podia acreditar na sua boa fortuna. Tinham capturado o Lobo e não demorariam para presenciar a sua morte.
Que engano tão terrível tinha cometido o seu cativo ao deixar arrastar-se pela temeridade! Sim, Duncan, o poderoso barão dos feudos do Wexton, tinha entrado na fortaleza do seu inimigo cavalgando completamente só, e sem levar consigo nenhuma arma com a qual pudesse chegar a defender-se. Tinha cometido a insensatez de acreditar que Louddon, um barão que era igual a ele no título, faria honra à trégua temporária que havia entre eles. Tem que estar muito pago de sua própria reputação, pensou o homem que os mandava. Realmente deve ter-se por tão invencível como asseguravam que era aquelas histórias de grandes batalha que tanto tinham chegado a exagerar a sua figura. Sem dúvida essa era a razão de que o barão do Wexton parecesse sentir-se tão pouco preocupado pelas terríveis circunstâncias nas que se encontrava agora.
Uma vaga sensação de inquietação foi infiltrando-se pouco a pouco na mente de quem mandava naqueles homens enquanto contemplava a seu cativo. Tinham-no despojado de toda sua valia, fazendo em farrapos o emblema que proclamava o seu título e a sua dignidade, e assegurando-se de que não ficasse nem um só vestígio do nobre civilizado. O barão Louddon queria que o seu cativo morresse sem nenhuma dignidade ou honra. E entretanto, o guerreiro quase nu que tão orgulhosamente se elevava ante eles não estava respondendo no mais mínimo aos desejos do Louddon. O barão do Wexton não se estava comportando como teria podido esperar-se de um homem que vai morrer. Não, o cativo não suplicava pela sua vida ou choramingava pedindo um rápido final. Tampouco tinha o aspecto de um agonizante. Não lhe tinha colocado a carne de galinha e a sua pele não tinha empalidecido, mas sim seguia estando bronzeada pelo sol e curtida pela exposição à intempérie. Maldição, mas se nem sequer tremia! Sim, eles tinham despido o nobre, e entretanto debaixo de todas as capas de refinamento seguia achando-se presente o orgulhoso senhor da guerra, mostrando-se tão primitivo e carente de medo como arejavam todas aquelas histórias que corriam a respeito dele». In Julie Garwood, 1987, Esplendor de Honra, Editora Universo dos Livros, 2017, ISBN978-855-030-137-2.

Cortesia de EUdosLivros/JDACT

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

A Rainha Vermelha. Philippa Gregory. «Ela transformou o rei deles num homem, e constituiu um exército com os soldados dele. Não era uma rapariga comum. Não tenho esperança de vir a conhecer outra como ela»

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Primavera de 1453
«(…) Ele abanou a cabeça e disse exactamente o que eu queria ouvir. Não, não era bonita, não era uma menina bonita, não era feminina; mas irradiava luz. Assenti com a cabeça. Era o que eu sentia, nesse preciso momento, compreendia..., tudo. E ela continua a combater? Deus vos abençoe, pois sois um pouco tonta. Não: ela está morta. Morta, há quanto tempo... Há quase vinte anos. Morta? A maré mudou para ela, depois de Paris; fizemo-la recuar nas próprias muralhas de Paris, mas foi por pouco... Imaginai! Ela quase conseguiu conquistar Paris! E, no final, um soldado da Borgonha obrigou-a a desmontar do seu cavalo branco, numa batalha, contou o pedinte num tom factual. Pediu-nos um resgate por ela, e nós executámo-la. Queimámo-la na fogueira, por heresia. Eu estava horrorizada. Mas dissestes que ela era guiada por anjos. Seguiu as vozes deles até à morte, afirmou ele terminantemente. Mas eles examinaram-na e declararam que ela, de facto, era virgem. Ela era realmente Joana, a Donzela. E ela acertou, quando previu que iria ser derrotada na França. Creio que agora estamos perdidos. Ela transformou o rei deles num homem, e constituiu um exército com os soldados dele. Não era uma rapariga comum. Não tenho esperança de vir a conhecer outra como ela. Já estava em chamas muito antes de a colocarmos na pira. Estava a arder, com o Espírito Santo. Respirei fundo. Eu sou como ela, sussurrei-lhe. Ele baixou os olhos para o meu rosto enlevado e riu-se. Não, isto são histórias antigas, disse. Não têm nada que ver com uma rapariga como vós. Ela está morta e em breve será esquecida. As cinzas dela foram espalhadas para que ninguém lhe pudesse construir um santuário. Mas Deus falava com ela, com uma rapariga, murmurei. Não falava com o rei, nem com um rapaz. Falava com uma rapariga. O velho soldado concordou com a cabeça. Não tenho dúvidas de que ela estava certa disso, afirmou. Não duvido que ela ouvisse as vozes dos anjos. Devia ouvir. Senão, não teria feito o que fez. Ouvi a voz esganiçada da minha preceptora a chamar-me, da porta da frente da casa, e voltei a cabeça por um momento, enquanto o soldado pegou na sua trouxa e a balançou para a apoiar nas costas.
Mas isso é verdade?, perguntei com uma urgência súbita, quando ele começou a caminhar com passos largos e rápidos em direcção ao pátio dos estábulos e ao portão que dava para a rua. São histórias de soldados, disse ele, num tom desinteressado. Podeis esquecê-las e esquecê-la a ela, e sabe Deus como ninguém se irá lembrar de mim. Deixei-o sair, mas não me esqueci de Joana, e nunca a esquecerei. Rezo ao seu nome para que me oriente, fecho os meus olhos e tento vê-la. Desde esse dia, é dito a cada soldado que aparece à porta de Bletsoe a pedir comida que aguarde, porque a pequena lady Margarida quer falar com ele. Pergunto-lhes sempre se estiveram em Les Augustins, em Les Tourelles, em Orleães, em Jargeau, em Burgency, em Patay, em Paris? Conheço as vitórias dela tão bem como as aldeias vizinhas de Bedfordshire. Alguns dos soldados estiveram nessas batalhas; alguns deles chegaram a vê-la. Todos mencionaram uma rapariga pequena montando um cavalo enorme, com um estandarte esvoaçando acima da sua cabeça, vislumbrado quando a batalha se encontrava no seu momento mais aguerrido, uma rapariga que parecia um príncipe, que jurara trazer a paz e a vitória ao seu país, entregando-se ao serviço de Deus, nada mais do que uma rapariga, nada mais do que uma menina como eu: mas uma heroína». In Philippa Gregory, A Rainha Vermelha, 2011, Civilização Editora, Porto, 2011, ISBN 978-972-263-013-9.

Cortesia de CivilizaçãoE/JDACT