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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

O Carteiro de Fernando Pessoa. Fernando E. Pinto. «Tudo isto é um combate implacável com o qual o poeta já estava familiarizado. Foi então que, sentado à secretária, Fernando Pessoa abriu a carta…»

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Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes. In E. Dickinson

«(…) É bom de ver: Alberto Reis tinha orgulho na antiga profissão. Mesmo assim, havia momentos em que o seu esforço saía espezinhado e enfraquecia perante a difícil tarefa de detectar matéria atractiva e comprometedora que o conduzisse a um trabalho de pesquisa. Podemos estar a falar de um homem obsessivo, cuja entrega e experiência nestes assuntos que perspectivavam acontecimentos objectivos e reais lhe conferiam o certificado de tomar de assalto a vida privada dos outros. No entanto, a eficácia das suas conclusões não deixava de ser surpreendente e impressionava pela precisão dos métodos que utilizava. Decerto classificava esta atitude da mesma maneira que alguém se dedica à leitura de livros policiais, hábito que enraizara com especial dedicação para não se sentir um ponteiro inutilizado no tempo. Mas agora que pensava no carteiro num entendimento algo misterioso com a senhora Ofélia, Alberto Reis sentia-se esbofeteado pelo desconforto do desconhecido. Não se podia enganar. Se existia inquietação no seu espírito, é porque havia algo de suspeito na matéria de facto. A dúvida era agora muito ténue. Ele próprio sabia que qualquer passo que desse no sentido de interferir com o imaginário alheio a sua visão dos acontecimentos informá-lo-ia sobre todas as causas, ainda que determinadas situações revelassem consequências estranhas e manifestassem distúrbios e efeitos obscuros que contribuíam para adensar o mistério. Das duas cartas que Fernando Pessoa recebeu, uma delas era aguardada com alguma ansiedade. Não se tratando de uma carta de amor, assunto íntimo e fecundo em perturbações e subtilezas da alma, a mensagem não andava muito longe da natureza das paixões, sendo que o conteúdo da missiva abordava questões de interesses culturais e missões de privacidade e absoluto sigilo. Por isso, o nome do remetente fê-lo adiar o passeio matinal pelo Chiado, com paragem na Brasileira do Rossio para o habitual contacto com alguns amigos com quem bebia, gloriosamente, uma aguardente Águia-Real; uma de1ícia estimulante que, em apenas alguns minutos de interioridade e admirável reflexão, lhe permitia lançar-se pelos trilhos do universo sob o efeito duma profunda filosofia. Assim, contentou-se com uma chávena de café feito em casa e uns vapores etílicos que tinha reservado para certas ocasiões, quando a inspiração perdia o fôlego necessário para as grandes criações e as sensações lhe reclamavam ardente desempenho reflexivo.
Fernando Pessoa estava num desses dias em que a escrita não lhe exigia completa ambição no tratamento da palavra e entregar-se de forma branda e anémica aos pensamentos só poderia trazer resultados insignificantes e de expressão deplorável. Neste momento, segurando a carta do seu amigo Francisco Fernandes Lopes, o mais importante era sentir por entre linhas as palavras do seu correspondente. Se o nosso pensamento tem as suas próprias exigências e reclama de nós implícita vontade de expressão, não é menos verdade que o pensamento dos outros, escrito que seja, se disponha a revelar semelhante objectivo na prodigiosa capacidade de nos entendermos. E, embora este amigo respeitado, médico e sábio, não se cruzasse frequentemente com ele, de facto, Francisco Fernandes Lopes apenas permaneceu na capital quando era estudante na Faculdade de Medicina de Lisboa, onde se licenciou em 1911, a carência de proximidade física nunca fora impeditiva de uma relação leal, convicta e de comum admiração criadora. De tal modo que a cumplicidade dos dois homens se consolidou no cumprimento de interesses intelectuais, a que não eram alheias as confidências políticas e a missão crítica para alcançar novos conhecimentos. No entanto, a correspondência entre os dois amigos cumpria os seus objectivos e fazia movimentar a roda do tempo. Normalmente a solidão está associada ao tempo que um homem permanece só. Na realidade, um homem solitário nem a si mesmo se entende como pessoa. O tempo nunca servirá para medir uma inquietação emocional, ou, melhor ainda, nunca nos dará a percepção exacta da solidão e suas intensidades. E solitário aquele que não se movimenta dentro de si próprio.
Transformar a pessoa que se é no sentido de acrescentar mais alguém à parte que lhe faz falta não é assim tão invulgar que o tempo não consinta. Por íntima necessidade pessoal o tempo cede à sua imaterialidade e, para humanizar a questão, a solidão cessa as suas funções demoníacas. Tudo isto é um combate implacável com o qual o poeta já estava familiarizado. Foi então que, sentado à secretária, Fernando Pessoa abriu a carta». In Fernando Esteves Pinto, O Carteiro de Fernando Pessoa, Baía dasPalavras, Edições Parsifal, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98521-0-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

terça-feira, 10 de novembro de 2015

O Carteiro de Fernando Pessoa. Fernando E. Pinto. «Não tinha dúvidas: entre o amor e a conspiração não havia ciência apropriada que esclarecesse o tumulto que sentia no coração. Desapontado, decidiu recuar»

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Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes. In E. Dickinson

«(…) Um abrir e fechar de portas que levou Alberto Reis a imaginar que também a vizinha do primeiro andar esquerdo entrava em cena, tal era o dramatismo das fechaduras e o palavreado incompreensível que aí se mantinha. E mesmo que o poeta já se tivesse ausentado com as cartas que lhe correspondiam, fechando delicadamente a porta, indiferente a distracções de circunstância e conversas inúteis, Alberto Reis decidiu arriscar meia dúzia de degraus e, rente à parede, tentou interpretar de forma esclarecida o conteúdo da conversa entre o carteiro e a senhora Ofélia. Em todo o caso, a possibilidade de Alberto Reis se manter activo passava por estas manobras de vigilância. Não desejava de modo algum intrometer-se na vida privada dos inquilinos do prédio, apesar de sentir ainda a sua veia investigadora cheia de interpretações intuitivas e correr nela uma espécie de conflitualidade que o levava a interessar-se por situações estranhas e mistérios por resolver.
A conversa entre o carteiro e a senhora Ofélia, da qual Alberto Reis apenas ouviu algumas frases sem nexo, tal era a fronteira imposta por eles para que as palavras não subissem de tom e ficassem um furo abaixo da compreensão de quem por acaso pudesse ouvi-las, tinha ultrapassado a linha da ocasionalidade. Assim entendia Alberto Reis, agora uns degraus mais abaixo, com receio de ser surpreendido na calma disciplina que fazia dele um homem demasiado subtil e prudente. Além disso, pensava o velho polícia, tanta familiaridade entre um carteiro insignificante e uma mulher com inclinações para relacionamentos selectivos levantava-lhe suspeitas e revelava uma ambição social estranha. Também podia dar-se o caso de esta proximidade ter como finalidade o desenvolvimento de uma relação amorosa. A ser verdade, e só de pensar na possibilidade de uma agradável comunhão entre os dois, Alberto Reis sentia-se sufocar
de ciúmes.
De qualquer modo, e porque não tinha provas de nenhum romance, os seus sentidos estavam todos em pleno esforço de captação do teor da conversa no primeiro andar. Movido pelo desespero e afrontado pela impaciência, ainda arriscou a subida de dois degraus, e foi então que percebeu pelas vozes abafadas que se escapavam pela porta entreaberta que o carteiro estava dentro do apartamento da senhora Ofélia. Não tinha dúvidas: entre o amor e a conspiração não havia ciência apropriada que esclarecesse o tumulto que sentia no coração. Desapontado, decidiu recuar. Lutava agora para que as suas emoções não alastrassem em doses de insatisfação e melindre e lhe toldassem por completo as convicções policiais. É verdade que todo este esforço de clarificação o afectava e punha à prova aprendizagens de recurso em situações de dúvida e complexidade. Foi com esta tímida sensação de fracasso que Alberto Reis saiu do prédio e, pensativo, andou às voltas no passeio a planear outras formas de eliminar algumas barreiras que o limitavam na gestão de determinadas abordagens. Pessoalmente via-se como um indivíduo seguro e com uma dimensão humana capaz de suportar o mais poderoso caudal de adversidades. Não obstante certas dificuldades, tudo tinha uma solução e qualquer ideia de azar ou derrota que lhe sobreviesse desenvolvia nele uma capacidade prodigiosa de colher do mal pistas credíveis para a consagração do bem, muito embora esta transacção do mal para o bem fosse discutível e estivesse, de facto, policiada pela sua lealdade à ordem e defendida por uma excessiva ambição de controlar os outros». In Fernando Esteves Pinto, O Carteiro de Fernando Pessoa, Baía dasPalavras, Edições Parsifal, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98521-0-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

O Carteiro de Fernando Pessoa. Fernando E. Pinto. «Assim que ela o viu no outro lado da rua a olhar na sua direcção, correu bruscamente os cortinados da janela da sala. Os olhos de Alberto Reis mudaram de direcção e desceram até à porta do prédio»

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Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes. In E. Dickinson

«(…) Alberto Reis compreendeu que já não ia saborear o chá feito pela senhora Ofélia. Em nenhuma circunstância isso seria possível, depois dos gritos de impropérios e dos empurrões pelas costas para sair do quarto. E de nada lhe adiantou tentar explicar que se tratara de um mal-entendido, que apenas fora movido pela curiosidade de tais adereços masculinos a marcar presença, na privacidade de um quarto de mulher, imprudência que não se comparava, se fosse esse o caso, à observação imoral das roupas interiores, íntimas e femininas. Não que fosse um sacrifício se o desejo lhe implorasse tais inspecções, mas nunca estaria nos seus planos profissionais. E, além disso, sentia uma atracção inexplicável pela senhora Ofélia. Atraía-o toda aquela sofisticação à volta dela. Na verdade, Alberto Reis estava, a entrar numa nova fase da viuvez, e esse facto explicava todo o interesse que tinha pela senhora. Nas noites de tertúlia, encostado à porta do seu apartamento no rés-do-chão a escutar os passos dos convidados que subiam ao primeiro andar, Alberto Reis sentia mais do que nunca o poder detestável da solidão a sacrificá-lo e a magoá-lo nos sentimentos.
Para um homem sozinho pouco mais restava do que andar pela casa a captar restos de músicas e cantorias, embora outros divertimentos supusesse pelas gargalhadas que ofendiam a sua condição de excluído. Desde esse desagradável incidente, Alberto Reis perdeu totalmente a confiança da senhora Ofélia, que nunca mais lhe dirigiu a palavra. Assim que ela o viu no outro lado da rua a olhar na sua direcção, correu bruscamente os cortinados da janela da sala. Os olhos de Alberto Reis mudaram de direcção e desceram até à porta do prédio. Não conseguiu evitar uma expressão de mágoa pela indiferença da senhora Ofélia. No entanto, ainda acreditava que poderia conquistar algum espaço na vida dela. Nada estava arquivado, embora o castigo que ela lhe impusera fosse um pesadelo cruel para um solitário viúvo que lutava por algum afecto e atenção.
Alberto Reis correu ao encontro do carteiro quando o viu aproximar-se da entrada do prédio. Este impulso era mais da ordem da curiosidade e do prazer de alguns minutos de conversa do que por qualquer outro motivo que se prendesse com notícias de familiares. Desde o falecimento dos pais que deixara de receber correspondência, exceptuando uma ou outra notícia longínqua de algum parente afastado a viver no Norte. Estava, por isso, acostumado ao silêncio e ao vazio de palavras escritas em papel de carta. De qualquer forma, o facto de nunca ter tido filhos poupava-o agora ao desgosto de se sentir, eventualmente, vítima do desprezo e do esquecimento. Não era um conforto pensar assim, mas permitia-se acreditar que era preferível desconhecer qualquer espécie de pânico familiar, como seja o de ser ignorado pela própria descendência. As conversas com o carteiro eram modestas e não se alicerçavam em grandes questões. Alberto Reis era o primeiro a falar do estado do tempo, conversa contemplativa e monótona.
O carteiro achava que tais observações só podiam vir de uma pessoa ociosa e desvinculada de qualquer responsabilidade profissional e, enfadado, ignorava completamente as preocupações meteorológicas que se abatiam sobre si. Faça o tempo que fizer, um carteiro é uma jangada de comunicação. Alberto Reis via agora o carteiro como um perito em despistar atenções e seguir com o serviço para a frente. O mensageiro deixara-o praticamente com a conversa em forma de monólogo e subira apressado as escadas até ao primeiro andar. É claro que Alberto Reis não ousou segui-lo, por mais furiosa que fosse a sua vontade de estar presente e testemunhar correspondências e fascinações privadas. Contudo, ainda ficou pelo patamar do rés-do-chão a prestar atenção o tempo suficiente para descobrir que havia correspondência para Fernando Pessoa». In Fernando Esteves Pinto, O Carteiro de Fernando Pessoa, Baía dasPalavras, Edições Parsifal, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98521-0-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Os Impetuosos. Luísa Beltrão. «Luís e Zulmira eram o casal ‘réussi’ da família. Ele aumentara o património recebido de seu pai (o primeiro marido de Ana, herói de Africa e construtor de fortunas) e mantinha, estimulado pela mulher…»

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«Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones». In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Albertina olhou para o outro lado da sala, lá estava o sobrinho, tão triste, como ele devia sofrer com tantos conflitos à sua volta, pobre criança! Se Júlio permitisse ela tomá-lo-ia à sua guarda como um pequeno pássaro sem ninho. Mas já iam receber Heitor. Não que ela se importasse, Júlio é que podia não querer. Pedro, de longe, captava as movimentações sobre a sua sorte, intuía-o da habitual cotação de menino abandonado, mas, nada deixando transparecer, conversava com o primo Alvarito, cuja desenvoltura invejava. Eram muito diferentes estes dois primos quase da mesma idade, com destinos de berço tão diversos e que no entanto se entendiam: o desvalido Pedro tinha figura de príncipe, alto e loiro; Alvarito, filho do primogénito Luís e de sua mulher Zulmira Maldonado, de nove anos mimados, pequeno e rechonchudo, crescia em feitio brincalhão, que a vida era uma brincadeira inconsequente dada a indulgência dos pais que o adoravam e lhe perdoavam as fantasias rocambolescas ditadas por fértil imaginação. Graves sensaborias tinham já sofrido, que ele não poupava ninguém.
De uma vez, num dos numerosos jantares elegantes que Zulmira costumava dar, houvera, entre outras sobremesas, uma mousse au chocolat, doce recentemente importado da admirável cozinha francesa. Alvarito, que recolhera cedo como convinha a uma criança, aparecera na casa de jantar no momento em que o criado servia a apreciada iguaria e, com ar compungido, bichanara em voz suficiente para ser ouvido por todos, boa noite, isso que vão comer tem fezes da mamã que a cozinheira pôs no chocolate. Ninguém comera a mousse au chocolat, apesar das invectivas indignadas de Zulmira, siderada, com a alusão às suas fezes. Comera-a ele mais tarde, regaladamente. O alvo preferido das suas partidas era o severo tio Francisco, filho do primeiro casamento do conde e marido da tia Antoninha. Até houvera uma questão entre Luís e Francisco, cujas relações tinham esfriado desde então.
Luís e Zulmira eram o casal réussi da família. Ele aumentara o património recebido de seu pai (o primeiro marido de Ana, herói de Africa e construtor de fortunas) e mantinha, estimulado pela mulher, um trem de vida luxuoso, idas frequentes a Paris, festas magníficas frequentadas sobretudo por gente das artes e das letras. Zulmira, Maldonado de solteira, tinha uma sede inesgotável de sucesso, sobretudo em relação aos homens, o que provocava cenas de ciúmes no marido, inseguro perante a sua beleza insinuante e os seus dotes poéticos. Embora também dado a aventuras galantes, era Luís um homem responsável dos deveres familiares e cívicos, auxiliando os parentes com a disponibilidade própria do estatuto de primogénito. Fora ele o padrinho da neófita e dera-lhe de presente um rico broche de brilhantes.
Também lá se encontravam as duas outras filhas de Ana, as inseparáveis Elisa e Laura, esta sem o marido, ocupado na lavoura das terras, e aquela ainda solteira inconsolável, que continuavam trilhando o seu caminho de diferenças: Elisa fina e elegante, Laura infantil nas suas saídas intempestivas e pesadas. Por fim, Antoninha, enteada de Ana e seu marido Francisco de Riba Coutinho, ele pouco comunicativo, ela doce como sempre, cada vez mais apagada e silenciosa; tinham voltado definitivamente a viver em São Jerónimo desde a última crise do conde, a quem Francisco amava num silêncio discreto. Como Guilhermina dizia, maldosamente, era uma família grande que aparentemente se dava bem.
De regresso a Coimbra, Júlio voltou à vida académica e Albertina às lides domésticas, agravadas agora pela presença dos dois hóspedes. A casa era espaçosa para os albergar, mas traziam eles um ritmo diferente ao quotidiano. Heitor, obrigado a frequentar pela primeira vez o colégio, tentava escapulir-se aos seus deveres e fazia-o com êxito, iludindo a ingenuidade bondosa de Albertina. Conhecedor dos gostos de Júlio pela caça e pelos desportos em geral, desafiava-o, tentador, conseguindo a pouco e pouco os seus intentos. Terno e amável, oferecia-se para passear a pequena Maria Teresa que crescia adorável e precoce e trazia pequenos presentes; porém, os estudos continuavam para ele uma actividade absurda, não ligava às conversas, achando enfadonhas e escusadas as questões que discutiam. O irmão bem tentava puxar-lhe pelos dotes do espírito, contudo, sem êxito algum: o Júlio, vocês argumentam, argumentam e ficam sempre na  mesma. Eu acho que a vida está para a acção, não para as palavras e para os papéis». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Albertina sentiu-se com a alusão venenosa à virtude do marido, que ela bem sabia das suas escapadelas, mas uma coisa é saber, outra é dizer, Guilhermina era uma mulher magoada e bem razão tinha para isso…»

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«Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones». In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Também António a procurara depois do almoço farto que Ana mandara servir com os habituais requintes. Guilhermina viera de Lisboa, de caminho para a Figueira, continuava a recusar-se ir para Coimbra, apesar da bela casa que António alugara por noventa e nove anos e mobilara com um conforto notável. Passarei contigo os meses de Verão na Figueira, como é costume, mas para Coimbra não vou e podes levar o Pedro, fica melhor contigo, eu não me entendo com o feitio dele. António vinha pedir a Albertina que convencesse a mulher a mudar de ideias, já viste o horror que é ficarmos separados, e o pobre do meu filho rejeitado pela mãe? Albertina, impressionada, acedera a conversar com a cunhada, embora mal a conheça!, porém, rejeitar um filho de dez anos era um sacrilégio. Vencendo a timidez e levando o seu bebé para se dar coragem, aproximara-se de Guilhermina que se mantinha um pouco afastada, não era pessoa querida na família. Ainda não pegaste na Maria Teresa. Já viste como é bonita? Guilhermina olhou-a com indiferença, desprezava todos estes burguesinhos, esta família a fingir que tudo corria bem, não a enganavam a ela que vinha de cepa fidalga e que nunca ninguém reconhecera como tal:
Para mim os bebés são todos iguais. Encarnados e feios. Mas ainda bem que estás contente com o teu. Albertina continuou heroicamente: Acho o Pedro tão crescido! Parece ter muito mais do que dez anos. E é um rapaz com um ar tão fino, tão ajuizado! A expressão de Guilhermina suavizou-se e os belos olhos cinzentos tomaram uma tonalidade quase azul: Não percas tempo, Albertina. Vejo que o António te encarregou de me convencer a ir para Coimbra. Mas eu não vou porque estou farta dele e dos seus disparates. E já agora, para te mostrar que as coisas não são o que vós pensais, vou-te contar o que ele fez, e isto é só uma amostra. Tu sabes que nós frequentávamos muito os meus primos, os barões do Limoal. Eles não têm filhos e afeiçoaram-se ao Pedro. Gostavam dele como de um filho, de modo que fizeram um testamento a deixar-lhe a sua enorme fortuna. Acontece que o teu querido António, em paga da amizade, se meteu com a minha prima Mariana, já a tinha debaixo de olho há muito tempo. E se ela era uma mulher honesta!
O Bemardo descobriu a marosca, fez uma cena das grandes, expulsou o António de casa e rasgou o testamento que tinha feito a favor do Pedro. Albertina ficou chocada, que horror! Que horror, é imperdoável! Atraiçoar a confiança de um amigo! E para ti, coitadinha, que humilhação, que desgosto! Meter-se com a tua prima! Guilhermina avaliou a cunhada, que corara de indignação: Para te ser franca, é-me indiferente que ele se meta com a minha prima ou com outra qualquer. Aliás ele mete-se com todas. Os homens são assim, o teu não há-de fugir à regra, se é que ainda não deste por isso. O problema que me enfurece é o testamento. O Pedro tinha o seu futuro assegurado, tal como eu. E por causa da estupidez desmiolada do meu esposo, lá se vai tudo por água abaixo.
Albertina sentiu-se com a alusão venenosa à virtude do marido, que ela bem sabia das suas escapadelas, mas uma coisa é saber, outra é dizer, Guilhermina era uma mulher magoada e bem razão tinha para isso, porém perdia-a ao abandonar o filho: O Pedro é que não tem culpa nenhuma! Porque te queres separar dele? Porque me quero separar do Pedro? Porque não tenho dinheiro! Julgas que sou uma desalmada, como todos querem fazer crer? O vosso querido António gastou tudo. Vivo modestamente e vou vendendo as jóias que ele me deu quando ainda tinha fortuna. Mas um dia as jóias acabam. E depois? Como é depois? O António tem que sustentar o filho. Além disso, ainda há outra coisa: o Pedro não fala, não ri, sempre com um ar de tristeza. Não tenho paciência para melancolias. É uma maçada educar crianças e andar sempre num sobressalto por causa delas. Não tenho feitio para isso. Para te falar com franqueza, estou farta desta família que sempre me tratou como uma intrusa. Olha, quanto menos estiver convosco, melhor. O António tem sorte que eu ainda aceite vê-lo, a ele e ao Pedro, nos meses de Verão, na Figueira. Albertina ficara impressionadíssima. Quando António, ansioso, lhe viera perguntar pelo resultado da conversa, ela descompô-lo: És impossível! Desonraste o teu lar e o lar dos teus primos. O que é que tu esperavas? Se fosse comigo, nunca mais te queria ver!
António fez um ar de menino arrependido: Não te zangues comigo, Albertina. Foi um azar. Mas a Mariana valia bem uma fortuna! Ela não achou graça nenhuma: Vou mesmo deixar de te falar! Não tens vergonha de teres prejudicado o futuro do teu filho? O cunhado abraçou-a, risonho: Ora, as fortunas vão e vêm, como o teu pai teve a amabilidade de dizer ao teu valoroso marido. Entretempos o Bernardo podia mudar o testamento por outra razão qualquer. E tornando-se sério de repente: Agora o Pedro separado da mãe, isso é que é mau! Ele tem uma sensibilidade de menina. Tu é que o compreendias! Não o queres receber na tua casa? Pelo menos nos primeiros tempos». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 28 de dezembro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Opinava na política, na vida social, havia muito boa gente que a temia pela liberdade com que falava, mas a sua inteligência e a capacidade notável com que enfrentava as situações tornavam-na figura de respeito e de reverência»

jdact e wikipedia

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Próximo do Natal na Quinta de São Jerónimo foi o baptizado da primeira neta da condessa, que já tinha dois netos varões, e Júlio ficara desiludido por não lhe ter calhado também um, como se fosse deficiência sua o sexo incompleto. Mas não deu mostras de nada, era o que faltava depois do que a pobre sofrera, outra vez seria. A Quinta de São Jerónimo mantinha o seu requinte aristocrático, sem mudanças, e a ela acorreram os membros da família, dispersos a pouco e pouco pelos condicionalismos da vida, os membros da família de Júlio, que a de Albertina não viera, a desobediência ao patriarca Diogo Silveira era ainda recente e o patriarca proibira-lhes que fossem, aquela filha estava morta para si e portanto para os outros. Na festa de baptizado ela sentira a orfandade com mais violência, como se fora filha das ervas, sem testemunhas de sangue a confirmarem-lhe a progenitura. A madrinha da neófita foi a avó paterna, Ana, condessa de Aguim, que gostava desta nora, mais do que das outras duas e por isso lhe manifestava ternura, admirando nela a força com que enfrentara o pai e a serenidade com que ainda sofria a falta da família. Ana via essas coisas mas nada dizia, não são coisas que se digam em meios civilizados, há que manter o pudor dos sentimentos. A sua figura imponente mantinha-se direita, quase a chegar aos cinquenta, parca nas manifestações, discreta no respeito pela vida dos seus, mas referência segura na autoridade fundadora. Seu marido, segundo de matrimónio, nunca fora chefe de família, cego havia duas décadas e agora preso pelas dores da gota, mantinha aquela disposição amável que sempre o caracterizara, afugentando de si e dos outros as torpezas da decrepitude. Também ele gostava de Albertina, infelizmente não a posso ver, mas sei que é linda e feminina, os cegos têm modos especiais de apreciar a beleza, que os outros não entendem. Albertina costumava acompanhá-lo, quando de visita a São Jerónimo, nos passeios de carruagem, e deleitava-se com esse patriarca de barbas brancas, cheio de sabedoria e de sedução que mantinha intacto o seu amor à Vida e à Mulher.
Apesar dos seus noventa e quatro anos, porfiava nos trabalhos literários, no interesse pelos destinos da pátria, à qual dedicara praticamente toda a vida. Possuía uma vitalidade tão grande que Ana confidenciara um dia a Albertina cumprir ainda ele gostosamente o seu dever conjugal, e muito bem!; a jovem corara envergonhada pela alusão ao tabu, porém a sogra era assim, livre e desassombrada, cada vez mais livre e desassombrada à medida que envelhecia, como se os anos lhe dessem o direito de se revelar enfim sem disfarces. Opinava na política, na vida social, havia muito boa gente que a temia pela liberdade com que falava, mas a sua inteligência e a capacidade notável com que enfrentava as situações tornavam-na figura de respeito e de reverência. O amor de sua vida fora este ancião e, por arrasto, o filho de ambos, o jovem e hercúleo Heitor, que aos vinte anos preguiçava no remanso do lar, sem outros interesses que não fossem a equitação e a caça. A mãe tinha o secreto temor de que ele não trilhasse as pisadas do pai, mas Heitor amavelmente continuava a olhar os livros como material de sucata e subvertia os ânimos dos vários preceptores, incumbidos de lhe abrir o espírito. A relação entre Ana e Albertina estabelecera-se como um amor à primeira vista, a atracção dos contrários que se completam, a jovem apresentava-se como produto genuíno e perfeito da mulher do seu tempo: doce, modesta, prazenteira; tinha mãos de fada nos bordados e rendas que confeccionava, cumpria gostosamente as actividades caseiras. Talvez por isso, aquando da entrada para a família, conquistara um lugar cimeiro, a sua disponibilidade levava os outros a abrirem-se com ela.
A festa do baptizado da pequena Maria Teresa era bem o exemplo disso, vários foram os que se lhe dirigiram a solicitar ajuda. Ana pedira-lhe que recebesse em casa o jovem Heitor a ver se o convencia a afeiçoar-se aos estudos: - Aqui na Bairrada só procura a companhia dos cocheiros, dos moços de estrebaria e outra gentinha do género! Talvez em Coimbra, no meio dos estudantes, ele entenda que a cultura é importante! Nunca se preocupara muito com o futuro dos cinco filhos que o primeiro marido lhe dera, talvez porque fosse nova, talvez porque eles fossem ricos, talvez porque muito mais amava este filho do que amara os outros. - Ó mamã, tenho o maior gosto em lhe ser prestável! Se o Júlio estiver de acordo, claro. Júlio esteve de acordo e Heitor sujeitou-se, se a mamã deseja, farei a sua vontade. Ficou combinado que depois das férias iria para Coimbra frequentar, como externo, o mesmo colégio de padres onde os irmãos tinham estado». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

domingo, 14 de dezembro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «Doido de aflição, descontrolado, ‘ai se ela morre, porque não nasce a criança?’, só causava incómodos, qualquer dor o impressionava, mas este sofrimento terrível, este martírio..., não aguentava vê-la, torcendo-se em agonias…»

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Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) O trabalho ainda está muito atrasado. A Albertina tem que ficar calma, isto vai ser duro, mas lembre-se de que tudo o que sofre é pelo seu filho. Foram dois dias e duas noites de padecimento atroz, a violência das dores era tal que por vezes ela perdia a consciência e isso era um bálsamo. A parteira foi obrigada a amarrar-lhe os braços e mesmo assim os espasmos vinham-lhe tão fortes que a cabeça, ao embater na cabeceira da cama de mogno, a rachou de alto a baixo. Albertina nunca quis desfazer-se dela, foi um testemunho que ali ficou para mostrar à posteridade o seu martírio. Júlio fora proibido de entrar no quarto. Doido de aflição, descontrolado, ai se ela morre, porque não nasce a criança?, só causava incómodos, qualquer dor o impressionava, mas este sofrimento terrível, este martírio..., não aguentava vê-la, torcendo-se em agonias, impotente, sem poder acudir-lhe. Agarrava-se ao irmão, chorando como um menino, ela vai morrer, ela vai morrer!, e António consolava-o, como anos atrás, quando Júlio tivera a sífilis. Albertina já não sabia quem era, perdera a noção do tempo, se era noite ou se era dia, a única coisa viva era o seu ventre volumoso que se contorcia, rebentava, em estertores tremendos. O médico, preocupado pela demora, vinha várias vezes ao dia já não podemos operá-la, a cabeça está encaixada, ela é, muito estreita de ancas, assim o coração aguente. O coração aguentou. E na tarde do dia doze de Outubro de 1891, nascia uma menina de quatro quilos que imediatamente gritou bem alto a proclamar o seu lugar no mundo. A mãe estava tão fraca que, ao ouvir-lhe os berros, nem se regozijou, só depois, mais tarde, quando lhe voltaram as forças. Mas logo as dores desapareceram e adormeceu confortada com a missão cumprida, já nasceu e é saudável. Entretanto chegara um telegrama da irmã da parturiente, Matilde Reis Torguim, a perguntar se tudo corria bem, porque Elvirinha, a outra irmã, tivera uma das suas visões onde descortinava Albertina envolta em labaredas, gritando numa angústia de alma danada, que se lhe pegara, ai a minha irmã, ai a minha irmã! Isto passara-se na véspera do nascimento da criança e ela logo contara a Matilde, o papá não pode saber, mas por amor de Deus mana, fala com a Albertina para que eu possa rezar com acerto. E Matilde mandara o telegrama porque lhe conhecia os poderes divinatórios e todos na Bairrada vieram a saber que a estranha donzela os tinha.
Albertina encantou-se com a filha, num apego de fêmea, mas a natureza não ajudava, o peito que oferecia amorosamente não funcionava bem, o leite não saía, novas dores lancinantes vieram com os caroços, ó meu amor, porque não queres o meu leite?, a febre abateu-a ainda mais, lembrava-se da tortura de sua própria mãe que morrera de infecções da mama, se ela se lembrava!, fora o seu primeiro desgosto. Por fim já saía leite com sangue e pus, teve que se procurar uma ama para que desse à filha alimento mercenário, são destas injustiças que a lei humana não prevê, mãe tão extremosa e tantos embaraços lhe vinham. Não pense nunca mais em amamentar, só lhe trará complicações, dissera Daniel Mattos e ela aceitara, se tanto sofrimento lhe era imposto, algum mérito sobraria para o futuro. Rodeava a pequenina de cuidados, numa inveja triste da ama que se deixava sugar com tal despejo». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Abóboras no Telhado. Polémica e Crítica. Aquilino Ribeiro. «Também me minguava a pachorra. A pachorra e o tempo. O ‘rat de bibliotèque’ é um bicho especial que tem por si a eternidade e uma sorte de pulmões de pescador de pérolas. ‘Podia, não podia?’ Não sei. Naturalmente, estava fora da esfera a natureza do seu artesanato»

jdact

Uma aventura Literária
«(…) Missanga, é possível. A obra, uma vez realizada, parece fácil. Não é tão fácil como isso. A figura do Cavaleiro estava, de facto dentro dos seus livros, como os Lusíadas estão dentro do dicionário de Morais. Tudo vai em acertar o mosaico, em que cooperam engenho, inteligência e saber. A figura do Cavaleiro, social, vivedoira, com os seus cinco sentidos, aquela sua agilidade de pintalegrete, estava de pé e, embora com as suas sombras esfumadas, era palpite meu que não era nenhum manequim convencional, nenhuma personagem do Museu Grévin siderada aos olhos do espectador. Entretanto Jordão Freitas, um operoso garimpeiro de tombos, começou a publicar, ipsis verbis, no jornal a Época, documentos exumados dos arquivos, concernentes ao Cavaleiro. Eram todos de essência oficial e reportavam-se à sua actividade em tanto que empregado de secretaria, na embaixada de Viana, ao serviço do conde de Tarouca. Além destes, transcritos na sua secura tabelionar, poucos mais, e todos procedentes dos cartórios e arquivos públicos como fica dito, publicou Jordão Freitas. Aconteceu porém que veio a lume nos jornais diários o programa cultural da Biblioteca. Como nesse programe se anunciasse o meu trabalho sobre o Cavaleiro de Oliveira, Jordão Freitas, a fugir à contingência de ser ultrapassado na publicação dos documentos, deu-se a publicá-los à lufa-lufa, ou pelo menos mais aceleradamente do que até ali. Tal conjuntura vinha favorecer os meus desígnios.
Nunca eu pensara em disputar-lhe a -glória de pioneiro. A velha papelada, com suas surpresas esplêndidas embalsamadas em bolor e miasmas, nunca me seduziu. Também me minguava a pachorra. A pachorra e o tempo. O rat de bibliotèque é um bicho especial que tem por si a eternidade e uma sorte de pulmões de pescador de pérolas. Respira na poeira dum sótão como o mergulhador no fundo do mar. Para e1e, a suprema volúpia é furar através de papéis arrumados desde o princípio dos princípios, por mão em fantasmas. Um múnus assim tem o seu quê dos limpa pára-raios. Há uma data a rectificar: … pois, senhores, não foi em 6 de Fevereiro de 1164 que se deu a batalha dos Chifres Esmurrados; foi em 7 de Janeiro. A prova é que..., o marechal do Chuço em Riste tivera na véspera um desaguisado sério..., etc., etc. Há que chumaçar a vida dum grande macabeu, dum apóstolo dos negrinhos da Guiné, dum navegador antártico?... Desmonta os maços pulverulentos dos armários, percorre os cartários das sacristias, folheia quantos armoriais os velhos fidalgos, desde Atanagildo, mandaram lavrar por seus capelães. E acaba por encontrar o pábulo precioso. Não raciocina como a gente de cuidados raciocina. Tem outra tábua de valores mentais.
João Freitas era destes. A sua biografia do marquês de Pombal não começa assim : … duas datas importantes há a considerar na vida deste estadista: a do seu nascimento e a da sua morte. O movimento de sofreguidão era mais que razoável. Observar-se-á: … Jaime Cortesão podia ter confiado a Jordão Freitas o encargo de fazer o referido trabalho... Podia, não podia? Não sei. Naturalmente estava fora da esfera de Jordão Freitas, dado que não superasse a natureza do seu artesanato. Este era particularmente um sacerdote de Hermes Trimegista, um verificador de mausoléus. E o que interessava no Cavaleiro não era o autor das Cartas nem do Amusement, livros de terceira ordem, plagiados noventa por cento, e, quanto a espírito, como muitos outros que vieram a lume nesse espiritual e sacripanta século XVIII». In Aquilino Ribeiro, Abóboras no Telhado, Polémica e Crítica, Livraria Bertrand, Lisboa, 1955.

Cortesia da LBertrand/JDACT

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

O Carteiro de Fernando Pessoa. Leituras. Fernando E. Pinto. «Precisamente por esse mesmo nível de propriedade, Alberto Reis já tinha no seu ficheiro visual um estranho ‘bigode postiço’ que se encontrava colocado em cima da cómoda. … perto dele estava também um ‘par de óculos’…»

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Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes. In E. Dickinson

«(…) A manhã era o melhor momento do dia para testemunhar os costumes dos moradores do prédio, hábito que depois se prolongava durante a tarde e parte da noite num plano de fina intuição, já no silêncio da sua casa, onde Alberto Reis registava num caderno todos os sons estranhos que ouvia, exaustivamente fundamentados com anotações das horas, das pausas e dos movimentos, como se fosse o único espectador numa sala escura a descodificar representações teatrais privadas. Desta forma, toda a informação que o polícia reformado registava e lhe servia de recurso a eventuais falhas de memória revelava o profissional que fora e ilustrava, não sem algum exagero, as suas distintas competências na captação de rotinas domésticas.
A senhora Ofélia era uma mulher baixa e magra, de modos excêntricos. Cinquentona, usava um corte de cabelo que lhe dava um aspecto masculino. Solteira e ruidosa, tinha um olhar autoritário e um tom de voz intimidante e provocatório. A esse respeito, Alberto Reis já experimentara o enfurecimento da mulher quando, durante uns tempos, alimentou a ideia de que talvez fosse agradável o convívio com ela, e diversas tentativas se sucederam nesse sentido, por via de uma relação de confiança e simpatia razoáveis, com o intuito de fazer parte do grupo restrito de pessoas que uma vez por semana frequentavam a casa da senhora Ofélia, onde se reuniam até de madrugada, falavam alto e dançavam num frenesim adolescente e com um espírito boémio que estimulava a percepção intuitiva de Alberto Reis, cismático como uma toupeira no labirinto da sua toca. No entanto, o mais que conseguira alcançar no terreno íntimo e privado fora uma chamada de emergência para reparar um problema eléctrico no candeeiro de tecto do quarto de dormir da senhora Ofélia. Embora o convite estivesse longe do prazer que ansiava nos seus exercícios de imaginação, Alberto Reis viu nele uma oportunidade e um bom começo para sentir a textura daquele ambiente nocturno, tão intenso e carnal, supunha, e tão arrebatador, reactivo e ilícito. Na verdade, era como se a sua imaginação tivesse cheiro e ele fosse um cão de caça por ali a farejar objectos, recantos dúbios, bocados de lixo, papéis e livros, restos de bebida nos copos, e, à conta destas pistas que em nada contribuíam para a boa imagem doméstica da senhora Ofélia, considerando que a falta de asseio combinava com o mesmo nível de comportamento dos convidados, Alberto Reis percebesse que naquela casa reinava também uma espécie de poluição intelectual inteiramente focalizada na histeria e no deboche.
Naquela tarde consertara o candeeiro do tecto, mudando algumas lâmpadas que estavam fundidas e isolando dois fios, negativo e positivo, que se encontravam em indução, motivo por que as lâmpadas estoiravam assim que o interruptor era ligado. Por esta altura, a senhora Ofélia permanecia na cozinha a vigiar uma chaleira de água que fervia no fogão. Estava a pensar que seria educado partilhar uma chávena de chá com o seu prestável vizinho. Conseguia escutar o tilintar dos pingentes e o assobio fino e arrepiante das lâmpadas a serem enroscadas nos casquilhos, e isso dava-lhe uma sensação de prazer e segurança. Por vezes, quando o silêncio se prolongava, levantando suspeitas sobre as regras disciplinares da confiança, a senhora Ofélia ia até ao corredor e espreitava pela porta aberta do quarto o tempo suficiente para se tranquilizar e apreciar o sucesso dos serviços prestados pelo seu vizinho servente. Por outro lado, Alberto Reis sabia que estava a ser vigiado e compreendia que no lugar dela faria o mesmo. A sua experiência alertava-o para o facto de que em lado nenhum seria digno de confiança, porque, no fundo, por mais decentes que sejamos, roubamos com os olhos tudo o que pertence aos outros.
Precisamente por esse mesmo nível de propriedade, Alberto Reis já tinha no seu ficheiro visual um estranho bigode postiço que se encontrava colocado em cima da cómoda. De facto, perto dele estava também um par de óculos cujo modelo lhe era familiar. Impulsionado pelo facto de aqueles dois objectos lhe transmitirem uma curiosidade difícil de suportar, Alberto Reis decidiu aproximar-se, sentindo a verdadeira paranóia da suspeição, e, a partir dessa especialidade que consiste em procurar uma explicação para cada fim determinado, tentou assegurar-se das razões que legitimavam a presença desses objectos no quarto de uma senhora. Foi precisamente nesse momento de labor policial e distracção que a senhora Ofélia surpreendeu Alberto Reis com os óculos nas mãos. Em pouco tempo, o prestável homem que servira irrepreensivelmente o Estado e que agora se dedicava ao voluntariado de serviços domésticos pela vizinhança passou de pessoa leal e confiável a um miserável suspeito indesejado». In Fernando Esteves Pinto, O Carteiro de Fernando Pessoa, Baía dasPalavras, Edições Parsifal, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98521-0-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

domingo, 16 de novembro de 2014

Poesia Reunida. Manuel A. Pina. «No momento da felicidade o teu lugar, se tens um lugar, não te pertence já, e vice-versa. E o teu caminho e os teus passos e a nuvem de poeira são só uma pequena nuvem de poeira, forma, só forma»

jdact

Ainda não é o fim nem o princípio do mundo…
Os tempos não
«Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço, no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios».


Já não é possível
«Já tudo é tudo. A perfeição dos
deuses digere o próprio estômago.
O rio da morte corre para a nascente.
O que é feito das palavras senão as palavras?

O que é feito de nós senão
as palavras que nos fazem?
Todas as coisas são perfeitas de
nós até ao infinito, somos pois divinos.

Já não é possível dizer mais nada
mas também não é possível ficar calado.
Eis o verdadeiro rosto do poema.
Assim seja feito: a mais e a menos.
Poemas de Manuel António Pina in ‘Poesia Reunida

In Manuel António Pina, Poesia Reunida, Documenta Poética nº 62, Assírio e Alvim, Lisboa, 2001, ISBN 972-37-0661-X.

Cortesia de AAlvim/JDACT

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «… quando contara a vontade irreprimível que lhe dera de comprar um grande cofre sólido, à prova de fogo e de ladrões, ‘mas um cofre para quê?, ora, para pôr o dinheiro que vier a ganhar no futuro, pelo menos fico com recordação durável da minha herança’»

Retrato de José Malhoa
jdact e wikipedia

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) As dores aumentavam de intensidade, o marido estava prestes a acordar e então iria confortá-la, ela aprendera a captar-lhe a ternura imensa que se escondia por detrás da reserva, sabia lidar com os seus rompantes violentos que se quebravam na serenidade branda dela, era uma questão de jeito. Aprendera a apreciar-lhe a força de carácter que o levara aos vinte e seis anos a recomeçar os estudos para a merecer, como os cavaleiros de antanho que sofriam provações pela dama eleita. Ele amava-a assim, embora ela soubesse que esta situação era como uma lua-de-mel prolongada que teria um fim quando o marido deixasse de ser estudante, porque a vida de estudante era preparatória da de adulto e nessa altura os homens apartavam-se do universo feminino, cada um com os seus próprios deveres. Por isso saboreava este tempo bendito em que partilhavam quase tudo. Vinha-lhe um frio arrepanhado, tremia por baixo dos cobertores, os intervalos entre as dores diminuíam, ai meu Deus, dai-me forças para aguentar! Júlio levantara-se devagarinho para não a acordar e, por entre as pálpebras, ela via a figura atlética envolta na camisa de dormir mover-se com cuidado na penumbra do quarto. Mesmo agora, apesar do sofrimento, sentia desejo do seu corpo musculoso, dos seus braços fortes, como amava esse homem a quem se entregara, cortando com tudo, desobedecendo ao pai, incorrendo na sua ira, separando-se das suas queridas irmãs, atiraada sozinha para um mundo novo. Uma dor mais forte fê-la soltar um gemido e Júlio aproximou-se: - o que foi, minha querida? Sentes-te mal? Oh, meu Deus! Estás encharcada em suor! Então ela abriu-se à piedade dele: - Começaram as dores, o nosso filho vai nascer. Júlio exaltou-se numa ansiedade atabalhoada perante a situação embaraçosa que se avizinhava: - Vou chamar o médico, a parteira, porque é que não me acordaste há mais tempo?
E vestia-se numa pressa aflita, chamava a criada para tratar da senhora, a casa animava-se e agora ela já não estava sozinha com as dores que cresciam dentro de si, as dores solitárias angustiam mais. O cunhado António pediu licença para entrar: - posso entrar, mana? Estava hospedado em casa deles, precisava de atenção, coitado do pobre António, e logo neste momento em que ninguém lha poderia dar. Era muito diferente do irmão Júlio, baixo e franzino, tinha um charme contagiante que a seduzia, aproximou-se da cama e o seu cheiro inconfundível a lavanda inglesa invadiu o quarto como aragem primaveril: - Ó minha querida mana, então agora é que é! Habemus Papam! Deixa-me arranjar-te as almofadas. Assim. Ficas mais bem instalada para venceres a grande batalha. Com movimentos hábeis encaixou-lhe o corpo dorido e depois sentou-se ao seu lado, pegando-lhe na mão; Albertina gostava muito de António e penalizava-a ver o infortúnio do seu casamento que ele jamais referia, fingindo que estava tudo bem; mas não estava. Casara por amor com uma mulher interesseira que o aceitara por dinheiro, parecia não haver um pingo de quentura dentro desse serzinho delgado e diáfano, essa Guilhermina que nada parecia comover. Não é que António fosse fácil|, mostrava-se gastador, disparatado, maluco com mulheres, mas adorava a sua, apesar de tudo. E era tão bom, tão tocantemente bom, tão insensatamente bom, como uma criança afável que tenta agradar a todos. A fortuna herdada do pai gastara-a até ao derradeiro vintém e a última aquisição fora um cofre. O que todos tinham rido, ele inclusive, quando contara a vontade irreprimível que lhe dera de comprar um grande cofre sólido, à prova de fogo e de ladrões, mas um cofre para quê?, ora, para pôr o dinheiro que vier a ganhar no futuro, pelo menos fico com recordação durável da minha herança. Seu irmão Luís, o primogénito, que era o esperto da família para os negócios, arranjara-lhe emprego como director de uma fábrica de loiças em Coimbra; Guilhermina não quisera por nada acompanhá-lo e sair de Lisboa, Deus me livre, estou aqui muito bem, odeio mudanças! António não se zangara, ora, ela há-de acabar por vir, coitada, no fundo gosta de mim, tem lá o seu feitio, arranjo uma casa tão bonita que ela não vai resistir! Mas neste momento, António não pensava nos seus problemas, preocupava-se em mimar Albertina, era esse o seu maior encanto, nada havia de tão importante que o perturbasse a ponto de estragar o que fazia no presente. Júlio chegava, acompanhado do médico e da parteira, Daniel Mattos mandou sair os homens e observou-a com cuidado, vamos lá ver esse maroto que está a afligir toda a gente! Albertina enleada deixou-o mexer-lhe na intimidade do corpo, o seu pudor revoltava-se contra aquelas mãos estranhas que a penetravam, que vergonhaIn Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

Reflexões. Pensamentos. Música. Fernando Pessoa. «A base da representação (na política) é a falsidade. A arte do actor (ministro) consiste em servir-se do drama do autor (propaganda) para mostrar por meio dele a sua capacidade de interpretação»

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Acção. Ver claro é não agir
«O governo do mundo começa em nós mesmos. Não são os sinceros que governam o mundo, mas também não são os insinceros. São os que fabricam em si uma sinceridade real por meios artificiais e automáticos; essa sinceridade constitui a sua força, e é ela que irradia para a sinceridade menos falsa dos outros. Saber iludir-se bem é a primeira qualidade do estadista. Só aos poetas e aos filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter ilusões. Ver claro é não agir».

A inacção consola de tudo
«A inacção consola de tudo. Não agir dá-nos tudo. Imaginar é tudo, desde que não tenda para agir. Ninguém pode ser rei do mundo senão em sonho. E cada um de nós, se deveras se conhece, quer ser rei do mundo. Não ser, pensando, é o trono. Não querer, desejando, é a coroa. Temos o que abdicamos, porque o conservamos sonhado, intacto, eternamente à luz do sol que não há, ou da lua que não pode haver».
In Fernando Pessoa,Livro do Desassossego


O escrúpulo é a morte da acção
«O escrúpulo é a morte da acção. Pensar na sensibilidade alheia é estar certo de não agir. Não há acção, por pequena que seja, e quanto mais importante, mais isso é certo, que não fira outra alma, que não magoe alguém, que não contenha elementos de que, se tivermos coração, nos não tenhamos que arrepender. Muitas vezes tenho pensado que a filosofia real do eremita estará antes no esquivar-se a ser hostil, pelo simples facto de viver, do que em qualquer pensamento directamente relacionado com o isolar-se. In Fernando Pessoa, ‘A Educação do Estóico

Cortesia de Casas das Letras/JDACT

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «As dores chegaram cedo na madrugada. Ela acordara com uma impressão aguda nos rins e então deu-se conta de que era o princípio. Ficara quieta a saboreá-las, ainda ligeiras e espaçadas, vem aí o meu filho. Mas a excitação depressa deu lugar ao terror que lhe acompanhara a gravidez…»

Retrato de Laura Sauvinet, José Malhoa
jdact

Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«(…) Mas voltando à vida de meus paes, estiveram quatro anos em Coimbra, até meu pae acabar o curso. Ali foram muito felizes. Minha mãe sempre falava com muita saudade dessa epoca e lá tiveram dois filhos, Maria Tereza e Joaquim, o primeiro filho não vingou, com grande desgosto de minha mãe, que nunca se esquecia dele. Sofria horrores com os partos, dificeis e dolorosos, excepto o meu, pois eu era muito pequenina, acho que foi assim toda a vida, nunca dei grandes trabalhos a ninguem. Meu pae, apezar de forte e voluntarioso, não tinha coragem para o sofrimento e chegava a sair de casa até ao nascimento. Não conseguia enfrentar as dores dos outros. E tanto que ele sofreu, coitado! Era generoso, ajudando os pobres, sobretudo os que queriam estudar, pois dava muito valor aos estudos. Minha irmã Maria Tereza foi desde pequenina linda e precoce, encantando toda a gente com a sua graça, fonte de inspiração de varios poetas. Ainda conservo alguns poemas sobre ela, quando tinha uns cinco ou seis anos. Nasceu em Coimbra, assim como meu irmão Joaquim, tambem perfeito e forte. Eu nasci em 1894, na Figueira, no mesmo ano em que meu pae acabou o curso, o conde de Aguim morreu e minha mãe fez as pazes com meu avô Antonio Diogo. Minha mãe sofria muito com os partos, lembro-me de a ouvir contar do seu martirio, ter filhos custa muito, não havemos nós de amar as nossas mães!

As dores chegaram cedo na madrugada. Ela acordara com uma impressão aguda nos rins e então deu-se conta de que era o princípio. Ficara quieta a saboreá-las, ainda ligeiras e espaçadas, vem aí o meu filho. Mas a excitação depressa deu lugar ao terror que lhe acompanhara a gravidez, o terror de que a criança não vingasse, como a outra que morrera porque o seu corpo a expulsara no quinto mês, como excrescência indesejada. Lembrava-se do desgosto que a arrepanhara ao ver de relance aquela coisa sanguinolenta que mais tarde soube ser um rapaz. Chorara tanto por esse filho incompleto e pelos outros que viessem, no medo de que as suas entranhas, misteriosas como um feitiço, apenas fossem capazes de fabricar monstros... O médico, Daniel Mattos, grande amigo de Júlio, assegurara-lhe que não, minha querida Albertina, estas coisas acontecem, a Natureza é sábia, nós é que não sabemos lê-la, a criança não tinha hipóteses, foi melhor assim, o próximo há-de sair bem, sois um casal novo e saudável. O marido dormia na cama ao lado, alheio ao que se passava, ela gostaria de o acordar e procurar nele apoio, mas isto era assunto de mulher, tinha que aguentar sozinha, sofrer os espinhos que o castigo divino lhe destinara, a vida era assim mesmo, pagavam-se preços pela felicidade e ela era feliz desde que há ano e meio se casara. Jamais, nos seus devaneios de menina, sonhara com ventura tão plena, tão alegre, a casa cheia de amigos, de estudantes, de professores; a animação reinava à sua volta, festiva e jovial, tratavam-na como rainha, faziam-lhe confidências de solidões, contavam-lhe episódios burlescos da vida académica e pequenas lembranças encantadoras de que só os estudantes se lembram. Alguns faziam-lhe versos, chamando-lhe musa, mãe-terra e outros nomes surpreendentes e o marido, apesar de ciumento, não se importava porque eles a respeitavam como a uma coisa sagrada; ela adorava conviver, nascera com a vocação de amar e ser amada no meio da espontaneidade risonha que a tornava tão amável.
Conhecera de perto os problemas da política, esse mundo fascinante que lhe fora vedado em solteira - até casar, a existência decorrera-lhe pacata nas aprendizagens da domesticidade, nas leituras, nos bordados, nas obrigações religiosas, nas amigas de colégio cujas conversas giravam em volta de pequenas minúcias femininas, a política era assunto de homens e seu pai sempre velara para que se mantivessem as distâncias. Porém, agora ouvia-os discorrer sobre as novas ideias e os distúrbios ruidosos dos estudantes; os íntimos eram todos bem pensantes, miguelistas, regeneradores, progressistas, mas falavam muito dos republicanos. Acontecia ser condiscípulo de Júlio um dos mais assanhados, Afonso Costa de seu nome, que, de parceria com outros, organizava comícios e bolsava violentos discursos; Albertina soubera de um célebre estudante de Medicina, António José de Almeida, preso pelos insultos ao monarca Carlos I; ela reflectia muito nesses rapazes, que ódio haveria neles para se sujeitarem assim a humilhações públicas, para ofenderem a Deus e ao rei? Gostava muito de ouvir os homens falar, o espírito vivo abria-se-lhe às grandes questões nacionais, que ideia essa de considerar as mulheres umas tontas!... Não que ela quisesse ingerir-se como sempre fazia a sogra, a sogra era especial, nunca vira senhora tão desassombrada e tão firme. Albertina preferia compreender as coisas, como quando, meses atrás, se dera aquela revolução republicana no Porto, com mortes e degredos, se uma mulher não entendesse nada, os acontecimentos invulgares seriam considerados obra do demónio, como dizia sua irmã Elvirinha, uma mulher não devia ser uma ilha, apenas ligada ao continente por seu marido ou por seu pai». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

Os Impetuosos. Luísa Leltrão. «As refeições constavam sempre de trez pratos, ao almoço e ao jantar: um prato farto de cozido, com todas as carnes, chouriços, arroz, hortaliças, etc., depois o prato do meio, peixe ou guizado, seguindo-se o assado e só depois as sobremesas»

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Ainda no meio da vida, já estou cansado como se fosse nos confins do seu entardecer. Tenho a cabeça branca e a alma devastada pela fúria de todos os ciclones. In António José de Almeida.

Memórias da tia Graça
«Quando casaram, em 1890, meus paes foram viver para uma casa na Rua Alexandre Herculano, em Coimbra, onde meu pae frequentava o curso de Leis. Já expliquei atraz que meu pae, aos vinte e seis anos, voltou aos estudos, no lyceu, por exigencia de meu avô, Antonio Diogo Silveira, quando lhe foi pedir licença paro namorar a filha, Albertina: - só com um curso superior lha darei, foi a resposta. E apesar de meu pae cumprir o prometido, não lhes deu a autorisação, tendo eles casado contra a sua vontade. Meu avô era um homem muito teimoso e duro e nunca fez as pazes com o genro. Naquele tempo as coisas eram muito diferentes de hoje, um pae tinha todos os direitos sobre as filhas, que lhe obedeciam cegamente. Uma desobediencia era um acto reprovavel e pouco vulgar. Assim, minha mãe, que era muito doce, teve uma coragem inaudita, ditada por grande amor, ao sair de casa dias depois de faser os vinte e um anos, contrariando as ordens dele.
Lembro-me de meu pae, muito alto, consta-me que bonito homem, saudavel, bem proporcionado, musculoso e forte, moreno de olhos pretos, expressivos e vivos, eguaes aos da filha Maria Tereza, minha irma. Digo consta-me, porque a ideia que me ficou dele, já estragado pela doença, não era essa. Era muito sociavel mas pouco comunicativo quanto aos seus sentimentos e até quanto aos dos outros, pois nunca lhe ouvi criticas nem palavras de censura contra o mau procedimento de ninguem. Mas quando embirrava com uma pessoa era manifestamente antipatico. Pouco meigo com os filhos, encobria os seus sentimentos, excepto com minha mãe a quem adorava a seu modo. Digo a seu modo porque, discretamente, era muito dado às damas, tal como seus irmãos, todos os Teixeiras sempre foram sensuais e loucos por mulheres. Mas nesse tempo não se achava mal nisso, desde que não prejudicasse a vida familiar; até se considerava prova de virilidade um homem ter aventuras fóra do casamento. Meu pae tinha uma rara força de vontade para conseguir os seus fins. Manifestou-a na sua rapida abstenção de fumar, ele que era um grande fumador, e sobretudo na realização dos seus estudos que abandonara em rapaz para se dedicar à estroinice. Por causa da estroinice gastou uma grande parte da fortuna que herdou, antes de conhecer minha mãe. Em novo teve saude, dinheiro e abandono da familia, o pae morrera quando ele era pequeno e a mãe voltara a casar um ano depois, metendo os filhos em colegios internos religiosos. Os padres desse tempo erem, na maior parte dos casos, pouco zelosos e imprimiam pouca religiao nos alunos.
Minha mãe era do genero mignone, muito branca, cabelos e olhos escuros, figura linda e cinturinha de vespa. Foi sempre muito apreciada por todos, nunca ouvi ninguem dizer senão bem dela, o que é dificil, pois a má lingua encontra sempre alguma coisa para criticar. Fazia rendas e bordados lindos, apesar de sua mãe, minha avó materna que não conheci, costumar dizer às filhas que elas não bordavam, alinhavavam. As senhoras dessa epoca tinham uma paciência extraordinária, bordando a cabelo ou finos fios de seda, tambem é verdade que tinham tempo. Minha avó Ana, mãe de meu pae, é que nunca bordou e gostava de minha mãe como filha, desconfio que gostava mais da nora que do proprio filho. Sendo autoritaria, agradava-se da meiguice dela. Minha mãe, muito sociavel, alegre e generosa, onde estava, fazia logo amigos. Até com os creados, que nessa altura eram tratados com muita rispidês, tambem é verdade que eram muito boçais, ela era simpatica. Nesse tempo as senhoras eram muito boas donas de casa, destinavam optimas refeiçoes, olhavam pelo serviço das creadas e pelas roupas da lavadeira, que vinha dos arredores de Lisboa em galeras puxadas a 4 cavalos. Fasiam as compras da mercearia ao mez, fechavam tudo à chave na dispensa, que era aberta todas as manhãs para a senhora dar à cosinheira o necessarío para aquele dia. Os róis da mercearia e das roupas eram um primor de bem feitos, com uma letrinha muito bonita. Havia muita abundancia mas nada era desperdiçado. As refeições constavam sempre de trez pratos, ao almoço e ao jantar: um prato farto de cozido, com todas as carnes, chouriços, arroz, hortaliças, etc., depois o prato do meio, peixe ou guizado, seguindo-se o assado e só depois as sobremezas. Quando havia vizitas serviam-se muito mais pratos. Tudo mudou, até os gostos. Lembro-me de meu pae recomendar que não se desse pescada em dias de cerimonia porque era um peixe ordinario. Hoje, à pescada chega-lhe quem pode. Mas acima de tudo, o que espanta é como se podia comer tanto.
Quando eram convidadas para jantar fora, as senhoras não comiam quase nada e ficavam cheias de fome, porque era feio mostrar apetite. As veses sahiam, apenas de tarde e raramente sosinhas: visitavam as amigas ou iam à Baixa comprar um carrinho de linhas, ou agulhas, um pretexto para encontrarem conhecimentos. O chá das cinco em Lisboa era na Ferrari, na Bénard, no Rendez-vous des Gourmets, conforme a moda do momento. Cada senhora tinha o seu dia de receber, minha mãe recebia ao Domingo. Os senhores elegantes, depois do trabalho, ou aqueles que nada fasiam, e eram muitos, iam postar-se, de tarde, à porta da Brazileira ou da Havaneza, no Chiado, para verem passar as senhoras que cumprimentavam, tirando o chapéu de coco, ou o chapéu mole (isto passava-se em Lisboa, porque na provincea era diferente)». In Maria Luísa Beltrão, Os Impetuosos, 1994, Editorial Presença, Lisboa, 1998, ISBN 972-23-1857-8.

Cortesia de EPresença/JDACT

sábado, 4 de outubro de 2014

O Carteiro de Fernando Pessoa. Leituras. Fernando E. Pinto. «Adoptando uma atitude propositadamente indiscreta, Alberto Reis deslocou o olhar da esquerda para a direita, e foi precisamente neste movimento que lhe escapou o vulto de Fernando Pessoa atrás da janela do seu quarto»

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Não há melhor fragata do que um livro para nos levar a terras distantes. In E. Dickinson

«(…) A abordagem até fora afável de parte a parte, apesar dos tiques de ansiedade e cerimónia na apresentação da obra, pois esta, como explicou Alberto Reis a Fernando Pessoa no vestíbulo do prédio, nascera da necessidade de estimular a sua existência através da escrita e certamente repovoar os dias e as noites com uma presença que, embora não o fizesse sentir-se sarado da perda da esposa, pelo menos lhe desse ânimo e rendimento emocional nesse exercício tão intenso e perturbador que consiste em resgatar o sentido da vida e evitar assim toda a fraqueza e a lamentável ausência que levam um homem a perder-se e a sentir-se vencido pela fúria da solidão. É evidente que a generosidade de Fernando Pessoa fê-lo aceitar o pedido; era prática corrente a delicadeza na cedência a uma análise a obra alheia, mesmo que a opinião do avaliador não satisfizesse plenamente o autor e este se sentisse melindrado por tão pouco agrado e insensibilidade. Neste caso, maior ódio não podia sentir Alberto Reis pelo seu vizinho Fernando Pessoa, quando ao fim de alguns dias foi encontrar o manuscrito junto com umas velhas revistas no recipiente do lixo na entrada do prédio. Inconsolável e em choque, o pobre polícia pegou na sua obra e, como quem guarda os restos mortais da própria vida, decidiu no entanto manter-se em silêncio e considerar este grave incidente uma provocação. Embora os seus modestos versos não lhe trouxessem estímulo nem reconhecimento por parte de Fernando Pessoa, quase sempre a subestimação e o desprezo funcionam como contra-obra da criação, Alberto Reis sentiu nesta humilhação o desejo amaldiçoado da vingança.
Adoptando uma atitude propositadamente indiscreta, Alberto Reis deslocou o olhar da esquerda para a direita, e foi precisamente neste movimento que lhe escapou o vulto de Fernando Pessoa atrás da janela do seu quarto. Espreitava provavelmente o tempo, esse estado que influência e condiciona o espírito com que enfrentamos as energias emocionais do dia, tendo neste sentido vantagem o poeta, pois, em concreto imaginário e assente numa base de ficções, sair para a rua sendo outro servia perfeitamente o propósito de ser qualquer um menos aquele que os outros identificavam nele, mesmo que as parecenças contradigam o que dele estamos habituados a ver. Podia até dizer-se, referindo-se a Fernando Pessoa, que dias há em que se questiona, ainda enrolado nas roupas da cama ou já vestido para sair, num impasse de exclusividade e preocupação por ontem ter sido outro e hoje não querer sentir-se o mesmo, como um fato que não desejamos voltar a vestir tão cedo, e classifica esta biografia plural, digamos, como uma Biografia da Insuportabilidade do Eu Único e Adaptado a Outros Privilégios Mentais. Estava Fernando Pessoa a fazer as provas da sua indumentária psicofísica enquanto Alberto Reis observava agora a inquilina do primeiro andar esquerdo a abrir a janela da sala». ». In Fernando Esteves Pinto, O Carteiro de Fernando Pessoa, Baía dasPalavras, Edições Parsifal, Lisboa, 2013, ISBN 978-989-98521-0-5.

Cortesia de Parsifal/JDACT

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Presente do Mar. Anne M. Lindbergh. «As ondas altas na praia, o vento nos pinheiros, o lento bater de asas das garças do outro lado das dunas, tudo isso abafa o ritmo frenético da cidade, com seus compromissos de hora marcada e suas obrigações. Ficamos como que enfeitiçados pelas ondas, pelo vento, pelas garças»

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«(…) Reflectindo honestamente sobre a própria experiência dela, tentando manter a calma interior e, ao mesmo tempo, reagindo ativamente, como todos nós devemos fazer ao aqui e agora, minha mãe libertou-se placidamente para sua própria vida e para a vida como um todo. Ao escrever Presente do mar, ela encontrou uma nova forma de estar no mundo, para ela e para os outros. Fico feliz em saber que com esta edição do 50º aniversário toda uma nova geração de leitores poderá acompanhá-la. In Reeve Lindbergh, 2005.

Apresentação
Comecei a escrever estas páginas para mim mesma. Queria elaborar meu próprio modo de viver, meu equilíbrio pessoal na vida, no trabalho e em meus relacionamentos. Como penso melhor com um lápis na mão, passei a escrever naturalmente. À medida que os pensamentos ficavam claros no papel, fui percebendo que a minha experiência era muito diferente da experiência de outras pessoas. (Será que todos temos essa mesma ilusão?) Em alguns aspectos, sentia-me mais livre do que a maioria das pessoas; em outros, muito menos. Além disso, eu pensava, nem todas as mulheres estão buscando um novo estilo de vida ou um canto contemplativo só para elas. Muitas estão satisfeitas com a vida que têm. À primeira vista, parecem lidar com tudo muito bem, muito melhor do que eu. Com inveja e admiração, eu observava a perfeição de porcelana com que transcorriam seus dias calmos e bem planeados. Talvez não tivessem problemas, ou já tivessem, há muito, encontrado as soluções. Então decidi que esses debates só teriam valor e interesse para mim.
Mas, à medida que escrevia, conversava com outras mulheres, mais novas e mais velhas, com vidas e experiências diferentes, algumas independentes economicamente, outras buscando uma profissão, umas trabalhando com afinco como mães e donas de casa e ainda outras que se sentiam à vontade com seu estilo de vida. Foi então que concluí que essas preocupações não eram só minhas. Descobri que muitos homens e mulheres, em diversas situações e de formas diferentes, estavam envolvidos com as mesmas questões que eu, ansiosos para discutir e elaborar possíveis respostas. Até mesmo aqueles cujas vidas pareciam transcorrer imperturbáveis, sob rostos sorridentes, estavam também tentando, como eu, adoptar um novo ritmo de vida, um ritmo entremeado de momentos mais criativos, mais ajustado às suas necessidades individuais, com relacionamentos novos e mais intensos com eles mesmos e com os outros. E assim, pouco a pouco, estes capítulos tornaram-se muito mais que minha história pessoal, inspirados que foram em diálogos, discussões e revelações de homens e mulheres de vários grupos. Decidi então devolvê-los às pessoas que compartilharam muitos destes pensamentos comigo. E aqui, com sentimentos de gratidão e companheirismo por aqueles que trabalharam na mesma direcção, devolvo meu presente do mar.

A Praia
A praia não é um lugar para se trabalhar, ler, escrever ou pensar. Deveríamos nos lembrar disso dos anos anteriores. Muito quente, muito húmida, muito amena para qualquer disciplina intelectual ou altos voos espirituais. Mas nunca aprendemos. Cheios de esperança, levamos nossa sacola de palha desbotada repleta de livros, papéis, longas cartas não respondidas, lápis bem apontados, listas e boas intenções. Os livros permanecem fechados, as pontas dos lápis se quebram e os blocos continuam com as folhas limpas como um céu claro, sem nuvens. Nenhuma leitura, nenhum escrito, nenhum pensamento, pelo menos no começo. A princípio, o corpo cansado toma conta por completo. Como se estivéssemos a bordo de um navio, caímos numa apatia profunda. Revoltamo-nos contra a nossa própria mente, contra todas as decisões inadiáveis, voltando aos ritmos primitivos da beira-mar. As ondas altas na praia, o vento nos pinheiros, o lento bater de asas das garças do outro lado das dunas, tudo isso abafa o ritmo frenético da cidade, com seus compromissos de hora marcada e suas obrigações. Ficamos como que enfeitiçados pelas ondas, pelo vento, pelas garças. Soltamos o corpo, nos espreguiçamos na areia. É como se nos tornássemos a própria areia, amortecidos pelo mar. Expostos, abertos, vazios como a praia, deixamos que as marés apaguem nossas marcas passadas. De repente, numa manhã qualquer da segunda semana, a mente desperta, renasce para a vida outra vez. Não no sentido urbano, mas no sentido marinho. Ela começa então a flutuar, a se mexer, a fazer movimentos suaves e negligentes como as ondas preguiçosas que se quebram na praia. Nunca se sabe que possíveis tesouros essas ondas inconscientes vão lançar à areia branca e suave do consciente. Talvez uma pedra redonda de formato perfeito ou uma concha rara do fundo do mar; talvez uma concha-pera, uma concha-lua ou até mesmo um argonauta. Mas esses tesouros não devem ser procurados, muito menos desenterrados. Nada de escavar o fundo do mar. Isso frustraria nosso objectivo. O mar não recompensa os que são por demais ansiosos, ávidos ou impacientes. Escavar tesouros mostra não só impaciência e avidez, mas também falta de fé. Paciência, paciência e paciência é o que nos ensina o mar. Paciência e fé. Precisamos nos deitar vazios, abertos e sem exigências, como a praia, esperando por um presente do mar». In Anne Morrow Lindbergh, Presente do Mar, Introdução à edição do 50º Aniversário, Reeve Lindbergh, 2005.

Cortesia de Wikipédia/JDACT