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quarta-feira, 24 de abril de 2019

Poesia na Véspera de Abril Sempre. Maria Tereza Horta. «São as plantas que nascem no teu peito e no meu vêm beber…»

jdact

Estilhaços
«(…)
São os brancos estilhaços
dos teus olhos
no avesso do feltro da saliva

A língua branda
com que te fecho os olhos
ou te entreabro os lábios e as gengivas

Gume do gosto
na faca
do palato

Palavras roucas
que tu lá aninhas
a devorares no sono dos estilhaços
o ouro dos olhos
dos pombos as anilhas

Sedutora
da semente
mais aberta

Poço
do corpo
ou fruta do seu vaso
onde penetras e bebes
minha água

Olhos de vento
no ventre dos estilhaços»

Roseiras
«São as plantas que nascem
no teu peito
e no meu vêm beber
com as suas línguas ávidas

São as ásperas raízes
que nos rasgam
dormentes e presas
no teu ventre

E do meu… seu alimento
viciadas»
Poemas de Maria Tereza Horta, in As Palavras do Corpo

In Maria Tereza Horta, As Palavras do Corpo, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-204-903-0.

Cortesia de PdonQuixote/JDACT

Poesia num dia de frio. Maria Tereza Horta. «Nem de todo o desejo direi verão nem de todo o grito a tua imagem nem de toda a ausência direi chão»

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Cicuta
«(…) Debruça-te meu amor
e colhe-me a manhã

Bebe-me o hálito
morde-me os gemidos

Eu sou o copo
de cicuta

(o vinho)

Com o qual envenenas
os sentidos»

Nem Só
«Nem só do teu silêncio
direi raiva
Nem de todo o meu corpo
direi vício

Nem de todo o pé…
direi arma
E apenas do teu
direi ter sido

Quando o vácuo
é de vingar
ou de vergar
cravando sobre os seios a sua enxada

Quando a minha boca
se conjuga
no teu baixo-ventre
e tua espada

Nem de todo o desejo
direi verão
Nem de todo o grito
a tua imagem
Nem de toda a ausência
direi chão
E só dos teus flancos
a viagem»
Poemas de Maria Tereza Horta, in As Palavras do Corpo

In Maria Tereza Horta, As Palavras do Corpo, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-204-903-0.

Cortesia de PdonQuixote/JDACT

Poesia numa Primavera ventosa. Maria Tereza Horta. «Me deponho e me defendo empunho faca e fenda no fundo sangue do tempo»

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Penumbra
«(…) Por dentro da penumbra
o cheiro a fruta
o gosto do feno no afago

os gomos do gozo
onde se afundam
pétala por pétala no poço do teu hálito»

Faca e Funda
«São cíclicos os sentidos
na lenta raiva dos meses
no cuidado com que visto

o amor todas as vezes
quantas contigo
me dispo

ou desfruto
deixo
e minto

Me deponho e me defendo
empunho
faca e fenda
no fundo sangue do tempo»

Gota de Água
«Gota de água
eu
em tua boca

A matar-te a sede
de solidão incerta

O que mais serei eu
se apenas
essa chuva

Gota aprisionada
que logo se liberta?»
Poemas de Maria Tereza Horta, in As Palavras do Corpo

In Maria Tereza Horta, As Palavras do Corpo, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-204-903-0.

Cortesia de PdonQuixote/JDACT

Poesia num dia chuvoso. Maria Tereza Horta. «Os cavalos brancos do teu tempo como varas venenosas do teu vento»

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«(…) Os cavalos brancos
do teu ventre
como veneno do vento

Os cavalos brancos
do teu sono
como vício brando no veneno do vento

Os cavalos brancos
dos teus dentes
como vidros no veneno do vento

Os cavalos brancos
do teu tempo
como varas venenosas do teu vento»

O Mar nos Teus Olhos
«É o mar, meu amor
na febre dos teus olhos

É o manso fascínio
da onda que se inventa

É o mar, meu amor
mestiço nos teus olhos

É o mirto, o queixume
a mansidão tão lenta

É o mar, meu amor
o lastro dos sentidos
que afogas nos olhos
sem nunca te afundares

É o mar, meu amor
que transportas nos olhos
e onde eu nado o tempo
sem nunca me encontrar»
Poemas de Maria Tereza Horta, in ‘As Palavras do Corpo’

In Maria Tereza Horta, As Palavras do Corpo, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-204-903-0.

Cortesia de PdonQuixote/JDACT

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Poesia num dia de Fevereiro. Maria Tereza Horta. «… e que me iludem me rasgam curam e descuram me vestem de amor e de ventura»


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Intervalo
«No silêncio que guardo
Quando partes
Que escondes sob
Os dedos
Que se prende
Que me deixa no corpo
Este calor
Da falta do teu corpo como sempre»


Os Teus Olhos
«Direi verde
do verde dos teus olhos
de um rugoso mais verde
e mais sedento
Daquele não só íntimo
ou só verde
daquele mais macio
mais ave
ou vento
Direi vácuo
volume
direi vidro
Direi dos olhos verdes
os teus olhos
e do verde dos teus olhos vício
Voragem mais veloz
mais verde
ou vinco
voragem mais crespada
ou precipício»


As Tuas Mãos
«As tuas mãos
compridas e serenas
de pele esticada sobre os dedos
as tuas mãos macias
como vales
que prendem me prendem e desprendem
as tuas mãos
sedentas
mais profundas de secretas razões
e que se afundam
nas partes fundas
do meu corpo
que me fazem gemer
e que me iludem
me rasgam
curam e descuram
me vestem de amor e de ventura»
Poemas de Maria Tereza Horta, in ‘As Palavras do Corpo

In Maria Tereza Horta, As Palavras do Corpo, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-204-903-0.

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Poesia num dia solarengo. Maria Tereza Horta. «A única diferença que une a tarde à manhã é das tuas mãos espessas…»

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O Espaço
«O espaço que vai
das mãos
ao cimo dos meus joelhos
Das tuas mãos
aos meus lábios
Dos teus lábios
aos meus seios»


Amor Sem Razão
«Meu amor quem disse
ao pé de ti o medo
Ou pôs a ausência
daquilo que faço
se longe de ti impeço o começo
ou junto de ti me ergo e renasço
Já nada é razão
quando esta é segredo
ou quando a razão é corpo
e desfaz-se
Razão do teu sono
por entre os meus dedos
Razão do teu hálito
por entre os meus braços»


«A única diferença
que une a tarde à manhã
é das tuas mãos espessas
a memória
o rasto
a lã
não a lã da camisola
que usas rasando o peito
mas aquela das palavras
que deixas cair a meio»
Poemas de Maria Tereza Horta, in ‘As Palavras do Corpo

In Maria Tereza Horta, As Palavras do Corpo, Publicações dom Quixote, Lisboa, 2014, ISBN 978-972-204-903-0.

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