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segunda-feira, 12 de julho de 2021

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «A seguir, o pároco entregou à filha uma conta-corrente: o que ela lhe devia, os juros, a importância descontada na sua pequena mensalidade»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Onde tu foste muito tonta, Yvette, repreendeu-a Lucille, a pobre Lucille, que estava muito perturbada, foi em teres-te deixado comprometer ante todos eles. Devias saber que descobririam. Podia ter-te arranjado o dinheiro e poupar-te a todo este aborrecimento. É perfeitamente horrível! Mas tu nunca pensas com antecedência qual virá a ser o resultado das tuas acções! Imagina, a tia Cissie a dizer-te todas aquelas coisas! Que horror! Que diria a mãe, se tivesse ouvido? Quando as coisas corriam muito mal, pensavam na mãe e desprezavam o pai e toda a má raça dos Saywells. A mãe delas, claro, pertencera a um mundo mais elevado, apesar de talvez mais perigoso e mais imoral. Decididamente, mais egoísta, mas com gestos de maior ostentação. Mais sem escrúpulos e mais facilmente levado à desonra, mas menos humilhante. Yvette sempre considerara que recebera a sua fina e delicada carnação da mãe. Os Saywells eram todos um pouco coriáceos e imundos, algures dentro deles. Mas, por outro lado, os Saywells nunca deixavam ninguém ficar mal, enquanto A-que-fora-Cynthia abandonara o pároco com um grande estoiro e deixara as suas criancinhas com ele. As suas criancinhas! Isso era uma coisa que não lhe perdoavam!

De uma maneira indistinta, depois da discussão, Yvette começou a compreender qual era a sua outra santidade, a santidade da sua carne e do seu sangue limpos, que os Saywells, com a sua denominada moralidade, haviam conseguido corromper. Tinham sempre querido corromper, pois não possuíam crença, eram os descrentes da vida. Enquanto, talvez, A-que-fora-Cynthia não passara de uma descrente moral. Yvette andou por ali entorpecida, adoentada, confusa. O pároco pagou o dinheiro à tia Cissie, com grande raiva dessa senhora. O descontrolado tumor da sua raiva ainda estava agitado. O que ela teria gostado de fazer era anunciar a delinquência da sobrinha no boletim da paróquia. Era uma angústia, para aquela mulher destruída, o facto de não poder publicar essa notícia, para conhecimento de todo o mundo. O egoísmo! O egoísmo! O egoísmo!

A seguir, o pároco entregou à filha uma conta-corrente: o que ela lhe devia, os juros, a importância descontada na sua pequena mensalidade. Porém, lançou a crédito dela um guinéu, que era a taxa que ele tinha de pagar por cumplicidade. Como pai da culpada, disse ele, com humor, sou multado num guinéu. Com isso, considero-me ilibado de responsabilidades. No que respeitava a dinheiro, era sempre generoso. Parecia que, de algum modo, ele pensava que, sendo liberal com o dinheiro, poderia chamar-se a si próprio um homem generoso. Mas era o contrário, ele usava o dinheiro e até a generosidade como um domínio sobre ela. Mas o pai deixou esquecer aquele assunto. Nesta altura já estava mais divertido do que qualquer outra pessoa, a julgar pelas aparências. Pensava, ainda, que agora estava a salvo.

A tia Cissie, contudo, não conseguia libertar-se da sua agitação. Uma noite, quando Yvette se sentira miserável e fora muito cedo para a cama, quando Lucille estava fora, numa festa, e quando ela jazia, sem forças nas pernas, que lhe doíam com uma espécie de insensibilidade e aviltamento, a porta abriu-se suavemente e apareceu a tia Cissie, a sua face esverdeada e acinzentada a espreitar pela abertura. Yvette deu um salto, aterrorizada. Mentirosa! Ladra! Patife! Egoísta!, silvou a maníaca face da tia Cissie. Pequena hipócrita! Mentirosa! Egoísta! Estupor ambicioso! Havia um ódio tão extraordinário e tão impessoal naquela máscara cinzento-esverdeada e naquelas palavras frenéticas, que Yvette abriu a boca para gritar de histeria. Mas a tia Cissie fechou a porta tão subitamente como a abrira e desapareceu». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

 JDACT, DH Lawrence, Literatura, Conto, 

domingo, 19 de janeiro de 2020

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «O intruso! O intruso! E chamavam-lhe pretensioso! Clifford parecia muito mais pretensioso e convencido! E muito mais estúpido»

jdact

«(…) Mas não, nunca acabariam. De certo modo fazia os possíveis por ser maltratado, porque se imiscuía num meio a que não pertencia: a alta sociedade inglesa. E divertia-se com os pontapés que lhe dava. E ele odiava-a. Mesmo assim viajava com o criado e num bom carro, esse vadio de Dublim. Havia qualquer coisa nele que Connie apreciava. Não se fazia importante, não tinha ilusões sobre si próprio. Conversava com Clifford de maneira delicada, breve, prática sobre tudo que este queria saber. Não se expandia nem se deixava entusiasmar. Sabia que tinha sido convidado para Wragby para ser usado, e, como um velho homem de negócios, esperto e indiferente, como um importante homem de negócios, permitia que o interrogassem e respondia sem que os seus sentimentos interferissem. Dinheiro! O dinheiro é uma espécie de instinto, uma das características da natureza humana é fazer dinheiro. Não tem nada a ver com o que uma pessoa faça, nem é um jogo. É uma espécie de acidente permanente da nossa própria natureza. Quando se começa, faz-se dinheiro e não se pára mais, até um determinado ponto, é claro.
Mas é preciso começar, respondeu Clifford. Oh, absolutamente, é preciso entrar na roda, quando se está de fora não se consegue nada. Tem de se lutar para entrar, e uma vez que o tenha conseguido, é inevitável. Mas poderia ter ganho dinheiro sem as peças? Oh, provavelmente não! Posso ser bom ou mau, mas sou escritor, um escritor teatral, e não podia ser outra coisa. Disso não tenho a menor dúvida. E acha que tem de ser um autor de peças para o grande público?, perguntou Connie. É esse exactamente o ponto!, respondeu Michaelis, voltando-se para ela, num impulso súbito. Tudo isso não significa nada. A popularidade não significa nada, nem o grande público, se quiser. Realmente não há nada nas minhas peças que as torne populares, não é isso. São apenas como o tempo... São como têm de ser, pelo menos por agora. Olhou para Connie e os seus olhos um pouco rasgados e a expressão lenta eram de quem se tivesse afogado numa desilusão abismal. Ela sentiu um estremecimento. Parecia muito velho, infinitamente velho, formado por camadas de desilusão, afundando-se dentro dele geração após geração, como os estratos geológicos. E, ao mesmo tempo, estava perdido como uma criança. Um proscrito, de certo modo, mas com a coragem desesperada de uma existência de ratazana. Pelo menos é extraordinário o que você já fez, com a sua idade, disse Clifford, pensativo. Tenho trinta anos, sim, trinta!, respondeu Michaelis, de maneira ríspida e brusca, com um riso estranho, ao mesmo tempo profundo, triunfantemente amargo. E está só?, perguntou Connie. Que é que quer dizer? Se vivo só? Tenho o meu criado, é grego, ele assim o afirma, e é bastante incompetente. Mas conservo-o. E vou casar. Ah, sim, tenho de casar.
Parece que está a falar de uma operação às amígdalas, disse Connie, a rir-se. Tem de fazer esforço? Ele olhou para ela com admiração. Bem, lady Chatterley, de certo modo tenho. Acho... ,desculpe..., acho que não me poderia casar com uma inglesa, nem mesmo com uma irlandesa. Experimente com uma americana!, disse Clifford. Oh, as americanas!, respondeu, com um grande sorriso. Não, pedi ao meu criado que me encontrasse uma turca, ou coisa assim..., mais oriental. Connie estava realmente impressionada com este curioso e melancólico espécime, com um êxito extraordinário. Dizia-se que, só da América, tinha um rendimento de cinquenta mil dólares. Por vezes era atraente, outras, quando olhava de lado ou para baixo, e a luz incidia nele, tinha uma beleza silenciosa e persistente, como uma máscara de um negro esculpida em marfim, com os seus olhos muito rasgados, as sobrancelhas pronunciadas, curiosamente arqueadas, a boca imóvel e contraída. Aquela imobilidade momentânea, mas expressa, aquela imobilidade e intemporalidade a que o Buda aspira e que os negros possuem por vezes, sem querer. Qualquer coisa de velho, de velho e aquiescente, própria da raça. Séculos de aquiescência como destino de raça, em vez da nossa resistência individual. E depois uma travessia a nado como fazem os ratos num rio escuro. Connie sentiu uma súbita e estranha simpatia por ele, feita de compaixão, e com uma tonalidade de repulsa, quase amor. O intruso! O intruso! E chamavam-lhe pretensioso! Clifford parecia muito mais pretensioso e convencido! E muito mais estúpido. Michaelis percebeu imediatamente que a tinha impressionado. Olhava-a com os seus olhos rasgados, cor de avelã, ligeiramente salientes, com uma expressão de pura indiferença. Estava a avaliá-la e a avaliar a impressão que despertara. Com ingleses ele nunca podia deixar de ser o eterno intruso, mesmo tratando-se de amor. No entanto, algumas vezes, as mulheres cediam, e as inglesas também». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

domingo, 22 de dezembro de 2019

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Pobre Yvette! Os seus ares e maneiras senhoris estavam agora a eclipsar-se. O pároco estava zangado: o seu rosto tinha um ar canino, de quem rosna, uma contracção de desprezo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Houve uma terrível discussão na casa paroquial, por causa de Yvette e do Fundo do Vitral. Depois da guerra, a tia Cissie tinha dedicado todas as suas forças para conseguir um vitral para a igreja, em memória dos homens da paróquia que tinham caído no conflito. Porém, a maior parte deles não era conformista, pelo que a celebração tomou a forma de um pequeno e feio monumento, em frente da capela metodista. Porém, este facto não dobrou a vontade da tia Cissie. Angariou dinheiro, organizou quermesses, forçou as raparigas a organizarem espectáculos de teatro para conseguir fundos para o seu precioso vitral. Yvette, que até gostava da actividade e das facetas exibicionistas dessas iniciativas, encarregou-se da farsa denominada Mary in the Mirror e guardou os lucros, que deveriam ser entregues ao Fundo do Vitral, quando se fizessem as contas. Em princípio, cada uma das raparigas devia ter uma caixa de dinheiro para o Fundo. A tia Cissie, pensando que as somas, todas juntas, talvez fossem já quase suficientes, perguntou de repente pela caixa de Yvette. Esta continha apenas quinze xelins. Houve um momento de puro horror. Onde é que está o resto? Oh!, exclamou Yvette, com um ar casual. Emprestei-o a mim mesma. Também não era assim tanto. Mas, então, as três libras e treze xelins de Mary in the Mirror? perguntou a tia Cissie, num tom que parecia que as profundas do Inferno se estavam a abrir.
Oh, essas! Emprestei-as a mim mesma. Posso pagá-las. Pobre tia Cissie! O tumor do ódio rebentou dentro dela e houve uma cena terrível e pouco vulgar, que deixou Yvette a tremer de medo e de nervosa repugnância. Até o pároco foi muito severo. Se precisavas de dinheiro, por que é que não me disseste?, perguntou ele friamente. Já te recusámos alguma coisa razoável? Eu pensei que não tinha importância, gaguejou Yvette. E o que é que fizeste com o dinheiro? Creio que o gastei, disse Yvette, os olhos muito abertos e perturbados e o rosto macilento. Gastaste-o em quê? Não me lembro de nada: meias e coisas, e dei algum.
Pobre Yvette! Os seus ares e maneiras senhoris estavam agora a eclipsar-se. O pároco estava zangado: o seu rosto tinha um ar canino, de quem rosna, uma contracção de desprezo. Estava com receio que a sua filha estivesse a desenvolver algumas das grosseiras e corruptas qualidades de A-que-fora-Cynthia. Eras capaz de viver à larga, com o dinheiro dos outros, não eras?, perguntou, com um desprezo frio, quase animalesco, que mostrava a sua total falta de crença no seu coração. A inferioridade de um espírito sem qualquer réstia de calorosa crença, sem orgulho na vida. Não acreditava nela, total e inteiramente. Yvette ficou pálida e tomou um ar distante. O seu orgulho, esse frágil e precioso lume que toda a gente procura satisfazer, recuou como uma chama assoprada por um vento frio, como se tivesse sido apagada e o rosto dela, agora branco e ainda parecido com uma branca flor, a branca flor que era a sua vaidade, parecia não ter vida, ser apenas uma pura e estranha abstracção.
Ele não crê em mim!, pensou ela, no interior da sua alma. Para ele, eu sou..., nada! Sou um zero, sou apenas uma coisa de que é preciso ter vergonha. É tudo uma vergonha, tudo uma vergonha! Uma chama de paixão ou de raiva, apesar de a terem podido dominar ou enfurecer, não a teriam degradado tanto como o fizera a falta de crença por parte do seu pai, a sua última atitude de desprezo para com ela. O pai ficou um pouco assustado, naquele silêncio de pensamentos estéreis. No fim de contas ele necessitava de uma aparência de amor e crença e de uma vida luminosa, sem manchas, pois nunca ousaria encarar o gordo verme da sua própria descrença, o verme que se agitava no seu coração.
Que desculpa é que tens para dar?, perguntou. Ela limitou-se a mirá-lo com aquele rosto de branca flor, insensível, que o enchia de medo e lhe dava uma desamparada sensação de culpa. A outra, A-que-fora-Cynthia, olhara para ele com o mesmo medo branco, o mesmo rosto estarrecido, o medo da sua degradante descrença, o verme que se encontrava bem no interior do seu coração. O seu maior receio era que alguém mais o viesse a saber. A angústia do seu ódio era contra todos os que sabiam e se retraíam. Viu Yvette humilhada e imediatamente as suas maneiras se modificaram, passando de novo a ser o mundano e bem-humorado cínico que fingia ser. Ah, bom!, exclamou. Terás de o pagar, minha menina, é tudo. Vou avançar-te o dinheiro da tua mesada. Mas vou descontar-te quatro por cento ao mês, de juros. Até o próprio diabo tem de pagar uma percentagem sobre os seus débitos. Para a próxima, se não podes confiar em ti mesma, não mexas em dinheiro que não seja teu. A desonestidade não é bonita. Yvette continuou esmagada, descoberta e humilhada.
Arrastou-se de um lado para o outro, em busca dos vestígios do seu orgulho. Sentia repulsa até por si mesma. Oh, por que é que ela tocara naquele dinheiro leproso! Toda a sua carne se contraía, como se estivesse corrompida. Mas porquê? Porquê, porquê tal coisa? Admitia ter feito mal ao gastar o dinheiro. Claro que não o devia ter feito. Têm toda a razão para estarem zangados, disse para si própria. Mas de onde lhe vinham aqueles horríveis estremecimentos da sua carne? Por que é que ela se sentia como se tivesse apanhado um qualquer contágio físico?» In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

terça-feira, 29 de outubro de 2019

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Apesar de tudo foi muito delicado, porque ele alcançara um êxito extraordinário. A Glória, a deusa-cadela, como se costuma chamar, andava à volta dos pés de Michaelis…»

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«(…) O pai voltou a avisá-la: porque não arranjas um apaixonado, Connie? Aproveita o que há de bom na vida. Nesse Inverno, Michaelis veio passar alguns dias em Wragby. Era um jovem irlandês, que já tinha feito fortuna com as suas peças na América. Fora apoiado muito entusiasticamente por uns tempos pela alta sociedade de Londres, porque escrevia peças de salão. Depois, gradualmente, essa mesma sociedade foi percebendo que tinha sido ridicularizada por um rato sujo das ruas de Dublim, e a reacção súbita sobreveio. Michaelis era a última palavra em grosseria e má-criação. Descobriu-se que ele assumia uma posição antibritânica, e para a classe que tinha feito esta revelação, era pior do que o crime mais condenável. Foi completamente ignorado e o seu cadáver lançado à lata do lixo. Apesar disso, Michaelis tinha o seu apartamento em Mayfair, e a imagem de um cavalheiro descia a Bond Street, porque nem os melhores alfaiates põem de parte os clientes grosseiros quando estes pagam.
Clifford convidava um homem de trinta anos no momento menos auspicioso da sua carreira. Mas, apesar de tudo, Clifford não hesitou. Michaelis captara as atenções de talvez um milhão de pessoas, provavelmente, e, sendo um intruso sem remissão, sem dúvida ficaria grato pelo convite para Wragby no momento em que todo o mundo elegante o repudiava. Sem dúvida que a sua gratidão só poderia trazer vantagens a Clifford, do lado de lá, na América. Glória! Um homem consegue a glória, seja ele o que for, se se falar dele da maneira certa, especialmente do lado de lá. Clifford era um homem de futuro, e era notável o seu profundo instinto de publicidade. Afinal retratou-o magnificamente numa peça, e Clifford era uma espécie de herói popular. Até ao dia em que descobriu que tinha sido ridicularizado. Connie estranhava um pouco a tendência cega, imperiosa de Clifford de se tornar conhecido, conhecido nesse mundo vasto e amorfo, que ele próprio não conhecia e que receava com inquietação; ser conhecido como escritor, como escritor moderno de primeira classe. Connie sabia, pelo afortunado, velho, vigoroso e bonacheirão sir Malcolm, que os artistas faziam a sua própria publicidade e se esforçavam por exportar as suas obras. Mas o pai servia-se de vias já preparadas, que eram de todos os outros académicos que vendiam os seus quadros, enquanto Clifford descobria novas vias de publicidade, quaisquer que fossem. Convidava todos os tipos de pessoas para Wragby, sem no entanto se rebaixar. Mas, decidido a conseguir rapidamente uma reputação, servia-se de tudo o que estivesse ao seu alcance. Michaelis chegou no momento oportuno, num bom carro, com o seu motorista e um criado. Era incontestavelmente um homem de Bond Street! Mas, ao vê-lo, Clifford, que tinha qualquer coisa de fidalgo rural, retraiu-se. Ele não era de modo nenhum..., não era exactamente..., de facto, em suma, não era como pretendia parecer, atendendo à sua aparência. Para Clifford isto era decisivo e suficiente.
Apesar de tudo foi muito delicado, porque ele alcançara um êxito extraordinário. A Glória, a deusa-cadela, como se costuma chamar, andava à volta dos pés de Michaelis, quase humildes e provocadores, ao mesmo tempo rosnadora e protectora, e isso intimidava totalmente Clifford, porque ele também se queria prostituir à Glória, deusa-cadela, se ela o aceitasse. Obviamente que Michaelis não era inglês, apesar dos alfaiates, chapeleiros, barbeiros e sapateiros do melhor bairro de Londres. Não, era óbvio que ele não era inglês, tinha uma cara fora do comum, pálida e uniforme, e um rancor também fora do comum. Mostrava ressentimento e rancor, e isso era evidente para qualquer cavalheiro de genuíno sangue inglês, que nunca permitiria que tais sentimentos transparecessem. Pobre Michaelis, tinha sido tão maltratado, que ainda não perdera um certo ar de cauda entre as pernas. Tinha aberto o seu caminho por puro instinto e total ousadia até à cena, à boca da cena, com as suas peças. Tinha surpreendido o público e pensara que os maus dias tinham acabado». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

sábado, 26 de outubro de 2019

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Connie, contudo, sentia dentro de si uma inquietação crescente. Em virtude do seu afastamento de todas as coisas, uma inquietação apossava-se dela como se fosse demência…»

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«(…) Clifford tinha bastante amigos, mais conhecidos do que amigos, que convidava para Wragby. Convidava todos os tipos de pessoas, críticos, escritores, pessoas que contribuíam para que os seus livros fossem elogiados. Todos se sentiam lisonjeados pelo convite para Wragby, e elogiavam realmente. Connie entendia tudo perfeitamente. Mas porque não? Era uma das transitórias imagens do espelho. Não via nisso nenhum inconveniente. Recebia todas aquelas pessoas, na sua maioria homens. Recebia igualmente as poucas relações aristocráticas de Clifford. Com a sua doçura e o seu bom aspecto de rapariga do campo, com tendência para as sardas, com os grandes olhos azuis e o cabelo castanho encaracolado e uma voz suave, o torso feminino, mas forte, era considerada um pouco antiquada e demasiado feminina. Não era um esqueleto, nem tinha peito e nádegas de rapazinho. Era demasiado mulher para ser completamente elegante. Por isso os homens, especialmente os não jovens, eram muito gentis para com ela. Mas, sabendo a tortura que Clifford poderia sentir à menor suspeita de devaneio amoroso da sua parte, não lhes dava absolutamente nenhum encorajamento. Era tranquila e distante, não tinha nenhum contacto com eles nem tencionava tê-lo. Clifford sentia-se extraordinariamente orgulhoso.
A família de Clifford tratava-a de uma forma muito gentil. Sabia que essa gentileza não era mais do que falta de medo, pois esse tipo de pessoas só respeitam aqueles que receiam. Também não tinha contacto com eles, deixava-os ser amáveis e desdenhosos, deixava-os sentir que não precisavam de se pôr em defesa. Estava completamente longe deles. O tempo passava. Tudo o que acontecia não era nada, porque ela estava fora de todas as coisas. Ela e Clifford viviam as suas ideias e os livros dele. Ela recebia, pois havia sempre visitas em casa. O tempo passava, como num relógio. Eram oito e meia em vez de sete e meia.

Connie, contudo, sentia dentro de si uma inquietação crescente. Em virtude do seu afastamento de todas as coisas, uma inquietação apossava-se dela como se fosse demência, contraía-lhe os membros quando não queria, fazia-a levantar-se quando preferia ficar confortavelmente sentada; vibrava dentro dela, no ventre, por todo o corpo, até sentir que tinha de se atirar à água para se libertar. Era uma inquietação exasperada. Fazia bater o coração com muita força e sem razão. E estava a emagrecer. Era apenas inquietação. Queria correr pelo parque, abandonar Clifford e deitar-se de barriga para baixo nos fetos. Fugir daquela casa, tinha de fugir daquela casa e das pessoas. O bosque era o seu único refúgio, o seu santuário. Mas não era realmente um refúgio, um santuário, porque ela não tinha nada a ver com ele. Era apenas o lugar para onde podia ir libertar-se do resto. Nunca esteve em contacto com o espírito do bosque, se é que tal absurdo existia. Sabia vagamente que, de certo modo, se estava a desfazer física e mentalmente. Sabia vagamente que estava fora de tudo, que tinha perdido o contacto com o mundo real e vital. Só Clifford e os seus livros, que não existiam, vazios por dentro do vazio. Tinha consciência de tudo isto, vagamente. Mas era como bater com a cabeça contra uma pedra». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «O que os olhos não vêem, o espírito não conhece: não existe. Connie e Clifford viviam já há quase dois anos em Wragby, aquela vida vaga de absorção por Clifford…»

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«(…) Nunca perdoaria a Connie por a ter despojado da sua união psicológica com o irmão. Deveria ser ela, Emina, a produzir esses contos, esses livros, com ele. Os contos Chatterley, algo de novo no mundo, e que era deles, dos Chatterley. Não existia nada que os tivesse precedido, nem nenhuma ligação orgânica, quer de pensamento, quer de expressão. Apenas algo de novo no mundo: os livros Chatterley, inteiramente pessoais. O pai de Connie, quando fez uma visita rápida a Wragby, disse à filha, a sós: aquilo que Clifford escreve está em voga, mas é vazio. Não terá futuro!. Connie olhou para aquele cavalheiro escocês corpulento, que sempre vivera bem, e os seus olhos, os seus grandes olhos azuis espantados, tornaram-se vagos. Vazio! Que quereria ele dizer com vazio? Se os críticos elogiaram, e o nome era quase famoso, e já ganhava até dinheiro com o que escrevia..., que quereria o pai dizer com o vazio dos seus contos? Que é que lhes faltava?
Connie adoptara o lema das jovens: o momento presente era tudo. E os momentos sucediam-se sem relação necessária uns com os outros. No segundo Inverno passado em Wragby, o pai disse-lhe: espero, Connie, que não permitas que as circunstâncias te obriguem a ser uma demí-vierge. Demi-víerge!, repetiu Connie, num tom vago. Porquê? Porque não? A não ser que gostes, evidentemente, respondeu o pai com vivacidade. Depois disse o mesmo a Clifford, estando os dois a sós: receio que Connie não seja do tipo de mulher que se adapte a uma demivierge. Semivirgem, repetiu Clifford, traduzindo, para ter certeza da expressão. Pensou por uns momentos, depois ficou muito vermelho. Estava zangado e ofendido. Em que é que não se adapta a ela?, perguntou, num tom duro. Está a ficar magra..., angulosa. Não é o estilo dela. Não é do género de mulher magra como uma solha, é uma truta escocesa das grandes.
Sem as manchas, evidentemente, respondeu Clifford. Mais tarde quis falar no assunto a Connie, da história da demi-vierge, do estado de semi-virgindade das suas relações, mas não foi capaz. Era, ao mesmo tempo, demasiado íntimo com ela e não suficientemente íntimo para o fazer. Espiritualmente, os dois eram como se fossem um só, mas, corporalmente, não existiam, e nenhum deles seria capaz de falar no corpus delicti. Eram muito íntimos e muito intocáveis. Connie sabia no entanto que o pai tinha dito alguma coisa, e que essa coisa estava na mente de Clifford. Sabia que ele não se importava que ela fosse meio virgem ou meio mundana, desde que ele o ignorasse completamente e nunca fosse obrigado a saber. O que os olhos não vêem, o espírito não conhece: não existe. Connie e Clifford viviam já há quase dois anos em Wragby, aquela vida vaga de absorção por Clifford e pelo seu trabalho. Os seus interesses eram todos canalizados para a sua obra. Conversavam e discutiam na angústia da composição, e sentiam que algo se estava a passar, realmente, que preenchia todo o vazio. E a vida era isto: vazio. Todo o resto não existia. Wragby estava ali com os criados..., somente espectros inexistentes. Connie dava passeios no parque e na floresta próxima, e desfrutava a solidão e o mistério. Pisava as castanhas folhas de Outono e colhia as primaveras. Mas tudo era um sonho, ou um simulacro da realidade. As folhas de carvalho pareciam-lhe agitar-se, reflectidas num espelho, ela própria era uma figura tirada de um livro, e que colhia primaveras que eram apenas sombras ou recordações ou palavras. Não havia substância à sua volta, nada..., nada para tocar, nenhum contacto. Somente aquela vida com Clifford, aquele entrelaçar permanente de fios de histórias, das minúcias da consciência, aquelas histórias que sir Malcolm considerava vazias e efémeras. Porque é que haviam de ter conteúdo e porque é que haviam de ser duradouras? Cada dia tem o seu calvário. Cada momento, a sua aparência de realidade». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «… mais um fenómeno rude e natural do que seres humanos. De certa maneira, receava-os, não podia suportar que eles o observassem agora, que estava aleijado»

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«(…) Mas Clifford, desde que ficara estropiado, era extremamente tímido e embaraçado. Odiava ver pessoas a não ser os seus criados, porque tinha de estar sentado numa cadeira de rodas. Todavia vestia-se com a mesma elegância de sempre, fatos feitos por caros alfaiates e as habituais gravatas da Bond Street, e, sentado, parecia tão elegante e distinto como sempre. Nunca fora um dos jovens modernos, efeminado; até bastante bucólico, com o seu rosto corado e ombros largos. Mas a sua voz suave, hesitante, e os olhos ao mesmo tempo corajosos e assustados, firmes e inseguros, revelavam a sua natureza. A sua maneira de ser era muitas vezes ofensivamente arrogante, e, logo a seguir, modesta e humilde, quase trémula. Connie e Clifford estavam ligados um ao outro à maneira moderna, distraída. Ele estava demasiado machucado pelo choque que sofrera, ficar aleijado, para poder ser simples e superficial. Era uma coisa magoada e Connie por isso mesmo era-lhe apaixonadamente fiel. Mas não podia deixar de sentir que ele tinha realmente pouca ligação com as pessoas. Os mineiros eram, de certo modo, os seus homens, mas considerava-os mais como objectos do que como homens, partes da mina e não partes da vida, mais um fenómeno rude e natural do que seres humanos. De certa maneira, receava-os, não podia suportar que eles o observassem agora, que estava aleijado.
E a vida deles, estranha e rude, parecia-lhe tão anormal como a do ouriço-cacheiro. Era um homem remotamente interessado, como se visse tudo por um microscópio ou por um telescópio. Estava de fora. Estava afastado de todos, excepto de Wragby, por tradição, e, por um laço estreito de defesa familiar, de Emina. Para além disto, nada realmente o tocava. Connie sentia que estava longe dele, talvez porque não havia nada entre os dois, só a negação do contacto humano. No entanto, ele era totalmente dela, precisava dela em todos os momentos. Embora grande e forte, não podia fazer nada. Podia deslocar-se na cadeira de rodas e na cadeira de três rodas com motor, que lhe permitia passear lentamente pelo parque. Mas sozinho era como uma coisa perdida; precisava que Connie estivesse com ele, para lhe garantir que ainda existia.
Todavia, era ambicioso. Tinha começado a escrever histórias, histórias curiosas, muito pessoais, sobre pessoas que conhecera. Inteligentes, um pouco malévolas e, no entanto, estranhamente vazias de significado. A observação era extraordinária e peculiar, mas sem ligação, sem contacto real, era como se toda a acção se passasse no vácuo. E porque a vida hoje é muito semelhante a um palco artificialmente iluminado, as histórias eram curiosamente fiéis à vida moderna, à moderna psicologia. Clifford era sensível às histórias de um modo quase doentio. Queria que todos as considerassem de boa qualidade, da melhor, neplus ultra. Foram publicadas nas revistas mais modernas, e como é habitual foram elogiadas e censuradas. Mas para Clifford a censura era uma tortura, como se fossem facas a picá-lo, era como se todo o seu ser estivesse nas suas histórias. Connie ajudava-o no que podia. A princípio entusiasmara-se. Discutia com ela sobre tudo, numa voz monótona, insistente, persistente, e ela tinha de responder com todo o seu entusiasmo. Era como se toda a sua alma, o seu corpo e o seu sexo tivessem de despertar e passar para as histórias. Isto apaixonava-a e absorvia-a.
A vida material era limitada. Ela tinha de dirigir a casa, mas a governanta trabalhara para sir Geoffrey durante muitos anos, e a mulher que servia à mesa, seca, de certa idade, extremamente correcta, a quem não se podia chamar criada de sala, nem mesmo mulher, estava naquela casa havia quarenta anos. Até as outras criadas já não eram novas. Um horror! Que se poderia fazer em semelhante lugar, a não ser deixar as coisas como estavam? Todos aqueles salões enormes de que ninguém se servia, toda a rotina dos Midlands, o asseio e a ordem mecânicos! Clifford insistira em ter uma nova cozinheira, uma mulher bastante experiente que tinha sido sua criada em Londres. Tudo no solar parecia dirigido por uma anarquia mecânica. As coisas decorriam em perfeita ordem, dentro de uma limpeza e pontualidade estritas, e até de uma estrita honestidade. E, todavia, para Connie era uma anarquia metódica, nenhum calor humano a unia intrinsecamente. A casa parecia tão lúgubre como uma rua abandonada. Que poderia ela fazer senão deixar as coisas continuarem como antes? E assim fez. Miss Chatterley aparecia de vez em quando, com o seu rosto aristocrático e magro, e exultava ao ver que nada se tinha alterado». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Passava sem as ver, e elas fixavam-na como se fosse uma figura de cera a andar. Quando Clifford tinha de lidar com elas, era altivo e desdenhoso…»

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«(…) Connie estava habituada a Kensington, ou às colinas da Escócia, ou às dunas do Sussex: esta era a sua Inglaterra! Com o estoicismo dos jovens, aceitou imediatamente a fealdade extrema, desumana dos Midlands de carvão e ferro. Era incrível, e não valia a pena pensar nisso. Das divisões sombrias de Wragby ela ouvia o chocalhar dos crivos na mina, o barulho do motor do guindaste, o estalido das camionetas em manobras e o desgarrado e enrouquecido apito das locomotivas de carvão. O silo do poço de Tevershall estava a arder havia anos, e custaria milhares para o extinguir. Por isso tinha de arder. E quando o vento soprava desse lado, o que era frequente, a casa enchia-se do cheiro pestilento da combustão sulfurosa do excremento da terra. Mas, mesmo nos dias sem vento, havia sempre o cheiro a qualquer coisa debaixo da terra: enxofre, ferro, carvão ou ácido. E até sobre as rosas do Natal se fixava a fuligem persistente e inconcebivelmente, como se fosse um maná negro de um céu maldito. Bem, assim era, estava escrito como todo o resto. Era terrível, mas para quê resistir? Não era possível, tinha de se continuar. A vida como sempre. No céu baixo e negro da noite havia manchas vermelhas de fogo que iluminavam, oscilavam, tornando-se nítidas, cresciam e contraíam-se, como queimaduras que fazem sofrer. Eram as fornalhas. A princípio fascinaram Connie, mas sentia ao mesmo tempo pavor, tinha a impressão de estar a viver debaixo da terra, depois habituou-se a elas. De manhã chovia sempre.
Clifford dizia que gostava mais de Wragby do que de Londres. Aquela região tinha uma determinação própria, inflexível, e os habitantes eram corajosos. Connie perguntava a si mesma se teriam algo mais: olhos e espírito não tinham com certeza. As pessoas eram tão pálidas, disformes, tristes e hostis como a terra. Só na dureza do seu dialecto e no malhar das botas mineiras, ferradas, quando em grupo se arrastavam no asfalto em direcção a casa vindos do trabalho, havia qualquer coisa de terrível e de misterioso. Não houve boas-vindas para o jovem fidalgo, nem festa, nem delegação, nem mesmo uma simples flor. Somente uma viagem húmida de carro através de uma estrada sombria e húmida, que desaparecia por entre as árvores tristes e reaparecia na vertente do parque, onde carneiros cinzentos e húmidos pastavam, até chegar ao cimo do monte, onde a casa estendia a sua fachada castanho-escura e a governanta e o marido esperavam, como caseiros indecisos, prontos a balbuciar as boas-vindas. Não havia comunicação entre Wragby Hall e a aldeia de Tevershall, nenhuma. Nem saudações, nem reverências. Os mineiros apenas olhavam, os comerciantes tiravam os bonés a Connie como a uma pessoa conhecida e baixavam a cabeça desajeitadamente a Clifford. E era tudo. Havia um abismo intransponível e um tranquilo ressentimento de parte a parte. Ao princípio, Connie sentiu-se afectada com os laivos constantes de ressentimento que a aldeia manifestava. Depois tornou-se insensível e passou a ser como um tónico aquilo com que era obrigada a viver. Ela e Clifford não eram de modo nenhum impopulares, mas pertenciam a uma espécie diferente da dos mineiros.
Havia um abismo intransponível, uma brecha indescritível, talvez como riem sequer exista no sul de Trent. Mas nos Midlands e o Norte industrial havia um abismo tal que era impossível uma comunicação. Fica no teu lugar que eu fico no meu! Uma estranha recusa do pulso comum da humanidade. No entanto, a aldeia gostava de Clifford e de Connie, num plano abstrato. Na carne, de cada lado era Deixem-me em paz. O reitor era um homem simpático, de cerca de sessenta anos, sempre ocupado com os seus deveres, e reduzido como pessoa quase a uma insignificância pelo silencioso deixem-me em paz dos aldeões. As mulheres dos mineiros eram quase todas metodistas, os mineiros não eram nada. Mas até o uniforme oficial do clérigo era o suficiente para ocultar a realidade de que ele era um homem como qualquer outro. Não, ele era o senhor Ashby, uma espécie de obrigação automática, para pregar e orar. Esta teimosia, tendência de pensar sempre Somos tão boas como tu, lady Chatterley, nos primeiros tempos confundia e desorientava Connie profundamente. A amabilidade curiosa, desconfiada, falsa, com que as mulheres dos mineiros lhe correspondiam; e o tom estranhamente ofensivo de valha-me Deus! Agora sou alguém, porque a lady Chatterley falou comigo! Mas ela que não pense que vale mais do que eu que ela sempre ouvia vibrar nas vozes, quase aduladoras, das mulheres, eram impossíveis de suportar. Era impossível de transpor esta barreira. Era irremediável e ofensivamente não conformista. Clifford deixava-as em paz, e ela aprendeu a fazer o mesmo. Passava sem as ver, e elas fixavam-na como se fosse uma figura de cera a andar. Quando Clifford tinha de lidar com elas, era altivo e desdenhoso, impedindo imediatamente toda a cordialidade. Na realidade era sempre assim com pessoas de outra classe. Mantinha-se firme sem fazer qualquer tentativa de conciliação. O povo não gostava nem desgostava dele, apenas fazia parte das coisas como a própria mina e Wtagby». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.
                  
Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

O Amante de lady Chatterley. D. H. Lawrence. «Os três tinham afirmado que viveriam sempre juntos. Mas, agora, Herbert estava morto, e sir Geofrey queria que Clifford casasse. Geoffrey mal tocava no assunto»

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«(…) Eram honestas em relação ao problema dos Tommies, e à ameaça de recrutamento e à escassez de açúcar e de caramelos para as crianças. Evidentemente, que por este estado de coisas as autoridades estavam a laborar ridiculamente num erro. Mas Clifford não podia tomar isto muito a peito; para ele, as autoridades eram ridículas não por causa dos caramelos ou dos Tommies. E as autoridades sentiam-se ridículas e comportavam-se de uma forma bastante ridícula, e tudo aquilo pareceu durante algum tempo uma festa em casa de um louco. Até que as coisas chegaram a este ponto no continente, e Lloyd George vinha salvar a situação na ilha. Isto ultrapassava os limites do ridículo, os jovens irreverentes deixaram de rir. Em 1916 Herbert Chatterley foi morto; assim, Clifford passou a ser o herdeiro. Até com isso ficou aterrorizado, a sua importância como filho de sir Geoffrey e senhor de Wragby estava tão arraigada nele que não se podia libertar. E, apesar de tudo, sabia também que isto era ridículo aos olhos do imenso mundo em agitação. Agora era herdeiro e responsável por Wragby. Era uma situação terrível e esplêndida e, ao mesmo tempo, talvez, profundamente absurda. Geoffrey não compreendia o absurdo de tudo aquilo. Era pálido e tenso, reservado, obstinadamente decidido a salvar o seu país e a sua posição, fosse Lloyd George quem fosse. Estava tão isolado, tão separado daquela Inglaterra que era a verdadeira Inglaterra, tão profundamente incapacitado, que tinha mesmo boa opinião de Horatio Bottornley. Geoffrey lutava pela Inglaterra e por Lloyd George como os seus antepassados tinham lutado pela Inglaterra e por São Jorge, e nunca compreendeu que havia uma diferença. Assim, sir Geoffrey deitava as suas árvores abaixo e defendia Lloyd George e a Inglaterra, a Inglaterra e Lloyd George. E queria que Clifford casasse e lhe desse um herdeiro. Clifford reconhecia que o pai era um anacrónico incurável, mas o único ponto em que estava mais evoluído era exactamente no sentido de ridículo em relação a todas as coisas, e no imenso ridículo da sua própria posição. Porque, quer fosse desejado ou indesejado, assumiu a baronia e Wragby com a maior seriedade. O entusiasmo alegre da guerra desaparecera. Morrera. Havia demasiada morte e horror. Um homem precisava de apoio e de conforto, tinha necessidade de uma âncora num mundo seguro. Um homem precisava de uma esposa. Os Chatterley, dois irmãos e uma irmã, por estranho que pareça, tinham vivido sempre isolados, fechados em conjunto em Wragby, apesar de todas as suas relações pessoais. Uma sensação de isolamento reforçara os laços de família, uma sensação de fragilidade da sua posição, de carência de defesas, apesar do título e da propriedade, ou talvez por causa disto. Viviam afastados desse Midlands industrial no qual tinham passado as suas vidas. Viviam afastados das pessoas da sua classe, pelo carácter instável, obstinado, taciturno, de sir Geoffrey, o pai, de quem escarneciam, mas a quem eram muito sensíveis.
Os três tinham afirmado que viveriam sempre juntos. Mas, agora, Herbert estava morto, e sir Geofrey queria que Clifford casasse. Geoffrey mal tocava no assunto, falava muito pouco. Mas a insistência silenciosa, melancólica, de que assim deveria ser fora para Clifford difícil de suportar. Mas Emina disse Não! Era dez anos mais velha do que Clifford e sentia que o casamento dele seria uma deserção e uma traição a tudo aquilo por que tinham lutado os jovens da família. Apesar disso, Clifford casou com Connie e teve o seu mês de lua-de-mel com ela. Foi no terrível ano de 1917, e viviam tão intimamente como duas pessoas que se mantêm unidas num navio prestes a afundar-se. Ele era virgem quando casou e a parte sexual não tinha para ele grande significado. Eram tão íntimos, ele e ela, independentemente disso! E Connie sentiu-se feliz com essa intimidade que estava para além do sexo, para além da satisfação do homem; Clifford, de qualquer forma, interessava-se menos por essa satisfação do que a maior parte dos homens. Não, a intimidade era mais profunda, mais pessoal do que isso, e o sexo era apenas um acidente, ou um complemento, um desses processos curiosamente obsoletos, orgânicos, que persistem na sua própria inépcia, mas não são na realidade necessários. Connie, porém, queria filhos, quanto mais não fosse para a proteger contra a cunhada Emina. Mas, nos princípios de 1918, Clifford foi reenviado para Inglaterra aos poucos, e não haveria filhos. E sir Geoffrey morreu de desgosto.
Connie e Clifford foram para Wragby no Outono de 1920. Miss Chatterley, indignada ainda com a deserção do irmão, tinha saído de casa e vivia num pequeno apartamento em Londres. Wragby era uma casa comprida, baixa e antiga de pedra castanha, principiada a construir nos meados do século XVIII e sucessivamente aumentada, sem no entanto ter um estilo definido. Edificada numa elevação no meio de um parque antigo e belo com carvalhos, mas podia-se ver a pouca distância a chaminé da hulheira de Tevershall, com as suas nuvens de vapor e fumo e, na distância húmida e enublada da colina, a aldeia de Tevershall toscamente dispersa, uma aldeia que começava quase nos portões do parque e se estendia numa grande extensão sinistra, feia e profundamente esmagadora: casas, filas de pequenas casas de tijolo, miseráveis, pequenas, enegrecidas, com telhados pretos de ardósia, com ângulos pontiagudos e de aspecto sombrio, intencional e inexpressivo». In D. H. Lawrence, O Amante de lady Chatterley, 1928, Relógio D’Água Editores, Ficções, 2011, ISBN 978-972-708-848-1.

Cortesia de RD’ÁguaE/JDACT

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «O cigano observou-a a entrar na sua casa rolante. O que a cigana lhe disse, nunca ninguém o soube. Para os outros, a espera foi muito longa. O crepúsculo foi-se aprofundando…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Olhou para Yvette quando passou por ela, fixando-a directamente nos olhos, com a sua ousada, mas impudica mirada de pária. Dentro dela, houve qualquer coisa forte que a fez resistir ao olhar, mas a superfície do eu corpo pareceu transformar-se em água. No entanto, a parte dela que tinha resistido registou as linhas peculiarmente puras do rosto dele, o seu nariz direito e delicado, o traçado das faces e das fontes, a curiosa e suave pureza de todo o seu corpo moreno, recortado na fazenda verde: uma pureza que era uma troça viva. Enquanto ele passou lentamente por ela, nos seus flexíveis quadris, ainda lhe parecia que ele era mais forte do que ela. De todos os homens que ela vira, este era o único que era mais forte do que ela, dentro da sua própria espécie de força, da sua própria espécie de compreensão. Assim, cheia de curiosidade, subiu os degraus da carroça atrás da mulher, com as abas do bem talhado casaco castanho a balançarem e quase expondo-lhe os joelhos, por debaixo do vestido verde-claro. Tinha umas pernas bonitas, compridas, que davam grandes passadas, umas pernas mais para o delgado do que para o gordo, e usava boas meias de algodão com um curioso desenho em dois tons de castanho, um claro e um escuro, que sugeriam as pernas de um qualquer animal exótico.
No alto dos degraus, Yvette deteve-se por um instante e virou-se para os outros, com um ar jovial, dizendo naquele seu tom simultaneamente inocente e senhoril, e sem cerimónias: farei por não demorar. A sua gola de pele cinzenta estava aberta, mostrando a garganta macia e o vestido de um verde muito claro, o chapéu pequenino e castanho puxado quase até às orelhas, rodeando-lhe o rosto fresco e gentil. Havia nela um ar simultaneamente suave e, no entanto, dominador, inconsciente. Sabia que o cigano se virara para olhar para ela. Tinha consciência da sua nuca trigueira, o cabelo negro bem penteado. O cigano observou-a a entrar na sua casa rolante. O que a cigana lhe disse, nunca ninguém o soube. Para os outros, a espera foi muito longa. O crepúsculo foi-se aprofundando e transformando em escuridão e começou a ficar húmido e frio. Da chaminé da segunda carroça saía fumo e um cheiro a boa comida. O cavalo foi alimentado e enrolaram à sua volta um cobertor amarelo; os dois ciganos falavam um com o outro à distância, em voz baixa. Havia uma peculiar sensação de silêncio e de intimidade, naquela pedreira escondida e solitária.
Finalmente, a porta da carroça abriu-se e Yvette apareceu, inclinada para a frente e descendo os degraus com as suas longas e esbeltas pernas de feiticeira. Quando ela surgiu à luz do crepúsculo, havia à sua volta uma espécie de silêncio enfeitiçado, condescendente. Demorei muito tempo?, perguntou, com o seu ar ausente, sem olhar para ninguém e escondendo os seus sentimentos por detrás daquelas suas maneiras indecisas e suaves. Espero que não se tenham aborrecido!, continuou. Que bom que seria tomar um chá, agora! Vamos? Entra para o carro, disse Bob. Eu pago! As compridas saias de alpaca da cigana, de um verde-metálico, baloiçaram nas escadas. Ergueu-se com todo o seu esplendor: era uma mulher alta e com um ar triunfante e o rosto animalesco. O lenço de casimira cor-de-rosa, com rosas vermelhas estampadas, estava a escorregar-lhe para um lado, por cima do seu cabelo negro e encrespado. Olhou para os jovens, à luz do crepúsculo, com ousada arrogância. Bob colocou-lhe duas meias coroas na mão. Dê-me um pouco mais, para lhe dar sorte, para dar sorte à sua jovem senhora, pediu-lhe, numa voz aduladora, como um lobo a atrair uma presa. Mais uma moeda de prata, para lhe dar sorte. Já tens uns xelins, para dar sorte, isso basta, disse Bob calmamente, enquanto avançavam para o carro. Uma moedinha de prata! Só uma moedinha, para lhe dar sorte no amor!
Yvette, com um súbito, longo e surpreendente movimento das suas pernas compridas, virou-se quando já estava a entrar no carro e com o longo braço estendido deu uma passada e pôs qualquer coisa na mão da cigana, depois, virou-se e dobrou-se para entrar no carro. Felicidades, para a bela e jovem senhora, com as bênçãos da cigana, ouviu-se a sugestiva e semitrocista voz da mulher. O motor roncou, tornou a roncar com mais força e arrancou. Leo acendeu os faróis e a pedreira com os ciganos desapareceu imediatamente na escuridão da noite. Boa noite!, gritou a voz de Yvette, quando o carro começou a andar. A sua voz foi a única que se ouviu, esganiçada, alegre e impudente no seu tom de desinteresse. Os faróis iluminaram o caminho de pedra. Yvette, tens de nos dizer o que é que ela te contou, gritou Lucille, perante o silêncio de Yvette. Oh, não foi nada de especial, disse Yvette, com uma falsa cordialidade. As coisas do costume: um homem moreno que me dará boa sorte, um loiro que me dará má sorte; uma morte na família, que se for a da avó não será assim uma coisa tão terrível; que casarei quanto tiver vinte e três anos, que terei montes de dinheiro e montes de amor e dois filhos. Tudo muito bonito, mas são demasiadas coisas boas, sabem, para poderem ser verdadeiras. Oh, mas, então, por que é que lhe deste mais dinheiro? Oh, bem, porque quis! Com gente daquela, temos de nos mostrar um pouco liberais...» In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

terça-feira, 7 de agosto de 2018

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Não, não é isso..., respondeu Yvette, impaciente. Tem algum segredo? Tem medo que eu o diga. Venha, prefere ir para a carroça, onde ninguém nos ouve?»

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«(…) Fixou então o preço: cada uma dá-me um xelim e mais qualquer coisa para dar sorte? Só um bocadinho mais! Sorriu-se de um modo que tinha muito mais de bajulador que cruel, fazendo sentir a força da sua vontade, pesada como ferro, sob o veludo das palavras. Está bem, disse Leo. Um xelim por cabeça. Mas não demore muito tempo com isso. Oh, tu!, gritou-lhe Lucille. Queremos saber tudo! A mulher tirou dois bancos de madeira de debaixo da carroça e colocou-os perto da roda. Depois, agarrou a mão da alta e morena Lottie Framley e fê-la sentar-se. Não se importa que todos ouçam?, perguntou, olhando curiosamente para a face de Lottie.
Lottie corou, nervosa, enquanto a cigana lhe segurava a mão e lhe batia na palma com dedos duros, com um aspecto cruel. Oh, não me importo, respondeu ela. A cigana espreitou-lhe a palma da mão acompanhando as linhas com um dedo rijo e escuro, mas que parecia limpo. Lentamente, leu-lhe a sina, enquanto os outros, que se encontravam à escuta, gritavam: oh, esse é o Jim Baggaley! Oh, não acredito! Oh, isso não é verdade! Uma mulher loura que vive debaixo de uma árvore! Quem é que já ouviu uma coisa dessas?! Até que Leo as calou, com um aviso. Ora, calem-se, raparigas! Vocês assim estragam tudo!
Lottie retirou-se corada e confusa, e foi a vez de Ella. Esta era muito mais calma e perspicaz e tentou interpretar as palavras proféticas. Lucille interrompeu-as permanentemente com exclamações, enquanto o cigano, no alto dos degraus, se mantinha imperturbável, sem qualquer espécie de expressão. Porém, os seus atrevidos olhos continuavam pousados em Yvette, que os sentia nas faces, no pescoço e que não ousava olhar para cima. Mas Framley olhava de vez em quando para ele e recebia de volta, do agradável rosto do cigano, dos seus olhos escuros, vaidosos e orgulhosos, uma mirada superficial. Era um olhar peculiar, naqueles olhos que pertenciam à tribo dos humildes: um olhar que mostrava o orgulho do pária, o desafio, meio trocista, do proscrito, que troçava dos cumpridores das leis e seguia o seu caminho. O cigano manteve-se ali durante todo o tempo, segurando a criança nos braços, olhando, sem se preocupar com o que se passava à sua volta.
Agora, era Lucille quem dera a sua mão a ler: esteve do outro lado do mar e aí encontrou um homem..., um homem de cabelos castanhos..., mas ele era demasiado velho... Oh!, exclamou Lucille, virando os olhos para Yvette. Mas Yvette estava abstracta, agitada, sem prestar qualquer atenção, pois encontrava-se num dos seus estados hipnóticos. Casará dentro de poucos anos, não agora, dentro de alguns anos, talvez quatro, não será rica, mas terá o suficiente e irá para longe, numa grande viagem. Com o meu marido ou sem ele?, perguntou LucilIe. Com ele... Quando chegou a vez de Yvette e a mulher olhou para ela, com um olhar arguto e cruel, procurando no seu rosto qualquer coisa, durante muito tempo, Yvette disse, nervosa: não, creio que não quero que leia a minha sina. Não, não quero! De verdade, não quero! Tem medo de alguma coisa?, perguntou a mulher cigana, de um modo cruel.
Não, não é isso..., respondeu Yvette, impaciente. Tem algum segredo? Tem medo que eu o diga. Venha, prefere ir para a carroça, onde ninguém nos ouve? A mulher era curiosamente insinuante, enquanto Yvette era sempre caprichosa, instável, perversa. Agora, no seu frágil e jovem rosto via-se esse ar de perversidade, que lhe dava um estranho aspecto de dureza. Sim!, disse ela subitamente. Sim! Poderei fazer isso mesmo! Oh!, gritaram os outros. Não é justo! É melhor que não o faças!, gritou Lucille. Sim!, disse Yvette, com aquele seu jeito duro, que de vez em quando aparentava. Vou fazer isso mesmo, vou para a carroça. A cigana disse qualquer coisa ao homem que se encontrava no alto dos degraus. Este entrou na carroça, onde permaneceu alguns instantes, e depois reapareceu, desceu os degraus, pousou a criança no chão, sobre os seus pés ainda incertos e segurou-a pela mão. Muito elegante nas suas botas pretas bem engraxadas, calças pretas justas e jaqueta verde-escura, também justa ao corpo, caminhou lentamente, com a criança titubeante, em direcção ao cigano mais velho, que dava ao cavalo ruão uma ração de aveia, no abrigo de ramagens entre paredes de rocha cinzenta, com fetos secos a cobrir o chão de lajes». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Os seus olhos passavam de rosto para rosto, muito activos, numa busca impiedosa daquilo que ela desejava. Entretanto, o homem, aparentemente seu marido…»

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«(…) Eh? Mas, então, e as horas?, gritou Leo. Oh, deixa lá as horas! Há sempre alguém preocupado com as horas!, exclamou Lucille. Bom, se não se importam com as horas a que vão chegar, pois eu também não!, disse Leo, heroicamente. O cigano mantivera-se sentado na parte lateral da carroça, descontraído, observando os rostos. Depois, saltou para o chão, os joelhos um pouco entorpecidos. Era, aparentemente, um homem com mais de trinta anos e, à sua maneira, um janota. Usava uma espécie de jaqueta de caça, de peitorais duplos, que lhe chegava à cintura, feita de um tecido de lã grosseiro, num tom verde-escuro, umas calças pretas bastante justas, botas pretas e um boné verde-escuro e ao pescoço um grande lenço de seda amarelo e vermelho. Tinha uma aparência curiosamente elegante e bastante dispendiosa, dentro do seu estilo cigano. Era bonito, também, de queixo erguido, com a tradicional vaidade cigana e, agora, aparentemente, sem já se importar com os estranhos, conduzia o seu cavalo para fora da estrada, preparando-se para fazer recuar a carroça.
As raparigas viram, então, pela primeira vez, uma profunda reentrância num dos lados da estrada e duas grandes carroças a deitarem fumo. Yvette desceu rapidamente. Tinham de súbito chegado a uma pedreira abandonada, cortada na falésia ao lado da estrada, e neste covil, quase como uma espécie de gruta, encontravam-se três outras grandes carroças, desarmadas, até passar o Inverno. Havia também, lá mais para o fundo, um abrigo construído com ramagens, um estábulo para o cavalo. A rocha cinzenta e nua erguia-se muito acima das carroças e curvava para fora, para o lado da estrada. O pavimento era constituído por lajes, entre as quais cresciam ervas. Era um acampamento de Inverno, confortável e quente. A mulher idosa, que carregava o fardo, entrara numa das carroças e deixara a porta aberta. Duas crianças espreitavam, exibindo as suas cabeças escuras. O cigano chamou alguém, enquanto fazia a carroça recuar para dentro da pedreira, e surgiu um homem já velho, para o ajudar a desatrelar o cavalo.
O cigano subiu os degraus da carroça mais nova, a que tinha a porta fechada. Por debaixo da carroça estava amarrado um cão, que correu para a frente até ao limite da corda. Era um cão branco, malhado, de um tom castanho-amarelado. Rosnou surdamente, quando Leo e Bob se aproximaram. Nesse mesmo instante, uma cigana de cara muito morena, com um grande lenço cor-de-rosa em volta da cabeça e enormes brincos de ouro nas orelhas, desceu os degraus da carroça mais nova, balançando a sua volumosa saia verde, cheia de folhos. Era de certo modo bonita, com uma cara comprida, atrevida, um pouco animalesca. Parecia-se com uma daquelas ciganas espanholas, atrevidas e ondeantes. Bom dia, senhoras e cavalheiros, disse, mirando as raparigas com os seus olhos ousados de ave de rapina. Falava com um certo sotaque estrangeiro. Boa tarde!, responderam as raparigas. Qual das lindas meninas quer ouvir a sua sina? Qual é que me dá a sua mãozinha?
Era uma mulher alta, com uma assustadora maneira de esticar o pescoço para a frente, como uma ameaça. Os seus olhos passavam de rosto para rosto, muito activos, numa busca impiedosa daquilo que ela desejava. Entretanto, o homem, aparentemente seu marido, surgiu no alto dos degraus da carroça, fumando um cachimbo e com uma criança pequena, de cabelos pretos, nos braços. Ficou de pé, apoiado nas suas pernas flexíveis, olhando distraidamente para baixo, para o grupo, como se estivesse a vê-los à distância, as longas pestanas negras bem erguidas por cima dos olhos negros, presunçosos e impudentes. Um olhar peculiar, que transmitia qualquer coisa. Yvette sentiu-o, sentiu-o nos seus joelhos. Fingiu estar interessada no cão branco e castanho. Quanto é que quer para nos ler a sina a todos?, perguntou Lottie Framley, enquanto os seis jovens cristãos de frescas faces recuavam, um pouco relutantemente, ante esta mulher paga e nómada. A todos? As senhoras e os cavalheiros, todos?, perguntou a mulher, astutamente. Não quero que leiam a minha! Façam-no vocês!, gritou Leo. Eu também não, disse Bob. As quatro raparigas. As quatro senhoras?, perguntou a cigana, olhando-as perspicazmente, depois de ter observado os rapazes». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT

domingo, 29 de outubro de 2017

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Como que em resposta, o homem puxou as rédeas delicadamente, fazendo o cavalo parar quando ele já se desviava para o lado da estrada. Era um bom cavalo ruão e uma boa carroça, verde-escura e elegante»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O grupo mantinha-se silencioso havia já algum tempo. De cada um dos lados da estrada só se via erva, depois uma baixa vedação de pedra e a seguir a ondulada curva do alto da colina, traçada com os muros de pedra. E, por cima de tudo isto, o céu pesado e nebuloso. O carro avançou, sob o céu baixo e cinzento e os picos desguarnecidos. Paramos por momentos?, perguntou Leo. Oh, sim!, exclamaram as raparigas. Saíram de novo do carro, agitadas, para olharem em volta. Conheciam aquele lugar perfeitamente bem, mas, de qualquer modo, se se vai ao alto do Head, então é preciso sair e olhar. As colinas pareciam os nós dos dedos de uma mão, os vales estavam lá em baixo, entre os dedos, estreitos, íngremes e escuros. Lá no fundo, um comboio soltava vapor, avançando lentamente para norte: uma coisa pequenina, daquele mundo distante. Os ruídos da locomotiva ecoavam curiosamente para cima. A seguir, ouviram o som abafado e familiar de uma explosão numa pedreira. Leo, incapaz de estar parado muito tempo, moveu-se rapidamente. Vamos andando?, perguntou. Queremos ou não chegar a Amberdale a tempo do chá? Ou experimentamos noutro sítio mais próximo?
Todos votaram por Amberdale, pelo marquês de Grantham. Bom, por que caminho vamos regressar? Vamos por Codnor e Crosshill, ou por Ashbourne? Este era o dilema do costume, mas, por fim, decidiram ir por Codnor, pela estrada de cima. E lá partiu o carro, corajosamente. Estavam agora no topo do mundo, nas costas da tal mão. E era um topo do mundo também nu, como as costas da mão, desolado, monótono e verde-escuro, cortado por uma rede de velhos muros de pedra, dividindo os campos, interrompido aqui e acolá por ruínas de antigas minas de chumbo e de fábricas. Os edifícios de pedra de uma quinta isolada mostravam seis árvores espetadas e nuas. À distância, via-se uma mancha de pedra cinzenta, uma aldeia. Nalguns campos, carneiros cinzento-escuros alimentavam-se silenciosa e tristemente. Não havia um som nem um movimento. Era o telhado da Inglaterra, pedregoso e árido como qualquer telhado. Para lá dele, lá em baixo, estavam os condados.
E vejam agora as províncias coloridas, disse Yvette para si própria. De qualquer modo, aqui, as províncias não tinham nada de colorido. Um bando de gralhas surgiu, vindo de qualquer lado. Tinham andado a vaguear, debicando num campo nu que fora estrumado. O carro continuou a avançar por entre a erva e os muros de pedra daquela estrada do planalto e os jovens seguiam silenciosos, olhando por cima daquela rede de divisórias de pedra, por debaixo do céu, vendo as curvas inclinadas para baixo que indicavam um declive íngreme, em direcção a um dos vales, escondidos lá ao fundo. À frente seguia uma carroça conduzida por um homem e, caminhando penosamente ao lado, ia uma mulher, robusta e de idade avançada, com um fardo às costas. O homem da carroça tinha-a apanhado e agora acertava o passo pelo dela. O caminho era estreito. Leo tocou a buzina, violentamente. O homem da carroça olhou em volta, mas a mulher, que ia a pé, limitou-se a continuar a seguir em frente com maior firmeza e mais rapidamente, sem virar a cabeça.
O coração de Yvette deu um salto. O homem que se encontrava na carroça era um cigano, um daqueles ciganos escuros, de corpo elegante e descontraído. Mantinha-se sentado na carroça, de cabeça virada, olhando os ocupantes do automóvel, por debaixo da pala do boné. Mantinha uma pose descuidada e uma mirada insolente e cheia de indiferença. Tinha um fino bigode negro por debaixo do nariz estreito e direito e um grande lenço de seda, vermelho e amarelo, enrolado em volta do pescoço. Disse qualquer coisa à mulher. Esta parou por um segundo, virou-se e olhou para os ocupantes do carro, que estava agora já muito perto. Leo accionou de novo a buzina, imperiosamente. A mulher, que usava um lenço cinzento e branco amarrado em volta da cabeça, virou-se para a frente rapidamente, para acompanhar o andamento da carroça, cujo condutor também voltara à sua posição inicial e levantava as rédeas, movendo os ombros leves e elegantes. Mas continuava sem se desviar.
Leo carregou na buzina, enquanto travava e o carro abrandava, já muito junto da traseira da carroça. Ao ouvir toda aquela barulheira, o cigano voltou-se para trás, o riso estampado na sua cara morena, por debaixo do boné verde-escuro, e disse qualquer coisa que eles não ouviram, mostrando os dentes muito brancos por debaixo da linha do bigode negro e fazendo um gesto com a mão magra e morena. Saiam do meio do caminho!, gritou Leo. Como que em resposta, o homem puxou as rédeas delicadamente, fazendo o cavalo parar quando ele já se desviava para o lado da estrada. Era um bom cavalo ruão e uma boa carroça, verde-escura e elegante. Leo, irado, foi forçado a travar e a parar também. Não quererão as meninas, tão bonitas, ouvir ler as suas sinas?, perguntou o cigano da carroça, de rosto risonho, excepto os olhos, escuros e vigilantes, que saltavam de rosto para rosto, demorando-se na face jovem e delicada de Yvette. Ela encontrou os olhos dele durante um segundo, aquela mirada superficial, a sua insolência, a sua completa indiferença para com pessoas como Bob e Leo, e houve qualquer coisa que se incendiou no seu peito. Pensou: é mais forte do que eu! Não se rala! Oh, sim! Queremos!, gritou imediatamente Lucille. Oh, sim!, entoaram as restantes, em coro». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT 

terça-feira, 1 de agosto de 2017

A Virgem e o Cigano. DH Lawrence. «Amontoaram-se de novo no carro, com os pés gelados, e avançaram pelo parque, para lá do silencioso pináculo da igreja, através dos grandes portões e por cima da ponte, para a larga, húmida e pedregosa aldeia»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Assim, os jovens partiram para o seu passeio, fazendo o possível para irem cheios de animação. Podiam fazer tudo aquilo que quisessem e, assim, claro, não havia nada para fazerem a não ser ficarem sentados no carro a falar, fazendo um montão de críticas a outras pessoas e entretendo-se com galantarias e namoricos tolos que, bem vistas as coisas, até eram um aborrecimento. Se ao menos tivessem algumas ordens estritas, que pudessem ser desobedecidas! Mas não tinham nada: para além da recusa em levarem o recado a lady Louth, recusa que o pároco acabaria por aprovar, pois também ele não apreciava aquela faceta da avó.
Cantaram, de um modo desconexo, as mais recentes canções satíricas, enquanto atravessavam as aldeias sombrias. No grande parque, veados, corças e gamos viam-se em grupos junto da estrada, aconchegados uns aos outros, na tarde sombria, por debaixo dos carvalhos ao lado do caminho, como se procurassem o estímulo da companhia humana. Yvette insistiu em que parassem e saíssem para irem falar com os animais. As raparigas, com as suas botas russas, caminharam pela erva molhada, enquanto os veados as observavam com olhos enormes e sem medo. Um dos machos afastou-se, num trote suave, mantendo a cabeça baixa por causa do peso dos cornos, mas a fêmea, agitando as enormes orelhas, não se levantou de debaixo da árvore e deixou-se ali ficar com as suas crias já meio crescidas, até ao momento em que as raparigas quase que lhe puderam tocar. Só então se afastou, ligeira, a cauda erguida por cima do traseiro malhado, enquanto os mais pequenos trotavam agilmente.
São tão bonitos e elegantes!, gritou Yvette. Quem diria que podiam deitar-se, tão aconchegados, nesta horrível erva húmida! Bom, creio que eles têm de se deitar de vez em quando, disse Lucille. E está relativamente seco, por debaixo da árvore. Lucille ficou a olhar para a erva esmagada, no sítio onde os veados tinham estado deitados. Yvette avançou e pousou a mão na relva, para a apalpar. Sim!, disse, com um ar duvidoso. Creio que até está um pouco quente. Os veados tinham-se agrupado de novo a alguns metros de distância e mantinham-se imóveis, na melancolia da tarde. Lá muito em baixo, para além dos declives de ervas e árvores, para lá do rápido rio e da sua ponte com balaustrada, via-se o enorme palácio ducal, uma ou duas chaminés a libertarem um fumo azulado. Por detrás, erguiam-se bosques, de um tom púrpura.
As raparigas, erguendo as golas de peles até às orelhas, brandindo um longo ramo, ficaram ali olhando, silenciosas, as botas russas a protegerem-nas da erva molhada. Lá em baixo estava o enorme edifício, quadrado, agarrado ao terreno, com um tom cinzento-cremoso. Os veados, em pequenos grupos, estavam espalhados por debaixo das árvores, ali perto. Tudo aquilo tinha um aspecto tão parado, tão despretensioso e tão triste! Gostaria de saber onde estará o duque, agora, disse Ella. Aqui não está, com certeza, respondeu Lucille. Provavelmente está no estrangeiro, onde brilha o Sol. A buzina do carro chamou-as, da estrada, e ouviu-se a voz de Leo: vamos embora! Se querem chegar ao Head e depois a Amberdale para o chá, é melhor metermo-nos a caminho!
Amontoaram-se de novo no carro, com os pés gelados, e avançaram pelo parque, para lá do silencioso pináculo da igreja, através dos grandes portões e por cima da ponte, para a larga, húmida e pedregosa aldeia de Woodlinkin, onde corria o rio. A partir dali e durante muito tempo, mantiveram-se na lama, na humidade e escuridão do vale, por vezes com rocha limpa por cima deles, a água a correr ruidosamente, de um dos lados, e rochedos íngremes ou escuras árvores, do outro. Até que, através da escuridão das árvores suspensas sobre eles, começaram a subir e Leo mudou de velocidade. Lentamente, o carro abriu caminho na lama branco-acinzentada, até à aldeia de pedra de Bolehill, pendurada a meio da encosta. Contornaram a velha cruz, com os seus degraus, que se ergue onde a estrada se divide, passaram pelas vivendas, onde de súbito lhes surgiu um maravilhoso cheiro a bolinhos quentes para lá delas, sempre a subir, por debaixo de árvores pingando água e passando por declives cobertos de fetos. Finalmente, o estreito vale tornou-se cada vez menos profundo, as árvores acabaram e os declives, de cada lado da estrada, mostraram-se nus, cobertos por uma erva triste e com muros baixos de pedra. Estavam a chegar ao alto do Head». In DH Lawrence, A Virgem e o Cigano, 1926, Editora Assírio & Alvim, 1984, colecção O Imaginário, ISBN 978-972-370-164-7.

Cortesia de Assírio & Alvim/JDACT