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domingo, 13 de agosto de 2023

Poesia. Natália Correia. «E os olhos emigrantes no navio da pálpebra encalhado em renúncia ou cobardia. Por vezes fêmea. Por vezes monja…»


Cortesia de wikipedia

Auto-retrato

«Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis».

A defesa do poeta
«Senhores juízes sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
dou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis…».
(…)

In Natália Correia, Poesia completa, Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1999.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

JDACT, Natália Correia, Poesia, Açores, 

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

A sádica nostalgia das fogueiras do santo ofício: o processo judicial contra a Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. Francisco Topa. «A publicação do referido livro é uma empresa dolosa de todos os arguidos, principalmente da Natália Correia e do Bento Melo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Nos seus contornos gerais, o modo de funcionamento e os efeitos da censura no período do Estado Novo português são bem conhecidos, o mesmo acontecendo com a sua repercussão sobre a criação literária. Apesar disso, continuam a faltar trabalhos aprofundados sobre casos concretos. É um pequeno contributo nesse sentido que este artigo procura dar, abordando o processo judicial que teve por base a Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (Correia, 1966), no qual figuraram como réus Natália Correia, a organizadora, Fernando Ribeiro Melo, o editor, e alguns dos poetas com textos incluídos no volume e que estavam vivos à época. Com efeito, há neste caso uma série de elementos ignorados e que vale a pena revelar e tomar como motivo de reflexão, numa época em que quase todos os protagonistas já desapareceram, e, em muitos casos, foram esquecidos, e em que outras formas de censura e de vigilância do pensamento se vão impondo. O primeiro aspecto menos conhecido tem a ver com a duração do processo: sete anos e meio, o tempo que separa a primeira peça, datada de 17-1-1966, da última, de 27-6-1973. Aquela é o despachobque manda instaurar procedimento criminal contra os responsáveis da Antologia, com o argumento de que se trata (…) em cada um dos seus escritos, especialmente dos inéditos da autora e de outros que ela divulgou, e no seu conjunto [de] um caso de evidente ultraje à moral pública. O último elemento é o Auto de Inutilização [pelo fogo] do Livro Denominado Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, em que foi oficiante o juiz corregedor João Sá Alves Cortez, que chegaria a juiz do Supremo Tribunal de Justiça em Setembro de 1984, e o adjunto do Procurador da República Carlos Manuel Costa Saraiva. Com a referência a este aspecto não quero sugerir apenas que a lentidão da máquina judicial não é exclusiva da democracia; quero sobretudo pôr em evidência uma das peripécias mais interessantes do processo, a existência de dois inquéritos e de duas acusações, devido a um erro na primeira fase, detectado e declarado pelo ajudante (termo da época) do Procurador da República no 4.º Juízo Criminal de Lisboa.
O segundo aspecto menos conhecido tem a ver com os elementos concretos da acusação. Depois de uma fase de interrogatório na subdirectoria da Polícia Judiciária de Lisboa, que começa a 18-1-1966 com Natália Correia, a acusação será feita a 9-7-1966, vindo assinada por Fernando Lopes Melo. No seu ponto 4, lê-se o seguinte:

A publicação do referido livro é uma empresa dolosa de todos os arguidos, principalmente da Natália Correia e do Bento Melo, com mero intuito de explorar a desmoralização (sobretudo da juventude) sob o disfarce de apologia da liberdade, boa-fé, consciência (sic) límpida, cultura, obra e erudição e de civismo.

Mais à frente, no ponto 12, acrescenta-se:

Os escritos e os desenhos do mencionado livro que, segundo o consenso da generalidade das pessoas, são pornográficos, torpes, obscenos e de linguagem despejada conscientemente ofenderam publicamente, e podem continuar a ofender, o pudor geral, a decência pública, os bons costumes, o pudor sexual, a moralidade pública, // revelando até um propósito ultrajante.

No ponto seguinte são apresentados exemplos de passagens dos textos antologiados que, na perspectiva do acusador, consubstanciam a afirmação anterior. A consideração do conjunto suscita várias observações, a começar pelo facto de os trechos apresentados, sendo numerosos, pertencerem a um leque relativamente pequeno de autores, de um modo geral próximos de nós no tempo. De facto, são apenas seis os poetas não contemporâneos, três do século XVIII (António Lobo Carvalho, com quatro exemplos, José Agostinho Macedo, com três, e Bocage, com nove) e três do século XIX ou que nesse século maioritariamente exerceram a sua actividade (Sebastião Xavier Botelho, com um trecho, José Anselmo Correia Henriques, com dois, e Guerra Junqueiro, com um). Os restantes cinco eram contemporâneos, do século XX, embora só os dois últimos estivessem vivos em 1966: Silva Tavares (†1963), com um exemplo; Carlos Queiroz (†1949), também com um; Francisco Eugénio Santos Tavares (†1963), com cinco; Natália Correia, com um; Luiz Pacheco (†2008), também com um. Olhando depois para os trechos citados pelo acusador, verifica-se que houve uma clara secundarização da vertente satírica, apesar do conteúdo sociopolítico que ela apresenta em alguns casos, valorizando-se quase que em exclusivo a dimensão erótica e, dentro desta, o uso do chamado palavrão, em particular o que designa órgãos e práticas sexuais (v.g. co…/co…, crica, cu, cagueiro, cara…, caral…, caralh…, porra, arquiporra, pica, piça, mangal…, col…, pentelho, fod…, fornic…, lang…, min…, cor…, pu…). A leitura parece pois ter sido feita em diagonal, de meio do volume para a frente (além dos poetas medievais, ficaram de fora vários clássicos), e com o mero objectivo de encontrar palavras e expressões que chocassem, quod erat demonstrandum». In Francisco Topa, A sádica nostalgia das fogueiras do santo ofício: o processo judicial contra a Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica, See discussions, stats, and author profiles for this publication, https://www.researchgate.net/publication/318947457, Universidade do Porto, Academia, 2015-2017, Wikipedia.

Cortesia de Academia/UPorto/JDACT

terça-feira, 30 de julho de 2019

Antologia de Poesia Portuguesa. Natália Correia. «Pero Rodrigues, da vossa mulher, não acrediteis no mal que vos digam. Tenho eu a certeza que muito vos quer…»

jdact

Joguete Direito
«Pero Rodrigues, da vossa mulher,
não acrediteis no mal que vos digam.
Tenho eu a certeza que muito vos quer.
Quem tal não disser quer fazer intriga.
Sabeis que outro dia quando eu a fo…,
enquanto gozava, pelo que dizia,
muito me mostrava que era vossa amiga.

Se vou deu o céu mulher tão leal,
que vos não agaste qualquer picardia,
pois mente quem dela vos for dizer mal.
Sabei que lhe ouvi jurar outro dia
que vos estimava mais do que ninguém;
e para mostrar quanto vos quer bem,
fod… comigo assim me dizia».

CV 976, CBN 1319, lição de Rodrigues Lapa, Cântigas d’Escarnho e de Mal Dizer
[…]
In Natália Correia, Antologia de Poesia Portuguesa, Erótica e Satírica, Dos Cancioneiros Medievais à Actualidade, 1965, 1966, 1999, Herdeiros de Natália Correia, Cruzeiro Seixas, Ponto de Fuga, 2019, ISBN 978-989-888-115-1.

Cortesia de PontodeFuga/JDACT

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Antologia de Poesia Portuguesa. Natália Correia. «Senhores professores que pusestes a prémio minha rara edição de raptar-me em crianças que salvo…»

jdact

Erótica e Satírica
 «(…) Senhores juízes sou um poeta
Um multipétalo uivo um defeito
E ando com uma camisa de vento
Ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
De armazenado espanto e por fim
Com a paciência dos versos
Espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
Uma avaria cantante
Na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
O vosso enfarte serei
Não há cidade sem o parque
Do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
A prémio minha rara edição
De raptar-me em crianças que salvo
Do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
De em pó volverdes sois os reis
Sou um poeta jogo-me aos dados
Ganho as paisagens que não vereis.
[…]
In Natália Correia, Antologia de Poesia Portuguesa, Erótica e Satírica, Dos Cancioneiros Medievais à Actualidade, 1965, 1966, 1999, Herdeiros de Natália Correia, Cruzeiro Seixas, Ponto de Fuga, 2019, ISBN 978-989-888-115-1.

Cortesia de PontodeFuga/JDACT

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Antologia de Poesia Portuguesa. Natália Correia. «Dão-nos um nome e um jornal, um avião e um violino, mas não nos dão o animal que espeta os cor… no destino»

jdact

Erótica e Satírica
 «Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
E um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola.

Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e calendário
Onde não vem a nossa idade.

Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência
Dão-nos o prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência.

Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato.
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro.

Penteiam-nos os crânios ermos
Com as cabeleiras dos avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós.

Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa história sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra para o medo.

Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Sonos vazios, despovoados
De personagens do assombro.

Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco.
Dão-nos um pente e um espelho
Para pentearmos um macaco.

Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura.

Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante.

Dão-nos um nome e um jornal,
Um avião e um violino,
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cor… no destino.

Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte.
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida. Nem é a morte»

In Natália Correia, Antologia de Poesia Portuguesa, Erótica e Satírica, Dos Cancioneiros Medievais à Actualidade, 1965, 1966, 1999, Herdeiros de Natália Correia, Cruzeiro Seixas, Ponto de Fuga, 2019, ISBN 978-989-888-115-1.

Cortesia de PontodeFuga/JDACT

sábado, 29 de junho de 2019

A Sádica Nostalgia das fogueiras do Santo Ofício (maldito): o processo judicial contra a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Francisco Topa «A contestação mais interessante à primeira acusação é a de Mário Cesariny Vasconcelos, provavelmente elaborada pelo seu advogado, Fernando Luso Soares»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os termos do libelo são idênticos, mantendo-se também os 29 exemplos, a que se juntam contudo outros 13, todos da autoria de algum dos arguidos: um é retirado de um texto de Luiz Pacheco, nove pertencem a Ary dos Santos, ao passo que os restantes três são de Melo e Castro. Percebe-se o objectivo de tentar implicar mais diretamente cada um dos acusados, o que é confirmado pela natureza diferente destes trechos: embora às vezes esteja em causa uma linguagem crua e o recurso ao palavrão, parece, sobretudo nos casos de Luiz Pacheco e Ary dos Santos, que é o alcance sociopolítico e o efeito iconoclasta que é objecto de reparo e de tentativa de criminalização. Vejam-se os seguintes dois exemplos (f. 232), um de cada autor:

«Assim termina o lamento
Pois recordar é sofrer
Ama e fo… É bom sustento!
E por nós reza um bater».

«O Cordeiro de Deus foi assado no espeto
Extraíram-lhe o bedum…, esfregaram-no com sal
Comeram-lhe os col…. Deixaram-lhe o esqueleto
Tiraram-lhe o retrato para pôr num missal»

A acusação acrescenta que O livro em questão foi vendido publicamente, a mais de seis pessoas e que Foram apreendidos 37 exemplares do mesmo. É escusado sublinhar que, noutro contexto, ambos os números teriam sido certamente considerados ridículos e insuficientes para justificar os crimes que estavam em causa. O quinto aspecto menos conhecido do processo tem a ver com os argumentos usados pela defesa, e é talvez o mais interessante. Parte dos argumentos é previsível e passa pelo acentuar da validade e do interesse deste tipo de poesia e pela negação da intenção de ofender a moral pública. Natália Correia, nas declarações que presta na Polícia Judiciária a 18-1-1966, invoca os precedentes abertos por Carolina Michäelis Vasconcelos [como já fizera no prefácio] e nos nossos dias por Elsa Pacheco Machado e do Doutor Rodrigues Lapa, que publicaram respectivamente, o Cancioneiro da Biblioteca Nacional e as Cantigas de Escarno e Maldizer, colecções essas de nível universitário que são vendidos (sic) abertamente nas nossas livrarias e nas quais se encontram algumas das produções que vêm na Antologia referida nos autos e cuja terminologia é pelo menos tão violenta como a da presente Antologia, se não for mais. Na contestação à primeira acusação, afirma, ela ou o seu advogado, Manuel João Palma Carlos, de modo contundente, numa retomada dos argumentos habitualmente usados pelas vítimas de processos deste tipo. Um dos elementos interessantes apresentados por Natália Correia é uma carta do poeta Eugénio Andrade, em que este uma nota de gratidão.
A contestação mais interessante à primeira acusação é a de Mário Cesariny Vasconcelos, provavelmente elaborada pelo seu advogado, Fernando Luso Soares. Para além da sólida fundamentação jurídica, o autor discute com finura a natureza da sátira e do erotismo e recorre a argumentos emblemáticos da histórica literária. A dada altura cita dois casos de reacção judicial contra escritores: Dostoievski, que foi acusado de se ter compadecido do destino miserável dos camponeses que se encontravam reduzidos à condição de escravos». In Francisco José Jesus Topa, A Sádica Nostalgia das fogueiras do Santo Ofício: o processo judicial contra a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Revista Historiae, Universidade do Porto, Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, Espólio de Natália Correia, Torre do Tombo, Tribunal de Comarca de Lisboa, 4.º Juízo Criminal, 2015.

Cortesia de RHistoriae/UdoPorto/TorredoTombo/JDACT

terça-feira, 14 de maio de 2019

A Sádica Nostalgia das fogueiras do Santo Ofício (maldito): o processo judicial contra a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Francisco Topa «Uma quarta vertente do processo que vale a pena pôr em relevo diz respeito à peripécia jurídica a que já aludi…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quanto às testemunhas arroladas pelos arguidos, a reflexão é mais difícil de fazer, devido ao seu número e diversidade, por um lado, mas sobretudo porque implicam frequentemente relações pessoais hoje difíceis de reconstituir. Seja como for, observa-se um nítido predomínio de grandes figuras (quase sem excepção do sector intelectual e, tirando Fernanda Botelho, todas masculinas), num aparente sinal de solidariedade que não pode deixar de nos surpreender. Dominam os escritores, com alguns nomes previsíveis, como Bernardo Santareno, Urbano Tavares Rodrigues, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Luiz Francisco Rebelo (autor de uma parte da badana e que integra também a antologia), José Cardoso Pires, Alexandre O’Neill (um dos antologiados) ou Jaime Salazar Sampaio; mas há também nomes menos esperados, como Vergílio Ferreira, João Gaspar Simões, José Régio ou David Mourão-Ferreira (os dois últimos colaboradores do volume e David também autor de uma parte da badana); e dois um tanto surpreendentes: Almada Negreiros (indicado por Ary dos Santos) e António Manuel Couto Viana (arrolado por Luiz Pacheco). Entre as testemunhas há ainda um número razoável de críticos (José-Augusto França, Rui Mário Gonçalves, Tomás Ribas, José Palla Carmo, João Palma-Ferreira, Serafim Ferreira), alguns pensadores (José Marinho, Orlando Vitorino), professores (Hernâni Cidade, Vitorino Nemésio), médicos (Francisco Barreto Alvim, Almerindo Lessa), editores (Vítor Silva Tavares, António Palouro), um arquitecto do calibre de Conceição Silva, um compositor como Lopes Graça ou um jurista como Fernando Abranches Ferrão. Mas há igualmente duas figuras à partida difíceis de compreender: João Bernardo Gíria (provedor da Misericórdia da Covilhã e simpatizante do regime, indicado por Melo Castro) e, sobretudo, o jornalista e crítico Amândio César (arrolado por Luiz Pacheco como forma de pressionar os principais arguidos a arranjarem-lhe um advogado que não fosse oficioso).
Uma quarta vertente do processo que vale a pena pôr em relevo diz respeito à peripécia jurídica a que já aludi. A 10-V-1967, o ajudante do Procurador da República, em ofício ao juiz corregedor presidente do 4.º Juízo Criminal de Lisboa, nota que há no processo certas anomalias que cumpre debelar. (f. 176): na sua opinião, um dos elementos essenciais do crime de que os réus são acusados consistiria em expor, pôr à venda ou publicitar de qualquer forma o impresso; Ora, os elementos recolhidos em instrução não permitem com segurança, mesmo no campo meramente indiciário, concluir pela verificação de tal requisito que, possivelmente, se terá dado. Conclui, portanto, que terá havido um lapso do seu antecessor e que a pronúncia estaria viciada, dando assim por verificada a nulidade, por insuficiência do corpo de delito. Solicita por isso a anulação de uma parte do processado e o envio dos autos à Polícia Judiciária para a regularização e feitura das necessárias diligências, indispensáveis ao esclarecimento da verdade. (f. 176v). Mesmo não tendo formação jurídica, julgo poder observar que o magistrado fez aqui o papel que caberia à defesa, a quem terá escapado um aspecto talvez dado por adquirido.
Nove dias depois, os autos são remetidos para a subdirectoria da Polícia Judiciária de Lisboa, que a 6 de Julho recebe um ofício da PIDE (f. 192) comunicando a apreensão de 24 exemplares da Antologia em casa de Natália Correia e 13 na Tipografia da Sociedade Astória que se destinavam à Biblioteca Nacional. Satisfeito aparentemente o quesito invocado pelo ajudante do Procurador da República, o processo volta ao 4.º Juízo Criminal de Lisboa e, a 1-II-1968, é deduzida nova acusação contra os mesmos réus (à excepção de Artur Geraldo Soares, que entretanto tinha falecido)». In Francisco José Jesus Topa, A Sádica Nostalgia das fogueiras do Santo Ofício: o processo judicial contra a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Revista Historiae, Universidade do Porto, Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, Espólio de Natália Correia, Torre do Tombo, Tribunal de Comarca de Lisboa, 4.º Juízo Criminal, 2015.

Cortesia de RHistoriae/UdoPorto/TorredoTombo/JDACT

A Sádica Nostalgia das fogueiras do Santo Ofício (maldito): o processo judicial contra a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Francisco Topa. «O terceiro aspecto menos conhecido do processo diz respeito aos arguidos, seus advogados e testemunhas arroladas»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) No ponto seguinte são apresentados exemplos de passagens dos textos antologiados que, na perspectiva do acusador, consubstanciam a afirmação anterior. A consideração do conjunto suscita várias observações, a começar pelo facto de os trechos apresentados, sendo numerosos (29), pertencerem a um leque relativamente pequeno de autores (11), de um modo geral próximos de nós no tempo. De facto, são apenas seis os poetas não contemporâneos, três do século XVIII (António Lobo Carvalho, com quatro exemplos, José Agostinho Macedo, com três, e Bocage, com nove) e três do século XIX ou que nesse século maioritariamente exerceram a sua actividade (Sebastião Xavier Botelho, com um trecho, José Anselmo Correia Henriques, com dois, e Guerra Junqueiro, com um). Os restantes cinco eram contemporâneos, do século XX, embora só os dois últimos estivessem vivos em 1966: Silva Tavares, faleceu em 1963, com um exemplo; Carlos Queiroz, faleceu em 1949, também com um; Francisco Eugénio Santos Tavares, faleceu em 1963, com cinco; Natália Correia, com um; Luiz Pacheco, morreu em 2008, também com um. Olhando depois para os trechos citados pelo acusador, verifica-se que houve uma clara secundarização da vertente satírica, apesar do conteúdo sociopolítico que ela apresenta em alguns casos, valorizando-se quase que em exclusivo a dimensão erótica e, dentro desta, o uso do chamado palavrão, em particular o que designa órgãos e práticas sexuais (v.g. co…/co…, crica, cu, cagueiro, ca…, ca…, car…, porra, arquipor…, pica, piça, mangalho, co…, pente…, fo…, forni…, lang…, mi…, cor…, pu…). A leitura parece pois ter sido feita em diagonal, de meio do volume para a frente (além dos poetas medievais, ficaram de fora vários clássicos), e com o mero objectivo de encontrar palavras e expressões que chocassem, quod erat demonstrandum.

O terceiro aspecto menos conhecido do processo diz respeito aos arguidos, seus advogados e testemunhas arroladas. Quanto aos primeiros, são bem sabidos os que acabaram por sair condenados: Natália Correia, o editor Fernando Ribeiro Melo e os poetas Mário Cesariny Vasconcelos (1923 - 2006), Luiz Pacheco, Ary dos Santos (1937 - -1984) e EM. Melo Castro (1932). Houve contudo mais dois arguidos: Geraldo Soares, jornalista de O Século, e Francisco Marques Esteves, empregado de escritório, que forneceram a Natália Correia inéditos de poetas contemporâneos já falecidos à época (como Silva Tavares, António Botto [1897 - 1959] ou Carlos Queiroz). O primeiro desses dois implicados virá a morrer no decurso do processo, a 1-IV-1967 (f. 166), vítima de tumor pulmonar, ao passo que o segundo será absolvido. Quanto aos advogados, podemos dizer que os arguidos, e depois acusados, foram representados pela fina-flor da advocacia da época que militava na oposição ao regime: Manuel João Palma Carlos (falecido em 2001, aos 86 anos, na sequência de um incêndio que atingiu o lar de idosos em que vivia e que vitimou mais cinco ocupantes), o qual defendeu Natália Correia, Ribeiro Melo e Francisco Marques Esteves; Fernando Luso Soares (morto em 2004 e que se destacou também como ficcionista, ensaísta e dramaturgo), advogado de Mário Cesariny; Francisco Salgado Zenha (desaparecido em 1993), que tinha como constituinte Melo Castro; José Vera Jardim (1939), que representou Ary dos Santos (embora a dada altura subestabeleça num colega); e ainda Francisco Vicente, que acompanhou Artur Geraldo Soares, e um advogado oficioso atribuído a Luiz Pacheco que seria mais tarde substituído por António Sousa. É curioso notar que dois dos elementos desta pequena lista viriam a ser ministros da justiça depois da Revolução dos Cravos (Salgado Zenha e Vera Jardim) e que um outro, Palma Carlos, teve o mesmo destino dos exemplares da Antologia apreendidos pela PIDE: a destruição pelo fogo. Sinais dos tempos, certamente, sobre os quais importa meditar». In Francisco José Jesus Topa, A Sádica Nostalgia das fogueiras do Santo Ofício: o processo judicial contra a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Revista Historiae, Universidade do Porto, Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, Espólio de Natália Correia, Torre do Tombo, Tribunal de Comarca de Lisboa, 4.º Juízo Criminal, 2015.

Cortesia de RHistoriae/UdoPorto/TorredoTombo/JDACT

A Sádica Nostalgia das fogueiras do Santo Ofício (maldito): o processo judicial contra a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. Francisco Topa «O primeiro aspecto menos conhecido tem a ver com a duração do processo: sete anos e meio, o tempo que separa a primeira peça, datada de 17-I-1966, da última, de 27-VI-1973»

Cortesia de wikipedia e jdact

Resumo
«O artigo aborda um caso concreto da limitação da liberdade de impressa no Estado Novo português: o processo judicial contra a Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica publicada em 1966 pela poetisa Natália Correia (1923-/-1993)».

«Nos seus contornos gerais, o modo de funcionamento e os efeitos da censura no período do Estado Novo português são bem conhecidos, o mesmo acontecendo com a sua repercussão sobre a criação literária. Apesar disso, continuam a faltar trabalhos aprofundados sobre casos concretos. É um pequeno contributo nesse sentido que este artigo procura dar, abordando o processo Judicial (depositado na Torre do Tombo: Tribunal de Comarca de Lisboa, 4.º Juízo Criminal, Processo n.º 90 / 1966) que teve por base a Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica (Correia, 1966), no qual figuraram como réus Natália Correia, a organizadora, Fernando Ribeiro Melo (1941-/-1992), o editor, e alguns dos poetas com textos incluídos no volume e que estavam vivos à época. Com efeito, há neste caso uma série de elementos ignorados e que vale a pena revelar e tomar como motivo de reflexão, numa época em que quase todos os protagonistas já desapareceram, e, em muitos casos, foram esquecidos, e em que outras formas de censura e de vigilância do pensamento se vão impondo.
O primeiro aspecto menos conhecido tem a ver com a duração do processo: sete anos e meio, o tempo que separa a primeira peça, datada de 17-I-1966, da última, de 27-VI-1973. Aquela é o despacho que manda instaurar procedimento criminal contra os responsáveis da Antologia, com o argumento de que se trata (…) em cada um dos seus escritos, especialmente dos inéditos da autora e de outros que ela divulgou, e no seu conjunto [de] um caso de evidente ultraje à moral pública. (f. 2). O último elemento é o Auto de Inutilização [pelo fogo] do Livro Denominado Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica (f. 491), em que foi oficiante o juiz corregedor João Sá Alves Cortez, que chegaria a juiz do Supremo Tribunal de Justiça em Setembro de 1984, e o adjunto do Procurador da República Carlos Manuel Costa Saraiva. Com a referência a este aspecto não quero sugerir apenas que a lentidão da máquina judicial não é exclusiva da democracia; quero sobretudo pôr em evidência uma das peripécias mais interessantes do processo, a existência de dois inquéritos e de duas acusações, devido a um erro na primeira fase, detectado e declarado pelo ajudante (termo da época) do Procurador da República no 4.º Juízo Criminal de Lisboa.
O segundo aspecto menos conhecido tem a ver com os elementos concretos da acusação. Depois de uma fase de interrogatório na subdirectoria da Polícia Judiciária de Lisboa, que começa a 18-I-1966 com Natália Correia, a acusação será feita a 9-VII-1966, vindo assinada por Fernando Lopes Melo. No seu ponto 4, lê-se o seguinte:

A publicação do referido livro é uma empresa dolosa de todos os arguidos, principalmente da Natália Correia e do Bento Melo, com mero intuito de explorar a desmoralização (sobretudo da juventude) sob o disfarce de apologia da liberdade, boa-fé, consciência (sic) límpida, cultura, obra de erudição e de civismo (f. 59v)

Mais à frente, no ponto 12, acrescenta-se:

Os escritos e os desenhos do mencionado livro que, segundo o consenso da generalidade das pessoas, são pornográficos, torpes, obscenos e de linguagem despejada conscientemente ofenderam publicamente, e podem continuar a ofender, o pudor geral, a decência pública, os bons costumes, o pudor sexual, a moralidade pública, // revelando até um propósito ultrajante. (f 60v-61)»

In Francisco José Jesus Topa, A Sádica Nostalgia das fogueiras do Santo Ofício: o processo judicial contra a Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica, Revista Historiae, Universidade do Porto, Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Ponta Delgada, Espólio de Natália Correia, Torre do Tombo, Tribunal de Comarca de Lisboa, 4.º Juízo Criminal, 2015.

Cortesia de RHistoriae/UdoPorto/TorredoTombo/JDACT

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Dez Anos Depois… Natália Correia. «Ela tinha, na altura, uma vida tripla: de intelectual, de política e de mulher de sociedade. Ia jogar bridge no Estoril com as senhoras bem, e roleta no casino existente no hotel do marido»

Cortesia de wikipedia e jdact

[…]
As Noites do Botequim
«Última grande tertúlia de Lisboa, proporcionava a comunhão com pessoas de espírito e ousadia, fundamental para se evitar a cultura desvivenciada, lembrava, pois só quando se está muito na vida se pode transmiti-la aos outros. As divisões da casa onde Natália viveu e morreu eram harmoniosas, amplas, quinto andar sóbrio, sólido, paredes e decoração espessas, paralelo à Avenida da Liberdade, junto ao Marquês de Pombal. Ecos de vozes no exterior, estalidos de madeiras no interior, reposteiros de veludo, estantes de vibrações, objectos de memórias davam-lhe uma sedução inesquecível, a sedução da passagem do tempo, do adensar das sombras, da finitude, da decadência. Um dia vim aqui visitar uns amigos e a sua atmosfera atraiu-me logo, conta-me. Eles foram-se embora e este espaço esteve muito tempo devoluto, como que à espera de eu me casar e o alugar. Casou-se e alugou-o.
Alfredo Machado Lage (o único homem que verdadeiramente amei, confidenciará) tornou-se o seu terceiro marido. Deixou o andar onde residia com a mãe, a irmã, uma criada, a Menina Esmeralda (alugara-o a meias com Vera Lagoa), e mudou-se. Hóspede e amigo da mãe, Cardoso Mata, um bibliófilo afamado, ceder-lhe-ia a sua gigantesca biblioteca (avaliada em mais de dez mil contos), que Natália compraria e enriqueceria.

Vida Tripla
Ela tinha, na altura, uma vida tripla: de intelectual, de política e de mulher de sociedade. Ia jogar bridge no Estoril com as senhoras bem, e roleta no casino existente no hotel do marido. Foi a mãe que a introduziu nos meios da oposição, conta-me, uma semana antes de falecer, Tomás Ribas, o maior e mais antigo, e fiel, e crítico, e profundo amigo da poetisa. A Natália, que casara muito jovem com Álvaro Santos Dias Pereira, esteve para se consorciar com o senhor Machado pouco depois de o ter conhecido. Chegou até a dar uma festa de despedida de solteira..., mas quando pensávamos que era ele o noivo, apresentou um americano que acabara de encontrar, chamado Billy. Casou-se e partiu com ele para os Estados Unidos, país que detestou. Foi nessa altura que escreveu o livro Descobri que era europeia. Meses mais tarde divorciou-se e regressou. Radicada em Lisboa, Natália toma-se colaboradora do semanário O Sol , depois de ter passado pelo Rádio Clube Português, onde trabalhou com a irmã e onde eram conhecidas como as Meninas Balalaikas.
Relaciona-se com Ferreira Castro, Maria Archer, António Sérgio, Manuel Fonseca, Jaime Cortesão, Manuel Lima, Cesariny, Rogério Paulo, Almada, tomando-se, a partir daí, presença irrecusável entre intelectuais, artistas e políticos. Acusavam-me, continuam a acusar-me de tanta coisa, de ser promíscua, de ter relações com homens e mulheres..., o problema é que eu quase não tenho libido. Mesmo em nova, o sexo nunca representou grande coisa para mim. Sempre gostei, por outro lado, de homens mais velhos do que eu..., ora nesta altura, com a idade que eles têm, já não funcionam, confidenciava com indisfarçável pudor, era, aliás, muito púdica no que dizia respeito à sua intimidade. A maior parte das pessoas apenas viam em mim a fêmea, o corpo, só depois percebiam que eu tinha ideias, talento. Isso maçava-me muito, e revoltava-me. Depressa deixará de se preocupar com o corpo. A beleza, a elegância perdidas não pareciam melancolizá-la. Uma vez por semana a cabeleireira ia arranjá-la a casa, pormenoriza-me Helena Cantos, sua amiga de juventude. Não comprava roupas e os vestidos eram feitos pela porteira. Quando morreu houve até dificuldade em escolher um em bom estado, para a amortalharmos. Levou o azul escuro, de veludo, que envergava nas ocasiões de maior cerimónia». […] In Fernando Dacosta

In Natália Correia, Dez Anos Depois…, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Secção de Estudos Franceses do DEPER, 2003, ISBN 972-935-080-9.

Cortesia de FLUPorto/SUF/DEPER/JDACT

Dez Anos Depois… Natália Correia. «A noite, reservava-a para os amigos e os admiradores no Botequim, que abriu com a poetisa Isabel Meyreles, nos anos sessenta»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Natalidade de Natália
«(…) Natália Correia está hoje numa espécie de limbo. Limbo é o local onde repousam as almas dos grandes inocentes e dos grandes perversos, ou seja das crianças e dos criadores, que ela era, até ao excesso. Não se tornava fácil compreendê-la. Nem amá-la. Fazê-lo, exigia sentimentos, disponibilidades especiais. Era um ser tocado pelo sagrado, um desses seres que não cabem no espaço que lhes foi destinado, nem no corpo, nem nas normas, nem nos modelos, nem nos sentimentos. Os que a não aguentavam, combatiam-na não pelas ideias mas pelos tiques, não pela criação mas pela distracção, tentando reduzi-la a anedotários de efeitos fáceis e falsos. Ao mesmo tempo forte e desprotegida, imponente e indefesa, egoísta e generosa, arguta e ingénua, dissimulada e frontal, sentia-se, ante as coisas rasteiras (e as pessoas, e as acções) perdida; só as grandes a tocavam, galvanizando-a. Então toda ela ganhava golpe de asa, vertigem. Era esplendoroso vê-la a entrar nos templos de chicote em punho, isto é, de palavra viva, zurzindo os vendilhões, os traficantes, os hipócritas, os videirinhos. Era magnífico acompanhá-la nas suas estradas de Damasco em direcção à utopia, ao amor, à justiça, à criatividade, à elegância, levando pelo braço poetas e amantes, perseguidos e ostracizados, loucos e solitários. Poetisa, dramaturga, romancista, ensaísta, cronista, conferencista, deputada, oradora, editora, tradutora, Natália Correia marcou transversalmente várias gerações e identidades de nós. A literatura (através da ficção e da reflexão), a comunicação social (dos jornais e da TV), a política (de intervenções parlamentares e ideológicas), o convívio (de colóquios e tertúlias) foram os grandes campos onde se afirmou, se popularizou, se acrescentou.
A ilha (nasceu em S. Miguel) deu-lhe o gosto mágico pela vida. Ela é a mãe, é a fatalidade dos insulares, comentava. É o território do oculto, da partida, do regresso. Onde vos retiver a beleza de um lugar, há um deus que vos indica o caminho do espírito, avisava. A noção de Pátria e de Mátria, acrescenta a de Frátria. Frátria como símbolo de fraternidade, de igualdade, de equidade.
Bate-se pela recuperação do sagrado, do politeísmo, do femininista, do barroco, do diferente, e pelo repúdio da crucificação, do consumismo, do descontrolo demográfico, da arrogância indiferenciadora. Como atingir a paz com os olhos postos num só deus, se as guerras são fornecidas pela nossa fé na vitória sobre a fé dos outros!, interrogava-se. Os grandes mitos portugueses encontraram em si uma celebrante incomum: o mito do Andrógino (o ser completo, uno e plural), do Desejado (o que contém a resistência, não a desistência), de Pedro e Inês (a paixão, a volúpia pela morte), da Ilha (o espaço da esfinge, da iniciação). A todos dedicou obras próprias, reformulando-os, dando-lhes dimensões de novos futuros e liberdades. As causas, as pessoas do coração e do sonho, e da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação. Sabia indignar-se com grandeza, e indignar os outros à sua altura. Muitas vezes perdia a cabeça connosco e nós com ela. Sufocava-nos. Muitas vezes apetecia-nos fugir. Não aguentávamos a sua energia, a sua lucidez, a sua exigência, o seu empenhamento, a sua implacabilidade. Muitas vezes tentámos matá-la em nós para sermos nós. Até nisso nos ajudou. Era uma mulher inigualável. Nos caprichos, nos excessos, nas iras, nas premonições, nos exibicionismos, na sedução, na coragem, na esperança. Cantava, dançava, declamava, improvisava, discursava, polemizava como poucos entre nós alguma vez o fizeram, o somaram.

As Noites do Botequim
A noite, reservava-a para os amigos e os admiradores no Botequim, que abriu com a poetisa Isabel Meyreles, nos anos sessenta. Vendo o marido arruinado (fora um hoteleiro próspero), arranjou-lhe, no Largo da Graça, um pequeno bar para administrar, e se ocupar. Espaço único, marcaria a vida política e cultural portuguesa das últimas décadas do século. Por ele, pelas suas madrugadas, passaram (até fechar em 1995) projectos exaltantes, exultantes, de artes, de utopias, de generosidades, de cumplicidades; pela sua saleta de veludos e músicas, inúmeras estratégias de revoluções, de ficções foram feitas, desfeitas, sem desânimo nem remorso. Romances e filmes, peças e recitais, debates e canções, quadros e fantasias, viagens e homenagens nasceram nas suas mesas, entre rosbifes e champanhes, generais e presidentes, embaixadores e vadios, loucos e amantes, sob a energia, a natalidade de Natália que fez dele, para a nossa memória, para nosso afecto, um casulo, um sol nas noites e um luar nos dias». […] In Fernando Dacosta

In Natália Correia, Dez Anos Depois…, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Secção de Estudos Franceses do DEPER, 2003, ISBN 972-935-080-9.

Cortesia de FLUPorto/SUF/DEPER/JDACT