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terça-feira, 29 de junho de 2021

Poesia. Gilka Machado. «De súbito, houve um pasmo de esplendor, uma ebriez de beleza... E nossas almas se chocaram vertiginosamente…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Viagem ao Sétimo Céu

«Viagem de nossas almas,

galgando alturas,

vencendo longes,

na noite quente

que milhões de luzes

abrasavam ainda mais

Por entre céus,

subíamos

ao Silvestre;

a cidade,

lá em baixo,

era um céu infernal

e o céu dilatava os olhos

enamoradamente

para as estrelas

que bailavam no abismo

Que silêncios

e que ermos,

e que distâncias

incomensuráveis

entre nossos destinos!

Nossas almas viajavam

e as mãos afrodisíacas do vento

afagavam as ervas do caminho

e misturavam nossos cabelos

De súbito,

houve um pasmo de esplendor,

uma ebriez de beleza...

E nossas almas se chocaram

vertiginosamente,

num beijo sem lábios...

Chegaremos um ao outro

A cidade estendia

um tapete de sóis

aos nossos pés;

e nos olhares das estrelas

havia vontades longas

de escorregar para a terra;

e em toda a espiritualidade

do infinito

vislumbrei o desejo humano

de se precipitar

sobre o céu novo da cidade

infernalmente iluminada

E em meus membros senti

uma súbita fuga,

um desagregamento

de mim mesma,

uma ânsia de adormecer

nos seus braços

esta velha fadiga de ser alma».

Poema de Gilka Machado, in Wikipedia

Cortesia de wikipedia/JDACT

Poesia, JDACT, Gilka Machado, Brasil, 

segunda-feira, 28 de junho de 2021

Poesia. Gilka Machado. «Pensa que, só por teu sabor de um dia glória de uma conquista singular minha vida perdeu toda a alegria, é uma morte que vivo devagar!»

Cortesia de wikipedia e jdact

[…]

Voz feminina de alta categoria poética, Gilka Machado está entre as mulheres que, durante o

tempo em que construíram suas obras, não tiveram o justo reconhecimento de seu valor. Felizmente, o facto de ter alcançado a idade de 87 anos, permitiu-lhe conhecer em vida a consagração dos meios oficiais. De família de poetas, músicos e artistas, Gilka Machado revelou muito cedo sua atracção pela poesia. Estreia em livro, com Cristais partidos, poesia que expressa o sincretismo finissecular (fusão de parnasianismo, decadentismo e esteticismo d’annunziano), e a ousada temática do desejo erótico ou de desafio ao interdito ao sexo, mas sempre em conflito com uma funda ânsia de pureza. É em Gilka Machado que se expressa com mais evidência o conflito entre o pecado e o desejo de pureza, impulsos que a tradição estigmatizara como contraditórios e excludentes».

A vez primeira em que fitei Tereza

«A vez primeira

em que te vi comigo,

de olhos voltados para

os olhos meus,

ante o impossível

de seguir-te, amigo,

tive desejos

de dizer-te adeus

Passaram meses...

Nosso amor crescia

(e assim o houvesse

conservado Deus!)

Naquela sereníssima agonia

trocando olhares

e dizendo adeus!

Tentei fugir,

mas fui por ti vencida,

e, um dia,

presa entre os braços teus,

tive a impressão

da extrema despedida...

Primeiro beijo, derradeiro adeus!...

Veio-te a saciedade

do desejo;

teceu o fado

os labirintos seus...

Tão perto ainda

e já quão longe vejo

o teu amor

a me dizer adeus!

Passou depressa...

Como que se evade

teu lindo vulto,

entre os soluços meus...

Vieste para deixar

esta saudade

a me acenar,

num imortal adeus!...»


Meu Glorioso Pecado

«Se te injuriei, por uma rebeldia

dos meus nervos exaustos de pesar,

pensa com que perversa hipocrisia

tu me agastaste para me magoar!

 

Pensa que, só por teu sabor de um dia

glória de uma conquista singular

minha vida perdeu toda a alegria,

é uma morte que vivo devagar!

 

Sempre a revolta vem de uma agonia:

a injúria ser um beijo poderia,

teu beijo envenenou-me o paladar


Medita alma volúvel, alma fria:

Quanta vez uma ofensa acaricia!

Como um carinho sabe nos matar!»

Poema de Gilka Machado, in Wikipedia

Cortesia de wikipedia/JDACT

Poesia, JDACT, Gilka Machado, Brasil,

Gilka Machado. Poesia. «Alegria de amar, inquietação que tento em vão refrear, volúpia que em meus membros tumultua, de sair pela rua…»

Cortesia de wikipedia e jdact

[…]

Gilka Machado foi a maior figura feminina de nosso Simbolismo, em cuja ortodoxia se encaixa com seus dois livros capitais, Cristais Partidos e Estados de Alma. Nem sua ousadia tinha impureza, mas punha à mostra a riqueza dos seus sentidos, especialmente de um pouco explorado em poesia, o tacto. Sua sensibilidade é requintada, algo excêntrica, mas profundamente feminina. Se é intensiva a experiência de Gilka Machado, como poetisa e mulher reivindicadora, há outras barreiras a vencer entre a militância poética e a militância doméstica. Havia uma distância, na sua época, entre o campo da sacralidade da arte e certos aspectos da vida rotineira, que o simbolismo intensifica, o modernismo desenvolve e autoras mais contemporâneas, como Adélia Prado, consumam. Gilka Machado, a viúva do poeta Rodolfo Machado, a mulher dona de pensão que cozinhava para tantos poetas de sua época, como Tasso Silveira e Andrade Muricy, por exemplo, enquanto fazia poesia, esta ainda habita os porões do cenário poético. Já fizera emergir dos porões, no entanto, um dos monstros proibidos: o modo de representação da ansiedade erótica que delineia um projecto novo ou um novo jeito de querer ser mais mulher; e que justifica, penso eu, o considerar a poesia de Gilka Machado como precursora na luta pelos direitos de acesso à representação do prazer erótico na poesia feminina brasileira.

[…]

Alegria de Amar

«Alegria de amar

 anseio de apertar

nos meus braços o mar,

de desfolhar

as rosas com meus beijos!...

Alegria de amar

desejo de, num grito,

ascender,

ascender,

para o azul do infinito

e espreguiçar-me

pelas curvas de éter!...

Alegria de amar

vontade de escrever

nos longes do ar,

para que de onde estás

pudesses lê-las,

estas estrofes,

mas com o fogo das estrelas!

Alegria de amar,

inquietação

que tento em vão

refrear,

volúpia

que em meus membros

tumultua,

de sair pela rua

em desatino,

como se houvesse marcado

um encontro com o Destino!...

Alegria de amar

necessidade de desabafar

recalcada tristeza,

de te sonhar disperso

na beleza,

de te afagar

em toda a natureza,

como se, por milagre,

me chegasses!

Alegria de amar

que me transborda

em lágrimas nas faces

Alegria de amar

na manhã transparente,

na tarde azul,

na noite cheia de fulgor;

alegria de amar

indefinidamente,

à criação,

às criaturas,

ao Criador!...

Alegria de amar

que me alvoroça a mente

e o sangue me acelera,

que me faz caminhar

alucinadamente,

com todo o corpo

de saudade doente,

na esperança infantil

de saber que

alguém me espera!...»

Poema de Gilka Machado, in Wikipedia

Cortesia de wikipedia/JDACT

Poesia, JDACT, Gilka Machado, Brasil,

sábado, 26 de junho de 2021

Gilka Machado. Poesia. «Tenho certeza, minha louca, de lhe dar a morder em ti meu coração!... Língua do meu Amor velosa e doce…»

Cortesia de wikipedia e jdact

[…] Além de talentosa poetisa, Gilka também era uma mulher do seu tempo, que participou dos movimentos em defesa dos direitos das mulheres. Fez parte do grupo da professora Leolinda Daltro que fundou em Dezembro de 1910 o Partido Republicano Feminino, do qual foi segunda secretária. Seu primeiro livro de poesia, Cristais Partidos, foi publicado em 1915. Em 1916 foi publicada sua conferência A Revelação dos Perfumes, no Rio de Janeiro. Em 1917 publicou Estados de Alma e, em seguida, no ano de 1918, Poesias, 1915/1917, Mulher Nua, em 1922, O Grande Amor, Meu Glorioso Pecado, em 1928, e Carne e Alma, em 1931. Em 1932, foi publicada em Cochabamba, Bolívia, a antologia. No ano seguinte, a escritora foi eleita a maior poetisa do Brasil, por concurso da revista O Malho, do Rio de Janeiro. Sublimação foi publicada em 1938, Meu Rosto em 1947, Velha Poesia em 1968 e em 1978 a partir de uma selecção pessoal dos livros: Cristais Partidos, Estados de Alma, Mulher Nua, Meu Gloriosos Pecado e Velha Poesia, publicou Gilka Machado, Poesias Completas.

Recebeu o Prémio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras, em 1979. Faleceu no Rio de Janeiro, a 17 de Dezembro de 1980.

A forma ousada dos seus versos, de um ritmo livre e bastante pessoal, harmoniza-se com a liberdade de inspiração, onde predomina um forte sensualismo, tão forte que Humberto Campos notava-lhe nos poemas verdadeiras 'tempestades de carne... Seus livros provocavam, simultaneamente, admiração e escândalo, já que a poetisa confessava sentir pelos no vento, desejava penetrar o amado 'pelo olfacto, assim como as espiras/invisíveis do aroma... e declarava, sem rebuços: eu sinto que nasci para o pecado…

[…]

Lépida e leve

«Lépida e leve

em teu labor que, de expressões à míngua,

o verso não descreve...

Lépida e leve,

guardas, ó língua, em teu labor,

gostos de afago e afagos de sabor.

És tão mansa e macia,

que teu nome a ti mesma acaricia,

que teu nome por ti roça, flexuosamente,

como rítmica serpente,

e se faz menos rudo,

o vocábulo, ao teu contacto de veludo.

Dominadora do desejo humano,

estatuária da palavra,

ódio, paixão, mentira, desengano,

por ti que incêndio no Universo lavra!...

És o réptil que voa,

o divino pecado

que as asas musicais, às vezes, solta, à toa.

e que a Terra povoa e despovoa,

quando é de seu agrado.

Sol dos ouvidos, sabiá do tacto,

ó língua-ideia, ó língua-sensação,

em que olvido insensato,

em que tolo recato,

te hão deixado o louvor, a exaltação!

Tu que irradiar pudeste os mais formosos poemas!

Tu que orquestrar soubeste as carícias supremas!

Dás corpo ao beijo, dás antera à boca, és um tateio de

alucinação, és o elatério da alma... Ó minha louca

língua, do meu Amor penetra a boca,

passa-lhe em todo senso tua mão,

enche-o de mim, deixa-me oca...

Tenho certeza, minha louca,

de lhe dar a morder em ti meu coração!...

Língua do meu Amor velosa e doce,

que me convences de que sou frase,

que me contornas, que me vestes quase,

como se o corpo meu de ti vindo me fosse.

Língua que me cativas, que me enleias

ou surtos de ave estranha,

em linhas longas de invisíveis teias,

de que és, há tanto, habilidosa aranha...

Língua-lâmina, língua-labareda,

língua-linfa, coleando, em deslizes de seda...

Força inferia e divina

faz com que o bem e o mal resumas,

língua-cáustica, língua-cocaína,

língua de mel, língua de plumas?...

Amo-te as sugestões gloriosas e funestas,

amo-te como todas as mulheres

te amam, ó língua-lama, ó língua-resplendor,

pela carne de som que à ideia emprestas

e pelas frases mudas que proferes

nos silêncios de Amor!...»

Poema de Gilka Machado, in Wikipedia

Cortesia de wikipedia/JDACT

Poesia. Gilka Machado. «E, mesmo assim, como te amamos, Vida, quando sentimos que nos vai deixar!»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Sonhei em ser útil à humanidade. Não consegui, mas fiz versos. Estou convicta de que a poesia é tão indispensável à existência como a água, o ar, a luz, a crença, o pão e o amor. Essas palavras ecoaram pelo Rio de Janeiro, na segunda metade do século XX. Foram proferidas pela poetisa Gilka Machado, no crepúsculo de sua vida, toda dedicada à poesia.

Gilka da Costa de Mello Machado nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de Março de 1893. Casou-se com o poeta Rodolfo Melo Machado em 1910. Teve dois filhos: Helio e Eros. O marido, Rodolfo, faleceu em 1923.Viúva aos 30 anos, lutou, arduamente, para sobreviver e educar os filhos, sem atender às soluções que repugnavam o seu pudor. Em 1965, ano do cinquentenário da sua estreia, inseriu na antologia Velha Poesia, grande número de inéditos que falavam dos seus desenganos e na proximidade da morte. Seu interesse pela poesia começou na infância, mas sempre precisou conciliar a vida difícil com a actividade literária. Já casada e com filhos, trabalhou como diarista na Estrada de Ferro Central do Brasil, recebendo um magro salário. Estreou nas letras vencendo um concurso literário do jornal A Imprensa, dirigido por José Patrocínio Filho. Na ocasião, houve manifestação negativa, qualificando o seu trabalho como próprio de uma matrona imoral. Os críticos mais novos, porém, reconheceram a importância da sua proposta, que pretendia a libertação dos sentidos e dos instintos. A obra de Gilka Machado pertence à escola poética do Simbolismo, e dela adopta as imagens mais recorrentes. Contudo, Gilka caminhou para a ruptura com seus contemporâneos, não só pela ênfase na temática do erotismo, mas também pela referência a aspectos sociais que oprimem a mulher. Utilizou-se, quase sempre, de um conjunto de elementos simbólicos com os quais introduz a sua mensagem: a flor, os gatos, a noite, o vento. Seu objectivo é discutir o desejo feminino; executa o seu propósito empregando recursos de linguagem que invocam sensações.

[…]

Olhos

«Ante pálpebras, que são níveos tabernáculos

sitos no rosto seu, vai ó Musa, depor

mil oblações, com fé, sem prever os obstáculos,

a esses olhos, que são dois altares imáculos,

onde a Esperança acende um círio ao nosso Amor».

Canção do Fim

«Vejo com mágoa

de despedida

tudo quanto atraia

meu olhar

Porque te amamos

muito mais,

ó Vida,

quando sentimos

que nos vai deixar?

Sempre versátil,

sempre fingida,

custa um sorriso teu

quanto pesar!

E, mesmo assim,

como te amamos,

Vida,

quando sentimos

que nos vai deixar!

Se de alegrias

tu me foste avara,

quero-te confessar

humilhada, baixinho:

levo saudade,

não de teu carinho, mas de teu mau trato

a que me acostumara»

Poema de Gilka Machado, in Wikipedia

Cortesia de wikipedia/JDACT

Poesia, JDACT, Gilka Machado, Brasil,