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quarta-feira, 30 de março de 2016

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «O meu amor já me não quer já me esquece e me desama tão pouco tempo a mulher leva a provar que não ama»

jdact e wikipedia

O Namoro
«(…) Vivia muito isolado, como se sabe. Muitas vezes não tinha quem o tratasse, e queixava-se-me. Estava realmente muito apaixonado por mim, posso dizê-lo, e tinha uma necessidade enorme da minha companhia, da minha presença. Dizia-me numa carta: ... Não imaginas as saudadas que de ti sinto nestas ocasiões de doença, de abatimento e de tristeza.... E mostra-o bem, nesta quadra que me fez:

Quando passo um dia inteiro
sem ver o meu amorzinho
cobre-me um frio de Janeiro
no Junho do meu carinho.

Em Maio de 1920, a Carris entrou em greve por uns dias, e passámos a fazer o percurso de comboio. Para que o meu Pai não soubesse que eu saía com o Fernando, ele apanhava o comboio no Cais do Sodré e eu em Santos. Assim conversávamos até Belém. Não digo namorávamos, porque o Fernando não gostava, conforme já contei. Quando acabou a greve, ia buscar-me, à tarde, como de costume e vínhamos de eléctrico para casa, mas, como ele achava que o trajecto não era suficientemente longo, dizia a brincar: E se fingíssemos que nos enganávamos e nos metêssemos num carro para o Poço do Bispo? Este escritório, onde eu estava empregada, fundiu-se, entretanto, com outro, na Rua Morais Soares, para onde fui e onde, portanto, o Fernando passou a ir buscar-me. Nesta altura, trabalhava ele, como correspondente, na Casa Toscanoy na Rua de S. Paulo. Aí passava as manhãs de domingo, de onde me telefonava. Como se sabe, o Fernando não gostava nada de falar ao telefone. Para nos podermos ver também ao domingo, eu, em vez de ir à missa à igreja de S. Domingos, como costumava, ia à da Conceição Velha, porque, depois, o Fernando (ele não assistia à missa, era crente mas não praticante) acompanhava-me a casa e assim tínhamos mais tempo para conversar no caminho. Muitas vezes me pediu para sairmos também à tarde. Numa carta, dizia: era excelente eu poder encontrar-te ao domingo de tarde, por exemplo.... Mas nunca o fizemos. Eu não podia, porque a família, principalmente o meu pai, que continuava sem saber de nada, era muito rigoroso comigo e não me era fácil arranjar um pretexto para sair...
O Fernando era uma pessoa muito especial. Toda a sua maneira de ser, de sentir, de se vestir até, era especial. Mas eu talvez não desse por isso, nessa altura, talvez porque estava apaixonada. A sua sensibilidade, a sua ternura a sua timidez, as suas excentricidades, no fundo, encantavam-me. Por exemplo, o Fernando era um pouco confuso, principalmente quando se apresentava como Álvaro de Campos. Dizia-me então: hoje, não fui eu que vim, foi o meu amigo Álvaro de Campos... Portava-se, nestas alturas, de uma maneira totalmente diferente. Destrambelhado, dizendo coisas sem nexo. Um dia, quando chegou ao pé de mim, disse-me: trago uma incumbência, minha Senhora, é a de deitar a fisionomia abjecta desse Fernando Pessoa, de cabeça para baixo num balde cheio de água. E eu respondia-lhe: detesto esse Álvaro de Campos. Só gosto do Fernando Pessoa. Não sei porquê, respondeu-me, olha que ele gosta muito de ti. Raramente falava no Caeiro, no Reis ou no Soares.
O Fernando, principalmente quando se encontrava abatido, não acreditava que eu pudesse gostar dele. Dizia-me numa carta: se não podes gostar de mim a valer, finge, mas finge tão bem que eu não perceba. Ou, então, como nesta quadra:

O meu amor já me não quer
já me esquece e me desama
tão pouco tempo a mulher
leva a provar que não ama.

Um dia ao passarmos na Calçada da Estrela, disse-me: o teu amor por mim é tão grande, como aquela árvore. Eu fingi que não percebi. Mas não está ali árvore nenhuma... Por isso mesmo, respondeu-me ele. Outra vez, disse-me: chega a ser uma caridade cristã tu gostares de mim. És tão nova e engraçadinha, e eu tão velho e tão feio». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «Bombom é um doce eu ouvi dizer não que isso fosse bom de saber, o doce enfim não é para mim... Do Fernando tenho também um cachimbo. Ele fumava muito. Cachimbo e cigarros. Até tinha as pontas dos dedos amarelas»

jdact e wikipedia

O Namoro
«(…) Era duma delicadeza e duma ternura imensa. Quase todos os dias me levava um presente, que escondia dentro das gavetas da minha secretária, como já contei, para me fazer surpresa quando eu chegava de manhã. Um dia encontrei uma caixa de fósforos com dois meiguinhos lá dentro. Meiguinhos eram uns bonequinhos que apareceram na altura, macho e fêmea, feitos de arame, coberto de fitilho de seda. Já não os tenho. Outra vez foi uma pulseira de filigrana, que sempre usei, e que ainda tenho. Duas caixinhas, em filigrana também, douradas, muito bonitas. E conservo um medalhão em esmalte, com uns gatinhos, que o Fernando me deu para eu pôr a sua fotografia, coisa que nunca fiz pois a única foto que tinha dele, e, como se sabe, ele não gostava nada de tirar retratos, era muito grande, não cabia no medalhão, e eu tive pena de a estragar, recortando. Por acaso, usei-o sempre com uma fotografia do meu sobrinho Carlos, que ainda hoje lá está. Como eu era muito gulosa, e ainda sou, e o Fernando sabia-o bem, muito bem, levava-me de presente, muitas vezes. Rebuçados e bombons. Dentro de uma caixa de bombons, um dia, encontrei estes versos:

Bombom é um doce
Eu ouvi dizer
Não que isso fosse
Bom de saber
O doce enfim
Não é para mim...

Do Fernando tenho também um cachimbo. Ele fumava muito. Cachimbo e cigarros. Até tinha as pontas dos dedos amarelas. Eu ralhava muito com ele e de brincadeira dizia-lhe: … um dia tiro-te esse cachimbo. E tirei mesmo. Ele achou muita graça, como de resto achava a tudo o que eu fazia ou dizia, e nunca mo pediu. Ainda o tenho. Encontrávamo-nos todos os dias, e, quase sempre, mesmo depois de eu ter deixado o escritório, à porta da Livraria Ingleza, na Rua do Arsenal, onde o Fernando ia comprar jornais. Além disso, escrevíamo-nos muito. As cartas eram-me entregues, normalmente, pelo grumete do escritório, o Osório. Foi um namoro simples, até certo ponto igual ao de toda a gente, embora o Fernando nunca tivesse querido ir a minha casa, como era habitual da parte de qualquer namorado. Dizia-me: … sabes, é preciso compreender que isso é de gente vulgar, e eu não sou vulgar. Eu compreendia-o e aceitava-o exactamente assim, com ele era. Por exemplo, dizia-me também muitas vezes: … não digas a ninguém que nos namoramos, é ridículo. Amamo-nos.
Passeávamos e conversávamos acerca de tudo, das coisas mais simples. De poesia, dos livros que lia, das suas aspirações, da família. Lembro-me do Fernando me dizer que era sidonista. Fez um dia uns versos a Sidónio Pais, que me ofereceu, mas que, infelizmente, desapareceram, assim como os manuscritos de alguns outros versos que aqui recordo. Ele era também conhecido como monárquico; mas dizia-me. Eu não sou monárquico, sou talassa. Não posso passar à porta da Brasileira porque sou agredido. Passo do lado de lá, se não apanho uma bengalada. O Fernando adorava-me, e tinha uns repentes de paixão que me assustavam, mas que ao mesmo tempo me divertiam. Por exemplo, um dia, no escritório, o primo tinha saído, e ele entrou no meu gabinete. Sem dizer uma palavra pegou-me ao colo, levou-me para a outra sala, sentou-me numa cadeira e ajoelhou-se a meus pés dizendo as maiores ternuras. Outra vez, num destes seus ataques repentinos, estávamos nós na paragem do eléctrico na Rua de S. Bento, empurrou-me para o vão de uma escada. Não percebi o que era; até pensei que fosse ele que, pela sua timidez, tivesse visto alguém e não quisesse que nos vissem juntos. Mas, sem eu esperar, agarrou-me com toda a força e beijou-me: um beijo enorme, enorme.
Ou, então, acontecia estarmos muito bem a conversar, e de repente ele dizer-me uma coisa que não vinha nada a propósito, como, por exemplo, chamar-me ácido sulfúrico, mas isto dito com a maior paixão. Entre Março e Abril desse ano, deixei o escritório Félix e Valladas, e fui para a casa C. Dupin no Cais do Sodré. O Fernando acompanhava-me todos os dias, daí para casa de minha irmã, no Rossio. Os meus pais viviam na Rua dos Poiais de S. Bento, esquina para a Rua Caetano Palha, mas eu passava parte do tempo em casa desta minha irmã de quem fazia uma diferença de vinte anos. Ela tratava-me como filha, adorava-me, e como só tinha um filho único, o meu sobrinho Carlos Queiroz, gostava imenso da minha companhia. Eu, claro, era muito nova, muito alegre e, portanto, preferia estar em casa dela. A minha mãe, coitada, passavam-se dias sem me ver, até que, cheia de saudadas, me mandava para casa. Nessas alturas, então, o Fernando e eu combinávamos uma hora para eu estar à janela e ele passar, para assim nos vermos. O meu pai nem sonhava que nós nos namorávamos. Eu ia para a janela e, à hora combinada, ele aparecia. Passava no passeio da frente, muito discretamente, como aliás procedia em tudo, e disfarçadamente fazia-me caretas e atirava-me beijos. Depois, ia pela rua abaixo (parece impossível um homem destes..., subindo e descendo os degraus de todas as portas aos pulinhos, só para eu achar graça. Na 2ª feira então, quando nos encontrávamos, comentávamos a cena e ríamos muito.
O Fernando, em geral, era muito alegre. Ria como uma criança, e achava muita graça às coisas. Dizia, por exemplo, ouvistaste? Em vez de ouviste. Quando saía para ir engraxar os sapatos, dizia-me: … eu já venho vou lavar os pés por fora. Um dia mandou-me um bilhetinho assim: … o meu amor é pequenino, tem calcinhas cor-de-rosa. Eu li aquilo, e fiquei indignada. Quando saímos, disse-lhe zangada: … ó Fernando, como é que você sabe, se eu tenho calcinhas cor-de-rosa ou não, você nunca viu... (tanto nos tratávamos por tu, como por você). E ele respondeu-me a rir: … não te zangues Bébé, é que todas as Bébés pequeninas têm calcinhas cor-de-rosa... Pouco tempo depois, mudei outra vez de emprego. Fui então para Belém, para uma companhia de material de aviação, como tradutora. O Fernando ia buscar-me todos os dias; conversávamos, portanto, durante o trajecto do carro eléctrico. Nesta altura, andava ele muito preocupado e ocupado com a mudança da casa de Benfica, para a Estrela, na Rua Coelho da Rocha. A mãe que vivia no Transvaal com as irmãs, tinha-o encarregado de arranjar casa, e foi ele sozinho que teve que tratar de tudo». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «Eu tinha 19 anos quando conheci o Fernando. Fazíamos, portanto, uma diferença de 12 anos. Ele achava-me muita graça. Por ternura, tratava-me por Bébé, Bébé pequenino, Bébézinho e até me fez alguns versos…»

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A Primeira carta
«(…) O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me, apaixonadamente, como louco. Surgem assim os primeiros versos que me dedicou; versos que infelizmente depois me desapareceram, mas que nunca esqueci:

Fiquei louco, fiquei tonto,
Meus beijos foram sem conto,
Apertei-a contra mim,
Enlacei-a nos meus braços,
Embriaguei-me de abraços,
Piquei louco e foi assim.

Dá-me beijos, dá-me tantos
Que enleado em teus encantos,
Preso nos abraços teus,
Eu não sinta a própria vida
Nem minha alma, ave perdida
No azul-amor dos teus céus.

Boquinha dos meus amores,
Lindinha como as flores,
Minha boneca que tem
Bracinhos para enlaçar-me
E tantos beijos p’ra dar-me
Quantos eu lhe dou também.

Botão de rosa menina,
Carinhosa, pequenina,
Corpinho de tentação.
Vem morar na minha vida,
Dá em ti terna guarida
Ao meu pobre coração.

Não descanso, não projecto,
Nada certo e sempre inquieto
Quando te não vejo, amor,
Por te beijar e não beijo,
Por não me encher o desejo
Mesmo o meu beijo maior.

Ai que tortura, que fogo,
Se estou perto d’ela é logo
Uma névoa em meu olhar,
Uma nuvem em minha alma,
Perdida de toda a calma,
E eu sem a poder achar.

Fui para casa, comprometida e confusa. Passaram-se dias e como o Fernando parecia ignorar o que se havia passado entre nós, resolvi eu escrever-lhe uma carta, pedindo-lhe uma explicação. É o que dá origem à sua primeira carta-resposta, datada de 1 de Março de 1920. Assim começámos o namoro.

O namoro
Víamo-nos todos os dias no escritório, onde, como já disse, o Fernando ia, como correspondente e amigo. Eram só olhares, recados, bilhetinhos, que me atirava para cima da secretária, disfarçadamente. E também presentes, que eu encontrava dentro das gavetas quando chegava de manhã. De entre os bilhetes conservo alguns: Kiss me. Dê-me um beijinho, sim? Não é nada, Bébé ciumento; logo lhe mostro o que é, etc., etc.
Talvez por eu ser muito nova e brincalhona, o Fernando não se convencia que eu pudesse gostar dele, e mostrava-o, como nestes versos que um dia me mandou:

Os meus pombinhos voaram.
Elles pr’a alguém voariam.
Eu só sei que m’os tiraram;
Não sei a quem os dariam.

Meus pombinhos, meus pombinhos,
Que já não têm os seus ninhos
Ao pé de mim.
São assim os meus carinhos
Matam-os todos assim!

Por ser muito pequena e magra, embora os braços e as pernas fossem roliços (tinha uma figura engraçada), e como não me pintava, parecia ainda mais nova do que era realmente. Eu tinha 19 anos quando conheci o Fernando. Fazíamos, portanto, uma diferença de 12 anos. Ele achava-me muita graça. Por ternura, tratava-me por Bébé, Bébé pequenino, Bébézinho e até me fez alguns versos relacionados exactamente com a minha figura:

O meu amor é pequeno,
Pequenino não o acho.
Uma pulga deu-lhe um coice,
Deitou-o da cama abaixo.

Ou estes outros:

Eu tenho um Bébé Que é.
Quanto ao tamanho
Assim: (Bolinha)
Quanto ao amor que lhe tenho
(uma linha curva)
Esta linha dá a volta ao mundo
Ai de mim!

Um dia, ainda no escritório Félix e Valladas, levou-me, de presente, uma cadeirinha de bonecas, de palha encarnada, com um palmo de altura, para eu me sentar. Tinha-a comprado na Praça da Figueira. A propósito, o Fernando dizia-me: …quando nos casarmos, tenho que comprar um banquinho, para tu te pores em cima, e quando eu chegar a casa me dares um beijo. Eu entro, e pergunto: … por acaso não viram por aí a minha mulher? Então tu apareces, e eu digo: … ah! estavas aí! és tão pequenina que não te via». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «O Fernando era muito supersticioso, especialmente com cães a ganir. Dizia que quando ia para casa à sua passagem, os cães ganiam, e que isso significava haver qualquer coisa nele que os fazia ganir»

jdact e wikipedia

Como conheci o Fernando
«(…) Como não era costume na época andarem as raparigas sozinhas, fui acompanhada por uma empregada de casa de minha irmã, com quem eu vivia na altura, mãe do meu sobrinho, o futuro poeta Carlos Queiroz. Quando chegámos e batemos à porta do escritório, ainda estava fechado, pelo que tivemos que esperar. A certa altura vimos a subir a escada um senhor todo vestido de preto (soube mais tarde que estava de luto pelo padrasto), com um chapéu de aba revirada e debruada, óculos e laço ao pescoço. Ao andar, parecia não pisar o chão. E trazia, coiso mais natural, as calças entaladas nas polainas. Não sei porquê, aquilo deu-me uma terrível vontade de rir e foi com grande esforço que lá consegui dizer que ia responder ao anúncio, quando ele, timidamente, nos perguntou o que desejávamos. Foi esta a minha primeira imagem do Fernando.
Muito atencioso, disse-nos então que esperássemos um bocadinho, porque ele não era o dono do escritório. Entrámos e, passado um bocado, apareceu o primo. Perguntou quem era a interessada, e começámos a conversar. O Fernando assistiu a tudo, sentado a uma secretária, virado para mim, e com um ligeiro sorriso, de quem estava a achar graça. Passados três dias fui chamada. Foi o próprio Fernando que me recebeu nesse dia. Já lá estava quando eu cheguei, estava mesmo à minha espera. Sentou-se numa cadeira, junto da minha secretária e destinou-me o trabalho: endereços pelo anuário comercial. A certa altura disse-me timidamente: … sabe, queria preveni-la duma coisa. É que a passadeira da escada tem um buraco e não vá a menina cair... Depois calou-se e, passado um bocado, disse: … há outra coisa de que queria preveni-la; é que o outro sócio, o Valladas, é um pouco rude. Ele não é má pessoa, sabe, mas é da GNR. e não vá a menina chocar-se com qualquer coisa... Tudo isto foi dito com um ar circunspecto, mas cheio de amabilidade. Depois começaram, os olhares..., a corte... Passou-se uma coisa engraçada, logo nesse primeiro dia. Eu estava sentada a escrever à máquina. Alguém entrou no gabinete, não me lembro agora quem, e disse: … ó Fernando, não estava mesmo a apetecer dar um beijo naquele pescoço? … Eu não acho, respondeu ele secamente, maçado mesmo. Mais tarde disse-me que já eram ciúmes...
O Fernando era muito ciumento, mas não se zangava, não dizia nada; sofria. Não gostava que eu usasse decotes, nem falasse com rapazes. Um dia disse-me: … Hoje, pela primeira vez, tive ciúmes dos olhos do meu primo. … Porquê?, perguntei. … Porque eles viram-te e eu não te vi. Isto passou-se numa segunda-feira e eu por acaso no domingo tinha encontrado o primo dele na rua. Outra vez, mandou-me um bilhetinho, que dizia: … estavas a fazer olhos ternos ao Pantoja. Mas ele gostava de me fazer ciúmes a mim, para ver a minha reacção. Um dia, veio com uma história que se tinha passado com ele no eléctrico. Comentando a influência e a força do olhar de certas pessoas, contava ele que, ao fixar a cabeça loura de uma senhora que ia sentada à sua frente, ela se virara de repente para ele e o fixara insistentemente. Percebi logo qual era a intenção da história, e durante muito tempo falei-lhe na senhora loura, fingindo ter ciúmes. Ele gostava imenso e tinha um trabalhão a tentar convencer-me de que não havia senhora loura nenhuma.
O Fernando era muito supersticioso, especialmente com cães a ganir. Dizia que quando ia para casa à sua passagem, os cães ganiam, e que isso significava haver qualquer coisa nele que os fazia ganir.

A Primeira carta
Um dia faltou a luz no escritório. O Freitas não estava e o Osório, o grumete, tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o, e pô-lo em cima da minha secretária. Um pouco antes da hora de saída, atirou-me um bilhetinho para cima da secretária, que dizia: peço-lhe que fique. Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura, já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu, confesso, também lhe achava uma certa graça...
Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: … oh, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh!, até do último extremo, acredita! Fiquei perturbadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

domingo, 22 de novembro de 2015

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «Fernando que insistiu para que me dessem o que eu pedia, porque, segundo me disse mais tarde, tinha absoluta necessidade de me tornar a ver; de resto, eu senti, logo no primeiro dia, que ele me olhou de certa maneira...»

jdact e wikipedia

Nota Prévia
«(…) Só isto bastaria para conferir um incalculável valor às cartas que adiante se publicam; bem como ao relato-testemunho de que elas são precedidas. Por outro lado, estava-se geralmente bem longe de supor, pelos extractos de apenas treze cartas anteriormente publicados, que elas afinal constituíssem, na sua totalidade, este conjunto de meia-centena de tão diferentes textos de natureza intima; e estava-se igualmente bem longe de suspeitar que neles tão amiúde se manifestassem certos traços de humor, da bonomia, de ternura, até de surpreendente puerilidade, a, par, evidentemente, como já se sabia ou se calculava, de certos registos de diverso teor, tanto mais comoventes quanto mais espontâneos, tanto mais patéticos quanto mais contidos. Por se tratar de uma primeira edição, respeitou-se escrupulosamente a grafia original (sem prejuízo, pois, de em edições ulteriores ela vir a ser actualizada); respeitou-se também o modo bem pouco uniforme como Fernando Pessoa datava as suas cartas; e entendeu-se ainda, quanto às duas únicas que não trazem data, embora se mostre conjecturável a sua inserção no conjunto, que o mais prudente seria, por agora, relegá-las para um apêndice, onde igualmente se arquiva uma carta que, não sendo especificamente dirigida à destinatária, esta última teve o cuidado de religiosamente conservar também. Completa enfim o presente volume um posfácio de natureza crítica sobre o significado destas mesmas cartas. Posfácio esse que obviamente não tem a veleidade de esgotar o assunto (e qual o assunto referente a Fernando Pessoa que possa alguma vez considerar-se esgotado?), mas tão-só o propósito de pessoalmente reflectir sobre estes textos com que doravante se acrescenta a bibliografia activa do grande poeta, e de, a seu respeito, ir desde já adiantando umas tantas sugestões». In David Mourão Ferreira

O Fernando e Eu
(Relato da dona Ophélia Queiroz, destinatária destas Cartas de Fernando Pessoa, recolhido e estruturado por sua sobrinha-neta dona Maria da Graça Queiroz)

Onde é que a maldade mora
Poucos sabem onde é
Há maneira de o saber
É em quem quando diz que chora
Leva a rir e a responder
Indo em crueldade até
A gente não a entender
(Acróstico de Fernando Pessoa dedicado a Ophélia)

Como conheci o Fernando
Respondi a um anúncio do Diário de Noticias. Tinha 19 anos, era alegre, esperta, independente, e, contra a vontade de meus pais e da família, resolvi empregar-me. Não era que precisasse de o fazer, pois sendo a mais nova de oito irmãos e a única solteira, era muito mimada e tinha tudo o que queria. Fizera o 5.º ano singular de Francês, escrevia e falava correntemente o Francês comercial, escrevia à máquina em todos os teclados e sabia também um pouco de Inglês. (O Fernando um dia até me disse que, depois de casados, mo ensinaria melhor). Recebi em casa a resposta ao anúncio: … para assunto de seu interesse, é favor passar por esta direcção...» Era um negócio de brocas, na Rua da Assunção, 42, 2°: Félix, Valladas & Freitas, Lda. Ainda estava em regime de propaganda e só durou três meses; depois faliu. Entrei como empregada única da casa a ganhar 18$00, o que já era óptimo naquele tempo... De entrada, até só queriam dar-me 15$00, e foi o próprio Fernando que insistiu para que me dessem o que eu pedia, porque, segundo me disse mais tarde, tinha absoluta necessidade de me tornar a ver; de resto, eu senti, logo no primeiro dia, que ele me olhou de certa maneira...
Eram três sócios: Félix, o capitalista; o Mário Freitas Costa, que era primo do Fernando; e o Valladas, que era da Guarda Nacional Republicana. O Fernando não era propriamente empregado da casa, não sei mesmo se ganhava alguma coisa. Ajudava o primo na correspondência da firma. Traduzia directamente para francês e inglês o que o primo ditava em português. Como se sabe, o Fernando falava muitíssimo bem, principalmente, o inglês. Os amigos diziam, por graça, que ele até pensava em Inglês. Ia muito ao escritório, exactamente por ser primo e muito amigo do Freitas, e porque se juntavam lá, a conversar, vários amigos. Entre eles, lembro-me do Montalvor, que ia lá quase todos os dias e que não perdoava ao Fernando o facto de ele não publicar a sua Obra. Dizia-lhe: ó Fernando, é um crime você continuar ignorado. E ele respondia-lhe: Deixem estar, que, quando eu morrer, ficam cá caixotes cheios. Aparecia também o Ferreira Gomes, que tinha igualmente uma grande admiração pelo Fernando. Mais tarde, por acaso, fui encontrá-lo no SNI. Era muito brincalhão.
O Coelho Jesus. Com este passou-se uma coisa engraçada. Ele conhecia-me lá do escritório mas nunca se apercebeu, assim como ninguém, que eu namorava o Fernando. Um dia, seguiu-me na rua. Quando chegámos ao Largo do Camões, aproximou-se de mim, cumprimentou-me e disse-me: Posso acompanhá-la, ou comprometo-a? Compromete sim, respondi-lhe. O Simão Laboreiro, que era director de um jornal. Um irmão do Coelho de Jesus. Pantoja, um espanhol, e outros mais de quem não me recordo agora. Apareciam, então, muitos rapazes novos, a pedir ao Fernando a sua colaboração para jornais e revistas. E era coisa que ele nunca recusava. Conheci o Fernando no dia em que me apresentei ao anúncio e há, até, uma história engraçada, que vale a pena contar». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

Cartas de Amor. Fernando Pessoa. «… quem primeiro prestou a devida atenção àqueles extractos epistolares, quem primeiro intuiu a importância de que eles se revestiam e quem primeiro, inclusivamente, revelou o nome próprio, Ophélia, da destinatária daquelas cartas»

jdact e wikipedia

Nota Prévia
«Começou a saber-se da existência destas cartas de amor de Fernando Pessoa, logo menos de um ano depois da sua morte, quando outro admirável poeta, Carlos Queiroz, seu devotado amigo e companheiro, a elas se referiu no número 48 (Julho de 1936) da revista Presença e delas aí publicou alguns significativos extractos. Tanto o artigo em que essa reveladora referência era feita Carta à Memória de Fernando Pessoa, como os próprios excertos então divulgados, como ainda, a preceder um e outros, o texto de uma palestra lida por Carlos Queiroz ao microfone da Emissora Nacional em 9 de Dezembro de 1935 (isto é: nove dias depois da morte do autor da Mensagem) ver-se-iam imediatamente reunidos num folheto intitulado Homenagem a Fernando Pessoa. Trata-se de um folheto, hoje completamente inencontrável, de cerca de cinquenta páginas, com tiragem de quinhentos exemplares e que foi publicado sob a chancela de Edições Presença. Composto e impresso em Agosto de 1936, nas oficinas da Atlântida, em Coimbra, nele se reproduzia também o retrato à pena feito por Almada (que figurara já na capa do citado número da revista Presença, e, em nota indicava-se que o produto da sua venda se destinava a contribuir para a publicação da Obra de Fernando Pessoa.
Posteriormente, foi João Gaspar Simões, no seu monumental e imprescindível estudo sobre a Vida e Obra de Fernando Pessoa (1950), quem primeiro prestou a devida atenção àqueles extractos epistolares, quem primeiro intuiu a importância de que eles se revestiam e quem primeiro, inclusivamente, revelou o nome próprio, Ophélia, da destinatária daquelas cartas. É certo que esse mesmo nome encabeçava, embora com modernizada grafia, a dedicatória, que Carlos Queiroz antepusera ao seu folheto de Homenagem a Fernando Pessoa À Ofélia, ao Pierre Hourcade e aos meus amigos da Presença; e, se bem que, nos extractos epistolares então vindos a lume, o nome da destinatária se encontrasse invariavelmente substituído por três asteriscos, era desde logo tentadora, a relacionação com o nome aparecido na mencionada dedicatória.
Seja como for, no mundo literário da época, ninguém conhecia melhor do que Carlos Queiroz, não só a identidade, mas também a figura humana e a personalidade da destinatária de tais cartas (e, daí, o facto de ter podido revelar a sua existência,), pela simples razão de que se tratava de uma sua tia materna,a Ex.ma Senhora dona Ophélia Queiroz, que sempre se recusaria, ao longo de várias décadas de compreensível hesitação e de não menos compreensível reserva, a autorizar a publicação integral desta correspondência. Hoje, em virtude de um conjunto de circunstâncias e peripécias que não são por enquanto de revelar, ou que talvez nunca se revelem inteiramente, torna-se enfim possível a tão aguardada edição deste acervo documental de primeiríssima importância.
Da respectiva leitura e estabelecimento do texto se encarregou, por sua vez (e que melhor homenagem se poderia render a quem primeiro se lhe referiu?), uma das filhas do desaparecido poeta de Desaparecido, Maria da Graça Queiroz, a quem se fica igualmente devendo a compilação do curiosíssimo relato que sua Tia-Avó em tempos lhe fez, acerca das circunstâncias em que travou conhecimento com Fernando Pessoa, dos preliminares e vicissitudes do convívio entre ambos, dos cenários em que esse convívio decorreu, da própria maneira de ser, enfim, do incomparável poeta com quem assim privou, e com quem, ao que se sabe, ninguém mais teve a fortuna de assim privar. De facto, não se conhece, além deste, nem é provável que tenha existido, qualquer outro episódio sentimental na vida de Fernando Pessoa». In Fernando Pessoa, Cartas de Amor, Organização de David Mourão Ferreira, preâmbulo de Maria da Graça Queiroz, Lisboa, Edições Ática, 1978.

Cortesia de EÁtica/JDACT

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Cartas D’Amor. Eça de Queirós. «Olhos finos e lânguidos. É a primeira expressão em que hoje apanho decentemente a realidade. Por que é que não me adiantei, e não pedi uma apresentação? Nem sei. Talvez o requinte em retardar…»

Cortesia de wikipedia

Primeira Carta a Madame de Jouarre
«Minha querida madrinha.
Ontem, em casa de Madame de Tressan, quando passei, levando para a ceia Libuska, estava sentada, conversando consigo, por debaixo do atroz retrato da marechala de Mouy, uma mulher loura, de testa alta e clara, que me seduziu logo, talvez por lhe pressentir, apesar de tão indolentemente enterrada num divã, uma rara graça no andar, graça altiva e ligeira de deusa e de ave. Bem diferente da nossa sapiente Libuska, que se move com o esplêndido peso de uma estátua! E do interesse por esse outro passo, possivelmente alado e diânico (de Diana), provém estas gratujas. Quem era? Suponho que nos chegou do fundo da província, de algum velho castelo do Anjou com erva nos fossos, porque me não lembro de ter encontrado em Paris aqueles cabelos fabulosamente louros como o sol de Londres em Dezembro, nem aqueles ombros decaídos, dolentes, angélicos, imitados de uma madona de Mantegna, e inteiramente desusados em França desde o reinado de Carlos X, do Lírio no Vale e dos corações incompreendidos. Não admirei com igual fervor o vestido preto, onde reinavam coisas escandalosamente amarelas. Mas os braços eram perfeitos; e nas pestanas, quando as baixava, parecia pender um romance triste. Deu-me assim a impressão, ao começo, de ser uma elegíaca do tempo de Chateaubriand. Nos olhos porém surpreendi-lhe depois uma faísca de vivacidade sensível, que a datava do século XVIII. Dirá minha madrinha: Como pude eu abranger tanto, ao passar, com Libuska ao lado fiscalizando? É que voltei. Voltei, e da ombreira da porta readmirei os ombros de velas por trás, entre as orquídeas, nimbava de ouro; e sobretudo o subtil encanto dos olhos, dos olhos finos e lânguidos... Olhos finos e lânguidos. É a primeira expressão em que hoje apanho decentemente a realidade. Por que é que não me adiantei, e não pedi uma apresentação? Nem sei. Talvez o requinte em retardar, que fazia com que La Fontaine, dirigindo-se mesmo para a felicidade, tomasse sempre o caminho mais longo. Sabe o que dava tanta sedução ao Palácio das Fadas, nos tempos do rei Artur? Não sabe. Resultados de não ler Tennyson... Pois era a imensidade de anos que levava a chegar lá, através de jardins encantados, onde cada recanto de bosque oferecia a emoção inesperada de um flirt, de uma batalha, ou de um banquete... (Com que mórbida propensão acordei hoje para o estilo asiático!) O facto é que, depois da contemplação junto à ombreira, voltei a cear ao pé da minha radiante tirana. Mas por entre a banal sandwich de foie-gras, e um copo de Tokay que Voltaire, já velho, se recordava de ter bebido em casa de Madame de Etioles (os vinhos dos Tressans descendem em linha varonil dos venenos de Brinvilliers), vi, constantemente vi, os olhos finos e lânguidos. Não há senão o homem, entre os animais, para misturar a languidez de um olhar fino a fatias de foie-gras. Não o faria decerto um cão de boa raça. Mas seríamos nós desejados pelo efémero feminino se não fosse esta providencial brutalidade? Só a porção da matéria que há no homem faz com que as mulheres se resignem à incorrigível porção de ideal, que nele há também, para eterna perturbação do mundo. O que mais prejudicou Petrarca aos olhos de Laura, foram os Sonetos. E quando Romeu, já com um pé na escada de seda, se demorava, exalando o seu êxtase em invocações à noite e à Lua, Julieta batia os dedos impacientes no rebordo do balcão, e pensava: Ai, que palrador que és, filho dos Montaigus! Este detalhe não vem em Shakespeare, mas é comprovado por toda a Renascença. Não me amaldiçoe por esta sinceridade de meridional céptico, e mande-me dizer que nome tem, na paróquia, a loura castelã do Anjou. A propósito de castelos: cartas de Portugal anunciam-me que o quiosque por mim mandado erguer em Sintra, na minha quintarola, e que lhe destinava como seu pensadoiro e retiro nas horas de sesta, abateu. Três mil e oitocentos francos achatados em entulho. Tudo tende à ruína num país de ruínas. O arquitecto que o construiu é deputado, e escreve no Jornal da Tarde estudos melancólicos sobre as Finanças! O meu procurador em Sintra aconselha agora, para reedificar o quiosque, um estimável rapaz, de boa família, que entende de construções e que é empregado na procuradoria Geral da Coroa! Talvez se eu necessitasse um jurisconsulto, me propusessem um trolha. É com estes elementos alegres, que nós procuramos restaurar o nosso império de África! Servo humilde e devoto.
Fradique

In Eça de Queiroz, Cartas D'Amor, O Efémero Feminino, Correspondência de Fradique Mendes, 1900, Editora Garamond, Rio de Janeiro, 2001, ISBN 978-858-643-546-5.

Cortesia de EGaramond/JDACT

sábado, 26 de janeiro de 2013

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. Breve nota sobre ‘as Cartas’. «Parece ter sido moda no século XVII deixar no anonimato, ou por preconceito ou pudor, esconder a personalidade dos verdadeiros autores de obras literárias em que, sem máscara, se apresentam as grandes paixões amorosas»


jdact e ilustração de joseruy

Problema que ultrapassa, de longe, a questão comum da identidade de autor, para levantar o problema mais vasto de a considerar como expressão literária de um ou de outro povo. Isto para não falarmos de um outro problema, deste dependente e igualmente apaixonante, que será o de saber se as célebres Cartas são o produto duma rebuscada elaboração artística ou o resultado de um golpe de génio, o que automaticamente se traduz na questão mais geral da superioridade da arte ou da superioridade do génio espontâneo. São, como se vê, outros tantos problemas que fazem do caso presente um tema apaixonante de controvérsia e de investigação. Sem outra pretensão que não seja a de ajudar o leitor, em apontamento sucinto, os dados do problema e os argumentos que militam a favor de cada uma das hipóteses de solução.
Embora não se saiba ainda hoje, se as Cartas foram escritas em português ou em francês, foi em francês que elas chegaram até nós numa edição datada de 1669, em que eram apresentadas pelo editor ao leitor nestes termos:
  • Consegui, à custa de muitos trabalhos e dificuldades, recuperar uma cópia correcta da tradução de cinco cartas portuguesas que foram escritas a um nobre gentil-homem que servia em Portugal. Todos os que conhecem os sentimentos do coração humano são unânimes ou em louvá-las, ou em procurá-las com tanto empenho que julguei prestar-lhes um bom serviço imprimindo-as. Desconheço em absoluto o nome daquele a quem foram escritas, bem como daquele que as traduziu; mas pareceu-me que não cairia no seu desagrado publicando-as. É difícil que não acabassem por aparecer com erros de impressão que as teriam desfigurado.
Como se vê, de acordo com esta nota, as Cartas teriam tido origem em Portugal, e em português teriam sido escritas por uma mulher apaixonada a um fidalgo francês daqueles que por estes reinos peregrinaram aquando das lutas pela consolidação da recém-restaurada independência de Portugal. Pudicamente se esconde o nome do destinatário, bem como o do tradutor. Não se esconde, porém, o nome de quem as escreveu: embora não mencionado como autor, o nome de Mariana figura no texto escrito na primeira pessoa e do texto resulta também tratar-se de uma freira residente num convento de Beja.
É claro, e alguns críticos franceses não deixam de insistir neste aspecto, que pode tratar-se apenas de artifício literário. Parece ter sido moda no século XVII deixar no anonimato, ou, de qualquer modo, por preconceito ou pudor, esconder a personalidade dos verdadeiros autores de obras literárias em que, sem máscara, se apresentam as grandes paixões amorosas. Sem afastar a priori essa hipótese, verificamos, no entanto, que pouco a pouco, as coisas se foram esclarecendo e a situação de anonimato do destinatário e do tradutor foi destruída noutras edições: logo a edição alemã, aparecida em Colónia no mesmo ano, e, depois, a edição de F. Roger, aparecida em Amesterdão trinta anos mais tarde, davam indicações mais precisas. O título deixou de ser Cartas Portugaesas Traduzidas em Francês para passar a Cartas de Amor de Uma Religiosa Portuguesa Escritas ao Cavaleiro de C… E identificam: O nome daquele a quem estas Cartas foram escritas é o Cavaleiro de Chamilly; e o nome daquele que as traduziu é Cuilleraque». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Cortesia de P. E-A/José Ruy/ JDACT

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. Breve nota sobre ‘as Cartas’.«… para as “Cartas Portuguesas”, o problema da mente como da autoria de Soror Mariana Alcoforado, poderíamos perguntar se foram escritas por ela, poderíamos perguntar quem se encontra por detrás do nome desta freira. Nada de nova até aqui…»




Ilustrações de José Ruy
jdact

«Não são raros, no panorama da literatura universal, os casos de obras-primas em relação às quais se põe o problema da autenticidade do autor. Para não ir mais longe, lembremos o caso da Bíblia. O livro quiçá mais lido e conhecido do mundo, verdadeira obra-prima da literatura de sempre, continua, em muitos dos livros que a constituem, sem paternidade definida. A Odisseia e a Ilíada, os dois monumentais poemas em que se vazou o génio grego, são atribuídos a Homero, mas a crítica é unânime em não identificar Homero com um indivíduo determinado e em não reconhecer ao homem que teria sido Homero a glória de ter composta as gestas épicas que com o seu nome têm corrido as idades. Mais perto de nós, a individualidade de Gil Vicente, o criador do teatro português, continua muito problemática, e, se neste caso não se põe a hipótese duma sombra de anonimato a cobrir o autor dos famosos Autos, continuamos indecisos quanto à sua identificação com este ou aquele personagem. Problema semelhante se põe relativamente a Shakespeare, em cujo nome alguns críticos pretendem que se acoberta um outro misterioso personagem, havendo até quem queira identificá-lo com a rainha Isabel de Inglaterra.

Não seria pois para admirar que também para, as Cartas Portuguesas o problema da mente como da autoria de Soror Mariana Alcoforado, poderíamos perguntar se foram  escritas por ela, poderíamos perguntar quem se encontra por detrás do nome desta freira. Nada de nova até aqui. O pouco que deixamos dito é mais que suficiente para nos deixar perceber que problemas semelhantes se topam a cada passo no panorama das letras.
Há, no entanto, algo que distingue o caso presente de todos os outros até aqui apontados. De facto, nestes, se o problema se põe para a determinação da pessoa que escreveu; é pacífíco entre os críticos o campo literário em que cada uma daquelas obras teve origem. Discuta-se quanto se quiser sobre quem foi o autor do Cântico dos Cânticos; ninguém duvida de que esse, como todos os outros livros da Bíblia, pertence à literatura judaica. Aventem-se todas as hipóteses sobre a identidade de Homero; é facto assente que os poemas chegados até nós com o seu nome são um produto do génio grego. Fosse ou não fosse o Gil Vicente dos Autos o mesmo Mestre Gil que assinou a feitura da custódia de Belém, ninguém discute que a sua obra pertence ao património da literatura portuguesa.
No caso das Cartas, para além da incerteza e das dúvidas que pairam quanto à pessoa do autor, a querela transporta-se mais longe, e são nada menos do que duas literaturas, a
francesa e a portuguesa, a disputar entre si a paternidade das Cartas, e ainda hoje não se sabe se o original desta obra viu a luz do dia vazado em francês ou em português. Problema que ultrapassa, de longe, a questão comum da identidade de autor, para levantar o problema mais vasto de a considerar como expressão literária de um ou de outro povo». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Cortesia de P. E-A/José Ruy/JDACT

domingo, 7 de outubro de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. Breve nota sobre ‘as Cartas’.«Num tema de larga predominância em todos os géneros de expressão literária, as famosas “Cartas” encontraram acentos ímpares em que a veemência e a intensidade da paixão sobrelevam…»



Ilustração de José Ruy
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‘… só conheci bem o excesso do meu amor quando quis fazer todos os esforços para me curar dele’

«As ‘Cartas Portuguesas’ não são apenas uma obra-prima. São também, e não será exagero afirmá-lo, um casso único na literatura universal. Não queremos referir-nos ao seu valor intrínseco, embora este seio também de sublinhar. Num tema de larga predominância em todos os géneros de expressão literária, as famosas “Cartas” encontraram acentos ímpares em que a veemência e a intensidade da paixão sobrelevam, pensamos, quanto em todas as latitudes já foi escrito.
Mas a esta característica de intensidade haverá que juntar algo de maís importante:
a ‘navidade’ do amor que ali se exprime. De facto, não é apenas um amor maior aquilo que ressalta das páginas ardentes em que a pobre freira abandonada vaza os segredos do seu coração. E um amor diferente, uma forma diferente de amar, em que muitos julgam entrever a caracterização da alma do povo que lhe deu origem. Se (…) pôde ver ali uma paixão como nunca houve mais nobre, mais grave nem mais ardente, nós lembramos a expressão de Júlio Dantas pela boca de um dos seus personagens: ‘Como é diferente o amor em Portugal!’
Trata-se, com efeito, de um Amor com ‘marcas’ novas, o amor da dedicação total, o amor em que a totalidade do ser se encontra empenhada, o amor extremo em que o pensamento do ‘outro’ é o valor a que se reportam e se subordinam todas as opções, o amor em que o eu praticamente se aniquila, encontrando a sua subsistência apenas no dar-se, no estar para… ‘Amo-te perdidamente’, escreve a certa altura a autora das “Cartas”, e respeito-te o bastante para não ousar talvez desejar que sejas atingido pelos mesmos arrebatamentos [...] Se eu já, não posso remediar os meus males, como poderia suportar a dor que me dariam os teus e que me seriam mil vezes maís dolorosos?’ E mais adiante: ‘Sou tão ciumenta da minha paixão, que até me parece que todas as minhas acções e que todos os meus deveres a ti se referem’.
Mas para quê acumular citações? Todas e cada uma das páginas das “Cartas” poderiam constituir uma única e longa citação onde se pode ler a maneira portuguesa de amar, um dos traços característicos da maneira portuguesa de estar no mundo e de encarar a vida.

Ora., é justamente aqui, se tentarmos definir o poema de amor que são as “Cartas Portuguesas” como testemunho do carácter e da mentalidade portuguesa, que surge o problema da autenticidade das “Cartas”. E também aqui o problema, apresenta características especialíssimas e julgamos serem únicas». In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Cortesia de P. Europa-América/José Ruy/ JDACT

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Cartas Portuguesas. Soror Mariana Alcoforado. «Sou uma louca em voltar a dizer as mesmas coisas tantas vezes! É preciso que o deixe e que não volte a pensai em si. Julgo mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Tenho alguma obrigação de lhe dar contas dos meus actos?»


Ilustração de José Ruy
jdact

‘A minha religião e a minha honra, faço-as consistir unicamente em te amar, já que a amar-te comecei’

«Não fez nada para se fixar em Portugal, onde era estimado: bastou uma carta do seu irmão para o fazer partir daqui sem hesitar um momento. E não vim mesmo a saber que, durante toda a viagem, mostrou sempre uma extraordinária boa disposição? É forçoso reconhecer que sou obrigada a odiá-lo mortalmente!
Ah! Fui eu a culpada de todas as minhas desgraças: primeiro habituei-o a uma grande paixão, onde havia demasiada simplicidade - e é preciso artifícios para se fazer amar; é preciso procurar, com uma certa habilidade, os meios de inflamar, pois o amor, só por si, não gera o amor.
Desejava que eu o amasse; e, como concebera esse desígnio, nada omitiu para o conseguir; ter-se-ia mesmo resolvido a amar-me, se tal fosse necessário. Mas viu que podia triunfar na sua empresa sem paixão e que não tinha qualquer necessidade dela. Que perfídia! Julga que pôde enganar- me impunemente? Se algum acaso o trouxer  a esta terra, juro-lhe que o entregarei à vingança dos meus parentes.
Por muito tempo vivi num abandono e numa idolatria que me horroriza, e o meu remorso persegue-me com uma violência insuportável. Sinto vivamente toda a baixeza dos crimes que me obrigou a cometer e não tenho já, ai de mim!, a paixão que me impedia de lhes conhecer a enormidade. Quando é que o meu coração deixará de ser despedaçado? Quando é que me verei livre desta cruel inquietação?
Penso, contudo, que não lhe desejo nenhum mal e que me resolveria a consentir na sua felicidade: mas, se tem um coração bem formado, como poderá ser feliz?
Desejo escrever-lhe outra carta para lhe mostrar que estarei mais tranquila dentro de algum tempo. Que prazer terei em poder censurar-lhe o seu injusto procedimento, quando já não estiver tão vivamente ferida por ele e quando lhe fizer saber que o desprezo, que falo com grande indiferença da sua traição, que esqueci todos os meus prazeres e todas as minhas dores, que não me lembro de si senão quando me quero lembrar!
Concordo em que tem sobre mim grandes vantagens e que me inspirou uma paixão que me fez perder a razão. Mas pouco pode envaidecer-se com isso: eu era jovem, era crédula, tinham-me encerrado neste convento desde a minha infância, só tinha visto pessoas desagradáveis, nunca ouvira as lisonjas que sem cessar me dirigia. Parecia-me que era a si que eu devia os encantos e a beleza que dizia encontrar em mim e de que me fazia dar conta. Ouvia falar bem de si, toda a gente me falava em seu favor e, pela sua parte, fazia quanto era preciso para despertar o meu amor.
M as, finalmente, regressei deste encantamento. Deu-me, para tanto, uma grande ajuda e confesso que dela tinha extrema necessidade.


Embora lhe devolva as suas cartas, guardarei cuidadosamente as duas ultimas que me escreveu, e hei-de lê-las ainda mais vezes do que li as primeiras, a fim de não voltar a cair nas minhas fraquezas. Ah! Quanto elas me custam, e como eu teria sido feliz se tivesse querido consentir em que o amasse para sempre!
Bem vejo que estou ainda mais ocupada do que devia estar com as minhas censuras e com a sua indiferença. Mas lembre-se de que prometi a mim própria um estado mais sereno e que lá hei-de chegar! Ou, então, tomarei contra mim alguma resolução extrema, de que tomará conhecimento sem grande desgosto. Mas nada mais quero de si.
Sou uma louca em voltar a dizer as mesmas coisas tantas vezes! É preciso que o deixe e que não volte a pensai em si. Julgo mesmo que não voltarei a escrever-lhe. Tenho alguma obrigação de lhe dar contas dos meus actos?»
In Soror Mariana Alcoforado, Cartas Portuguesas, texto da primeira edição francesa de 1669, Europa América, 1974.

Fim
Cortesia de P. Europa-América/José Ruy/ JDACT

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Encontro. IV Simpósio Ibero-Americano de História da Cartografia. Cartógrafos para toda a Terra. Produção e circulação do saber cartográfico ibero-americano. Agentes e contextos. «… sobre o ensino da especialidade em diferentes contextos nacionais ou culturais, quer para o âmbito relativo ao tratamento arquivístico e biblioteconómico dos mapas»


Cortesia da BNP

Encontro. De ontem (11) ao pf dia 14 do corrente mês. BNP. 

«Depois das edições de 2006 (Buenos Aires), 2008 (Cidade do México) e 2010 (São Paulo), cabe ao Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa (CEG/UL), em colaboração com o Centro de História de Além-Mar da Universidade Nova de Lisboa (CHAM/UNL) e a Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), organizar pela primeira vez na Península Ibérica uma edição daquele que é já um dos fóruns mais empenhados em investigar o papel da imagem na construção dos objectos geográficos, questão central da história e da teoria da cartografia contemporâneas.

O Simpósio de Lisboa é subordinado ao tema Cartógrafos para toda a Terra. Produção e circulação do saber cartográfico ibero-americano: agentes e contextos. Com a seleção deste tema pretendem-se três objetivos centrais. Em primeiro lugar, tirar amplo partido da circunstância de trabalharmos uma matriz cartográfica que consumou uma representação pioneira do espaço planetário, ao mesmo tempo que influenciou profundamente as grandes categorias espaciais imaginadas para organizar o conhecimento geográfico do mundo. Em segundo lugar, pretende-se estimular um inquérito alargado sobre as operações de produção, circulação e consulta dos objetos cartográficos, o qual comece por refletir a densidade dos contextos culturais e sociais que acompanham esta sucessão de etapas. Por último, ao se destacar a figura do cartógrafo quer-se suscitar a realização de inquéritos biográficos, aspeto desde logo decisivo para o esclarecimento das importantes questões relativas à identificação da autoria do mapa. As sessões deste IV Simpósio são organizadas em torno de 11 temas principais, que evitam deliberadamente circunscrever-se a uma arrumação de cariz geográfico ou cronológico. A maioria dos temas trata de questões alusivas à produção e circulação dos objetos cartográficos. Este eixo central é alargado quer para a reflexão sobre o ensino da especialidade em diferentes contextos nacionais ou culturais, quer para o âmbito relativo ao tratamento arquivístico e biblioteconómico dos mapas.

São também oferecidas duas sessões especiais que homenageiam dois investigadores de excelência desaparecidos do nosso convívio em 2011, mas cuja obra certamente inspirará as próximas gerações: a sessão dedicada ao Professor Mauricio de Almeida Abreu, sobre a cartografia dos espaços urbanos americanos; e a sessão dedicada ao Almirante Max Justo Guedes, que trará para o Simpósio o tema da cartografia náutica». In Biblioteca Nacional de Portugal.

Sítio web do Simpósio: http://4siahc.wordpress.com/
Cortesia de BNP/JDACT