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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Os Portugueses no Tibete. Os Primeiros Relatos dos Jesuítas (1624-1635). Estudo histórico. Hugues Didier. «Tinham que existir restos de cristianismo na seita dos lamas, ou então o “Cataio” continuava ainda por descobrir, para lá das montanhas e dos desertos da Ásia»

jdact e cncdp

Tibete, o último destino dos Descobrimentos?
«Os textos que se seguem relatam a descoberta do Tibete pelos europeus. É certo que o mundo ocidental já dispunha de informações mais ou menos falsas sobre o mais misterioso país da Ásia, antes da viagem e estabelecimento de António Andrade e outros jesuítas portugueses no reino de Gu-ge (Tibete Ocidental) e também no de Utsang (Tibete Central), no início do século XVII. Já tinham ocorrido encontros acidentais entre lamas e membros da Igreja romana, como o descrito por Guillaume de Rubrouck, em 1253-1254. Mas nunca nenhum viajante vindo da Europa tinha atravessado os colos dos Himalaias ou posto os pés no Tecto do Mundo . O mesmo não acontecia com os mercadores ou peregrinos chineses, indianos ou muçulmanos que foram, aliás, os percursores das duas equipas de portugueses particularmente destemidos que se lançaram ao assalto da Terra das Neves, a primeira a partir de Agrã e da corte do Grande Mogol, e a segunda a partir de Bengala.
A epopeia marítima de Portugal inspirou uma obra incomparável na Literatura dos tempos modernos, Os Lusíadas, de Luís de Camões. Esta obra, a única epopeia verdadeiramente conseguida nesta época, recordemos La Franciade, de Ronsard…, teria sido impossível sem a existência de uma ampla literatura portuguesa da navegação e descoberta marítima. Ela confirma a ideia de uma nação portuguesa feita de marinheiros ou inseparável da água salgada. Mas ignora-se com frequência que estes Argonautas também abandonaram os seus navios, embrenhando-se nas massas continentais, a pé, a cavalo e até de camelo. O Brasil por um lado e, por outro, a exploração dos corações quentes ou gelados da Ásia, da China continental e sobretudo dos grandes espaços muçulmanos ou submetidos ao islão, Império otomano, Irão safévida, Afeganistão e Índia do Grande Mogol, provam que os portugueses não recearam afastar-se dos mares. À excepção de minúsculos espaços insulares ou costeiros, não houve conquista nem bandeirantes no Oriente. A audácia lusitana nas terras muçulmanas da Ásia e particularmente no Tibete, apenas acessível a partir da Índia dominada pelo islão, talvez não tenha sido menor que a demonstrada nas vagas.
No entanto, ela não inspirou epopeias: não podiam existir duas, uma para o mar e outra para a terra, sendo a segunda o prolongamento da primeira. Mas os homens cujas explorações este livro descreve tinham consciência de nela participarem, como Francisco Azevedo, em 1630, e em plenos Himalaias, recordando de súbito Camões, o nosso poeta, e particularmente um verso de Os Lusíadas que evoca a clara nascente do Ganges, onde se supõe que os habitantes vivem do perfume das flores que brotam
dessa nascente. A estada de um punhado de jesuítas portugueses no Tibete, de 1624 a 1635, prosseguida esporadicamente até 1640, e cujas obras foram retomadas em 1715 por Ippolito Desideri, inscreve-se num duplo contexto: o do Extremo-Oriente, onde a ordem fundada por Inácio de Loiola tentou asiatizar o cristianismo (Matteo Ricci, Roberto de Nobili), e o do mundo muçulmano, onde ela estava também empenhada: no Médio-Oriente das minorias cristãs mais ou menos afastadas da comunhão com Roma, do Líbano à Abissínia e à Índia do Norte (ou Grande Mogol), onde diversas circunstâncias excepcionais, devidas essencialmente às ambições político-religiosas de Akbar (1542-1605), permitiram um diálogo islâmico-cristão pouco usual e singular.
Embora não contenham informações significativamente falsas, estes textos apresentam distorções por vezes espantosas relativamente à ideia do budismo lamaico que nos dão, hoje em dia, as obras modernas. O nome de Chescamoni, Sakyamuni, apareceu pela primeira vez em 1627, sob a pena de Estêvão Cacela, um padre pertencente à província jesuíta de Cochim (e não à de Goa), e livre da autoridade ou influência de Andrade pois residia em Utsang, no Tibete central, e não no Gu-ge. Foi a incapacidade ou a recusa de ver Buda e o budismo na terra dos lamas que impediu o primeiro visitante europeu do Tibete de se tornar o fundador da tibetologia moderna. Mais do que a Cacela ou Cabral, afinal mais lúcidos em Utsang do que os padres de Tsaparang no Gu-ge, o mérito de ter fundado esta ciência coube ao jesuíta italiano Ippolito Desideri (1684-1733). Estes textos, interessantes, vivos, coloridos e cheios de detalhes concretos, acabam por ser mais impressionistas que realistas. Situados a montante da tibetologia moderna, fazem corpo com o imaginário, a lenda, ou melhor, as lendas cristãs e muçulmanas acerca do Tibete, solidárias para fazerem do Buda e do budismo um ponto cego, ou seja, uma alteração paganizante do seu próprio monoteísmo, uma deformação de si próprio.
O Tibete visitado em 1624-1641 é, em sentido próprio e figurado, o ponto mais alto da exploração do mundo pelos portugueses. Estes tinham convivido bastante com os muçulmanos em Ceuta, em Moçambique, em Melinde e nas costas do Oceano Índico, de Ormuz às Malucas, por terem em todo o lado procurado o que, na sua opinião, o islão escondia e não permitia atingir: além das especiarias, cristandades perdidas, isoladas, exóticas, como se pode inferir das palavras de Vasco da Gama: Vimos buscar cristãos e especiarias. Na origem de todas estas expedições, primeiro marítimas e depois terrestres, esteve sempre o mesmo desejo, quase sempre e por todo o lado frustrado mas sempre renascido, de encontrar longe, no sudeste, no nordeste ou a leste do mundo muçulmano, uma espécie de duplo exótico da cristandade latina.
Andrade gostaria, tal como no início acreditou, que os tibetanos fossem cristãos, como uma parte dos indianos de Malabar, os abissínios ou os arménios. Como pensara Góis alguns anos antes, ao atravessar o reino de Kasgar (Xinjiang). E também Cacela e Cabral procuraram na Ásia central, e nomeadamente no Tibete, onze anos depois do fracasso de Góis, o caminho para o Cataio, identificado desta vez como o Shambala (Sam bha lai) dos relatos dos lamas.
O imaginário europeu e o imaginário tibetano também se misturavam. Parece que só o sonho podia engendrar o dinamismo psicológico necessário ao estudo de realidades longínquas ou pouco acessíveis. Mas uma vez atingidas estas, depois de desbravados os furores dos oceanos ou as encostas geladas dos Himalaias, o sonho tinha que debater-se ferozmente contra a decepção. Tinham que existir restos de cristianismo na seita dos lamas, ou então o Cataio continuava ainda por descobrir, para lá das montanhas e dos desertos da Ásia». In Hugues Didier, Les Portugais au Tivet. Les premières relations jésuites (1624-1635), Editions Chandeigne, 1996, Os Portugueses no Tibete, Os Primeiros Relatos dos Jesuítas (1624-1635), Coordenação da edição portuguesa por Paulo Lopes Matos, Tradução de Lourdes Júdice, Colecção Outras Margens, CNCDP, 2000, ISBN: 972-8325-82-7.

Cortesia de CNCDP/JDACT

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Fundação Oriente. Exposição Permanente. Presença Portuguesa na Ásia. «Um pequeno conjunto de desenhos e uma encantadora pinturinha lembram a prolongada presença de vinte e sete anos em Macau do famoso pintor britânico Georges Chinnery (1774-1852), expoente do paisagismo romântico no Oriente, que deixou um notável registo das paisagens urbana, natural e humana do território no derradeiro período do seu esplendor como entreposto entre a China e o Ocidente»


Cortesia da foriente

Presença Portuguesa na Ásia
«O conceito gerador deste grande módulo expositivo foi a construção de uma utopia oriental pelos Portugueses, desde o século XV até aos nossos dias, baseada no comércio, na missionação e no encontro de culturas. Dados os referidos condicionalismos da colecção alusiva à presença portuguesa na Ásia, houve que fazer um enorme esforço de conceptualização e de encenação narrativa para de algum modo potenciar os seus indiscutíveis valores e minorar as suas fraquezas. O visitante é acolhido no espaço central do piso 1, que é dedicado a Macau, território outrora sob administração portuguesa onde foi fundada a Fundação Oriente, em 1988. Este amplo espaço é dominado pela exposição de quatro magníficos biombos chineses da colecção: o mais antigo representa uma nau portuguesa nos mares da China e encontra-se ladeado por outros dois, um de carácter essencialmente decorativo, decorado com as armas da família Gonçalves Zarco, e um outro, dito “do Coromandel”, com interessante iconografia cristã, eco da escola de pintura criada no Japão pelos Jesuítas, que mais tarde se estenderia a Macau. O quarto biombo, raríssimo exemplar decorado com as representações das cidades de Cantão e de Macau, encontra-se junto à secção dedicada à iconografia da Cidade do Nome de Deus de Macau, com exemplares que remontam aos séculos XVII e XVIII e se estendem pelo século XIX.

Uma estátua em granito, representando toscamente um holandês, evoca a tentativa frustrada de conquista de Macau pelos Holandeses, em 1622. Neste módulo expositivo destacam-se ainda várias pinturas e gravuras do chamado período “China Trade” (séculos XVIII-XIX), tanto de autores ocidentais como de autores chineses. Um pequeno conjunto de desenhos e uma encantadora pinturinha lembram a prolongada presença de vinte e sete anos em Macau do famoso pintor britânico Georges Chinnery (1774-1852), expoente do paisagismo romântico no Oriente, que deixou um notável registo das paisagens urbana, natural e humana do território no derradeiro período do seu esplendor como entreposto entre a China e o Ocidente. Nas vistas da Praia Grande ou das sampanas junto ao Templo de A-Má surpreendem-se instantâneos do quotidiano que envolvem dominantemente a presença da população chinesa nas suas tarefas, em cenários marcados por uma nostálgica presença europeia.

O papel de Macau no comércio internacional está extensivamente documentado na secção oposta, salientando-se a colecção de porcelana brasonada, formando, na disposição de pratos, travessas, terrinas ou jarras, um dragão.
Cortesia da foriente

Contudo, não deixam de ser significativas as séries de gouaches “China Trade” que representam o fabrico e o comércio do chá e da porcelana, assim como os leques chineses, muito apreciados no Ocidente. Passando ao sector nascente do piso 1, fronteiro ao acesso por escada, sucedem-se os seguintes módulos:
  • E entre gente remota edificaram/Novo reino que tanto sublimaram. Presença portuguesa na Ásia, em que, “guiados” pelas palavras de Camões n’ Os Lusíadas mas também pelas de Fernão Mendes Pinto na Peregrinação, se procura documentar, a partir de uma criteriosa selecção de objectos (mobiliário, têxteis, ourivesaria, pintura e marfins), complementada por mapas e maquetas, o estabelecimento e a construção do Império Português do Oriente, centrado em Goa, com as suas cidades e praças-fortes, as suas sociedade e cultura miscigenadas, em que se deu o diálogo e o confronto entre culturas e religiões. Neste particular destacam-se um exemplar setecentista de um tratado escrito por um goês sobre o gentilismo hindu, assim como as aguarelas de um álbum que representa tipos populares, profissões e autoridades militares da Índia;
  • Ásia Extrema, em que se evidencia a descoberta, pelos Portugueses, da cultura do Império do Meio e do lucrativo comércio de produtos de luxo que com ele poderiam realizar, não esquecendo o papel dos missionários que acompanhavam os comerciantes e os soldados e deram início à Igreja Católica na China, inclusive os que sofreram o martírio pela Fé. O frutuoso encontro com o Japão nos séculos XVI e XVII é brilhantemente ilustrado por dois biombos e por lacas namban que estão entre as mais relevantes peças de toda a colecção.
Findo este sector, o visitante atravessa, de novo, o espaço central dedicado a Macau e entra no sector poente, em que se desenvolvem outros dois módulos:
  • Timor-Leste, povos e culturas, colecção muito rica que documenta, através de peças relacionadas quer com as vivências quotidianas e as tradições linhagísticas quer com o sagrado, a unidade e a diversidade das culturas em presença, assim como os estreitos laços que esses povos souberam manter com Portugal. O descaroçador e o banco situam-nos no mundo quotidiano dos instrumentos de trabalho, enquanto as pulseiras, os colares, as insígnias de poder ou as facas de circuncisão nos projectam no universo cerimonial e ritual, tal como acontece com as diversas máscaras presentes. Os vários tipos de panos tecidos pelas mulheres timorenses ilustram os patrimónios linhagísticos das comunidades, enquanto as portas e os painéis decorativos das casas ou a estatuária votiva nos projectam no microcosmo da casa timorense com a sua sucessão de andares — do nível térreo, morada dos animais e dos espíritos inferiores, passando pela residência dos vivos, até ao lugar de culto dos antepassados;
  • O coleccionismo de arte do Extremo Oriente, constituído pela colecção de terracotas e de outras antiguidades chinesas, japonesas e coreanas que foi adquirida pela Fundação Oriente, a que se acrescentaram os acervos em depósito provenientes do Museu Nacional de Machado de Castro, em Coimbra, em que se destacam os legados do poeta Camilo Pessanha e do político e escritor Manuel Teixeira Gomes.


Cortesia da foriente

Atendendo ao elevado número de exemplares de cerâmica chinesa dos mais diversos períodos e técnicas, é possível documentar a evolução tipológica das terracotas funerárias, com exemplares que remontam ao Neolítico e se estendem até à dinastia Ming, assim como da cerâmica e da porcelana de uso quotidiano, nela incluindo alguma de exportação. Expõe-se também um pequeno mas significativo conjunto de bronzes provenientes, na sua maioria, da Colecção Camilo Pessanha, alguns deles de grande raridade pela sua antiguidade e pela qualidade artística. Um grupo de imagens de vária proveniência e algumas pinturas da Colecção Pessanha permitem referenciar a expressão artística mais erudita do budismo e do taoísmo. Graças à pintura e ao traje da Colecção Pessanha, evoca-se o ambiente do gabinete e o gosto artístico de um letrado chinês de oitocentos, com as “preciosidades”, as taças de libação, os ecrãs e os biombos, os objectos devocionais ou os rolos e álbuns de pintura tradicional chinesa e de caligrafia, bem como os respectivos apetrechos de execução.

Da notável colecção de frascos de rapé de fabrico chinês de Manuel Teixeira Gomes, a segunda maior da Europa, apresenta-se uma significativa selecção das diferentes tipologias que a constituem. O mesmo se passa com as peças japonesas da mesma proveniência: os inrô (pequenos contentores portáteis pessoais), as netzuke (fechos dos inrô em forma de máscara, com personagens, na sua maioria, do Teatro Nô) e as tsuba (guarda-mãos de espada), peças de cronologia alargada, a que se acrescentam, ainda no âmbito do Japão, as três monumentais armaduras e outros objectos de cerâmica, bronze, pintura e mobiliário.
Concluindo este módulo, expõem-se também peças coreanas: uma caixa em madeira lacada com incrustações de madrepérola e uma curiosa série de aguarelas de finais de oitocentos da autoria do pintor coreano Kim Jun-geun, conhecido pelo nome artístico de Kisan, sobre trajos, costumes e festas da Coreia, realizadas para o mercado europeu e americano». In Fundação Oriente, Exposição Permanente, Presença Portuguesa na Ásia, Museu do Oriente.

Cortesia de Fundação Oriente/JDACT