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domingo, 13 de novembro de 2022

O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «… calculava-se que em número superior a dez mil, os chamados trinxeraires, sobreviviam nas ruas de Barcelona, mendigando, furtando e dormindo à intempérie…»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Dalmau enfiou um guarda-pó por cima da camisa bege que lhe chegava até aos joelhos e que, com umas calças de uma mescla de lã e linho de um tom escuro indefinido, boné e sapatos de couro negro abotinados, constituíam a sua indumentária habitual. Quando se sentou diante dos inúmeros esboços espalhados em cima da sua mesa de trabalho e ordenou os lápis, as vozes, os risos, os gritos e os ruídos próprios daquela fábrica em funcionamento, alguns estrepitosos, desvaneceram-se. Dalmau aplicou todos os seus sentidos naqueles desenhos japoneses, tentando assimilar a técnica oriental que prescindia do realismo em busca de uma beleza estilizada, sem sombras, tão distante dos critérios ocidentais quanto apreciada num mercado voltado para a procura da diferença, do exótico, do moderno.

Tal como se abstraiu de qualquer ruído, o silêncio das instalações vazias quando a noite caiu sobre Barcelona apanhou-o absorto no trabalho. Tinha comido quase sem apetite, como se fosse uma contrariedade, o almoço que lhe levaram e, mais tarde, foi respondendo com um simples murmúrio a quantos espreitaram pela porta do seu estúdio para se despedirem. Don Manuel, um dos últimos a sair, não foi excepção e, depois de estalar a língua, um gesto que ninguém saberia se atribuir à satisfação ou ao desgosto, virou costas a Dalmau, que ignorou as suas palavras sem sequer erguer o olhar dos desenhos. Passadas mais algumas horas, a luz dos bicos dos candeeiros a gás que iluminavam o estúdio diminuiu de intensidade até quase o deixar na penumbra. Quem apagou a luz?, protestou Dalmau. Quem anda aí? Sou eu, Paco, respondeu o guarda-nocturno, abrindo a torneira do gás para que o estúdio se iluminasse de novo. A luz revelou um ancião encolhido, envelhecido. Era uma excelente pessoa, mas não devia estar ali. O mestre tinha proibido o acesso aos estúdios, onde se encontravam os esboços e projectos, obras meio concluídas, material que só o pessoal da máxima confiança podia ver.

O que fazes aqui?, perguntou Dalmau, com estranheza. Don Manuel ordenou-me que, se te atrasasses muito, te mandasse embora. O homem sorriu mostrando as gengivas da boca sem dentes. A situação na cidade é complicada, o povo está muito alterado, explicou, e a tua mãe deve estar preocupada. Talvez Paco tivesse razão. De qualquer modo, a distracção concedeu às tripas de Dalmau a oportunidade de protestarem com fome, o que, juntamente com o cansaço que sentiu de repente nos olhos, o aconselhou a dar a jornada por terminada. Apaga, pediu ao vigilante, enquanto atirava o guarda-pó para o cabide que se encontrava a um canto, onde ficou precariamente pendurado por uma das mangas. O que aconteceu na cidade?, quis saber enquanto fechava a secretária.

A situação complicou-se. Os piquetes, principalmente mulheres e adolescentes, percorreram a cidade velha apedrejando as fábricas e oficinas até fecharem. Parece que durante a manhã viraram um eléctrico e isso encorajou-as. Dalmau expirou fundo. Aconteceu algo semelhante com as grandes fábricas do bairro de Sant Martí. Assaltaram esquadras da polícia. A rapaziada aproveitou para fazer das suas e queimou algumas repartições de impostos, provavelmente depois de as assaltarem. Está tudo numa grande agitação. Desceram pelas escadas até aos armazéns do primeiro piso. Aí, antes de sair para o extenso terreno que rodeava as construções, onde se trabalhava a argila, Dalmau despediu-se dos dois gaiatos que não deviam ter mais de dez anos e que viviam e dormiam na fábrica, numa manta no chão, perto do calor dos fornos durante o Inverno, dos quais se iam afastando à medida que o tempo se tornava mais clemente. Nem sequer eram aprendizes; serviam para tudo: limpar, fazer recados, trazer água… Ambos tinham família; era o que diziam: operários que trabalhavam no bairro de Sant Martí, a Manchester Catalã, e sobreviviam amontoados em casas partilhadas por várias famílias. Sant Martí ficava longe e o mestre não via inconveniente em que vivessem na fábrica e ganhassem alguns cêntimos; em troca, apenas lhes exigia que aos domingos fossem à missa na paróquia de Santa Maria del Remei de Les Corts. As famílias não pareciam importar-se que aqueles rapazes vivessem na fábrica, ninguém apareceu a perguntar por eles. Havia-os em piores circunstâncias, pensou Dalmau enquanto revolvia o cabelo despenteado de um deles ao cruzar a porta: um exército de rapazes, calculava-se que em número superior a dez mil, os chamados trinxeraires, sobreviviam nas ruas de Barcelona, mendigando, furtando e dormindo à intempérie, em qualquer buraco onde conseguissem acomodar-se; eram órfãos ou apenas crianças abandonadas, como aqueles dois aprendizes de quem as famílias não podiam cuidar nem alimentar». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de Suma/JDACT

JDACT, Barcelona, Ildefonso Falcones, Literatura, A Arte, 

O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «… em azulejos e revestimentos de paredes, mosaicos, forjados, marcenaria e vitrais, assim como nos milhares de esculturas de gesso que ornamentavam os edifícios»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Aquelas duas obras, entre muitas outras que já clamavam uma mudança, uma concepção diferente da arquitectura, foram, nas palavras do mestre de Dalmau, as precursoras da Casa Calvet na Rua Casp de Barcelona, na qual Gaudí começou a abandonar a concepção historicista, que inspirou a sua obra durante a primeira fase do século anterior, para desenvolver uma arquitectura na qual pretendia que a matéria ganhasse movimento. Movimento, as pedras!, exclamava don Manuel Bello, com a perplexidade espelhada no rosto.

As mulheres e os edifícios, confessou certa vez a Dalmau, vão-se desprendendo pouco a pouco da sua classe, porte e senhoria, da sua história, e prostituem-se: umas para se transformarem em cobras serpenteantes, e outros em matéria inconsistente. O homem virou-lhe as costas com espalhafato, como se o universo se estivesse a desmoronar. Dalmau evitou replicar que se sentia atraído por mulheres serpenteantes e que admirava aqueles que queriam que o ferro forjado, a pedra e, inclusivamente, a cerâmica, ganhassem movimento. Quem, a não ser um bruxo, um mago, um criador excepcional, podia apresentar ao espectador a matéria transformada em fluido!

Uma grande carroça carregada de argila, puxada por quatro poderosos percherons com a cabeça, pescoço e garupa fortes e imponentes, e patas grossas e peludas, que passou lenta e pesadamente ao seu lado, fazendo estremecer a terra, arrancou Dalmau dos seus pensamentos. Ergueu a vista para ver a abarrotada traseira da carroça recortada contra as chaminés altas dos fornos da fábrica que se erguiam bem acima dele. Manuel Bello García. Fábrica de Azulejos. Era este o anúncio que, em cerâmica branca e azul, rematava o portal da entrada; a partir daí, abria-se uma zona ampla com tanques e secadouros, junto aos armazéns, às oficinas e aos fornos. Era uma fábrica de média dimensão, que produzia trabalhos em série, mas também elaborava as peças especiais que os arquitectos ou mestres-de-obras desenhavam ou imaginavam para os seus edifícios ou os inúmeros estabelecimentos comerciais, lojas, farmácias, hotéis, restaurantes e outros que recorriam à cerâmica como um dos elementos decorativos por excelência.

Era esse o trabalho de Dalmau: desenhar. Criar modelos originais que depois eram fabricados em série e faziam parte do catálogo da firma; concretizar e desenvolver aqueles que os mestres-de-obras imaginavam para os seus edifícios ou estabelecimentos, e que apenas esboçavam, ou então executar os modelos que os grandes arquitectos modernistas lhes levavam já perfeitamente elaborados. Desculpe, don Manuel… Dalmau apresentou-se no escritório e estúdio do mestre, junto às oficinas da fábrica, no primeiro piso de um dos edifícios que compunham o complexo. Mas a situação no bairro velho era caótica. Manifestações, cargas da polícia, exagerou. Tive de zelar pela minha mãe e a minha irmã. Devemos cuidar das nossas mulheres, filho. Don Manuel, estritamente de negro, sóbrio, como era devido, com uma gravata verde-escura com um nó enorme, assentiu por detrás da mesa de mogno que ocupava. As patilhas compridas e fartas juntavam-se ao bigode, também espesso, numa mata de pêlo impecavelmente delineada que deixava o pescoço e o queixo sem barba. Elas precisam de nós. Fazes bem. Esses anarquistas e libertários é que vão arruinar o país! Espero que a Guarda Civil se tenha esforçado com eles! Mão dura! É o que merecem todos esses ingratos! Não te preocupes, filho. Vai trabalhar. O estúdio de Dalmau confinava, porta com porta, com o do mestre. Ele também não trabalhava com os outros empregados, em salas comuns; dispunha de um espaço para si, um local bastante amplo onde podia concentrar-se no seu trabalho, que naquela altura consistia em desenhar uma série de azulejos com motivos orientais: flores-de-lótus, nenúfares, crisântemos, canas de bambu, borboletas, libélulas…

Dominar o desenho de flores custou-lhe vários cursos nos estudos que efectuou na escola da Llotja de Barcelona. As flores naturais, as flores de perfil, as flores à sombra, o desenho e, por último, a composição a óleo. Dentro das matérias que se estudavam na Llotja, aonde Dalmau ingressou aos dez anos, que incluíam aritmética, geometria, desenho figurativo, desenho linear e decorativo, desenho do natural e pintura, uma das mais importantes era a do desenho aplicado às artes e ao fabrico. Para isso foi criada a escola da Llotja, para ensinar arte aos operários que necessitavam com o objectivo de a aplicarem na indústria.

No entanto, em meados do século XIX começou a dar-se preferência às artes puras em detrimento das artes aplicadas, mas sem abandonar estas últimas, as destinadas a providenciar recursos à indústria, e entre as quais se encontrava, sem dúvida alguma, o desenho de flores. Os elementos botânicos foram o ornamento por excelência da arte gótica, e agora, devido à procura das inspirações medievais, usavam-se na decoração de tecidos e vestidos, a indústria que fazia mover a Catalunha, e, com o modernismo arquitectónico, em azulejos e revestimentos de paredes, mosaicos, forjados, marcenaria e vitrais, assim como nos milhares de esculturas de gesso que ornamentavam os edifícios». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de Suma/JDACT

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quinta-feira, 3 de novembro de 2022

O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «Poucos anos depois, Puig i Cadafalch assumiu a reconstrução da Casa Amatller, no Paseo de Gràcia, com elementos góticos, quebrando simetrias e classicismos…»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Cala-te! Que nojo!, queixou-se Emma, empurrando Montserrat. Mas porque tens de imaginar as mulheres nuas?, perguntou a Dalmau. Não te chega o que tens em casa? Fez esta última observação a arrastar as palavras, com um tom de voz doce, aduladora. Dalmau puxou-a para si e beijou-a nos lábios. Claro que me satisfaz, sussurrou.

Com efeito, à excepção de recorrer a fotografias eróticas, às escondidas, nas quais estudava a nudez feminina que o mestre lhe impedia, Emma era a única que tinha posado nua para ele. Montserrat, conhecedora do facto, também se ofereceu para o fazer. Como vou pintar nua a minha própria irmã?, contestou. É algo artístico, não?, insistiu ela, fazendo menção de tirar a camisa, o que Dalmau impediu agarrando-lhe a mão. Adoro os desenhos que fizeste da Emma! Está tão…, sensual! Tão mulher! Parece uma deusa! Ninguém diria que é cozinheira. Gostava de verme assim e não como uma vulgar operária de uma fábrica de estampagem de tecidos de algodão.

Ao ver que a irmã puxava para baixo a saia floreada que vestia como se quisesse livrar-se desta, Dalmau fechou os olhos por instantes. Eu também gostava que me desenhasses assim, opinou Montserrat. E a mãe iria gostar?, interrompeu ele. Montserrat contorceu o lábio superior e abanou a cabeça, resignada. Não é preciso que te pinte nua para saberes que és tão bonita quanto Emma, Dalmau procurou confortá-la. Todos se apaixonam por ti! Estão loucos por ti, tens-nos aos teus pés. Naquele dia, devido ao derrube do eléctrico nas Ramblas, Dalmau já estava bastante atrasado para o trabalho e não tinha tempo para se divertir na imaginária nudez das burguesas que se pavoneavam no Paseo de Gràcia. Tampouco para observar as construções modernistas que se erguiam no Eixample, o Ensanche de Barcelona: a zona extramuros da cidade onde, durante séculos, se proibiu a construção por motivos de defesa militar e que, no século XIX, com a demolição das muralhas, foi urbanizada. O mestre Bello desprezava aquelas construções modernistas, embora fizesse bom negócio na sua fábrica a vender cerâmica aos construtores.

Filho, desculpou-se no dia em que Dalmau se atreveu a chamar a atenção para essa contradição, negócio é negócio. O certo era que, tal como sucedia com os vestidos das mulheres, o modernismo impôs mudanças importantes desde a Exposição Universal de Barcelona de 1888, uma evolução difícil de admitir para as personalidades mais conservadoras. Na última década do século XIX, as mulheres, livres da crinolina que as assemelhava aos caracóis, continuaram a usar vestidos rígidos, idênticos aos medievais. Durante essa década, os arquitectos também procuraram inspirar-se na Idade Média tentando emular a grandeza da Catalunha daquela época. Domènech i Montaner recuperava técnicas com materiais da própria terra, como os tijolos à vista, e assim construiu o café-restaurante da própria exposição de 1888, um imponente castelo com ameias de influências orientais, no qual, todavia, foi concedida licença para colocar, no friso exterior, cerca de cinquenta escudos de cerâmica de cor branca, dos mais de cem que tinha previstos, onde se anunciavam os produtos que se podiam consumir no interior do estabelecimento: um marinheiro a beber genebra, uma rapariga a comer um gelado, uma cozinheira a preparar chocolate…

Poucos anos depois, Puig i Cadafalch assumiu a reconstrução da Casa Amatller, no Paseo de Gràcia, com elementos góticos, quebrando simetrias e classicismos e dotando Barcelona da sua primeira fachada colorista. Nesta, tal como havia feito Domènech no seu café-restaurante da Exposição Universal, Puig jogou com os elementos decorativos e, aproveitando os interesses do proprietário do edifício, incluiu uma multiplicidade de animais grotescos: um cão, um gato, uma raposa, uma cabra, uma ave e uma lagartixa como guardiões; uma rã que sopra vidro e outra que brinda com um copo; dois suínos a esculpirem um jarrão; um asno a ler um livro, outro que o observa com óculos; um leão apaixonado pela fotografia junto a um urso com um guarda-chuva; um coelho que funde metal enquanto outro lhe leva água, e um macaco que martela numa bigorna». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de Suma/JDACT

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O Pintor de Almas. Ildefonso Falcones. «Era compreensível para quem conhecesse a mulher de don Manuel, zombava Dalmau às escondidas. Burguesa, reaccionária, conservadora, católica recalcitrante (até à medula!)»

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Barcelona. Maio de 1901

«(…) Emma e Montserrat, transpiradas, com o rosto sujo e enegrecido devido ao pó que se levantou com a queda do vagão, saltavam excitadas, instigavam as companheiras e erguiam os braços empoleiradas no eléctrico.

Dalmau sentiu os pêlos do corpo a eriçarem-se ao ver aquelas duas jovens mulheres. Valentes! Empenhadas! Recordou as vezes em que, juntamente com as mães e as mulheres dos operários, se precipitaram para a rua em defesa de uma causa. Dalmau não chegava a ser dois anos mais velho do que elas e, apesar disso, aquelas duas jovens, como se o facto de serem mulheres a tal as obrigasse, superavam-no em ousadia e gritavam, insultavam e, inclusivamente, desafiavam a Guarda Civil. E agora estavam ali, em cima de um eléctrico que tinham acabado de derrubar com as mãos. Dalmau estremeceu, depois ergueu o punho e, excitado, juntou-se aos gritos e reivindicações da populaça.

A emoção e o estrondo ainda continuavam a ecoar no íntimo de Dalmau, agitando-o, ensurdecendo-o, enquanto subia o Paseo de Gràcia de Barcelona em direcção à fábrica de cerâmica onde trabalhava, situada em Les Corts, num descampado junto à ribeira de Bargalló. Não chegou a ter oportunidade de falar com as duas jovens pois, assim que conseguiram o seu objectivo, o nervosismo demonstrado pela Guarda Civil forçou a dissolução do piquete e fez com que as mulheres e os filhos dispersassem em todas as direcções. Talvez Montserrat e Emma fossem reconhecíveis, pensou Dalmau. Com toda a certeza, disse para si, e sorriu ao mesmo tempo que dava um pontapé na folha caída de uma árvore. Quem podia esquecê-las ali de pé, em cima do eléctrico? No entanto, confundiram-se rapidamente com as outras que se encontravam no mercado da Boqueria ou nas Ramblas: mulheres como tantas outras, vestidas com saia comprida até aos artelhos, avental e camisa, de um modo geral com as mangas arregaçadas. As mais velhas costumavam ter a cabeça coberta com um lenço, em geral negro; as outras apanhavam o cabelo num carrapito, sem chapéu. Eram mulheres radicalmente diferentes das que se podiam ver a deambular pelo Paseo de Gràcia, ricas e elegantes.

Todos os dias, quando ia ou vinha por aquela grande artéria da Cidade Condal, Dalmau entretinha-se a contemplar as senhoras que passeavam, orgulhosas, por entre amas vestidas de branco com os seus bebés, cavalos e carruagens. O peito, o ventre e as nádegas; diziam que esses eram os três padrões pelos quais se devia julgar a mulher ideal. A moda feminina tinha evoluído com o modernismo, tal como a arquitectura e as outras artes, e foi substituindo as peças medievais, rígidas, usadas durante a última década do século anterior, por outras que revelavam mulheres vivas, com os corpetes a realçarem as formas naturais dos corpos numa espécie de serpentear maravilhoso: seios espetados; ventres planos, comprimidos, e atrás as nádegas, empinadas, como se estivessem dispostas a atacar a qualquer momento. Quando tinha tempo, Dalmau sentava-se num dos bancos do Paseo e fazia esboços a lápis daquelas mulheres, embora na sua imaginação costumasse evitar a vestimenta e as desenhasse nuas. Não queria limitar-se àquilo que os corpetes e os vestidos insinuavam. Os pés, as pernas, os tornozelos, sobretudo os tornozelos, finos e magros, com os tendões tensos como cordas; mãos e braços. E os pescoços! Porquê reparar só naqueles três critérios: peito, ventre e nádegas? Gostava do nu feminino, mas infelizmente não tinha oportunidade de trabalhar com modelos despojadas de roupa; o seu mestre, don Manuel Bello, proibira-o. Nus masculinos, sim; femininos, não. Se ele não o fazia, contrapunha o mestre, não seria Dalmau a fazê-lo. Era compreensível para quem conhecesse a mulher de don Manuel, zombava Dalmau às escondidas. Burguesa, reaccionária, conservadora, católica recalcitrante (até à medula!), virtudes estas que partilhava com o marido, a mulher agarrava-se à moda velha, abandonada há alguns anos, e ainda usava a crinolina, uma espécie de armação que se atava à cintura para que a saia ficasse bojuda atrás.

Tal qual um caracol!, troçava, quando explicava a Montserrat e a Emma. Tudo para a frente e uma espécie de carapaça que lhe sai do rabo e que carrega aonde quer que vá. Acreditam que sou incapaz de a imaginar nua? As duas riram. Nunca tiraste a carapaça a um caracol?, perguntou-lhe a irmã. Pois pões um pouco de cabelo a essa lesma em vez dos cornichos e aí tens a tua burguesa nua, babando-se como todas elas». In Ildefonso Falcones, O Pintor de Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de Suma/JDACT

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sexta-feira, 26 de novembro de 2021

O Pintor das Almas. Ildefonso Falcones. «As mulheres explodiram em gritos de vitória, enquanto os poucos passageiros que ousaram utilizar o transporte e viajavam na parte superior do vagão, ao ar livre, sentados ao sol…»

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Barcelona, Maio de 1901

«(…) Não havia muitos anos, quatro ou cinco, Dalmau cometeu o mesmo desplante perante a polícia; a mãe atrás dele, a gritar, exigindo justiça ou melhorias sociais, encorajando-o à luta, como fazia a maioria das mães que interpunham os filhos em defesa de causas que consideravam superiores, inclusivamente a sua própria integridade física. Por instantes, os gritos das mulheres provocaram em Dalmau uma embriaguez semelhante à que viveu quando fez frente à polícia. Na altura, sentiam-se deuses. Lutavam pelos operários! A Guarda Civil ou o exército carregaram sobre eles algumas vezes, mas hoje nada disso iria acontecer, disse Dalmau para si, desviando o olhar para as grevistas que faziam frente ao eléctrico. Não. Aquele dia não estava destinado a que a força pública atacasse as mulheres; pressentia-o, sabia-o.

Dalmau não tardou a localizá-las. Na primeira fila, à frente de todas, com o olhar desafiante, como se fosse o suficiente para deter o eléctrico da linha de Gràcia que se aproximava. Dalmau sorriu. O que não conseguiriam aqueles olhares? Montserrat e Emma, a sua irmã mais nova e a sua noiva, ambas inseparáveis, unidas pela infelicidade, unidas pela luta operária. O eléctrico aproximava-se fazendo soar a campainha; o sol que se infiltrava por entre o arvoredo das Ramblas arrancava centelhas às rodas e aos restantes elementos metálicos do vagão. Uma ou outra mulher recuou; poucas, muito poucas. Dalmau esticou-se. Não temia por elas; o eléctrico iria parar. Mães e polícias calaram-se, atentos. Muitos curiosos retiveram a respiração. O grupo de mulheres que se encontrava em cima dos carris pareceu crescer sobre si mesmo, firme, tenaz, disposto a ser atropelado.

Parou.

As mulheres explodiram em gritos de vitória, enquanto os poucos passageiros que ousaram utilizar o transporte e viajavam na parte superior do vagão, ao ar livre, sentados ao sol, desciam aos tropeções para fugirem, depois de o condutor e os revisores, todos fura-greves, terem saltado do eléctrico antes mesmo de este parar. Dalmau contemplou Emma e Montserrat, as duas com o punho crispado erguido para o céu, sorridentes, a celebrarem, eufóricas, a vitória com as suas companheiras. Ainda não tinha passado um minuto quando aquelas centenas de mulheres se aproximaram do eléctrico. Vamos! Vamos a ele! A Guarda Civil quis reagir, mas a barreira com as crianças avançou para os agentes. Foram muitas as mãos que se apoiaram na parte lateral do vagão. Outras tantas, as que não alcançavam a máquina, apoiaram-se às costas das grevistas que estavam à frente. Empurrem!, gritaram várias ao mesmo tempo. Com mais força! O eléctrico balançou em cima das rodas de ferro. Mais! Mais, mais… Um, dois… O vaivém aumentou ao ritmo do alento que davam umas às outras. Por fim, um rugido que surgiu daquelas centenas de gargantas precedeu a queda do vagão. O estrondo confundiu-se com o ruído dos estilhaços, o entrechocar dos ferros e uma nuvem de pó que envolveu o eléctrico e as mulheres. Um brado quebrou o silêncio relativo que se tinha instalado depois de o vagão ter embatido no solo. Saúde e revolução! Viva a anarquia! Greve geral! Morte aos frades! Mais trabalho e melhores salários. Reduzir as jornadas extenuantes. Acabar com o trabalho jovem. Pôr fim ao poder da Igreja. Maior segurança. Casas decentes. Expulsão das ordens religiosas. Saúde. Ensino laico. Alimentos acessíveis… Mil reivindicações troaram na Rambla das Flores, de Barcelona, para serem partilhadas por uma mole de gente humilde, cada vez mais numerosa, que se ia reunindo e aplaudia fervorosamente aquelas mulheres trabalhadoras». In Ildefonso Falcones, O Pintor das Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de SumadasLetras/JDACT

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O Pintor das Almas. Ildefonso Falcones. «O eléctrico que cobria a linha de Barcelona para Gràcia, que começava na Rambla de Santa Mónica, junto ao porto, aproximava-se»

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Barcelona, Maio de 1901

«Os gritos de centenas de mulheres e crianças ecoavam nas vielas da cidade velha. Greve! Fechem as portas! Parem as máquinas! Baixem as persianas! O piquete de mulheres, muitas delas com filhos pequenos nos braços ou a tentarem mantê-los seguros pela mão, apesar dos seus esforços para fugirem e juntarem-se aos que eram um pouco mais velhos, não sujeitos a controlo, percorria as ruas da cidade velha, incitando os trabalhadores e os comerciantes, que ainda mantinham abertas as oficinas, fábricas e lojas, a interromperem a actividade de imediato. Os bastões e barrotes que empunhavam convenciam a maioria, embora não fosse rara a quebra dos vidros das montras e uma ou outra rixa. São mulheres!, gritou um velho da varanda de um primeiro andar, mesmo por cima da cabeça de um comerciante furioso que fazia frente a algumas delas. Anselmo, eu… O comerciante olhou para cima.

A sua desculpa foi emudecida pelos insultos e vaias proferidos por muitos dos que observavam a cena das varandas daquelas casas velhas e apinhadas, morada de trabalhadores e gente humilde, com as fachadas rachadas, descascadas e com manchas de humidade. O homem cerrou os lábios, abanou a cabeça e fechou a loja, enquanto catraios maltrapilhos e sujos cantavam vitória e troçavam dele. Alguns dos que assistiam à cena sorriam abertamente perante a chacota do grupo de grevistas precoces; o comerciante não era querido no bairro. Confeccionava e vendia alpercatas. Não vendia fiado. Não sorria, e tampouco saudava quem quer que fosse. A catraiada continuou na chacota até que a polícia, que seguia o piquete de mulheres, se aproximou. Então, desatou a correr em busca da marabunta que continuava a deslocar-se pelas ruelas da Barcelona medieval, tão sinuosas quanto sombrias, pois a maravilhosa luz primaveril daquele mês de Maio não conseguia penetrar na estreita malha urbana, apenas nos andares mais altos dos edifícios que se erguiam no empedrado. Os vizinhos das varandas calaram-se à passagem dos guardas-civis, alguns a cavalo, com os sabres embainhados, a maioria com o rosto contraído, uma tensão que se sentia nos seus movimentos sincopados. Uns e outros tinham consciência do conflito com que aqueles homens se debatiam: a sua obrigação era impedir os piquetes ilegais, mas não estavam dispostos a carregar contra as mulheres e crianças.

A história da revolução operária em Barcelona estava ligada às mulheres e aos seus filhos. Eram elas quem, em inúmeras ocasiões, exortavam os seus homens a permanecerem afastados das acções violentas. Connosco não se atreverão, e somos suficientes para conseguirmos o encerramento, argumentavam. E assim era também naquele mês de Maio de 1901, quando os operários foram para as ruas depois de, no final de Abril, a Companhia de Eléctricos ter despedido os trabalhadores em greve e contratado fura-greves para os substituir. A greve geral pretendida pelas associações de operários em defesa dos trabalhadores dos eléctricos estava muito longe de se concretizar e, apesar de algumas acções violentas, a Guarda Civil parecia ter a situação controlada na cidade. De repente, um clamor surgiu nas bocas das centenas de mulheres porque se propagou entre elas a notícia de que um eléctrico estava a circular pelas Ramblas. Ouviram-se insultos e gritos de ameaça: Fura-greves!, Filhos da pu…!, Vamos a eles!

As grevistas acorreram com o passo apressado, algumas quase a correr, à Rua da Portaferrissa para chegarem à Rambla das Flores, acima do mercado da Boqueria, uma lota que, ao contrário de todas as outras em Barcelona, como a de Sant Antoni, a do Born ou a da Concepció, não é fruto de um projecto concreto mas da ocupação, por parte dos vendedores, da Praça de Sant Josep, um magnífico espaço porticado; por fim, venceram os mercadores e a praça cobriu-se com toldos e telhados provisórios, tendo os pórticos dos edifícios, que a rodeavam, sido transformados nas paredes do novo mercado. As tradicionais paradas de venda de flores, estruturas de ferro semelhantes a quiosques colocadas frente a frente ao longo do passeio, estavam fechadas, embora as floristas, muitas delas com as mãos nas ancas, desafiantes, permanecessem junto aos respectivos estabelecimentos, dispostas a defendê-los. Em Barcelona só se vendiam flores naquela zona das Ramblas. No mercado da Boqueria, um número infindável de carroças de transporte, com os seus toldos e cavalos, esperavam estacionadas em fila, lado a lado, a escassos passos dos carris do eléctrico. Os animais reagiram nervosamente à gritaria e à avalancha das mulheres. Poucas prestaram atenção ao alvoroço de cavalos empinados, carregadores e comerciantes a correrem de um lado para o outro. O eléctrico que cobria a linha de Barcelona para Gràcia, que começava na Rambla de Santa Mónica, junto ao porto, aproximava-se.

Dalmau Sala tinha seguido o piquete durante o seu itinerário pela cidade velha, juntamente com muitos outros homens, em silêncio, atrás da Guarda Civil. Agora, numa zona ampla como era a das Ramblas, tinha uma visão mais completa. O caos era absoluto. Cavalos, carroças e comerciantes. Cidadãos a correrem, curiosos; polícias em formatura perante o grupo de mulheres com os filhos que se colocaram diante deles, a formar uma barreira humana que pretendia separar todas as outras que se tinham apinhado em cima dos carris do eléctrico para deter a máquina.

Um calafrio percorreu Dalmau de cima a baixo quando viu que algumas mulheres erguiam os filhos e exibiam-nos perante os guardas-civis. Outros catraios, um pouco mais crescidos, permaneciam agarrados às saias das mães, assustados, com os olhos muito abertos, esquadrinhando o espaço em busca de respostas que não encontravam, enquanto os adolescentes, ensoberbecidos pelo ambiente, chegavam a desafiar os polícias». In Ildefonso Falcones, O Pintor das Almas, Suma das Letras, 2020, ISBN 978-989-665-961-5.

Cortesia de SumadasLetras/JDACT

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sábado, 16 de janeiro de 2021

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Depois de cinco anos de duro trabalho como aprendiz, Grau conseguiu a categoria de oficial. Seguiu as ordens do mestre que, satisfeito com as suas qualidades, começou a pagar-lhe um soldo»

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Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha

«(…) Bernat tentou em vão assimilar todos aqueles nomes, mas quando ia voltar a perguntar, o homem já tinha desaparecido. Segue por esta mesma rua até à Praça de Sant Jaume, repetiu para Arnau. Disso lembro-me. E uma vez chegados à praça, voltamos a virar à direita, disso também nos lembramos, não é verdade, meu filho? Arnau parava de chorar sempre que ouvia a voz do pai. E agora?, disse em voz alta. Encontrava-se numa nova praça, a de Sant Miquel. Aquele homem só falou de uma praça, mas não nos podemos ter enganado. Bernat tentou perguntar a um par de pessoas, mas nenhuma se deteve. Todos têm pressa, comentou para Arnau, precisamente quando viu um homem parado em frente à entrada de..., um castelo? Aquele ali não parece ter pressa; talvez... Bom homem..., chamou, por detrás do homem, tocando-lhe na capa negra. Até Arnau, fortemente agarrado ao seu peito, se sobressaltou quando o homem se virou, tal foi o susto de Bernat. O ancião judeu abanou cansadamente a cabeça. Era aquilo que as acesas prédicas dos sacerdotes cristãos conseguiam. Diz-me, respondeu-lhe. Bernat não conseguia afastar o olhar da rodela vermelha e amarela que cobria o peito do ancião. Depois, olhou para o interior daquilo que lhe parecera um castelo amuralhado. Todos os que entravam e saíam eram judeus! Todos traziam aquele sinal. Seria permitido falar com eles? Querias alguma coisa?, insistiu o ancião. Co..., como se chega ao bairro dos oleiros? Segue sempre a direito por esta rua, indicou-lhe o ancião com um gesto da mão, e chegarás ao portal da Boquería. Continua pela muralha até ao mar, e na porta seguinte fica o bairro que procuras.

Afinal de contas, os curas só tinham avisado que não se podia ter relações carnais com eles; por isso a Igreja os obrigava a usar aquelas rodelas, para que ninguém pudesse alegar ignorância sobre a condição de qualquer judeu. Os curas falavam sempre deles com grande exaltação e, no entanto, aquele velho... Obrigado, bom homem, respondeu Bernat esboçando um sorriso. Eu é que te agradeço, respondeu-lhe o velho. Mas daqui para a frente procura que não te vejam a falar com um de nós..., e muito menos a sorrir-nos. O velho cerrou os lábios num esgar de tristeza.

No portão da Boquería, Bernat deu com um grande grupo de mulheres que compravam carne: tripas e cabra. Durante uns instantes, observou como elas avaliavam a mercadoria e discutiam com os vendedores. Esta é a carne que tantos problemas ocasiona ao nosso senhor, disse para o filho. Depois, riu-se ao pensar em Llorenç de Bellera. Quantas vezes o vira a tentar amedrontar os pastores e ganadeiros que abasteciam de carne a cidade condal! Mas só se atrevia a isso, a amedrontá-los com os seus cavalos e com os seus soldados; quem levasse gado para Barcelona, onde só podiam entrar animais vivos, tinha direito de pasto em todo o principado. Bernat contornou o mercado e desceu para Trentaclaus. As ruas eram mais largas e, à medida que se aproximava do portão, observou que, diante das casas, dezenas de objectos de cerâmica secavam ao sol: pratos, malgas, panelas, jarros ou ladrilhos. Procuro a casa de Grau Puig, disse a um dos soldados que vigiavam o portão.

Os Puig tinham sido vizinhos dos Estany ol. Bernat recordava-se de Grau, o quarto de oito famélicos irmãos que não conseguiam encontrar nas suas escassas terras comida suficiente para todos. A mãe de Bernat gostava muito deles, porque a mãe dos Puig a ajudara a parir o próprio Bernat e a irmã. Grau era o mais desenvolto e mais trabalhador dos oito; por isso, quando Josep Puig conseguiu que um parente admitisse um dos seus filhos como aprendiz de oleiro em Barcelona, ele, com dez anos, fora o escolhido. Mas se Josep Puig não podia alimentar a família, dificilmente ia poder pagar as duas quartas de trigo branco e os dez soldos que o parente lhe pedia para tomar a seu cargo Grau durante os cinco anos de aprendizagem. A isso seria preciso somar os dois soldos que Llorenç de Bellera exigira por libertar um dos seus servos, e a roupa que Grau teria de levar para os dois primeiros anos de aprendizagem, porque o mestre só se comprometia a vesti-lo durante os três últimos anos. Por isso, o pai Puig acorreu à casa dos Estany ol, acompanhado do seu filho Grau, pouco mais velho que Bernat e a irmã. O louco Estany ol escutou a proposta de Josep Puig com atenção: se dotasse a sua filha com aquelas quantidades e as adiantasse a Grau, o seu filho casaria com Guiamona aos dezoito anos, quando já fosse oficial oleiro. O louco Estany ol olhou para Grau; em algumas ocasiões, quando a família do rapaz já não dispunha de outro recurso, tinha ido ajudá-los nos campos. Nunca pedira nada, mas regressara sempre a casa com alguma verdura ou algum cereal. Tinha confiança nele. O louco Estany ol aceitou.

Depois de cinco anos de duro trabalho como aprendiz, Grau conseguiu a categoria de oficial. Seguiu as ordens do mestre que, satisfeito com as suas qualidades, começou a pagar-lhe um soldo. Aos dezoito anos cumpriu a sua promessa e casou com Guiamona. Filho, disse Estany ol a Bernat, decidi dotar de novo Guiamona. Nós somos apenas três e temos as melhores terras da região, as mais extensas e as mais férteis. Eles podem precisar desse dinheiro. Pai, interrompeu-o Bernat, porque me estás a dar explicações? Porque a tua irmã já teve o seu dote, e tu és o meu herdeiro. Esse dinheiro pertence-te. Faça o que lhe parecer adequado.

Quatro anos depois, aos vinte e dois, Grau apresentou-se ao exame público que se realizava na presença de quatro cônsules da confraria. Realizou as suas primeiras obras: um jarro, dois pratos e uma escudela, sob o olhar atento daqueles homens, que lhe outorgaram a categoria de mestre, o que lhe permitia abrir a sua própria oficina em Barcelona e, claro, usar o selo distintivo dos mestres, que devia ser estampado, prevenindo possíveis reclamações, em todas as peças de cerâmica que saíssem da sua oficina. Grau, em honra do seu apelido, escolheu o desenho de uma montanha». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

 Cortesia de BertrandE/JDACT

JDACT, Barcelona, Escrita, Ildefonso Falcones,

sábado, 2 de maio de 2020

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «O eco de minha voz perdeu-se no casarão. Tomei consciência do manto de sombras que se estendia ao meu redor. O clarão dos relâmpagos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O crepúsculo era um telão de mármore acinzentado no horizonte. Tive a impressão de ter ouvido um estalo às minhas costas, na entrada da ruela. Virei-me assustado. Por um instante, senti que alguém estava me seguindo. Mas não havia ninguém, apenas a chuva metralhando as poças d’água no caminho. Enfiei-me pelo portão. A claridade dos relâmpagos guiou meus passos até a casa. Os querubins da fonte me deram as boas-vindas. Tremendo de frio, cheguei à porta da cozinha, nos fundos. Estava aberta. Entrei. A casa estava completamente às escuras. Lembrei-me das palavras de Germán sobre a ausência de eletricidade. Até então, não me tinha ocorrido que ninguém me tinha convidado. Pela segunda vez, eu me enfiava naquela casa sem pretexto algum. Pensei em partir, mas a tempestade uivava lá fora. Suspirei. Minhas mãos doíam de frio e eu mal sentia as pontas dos dedos. Tossi como um cachorro e senti o coração latejando nas têmporas. Minha roupa estava grudada no corpo, gelada. Meu reino por uma toalha, pensei.
Marina?, chamei. O eco de minha voz perdeu-se no casarão. Tomei consciência do manto de sombras que se estendia ao meu redor. O clarão dos relâmpagos filtrando-se pelas janelas proporcionava apenas uma rápida sensação de claridade, como o flash de uma máquina fotográfica. Marina?, insisti. E Oscar... Timidamente, entrei na casa. Meus sapatos empapados produziam um som viscoso ao andar. Parei quando cheguei no salão onde tínhamos jantado na véspera. A mesa estava vazia e as cadeiras, desertas. Marina? Germán? Não obtive resposta. Avistei um castiçal e uma caixa de fósforos em cima de uma mesinha console. Meus dedos enrugados e insensíveis só conseguiram acender a vela na quinta tentativa. Levantei a chama tremelicante. Uma claridade fantasmagórica inundou a sala. Deslizei até o corredor onde tinha visto Marina e seu pai desaparecerem no dia anterior. O corredor conduzia até outro salão, igualmente coroado por um lustre de cristal. Suas contas brilhavam na penumbra como carrosséis de diamantes. A casa era habitada por sombras oblíquas que a tempestade projectava de fora através das vidraças. Velhos móveis e poltronas dormiam sob lençóis brancos. Uma escada de mármore subia para o primeiro andar. Fui até lá, sentindo-me um verdadeiro intruso. Dois olhos amarelos brilharam no alto da escada. Ouvi um miado. Kafka. Suspirei aliviado. Um segundo depois, o gato se retirou para as sombras. Parei e olhei ao redor. Meus passos tinham deixado um rasto de pegadas sobre a poeira.
Tem alguém aí?, chamei novamente, sem obter resposta. Imaginei aquele grande salão décadas atrás, vestido de gala. Uma orquestra e dezenas de casais dançando. Agora, parecia o salão de um navio afundado. As paredes estavam cobertas por quadros a óleo. Todos retratavam a mesma mulher. Era a mesma que aparecia no quadro que vi na primeira noite em que entrei naquela casa. A perfeição e a magia do traço e a luminosidade daquelas pinturas eram quase sobrenaturais. Fiquei perguntando quem seria o artista. Mesmo porque, era evidente que todos eles eram obra da mesma mão. Parecia que aquela dama me vigiava de todos os lados. Não era difícil perceber a incrível semelhança entre aquela mulher e Marina: os mesmos lábios sobre uma pele clara, quase transparente. A mesma figura, esbelta e frágil como a de uma estatueta de porcelana. Os mesmos olhos cor de cinza, tristes e sem fundo. Senti alguma coisa roçar meu tornozelo. Kafka ronronava aos meus pés. Abaixei e acariciei a sua pelagem prateada. Onde está sua dona, hein? Como resposta, ele miou melancolicamente. Não havia ninguém ali. Ouvi o som da chuva batendo no telhado. Milhares de aranhas-de-água corriam pelas calhas. Imaginei que Marina e Germán tinham saído por algum motivo impossível de adivinhar. Em todo caso, não era da minha conta. Fiz um carinho em Kafka e resolvi ir embora antes que retornassem». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

sexta-feira, 10 de abril de 2020

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Olhem! Ergueu as mãos e mostrou-as. Depois, pousou Arnau no chão e começou a despir-se Olhem!, repetiu, mostrando todo o seu corpo, forte, inteiro e sem mácula, sem uma única chaga ou sinal»

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Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) Do alto da serra de Collserola, na antiga via romana que unia Ampurias a Tarragona, Bernat contemplou a liberdade..., e o mar! Jamais vira, nem imaginara, aquela imensidão que parecia não ter fim. Sabia que para além daquele mar existiam terras catalãs, porque assim diziam os mercadores, mas..., era a primeira vez que encontrava algo de que não podia ver o fim. Por detrás daquela montanha... Depois de atravessar aquele rio... Sempre pudera apontar um local, indicar um ponto a um estrangeiro que perguntasse... Mirou o horizonte que se unia com as águas. Permaneceu uns instantes com o olhar fixo na distância, enquanto acariciava a cabeça de Arnau, aqueles cabelos rebeldes que lhe tinham crescido enquanto tinham estado no monte.
Depois, dirigiu o olhar para onde o mar se fundia com a terra. Cinco navios destacavam-se na orla, junto ao ilhote de Maians. Até esse dia, Bernat apenas vira desenhos de barcos. À sua direita elevava-se a montanha de Montjuic, também aflorando o mar; aos seus pés, campos e planícies e, depois, Barcelona. Do centro da cidade, onde se elevava o monte Taber, um pequeno promontório, centenas de construções derramavam-se em redor; algumas baixas, engolidas pelas suas vizinhas, e outras majestosas: palácios, igrejas, mosteiros... Bernat perguntava-se quantas pessoas viveriam ali. Porque de repente Barcelona acabava. Era como uma colmeia rodeada de muralhas, a não ser pelo lado do mar, e para lá das muralhas eram apenas campos. Quarenta mil pessoas, ouvira dizer. Como nos vão encontrar, entre quarenta mil pessoas?, murmurou olhando para Arnau. Serás livre, filho.
Ali poderiam esconder-se. Procuraria a irmã. Mas Bernat sabia que antes disso teria de cruzar as portas. E se o senhor de Bellera tivesse dado a sua descrição? Aquele sinal... Pensara nisso ao longo de três noites de caminho desde o monte. Sentou-se no chão e agarrou numa lebre que caçara com a balestra. Degolou-a e deixou que o sangue caísse na palma da mão, onde tinha um pequeno monte de areia. Remexeu o sangue e a areia, e quando a mistura começou a secar, espalhou-a sobre o olho direito. Depois, guardou a lebre no saco. Quando notou que a pasta estava seca e não podia abrir o olho, começou a descida em direcção ao portão de Santa Anna, na parte mais setentrional da muralha ocidental. Ali pessoas faziam fila no caminho de acesso à cidade. Bernat juntou-se à fila, arrastando os pés, com discrição, sem deixar de acariciar o menino, que já estava acordado. Um camponês descalço e encolhido sob um enorme saco de nabos voltou a cabeça para ele. Bernat sorriu-lhe. Lepra!, gritou o camponês, deixando cair o saco e afastando-se de um salto do caminho. Bernat viu como toda a fila, até à porta, desaparecia para as bermas do caminho, uns para um lado, outros para o outro; afastaram-se dele e deixaram o acesso à cidade pejado de objectos, comida, diversas carroças e algumas mulas. E, no meio de tudo isto, os cegos que costumavam pedir junto ao portal de Santa Anna agitavam-se, por entre gritos.
Arnau começou a chorar, e Bernat viu que os soldados desembainhavam as espadas e fechavam as portas. Vai para a leprosaria!, gritou-lhe alguém de longe. Não é lepra!, protestou Bernat. Espetei um galho no olho! Olhem! Ergueu as mãos e mostrou-as. Depois, pousou Arnau no chão e começou a despir-se Olhem!, repetiu, mostrando todo o seu corpo, forte, inteiro e sem mácula, sem uma única chaga ou sinal. Olhem! Sou apenas um camponês, mas necessito de um médico que me trate deste olho; senão não poderei continuar a trabalhar. Um dos soldados aproximou-se dele. O oficial teve de o empurrar com a espada. Parou a uns passos de Bernat e observou-o. Vira-te, indicou-lhe, fazendo um sinal com os dedos. Bernat obedeceu. O soldado virou-se para o oficial e fez que não com a cabeça. Da porta, com uma espada, fizeram um sinal indicando o vulto que estava aos seus pés. E a criança? Bernat agachou-se para apanhar Arnau. Destapou-o, com a parte direita da cara do menino encostada ao peito, e mostrou-o na horizontal, como se o oferecesse, segurando-o pela cabeça; com os dedos, tapou o sinal. O soldado voltou a fazer sinal que não, olhando para a porta. Tapa essa ferida, camponês, disse-lhe. Caso contrário, não conseguirás dar um passo na cidade.
As pessoas regressaram ao caminho. As portas de Santa Anna abriram-se de novo e o camponês dos nabos recolheu o seu saco sem olhar para Bernat. Este cruzou o portal com o olho direito tapado por uma camisa de Arnau. Os soldados seguiram-no com o olhar, mas agora, como poderia não chamar a atenção, com uma camisa a tapar-lhe metade do rosto? Deixou a colegiada de Santa Anna à esquerda e continuou a andar atrás das pessoas que entravam pela cidade. Virando à direita, chegou à Praça de Santa Anna. Caminhava cabisbaixo... Os camponeses começaram a dispersar pela cidade; os pés descalços, as alcofas e as cestas foram desaparecendo e Bernat deu consigo a olhar para umas pernas cobertas com meias de seda de cor vermelha como o fogo e que terminavam nuns sapatos verdes de tecido fino, sem sola, ajustados aos pés e terminados em ponta, com um bico tão longo que dele saía uma correiazinha de ouro que se abraçava ao tornozelo.
Sem pensar, levantou o olhar e deparou com um homem usando um chapéu largo. Exibia uma veste negra debruada com fios de prata e ouro, um cinturão também bordado a ouro e colares de pérolas e pedras preciosas. Bernat ficou a olhar para ele de boca aberta. O homem virou-se para o jovem, mas dirigiu o olhar para mais além, como se ele não existisse. Bernat titubeou, tornou a baixar os olhos e suspirou aliviado, ao ver que o outro não lhe prestara a menor atenção. Percorreu a rua até à catedral, que estava em construção, e pouco a pouco começou a levantar a cabeça. Ninguém olhava para ele. Durante um longo momento ficou a observar como trabalhavam os peões da sé: picavam pedra, deslocavam-se pelos altos andaimes que a rodeavam, levantavam enormes blocos de pedra com polés... Arnau reclamou a sua atenção com um ataque de choro. Bom homem, disse a um operário que passava perto dele, como posso encontrar o bairro dos oleiros? A sua irmã, Guiamona, casara com um deles. Segue por esta mesma rua, respondeu-lhe o homem, apressadamente, até que chegues à próxima praça, de Sant Jaume. Aí verás uma fonte; vira à direita e continua até chegares à muralha nova, ao portão da Boquería. Não saias para o Raval. Prossegue junto à muralha em direcção ao mar até ao portão seguinte, o de Trentaclaus. Aí fica o bairro dos oleiros». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

sexta-feira, 27 de março de 2020

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «A aula acabaria dentro de duas horas. Uma eternidade. Lá fora, a chuva arranhava os vidros. Quando a campainha tocou, fugi a toda a velocidade…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Germán examinou-me com curiosidade benevolente. Devolvi a sua amabilidade com uma inclinação de cabeça e levei a colher aos lábios. Assim pelo menos não podia falar e acabar enfiando os pés pelas mãos. Continuamos a comer em silêncio. Não demorei para perceber que, do outro lado da mesa, Germán estava caindo no sono. Quando a colher finalmente escorregou de seus dedos, Marina levantou-se e, sem dizer uma palavra, afrouxou sua gravata de seda prateada. Germán suspirou. Uma das suas mãos tremia levemente. Marina deu o braço ao pai para ajudá-lo a levantar. Germán concordou, abatido, e sorriu fraco para mim, quase envergonhado. Parecia que tinha envelhecido 15 anos num piscar de olhos. Me desculpe, por favor, Oscar..., disse num fio de voz. São coisas da idade. Levantei-me também, oferecendo ajuda a Marina com os olhos. Ela recusou e pediu que ficasse na sala. Seu pai se apoiou nela e assim os dois abandonaram o salão. Foi um gosto, Oscar..., murmurou a voz cansada de Germán, perdendo-se no corredor de sombras. Venha-nos visitar de novo, venha-nos visitar... Ouvi os passos sumirem no interior da casa e esperei por Marina à luz das velas por quase meia hora. A atmosfera da casa começou a pesar sobre mim.
Quando tive certeza de que Marina não voltaria, comecei a me preocupar. Pensei em ir atrás dela, mas não me pareceu correcto ficar procurando pelos quartos sem ter sido convidado. Pensei em deixar um bilhete, mas não tinha como fazer isso. Estava anoitecendo, de modo que o melhor a fazer era ir embora. Voltaria no dia seguinte, depois das aulas, para ver se estava tudo bem. Surpreso, constatei que não via Marina há apenas meia hora e a minha mente já estava procurando pretextos para voltar. Fui até à porta dos fundos, na cozinha, e percorri o jardim até ao portão. O céu se apagava sobre a cidade cheio de nuvens em trânsito. Enquanto ia para o internato, passeando lentamente, os acontecimentos daquele dia desfilaram na minha memória. Ao subir as escadas para o quarto andar estava convencido de que tinha sido o dia mais estranho da minha vida. Mas se fosse possível comprar uma entrada para ver tudo se repetir, compraria sem pensar duas vezes.

À noite, sonhei que estava preso dentro de um imenso caleidoscópio. Um ser diabólico, de quem só podia ver o olho enorme através da lente, fazia o mecanismo girar. O mundo se desfazia em labirintos de ilusões de óptica que flutuavam ao meu redor. Insectos. Borboletas negras. Despertei de repente, com a sensação de ter café fervente correndo nas veias. Aquela febre não me abandonou por todo o dia. As aulas de segunda-feira se suicidaram como comboios sem paragem na minha estação. JF percebeu imediatamente. Você já anda nas nuvens normalmente, sentenciou, mas hoje está além da estratosfera. Está doente? Tratei de tranquilizá-lo com um gesto vago. Consultei o relógio acima do quadro-negro. Três e meia. A aula acabaria dentro de duas horas. Uma eternidade. Lá fora, a chuva arranhava os vidros. Quando a campainha tocou, fugi a toda a velocidade, dando um bolo em JF e em nosso passeio habitual pelo mundo real. Atravessei os eternos corredores até chegar à saída. Os jardins e as fontes da entrada empalideciam sob o manto da tempestade. Não tinha guarda-chuva e o meu casaco não tinha capuz. O céu era uma lápide de chumbo. Os lampiões ardiam como fósforos. Comecei a correr. Evitei poças, desviei de bueiros inundados e cheguei à saída. Riachos de chuva desciam pela rua como uma veia perdendo sangue. Molhado até aos ossos, corri por ruelas estreitas e silenciosas. Os bueiros rugiam à minha passagem. Parecia que a cidade se ia fundir num oceano negro. Levei dez minutos para chegar à cerca do casarão de Marina e Germán. Nessa altura, as minhas roupas e sapatos estavam irremediavelmente encharcados». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

Marina. Carlos Ruiz Zafón. «Diga-me, Oscar, o que o mundo nos conta nesses últimos dias? Formulou a pergunta de tal modo que suspeitei que, se anunciasse o fim da Segunda Guerra Mundial…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Quando saímos de lá, a garoa tinha vestido as ruas de prata. Era uma da tarde. Fizemos o caminho de volta sem trocar uma palavra. Na casa de Marina, Germán nos esperava para almoçar. Não diga nada a Germán sobre isso, por favor, pediu Marina. Não se preocupe. Percebi que, de qualquer jeito, não saberia explicar o que tinha acontecido. À medida que nos afastávamos do local, a lembrança daquelas imagens e daquela estufa sinistra foi-se atenuando. Quando chegamos na Plaza Sarriá, vi que Marina estava pálida e respirava com dificuldade. Você está bem?, perguntei. Marina disse que sim, não muito convencida. Sentámo-nos num banco da praça. Ela respirou profundamente várias vezes, com os olhos fechados. Um bando de pombos saltitava a nossos pés. Por um instante, temi que Marina fosse desmaiar. De repente, ela abriu os olhos e sorriu para mim. Não se assuste. Só fiquei um pouco enjoada. Deve ter sido aquele cheiro. Com certeza. Provavelmente era algum bicho morto. Uma ratazana ou...
Marina concordou com essa hipótese. Em pouco tempo, a cor voltou a seu rosto. O que está me fazendo falta é comer alguma coisa. Ande, vamos embora. Germán já deve estar cansado de esperar. Levantamos e tomámos o caminho de sua casa. Kafka esperava no portão. Olhou para mim com desprezo e correu para se esfregar nos tornozelos de Marina. Estava eu pensando nas vantagens de ser um gato, quando reconheci o som daquela voz celestial no gramofone de Germán. A música se filtrava pelo jardim como uma maré alta. Que música é esta? Léo Delibes, respondeu Marina. Nem desconfio... Delibes. Um compositor francês, esclareceu Marina, adivinhando meu desconhecimento. O que ensinam a vocês nessas escolas? Dei de ombros. E um trecho de uma das óperas dele. Lakmé. E a voz? Minha mãe. Olhei para ela, perplexo. Sua mãe é cantora de ópera? Marina me devolveu um olhar impenetrável. Era, respondeu. Ela morreu.
Germán esperava por nós no salão principal, uma peça ampla e ovalada. Um lustre de lágrimas de cristal pendia do tecto. O pai de Marina estava vestido quase a rigor. Usava um casaco com colete e a sua cabeleira prateada estava cuidadosamente penteada para trás. Tive a impressão de que estava diante de um cavaleiro do final do século. Sentámos à mesa, posta com toalhas de linho e talheres de prata. E um prazer tê-lo aqui connosco, Oscar, disse Germán. Não é todos os domingos que temos a honra de tão grata companhia. A louça era de porcelana, uma verdadeira peça de antiquário. O cardápio parecia consistir numa sopa de aroma delicioso e pão. Mais nada. Enquanto Germán me servia antes de todos, compreendi que todo o luxo se devia à minha presença. Apesar dos talheres de prata, da sopeira de museu e dos luxos de domingo, aquela casa não tinha dinheiro suficiente para um segundo prato. Aliás, quanto a não ter, não tinha nem luz. O casarão era iluminado permanentemente por velas.
Germán deve ter lido o meu pensamento. Deve ter percebido que não temos electricidade, Oscar. Na verdade, nós não damos muito crédito aos avanços da ciência moderna. Afinal de contas, que tipo de ciência é essa, capaz de colocar um homem na lua, mas incapaz de colocar um pedaço de pão na mesa de cada ser humano? Acho que o problema não está na ciência, mas naqueles que decidem como empregá-la, sugeri. Germán considerou a minha ideia e concordou solenemente, não sei se por cortesia ou por convencimento mesmo. Percebo que você é um tanto filósofo, Oscar. Já leu Schopenliauer? Senti os olhos de Marina pousados em mim, sugerindo que seguisse os passos de seu pai. Só por alto, improvisei. Saboreamos a sopa sem falar. Germán sorria amavelmente de vez em quando e observava a filha com carinho. Algo me dizia que Marina não tinha muitos amigos e que Germán via com bons olhos a minha presença, embora, no que me dizia respeito, Schopenliauer podia muito bem ser uma marca de artigos ortopédicos.
Diga-me, Oscar, o que o mundo nos conta nesses últimos dias? Formulou a pergunta de tal modo que suspeitei que, se anunciasse o fim da Segunda Guerra Mundial, causaria um grande alvoroço. Não muito, na verdade, disse, sob a atenta vigilância de Marina. Teremos eleições... Isso despertou o interesse de Germán, que deteve a dança da sua colher e avaliou o tema. E você, Oscar? F, de direita ou de esquerda? Óscar e um anarquista, pai, cortou Marina. O pedaço de pão engasgou na minha garganta. Não sabia o que significava aquela palavra, mas soava como anarquista de bicicleta. Germán observou-me detidamente, intrigado. O idealismo da juventude..., murmurou. É compreensível, é compreensível. Na sua idade, também li Bakunin. É como o sarampo: enquanto você não passa por isso... Dei uma olhada de ajuda para Marina, que lambeu os lábios como um gato. Piscou o olho para mim e virou para o outro lado». In Carlos Ruiz Zafón, Marina, 1999, Planeta Editora, 2010, ISBN 978-989-657-119.1

Cortesia de PlanetaE/JDACT

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «O rapaz, com os olhos brilhantes, instara-o a continuar. Barcelona é muito rica. Durante muitos anos, desde Jaime…»

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Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) Nenhum dos numerosos camponeses que iam ao castelo se dignou sequer a olhar para ela. Francesca tentou aproximar-se de alguns, mas afastaram-na. Não se atreveu a regressar a casa dos pais, porque a mãe a repudiara publicamente, diante do forno do pão, e assim se viu obrigada a permanecer na proximidade do castelo, como mais um dos muitos mendigos que se aproximavam das muralhas para procurar por entre o lixo. O seu único destino parecia ser o de ir passando de mão em mão, a troco das sobras do rancho do soldado que a tivesse escolhido nesse dia. Chegou Setembro. Bernat já vira o filho sorrir e gatinhar pela gruta e pelos arredores. No entanto, as provisões começavam a escassear, e o Inverno estava a chegar. Chegara o momento de partir.

A cidade estendia-se aos seus pés. Olha, Arnau, disse Bernat ao menino, que dormia placidamente encostado ao seu peito, Barcelona. Ali seremos livres. Desde a sua fuga com Arnau, Bernat não parara de pensar naquela cidade, grande esperança de todos os servos. Bernat ouvira falar dela sempre que iam trabalhar nas terras do senhor, ou reparar as muralhas do castelo, ou fazer qualquer outro trabalho de que o senhor necessitasse. Sempre cuidadosos para que os soldados e o aguazil não os ouvissem, esses sussurros nunca tinham despertado em Bernat mais do que simples curiosidade. Era feliz nas suas terras e nunca abandonaria o pai. E também não poderia fugir com ele. No entanto, depois de ter perdido as suas terras, quando, durante a noite via dormir o filho, no interior da gruta dos Estany ol, aqueles comentários tinham começado a ganhar vida, até ecoarem no interior da gruta. Se se consegue viver lá durante um ano e um dia sem se ser detido pelo senhor, lembrava-se de ter ouvido, ganha-se a carta de vizinhança e alcança-se a liberdade. Nessa ocasião, todos os servos tinham guardado silêncio. Bernat olhara-os: alguns tinham os olhos fechados e os lábios cerrados, outros faziam que não com a cabeça, e os restantes sorriam, olhando para o céu. E apenas é preciso viver na cidade?, rompera o silêncio um rapaz, um dos que tinha olhado para o céu, sonhando certamente com poder quebrar as cadeias que o amarravam à terra. Porque se pode ganhar a liberdade em Barcelona?
O mais idoso respondera-lhe, pausadamente: sim, não é preciso nada mais. Basta viver lá durante esse tempo. O rapaz, com os olhos brilhantes, instara-o a continuar. Barcelona é muito rica. Durante muitos anos, desde Jaime, o Conquistador, até Pedro, o Grande, os reis pediram dinheiro à cidade para as suas guerras ou para as suas cortes. Durante todos esses anos, os cidadãos de Barcelona concederam esses dinheiros, mas em troca de privilégios especiais, até que o próprio Pedro, o Grande, em guerra com a Sicília, os resumiu num código... O velho titubeara: kecognoverunt próceres, creio que assim se chama. É aí que diz que podemos alcançar a liberdade. Barcelona precisa de trabalhadores, de trabalhadores livres. No dia seguinte, aquele rapaz não aparecera à hora marcada pelo senhor. E também não o fez no dia seguinte. O pai, em contrapartida, continuava a trabalhar, em silêncio. Ao fim de três meses, tinham-no trazido, agrilhoado, caminhando diante de um chicote; no entanto, todos supuseram ver no seu olhar uma centelha de orgulho». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

A Catedral do Mar. Ildefonso Falcones. «Acabará por cair. Manda aviso a todos os outros senhores e aos nossos agentes nas cidades. Diz-lhes que fugiu um servo das minhas terras e que deve ser detido»

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Servos da terra. Ano de 1320. Quinta de Bernat Estanyol Navarcles. Principado da Catalunha
«(…) Havemos de sair desta, Arnau, repetiu, desatando a correr em direcção a casa. Percorreu o caminho sem olhar para trás. Nem sequer quando chegou se permitiu um momento de descanso; deixou Arnau no berço, agarrou num saco e encheu-o de trigo moído e de legumes secos, uma bexiga cheia de água e outra cheia de leite, carne salgada, uma escudela, uma colher e roupa, algum dinheiro que tinha escondido, uma faca de caça e a sua balestra... Que orgulho tinha o pai nesta balestra, pensou, enquanto a sopesava. Lutou ao lado do conde Ramon Borrell quando os Estany ol eram livres, repetia-lhe sempre que o ensinava a usá-la. Livres! Bernat atou o menino ao peito e carregou tudo o resto. Seria sempre um servo, a não ser que... Por agora, seremos fugitivos, disse ao filho, antes de se lançar para o monte. Ninguém conhece estes montes melhor que os Estany ol, assegurou-lhe, já no meio das árvores. Sempre caçámos nestas terras, sabes? Bernat avançou por entre a folhagem até chegar a um riacho, meteu-se nele com a água até aos joelhos e começou a subir o seu curso. Arnau fechara os olhos e dormia, mas Bernat continuava a falar com ele. Os cães do senhor não são muito rápidos, maltrataram-nos demasiado. Chegaremos até lá acima, onde o bosque se adensa e se torna difícil andar a cavalo. Os senhores só caçam a cavalo, nunca chegam a esta zona. Rasgariam as suas vestes. E os soldados... Para que haviam de vir caçar para aqui? Com a comida que nos roubam, têm que lhes chegue. Vamos esconder-nos, Arnau. Ninguém conseguirá encontrar-nos, juro-te, Bernat acariciou a cabeça do filho enquanto continuava a subir contra a corrente.
A meio da tarde, fez uma paragem. O bosque tornara-se tão frondoso que as árvores invadiam as margens do riacho e cobriam por completo o céu. Sentou-se sobre uma rocha e olhou para as pernas, brancas e enrugadas pela água. Só então notou a dor, mas não se importou. Desfez-se da carga e desatou Arnau. O menino abrira os olhos. Diluiu leite em água e adicionou-lhe trigo moído, remexeu a mistura e aproximou a escudela dos lábios do pequenito. Arnau rejeitou-a, com um esgar. Bernat limpou um dedo no riacho, molhou-o na comida e tentou de novo. Depois de várias tentativas, Arnau correspondeu e permitiu que o pai o alimentasse com o dedo; depois, fechou os olhos e adormeceu. Bernat comeu apenas um pouco de carne salgada. Teria gostado de descansar um pouco, mas ainda lhe faltava uma boa distância. A gruta dos Estany ol, como lhe chamava o seu pai. Chegaram lá quando já tinha anoitecido, depois de terem feito outra paragem para que Arnau comesse. Entrava-se na gruta por uma estreita fenda aberta nas rochas, que Bernat, o seu pai e também o seu avô fechavam por dentro com troncos, para dormirem ao abrigo do mau tempo e dos animais, quando saíam para caçar.
Acendeu um fogo à entrada da gruta e entrou nela com uma acha, para se assegurar de que não estivesse a ser ocupada por algum animal; depois, acomodou Arnau sobre um colchão improvisado com o saco e com ramos secos, e voltou a dar-lhe de comer. O pequenito aceitou o alimento e caiu num sono profundo, tal como Bernat, que nem sequer foi capaz de comer a carne salgada. Ali estariam a salvo do senhor, pensou, antes de fechar os olhos e compassar a sua respiração com a do filho.
Llorenç de Bellera saiu a galope desenfreado com os seus homens, assim que o mestre da forja encontrou o aprendiz, morto no meio de um charco de sangue. O esaparecimento de Arnau e o facto de o pai ter sido visto no castelo apontaram imediatamente para a culpa de Bernat. O senhor de Navarcles, que esperava montado a cavalo em frente à porta da casa dos Estany ol, sorriu quando os seus homens lhe disseram que o interior estava remexido e que, ao que parecia, Bernat tinha fugido com o filho. Depois da morte do teu pai, ainda te livraste, vociferou, mas agora será tudo meu. Procurem-no!, gritou aos homens. Depois, virou-se para o aguazil: faz uma relação de todos os bens, haveres e animais desta propriedade e trata de que não falte nem uma libra de cereal. Depois, procura Bernat. Ao fim de vários dias, o aguazil compareceu diante do seu senhor, na torre de menagem do castelo: procurámos em todas as outras quintas, nos bosques e nos campos. Não há nem rasto de Estany ol. Deve ter fugido para alguma cidade, talvez para Manresa, ou...
Llorenç de Bellera mandou-o calar com um gesto da mão.
Acabará por cair. Manda aviso a todos os outros senhores e aos nossos agentes nas cidades. Diz-lhes que fugiu um servo das minhas terras e que deve ser detido. Nesse momento, apareceram Francesca e dona Catarina, com Jaume, o filho desta, nos braços da primeira. Llorenç de Bellera observou-a e fez um gesto sacudido; já não precisava dela. Senhora, disse para a mulher, não compreendo como permitis que uma meretriz amamente o meu filho. Dona Catarina estremeceu. Acaso não sabeis que a vossa ama é a mulher de toda a soldadesca? Dona Catarina arrancou o filho dos braços de Francesca. Quando Francesca soube que Bernat tinha fugido com Arnau, interrogou-se sobre o que seria feito do filho. As terras e propriedades dos Estany ol pertenciam agora ao senhor de Bellera. Não tinha a quem pedir ajuda e, entretanto, os soldados continuavam a aproveitar-se dela. Um pedaço de pão duro, uma verdura podre, por vezes algum osso para roer: tal era o preço do seu corpo». In Ildefonso Falcones, A Catedral do Mar, 2006, Bertrand Editora, 2009, ISBN 978-972-251-511-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT