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segunda-feira, 4 de setembro de 2023

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «E desata a rir medonho, contagiando os vagabundos qne o acompanham. Um deles, com uma faca mal afiada na mão dextra, segura-me pelos cabelos com a esquerda, obrigando-me a levantar do banco…»

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VII

«Essa noite não consigo dormir. Encostado às portadas da janela imagino-me um ramo de arbusto viçoso, derrubado por um vento quente. O vento é a dor da ausência de Juan, irreverente olhar sobre coisas e gentes, a farejar à noite os sons da natureza. Quando eu me anunciava cozia o pão de castanhas, a bolacha estaladiça de trigo negro e azeite, preparava o coalho de leite fervido excedentário dos queijos. E apresentava-me frescos os manjares, como pai ansioso à espera do filho pródigo. Nunca, nunca mais verei meu tio saborear com o sorriso a minha sofreguidão.

Um dia peço permissão para ir até Barcelona, com saudades das charnecas, da casa da viúva em Santa Margarida els Monjos. Penso até avançar mais, talvez à beira do mar aspirar aquele ar salino que tanto me apaixona. Chego à casa pela calada da noite, onde a viúva, pouco mais velha do que eu, me espera ansiosa desde que mandei o aviso. Maga extasiada, oferece-me a minha primeira experiência adulta, como se tivesse guardado os segredos agridoces do amor para uma ocasião especial, a ocasião do retorno. Mal sabe que, daí a poucos dias, partirei para sempre.

Embriagar por embriagar, atrevo-me quase madrugada a fazer o que me anda na mona há dois anos, vencer o resto da distância até ao cais, que acolhe gentes de todas as latitudes. O porto está calmo. Só as águas repetem o monótono lamento contra o costado dos barcos. Depois de vaguear entre destroços de caixas, entro numa taberna da cidade, de seis por oito côvados de área, quase vazia a esta hora. Três ou quatro maltrapilhos, ninguém, a roncar no canto mais abrigado, uma mulher de rosto macerado a dormitar num banco, encostada a uma trave levantada contra o tecto. Meio adormecido também, já depois de beber mais uma tagra,-penso nas reviravoltas da vida quando oiço ao longe aquela voz pastosa de surrapa, num linguajar meio desconhecido. Não é ele o sobrinho do frade e do outro?

E desata a rir medonho, contagiando os vagabundos qne o acompanham. Um deles, com uma faca mal afiada na mão dextra, segura-me pelos cabelos com a esquerda, obrigando-me a levantar do banco com o pescoço encolhido de dor.

Que tal ficariam estas fuças se lhe fizéssemos o mesmo?

Sinto a barriga a resmungar, nem sei se borro as pantalonas. E quase a vomitar restos de vinho e jantar, atrevo-me a fazer pela sorte, a pensar que às tantas é o meu fim.

Eu não vos fiz mal nenhum, deixem-me em paz. Estou ao serviço da rainha dona Isabel. E depois? O nosso senhor há-de tomar estas terras, e todos vocês hão-de rastejar. Deixem-me, pela Virgem do Pilar. Eu nada fiz- Mas fez o teu tio monge, que gosta de adorar cabeças feias como as de um bode. Se calhar nem ele sabe que foi por isso que morreu o da viola, feito em pasta de salmoura.

Nessa altura, um tacho salvador na cabeça do imundo, a distracção dos outros, valem-me a fuga. Ouço gritaria de mulher, decerto a pobre que me salvou a levar tunda, enquanto arranco a tremer das pernas até ao cavalo. Atabalhoado, sem encontrar as pontas da arreata, enfio por caminhos de cabras, a cavalgar até o coração saltar do peito. Já perto de Penedès meto-me numa loja entre dornas e arcas de sal, depois cavalgo de novo até uma elevação onde fico acaçapado, entre as moitas.

Nem sei se sonhei. Quando a madrugada começa a clarear, ainda me cerca a teia protectora de filamentos de estrelas, a derreterem como ouro à medida que o sol anuncia a chegada ao trono». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel?, 2008, Edições Saída de Emergência, 2008, ISBN  978-989-637-034-3.

Cortesia de ESEmergência/JDACT

JDACT, Maria Helena Ventura, Literatura, Rainha Santa Isabel, História,

domingo, 3 de setembro de 2023

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «À noite bufões, trovadores, mesteirais, segréis repetem lá fora a viva animação vivida entre as grossas paredes de Aljaferia, durante uma semana inteira, com bodo ao povo e esmolas aos pobres»

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VII

«(…) Gosto de cozinhas, esta soberba, para saciar a fome a sede dos caminhos. Atravesso átrios, arcadas, belos corredores sob os claustros deste magnifico paço, à espera de ordens de dona Isabel, pela boca de Soledad. Como não há sinal dela até ao cair da noite, exploro recantos interiores não vedados, depois pátios refrescados por alvercas e aroma de laranjeiras, entre canteiros de rosmaninho dispostos com elegância. Respiro um ar sublime, a alma apaziguada. E no entanto a lembrança de Juan atravessa essa paz com silvos intermitentes, como se não pudesse gozar o descanso enquanto o não souber num mergulho invertido nas estrelas, deitado na austera maciez da choça.

No outro dia acordamos com trombetas, anúncio de verdadeira festa no paço e entre os muros da cidade. À noite bufões, trovadores, mesteirais, segréis repetem lá fora a viva animação vivida entre as grossas paredes de Aljaferia, durante uma semana inteira, com bodo ao povo e esmolas aos pobres.

Aqui passamos dois meses na paz dos anjos, apesar de se espalhar a confusão por Castela, à conta da guerra de sucessão. De um lado Sancho, usurpador da coroa ao filho do irmão mais velho, já morto. Do outro lado o pai, Afonso X, que designara o neto, para sucessor. Afonso é avô materno do rei de Portugal, casado em segundas núpcias com uma irmã do pai de dona Isabel. Não é recomendável, ainda, a viagem para ocidente. Atravessar terras de ânimos acesos, podia fazer perigar o séquito.

Entretanto as tropas de Pedro III, na Sicília, chefiadas por Conrado Lanza, alcançam grandes vitórias contra as de Carlos de Anjou. O rei de Aragão vibra de tal modo que acaba por considerar uma aproximação ao campo das operações. E numa das noites mais tristes desta estadia agradável, anuncia a partida e despede-se da filha. Toma o rumo de El Joll, na África, a pretexto de ir ajudar o rei Abu Beer. A verdade é que aguarda mais de perto um chamamento certo da sua gente, na Sicília.

Falava eu de paz dos anjos. Isso até chegar aquela triste notícia da morte de Juan de Cardeña por apedrejamento, a três léguas de Santes Creus, na antevéspera da partida para Portugal. Até a organização do tempo de dona Isabel sofre grave alteração. Deixa o cuidado das rosas pela manhã, as lições de língua portuguesa pelas tardes, e não descansa enquanto não vê satisfeitos seus rogos aos irmãos mais velhos, para que obtenham do clero local, ainda reticente, a ordem para ser dado enterramento cristão ao irmão de sua aia.

Nessa altura revejo meu tio Ángel. Com os monges de Monzón, os bispos de Zaragoza e Huesca, com Soledad e uns poucos servidores dos paços reais, lá vou ajudar a cavar a sepultura sob o carvalho mais frondoso, como pedia Juan, entre a casa de pedra e a choça de Vilafranca del Pènedès. Nem flores nem lamentos. Tapamos a campa com pedras maneiras, colocamos à cabeceira uma cruz de madeira tosca, desfazemos os torrões maiores para alisar a última cama. O único luxo é a pequena lápide inclinada a meio do comprimento, oferta de dona Isabel, com os dizeres de O Livro da Sabedoria por ela mesma escolhidos: Os sentidos são de Deus. E nada mais, só meus soluços de varão que ainda não aprendeu a domesticar sentimentos». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel?, 2008, Edições Saída de Emergência, 2008, ISBN  978-989-637-034-3.

Cortesia de ESEmergência/JDACT

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terça-feira, 28 de junho de 2022

Onde Vais Isabel? Maria Helena Ventura. «Dali alguns de nós alcançam o outro pátio interior, chamado de dona Isabel, com pórticos rasgados nos lados mais baixos da planta»

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VII

«(…) Depois de algumas paragens para breves descansos, as bestas caminham devagar, ao ritmo da natureza. Ouvimos cantar os pássaros sobre um leve rumor de fontes, depois nas terras mais altas de quase duzentos metros, o passar da brisa como voz amena a soprar aos ouvidos. De novo mais abaixo o refrão dos campos do vale do Ebro já tratados, a saudarem o sol à vista da linha fortificada da antiga Caesar Augusta. Foi ela a capital do limite superior do Andaluz, depois o primeiro reino independente de Taifas, antes de ser a nossa Zaragoza abençoada.

Atravessamos a ponte de pedra, até à praça da catedral de tijolo e revestimento cerâmico, La Seo, vai meio o dia. Tão próxima de casa dona Isabel recusa-se a parar, agora. Então viramos à direita, até à via César Augusto, para tomar o caminho do paço real de Aljaferia. Já o tinha avistado muitas vezes, uma delas quando meu tio Ángel me trouxe dos montes, órfão recente, a ver Soledad, ao serviço da rainha Constança, mãe de dona Isabel. Nunca antes me parecera tão imponente. É uma magnífica estrutura, a brilhar na margem esquerda do rio, seus grandes torreões encimados por ameias, como coroas reais. Fixo a Torre do Trovador com olhos cerrados, já um atalaia grita para dentro para baixarem a ponte levadiça, no lado oriental.

O cortejo passa o fosso, direito à porta sob um arco em ferradura. À medida que vão dispersando os cavaleiros apeados, a família real com sua comitiva recebe as boas vindas dos servidores do paço, dona Isabel hoje mais acarinhada. Pajens conduzem os nobres ao recinto onde se vai construir a igreja de San Martin, os criados acomodam bestas e serventes nas cocheiras e anexos. Dali alguns de nós alcançam o outro pátio interior, chamado de dona Isabel, com pórticos rasgados nos lados mais baixos da planta. A direita ficam os cómodos de criados e religiosos menores, talvez o meu próprio quarto partilhado com alguém que ainda desconheço.-

Antes de estender o corpo numa enxerga, meus olhos são atraídos para a formosura de um nicho em ábside, um recanto da antiga mesquita muçulmana virado para Meca, donde era costume chamar os fiéis do palácio à oração. Bela, a decoração elaborada com capitéis de alabastro. Mantê-la tão bem conservada até agora, só confirma a tolerância religiosa dos reis de Aragão, desde dom Jaime I. Não fora a família real, acompanhada dos convidados mais importantes, começar a subir a bela escadaria para ocidente, ali ficaria perdido em recantos do passado, poderosas alavancas de futuro». In Maria Helena Ventura, Onde Vais Isabel?, 2008, Edições Saída de Emergência, 2008, ISBN  978-989-637-034-3.

Cortesia de ESEmergência/JDACT

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Os Pecados da Rainha Santa Isabel. António Cândido Franco. «Na linha da vanguarda alçavam-se sobre todos os balsões reais com as armas riscadas de vermelho da confederação aragonesa-catalã. De seguida apresentava-se o segundo corpo, constituído pelas lanças das ordens militares»

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«(…) O cabo de guerra francês, Simão de Monforte, robustecido pelos sucessos, preparava-se então para assaltar os muros de Toulouse, centro da heresia, rica cidade de trinta ou quarenta mil habitantes, onde residia Raimundo M., conde de Toulouse e cunhado e vassalo do rei de Aragão. Quando o francês ouviu as palavras determinadas do mensageiro de Pedro II, riu com protérvia. Ele que venha bailar no que é seu e depois verá!
Ao saber da grosseria do cabeça da cruzada., o aragonês não titubeou. Mandou chamar os fronteiros e deu-lhes ordem de arregimentação. Correu por todo o reino o apelo dos fronteiros às tropas. Formaram na várzea de Saragoça os muitos corpos do exército de Aragão. Era a contra-cruzada em marcha.
Na frente postaram-se os homens de armas da guarda real. Pajens, infanções e ricos-homens aí mostravam a vivacidade e o desembaraço da cavalaria, com reluzentes bacinetes emplumados e muitos pendões e flâmulas a tremularem na carreira do vento. Na linha da vanguarda alçavam-se sobre todos os balsões reais com as armas riscadas de vermelho da confederação aragonesa-catalã.
De seguida apresentava-se o segundo corpo, constituído pelas lanças das ordens militares. Depois, vinham os corpos dos cavaleiros e besteiros e por fim os peões de lança, os contingentes das vilas e das cidades, os coudéis mouros com as suas companhias de fundibulários e os auxiliares, onde tanto entravam os azeméis, os vivandeiros, os curadores, os serventes e mais gente necessária à manutenção do exército como os foragidos dos condados occitanos fustigados pela cruzada e dispostos a combater. Eram quarenta mil homens que tiravam o pé da paz.
Pôs-se em movimento o exército com o rei à testa e foi atravessar os Pirenéus depois da cidade fortificada de Jaca, na esperança de alcançar num curto salto o Garona, subindo por ele sem esforço até às muralhas sitiadas da Tolosa occitana. Corria o fim da Primavera e os trilhos dos cumes, batidos pelo alto Sol do solstício, desimpedidos de neves e gelos, eram mais fáceis de percorrer que galeria de mar costeiro em dia de bonança e céu azul. No curso do Garona, já nas proximidades do grande centro onde por então se concentrava o nó da resistência à cruzada dos Franceses, deparou Pedro de Aragão com as muralhas de Muret.
O cabo de guerra francês tomara havia pouco a cidadela e depois de fazer pular os heréticos nas labaredas lá deixara como defensão uma grossa coluna de homens. Por aí, à ilharga do corpo central das operações, pensou o aragonês abrir a campanha de hostilidades contra os Franceses.
Brilhavam os doces e abundosos dias de Verão e a defesa de Muret não deu mostras de se intimidar com o assédio. Havia água e mantimentos com fartura. Viam-se nas seteiras os fortes bacinetes de ferro dos Franceses e nas ameias arrumavam-se as poderosas máquinas de arremesso de que dispunham. Um único homem se atrevia a expor o corpo nas ameias, exprobrando com palavras duras o exército sitiante.
Ide, senhores, ou um raio mais destrutivo do que aquele que destroçou os pagãos vos fuzilará para sempre, dizia, renitente e profético, afastando as abas negras do capeirão. Era Domingos Gusmão, o pregador que anos antes viera calcorrear os caminhos dos domínios do conde de Toulouse e do rei de Aragão, na esperança de debelar a heresia com a palavra destra, reconduzindo os cátaros aos dogmas romanos. Juntara-se depois ao legado papal e abade de Cister, quando este aparecera com os barões do rei de França munido duma ordem papal de limpeza. Aparecia agora com um feroz e obediente ao lado, a que afagava a caixa do crânio de quando em quando, apertando de seguida as orelhas atentas e espetadas nas mãos miúdas e cuidadas de estudioso». In António Cândido Franco, Os Pecados da Rainha Santa Isabel, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-289-2.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências. Giulia Vairo. «A exortação do papa não foi vã porque, de facto, em 1318 não se registam outros confrontos directos entre pai e filho, nem entre marido e mulher»

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«(…) A confirmação ideal dos limites temporais (12 de Janeiro / 22 de Fevereiro de 1318) é a carta apostólica, até hoje inédita, de João XXII, datada de 14 de Março 1318, em que o papa concede ao rei Dinis I a possibilidade de outorgar a total remissão dos pecados in articulo mortis, precedida de uma prévia, sincera e contrita confissão, enviada em resposta a uma súplica do soberano, remontando evidentemente a algum tempo antes de jornada ser empreendida, e que poderá ser lida na perspectiva do percurso de purificação ou de preparação ao caminho penitencial ou, mais simplesmente, de reflexão pessoal protagonizada pelo monarca.

O ano da pacificação. 1318
Desde logo, 1318 apresenta-se como um ano chave na vida de Dinis I, a nível público e privado, pois, nos meses que seguiram, irá tomar decisões delicadas, cheias de implicações futuras para si próprio, para a sua família e para o reino de Portugal. O ano de 1317 tinha começado sob os melhores auspícios com o nascimento do neto a que tinha sido atribuído o nome do rei, o infante Dinis (12 de Fevereiro de 1317, terceiro filho do casal formado por Afonso e dona Beatriz, nasceu a 12 de Fevereiro de 1317, S. Eulália), e não a 12 de Janeiro, como a Monarquia Lusitana refere, transcrevendo erroneamente a notícia extraída do Livro da Noa), mas logo foi abalado pelas inquietações, suspeitas e desavenças surgidas na família real, primeiros sinais da guerra civil que, poucos anos depois, entre 1319 e 1324, terá posto à prova a estabilidade do reino. A gravidade da situação foi tal que exigiu mesmo a intervenção do pontífice João XXII, que se expressou sem demora a favor do rei e contra todos os que se opunham e obstavam ao seu governo, ameaçando-os com pena de excomunhão.
Um tal estado de tensão teve que se prolongar até aos inícios de 1318, pois remontam ao mês de Março três cartas apostólicas em que, com tons ligeiramente diversos, João XXII se dirige ao rei, à rainha e ao herdeiro do trono (estes últimos dois mancomunados no ressentimento contra o soberano), exortando-os à reconciliação em nome da concórdia familiar e da paz do reino de Portugal. A exortação do papa não foi vã porque, de facto, em 1318 não se registam outros confrontos directos entre pai e filho, nem entre marido e mulher, mas, pelo contrário, assistimos a uma substancial recomposição do conflito: será necessário esperar pelo ano de 1319 para ver novamente e mais dramaticamente contraporem-se os contendentes. Numa leitura retrospectiva dos acontecimentos, poderia afirmar-se que 1318 se apresenta como um ano de trégua, um ano suspenso entre as primeiras e mais concretas manifestações do conflito (1317) e o violento e definitivo rebentar da guerra civil [(1319-1324), os primeiros sinais da desavença entre Dinis I e o herdeiro do trono tiveram lugar alguns anos antes, entre 1312 e 1313, por ocasião da disputa da herança de João Afonso, conde de Barcelos, que, no princípio, tinha visto contrapor-se o conde Martim Gil, mordomo mor do príncipe herdeiro, e Afonso Sanches, filho natural do rei Dinis. Este último, com o apoio do pai, saiu vencedor da contenda. Também a herança de Martim Gil, falecido no fim de 1312, transitou para Afonso Sanches que, no ano seguinte, foi nomeado mordomo mor do rei]. Uma série de iniciativas empreendidas por Dinis I ao longo de 1318, nos meses seguintes à peregrinação a Compostela, parecem ir na direcção de uma pacificação familiar e de uma diminuição das tensões, que podem ser atribuíveis mesmo à experiência espiritual vivida em primeira pessoa pelo soberano. A Monarquia Lusitana conta que, após a viagem à Galiza, o ano passou tranquilo e sem problemas. A partir dos finais do mês de Abril, o rei mudou-se para Torres Vedras, onde ficou até ao início de Julho, segundo os itinerários. Foi provavelmente durante esta longa estada que Dinis I, numa área rural pertencente ao concelho de Torres Vedras, junto à foz do rio Alcabrichel, ordenou a realização de uma obra pública, um porto, recordado nas fontes como o Porto de S. Dinis, o actual Porto Novo. Além disso, determinou ainda que quem quisesse podia estabelecer-se e construir ali a sua casa, a fim de povoar e tornar viva uma zona até àquele momento desabitada. Na ocasião, decidiu também que, naquela mesma área, se levantasse uma igreja intitulando-a da invocação do seu santo protector, São Dinis, ao qual, por devoção, em 1295, já tinha dedicado a construção de um mosteiro cisterciense, confiado ao ramo feminino da ordem, em Odivelas, nos arredores de Lisboa». In Giulia Rossi Vairo, Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências, Grupo Informal de História Medieval CITCEM, Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Incipit.  Workshop de estudos medievais da U. do Porto, 2009-2010. GIHM. Coordenação de Flávio Miranda e Joana Sequeira, CITCEM, Porto 2012, IHA, Universidade Nova de Lisboa, ISBN 978-972-8932-94-7.

Cortesia da UPorto/JDACT

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências. Giulia Vairo. «… a favor desta hipótese está a descoberta, pelos especialistas do sector, de segmentos de possíveis itinerários jacobeus no Alto e Baixo Alentejo, incluindo cidades como Estremoz e Montemor-o-Novo, coincidentes, na sua maior parte, com trajectos das antigas vias romanas»

Cortesia de wikipedia e jdact

Resumo:
«Em 1318 o rei Dinis I resolveu ir em romaria a Compostela, para recolher-se em oração sobre o túmulo do Apóstolo São Tiago Maior. Perante o curioso silêncio das Crónicas e a inquestionável indiferença da historiografia portuguesa em relação a este episódio, pretende-se reconstruir, através das fontes a disposição, os tempos e as modalidades da jornada do monarca a Compostela. Nomeadamente, serão indagadas as motivações e as razões profundas deste acto de devoção pessoal do soberano, a fim de avaliar a sua carga simbólica e de contextualizar este gesto no âmbito das complexas dinâmicas de poder daqueles anos. Para isso, serão analisadas algumas iniciativas e acções concretas empreendidas por Dinis ao longo daquele mesmo ano no âmbito político, social, religioso, cultural, artístico e as relativas também à esfera pessoal do rei, interpretadas como directas consequências da peregrinação a Compostela».

«Este artigo visa fazer luz sobre a peregrinação do monarca Dinis I a Compostela, realizada em 1318, episódio da vida do rei reconhecido pela historiografia portuguesa, mas que nunca foi verdadeiramente objecto de aprofundamento científico. Perante o silêncio das crónicas, procurou-se reconstruir a jornada do soberano a Santiago de Compostela através do estudo de fontes documentais, editadas ou inéditas, mas sobretudo tomando em consideração factos ocorridos naquele mesmo ano de 1318. Lidos no âmbito do quadro geral dos acontecimentos daqueles anos, cruciais para a vida da monarquia portuguesa, estes factos podem ser interpretados, em conjunto com as referidas fontes documentais, como consequências directas do acto de devoção do monarca. No início de 1318, o rei Dinis resolveu ir em peregrinação a Compostela para se recolher em oração sobre o túmulo do Apóstolo São Tiago Maior.
A historiografia portuguesa não tem assumido uma atitude unívoca em relação a este acontecimento tão importante da vida do monarca Dinis I: ao silêncio das crónicas seguiu-se uma omissão geral do assunto pela maior parte dos historiadores. Com excepção de alguns autores que têm defendido a efectiva realização da jornada a Compostela, é curioso observar a continuação da indiferença total, nos estudos respeitantes ao reinado de Dinis, para com este tema ou a escassa vontade manifestada pelos pesquisadores de indagar e aprofundar este episódio, revelador da espiritualidade do soberano. Parece até que este acto penitencial, expressão, em certos aspectos, da grande humildade do seu protagonista, não se adapta à imagem do rei forte e sábio encarnado pelo Rei Lavrador, mito historiográfico que, ainda hoje, não obstante as novas leituras e o florescimento dos estudos relativos ao reinado dionisino, sobrevive à passagem do tempo. O Rei Lavrador, ao longo dos anos, foi substituído pelo Rei Civilizador e pelo Rei Poeta e Culto. Todavia, ainda não foi verdadeiramente investigado o rei Dinis, filho obediente da Santa Igreja de Deos, como ele próprio se proclama, muito oportunamente, no testamento de 1322, mas também como ele é definido pelo papa João XXII em diversas cartas dirigidas a ele e aos seus familiares, antes e depois do seu falecimento.
Ao contrário do esquecimento a que este episódio da vida de Dinis foi votado, de resto vale a pena sublinhar a atenção e o espaço dados à peregrinação a Santiago realizada pela rainha dona Isabel, a partir da Crónica de D. Dinis de Rui de Pina e, em geral, em toda a produção historiográfica nacional. Nem a Crónica de D. Dinis de 1419 nem a Crónica delRey D. Dinis de Rui de Pina (1440-1512) referem a peregrinação do rei ao túmulo de São Tiago Maior. Porém, temos a narração, pródiga de informações, do cronista régio, o monge cisterciense frei Francisco Brandão. De facto, o capítulo LXIV da VI Parte da Monarquia Lusitana (1672) é parcialmente dedicado à descrição do caminho de Dinis a Compostela, empreendido juntamente com um grupo de nobres e fiéis servidores: primeiro, entre todos, o inseparável Afonso Sanches, filho natural e mordomo mor do monarca. O cronista conta que o soberano partiu de Lisboa no início do ano de 1318, chegando ao destino a 12 de Fevereiro, dia da festa de Nossa Senhora da Purificação (sic). Na indicação da data de chegada do cortejo real deve reconhecer-se um erro, provavelmente do tipógrafo, pois a festividade em questão, a festa da Purificação da Virgem Maria, vulgarmente recordada como Nossa Senhora da Luz ou Nossa Senhora das Candeias e mais popularmente conhecida como Festa da Candelária, é uma festa fixa no calendário litúrgico. Ocorre exactamente 40 dias após o parto da Virgem Maria e, portanto, calha sempre no dia 2 de Fevereiro e não a 12, dia em que se celebra a memória de Sta. Eulália, virgem e mártir. Porém, não deve ter sido casual o facto de, por ocasião de tal festividade, ter sido celebrada uma missa solene e, ao mesmo tempo, de boas-vindas ao rei pelo arcebispo Berenguel de Landora, que somente pouco tempo antes tomara posse do arcebispado de Compostela. Também Hernando del Castillo, autor citado por Francisco Brandão, na II Parte da sua Historia General de Santo Domingo y de su Orden (1612), ao contar a vida do arcebispo Berenguel, pertencente à família dominicana, refere com pormenores o encontro entre Dinis I e o prelado que, na evolução do conflito entre o monarca português e o herdeiro do trono, assumirá um papel pacificador e de intermediário por explícito mandato da Sé Apostólica.
Além destas fontes literárias tardias, outros dados e documentos podem ser adoptados em favor da realização da peregrinação do rei Dinis I de acordo com os tempos e as modalidades recordados pelo cronista régio. Por exemplo, o estudo dos itinerários do rei, estabelecidos a partir da análise da Chancelaria dionisina, a documentação emitida pela administração régia, parecem confirmar o efectivo desenvolvimento da peregrinação em 1318 e na altura do ano indicada. De facto, embora seja obrigatório lembrar que a Chancelaria não constitui um tombo completo, pois pode apresentar lacunas também consistentes, podemos confirmar o que é referido pela Monarquia Lusitana, confrontando os dados surgidos através da análise dos itinerários com as afirmações do autor. Portanto, é provável que o Dinis tenha ido em peregrinação a Compostela entre 12 de Janeiro, data a que remonta o último diploma, emitido de Estremoz, registado pela Chancelaria antes de uma longa pausa, e o dia 22 de Fevereiro, data em que encontramos novamente o rei em Montemor-o-Novo. Trata-se dum lapso de tempo bastante amplo (41 dias), em que a Chancelaria, pelo menos em função dos dados disponíveis, permanece muda, ao contrário de outros meses do ano quando a produção de diplomas e autos, se bem com algumas pausas que chegam a atingir a quinzena de dias, apresenta prazos em geral bastante mais curtos1. Por outro lado, a favor desta hipótese está a descoberta, pelos especialistas do sector, de segmentos de possíveis itinerários jacobeus no Alto e Baixo Alentejo, incluindo cidades como Estremoz e Montemor-o-Novo, coincidentes, na sua maior parte, com trajectos das antigas vias romanas». In Giulia Rossi Vairo, Pro Salute Animae. A peregrinação do rei Dinis I a Compostela. Antecedentes e consequências, Grupo Informal de História Medieval CITCEM, Universidade do Porto, Faculdade de Letras, Incipit,  Workshop de estudos medievais da U. do Porto, 2009-2010. GIHM. Coordenação de Flávio Miranda e Joana Sequeira, CITCEM, Porto 2012, IHA, Universidade Nova de Lisboa, ISBN 978-972-8932-94-7.

Cortesia da UPorto/JDACT

domingo, 11 de janeiro de 2015

O Mosteiro de S. Dinis de Odivelas. Panteão Régio (1318-1322). Giulia Vairo. «… ao longo de 1317, com o herdeiro do trono e a rainha e que exigiram a mediação do papa João XXII, o rei manifestou a intenção de tornar o mosteiro, por ele fundado à volta de 1295, ‘um espaço simbólico de unificação do Reino’»

Cortesia de wikipedia

«Em 1318, os soberanos Dinis I e dona Isabel decidiram fazer do mosteiro feminino cisterciense de S. Dinis de Odivelas, o panteão familiar e, em sentido mais lato, o panteão régio. Até àquela data, tinha sido a galilé, o nartex, espaço localizado no exterior do templo, do Mosteiro de S. Cruz de Coimbra, primeiramente, da Abadia de S. Maria de Alcobaça, em seguida, a acolher as sepulturas dos reis da primeira dinastia e dos seus familiares. A pesquisa de arquivo, levada a cabo no Arquivo Secreto Vaticano e no Instituto dos Arquivos Nacionais, Torre do Tombo (Lisboa), e a reconstrução do contexto histórico no âmbito do qual o casal régio tomou esta resolução, permitiram fazer luz sobre esta particular circunstância até há pouco tempo desconhecida da historiografia portuguesa. A decisão de criar um panteão régio no mosteiro de Odivelas deve-se à iniciativa do monarca Dinis. Esta enquadrava-se no desenho de reconciliação e pacificação familiar trazido pelo soberano no regresso da peregrinação a Santiago de Compostela, onde se dirigiu para se recolher em oração no túmulo do Apóstolo, nos primeiros meses do ano de 1318 (o rei dirigiu-se a Compostela em meados do mês de Janeiro desse ano, 1318, chegando ao destino por ocasião da festa de Nossa Senhora da Purificação, 2 de Fevereiro; sobre a peregrinação do monarca Dinis a Compostela e à análise dos factos ocorridos em 1318). Na tentativa, e na esperança, de aplacar os diferendos surgidos, ao longo de 1317, com o herdeiro do trono e a rainha e que exigiram a mediação do papa João XXII, o rei manifestou a intenção de tornar o mosteiro, por ele fundado à volta de 1295, um espaço simbólico de unificação do Reino. A partir daquele momento, dedicou-se a pôr em acto o seu propósito. De resto, a determinação do monarca foi bem acolhida e totalmente partilhada pela rainha dona Isabel, que decidiu legar a própria memória ao cenóbio cisterciense de Odivelas, junto com o marido. De facto, como se deduz do conteúdo da carta enviada pelo papa João XXII a Dinis, em Fevereiro de 1319, o casal régio nutria uma especial devoção para com o Mosteiro de S. Dinis de Odivelas, onde elegeram a sua comum sepultura. A especial devoção dos soberanos, nomeadamente do monarca Dinis, ao mosteiro, concretizara-se, durante os primeiros vinte anos de vida do instituto, em generosas doações, concessões de privilégios e isenções, destinadas a acrescentar o já conspícuo património de base.
As investigações até hoje desenvolvidas não nos permitem saber se o projecto de criar no mosteiro de Odivelas o panteão régio existia, na mente do rei, desde a sua instituição. Não obstante isto, algumas passagens da carta de dotação, redigida em 1295 por João Martins Soalhães, bispo de Lisboa, poderiam eventualmente reflectir as ambições da Coroa sobre o cenóbio numa perspectiva de longa duração de tipo familiar, além de considerar a fundação como uma genérica iniciativa piedosa do soberano que, com isso, acrescentaria o seu prestígio pessoal. Também algumas circunstâncias, recentemente objecto duma nossa intervenção, nomeadamente a propensão de dona Isabel para com a espiritualidade cisterciense durante grande parte da sua existência e a exigência manifestada por uma jovem rainha de viver momentos de oração junto com a pouco propensa e reservada comunidade de Alcobaça, poderiam levar a pensar na influência exercida pela soberana na decisão do rei Dinis de fundar ex novo um instituto de monjas bernardas. Desta forma, os membros da família real teriam podido aceder ao interior do mosteiro sem pedir autorizações especiais às autoridades competentes, além de serem os principais fruidores in spiritu das orações da comunidade religiosa.
É certo, de qualquer modo, que, em 1318, o Mosteiro de S. Dinis de Odivelas se tornou o lugar que deveria acolher os despojos mortais e guardar a memória dos soberanos, presentes e futuros. Não deixa alguma dúvida a este propósito o facto de, na documentação produzida, quer pelo rei em favor do mosteiro, quer pela abadessa em nome do convento de Odivelas, mormente no biénio 1318-20, se recorrer a frases que evocam a possibilidade de frequentação do cenóbio, no presente e no futuro, por parte de reis, rainhas, infantes e infantas, não deixa quaisquer dúvidas a este propósito. Nalguns casos Dinis é ainda mais explícito, nomeadamente quando faz referência aos Reis e Rainhas e infantes e Infantas que depois em esse mosteiro jouverem. No Reino de Portugal é a primeira vez, com respeito ao passado, que um monarca, no caso específico, Dinis, conscientemente expressa e põe por escrito a vontade de fazer, não duma capela, mas dum inteiro instituto, cuja fundação se deve à sua própria iniciativa, um lugar simbólico, custódio da memória da monarquia, um panteão régio. Uma prova, de tipo material e iconográfico, do propósito partilhado e posto em acto pelo rei Dinis e dona Isabel, é o selo em cera da abadessa Urraca Pais de Molnes, em funções de 1318 a 1340. Neste, figura a imagem da religiosa, de pé sobre uma espécie de pedestal, protegida por um baldaquino triangular, à direita do qual se encontram dois escudos: as armas do Reino de Portugal, em cima, e as armas do Reino de Aragão, em baixo. Trata-se dum unicum no panorama da esfragística monástica medieval portuguesa: com uma evidência fotográfica, este selo dá-nos testemunho do envolvimento do casal régio no projecto em execução em 1318. Os terramotos que afectaram a área onde antigamente se erguia o mosteiro, não nos permitem ter uma ideia de como deveria ser a fábrica originária; mesmo assim, fontes seiscentistas informam-nos da generosa disponibilização de dinheiro por parte da Coroa, da grandiosidade do projecto, do empenho de vários anos, por parte de distintos arquitectos, e da magnificência do complexo». In Giulia Rossi Vairo, O Mosteiro de S. Dinis de Odivelas, Panteão Régio (1318-1322), Tese apresentada pela primeira vez em Actas. IV Congreso Internacional sobre el Císter en Portugal y Galicia, Xunta de Galicia, Isabella d’Aragona, Rainha Santa de Portugal, e il Monastero di S. Dinis di Odivelas, in Ourense 2009, IHA, FCSH-UNL.

Cortesia de FCSH-UNL/JDACT

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Inês de Castro. Memória de Inês de Castro. António C. Franco. «Não bastava ao rei mobilizar a classe nobre que, melhor ou pior, se sentia a ele presa por laços de vassalagem ou de senhorio. Era preciso mobilizar a intimidade da consciência popular, escalando um reduto último que era essencial a qualquer vitória militar»


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«O delírio é o primeiro indício da morte, mesmo quando se está no zênite da vida. Viver é queimar a vida, transformá-la em calor e claridade. A morte de Isabel de Aragão foi talvez o último gesto do seu apostolado. Saiu de Coimbra com destino a Estremoz, onde o rei Afonso então estagiava, e chegou ao Alentejo, no meio dos mais abrasados calores, a pensar partir para Valadolid, onde o rei de Castela, seu neto, então estava. A vida é breve, a alma é vasta. Ia requerer, de saquitel ao ombro, a vinda de Constança Manuel, garantindo-lhe a amizade do rei de Portugal. Pode-se, por isso, dizer que Isabel morreu num campo de batalha e que a sua morte foi nomeadamente uma trégua natural que se estabeleceu, em sua volta, entre Portugal e Castela. Isabel, mais do que Dinis, é a voz da terra ansiando pelo mar. D. Leonor de Aragão, sua neta e irmã do rei de Castela, veio a Santa Clara, para onde a rainha foi trasladada no meio dos grandes calores de Junho.
Essa trégua desfez-se mal os ecos da sua morte se desfizeram no horizonte. Em Setembro, Pedro, o conde de Barcelos e meio-irmão de Afonso de Portugal, sai de Lamego, por ordem do rei, à frente dum pequeno exército que atravessa o rio Minho e cerca o castelo de Entienza, onde se acolhera o arcebispo de Santiago de Compostela. Poucos dias depois, Afonso IV, atravessando o Tejo, põe cerco a Badajoz e assola Cortegana e Aracena. A guerra estava declarada e Afonso IV de Portugal contava que o flanco oriental de Castela fosse pressionado por Pedro IV que tinha já recebido a coroa real das mãos do arcebispo Pedro de Luna, na catedral de Saragoça. Saragoça é uma cidade triste, poeirenta e só a proximidade dos Pirenéus a justifica espiritualmente. Todavia, a sua posição frente à meseta castelhana justifica-a e justificou-a sempre como centro político por excelência, já que a independência de Aragão se esclarece tanto na luta contra Castela como no seu destino épico e marítimo. Saragoça foi assim uma primeira defesa natural da Catalunha e foi aí que Pedro IV jurou os foros e os privilégios do reino de Aragão, no ano de 1336. A discórdia que este rei mantinha com Afonso XI de Castela a propósito dos direitos de D. Leonor, sua madrasta, permitia ao rei português pensar que a necessidade de fazer guerra em duas frentes, a aragonesa e a portuguesa, lhe seria fatal. Não pensou assim Afonso de Castela e nomeou fronteiro de Múrcia Pedro de Erésia, guardando-se o rei para a fronteira ocidental.
A guerra era, independentemente de dois ou três sucessos ocasionais, um estado de espírito que se interiormente tinha alguma coisa a ver com o amor ou com a paixão, aparecia com o factor de coesão nacional. O maior ou menor grau de mobilização significava o grau de empenhamento colectivo, o que, por sua sua vez, indicava desde logo as possibilidades de envolver e superar todas as dificuldades. Pode-se ganhar uma guerra perdendo todas as batalhas, desde que o povo tenha consciência de que os seus valores e as suas tradições próprias não são alienáveis. Há rosas que subjugam cedros, como há sorrisos que desarmam um exército. Não bastava, por isso, ao rei mobilizar a classe nobre que, melhor ou pior, se sentia a ele presa por laços de vassalagem ou de senhorio. Era preciso mobilizar a intimidade da consciência popular, escalando um reduto último que era, como depois se viu, essencial a qualquer vitória militar. E, salvas raríssimas excepções, a guerra é, para consciência do povo, uma catástrofe que toma proporções de flagelo.
Foi isso que aconteceu no ano de 1337 quando Afonso de Castela passou por Elvas, Arronvhes, Veiros, Avis, Vila Viçosa e Olivença, deixando um rasto de cinzas e terrenos pisados. Ficaram casas incendiadas e houve gente que se deslocou a pé para Évora, para Santarém, onde estava o rei, e até para Lisboa. Passavam descalços, embrulhados em papéis ou em trapos, levando ao colo galinhas ou alguidares. Havia velhos que ficavam sentados nos caminhos, com os olhos parados na planície e a mão estendida. Os cães vinham-nos cheirar. A água desabava em bátegas inesperadas e foi deplorável o trajecto de todos esses refugiados. Chegaram a Santarém praticamente nus, onde o rei os mandou vestir e agasalhar. O Alentejo, sobretudo na parte Oriental, aparecia, depois desta ronda, como devastado, cheio de ruínas e de cadáveres, e o rei de Castela tinha-se retirado apenas por razões de foro íntimo. Leonor de Gusmão esperava-o em Sevilha». In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

domingo, 16 de dezembro de 2012

Inês de Castro. Memória de Inês de Castro. António C. Franco. «A liberdade que há naqueles montados é em tudo superior ao ordenamento que os próprios homens põem nas coisas. Vejo na solidão da natureza um respeito que me surpreende e prezo por isso a sua convivência»

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«A liberdade que há naqueles montados é em tudo superior ao ordenamento que os próprios homens põem nas coisas. Vejo na solidão da natureza um respeito que me surpreende e prezo por isso a sua convivência. Afonso tinha a mão esquerda assente no joelho. O passado nunca é, na sua aparência, como o futuro, ainda que, no seu núcleo interno, eles nem sequer se diferenciem como momentos distintos. Deus é o homem dum outro Deus maior. Acreditava conhecer a idade do filho, que tinha nascido num período conturbado da sua vida. Recordava-se desse tempo e da pouca fé que tinha tido do seu nascimento. Anteriormente tinha já tido dois varões que tinham durado apenas escassos meses. A liberdade do seu filho era por isso a liberdade dum filho segundo que ascendia, porém, à sucessão do reino. Aceitando o silêncio como um sinal submisso, o rei fechou a porta: - Não respondas, Pedro. Dá-me apenas o que te peço, porque é o rei que to pede como pai.
Realizou-se o casamento do infante com D. Constança Manuel por procuração. Foram os procuradores de Portuga1 a Cuenca e vieram os de João Manuel á Évora. Acto jurídico por excelência, o casamento era assim um acto de confiança entre dois Estados ou entre duas casas. Os festejos foram concorridos, provaram-se vinhos e celebrou-se missa pontifical na diocese de Cuenca, onde D. Constança foi autorizada a ir. Cuenca fazia fronteira entre o reino de Castela e o reino de Aragão e distava pouco de Valência João Manuel possuía nessa diocese amplas propriedades, que se estendiam até Albarracim, e escolheu-a talvez para mostrar que entre Aragão e Castela existia um-terceiro espaço, neutro, de que ele era o senhor. Entre Aragão e Castela ele próprio dispunha de terceiras forças importantes, que podiam mesmo ser essenciais, tudo dependendo das alianças, quer a um lado, quer a outro.
Estava previsto que D. Constança Manuel regressasse depois do casamento não a Touro, onde o rei a tinha retido, mas a Penafiel, onde se prepararia para partir para Portugal. Partiu com a comitiva do pai em finais de Fevereiro, de Cuenca, e não evitou passar em Valadolid, onde estava a corte de Castela. O esplendor dos festejos tinha já ecoado como um desagravo explícito de João Manuel, que assim esperava redimir o fracassado casamento anterior da filha.
O prato não produz o menor murmúrio. É preciso esperar pelas festas, as ostensivas festas, para que alguém se digne olhar para nós. Foi talvez isto, e não qualquer ciúme, que motivou a apreensão de D. Constança Manuel em Valadolid, apesar dos violentos protestos do pai. Incapaz de se bater com o rei, ele procurou imediatamente refúgio junto do rei de Aragão, Pedro IV, que acabava de assumir, com dezasseis anos, a coroa, por morte de seu pai, Afonso IV. Afonso, que morreu de hidropesia aos trinta e poucos anos, deixava dois filhos de um segundo casamento com Leonor de Castela, irmã de Afonso XI, que eram deste modo rivais do herdeiro. Leonor de Castela, talvez devido às dissensões com o enteado, e pressentindo a morte de Afonso de Aragão, procurou, nos finais de 1335, refugio junto do seu irmão, o rei de Castela. Não se enganou, pois logo em Janeiro, dois ou três dias depois da morte de seu pai, que ocorreu no palácio de Barcelona, Pedro se apressou a ordenar as primeiras disposições contra os bens de Leonor de Castela. Estavam pois dispostas no tabuleiro da Península as peças que iriam doravante, durante um largo período, comandar a política externa dos três estados cristãos peninsulares. Dum lado, os reis de Portugal e Castela, e do outro o rei de Castela. João Manuel, aliado preferencial tanto do rei catalão como do rei português, era uma espécie de castelo avançado destes mesmos reinos.
As verdadeiras discórdias entre Portugal e Castela só começaram depois da morte de Isabel de Aragão em 4 de Julho de 1336. Tinha sessenta e seis anos e morreu em Estremoz depois de ter deixado Coimbra no mês de Junho. Nasceu-lhe um fleimão no braço esquerdo, que cresceu desmedidamente e lhe foi chupando, dia a dia, as poucas forças. Não se podia levantar e vinham todas as manhãs abrir-lhe a janela da câmara para entrar o fresco. Um dia, quando D. Brites lhe veio lavar o corpo e pentear o cabelo, encontrou-a a falar sozinha, desconjuntadamente sentada na cama. Gesticulava com os braços no ar e fitava fixamente os zambujeiros dos campos, que lhe ficavam em frente. Brites, que trazia toalhas húmidas para lhe refrescar o corpo e serenar a fronte, perguntou-lhe o que se passava. Ela respondeu: - Filha, atentai nessa Dona que aí vai. Brites como não viesse ninguém disse-lhe: - Que Dona é, senhora? - Essa que está no parapeito da janela como se estivesse num altar e que se veste das mais finas sedas brancas. As suas vestiduras esvoaçam brandamente, mais frescas do que a água, no lume». In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Inês de Castro. António C. Franco: Memória de Inês de Castro. «Conhecia a Lagoa de Óbidos palmo a palmo e tinha percorrido os areais do Litoral, pelos dias ventosos de Janeiro, desde a Atouguia até à foz do Sizandro. O seu coração pertencia a esses lugares calados que tinham entrado na sua vida e eram nela apertadas sementes»



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«Avistaram Coimbra nos últimos dias de Setembro, quando o céu ele próprio parece ao entardecer uma vinha acabada de vindimar. E uma nudez que ainda não esfriou e onde há, todavia, um mosto quente e pegajoso. O sol aquece as tinas que estão com as uvas nos campos e tisna a pele dos homens ou dos peregrinos. O grupo tinha engrossado com a chegada a Coimbra e desde Vila do Conde que outros peregrinos se tinham juntado ao grupo para fazerem em conjunto as duas ou três últimas etapas. A presença da rainha já era conhecida e o filho do rei Dinis, o conde de Barcelos, que deixaria um espólio poético importante, mandou gente de sua casa. Vivia no solar de Lalim, ao pé de Lamego, sob o céu da igreja de Almacave, e aí havia de compor o célebre “Livro de Linhagens” e compilar a crónica medieval portuguesa mais antiga, a ‘Crónica Geral de Espanha’, de 1334, arredado que estava de todas as lutas pelo poder. Há na arte, e sobretudo na escrita, uma força de austeridade que faz que se descubra uma disciplina e se imponha uma orientação que tem alguma coisa de voto de silêncio. O místico aproxima-se do poeta, porque ambos vivem não daquilo que os rodeia, mas daquilo que imaginam. A compreensão e a conformidade de entendimento entre Isabel de Aragão e o conde de Barcelos, bastardo de seu marido, era imediata e não exigia de parte a parte qualquer esforço. O conde estava casado em segundas núpcias com uma senhora duma das mais poderosas famílias de Aragão, Maria Ximenes, e o catalão falava-se mais no seu paço de Lamego do que na corte de Lisboa. Foram esperá-la a Vila do Conde e acompanharam-na a Coimbra onde a esperava também o seu filho, rei de Portugal.
Vinha falar-lhe do infante e do casamento deste, por procuração, com Constança Manuel, que se previa para os primeiros meses do ano de 1336.
O ano de 1336 entrou carregado de nuvens e forte de águas. Algumas pontes tinham ruído, o que era sinal de isolamento, e transitava-se com dificuldade no interior. Tempestades de vento tinham feito derrocadas de árvores seculares arrancadas no meio dos campos e nos caminhos. Carvalhos gigantescos tinham sido abatidos. Os camponeses resguardavam-se em casa ateando braseiros de vide. Cortavam vime, modelavam barro, abriam pipos, limpavam lagares, mas praticamente não se afastavam de casa onde viviam paredes-meias com os animais. O rei estava em Coimbra com D. Brites, no paço de Santa Clara, onde alojaram também Branca, que devia ser entregue ao rei de Castela logo que este deixasse vir para Portugal Constança Manuel, que continuava idilicamente retida na cidade de Touro. Foi aí, no paço de Santa-Clara a Velha, que o infante Pedro, chegado da Atouguia, interpelou o pai, dizendo-lhe, a dois dias de partirem para Évora onde se deveriam realizar as festas de casamento entre Constança e Pedro, o seguinte:

 - Meu pai, ireis desculpar, mas é sem ânimo que encaro este casamento. O coração não me é conforme neste jeito e para ele vos peço outra compreensão e outro juízo, que deve ser de pai e não de rei.

Pedro era agora um corpo teso, membrudo, onde despontavam todos os sinais duma virilidade animal. Estava corpulento e tinha mãos pesadas, revestidas duma crosta dura e amarelada, calosa, que resultava do trato diário que ele tinha com as pedras, as silvas e os javalis. Calçava borzeguins de atacadores e o cabelo caía-lhe já sobre os ombros. O pai respondeu-lhe:

 - O rei é pai por afeição, mas é senhor por obrigação. Estimam-se os homens como filhos, mas é também por isso que se governam como vassalos. Irás dar a tua mão a Constança Manuel e saberás a seu tempo quanto foi acertada esta escolha. É como pai que te caso, mas é como rei que o maior cuidado tenho no que importa à conservação do reino.

Pedro olhava para os campos. Estava sentado na borda duma arca de madeira de castanho e o seu coração estava limpo de paixões. Conhecia a Lagoa de Óbidos palmo a palmo e tinha percorrido os areais do Litoral, pelos dias ventosos de Janeiro, desde a Atouguia até à foz do Sizandro. O seu coração pertencia a esses lugares calados que tinham entrado na sua vida e eram nela apertadas sementes. A experiência com Branca de Castela tinha-o  aborrecido até às raízes e a mulher era para ele, ao nível da consciência, um ser decididamente encoberto a que só, muito fragmentariamente, no domínio dos seus sonhos, ele tinha acesso. O pai disse-lhe ainda:

 - Não respondes, Pedro?

Pedro retirou então os olhos dos campos e fechou-os. Abriu-os depois e fitou a estatura avantajada do pai. Disse:

 - A liberdade que há naqueles montados é em tudo superior ao ordenamento que os próprios homens põem nas coisas. Vejo na solidão da natureza um respeito que me surpreende e prezo por isso a sua convivência.

In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Inês de Castro. António C. Franco: Memória de Inês de Castro. «O som executa um itinerário que o leva do Oriente ao Ocidente, repetindo também ele o caminho dos homens que demandam Compostela. A cidade está a três ou quatro léguas dum cabo que os romanos, depois dos celtas, apelidaram de Finisterra»



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«O solstício de Verão, com a entrada do Sol na constelação do caranguejo, é como uma noite de lua-cheia. E dia claro em todo o lado e pode-se peregrinar pelos caminhos à noite como se houvesse sol. Foi a 21 de Junho de 1335 que a rainha Isabel com o seu rajo de peregrina, o seu bordão de romeira e o seu fardel de pedinte deixou Coimbra a pé, apenas acompanhada de duas noviças de Santa Clara e dum irmão da Confraria do Espírito Santo de Alenquer, que tinha a seu cargo o zelo do hospital e da albergaria da mesma vila. A tenacidade e a austeridade desta mulher não deixam de espantar, ainda que no contexto do franciscanismo da altura, muito influente na Catalunha devido à proximidade desta com o Sul de França e o Norte de Itália, este desejo de pobreza fosse fácil de entender. A viagem era distribuída por várias etapas, pernoitava-se ao ar livre ou pedia-se hospício a casas religiosas ou civis. Essas quarenta léguas que separavam Coimbra de Santiago eram assim percorridas no anonimato duma peregrinação, que se abrigava da publicidade ou do ruído dos solares mais nobres. A rainha e o seu pequeno séquito viviam de esmolas e repetiam pela segunda vez uma peregrinação que muitos, em Portugal, não se lembravam de ter realizado uma única vez.
O objectivo da viagem era poder atingir no período que medeia entre a lua nova e o quarto crescente de Julho a cidade de Compostela. A 25 de Julho a cidade celebra a sua festa, lembrando o irmão do evangelista João, que parece ter peregrinado nos primeiros anos do Cristianismo em direcção do Ocidente, provavelmente nas embarcações fenícias que na altura partiam de Sidon ou de Tiro. O Sol está na constelação do Leão, onde acabou de entrar, e com os campos já segados a festa tem qualquer coisa de pagão ou de céltico como se em vez de adoração dum túmulo cristão se adorasse a memória do Sol vivo nos espigueiros de pedra. A luz que jorra nesses dias é impiedosa e pede sacrifícios.
O som executa um itinerário que o leva do Oriente ao Ocidente, repetindo também ele o caminho dos homens que demandam Compostela. A cidade está a pouco mais de três ou quatro léguas dum cabo que os romanos, depois dos celtas, que são porventura o fundo étnico mais original de toda a região, apelidaram de Finisterra. É Verdade que o caminho que leva o homem português a Santiago é diferente do caminho que leva o homem europeu à mesma cidade. Este último percurso na terra a mesma rota que o sol percorre no céu, deslocando-se de Oriente para Ocidente, enquanto que o homem português se desloca de Sul para Norte, relembrando mais um centro perdido que ele próprio, conhecedor desse centro, foi desmultiplicando, do que um centro desconhecido que era preciso procurar. O homem português é já em relação a Santiago futuro, enquanto que o homem europeu é em relação a essa mesma cidade passado.
Desde Aveiro, primeiro ponto litoral que o grupo de peregrinos tocou, que esta dualidade aparecia clara aos olhos de Isabel. O próprio aragonês participa ainda desse esforço que coloca Compostela como o ponto mais ocidental de toda a Europa e por isso ponto onde se venerava o Sol ao venerar-se Cristo. A rota do catalão passava ainda pelos Pirenéus e por Jaca. A rota das constelações estelares era completamente outra e só o eixo Norte-Sul criava uma dicotomia inovadora, em que se escolhia entre a Ursa Polar e Oríon. Há em torno do polo um eixo de constelações que se movem lentamente e que parece evocar um centro fixo que tem por paradigma maior a Estrela Polar. É uma coroa muito bela que engloba constelações como a Cassiopeia, o Dragão, Cefeus e que está certamente na origem de múltiplas procuras. Mas todas as constelações que estão viradas ao Hemisfério Sul e que tocam a linha do horizonte exercem um fascínio desmultiplicador, que tem mais de dádiva do que de procura. É por isso que Isabel ao vir a Santiago de Compostela, nos primeiros dias de Setembro, tinha o pressentimento de realizar o próprio percurso do português. Em vez de deixar o finisterra regressando ao meio da terra, o mediterrâneo, ela avançava em direcção ao mar, acrescentando novas marcas ao fim da terra». 
In António Cândido Franco, Memória de Inês de Castro, Publicações Europa-América, 1990.

Cortesia de PE América/JDACT