Mostrar mensagens com a etiqueta António Quadros. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta António Quadros. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista. António Quadros. «Se o rei Sebastião era, ainda na infância, tão aclamado e incitado, não o foi menos na juventude, ao aproximarem-se a maioridade e a hora da decisão. E ninguém foi tão longe como Luís de Camões...»


jdact

O Sebastianismo Contemporâneo de D. Sebastião
Diogo de Teive (1513? - 1566?)
«Um tal sebastianismo desenhou-se desde logo nas Regras para a Educação de El-Rei D. Sebastião, escritas em latim por Diogo de Teive, lente de humanidades e mais tarde reitor do Colégio das Artes da Universidade de Coimbra, ainda no tempo de João III, e vertidas para o português por Francisco de Andrade, cronista-mor do reino. Não se acuse, pois, o jesuíta Luís Gonçalves Câmara, preceptor do príncipe, como levianamente se tem feito, das ideias expansionistas do futuro rei. Como aponta Sampaio Bruno, citando Manuel Bento Sousa, tais ideias tinham o consenso nacional; era o que o país pensava. Ora, por que razão havia ele, o preceptor, de ter uma opinião diferente e devia ensinar ao rei de Portugal o contrário do que o país pensava? Observe-se, por exemplo, o incitamento de Teive, principiando pela invocação:

Se o tempo antigo teve por ditoso
ao magnanimo Achilles, porque teve
hum tão alto Escriptor das suas obras.
Quando se deve ter por mais ditoso.

Quem em verso empregar nos grandes feitos,
que do grão Rei Sebastião se esperarão,
se de Apollo alcançar tanto que possa
fazer o Canto egual a tal sujeito.

Concluindo com a referência directa à vantagem das conquistas africanas:

Agora aquelle Rei, que por milagre
nos foi dado, fará com seu esforço,
que os termos da espaçosa larga India
se acabem lá onde o Mundo os seus acaba.
A isto ajuntará com gloriosas
vitorias a infiel terra Africana,
do nome Lusitano unica imiga,
fertil de mantimentos, e abundante,
para que delles possa Lusitania
encher os seus celeiros largamente,
e assim a seus naturaes alcançar possa
com grande louvor seu grandes proveitos.

Pero d’Andrade Caminha (1520? - 1589)
Outro intelectual de alta estirpe, Pero d'Andrade Caminha, tendo conhecido as Regras... de Diogo de Teive, aplaude-as deste modo:

Dás-lhe para isto exemplos, e doctrina,
com que toda a virtude se levante;
para nós a elle, e a nós para elle ensinas.

C’o estas lembranças de teu peito dinas,
farás que o amemos mais, e qu'elle avante
de todos os Reis ponha as santas Quinas.

António Ferreira (l528 - 1569)
Mais eloquente ainda é o grande Poeta e dramaturgo António Ferreira, na sua Carta a El-Rei D. Sebastião onde começa por augurar ao príncipe um futuro radioso e por homenagear as Regras de Diogo de Teive:

Tu serás Sol, e norte, e luz, e guia
ao Mundo que mais claro já, parece;
mas em quanto a manhã bem não esclarece,
aparta Teive a nuvem que a cobria.

Escrevendo ainda:

Rey bemaventurado, em que parece
aquella alta esperança já comprida
de quanto o Ceo, e a terra te oferece.

Formosa planta de Deus concedida
a lagrymas d’Amor, e lealdade,
rey bemaventurado, em que parece
só nosso bem, vida da nossa vida.

Em quanto essa innocente e branda idade
por Deus crescendo vai felicemente
té o mundo encher de nova claridade.

Em quanto este teu povo, e o d'Oriente
novo accrescentamento por ti esperam
d'outros Reys, d'outra terra, d'outra gente.

Taes promessas os Ceos de ti nos deram
no teu tam milagroso nascimento,
espirito igual em ti nellas puzeram,

Eu levado d'amor de sancto intento
(quem ant'essa brandura temeria?)
Deter-te com meu verso hum pouco tento.

Depois virá um tam ditoso dia,
que as tuas Reaes Quinas despregadas
na multidão de toda a Barbaria.

As victoriosas frotas carregadas
das cativas coroas, e bandeiras,
d'outro sprito mayor sejam cantadas.

Se o rei Sebastião era, ainda na infância, tão aclamado e incitado, não o foi menos na juventude, ao aproximarem-se a maioridade e a hora da decisão. E ninguém foi tão longe como Luís de Camões...» In António Quadros, Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1983.

continua
Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

sábado, 30 de junho de 2012

Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista. António Quadros. «Sampaio Bruno, citando o neto do herói das Índias, abona-se, em todo o caso, nesses versos para culminar a sue tese de que ‘o sebastianismo coincide com o filosofismo’, visto que a paz anunciada surge vinculada à operação filosófica de ascender do erro»



jdact

«Texto ambíguo, como todas as prognoses, o augúrio bandárrico ajustou-se ao restauracionismo temporalista, desde João de Castro a António Vieira, sobretudo porque a trova 88, anunciando que o ‘Encoberto’ teria um nome, permitiu a especulação exegética e propagandística. Todos quantos admitiram a referência temporal e imanentista das trovas leram ‘o seu nome é D. João’, mas a verdade é que, pelo lado judaico, só por evasiva criptonímica os judeus fiéis poderiam aceitar o nome de João como o nome do ‘Encoberto’, do ‘Príncipe da Paz Universal’. Os fiéis judeus prefeririam ler ‘D. Foão, etc.’
Aliás, escreve logo a seguir:

A aplicação do bandarrismo a Sebastião é um abuso. Com efeito, nem o Messias é, no judaísmo, um perdido que regressa, nem Alcácer Quibir foi mais do que o castigo dado aos portugueses, em vista dos pecados comeridos contra os judeus. Toda a exegese, desde Aboah a Menassé, defende esta tese, e nunca se poderia assumir que o Messias incarnasse fora do povo de Israel. A maldição lançada pelos judeus a Portugal englobou o rei Sebastião, e dela restou uma festa, celebrada desde então, o ‘Purim dos Portugueses’, ou ‘Purim de D. Sebastião’, comemorado na sinagoga. O texto litúrgico, “neguilla”, contendo a narrativa da chegada do ‘Desejado’ a Tânger é uma violenta réplica aos portugueses, a Sebastião e aos cristãos, contra os quais os judeus houveram vingança, trazida pela mão divina, em Alcácer Quibir. Esta, uma das causas pelas quais o ‘Sebastianismo’, podendo aferir algo à fundamental matriz hebraico do messianismo, não constituir, de ‘per si’, um factor judaico.

Mas continuemos a transcrever algumas das mais significativas trovas do Bandarra, não esquecendo que elas ‘falaram’, a Portugueses, quer a cristãos-novos (marranos), quer sobretudo a cristãos-velhos.
Logo no início do ‘Sonho Segundo’, Gonçalo Annes concretiza a gesta do futuro ‘bom rei Encoberto’, nalguns dos seus-versos mais famosos, em que, aliás, chega a fazer doutrina:

XCIV
Oh, quem tivera Poder
para dizer,
os sonhos que o homem sonha!
Mas fiel medo, que me ponha
grão vergonha
de mos não quererem crer.
Vi um grão Leão correr
sem se deter,
levar sua viagem,
tomar o porco selvagem
na paragem,
sem nada lho defender.

XCV
Tirará toda a escória
será paz em todo o Mundo,
de quatro Reis o segundo
haverá toda a vitória...

João de Castro, na “Paráfrase...”, apresenta os dois primeiros versos desta última quadra de outro modo: ‘Tirará, toda a Erronia, / fará Paz em todo o mundo’.
“Fará ou será Paz?”
Sampaio Bruno, citando o neto do herói das Índias, abona-se, em todo o caso, nesses versos para culminar a sue tese de que ‘o sebastianismo coincide com o filosofismo’, visto que a paz anunciada surge vinculada à operação filosófica de ascender do erro para a verdade; não é a paz, das espadas, não é o império da força; é antes um reino de verdade e de luz. O Quinto Império Português, acrescentará Fernando Pessoa insistentemente, será o ‘Império da Cultura’». In António Quadros, Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1983.

Continua
Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

terça-feira, 3 de abril de 2012

Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista. António Quadros. «A este respeito, aquele historiador da filosofia portuguesa tem aliás no seu livro sobre “A Filosofia Hebraico-Portuguesa, duas páginas altamente esclarecedoras das relações entre o messianismo de Bandarra, o messianismo judaico ortodoxo e o sebastianismo»


jdact

«A trova seguinte deu oportunidade a uma das mais conhecidas interpretações do padre António Vieira (o Encoberto seria João IV):

LXXXVIII
Saia, saia esse infante
bem andante,
o seu nome é D. João,
tire, e leve o pendão,
e o guião
poderoso, e triunfante.
Vir-lhe-ão novas num instante
daquelas terras prezadas,
as quais estão declaradas,
e afirmadas
pelo Rei dali em diante.

Numa outra leitura desta trova, teríamos “D. Foão”, em vez de D. João. Diz Pinharanda Gomes, com fundamento, que os “fiéis judeus prefeririam ler D. Foão (fulano, ‘do hebraico’ feloni, de falah, ‘ocultar’), “por estar mais de acordo com a tradição sapiencial e, de certo modo, por inefabilizar o nome do Messias”.
A este respeito, aquele historiador da filosofia portuguesa tem aliás no seu livro sobre “A Filosofia Hebraico-Portuguesa", duas páginas altamente esclarecedoras das relações entre o messianismo de Bandarra, o messianismo judaico ortodoxo e o sebastianismo. Vale a pena transcrevê-las, pois são essenciais para compreender a natureza complexa do messianismo sebastianista português, reunindo elementos de muito diversa origem.
Gonçalo Anes Bandarra (f. 1566) surdiu naqueles anos que Abravanel e Zacuto haviam preconizado como decisivos; e quando a exegese bíblica privilegiava o Antigo Testamento; e quando a sociedade cristã-nova se agudizava ainda mais numa crise interna da fé e numa crise externa das relações com a sociedade portuguesa, Bandarra não serviu o messianismo judaico, nem as trovas são consideráveis imaculadas de heterodoxia relativamente à messianologia sinagogal, mas serviu, em primeiro lugar, a esperança dos “marranos” e, em segundo lugar, o projecto restauracionista e nacionalista. De 1531 a 1540, as “Trovas” carecem do condicionalismo que mais as valoriza, a sujeição de Portugal à monarquia castelhana. E, embora pudessem encontrar aceitação nos meios marranos, verdade é que o sapateiro de Trancoso saiu do processo que o Santo Ofício lhe movera (1541) sem pena grave, apenas sancionado a participar na procissão. O judaísmo das profecias bandárricas é menor, ainda que judaicamente motivado, quer na forma, quer na perspectiva, mas o nacionalismo que nelas se descobriu, a partir da edição glosada de João de Castro (1603) e corroborada pelo marquês de Nisa (1644) é muito mais efectivo do que o judaísmo, cuja sombra só voltaria a toldar as “Trovas” após a restauração, de onde a proibição das mesmas, emanada em 1665 do Santo Oficio (maldito)». In António Quadros, Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1983.



Continua
Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

sábado, 10 de março de 2012

Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista. António Quadros. «Não podemos admirar-nos se os seus principais surtos criadores surgiram no período dos Filipes e na Restauração, no Liberalismo e no pós-Liberalismo, nas convulsões finais do regime monárquico e nas primeiras desilusões da República, tanto em Portugal como no Brasil, tendo havido também um ressurgimento da temática sebastianista…»

jdact 


Breve Antelóquio
«É na poesia que o sebastianismo, como mito, melhor e mais profundamente se exprime. A poesia, a ‘poiesis’ criadora dos Gregos, é aforma natural de todo o simbolismo profético, onde se projectam não só o consciente, mas sobretudo o inconsciente dos poetas: 
  • o “inconsciente individual” (revelando sempre um intimismo autobiográfico) e principalmente, neste caso,
  • o “inconsciente colectivo” (estabelecendo a comunicação entre o indivíduo-expressor e a colectividade, conforme a teoria de Jung).
Neste último sentido, podemos dizer que toda a poesia mitogénica, como a sebastianista, representa, a um nível profundo, a psicologia e a teleologia de um povo; o poeta é um órgão de ressonâncias arcaicas e subliminais, trazendo à tona um mundo submarino mas real. Um mito como o sebastianista expande-se e recria-se naturalmente em épocas-fronteira de transição, de desequilíbrio, de desorientação ou mesmo de queda, dando corpo poético a insatisfações e aspirações nacionais.
Não podemos, pois, admirar-nos se os seus principais surtos criadores surgiram no período dos Filipes e na Restauração, no Liberalismo e no pós-Liberalismo, nas convulsões finais do regime monárquico e nas primeiras desilusões da República, tanto em Portugal como no Brasil, tendo havido também um ressurgimento da temática sebastianista e até curiosas expressões de sebastianismos de esquerda e de direita nos últimos anos do Estado Novo e nas novas ilusões e desilusões do pós-25 de Abril.
Principiemos, mas não sem antes distinguir as três formas históricas do sebastianismo:
  • o pré-sebastianismo cifrado e profético, anterior a D. Sebastião (mas só depois reconhecido como tal...);
  • o sebastianismo contemporâneo de D. Sebastião (ainda sem todas as características do mito, mas já com algumas delas);
  • e o sebastianismo posterior à morte de D. Sebastião (que da esperança no seu regresso físico depressa passará para o nível fantástico e sagrado do mito).

Cortesia de porterrassefarade

Na realidade, o que nunca entenderam os historiadores positivistas, os racionalistas da razão abstracta e os sociólogos das superfícies, a figura histórica do rei foi sempre um pretexto, foi afinal o ‘meio’ de canalização e projecção não só de uma profecia mítica onde se juntaram em partes iguais o messianismo hebraico-português, o cristianismo messiânico-encarnacionista e os velhos arcanos céltico-bretões, como também, e cumulativamente, as aspirações nacionais e populares, quer a um nível onírico, quer a um nível sócio-político. Pilar enigmático da estrutura cultural portuguesa, não o podiam abalar os sarcasmos de José Agostinho de Macedo ou de António Sérgio. O sebastianismo é um dado profundo, é um arquétipo, é uma realidade psíquica e mítica do nosso povo e da nossa cultura.
Comecemos por escutar os seus poetes, que são, não por acaso, os maiores de entre os maiores. Só depois de bem lido e reflectido na sua expressão poética principal, poderá o sebastianismo ser entendido na sua justa medida de fulgor e de sombra, de profundidade ôntica e de quimera feérica. 

O Sebastianismo anterior ao rei Sebastião
O ‘Bandarra’ (?-1545 ou 1556)
É nas trovas proféticas de Gonçalo Annes, o ‘Bandarra’, sapateiro de Trancoso, que se fundaram, em seu espírito sobrenaturalista e mitogénico, um João de Castro, um António Vieira ou um Fernando Pessoa para proclamar o regresso do Encoberto, avatar do rei tragicamente desaparecido em Alcácer Quibir.
O ‘Bandarra’, cuja data de nascimento não se conhece, teria morrido, segundo tudo o indica, no ano de 1545, isto é, nove anos antes do nascimento do príncipe Sebastião. Mas em algumas das suas trovas surge profetizada a vinda de um soberano, de um Encoberto, qual aquele que é sonhado depois de Alcácer Quibir, o regenerador messiânico de um Portugal não apenas restaurado na sua glória, mas cabeça desse império iluminado de cristandade, de verdade e de paz que seria o Quinto Império... 


Cortesia de revistasusp
  
Eis as quadras mais significativas, seguindo uma recente edição. Notem-se as referências ao futuro Rei-Imperador, ao Cão derrotado (o muçulmano diabolizado), à conquista dos Reinos Africanos e à imposição imperial de um reino de paz e de verdade.
Logo no “Sonho Primeiro”, o ‘Bandarra’ anuncia a futura vinda de um soberano  
‘com tal nobreza,
qual eu nunca vi em Rei’ 
é o  
‘Rei das passagens
do Mar’...;  
é um rei tão ‘excelente’, que os outros reis ficarão mui  
‘contentes
de o verem Imperador’;  
caber-lhe-á uma missão: tirar  
‘cedo do ninho
o porco, (o mouro), e este ‘fugirá para o deserto’, porque 
‘vai ferido
desse bom Rei Encoberto’. 
Eis as trovas: 
LXX
Portugal tem a bandeira
com cinco Quinas no meio,
e segundo vejo, e creio,
este é a cabeceira,
e porá sua cimeira,
que em Calvário lhe foi dada,
e será Rei de manada
que vem de longa carreira.

LXXI
Este Rei tem tal nobreza,
qual eu nunca vi em Rei:
este guarda bem a lei
da justiça, e da grandeza.
Senhoreia Sua Alteza
todos os portos, e viagens,
porque é Rei das passagens
do Mar, e sua riqueza.

LXXII
Este Rei tão excelente,
de quem tomei minha teima,
não é de casta Goleima,
mas de Reis primo e Parente.
Vem de mui alta semente
de todos quatro costados.
De Levante até ao Poente.
Todos Reis de primos grados.

LXXIII
Serão os Reis concorrentes,
quatro serão, e não mais;
todos quatro principais
do Levante ao Poente.
Os outros Reis mui contentes
não por dádivas, nem Presentes.

LXXIV
Comendadores, Prelados,
que as Igrejas comeis,
traçareis, e volvereis
por honra dos Três Estados.
E os mais serão taxados;
todos contribuirão
e haverá grão confusão
em toda a sorte de estados. 

(Continua)


In António Quadros, Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista, Guimarães Editores, Colecção Filosofia e Ensaios, Lisboa, 1983. 

Cortesia de Guimarães Editores/JDACT

terça-feira, 19 de julho de 2011

José Manuel Anes: Fernando Pessoa e os Mundos Esotéricos: «De facto, os heterónimos, mas também todas as outras personalidades literárias, exerceram sempre em Pessoa, um poder de exorcização dos seus medos e angústias. Eles foram uma via terapêutica e catártica, nesse processo alquímico de sucessivas metamorfoses de aperfeiçoamento, de "nigredo a rubedo". Neste sentido, o seu encontro com o Mestre foi a libertação necessária para que o processo se iniciasse»


Cortesia de wikipedia

Neopaganismo.
«Como salienta Paula Costa, o neopaganismo pessoano está em consonância com toda a Obra do Mestre Caeiro; mas para além de Outros Poemas e Fragmentos, é sobretudo o conjunto de poemas de O Guardador de Rebanhos que revela o momento áureo desta doutrina do Mestre. Também se faz sentir na Obra dos seus dois apóstolos: nas Odes de Ricardo Reis e em toda a teorização, para além dos inúmeros projectos de textos teóricos que ficaram por cumprir, que desta doutrina também fez o filósofo e sociólogo António Mora. De entre estes projectos inacabados de Mora, destacam-se «O Regresso dos Deuses», os «Prolegómenos a uma reconstrução do paganismo» e as «Origens do Cristianismo». Também Pessoa, ele próprio, mostrou interesse pelo neopaganismo, e por isso, se incumbiu de ajudar a introduzir e a apresentar o movimento. A sua postura de verdadeiro entusiasmo por esta causa leva-o ao ponto de imaginar um «Conselho Magistral do Neopaganismo Português» que em si próprio tivesse delegado (que escrevesse o volume introdutório da sua propaganda exterior.

Cortesia de wikipedia

Esta questão religiosa paralelamente à literário-filosófica, foi, segundo Paula Costa, o centro em torno do qual todas estas personagens pessoanas se organizaram.
Como verdadeiros apóstolos sentados à mesa com o seu «Messias-Caeiro», Reis e Mora, mas também Campos, Soares e Pessoa, ouviram e aprenderam os seus ensinamentos, para depois da morte de Caeiro, em 1915, inevitável para todo o simbolismo que dessa morte precoce advém, poderem pregá-la e evangelizá-la.
De facto, os heterónimos, mas também todas as outras personalidades literárias, exerceram sempre em Pessoa, um poder de exorcização dos seus medos e angústias. Eles foram uma via terapêutica e catártica, nesse processo alquímico de sucessivas metamorfoses de aperfeiçoamento, de «nigredo a rubedo». Neste sentido, o seu encontro com o Mestre foi a libertação necessária para que o processo se iniciasse.

Cortesia de wikipedia

Em «Notas para a recordação do meu Mestre Caeiro» (conjunto de textos que testemunha a ficção que Pessoa criou entre o Mestre Caeiro e os outros discípulos) percebemos que o encontro com o Mestre não é mais do que um «ritual de iniciação» onde os «neófitos, Pessoa, Reis, Campos e Mora», recebem esse «abalo espiritual», necessário para a descoberta de si-próprio e dos mistérios do mundo.
Depois de ouvir Caeiro, Campos confessa que o Mestre o seduziu com «abalo que lhe entrou nos alicerces da alma»; acrescenta ainda que o «efeito sobre mim foi receber de repente, em todas as minhas sensações, uma virgindade que não tinha tido». Outro dos «apóstolos» de Caeiro, não identificado porque o texto não apresenta assinatura, fala também do Mestre como um «bálsamo» necessário à vida:
  • «Quando estou muito triste, leio Caeiro e é uma brisa. Fico logo calmo, cantante e com fé - sim, fico com fé em Deus, na alma, na pequenez transcendente da vida depois de ler os poemas d'este atheu de Deus e do homem sem além na própria terra».
In José Manuel Anes, Fernando pessoa e os Mundos Esotéricos, Ésquilo 2008, ISBN 978-989-8092-27-4.

Cortesia de Ésquilo/JDACT