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domingo, 14 de fevereiro de 2016

A Rua Larga. Coimbra. Das Origens à Actualidade. Rúben Vilas Boas. «Entre 1770 e 1779 foi construído todo o alçado norte do Terreiro da Universidade. O velho edifício ganhava assim uma nova fachada»

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Os Colégios Universitários
«(…) O edifício organizava-se em torno de um claustro e tinha a serventia principal para a Rua dos Lóios, tanto do colégio como da igreja, como descreve o inventário aquando da extinção. A planta do século XIX revela provavelmente uma realidade próxima da original e uma fotografia permite ver o aspecto de parte do edifício antes da transformação que sofreu no século XX. Restou, assim, criar uma possível imagem para a igreja, sendo que o portal do sucessor Instituto de Antropologia, segundo António Vasconcelos, não terá sido aproveitado do antigo colégio. A par da construção dos colégios universitários, também se construíram casas particulares sob uma forma renovadora. O fundo construtivo corresponde a um tipo de casas que apresenta como característica própria, janelas de avental rectangular, correspondendo estas, à segunda metade do século XVI, a todo o século XVII e ainda aos começos do século XVIII. O Castelo, destituído das suas funções defensivas, utilizou-se para várias funções de interesse para a cidade. Foi prisão e quartel, nos séculos XVI e XVII. Num desenho do século XVIII, de Guilherme Elsden, em que este adapta a Torre de Menagem a observatório, são visíveis, uma janela gótica, e duas aberturas superiores. Desenho que contribuiu para a reconstituição do Castelo nesta época.

1799. As reformas e projectos do século XVIII
Neste capítulo abordar-se-á não só as alterações consumadas ao longo da Rua Larga, mas também os projectos que não chegaram a ser executados ou foram interrompidos, que lhe dariam um carácter mais monumental. Desde o início de Setecentos que o crescimento económico-demográfico e o desenvolvimento científico-técnico vinham impulsionando importantes alterações sociais e culturais. A filosofia iluminista, racional, humanista, defendia o progresso com base no desenvolvimento da ciência e da técnica. Em Coimbra, a Reforma Pombalina da Universidade teve esse papel, introduzindo também uma nova linguagem arquitectónica, a do neoclassicismo. Contudo, o início do século foi marcado ainda pelo barroco e as suas influências nas obras do Paço das Escolas. O Paço das Escolas, no decorrer do século XVIII verá grandes modificações, que lhe darão um aspecto próximo daquilo que encontramos hoje. As obras mais importantes foram a Via Latina, a construção da Biblioteca, a nova torre da Universidade e, inseridas na Reforma Pombalina, a remodelação dos Gerais do alçado norte do terreiro. O frontispício da Via Latina, com a composição escultórica de Laprade é construído em 1700/01, garantindo um corpo central com dignidade àquela fachada. A construção da Biblioteca, entre 1716 e 1728, juntamente com as Escadas de Minerva, constituem uma significativa adição pela sua envergadura, fechando o conjunto edificado da ala poente. A sumptuosidade da decoração barroca do interior da biblioteca, contrasta com a simplicidade da própria organização espacial e do exterior. Substituindo a antiga torre de Ruão, António Canevari, arquitecto romano, concebe uma nova, com cerca de 34 metros de altura. Torre sineira e horária, de linhas severas quebradas apenas pelo delicado frontão, teve um raro acabamento em terraço, a fim de nele instalar um observatório. Além das funções para a comunidade escolar, é um símbolo de identidade. Entre 1770 e 1779 foi construído todo o alçado norte do Terreiro da Universidade. O velho edifício ganhava assim uma nova fachada. O plano de intervenção da Reforma Pombalina, embora se tenha feito sentir em outras obras como o Laboratório Químico, a transformação do Colégio de Jesus ou o Jardim Botânico, ficou aquém da expressão de autonomia e monumentalidade que poderia ter tido, se o colossal Observatório Astronómico, no início da Rua Larga, tivesse sido concluído.
Guilherme Elsden desenvolve, em duas versões conhecidas, o projecto do edifício. A segunda versão, a definitiva, é aprovada em 1773, um volume com dois pisos, porticado no piso térreo, e encimado por um corpo recuado onde se eleva, ao centro da composição, a torre do Observatório. O edifício, confrontando o Colégio de S. Jerónimo, abrir-se-ia ao extenso território que se desenvolvia a Norte e a Nascente. A galeria do piso térreo, em cantaria de junta fendida, clarificava a função urbana de porta: iniciar o acesso à Rua Larga e prolongar o Passeio Público que vinha desde o já idealizado Jardim Botânico. A primeira versão, um volume com três pisos, organizava-se a partir do aproveitamento das duas torres do antigo castelo de Coimbra, enquadradas nos topos. Uma solução que foi abandonada pela dificuldade em integrá-las. No entanto, após a demolição do castelo medieval e a conclusão do piso térreo do novo edifício, interrompeu-se o ambicioso projecto. Por razões financeiras e técnicas, optou-se por construir um outro Observatório, de menor dimensão, no topo Sul do Pátio das Escolas. Da colaboração do arquitecto Manuel Alves Macomboa com o professor José Monteiro Rocha, surgirá o projecto definitivo. A forma final é constituída por um corpo horizontal com um piso e cobertura plana, e uma torre com três pisos definida a partir do vão central, também com cobertura plana. Em 1791 o projecto é aprovado, em 1799 o edifício concluído». In Rúben Neves Silva Vilas Boas, A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade, Mestrado em Arquitectura, Departamento de Arquitectura da FCTUC, Coimbra, 2010.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

sábado, 13 de fevereiro de 2016

A Rua Larga. Coimbra. Das Origens à Actualidade. Rúben Vilas Boas. «O Colégio Real de S. Paulo Apóstolo, começou a ser construído a partir de 1550 a mando de João III, no terreno onde existiam os Estudos Velhos e as suas casas arruinadas»

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Os Colégios Universitários
«(…) Mais à frente no capítulo far-se-á uma análise aos colégios que vão modificar a imagem da Rua, mas antes há a referir as transformações profundas que o Paço Real, sofrera até à data, desde o século XVI, começando pelo Manuelino, passando pelo Renascimento, até ao Barroco. Na época de Manuel I, entre 1517 e 1522, o corpo do palácio foi reformado, salientando-se também a capela real e a sala grande de Marcos Pires, e os torreões de defesa embelezados. Já no reinado de João III, em 1535, os Estudos mudam para os Paços Reais e em 1537, a Universidade estabelece-se definitivamente em Coimbra. Em 1561 é edificada a torre horária de João de Ruão, situada no ângulo noroeste do terreiro, representada na vista de Coimbra por Pier Maria Baldi, e figurada numa porta dos Gerais por Laprade. Em 1570, o Colégio de S. Pedro instala-se na ala nascente do Paço e em 1634, a antiga porta fortificada é substituída pela Porta Férrea. Posteriormente ainda é reformada a sala do exame e reconstruída a Sala dos Capelos. Nos documentos gráficos as representações do Paço das Escolas, foram feitas a partir das reconstituições de António Pimentel, tendo em conta as novas adições até à data. Os colégios em seguida analisados, construídos entre 1550 e 1678, eram bastante diversificados, quer pelo seu modo de funcionamento, quer pela organização espacial e relação com o espaço exterior, por vezes tendo capelas interiores ou igrejas servindo o público. O Colégio Real de S. Paulo Apóstolo, começou a ser construído a partir de 1550 a mando de João III, no terreno onde existiam os Estudos Velhos e as suas casas arruinadas. A inauguração deu-se em 1563, e dele saíram homens eminentes, de grande importância para o país. Através dos desenhos das plantas e das fachadas do Colégio pelo arquitecto Azzolini e do perímetro de implantação do edifício visíveis na planta de 1873-74, foi feita uma reconstituição que se aproximará bastante do seu aspecto original. Era um colégio secular, por oposição aos colégios regulares, das ordens. Organizava-se em torno de um pátio central, que curiosamente não tinha nenhuma arcaria de distribuição para as várias dependências. Ocupava praticamente um quarteirão e tinha capela interior. O Colégio de S. Jerónimo começou a funcionar em 1550, numas casas adquiridas a norte do Castelo, mas em 1565 adquiriram mais terreno e projectaram um edifício condigno. A sua fachada oriental ergueu-se sobre a muralha da cidade, desde a porta do Castelo, à qual ficou encostada a igreja, obra de Diogo de Castilho, continuando-se o dormitório em direcção ao Norte.
Ainda hoje se reconhece bem delimitado o edifício, com seus cubelos de reforço na fachada oriental. A representação feita nos documentos gráficos tem como base a reconstituição do colégio por Rui Lobo na obra Os Colégios de Jesus, das Artes e de S. Jerónimo através de plantas e axonometria. Todavia o alçado Sul é modificado em função da já referida presença da torre da porta do Castelo. O Colégio de S. Bento era o maior e mais importante colégio na alta da cidade, exceptuando o Colégio de Jesus. Em 1576 haviam começado as obras do edifício, sendo que a igreja foi a última parte a ser construída, tendo sido sagrada em 1634. O projecto inicial do colégio talvez fosse constituído por dois pátios, mas entre 1568 e 1570 foi construído o aqueduto de S. Sebastião, do engenheiro Filipe Terzio, em parte na propriedade dos beneditinos, o que os obrigou a fazer uma parede no lado nascente para encerrar o conjunto. Quanto à Igreja, toda a nave é um primor de arquitectura, que desde logo detém os olhos de quem entra. A sua abóbada em forma de berço, formando caixotões, é de uma riqueza e formosura singulares no dizer do crítico alemão Albrecht Haupt.
Na parte gráfica do trabalho tentou-se aproximar o colégio do seu aspecto original através de uma planta truncada de 1764, que revela parte do colégio, mas também pelo desenho de Baldi, onde se vê a parte ocidental, revelando a existência duma galeria com vista para o rio. O Colégio de S. João Evangelista ou dos Lóios instalou-se em 1548 no arrabalde da cidade. Contudo viriam a mudar-se para o bairro alto da cidade. Adquiridos os terrenos, o colégio construiu-se entre 1631 e 1638. O edifício, em parte com organização claustral, estende-se contudo, até ao Largo da Feira, mostrando aí a sua fachada principal de 5 pisos, bastante trabalhada. Pelo contrário, às outras fachadas não se concedeu a mesma dignidade. Da Rua Larga, tendo aqui apenas dois andares, far-se-ia o acesso directo ao claustro. A partir da documentação fotográfica encontrada, reconstituiu-se em planta o perímetro e o claustro, e imaginou-se uma fachada para a Rua Larga. A primeira pedra do Colégio de S. Boaventura foi colocada em 1665 e em 1678 deu-se por concluída a obra». In Rúben Neves Silva Vilas Boas, A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade, Mestrado em Arquitectura, Departamento de Arquitectura da FCTUC, Coimbra, 2010.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade. Rúben Vilas Boas. «… as casas medievais em Coimbra: com um ou mais andares, com quintais, escadas exteriores e pisos parcialmente ou totalmente sobradados, sobre arcos, esteios ou colunas»


Casa medieval, Baixa de Coimbra. Casas medievais imaginárias por JorgeAlarcao
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A Cidade Medieval
«(…) Sobre o espaço em frente aos Estudos Gerais, alguns autores, sem referir dados concretos afirmam que, na segunda metade do século XIII, era conhecido por mouraria. Porém Walter Rossa, constata que depois da conquista definitiva da cidade pelos cristãos, a relação destes com os muçulmanos era pacífica, sendo pouco provável que houvesse segregação. Além disso, as mourarias ou as judiarias localizavam-se em locais mais periféricos e menos atractivos. Por outro lado, Jorge Alarcão desmente o facto, de que também no século XIII, tenha havido uma mouraria perto da Igreja de S. Cristóvão. Os documentos não se referem a uma mauraria, de mouros, mas sim a uma moraria, ou seja um local com amoreiras, pelo que possa ter havido alguma confusão neste sentido. Assim, mas sem grandes certezas, põe-se a hipótese de o local, que se chamava Alameda de S. Paulo, aquando da existência do colégio com esse nome, fosse já um espaço aberto, como era comum existir perto das alcáçovas, como local de manifestações comerciais, quem sabe com presença de amoreiras.
Resta também, imaginar como seria o tecido urbano à data. Nos documentos de reconstituição, desenhou-se um hipotético traçado para a rua que ligava o Castelo ao Palácio Real (futuramente Rua Larga), tendo em conta que talvez fosse mais estreita e menos rectilínea. Todavia, a densidade urbana não seria tão grande como na agitada Baixa da cidade. A Rua seria obviamente cortada por outras, mas é difícil saber onde, à excepção de um eixo que ligava as igrejas de S. João de Almedina e S. Pedro, com possíveis origens romanas. Quanto às habitações nas cidades medievais, elas eram construídas em pedra e cal, madeira, adobe e outros. Era frequente terem um ou mais andares com sacada, projectando-se sobre a rua. Por vezes havia nas traseiras das casa pátios e jardins onde se encontravam animais domésticos como a galinha e o porco. Em Coimbra, na Baixa, subsiste ainda hoje um exemplo de habitação medieval. Apesar de ser do século XV dá uma ideia de como poderiam ser as casas desta época. A casa é elevada através da sobreposição de um sobrado e obedece a princípios básicos de abrigo e armazenamento. Com pés-direitos reduzidos, no rés-do-chão fica a loja, e a habitação em si, nos andares superiores. As paredes erguem-se em enxaimel, a cobertura é de telha, e as aberturas são em número diminuto. Jorge Alarcão e também Luísa Trindade dão exemplos de como podiam ter sido as casas medievais em Coimbra: com um ou mais andares, com quintais, escadas exteriores e pisos parcialmente ou totalmente sobradados, sobre arcos, esteios ou colunas. Era possível que, nesta altura ainda se pudesse observar restos do aqueduto romano, sobre o qual se viria a erguer o Aqueduto de S. Sebastião.

Os Colégios Universitários
Nesta época, certamente já designado como Rua Larga, o eixo teria praticamente estabelecida a estrutura que apresentará até a Alta ser arrasada pelo Estado Novo. As alterações a nível urbanístico consumadas no reinado de João III, no século XVI, decorrentes da construção de casas para os escolares e do desígnio de edificação de um edifício próprio para a Universidade, terão conferido à Alta de Coimbra um novo traçado urbano, mais regularizado. Contudo, foi através da sucessiva implantação de Colégios Universitários, também no século XVII, que a malha urbana se consubstanciou, e a Rua Larga aumentou a sua área de influência. No âmbito do povoamento da Alta Universitária, a Rua Larga acabou por desempenhar o seu papel estruturador natural, sendo cruzada por dois eixos paralelos. Um formado pelas ruas de S. Pedro e S. João, o outro, composto pelas ruas dos Lóios e do Borralho, terá sido resultante de dois propósitos de fundo urbanístico: a implantação segundo uma paralela ao primeiro e o rigoroso enfiamento a partir do centro da principal fachada da quadratura das escolas (projecto não concretizado, situado em parte no local onde se edificou o Colégio de Jesus). Terá sido atribuída a várias ruas, abertas, ou ajustadas nesta altura, como por exemplo a Rua dos Estudos, a largura de 30 palmos. Já à Rua Larga concedeu-se 45 palmos, estando assim justificada e apropriada a sua designação». In Rúben Neves Silva Vilas Boas, A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade, Mestrado em Arquitectura, Departamento de Arquitectura da FCTUC, Coimbra, 2010.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade. Rúben Vilas Boas. «Parte do castelo foi edificada por Afonso Henriques e Sancho I, nos séculos XI e XII. A Porta do Sol, voltada a nascente, é referida em documentos do tempo do conde Sesnando, em 1087 / 88»

Reconstituição do Alcácer, de António Pimentel
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Origens
«(…) Em oposição ao ponto de entrada na Alcáçova, situava-se o ponto de entrada na cidade: a Porta do Sol e o Castelo. E assim, a ligar a porta da Alcáçova à porta do Castelo temos a via descrita por Afonso III. Um percurso com mais de 240 metros de comprimento, subindo suavemente de oeste para este e depois descendo, que daqui para a frente viria a sofrer maiores ou menores alterações, decorrentes da construção e reconstrução dos edifícios que foram estabelecendo os seus limites. A Rua Larga, situada na parte alta da cidade, a Almedina, foi ao longo dos tempos, um dos eixos mais importantes e estruturadores deste espaço. Todavia, esta área da cidade foi oscilando em termos de importância quanto às actividades aí desenvolvidas pela população. À medida que as ameaças almóadas deixavam de ser um problema para a cidade, esta, que já tinha galgado a muralha, foi progressivamente escorregando em direcção ao rio. Assim se terá consolidado, no arrabalde, o principal sistema urbanístico da cidade, a Praça Velha e a actual Rua Ferreira Borges, que concentravam a maior parte da produção artesanal e comércio da cidade. A parte baixa da cidade, animada pelo florescimento da burguesia e pela dinâmica trans-urbana que a importante via Lisboa - Braga proporcionava, contrastava com uma certa estagnação da parte alta, de difícil acesso e cada vez mais despovoada.
Para contrariar esta tendência, foram vários os reis portugueses que procuraram inverter a situação, nomeadamente Dinis I e, mais tarde, outros monarcas como João III, que através da instalação de edifícios de ensino universitário e habitações para os estudantes foram dando nova vida à alta de Coimbra e consequentemente à Rua Larga.

A Cidade Medieval
Numa altura em que a via estudada ainda não tinha a designação de Rua Larga, pois provavelmente a largura ainda não seria um factor relevante de diferenciação das outras, o Castelo e a Residência Real, dominavam pela sua escala o conjunto urbano da parte alta da cidade. Nesta época, as últimas obras de carácter defensivo no Castelo já teriam sido realizadas e este era o último ano em que a Universidade estaria em Coimbra, para depois só regressar em 1537. Os Estudos Gerais marcavam presença perto do Paço Real, mas apesar desta excepção, o eixo seria estruturado pelo medieval aglomerado habitacional e talvez alguma actividade comercial.
Parte do castelo foi edificada por Afonso Henriques e Sancho I, nos séculos XI e XII. A Porta do Sol, voltada a nascente, é referida em documentos do tempo do conde Sesnando, em 1087 / 88. Esta teria em 1176, dois cubelos quadrados e foi refeita a mando da condessa-rainha D. Teresa, após o ataque muçulmano de 1117. Do castelo da cidade, não restam hoje senão memórias escritas ou desenhadas, pois os poucos vestígios que se conservaram até meados do século XX, desapareceram com as obras da Cidade Universitária. Do conjunto fortificado sobressaíam duas torres: a torre quadrada, no centro do castelo é a mais antiga: a torre de menagem de Afonso Henriques, que teria cerca de 22 metros de altura. A torre pentagonal ou quinária, foi construída por Sancho I em 1198, sendo-lhe atribuída a altura de cerca de 26,5 metros. A torre de menagem era feita de blocagem argamassada, dura como ferro, apertada entre revestimentos, interno e externo, de silharia gravada e siglada. Teria a sua entrada muito alta, servida por escadas de madeira amovíveis, como era próprio destas torres. A estrutura defensiva possuiria ainda, um fosso.
Todavia, no reinado de Fernando I, o Castelo sofreu novas transformações. Além do adarve que ligaria as Torres de Afonso Henriques e Sancho I, terão sido construídas duas novas torres: a torre das Mulheres e a partir de 1374 começou a ser erigida a torre nova, que marcaria a entrada na cidade, substituindo a antiga Porta do Sol. Fez-se, então, na secção de documentos gráficos a reconstituição do castelo, tendo em conta o desenho de Baldi de 1669, a planta do século XVIII de Guilherme Elsden, aquando da demolição promovida pelo Marquês de Pombal, e a reconstituição feita por Jorge Alarcão. Anteriormente às obras do rei Fernando no Castelo, já no início do século XIV, os Estudos Gerais se tinham implantado na Alta da cidade. Após a transferência da Universidade de Lisboa para Coimbra em 1308, a instituição verá construído um edifício digno. Intramuros, especialmente na parte mais alta, havia muitas casas abandonadas, arruinadas, e de aluguer. Era, pois, a ocasião, para no bairro alto, sítio sossegado, se construir os Estudos Gerais, e para alugar ou construir habitações para albergar estudantes. No local onde no século XVI se construiu o Colégio Real de S. Paulo, os Estudos instalaram-se primeiro em casas, enquanto o edifício próprio não estava concluído.
Sobre o edifício em si, crê-se que terá tido um claustro, pois algumas das belas colunas com as suas bases e capitéis do claustro do Convento de Celas terão sido de lá trazidas. Com a informação do local, da organização funcional, e de uma dimensão aproximada para a arcaria do claustro, tentou-se formular uma hipótese de como os Estudos Velhos Dionisianos poderiam ter sido. Sem certezas sobre a sua área de implantação e volumetria, propôs-se um edifício com dois pisos e alguma escala no conjunto urbano. Por volta de 1340, também estaria concluída a reforma do Paço Real por parte de Afonso IV. Contudo, desde as primeiras décadas do século XIV, que se vinha assistindo à construção de estruturas utilitárias palatinas que se acrescentaram à capela e aula do palatium primitivo sesnandino. Consumava-se, assim, um Paço Real da Alcáçova, inquestionavelmente cabeça da urbe, pousado na colina. Afastado, pouco a pouco, o perigo muçulmano e esbatida a importância militar do recinto fortificado, a moradia régia inaugurava uma relação crescentemente aberta com a cidade e as suas necessidades. A reconstituição do Palácio feita por António Pimentel foi a base da sua representação nos documentos gráficos». In Rúben Neves Silva Vilas Boas, A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade, Mestrado em Arquitectura, Departamento de Arquitectura da FCTUC, Coimbra, 2010.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

domingo, 24 de agosto de 2014

A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade. Rúben Vilas Boas. «Apesar dos primeiros registos documentais surgirem na Idade Média, presume-se que este eixo tenha origens bem mais antigas, possivelmente romanas. As sucessivas ocupações e os edifícios mais importantes, contribuíram para o aparecimento deste eixo»

Possíveis arruamentos de Aeminium, JorgeAlarcão
Cortesia de wikipedia

Introdução
«(…) Outras obras importantes são as de António Vasconcelos, que escreveu sobre os Colégios Universitários de Coimbra, e Nuno Rosmaninho sobre a Cidade Universitária do Estado Novo. Já Walter Rossa ou Jorge Alarcão analisam a evolução geral da cidade de Coimbra; António Pimentel estudou o Paço Real e a sua transformação desde as origens até ao estabelecimento da Universidade. Estas obras, embora visem assuntos mais abrangentes ou mais específicos, quer no espaço, quer no tempo, juntas, contribuíram com informação essencial para a análise da Rua Larga. Dado o assunto do trabalho, praticamente toda a bibliografia foi consultada em Coimbra: Biblioteca Geral e Arquivo da Universidade de Coimbra, Biblioteca Municipal, bibliotecas de alguns departamentos da Universidade de Coimbra e Museu Machado de Castro.

Origens
Uma das primeiras referências à via urbana em estudo, actualmente chamada Rua Larga, data do século XIII. Era a que, em 1262, o rei Afonso III designava por via publica que vadit de meo alcaçar ad Portam Solis. Em 1374 é identificada por Rua da Alcáçova que vai para o Castelo. Já em 1511 aparece-nos como Rua da Alcáçova. Todavia, na documentação conhecida, só nas décadas depois de consolidada a instalação definitiva da Universidade de Coimbra (1537), é que este percurso começa a surgir designado por Rua Larga. Mesmo assim, em 1603, a rua era ainda designada por expressões como rua que vai das Escolas Gerais para o Castelo. Como se percebe, era prática normal, desde tempos medievais, que o nome das ruas reflectisse a sua função, as actividades económicas aí desenvolvidas, nomes de edifícios importantes como igrejas ou castelos, ou qualquer outra particularidade. Em Coimbra existem ou existiram vários exemplos desses: a Rua da Moeda ou a Rua Direita (directa) na Baixa, e na Alta a Rua dos Lóios ou a Rua dos Estudos. Sendo assim, a Rua Larga recebeu este nome, pois seria na época a rua mais larga da parte elevada da cidade. Não é de surpreender, por isso, que haja inúmeras Ruas Largas em todo o mundo.
Apesar dos primeiros registos documentais surgirem na Idade Média, presume-se que este eixo tenha origens bem mais antigas, possivelmente romanas. Assim é essencial perceber como a situação geográfica, as sucessivas ocupações e os edifícios mais importantes, contribuíram para o aparecimento deste eixo. O espaço onde se viria a desenvolver o núcleo da cidade romana Aeminium, era já habitado antes. Contudo, pouco se sabe sobre esse povoado, que em pouco se pareceria com uma cidade. A cidade nasceu com os romanos. O lugar escolhido, uma forma de mamoa gigante, que veio sendo aplanada no topo pela erosão e pelo Homem possui vertentes vincadas a norte, a oeste e a sul, e um acesso mais suavizado a leste.
É precisamente a partir deste ponto, ligando a entrada na cidade à parte oeste do morro, que pode ter havido um arruamento correspondente, com alguma diferença à Rua Larga que nos chegou até ao início dos anos 1940. Na imagem de Jorge Alarcão pode ver-se os arruamentos da cidade de Aeminium, sendo um deles, mais ou menos coincidente com a Rua Larga. Segundo este, não será improvável, que, sendo romano, este alinhamento constituísse um eixo ao longo do qual se terão disposto algumas das domus das principais famílias da cidade. Após a ocupação suevo-visigótica, vieram os muçulmanos, e mais tarde, os cristãos e a fundação da nacionalidade. Na presença dos dois últimos surgem, então, construções que vão definir com maior clareza os pontos de amarração da, futuramente, Rua Larga. Durante o domínio árabe foi construído o Alcácer. Este poderá datar de meados do século VIII, após a conquista árabe por Abdul Aziz, mas também tem sido atribuída a sua construção a Almançor, em 994. A evolução arquitectónica da Alcáçova, com as suas torres circulares e cubelos, resultava na mais notável expressão de arquitectura militar, porventura de toda a península Al Andaluz. Esta estrutura, um vasto quadrilátero, com cerca de 80 metros de lado, cujas bases das torres ainda hoje se observam, possuía a entrada a oriente, onde hoje se situa a Porta Férrea. Viria depois, a transformar-se em Paço ou Palácio Real, e mais tarde, na morada da sabedoria». In Rúben Neves Silva Vilas Boas, A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade, Mestrado em Arquitectura, Departamento de Arquitectura da FCTUC, Coimbra, 2010.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

domingo, 17 de agosto de 2014

A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade. Rúben Vilas Boas. «No ano de 1934, cristalizado na Planta Topográfica de Coimbra, muitos edifícios, quer habitacionais, tinham atravessado séculos e chegaram até aqui mais ou menos alterados»

Cortesia de wikipedia

Introdução
«(…) Cada momento histórico estudado dá-nos uma identidade diferente da Rua, que se traduz na evolução da arquitectura dos edifícios, na sua escala, tipologia e também na morfologia dos espaços exteriores. As datas para cada caracterização foram escolhidas de acordo com acontecimentos específicos que marcaram a Rua Larga. A representação da Rua à data de 1377, dá-nos uma ideia bastante especulativa de como terá sido o aspecto urbano do local, menos monumental, antes das mudanças significativas que se deram séculos depois. Os edifícios que marcariam a Rua Larga seriam o Castelo, o Paço Real reformado por Afonso IV e os Estudos Gerais mandados edificar pelo rei Dinis I. A Alta, com a presença da Universidade, seria predominantemente habitacional e comercial. Nos séculos XVI e XVII, surgem ao longo da Rua Larga vários colégios universitários. Alguns foram transferidos da Rua da Sofia e por vezes de início, funcionaram em habitações. Os Colégios: Real de S. Paulo, S. Pedro, S. João Evangelista, S. Boaventura, S. Jerónimo e de S. Bento, constituíram parte do núcleo universitário que se situava na Alta de Coimbra, dos quais se pretende mostrar o seu aspecto original. Foi escolhido o ano de 1678, quando se deu a conclusão do Colégio de S. Boaventura.
O século XVIII, destacou-se pela execução de obras como, a Via Latina, a Biblioteca ou a Torre da Universidade no Paço das Escolas, mas também por projectos que não foram concluídos ou sequer começados, como o Observatório ao Largo do Castelo, o Colégio de S. Paulo Eremita, ou o Colégio de S. Paulo de Giacomo Azzolini. Em 1799, concluído o Observatório Astronómico no Pátio das Escolas, e na sequência da Reforma Pombalina, é imaginada uma Rua Larga, pontuada tanto pelos edifícios consumados, como pelos idealizados. Quanto ao início do século XX, embora não se trate de uma época que se tenha destacado por grandes alterações, representa e acumula a história, que dentro de pouco tempo, será apagada. No ano de 1934, cristalizado na Planta Topográfica de Coimbra, muitos edifícios, quer habitacionais, quer de outros tipos, tinham atravessado séculos e chegaram até aqui mais ou menos alterados.
Nesta altura, a Rua Larga era palco de uma vida intensa, fruto da diversidade de actividades aí desenvolvidas: comerciais, habitacionais, lazer, ensino. A variedade de estilos arquitectónicos foi suprimida pela construção da Cidade Universitária do Estado Novo. Com o plano de Cottinelli Telmo, responsável pela revolução urbanística realizada ao longo dos anos 40 a 70, a Alta de Coimbra e a Rua Larga mudaram a sua identidade. A última mudou a sua configuração, não só no alinhamento como na largura, comprimento e elevação. Instalaram-se grandes edifícios de aulas, regulados por um plano geométrico, axial, monumental, numa estética representativa do regime de então. Contudo, o conjunto como se vê no Plano Geral dos anos 50/60 e no perfil de 1966, não foi realizado na sua totalidade. A construção do novo hospital no local do Colégio de S. Jerónimo e dos pórticos a ligar os vários edifícios em torno da Praça D. Dinis dariam ao espaço um carácter bastante diferente do que existe. Finalmente a Rua é representada na actualidade (2010). A informação necessária para esta investigação foi recolhida em livros, mas também em processos de arquivo, desenhos e até pela observação directa no local. Também foram pedidos esclarecimentos adicionais a alguns autores como Jorge Alarcão e António Pimentel. O registo fotográfico do livro A Velha Alta... desaparecida foi de extrema importância, não só para a reconstituição da Rua na data de 1934, pois também dá pistas para épocas anteriores». In Rúben Neves Silva Vilas Boas, A Rua Larga de Coimbra. Das Origens à Actualidade, Mestrado em Arquitectura, Departamento de Arquitectura da FCTUC, Coimbra, 2010.

Cortesia da UCoimbra/JDACT

quinta-feira, 14 de julho de 2011

William Chambers: Um arquitecto neoclássico. «Legou todos os sues conhecimentos sobre desenho naturalista de jardins chineses e a sua adaptação às ideias europeias da época no seu livro «Dissertação sobre os Jardins Orientais. De 1776 até à sua morte, Chambers consagrou-se à Somerset House»


(1723-1796)
Gotemburgo, Suécia
Cortesia de enwikipedia

«Representante oficial da sobriedade e da elegância da arquitectura neoclássica britânica, William Chambers também foi um pioneiro da adopção de motivos orientais na arte europeia do século XVIII, utilizando-os tanto em projectos de edifícios como de jardins.
O seu nascimento, por vicissitudes do destino em Gotemburgo, onde o seu pai era comercinte, revelou-se à partida determinante na vida deste arquitecto escocês, pois foi graças ao seu trabalho para a Companhia Sueca das Índias Orientais, entre 1740 e 1749, que Chambers teve a oportunidade de realizar várias viagens à China, onde estudou arquitectura e decoração.
Depois do seu regresso à Europa, completou a sua formação em Paris e na Itália, absorvendo essa faceta cosmopolita tão característica na sua obra. Uma vez estabelecido em Londres, em 1755, foi nomeado tutor de arquitectura do Príncipe de Gales. Realizou para a sua mãe, princesa Augusta, vários edifícios e estruturas do Real Jardim Botânico de Kew, na zona sudoeste de Londres, entre os quais se destaca «O Pagode», construído em 1761/62, tendo o primeiro dos seus dez andares octogonais um diâmetro de 15 metros. A escadaria interior tem 253 degraus e ocupa o eixo central do edifício.
Em 1757, William Chambers já publicara um livro sobre desenho chinês que teve uma grande repercussão na época e, em 1759, o «Tratado sobre Arquitectura Civil», a sua obra mais séria e académica, uma referência magistral para os arquitectos de gerações posteriores. 



O Pagode, desenhado numa imitação do estilo chinês do período Tang e com os seus característicos telhados salientes originalmente cobertos de telhas de cerâmica, esta torre de 10 andares e de 50 metros de altura é um dos edifícios mais singulares do século XVIII inglês.
Cortesia de tiscalico, bcedu e metmuseum

Em 1761, passou a ser, juntamente com Robert Adam, arquitecto do rei, nessa altura Jorge III, até 1769. Legou todos os sues conhecimentos sobre desenho naturalista de jardins chineses e a sua adaptação às ideias europeias da época no seu livro «Dissertação sobre os Jardins Orientais».
De 1776 até à sua morte, Chambers consagrou-se à Somerset House, um edifício emblemático do Reino Unido, situado no centro de Londres, na margem do rio Tamisa. Outras das suas obras relevantes são:
  • a «Carruagem Estatal Dourada», ainda usada nas coroações reais;
  • o «Casino de Marino»;
  • a «Charlemont House»;
  • a Capela e o Teatro do Trinity College de Dublin, para James Caufield;
  • a «Vila Roechampton», hoje conhecida como Parkstead House.



Cortesia de dublinlocal, 1startgallery e wikipedia

Robert Adam foi o maior rival de Chambers no neoclassicismo britânico. Apesar de Adam ter exercido uma maior influência num modo posterior, William destacou-se na sua época como o representante oficial deste estilo arquitectónico, conferindo-lhe, ao mesmo tempo, um toque mais internacional.
O seu túmulo encontra-se na Abadia de Westminster, onde tradicionalmente é sepultada a nobreza britânica». In Gayban Grafie.

Cortesia de Wikipédia/Gayban Grafie/JDACT

segunda-feira, 30 de maio de 2011

A Bela Poesia. Florbela Espanca: «Que importa se mentiu? E se hoje o pranto turva o meu triste olhar, marmorizado, olhar de monja, trágico, gelado com um soturno e enorme Campo Santo!»

Cortesia de modernaeditorialvavores 

Ódio?
Ódio por Ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quis no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se à vida assim roubei todo o encanto,

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorizado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Com um soturno e enorme Campo Santo!

Nunca mais o amar já é bastante!
Quero senti-lo doutra, bem distante,
Como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,
Mágoa de o ter perdido, amor ainda!
Ódio por Ele? Não... não vale a pena...
Florbela Espanca, in «Livro de Soror Saudade»

Renúncia
A minha mocidade há muito pus
No tranquilo convento da tristeza;
Lá passa dias, noites, sempre presa,
Olhos fechados, magras mãos em cruz...

Lá fora, a Noite, Satanás, seduz!
Desdobra-se em requintes de Beleza...
E como um beijo ardente a Natureza...
A minha cela é como um rio de luz...

Fecha os teus olhos bem! Não vejas nada!
Empalidece mais! E, resignada,
Prende os teus braços a uma cruz maior!

Gela ainda a mortalha que te encerra!
Enche a boca de cinzas e de terra
Ó minha mocidade toda em flor!
Florbela Espanca, in «Livro de Soror Saudade»

JDACT

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Guimarães. Os Paços ducais de Bragança: Parte II. «No seu conjunto e mesmo nos seus pormenores, esta obra resulta estranhamente deslumbrante, não tendo parceiro, perante o seu carácter artístico e as construções senhoriais do seu tempo em todo o território da Península Ibérica»

Cortesia de nonasnonas

Os Paços ducais de Guimarães
«Pouco, pouquíssimo se conhece da história destes grandes Paços ducais, construídos, segundo se crê, sobre os fundamentos do velho palácio dos reis de Leão e do Conde D. Henrique.
Que foi o conde de Barcelos, D. Afonso de Portugal, quem os mandou edificar, é ponto incontroverso.
  • Quando?
  • Que arquitecto os delineou?
  • Como era o seu risco inicial?
  • Que influências nacionais ou estrangeiras o inspiraram?
  • Quando terminaram as obras?
  • Chegaram a concluir-se?
  • Porquê e quando se arruinaram?
Perguntas a que a sombra dos séculos e a escassez da documentação conhecida não permitem dar claras respostas. Escreve Alfredo Guimarães:
  • «A disposição para construir em Guimarães um edifício de semelhantes e raras proporções adveio a D. Afonso dos conhecimentos da vida palaciana europeia. … a inferioridade da sua situação oficial entre ele e os seus irmãos, os Ínclitos Infantes e, comummente, a ambição de vir a ser… o que pudesse ser… na ordem em que a fortuna conduzisse os acontecimentos nacionais. … o mestre da traça, que podemos dizer se chamava Antom, lançou-se no delineamento de um Paço. … os Paços não são uma obra de visão normanda, mas sim a obra de um normando ou, pelo menos, de um francês. … assim, chegamos à conclusão segura de que a planta dos Paços dos duques foi executada em Guimarães entre 1420 e 1442…»
O alicerce documental das opiniões de Alfredo Guimarães é uma escritura de emprazamento de casas na rua Sapateira, feito pelo Cabido da Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira, em 15 de Maio de 1460, de que foi uma das testemunhas o Mestre Antom de pedraria.

Cortesia de flickr
Estranha-se o silêncio dos documentos sobre este suposto arquitecto dos paços, começados a construir quase 40 anos antes, e habitados havia 27 pela corte ducal, quando se lavrou aquela escritura de emprazamento. Mais, «que a influência do traçado é italiana, embora o estilo seja o gótico francês … já tradicional no país».
Alfredo Guimarães, mantendo a sua opinião, escreve ainda:
  • «Na traça de Mestre Antom e sob a vedoria de Joahne Steuez, o edifício começou a construir-se pela frontaria, aquela que mais tare, em 1666 os frades capuchos de Guimarães haviam de apear para a construção do seu convento. …O edifício foi erguido inteiramente, e assim deveria estar quando, em 26 de Janeiro de 1480 faleceu nele, com perfumes de santidade, a virtuosa Senhora que foi a primeira Duquesa de Bragança».
Ao confiscar a casa para a coroa, D. João II nomeou carpinteiros para as obras do Paço de Guimarães. É o que consta de uma carta de 20 de Dezembro de 1490, em que o carpinteiro João Domingos renuncia esse cargo a favor do seu genro Afonso Anes, também carpinteiro.
O certo é que os condes já viviam em Guimarães e provavelmente naqueles paços em 1433, porque aí datou D. Afonso a carta que endereçou a seu pai sobre nova empresa de África, que o infante D. Henrique então planeava.
O 1º duque de Bragança morreu em 1461 e a sua viúva continuou vivendo em Guimarães, até fim dos seus dias, em 26 de Janeiro de 1480. Não consta que a duquesa ali fizesse quaisquer obras.
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Em 1462 lavraram-se nos Paços as escrituras do casamento de D. João, filho do duque D. Fernando, com Isabel de Noronha, e em 1472 celebraram-se ali as cerimónias nupciais do duque D. Fernando II com a duquesa D. Isabel, recebidos pelo bispo de Viseu, D. João Gomes de Abreu. Também naquele ano de 1462, o duque confirmava à duquesa viúva a posse dos reguengos e rendas da vila de Guimarães, que D. Afonso dera à sua segunda mulher. A Casa de Bragança viu confiscados os seus bens com a subida ao cadafalso do duque, em 1483, e a coroa entrou na posse do Paço de Guimarães.

E dizem que o infante D. Duarte que, pelo seu casamento teve o ducado de Guimarães, entre os anos de 1537 e 1540, ali teria vivido um tempo, o que não aconteceria se os paços estivessem destruídos. O primeiro depoimento que atesta a ruína é o do Cónego Gaspar Estaço que, nas suas Várias Antiguidades de Portugal, escreveu:
  • «D. Afonso, Conde de Ourém, genro de D. Nuno Álvares Pereira, fez aquele sumptuoso edifício que hoje está muito arruinado que chamam o Paço dos Duques».
Nos princípios do século XVII, em 20 de Outubro de 1611, a Câmara de Guimarães informava acerca da petição das freiras de Santa Clara, que pediam a pedra dos muros junto do Paço para as obras do seu mosteiro, que a dita pedra era do duque. É provável que nesse tempo a ruína, já começada, não fosse ainda grande. O maior descalabro parece ter-se dado à roda de 1666. Os frades capuchos alcançaram do rei uma provisão concedendo-lhes, para as obras do seu convento, a pedra do Paço de modo que só ficassem deste as paredes exteriores e se tapassem as portas a pedra e cal. Contra esta decisão da coroa, levantaram-se a Câmara, Nobreza e Povo de Guimarães, e em vereação de 31 de Janeiro desse ano de 1666, assim disseram e assentaram. E pouco depois, em vereação de 4 de Fevereiro mandaram proceder à vistoria dos Paços e avaliar das obras de que necessitavam, para delas informar o monarca.

Cortesia de portugalimagens
Fizeram uma vistoria os mestres de pedraria Gonçalo Vaz e Pero Lopes, com o arquitecto António de Andrade que afirmaram sobre o estado de ruína era só nos telhados e madeiramentos, a grande massa de pedraria estava intacta. Para salvar os paços, ainda, pouco depois, acordavam em dar aos religiosos a pedra da barbacã do muro de santa Bárbara mas, ... tudo em vão, consumou-se o vandalismo e muitos seguiram o exemplo dos capuchos.
Em 1881, escrevendo do Paço dos duques de Guimarães elucidava  António Ferreira Caldas:
  • «...este palácio foi considerado monumento histórico de segunda classe pela Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses em assembleia geral de 30 de Dezembro de 1880. ... este monumento é um vastíssimo edifício muito interessante para o estudo das habitações dos grandes senhores e dos costumes daquela época...».
No seu conjunto e mesmo nos seus pormenores, esta obra resulta estranhamente deslumbrante, não tendo parceiro, perante o seu carácter artístico e as construções senhoriais do seu tempo em todo o território da Península Ibérica». In IGESPAR.

Cortesia de IGESPAR/JDACT

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Santarém. Igreja da Graça: «O claustro, datado de 1597, foi edificado por António Dias e, no século seguinte, as alas conventuais foram totalmente reformadas, sendo estas empreitadas marcadas por legendas epigráficas em alguns portais, como as de 1638 e 1673»

Cortesia de visitportugal

Cortesia de commonswikimedia
«Santa Maria da Graça é o último grande monumento gótico monacal que Santarém actualmente conserva. A sua construção ficou a dever-se à iniciativa dos Agostinhos de Lisboa, instalados na cidade a partir de 1376, que conseguiram o patrocínio de nomes importantes da nobreza escalabitana, como os primeiros Condes de Ourém, D. João Afonso Telo de Meneses e sua mulher, D. Guiomar de Vilalobos.

O arranque da construção da igreja aconteceu em 1380, mas dificuldades económicas e a própria história conturbada da família condal, na viragem dinástica, fizeram com que as obras fossem concluídas apenas no segundo quartel do século XV. O produto final que hoje observamos evidencia esse longo período em que o estaleiro esteve activo (CUSTÓDIO, 1996, p.55).

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Cortesia de tumulosfamosos
A cabeceira tripartida, o transepto e as naves obedecem às concepções do gótico mendicante tão característico da generalidade dos conventos baixo-medievais de Santarém que chegaram aos nossos dias, não obstante uma maior «tendência da abertura espacial» (PEREIRA, 1995, p.420), fruto certamente do natural caminho da arquitectura religiosa gótica rumo a uma mais clara espacialidade. A fachada principal, com o seu portal cenográfico e a enorme rosácea que ocupa o segundo registo, pelo contrário, está na dependência do Gótico flamejante que, durante a primeira metade do século XV, triunfou no emblemático monumento de Santa Maria da Vitória, na Batalha. A relação entre os portais axiais destes dois monumentos e a proximidade cronológica entre ambos, são circunstâncias que têm sido justamente salientadas pelos vários autores que se referiram à obra escalabitana (SILVA, 1989, p.40; SERRÃO, 1990, p.45, entre outros).

Também as sepulturas da família Meneses, que aproveitaram a igreja para seu panteão, revelam a influência da Batalha, designadamente do túmulo duplo de D. João I com D. Filipa de Lencastre, modelo adoptado por D. Pedro de Meneses e sua mulher, D. Beatriz Coutinho (GOULÃO, 1995, p.173). As referências aos promotores do convento não se restringem, porém, aos seus monumentos funerários. Como identificou Zeferino SARMENTO (1931), republ. 1993, p.10, existem quatro conjuntos escultóricos, dispersos pela igreja, onde se esculpiram as armas dos fundadores, sinais inequívocos do patrocínio deste casal sobre a obra agostinha.


Cortesia de flickr
Durante a Idade Moderna, o conjunto foi objecto de muitas renovações. O claustro, datado de 1597, foi edificado por António Dias e, no século seguinte, as alas conventuais foram totalmente reformadas, sendo estas empreitadas marcadas por legendas epigráficas em alguns portais, como as de 1638 e 1673. Ainda na década de 70 do século XVI, acrescentou-se um terceiro piso ao convento e realizaram-se outras obras não discriminadas na cerca (CUSTÓDIO, 2000, p.5).

No interior da igreja, os trabalhos não foram de menor relevância. Continuando a tradição funerária do espaço, muitos foram os poderosos escalabitanos que aqui se fizeram enterrar. Para além do túmulo do navegador Pedro Álvares Cabral, na capela de São João Evangelista, e dotado de longa legenda epigráfica, merece realce o túmulo renascentista de Pero Rodrigues de Portocarreiro (1532). De um ano antes é a capela do Senhor Jesus dos Passos, mandada edificar por D. Mécia Mendes de Aguiar, mulher do navegador Gonçalo Gil Barbosa. Na segunda metade do século, construiu-se a capela de D. Gil Eanes da Costa, «presidente do Desembargo do Paço e da Câmara de Lisboa, com assento no Conselho de Estado de Filipe II». Para esta obra, infelizmente desmantelada pelo restauro do século XX, o promotor escolheu nomes cimeiros da arte nacional, como o arquitecto Pedro Nunes Tinoco e o pintor Diogo Teixeira (SERRÃO, 1990, pp.69-70).


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Extinto o convento, as suas instalações foram ocupadas, em 1872, pelo Lar de Santo António. Nos meados do século XX, a DGEMN procedeu a um restauro selectivo, que visou suprimir tudo o que fosse posterior a 1500, desmantelando-se, então, a maioria das obras maneiristas e barrocas». In IGESPAR, PAF.

http://www.infopedia.pt/$igreja-da-graca-(santarem)

Cortesia de IGESPAR/JDACT

Aleijadinho. António Francisco Lisboa: Com um estilo relacionado ao Barroco e ao Rococó, é considerado pela crítica brasileira como o maior expoente da arte colonial no Brasil. Para alguns estudiosos estrangeiros é o maior nome do Barroco americano


(1730/1738-1814)
Ouro Pedro, Brasil
Cortesia de wikipedia/museualeijadinho 

António Francisco Lisboa, mais conhecido como Aleijadinho, foi um importante escultor, entalhador e arquitecto do Brasil colonial. Pouco se sabe sobre a sua biografia, que permanece até hoje envolta em cerrado véu de lenda e controvérsia, transformando-o em herói nacional. A principal fonte documental sobre o Aleijadinho é uma nota biográfica escrita somente cerca de 40 anos depois da sua morte.
Toda a sua obra, entre talha, projectos arquitectónicos, relevos e estatuária, foi realizada em Minas Gerais, especialmente nas cidades de Ouro Preto, Sabará, São João del-Rei e Congonhas. Os principais monumentos que contém obras são a Igreja de São Francisco de Assis de Ouro Preto e o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos. Com um estilo relacionado ao Barroco e ao Rococó, é considerado pela crítica brasileira como o maior expoente da arte colonial no Brasil. Para alguns estudiosos estrangeiros é o maior nome do Barroco americano, merecendo um lugar destacado na história da arte do ocidente.


Cortesia de wikipedia/museualeijadinho 
Aleijadinho trabalhou durante o período de transição do Barroco para o Rococó. O Barroco, surgido na Europa no início do século XVII, foi um estilo de reação contra o classicismo do Renascimento, cujas bases conceituais giravam em torno da simetria, da proporcionalidade e da contenção, racionalidade e equilíbrio formal. Assim, a estética barroca primou pela assimetria, pelo excesso, pela expressividade e pela irregularidade. Além de uma tendência puramente estética, esses traços constituíram uma verdadeira forma de vida e deram o tom a toda a cultura do período: 
  • uma cultura que enfatizava o contraste,
  • o conflito e o dinâmico,
  • o dramático e a dissolução dos limites, junto com um gosto acentuado pela opulência de formas e materiais, tornando-se um veículo perfeito para a Igreja Católica da Contra-Reforma e as monarquias absolutistas. 
As estruturas monumentais erguidas durante o Barroco, como os palácios e os grandes teatros e igrejas, buscavam criar um impacto de natureza espectacular e exuberante, propondo uma integração entre as várias linguagens artísticas. Como ocorre com outros artistas coloniais, a identificação das obras do Aleijadinho é dificultada pelo facto dos artistas da época não assinarem as suas obras e pela escassez de fontes documentais.


Cortesia de wikipedia/museualeijadinho
 Na actualidade, sabe que o estilo «típico de Aleijadinho» criou escola, sendo continuado por grande número de escultores mineiros e copiado por santeiros da região. Tal estilo foi descrito por Silvio de Vasconcellos como apresentando os seguintes traços:
  • Posicionamentos dos pés em ângulo próximo do recto;
  • Panejamentos com dobras agudas;
  • Proporções quadrangulares das mãos e unhas, com o polegar recuado e alongado e indicador e mínimo afastados, anular e médio unidos de igual comprimento;
  • nas figuras femininas os dedos afunilam-se e ondulam;
  • Queixo dividido por uma cova;
  • Boca entreaberta e lábios pouco carnudos, mas bem desenhados;
  • Nariz afilado e proeminente, narinas profundas e marcadas;
  • Olhos rasgados de formato amendoado, com lacrimais acentuados e pupilas planas;
  • Bigodes nascendo das narinas, afastados dos lábios e fundidos com a barba;
  • Braços curtos, um tanto rígidos, especialmente nos relevos;
  • etc.
A investigadora Beatriz Coelho dividiu a evolução estilística em três fases:
  • a primeira, entre 1760 e 1774, quando é indefinido, à procura de uma caracterização;
  • a segunda, entre 1774 e 1790, quando ele se personaliza e as obras se definem pela firmeza e idealização;
  • a terceira, entre 1790 e a sua morte, quando a estilização chega a extremos, bem longe do naturalismo, tentando expressar a espiritualidade e o sofrimento.


Cortesia de wikipedia/museualeijadinho
Aleijadinho actuou como arquitecto, mas a extensão e natureza desta actividade são bastante controversas. Só sobrevive documentação relativa ao projecto de duas fachadas de igrejas, Nossa Senhora do Carmo em Ouro Preto e São Francisco de Assis em São João del-Rei, ambas iniciadas em 1776, mas cujos riscos foram alterados na década de 1770. A tradição oral sustenta que ele foi autor do projecto da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, mas a respeito dela só é documentada a sua participação como decorador, criando e executando retábulos, púlpitos, portada e um lavabo. Também criou, projectos para retábulos e capelas, que se enquadram mais na função do decorador-entalhador, ainda que tenham proporções arquitectónicas.

Cortesia do Museu do Aleijadinho/wikipedia/JDACT