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quinta-feira, 14 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Estava ansioso e um pouco assustado. O fora-da-lei era um homem menor que ele, mas seus movimentos eram rápidos e perversos, como demonstrara ao bater em Martha e roubar o porco»

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«Tom virou-se depressa para que o homem não o visse. Agora tinha que decidir como resolver aquilo. Estava furioso o bastante para derrubar o fora-da-lei com um soco e pegar sua bolsa. Mas a multidão não o deixaria fugir. Precisaria explicar-se, não só a quem estava ali, como também ao xerife. Tom estava dentro do seu direito, e o facto de o ladrão ser um fora-da-lei significava que não teria ninguém para testemunhar pela sua honestidade; enquanto Tom evidentemente era um homem respeitável e um pedreiro. Provar tudo isso, porém, levaria tempo, talvez semanas, se acontecesse de o xerife estar em outra parte do condado; e poderia ainda haver uma acusação de romper a paz do rei, se houvesse uma briga.

Não, seria mais sábio pegar o ladrão sozinho. Era possível que o homem não fosse passar a noite na cidade, pois não tinha casa ali e talvez não conseguisse hospedagem se não pudesse, de um modo qualquer, provar ser um homem respeitável. Assim sendo, precisava ir embora antes que os portões fechassem, ao cair da noite. E havia apenas dois portões. Ele provavelmente voltará por onde veio, disse Tom dirigindo-se a Agnes. Vou esperar lá fora, junto do portão leste. Alfred cuida do portão oeste. Você fica na cidade e vê o que o ladrão faz. Conserve Martha ao seu lado, mas não deixe que ele a veja. Se precisar mandar um recado para mim ou para Alfred, mande-o pela menina.

Certo, concordou Agnes, tensa. O que devo fazer se o ladrão vier na minha direção?, perguntou Alfred, que parecia excitado. Nada, respondeu o pai com firmeza. Veja que estrada ele segue e espere. Martha irá me buscar e cuidaremos dele juntos. Alfred pareceu ficar desapontado, e Tom acrescentou: Faça o que digo. Não quero perder meu filho, como também não quero perder meu porco. Alfred aquiesceu, relutante. Vamos nos separar, antes que ele note nossa presença aqui. Vamos.

Tom saiu imediatamente, sem olhar para trás. Podia confiar em Agnes para levar a cabo o plano. Dirigiu-se rapidamente para o portão leste e deixou a cidade, atravessando a oscilante ponte de madeira onde empurrara o carro de boi naquela manhã. Bem na sua frente ficava a estrada de Winchester, no rumo leste, sempre recta, como um longo tapete desenrolado sobre colinas e vales. À esquerda, a estrada pela qual ele, e presumivelmente também o ladrão tinha chegado a Salisbury, a Portway, fazia uma curva sobre uma colina e desaparecia. O ladrão certamente iria pela Portway. Tom desceu a colina e passou pelas casas que se agrupavam na encruzilhada, tomando por fim a Portway. Precisava se esconder. Caminhou pela estrada, procurando um lugar adequado. Seguiu adiante umas duzentas jardas sem encontrar nada. Olhando para trás, viu que tinha ido muito longe: não podia mais distinguir as feições das pessoas na encruzilhada, de modo que não saberia se o homem sem lábios havia saído da cidade e tomado a estrada de Winchester. Examinou a paisagem novamente. A estrada era margeada de ambos os lados por valas, que teriam servido de esconderijo com tempo seco, mas que nesse dia estavam cheias de água. Logo depois de cada vala, a terra se amontoava. No campo, do lado sul da estrada, algumas vacas pastavam o restolho do capim. Tom notou que uma delas estava deitada na extremidade do pasto, uma elevação que dominava a estrada, e era parcialmente escondida pelo monte de terra que acompanhava a vala. Com um suspiro, refez os passos. Saltou a vala e deu um pontapé na vaca, que se levantou e foi embora. Deitou-se no lugar seco e quente que ela deixara. Puxou o capuz sobre o rosto e se acomodou para esperar, desejando que tivesse tido a ideia de comprar um pedaço de pão antes de sair da cidade.

Estava ansioso e um pouco assustado. O fora-da-lei era um homem menor que ele, mas seus movimentos eram rápidos e perversos, como demonstrara ao bater em Martha e roubar o porco. Tom tinha um pouco de medo de se machucar, mas se preocupava muito mais em ficar sem seu dinheiro. Esperava que a mulher e a filha estivessem bem. Agnes podia se cuidar, ele sabia; e mesmo que o fora-da-lei a reconhecesse, o que poderia fazer? Ficaria apenas em guarda, mais nada. De onde estava deitado, Tom podia ver as torres da catedral. Quisera ter tido um momento para dar uma olhada por dentro. Estava curioso acerca do tratamento dado às pilastras da arcada. Normalmente eram pilares grossos, com os arcos nascendo do topo de cada um deles: dois na direcção norte e sul, para a ligação com os pilares vizinhos na arcada; e um na direcção leste ou oeste, cruzando a nave lateral». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Localizou-o imediatamente, sentado num banco um pouco afastado da multidão, comendo uma tigela de ensopado com uma colher e mantendo o xale na frente do rosto para esconder a boca»

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«Uma mulher com os lábios pintados de vermelho desnudou os seios para ele, que sacudiu a cabeça e apressou o passo. Secretamente sentia-se atraído pela ideia de ir para a cama com uma estranha, à luz do dia e pagando, mas em toda a vida nunca experimentara isso.

Pensou mais uma vez em Ellen, a fora-da-lei. Havia alguma coisa intrigante nela também. Era muitíssima atraente, mas aqueles olhos fundos e intensos intimidavam.

Um convite feito por uma prostituta fez com que Tom se sentisse irritado por um momento, mas o encanto gerado pela lembrança de Ellen ainda não se dissolvera, e de repente ele teve ímpetos de correr de volta para a floresta e cair sobre ela.

Chegou no adro da catedral sem ver o ladrão. Levantou os olhos para os encanadores, que prendiam o chumbo na estrutura triangular das vigas do telhado sobre a nave.

Ainda não tinham começado a cobrir o telhado de meia-água das naves laterais da igreja, de modo que ainda era possível ver os meios arcos de apoio que conectavam a parte externa com a nave principal, escorando a metade de cima da construção. Ele os apontou para Alfred. Sem aqueles suportes, a parede da nave cederia e vergaria para fora, por causa do peso das abóbadas de pedra na parte de dentro, explicou. Está vendo como os meios arcos se alinham com os contrafortes na parede da nave? Alinham-se também com os pilares da arcada da nave, no lado de dentro. E as janelas, com os arcos da arcada. Linhas fortes com linhas fortes, linhas fracas com linhas fracas. Alfred deu a impressão de estar se sentindo frustrado e ressentido. Tom suspirou.

Viu Agnes vindo do lado oposto, e sua mente retornou ao problema imediato. O capuz de Agnes ocultava-lhe o rosto, mas ele reconheceu o queixo lançado para a frente, seu andar seguro. Operários de ombros largos afastavam-se para que passasse. Se ela esbarrasse no ladrão e houvesse uma briga, pensou ele, seria bem equilibrada.

Você o viu?, quis saber ela. Não. E obviamente você tampouco. Tom esperava que o ladrão não tivesse deixado a cidade. Certamente não iria sem antes gastar um pouco de dinheiro, que não tinha utilidade na floresta. Agnes estava pensando a mesma coisa. Ele está aqui, em algum lugar. Vamos continuar procurando. Vamos voltar por ruas diferentes e nos encontrar no mercado.

Tom e Alfred refizeram seu caminho atravessando o adro e saíram pelo portão. A chuva encharcava-lhes o manto e por um segundo Tom pensou numa jarra de cerveja e numa tigela de caldo de carne, junto à lareira de uma cervejaria. Depois pensou em como trabalhara duro para comprar o porco, viu de novo o homem sem lábios brandindo o porrete na cabeça inocente de Martha, e sua cólera o aqueceu.

Era difícil procurar sistematicamente porque não havia ordem nas ruas. Elas ziguezagueavam, de acordo com o lugar onde as pessoas tinham construído suas casas, e havia muitas curvas acentuadas e becos sem saída. A única rua recta era a que levava do portão leste à ponte levadiça. Na sua primeira pesquisa, Tom ficara próximo das rampas do castelo. Dessa vez ele examinou as cercanias indo até a muralha da cidade e retornando ao interior. Ali estavam as casas mais pobres, as construções mais mal executadas e as prostitutas mais velhas. As cercanias da cidade ficavam num nível mais baixo que o centro, e assim o lixo da região mais rica descia com a água da chuva pelas ruas até se alojar na base da muralha. Algo similar parecia acontecer com as pessoas, pois aquele distrito tinha mais do que a cota justa de aleijados e mendigos, crianças famintas e mulheres machucadas, assim como de bêbados irremediáveis. Entretanto, não se via o homem sem lábios em parte alguma.

Por duas vezes Tom localizou um homem com o mesmo porte e aparência e aproximou-se dele, só para ver que tinha o rosto normal. Terminou a busca no mercado, e ali estava Agnes esperando por ele impacientemente, o corpo tenso e os olhos faiscantes. Eu o achei!, disse entre os dentes. Tom sentiu uma onda de excitação misturada com receio. Onde? Entrou numa locanda ali, perto do portão leste. Leve-me lá.

Eles rodearam o castelo até a ponte levadiça, desceram a rua recta até ao portão leste, depois se meteram num labirinto de vielas ao pé da muralha. Tom viu a locanda um momento depois. Não era sequer uma casa, apenas um telheiro inclinado sobre quatro pilares, encostado à muralha, com um fogo alto na parte de trás, onde um carneiro girava num espeto e um caldeirão borbulhava. Era quase meio-dia e o lugar estava cheio de gente, na maioria homens. O cheiro da carne fez o estômago de Tom roncar. Ele esquadrinhou a pequena multidão com os olhos, com medo de que o proscrito tivesse ido embora durante o curto período de tempo que haviam gasto para chegar ali. Localizou-o imediatamente, sentado num banco um pouco afastado da multidão, comendo uma tigela de ensopado com uma colher e mantendo o xale na frente do rosto para esconder a boca». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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sábado, 9 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Levarei Alfred. Tente não deixar que o fora-da-lei a veja. Não se preocupe, disse Agnes, inflexível. Quero aquele dinheiro para alimentar meus filhos. Tom tocou no seu braço e sorriu. Você é uma leoa, Agnes»

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«Tanto Tom quanto Agnes pararam para encará-lo, e como bloquearam seu caminho, ele não pôde deixar de vê-los. Bem?, exclamou, intrigado com aqueles olhares fixos e impaciente para passar.

Foi Martha quem quebrou o silêncio. É o nosso porco!, gritou excitadamente. É mesmo, confirmou Tom, olhando para o açougueiro de igual para igual. Por um instante uma expressão furtiva cruzou o rosto do homem, e Tom percebeu que ele sabia que o porco fora roubado. Mas ele disse: Acabei de pagar cinquenta pence por este porco, o que faz com que seja meu. Seja quem for a pessoa a quem deu seu dinheiro, o porco não era dela. Sem dúvida foi por esse motivo que você pagou tão pouco. De quem o comprou? De um camponês. Você o conhecia? Não. Escute. Sou o açougueiro da guarnição. Não posso pedir a cada fazendeiro que me venda um porco ou uma vaca que traga doze homens a fim de jurar que o animal é dele, e que pode vendê-lo, se quiser.

O homem virou-se de lado como se fosse embora, mas Tom pegou-o pelo braço e o deteve. Por um momento o açougueiro ficou zangado, mas depois deu-se conta de que se se metesse numa briga teria de largar o porco e, se uma das pessoas da família de Tom conseguisse apanhá-lo, o equilíbrio do poder se modificaria e precisaria provar sua propriedade. Assim, ele se conteve e disse: Se quer fazer uma acusação, vá ao xerife. Tom pensou na sugestão e abandonou-a. Não tinha provas. Em vez disso, perguntou: - Como era o homem que lhe vendeu o meu porco? Como todo o mundo, respondeu o açougueiro, com uma expressão velhaca. Ocultava a boca? Agora que estou pensando nisso, sim. Era um fora-da-lei, escondendo uma mutilação, disse Tom amarguradamente. Suponho que não pensou nisso. - Está chovendo demais!, protestou ele. Todos estamos embuçados. Basta que me diga há quanto tempo ele vendeu o porco e afastou-se. Ainda agora. E para onde foi? Para uma cervejaria, creio. A fim de gastar meu dinheiro - disse Tom, enojado. Ande, suma daqui. Pode ser que seja roubado um dia, e então vai querer que não haja tanta gente ansiosa por comprar uma barganha sem fazer perguntas. O açougueiro ficou zangado e hesitou, como se pensasse em replicar; mas pensou melhor e desapareceu.

Por que deixou que ele fosse embora?, perguntou Agnes. - Porque ele é conhecido aqui e eu não, disse Tom. Se lutasse, iriam me considerar culpado. E como o porco não tem meu nome escrito no traseiro, quem pode dizer se é meu ou não? Mas todas as nossas economias... Ainda podemos pegar o dinheiro do porco, disse Tom. Cale-se e deixe-me pensar. A altercação com o açougueiro o enfurecera e ele aliviava a frustração falando asperamente com Agnes. Em algum lugar desta cidade há um homem sem lábios e com cinquenta pennies de prata no bolso. Tudo o que temos a fazer é encontrá-lo e tirar o dinheiro dele.

Certo, disse Agnes determinadamente. Você volta pelo caminho que viemos. Vá até o adro da catedral. Eu seguirei em frente e me aproximarei da catedral pelo outro lado. Depois retomaremos pela rua seguinte, e assim por diante. Se ele não estiver nas ruas, estará numa casa de cerveja. Quando o vir, fique perto e mande Martha me avisar. Levarei Alfred. Tente não deixar que o fora-da-lei a veja. Não se preocupe, disse Agnes, inflexível. Quero aquele dinheiro para alimentar meus filhos. Tom tocou no seu braço e sorriu. Você é uma leoa, Agnes.

Ela o fitou nos olhos por um momento e de repente, ficando na ponta dos pés, beijou-o na boca, rápida mas intensamente. Depois virou-se e atravessou de volta à praça do mercado, com Martha a reboque. Tom ficou olhando, preocupado com ela, a despeito de sua coragem; depois seguiu na direcção oposta com Alfred. O ladrão parecia pensar que estava perfeitamente seguro. Claro, quando roubara o porco, Tom estava se dirigindo para Winchester. Ele seguira na direcção contrária, a fim de vender o porco em Salisbury. Mas a fora-da-lei, Ellen, dissera que a Catedral de Salisbury estava sendo reconstruída, fazendo com que Tom mudasse de plano e, inadvertidamente, descobrisse o ladrão. No entanto, como pensava que Tom nunca mais o veria, havia uma chance para pegá-lo desprevenido.

Foi caminhando lentamente ao longo da rua lamacenta, tentando parecer bem à vontade enquanto olhava as portas abertas. Queria ser o mais discreto possível, pois aquele episódio podia terminar em violência e não queria que as pessoas se lembrassem de um pedreiro alto fazendo uma busca na cidade. A maioria das casas eram choupanas de madeira, lama e telhado de colmo, com uma esteira no chão, uma lareira no meio e umas poucas peças de mobília feita em casa. Um barril e alguns bancos faziam uma cervejaria; uma cama num canto com uma cortina significava uma prostituta; um grupo barulhento em torno de uma mesa revelava um jogo de dados». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

 Cortesia de EPresença/JDACT

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sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Não havia a menor dúvida: o pedreiro conhecia aquele porco, tão bem quanto conhecia Alfred ou Martha. Estava sendo transportado, com perícia, por um homem com a pele rosada e a barriga grande de quem come toda a carne de que precisa e depois um pouco mais: um açougueiro, sem dúvida»

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«Tom sabia que não havia esperanças, mas perguntou: E o palácio? A mesma coisa, disse John. É onde estou usando os homens que sobram. Se não fosse por isso e pelos outros castelos do bispo Roger, eu já estaria dispensando pedreiros. Tom assentiu com a cabeça. Em voz neutra, tentando não parecer desesperado, perguntou: Sabe de algum lugar onde haja trabalho? Estavam construindo no Mosteiro de Shaftesbury no início do ano. Talvez ainda estejam. Fica a um dia de viagem. Obrigado. Tom virou-se para ir embora. Sinto muito, disse John, às suas costas. Você parece um bom homem. Ele afastou-se sem responder. Sentia-se deprimido. Permitira-se ter esperanças demais; não havia nada de raro em não haver trabalho. Mas ficara entusiasmado com a perspectiva de trabalhar novamente numa catedral. Agora podia ter de enfrentar uma muralha monótona, ou trabalhar numa casa feia para algum com dinheiro. Endireitou os ombros e atravessou de novo o pátio do castelo, onde Agnes o aguardava com Martha. Nunca deixava que ela percebesse o desânimo que pudesse sentir.

Sempre tentava dar a impressão de que tudo ia bem, que estava no controle

da situação, e que não tinha muita importância se não houvesse trabalho no lugar, porque certamente encontraria algo na cidade seguinte, ou na outra. Sabia que se exibisse qualquer sinal de aflição ela insistiria para encontrar um lugar onde se estabelecessem, e ele não queria, a não ser que fosse numa cidade onde houvesse uma catedral a ser construída. Não há nada para mim aqui, disse para Agnes. Vamos embora. Ela ficou acabrunhada.

Pensei que, com uma catedral e um palácio em construção, haveria lugar para mais um pedreiro. Ambas as obras estão quase terminadas, explicou Tom. Eles já têm mais homens do que precisam. A família atravessou a ponte levadiça e voltou às ruas apinhadas da cidade. Haviam entrado em Salisbury pelo portão leste, e sairiam agora pelo portão oeste, pois era a direcção de Shaftesbury. Tom virou à direita, conduzindo-os através da parte da cidade que ainda não tinham visto. Parou diante de uma casa de pedra seriamente necessitada de reparos. A argamassa usada na construção era muito ruim, e agora estava se esfarelando e caindo. A água que entrara pelos buracos, congelando, partira algumas pedras. Se ficasse assim mais um inverno o dano seria ainda pior. Tom decidiu mostrar aquilo ao proprietário.

A entrada do andar térreo era um arco amplo. A porta de madeira estava aberta, e no portal viu um artesão sentado com um martelo na mão direita e um furador na esquerda, gravando um desenho complexo numa sela de madeira colocada no banco à sua frente. No fundo Tom pôde ver depósitos de madeira e couro, e um garoto varrendo aparas. Bom dia, mestre seleiro - disse ele. O seleiro ergueu os olhos, classificou Tom como o tipo de homem que faria sua própria sela se precisasse de uma, e cumprimentou-o secamente com um gesto de cabeça.

Sou construtor, prosseguiu Tom. Vejo que está precisando de meus serviços. Por quê? Sua argamassa está-se esfarelando, as pedras estão rachando e sua casa pode não durar outro inverno. O seleiro sacudiu a cabeça. A cidade está cheia de pedreiros. Por que iria eu empregar um estranho? Muito bem. Tom se virou. Que Deus o proteja. Assim espero - disse o seleiro. Sujeito mal-educado, cochichou Agnes, quando se afastaram. A rua dava numa praça onde funcionava um mercado. Ali, numa extensão de meio acre de lama, os camponeses das proximidades trocavam as poucas sobras que podiam ter de grão, leite ou ovos pelas coisas que precisavam e que não podiam fazer, panelas, relhas de arado, cordas e sal. Os mercados geralmente eram coloridos e um tanto turbulentos. Havia um bocado de discussões e regateios bem-humorados, pretensa rivalidade entre barraqueiros vizinhos, bolos baratos para as crianças, às vezes um menestrel ou um grupo de acrobatas, grande número de prostitutas muito pintadas, e às vezes um soldado aleijado com histórias dos desertos orientais e de enfurecidas hordas sarracenas.

Os que faziam uma boa barganha com frequência sucumbiam à tentação de celebrar, e gozavam o lucro com uma cerveja forte, de modo que havia sempre uma atmosfera de desordem por volta do meio-dia. Outros perdiam suas moedas nos dados, o que podia acabar em briga. Mas agora, na manhã de um dia de chuva, com a safra do ano vendida ou armazenada, o mercado estava contido. Camponeses encharcados de chuva faziam barganhas taciturnas com barraqueiros que tremiam de frio, todos ansiosos por ir para casa e sentar diante de uma lareira.

A família de Tom forçou caminho por entre a multidão desconsolada, ignorando as lisonjas desanimadas do vendedor de salsichas e do amolador de facas. Já tinham quase acabado de atravessar a praça quando Tom viu o seu porco. Ficou tão surpreso que a princípio não pôde acreditar nos próprios olhos. Então Agnes disse entre os dentes: Tom! Olhe! E ele soube que ela vira também. Não havia a menor dúvida: o pedreiro conhecia aquele porco, tão bem quanto conhecia Alfred ou Martha. Estava sendo transportado, com perícia, por um homem com a pele rosada e a barriga grande de quem come toda a carne de que precisa e depois um pouco mais: um açougueiro, sem dúvida». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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domingo, 3 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Quem é você? Meu nome é Tom e sou pedreiro. Foi o que pensei. O que o traz aqui? Estou procurando trabalho, respondeu, prendendo a respiração. John sacudiu a cabeça imediatamente. Não posso empregar…»

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«Seguiram o carro de boi até ao canto do adro onde as pedras estavam empilhadas. Os bois, agradecidamente, mergulharam a cabeça no bebedouro. Onde está o mestre construtor?, perguntou o carroceiro a um pedreiro que passava. No castelo, foi a resposta do pedreiro. O carroceiro balançou a cabeça e virou-se para Tom. Você o encontrará no palácio do bispo, creio. Muito obrigado. Eu que agradeço.

Tom deixou o adro com Agnes e as crianças atrás. Refizeram seus passos pelas ruas apinhadas e estreitas até à frente do castelo. Ali havia outra vala seca e uma segunda imensa fortificação de terra que cercava a praça-forte. Atravessaram a ponte. Na casa da guarda, de um lado do portão, um homem corpulento de túnica de couro estava sentado, contemplando a chuva. Trazia uma espada. Tom dirigiu-se a ele: Bom dia. Sou chamado de Tom Construtor. Quero falar com o mestre construtor, John de Shaftesbury. Está com o bispo, respondeu o guarda indiferentemente. Eles entraram. Como a maioria dos castelos, aquele era uma colecção de edifícios de estilos diversos dentro de uma muralha de terra. O pátio ficava a cerca de cem jardas. Em posição oposta à do portão, do lado mais distante, estava a imponente fortaleza, a última cidadela em tempo de ataque, erguendo-se bastante acima das fortificações, a fim de ter boas condições de observação. À esquerda via-se um agrupamento de casas baixas, a maioria de madeira: um estábulo comprido, uma cozinha, uma padaria e diversos armazéns. Havia um poço no meio. À direita, tomando quase toda a metade norte do conjunto, ficava uma grande casa de pedra que obviamente era o palácio. Era construído no mesmo estilo da nova catedral, com pequenos portais e janelas caracterizadas por terem a parte superior arredondada, e tinha dois andares. Era nova; na verdade, alguns pedreiros ainda estavam trabalhando num canto, aparentemente construindo uma torre. A despeito da chuva, havia muita gente no pátio, entrando ou saindo e correndo de uma construção para outra: homens de armas, sacerdotes, comerciantes, operários da obra e criados do palácio.

Tom podia ver diversas portas no palácio, todas abertas, a despeito da chuva. Não estava bem certo do que deveria fazer a seguir. Se o mestre construtor estava com o bispo, talvez não devesse interromper. Por outro lado, o bispo não era um rei, e Tom era um homem livre e um pedreiro em busca de trabalho legítimo, não um abjecto servo com alguma queixa. Decidiu ser ousado. Deixando Agnes e Martha, atravessou com Alfred o pátio lamacento e entrou pela porta mais próxima do palácio. Os dois se viram numa pequena capela com o tecto abobadado e uma janela na outra extremidade, por cima do altar. Perto da porta, um sacerdote estava sentado a uma mesa alta, escrevendo rapidamente em papel velino. Ele ergueu os olhos. Onde está o mestre John?, perguntou Tom bruscamente. Na sacristia, respondeu o sacerdote, indicando com a cabeça uma porta na parede lateral.

Tom não pediu para falar com o mestre. Achou que se agisse como se estivesse sendo esperado perderia menos tempo. Atravessou a capelinha com algumas passadas e entrou na sacristia. Era uma câmara pequena e quadrada, iluminada por muitas velas. A maior parte do chão era tomada por uma caixa com areia, muito rasa. A areia fina tinha sido perfeitamente alisada com uma régua. Havia dois homens dentro da sacristia. Ambos olharam rapidamente para Tom e voltaram sua atenção para a areia. O bispo, um velho enrugado de olhos brilhantes, estava desenhando na areia com uma varinha pontuda. O mestre construtor, usando um avental de couro, o observava com ar paciente e expressão céptica. Tom aguardou em ansioso silêncio. Tinha que causar boa impressão; ser cortês, mas não servil, e demonstrar conhecimento sem ser presunçoso. Um mestre artesão deseja que os aprendizes sejam tão obedientes quanto talentosos.

Tom sabia disso por sua própria experiência como empregador. O bispo Roger estava esboçando um prédio de dois andares com grandes janelas dos três lados. Era um bom desenhista, fazendo linhas rectas e perfeitos ângulos de noventa graus. Fez uma planta e uma vista lateral da casa. Tom pôde ver que jamais seria construída. Aí está, disse o bispo ao acabar. O que é?, perguntou John, virando-se para Tom. Fingindo pensar que ele tivesse pedido sua opinião do desenho, disse: Não se pode ter janelas tão grandes assim numa cripta. O bispo fitou-o irritado. É uma sala de estudos, não uma cripta. Cairá do mesmo modo. Ele tem razão, disse John. Mas é necessário ter luz para poder escrever. John deu de ombros e virou-se para Tom. Quem é você? Meu nome é Tom e sou pedreiro. Foi o que pensei. O que o traz aqui? Estou procurando trabalho, respondeu, prendendo a respiração. John sacudiu a cabeça imediatamente. Não posso empregar você. O coração de Tom pareceu parar. Teve vontade de girar nos calcanhares, mas aguardou polidamente para ouvir as razões. Já estamos construindo aqui há dez anos, prosseguiu John. Muitos dos pedreiros já possuem casas na cidade. Estamos chegando ao fim, e agora tenho mais pedreiros na obra do que preciso na realidade». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

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sábado, 2 de dezembro de 2023

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «Havia um andaime no lado leste, com uns oito ou nove metros de altura. Os pedreiros estavam na varanda, esperando que a chuva amainasse, mas os seus serventes subiam e desciam as escadas com pedras nos ombros»

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«A cidade era barulhenta, também. A chuva pouco fazia para amortecer o clamor das oficinas de artesãos, dos vendedores ambulantes apregoando suas mercadorias, das pessoas se cumprimentando, barganhando e discutindo, de animais relinchando, latindo e brigando. Que fedor é esse? - perguntou Martha, erguendo a voz acima do barulho. Tom sorriu. Fazia uns dois anos que ela não entrava numa cidade. É o cheiro de gente, respondeu. A rua era apenas um pouco mais larga do que o carro de boi, mas o carroceiro não quis deixar que os animais parassem, com medo de que não voltassem a andar novamente; assim, continuou batendo neles, ignorando todos  os obstáculos, e os bois prosseguiram forçando o caminho por entre a multidão, empurrando para o lado, indiscriminadamente, tanto um cavaleiro montado num cavalo de batalha quanto um morador da floresta com um arco, um monge gordo num pónei, homens de armas, mendigos, donas de casa ou prostitutas.

O carro de boi veio a ficar atrás de um velho pastor que lutava para manter reunido um pequeno rebanho. Devia ser dia de mercado, pensou Tom. Quando o carro passou, uma das ovelhas entrou pela porta aberta de uma venda de cerveja, e num segundo todo o rebanho estava dentro da casa, em pânico, balindo e derrubando mesas, bancos e jarras de cerveja. O chão que pisavam era um mar de lama e de lixo. Tom tinha a capacidade de observar, num relance, a queda da água da chuva num telhado, e a largura da calha necessária para fazer o escoamento; podia ver que toda a chuva que caía sobre os telhados daquela parte da cidade era drenada pela rua onde estavam. Num temporal forte mesmo, pensou, seria preciso um barco para atravessá-la.

À medida que se aproximavam do castelo na parte mais alta da colina, a rua se alargava. Ali havia casas de pedra, uma ou duas precisando de alguns reparos. Pertenciam a artesãos e comerciantes, que tinham suas lojas e oficinas no térreo e moravam no andar de cima. Examinando com o olhar de quem tinha prática aquilo que estava à venda, Tom podia afirmar que aquela era uma cidade próspera. Todos precisam de ter facas e panelas, mas só gente próspera compra xailes bordados, cintos decorados e broches de prata. Em frente ao castelo o carroceiro fez a parelha de bois virar à direita, e Tom e sua família o seguiram. A rua fazia uma curva de um quarto de círculo, rodeando as defesas do castelo. Passando por outro portão, deixaram o tumulto da cidade tão rapidamente quanto tinham entrado nele e ingressaram num tipo diferente de turbilhão: a diversidade agitada mas ordenada de uma área onde se erguia uma grande construção.

Estavam agora do lado de dentro do adro murado da catedral, que ocupava toda a quarta parte da cidade circular, a noroeste. Tom parou por um momento, observando. Só de ver, ouvir e cheirar aquilo ele se sentia emocionado como num dia de sol. Quando chegaram, à rectaguarda do carro de boi, dois outros saíam, vazios. Em oficinas que se estendiam ao longo das paredes laterais da igreja, pedreiros podiam ser vistos esculpindo os blocos de pedra com seus cinzéis e grandes martelos de madeira, dando-lhes as formas que juntas resultariam em plintos, colunas, capitéis, fustes, arcobotantes, arcos, janelas, peitoris, pináculos e parapeitos. No meio do adro, bem longe das outras edificações, ficava a ferraria, cujo clarão do fogo era visível através do portal; o barulho metálico do martelo batendo na bigorna se espalhava pelo adro, enquanto o ferreiro fazia novas ferramentas para substituir as que os pedreiros iam gastando. Para a maioria das pessoas era uma cena de caos, mas Tom via um imenso e complexo mecanismo que ele ansiava por controlar. Sabia o que cada homem estava fazendo e podia ver instantaneamente até que ponto o trabalho tinha progredido. Estavam construindo a fachada leste.

Havia um andaime no lado leste, com uns oito ou nove metros de altura. Os pedreiros estavam na varanda, esperando que a chuva amainasse, mas os seus serventes subiam e desciam as escadas com pedras nos ombros. Mais acima, no vigamento da estrutura do telhado, estavam os encanadores, como aranhas rastejando numa gigantesca teia de madeira, prendendo folhas de chumbo nos pontos de junção das escoras e instalando os canos de escoamento e as calhas. Tom percebeu que a construção, lamentavelmente, estava quase terminada. Se fosse contratado, o trabalho que restava ali não duraria mais que dois anos, não era tempo bastante para ascender à posição de mestre pedreiro, quanto mais de mestre construtor. Mesmo assim, aceitaria o emprego, pois o inverno estava chegando. Ele e a família poderiam sobreviver sem trabalho, caso ainda tivessem o porco. Mas sem ele, Tom precisava arranjar serviço». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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Os Pilares da Terra. Ken Follett.«Pedreiro? Sim. Procurando trabalho. Pode ser que consiga, disse o carroceiro, com neutralidade. Se não for na catedral, talvez no castelo. E quem governa o castelo? O mesmo Roger é bispo e castelão»

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«Salisbury ficava mais perto do que Tom pensara. Por volta da metade da manhã, subiram uma elevação e encontraram do outro lado uma estrada que descia suavemente à frente deles, numa longa curva; e depois dos campos banhados pela chuva, erguendo-se sobre a planície como um barco num lago, viram a cidade fortificada de Salisbury, erigida sobre uma colina. Seus detalhes estavam velados pela chuva, mas Tom pôde distinguir diversas torres, quatro ou cinco, elevando-se bem acima dos muros da cidade. Seu ânimo revigorou-se à vista de tanto trabalho de pedra.

Um vento frio castigava a planície, congelando-lhes o rosto e as mãos, enquanto seguiam a estrada que se dirigia ao portão leste. Quatro estradas se encontravam ao sopé da colina, em meio a algumas casas dispersas, que davam a impressão de terem extravasado da cidade, e foi ali que a eles se juntaram outros viajantes, caminhando com os ombros encolhidos e a cabeça baixa, projectando-se por entre o temporal para o abrigo das muralhas.

Na rampa que dava no portão encontraram um carro de boi com um carregamento de pedra, um sinal muito promissor para Tom. O carroceiro estava inclinado atrás do carro de madeira crua, empurrando com o ombro, acrescentando a própria força à da parelha de bois que subiam a rampa com muita dificuldade. Tom viu uma chance de fazer um amigo. Convidou Alfred com um aceno e os dois puseram os ombros na parte de trás do carro. As imensas rodas de madeira passaram com estrondo por uma ponte de vigas sobre um enorme fosso seco. Era impressionante aquele movimento de terra: a escavação da vala e o transporte da terra para construir a muralha deviam ter consumido centenas de homens, pensou Tom; era um trabalho muito maior que cavar os alicerces de uma catedral. A ponte sobre a vala tremeu e rangeu sob o peso do carro de boi e dos dois vigorosos animais que o puxavam. A rampa acabou, e o carro deslocou-se com mais facilidade pelo caminho plano, quando se aproximaram do portão. O carroceiro endireitou-se, da mesma forma que Tom e Alfred.

Fico-lhe muito agradecido, disse o carroceiro. Para que é a pedra?, perguntou Tom. Para a nova catedral. Nova? Ouvi dizer que estavam apenas aumentando a antiga. O carroceiro assentiu com a cabeça. É o que diziam, dez anos atrás. Mas agora tem mais coisas novas do que velhas. Mais notícias boas. Quem é o mestre construtor? John de Shaftesbury, embora o bispo Roger tenha muito a ver com o projecto. Aquilo era normal. Raramente os bispos deixavam os construtores fazer o trabalho sozinhos. Um dos problemas dos mestres construtores era frequentemente acalmar a imaginação febril dos clérigos e impor limites práticos às suas fantasias. Mas seria John de Shaftesbury quem contrataria os homens. O carroceiro acenou com a cabeça na direcção do saco de ferramentas de Tom. Pedreiro? Sim. Procurando trabalho. Pode ser que consiga, disse o carroceiro, com neutralidade. Se não for na catedral, talvez no castelo. E quem governa o castelo? O mesmo Roger é bispo e castelão.

Claro, pensou Tom. Tinha ouvido falar do poderoso Roger de Salisbury, íntimo do rei durante muito tempo. Eles atravessaram o portal e entraram na cidade. O lugar estava tão atulhado de construções, pessoas e animais que parecia em perigo de explodir e derrubar sua muralha circular, caindo dentro da vala. As casas de madeira erguiam-se uma do lado da outra, tão apertadas quanto espectadores de um enforcamento lutando por espaço. Cada pedaço de terra, por minúsculo que fosse, era utilizado para alguma coisa. Onde duas casas tinham sido construídas com uma passagem entre elas, alguém erguera uma habitação de meio tamanho, sem janelas porque a porta tomava quase toda a frente. Onde quer que o terreno fosse pequeno, até mesmo para a mais estreita das casas, havia uma banca para vender cerveja, pão ou maçãs; e se não houvesse espaço nem mesmo para isso, se ergueria um estábulo, uma pocilga, uma esterqueira ou um barril de água». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5

Cortesia de EPresença/JDACT

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sábado, 22 de janeiro de 2022

Os Pilares da Terra. Ken Follett. «… Tom olhou para trás. Ellen ainda os observava, de pé na estrada, pernas abertas, protegendo os olhos do sol com uma das mãos; o garoto esquisito estava ao seu lado»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ellen ultimamente começara a perceber isso, confessou ela, adivinhando os pensamentos de Tom. Jack nunca tivera a companhia de outras crianças, ou, na verdade, de outros seres humanos, excepto a mãe, e o resultado era que estava crescendo como um animal selvagem. Apesar de tudo o que aprendera, não sabia lidar com as pessoas. Era por isso que estava ali em silêncio, que encarava fixamente os outros e apanhava o que queria. Ao dizer isso, ela pareceu vulnerável pela primeira vez. Desapareceu seu ar de inexpugnável auto-suficiência, e Tom a viu como uma mulher preocupada e mesmo desesperada. Pelo bem de Jack, ela precisava retornar à sociedade, mas como? Se fosse homem, poderia ter conseguido convencer algum lorde a lhe dar uma fazenda, sobretudo se mentisse de modo convincente e dissesse que estava voltando de uma peregrinação a Jerusalém ou a Santiago de Compostela. Havia algumas mulheres trabalhando na lavoura, mas invariavelmente eram viúvas com filhos crescidos. Nenhum lorde daria uma fazenda a uma mulher com um filho pequeno. Ninguém iria querer empregá-la para fazer qualquer tipo de trabalho, na cidade ou no campo; além disso, não tinha onde morar, e o trabalho não qualificado raramente era acompanhado por oferta de moradia. Ellen não tinha identidade. Tom sentiu por ela. Dera à criança tudo o que podia, e não era o bastante. Mas ele era incapaz de ver uma saída para o seu dilema. Por mais bonita, determinada e formidável que fosse, estava destinada a passar o resto dos dias escondida na floresta com o seu filho esquisito.

Agnes, Martha e Alfred voltaram. Tom olhou ansiosamente para a filha, mas pelo seu jeito a pior coisa que lhe acontecera fora ter o rosto esfregado. Durante algum tempo, o construtor ficara absorto nos problemas de Ellen, mas agora se lembrou da sua situação difícil: estava sem trabalho e seu porco havia sido roubado. A tarde estava acabando. Começou a recolher as coisas que lhe tinham restado. Aonde estão indo?, perguntou Ellen. Winchester, disse Tom. Ali havia um castelo, um palácio, diversos mosteiros e, principalmente, uma catedral. Salisbury é mais perto, disse Ellen. E da última vez em que estive lá a estavam reconstruindo..., ampliando-a. O coração de Tom deu um pulo. Era aquilo que estava procurando. Se ao menos pudesse arranjar um trabalho num projecto em andamento, acreditava que um dia conseguiria se tornar mestre construtor. Como se vai para Salisbury?, perguntou ele ansiosamente. No caminho que vieram, uns cinco quilómetros ou pouco mais. Lembra-se de uma encruzilhada onde pegou a trilha da esquerda? Sim, perto de um lago de água suja. Isso mesmo. A trilha da direita leva a Salisbury. Eles se despediram. Agnes não gostara de Ellen, mas mesmo assim conseguiu dizer graciosamente: Muito obrigada por ter ajudado a tomar conta de Martha. Ellen sorriu e pareceu ficar melancólica quando eles partiram. Quando já haviam caminhado alguns minutos, Tom olhou para trás. Ellen ainda os observava, de pé na estrada, pernas abertas, protegendo os olhos do sol com uma das mãos; o garoto esquisito estava ao seu lado. Tom acenou, e ela respondeu com outro aceno. Uma mulher interessante, comentou ele com a esposa. Agnes nada disse.

Aquele menino era estranho, disse Alfred. Caminhavam no sol outonal de fim de tarde. Tom gostaria de saber como era Salisbury; nunca estivera ali. Sentiu-se excitado. Claro que seu sonho era construir uma catedral desde os alicerces, mas isso quase nunca acontecia: era muito mais comum encontrar uma velha edificação sendo melhorada, ampliada ou parcialmente reconstruída. Mas isso já seria bastante bom para ele, desde que lhe oferecesse a chance de ajudá-lo a um dia realizar seu objectivo. Porque aquele homem bateu em mim?, quis saber Martha. Porque queria roubar o nosso porco, respondeu Agnes. Devia ter um porco dele, disse Martha indignada, como se só agora percebesse que o fora-da-lei tinha feito algo errado. O problema de Ellen estaria resolvido se ela tivesse uma profissão, pensou Tom. Um pedreiro, carpinteiro, tecelão ou curtidor não estaria na sua posição. Sempre poderia ir para a cidade e procurar trabalho. Havia poucas artífices. Ela precisa é de um marido, disse Tom em voz alta. Mas não vai ficar com o meu, disse Agnes rispidamente.

O dia em que perderam o porco foi também o último dia de temperatura amena. Passaram aquela noite num celeiro, e quando saíram pela manhã, o céu estava da cor de um tecto de chumbo, e o vento frio trazia lufadas de chuva. Desembrulharam o manto de tecido espesso, feltrado, e o vestiram, apertando-o com força sob o queixo e puxando o capuz bem para frente a fim de proteger o rosto da chuva. Puseram-se a caminho melancolicamente, quatro fantasmas taciturnos metidos no temporal, os tamancos de madeira espadanando água e lama ao longo da estrada cheia de poças. Tom gostaria de saber como seria a Catedral de Salisbury. Em princípio, uma catedral era uma igreja como outra qualquer, simplesmente a igreja onde o bispo tem o seu trono. Na prática, porém, as catedrais eram as igrejas maiores, mais ricas, mais grandiosas e elaboradas. Raramente um simples túnel com janelas. A maioria se compunha de três túneis, um alto flanqueado por dois menores, como cabeça e ombros, formando uma nave central com duas laterais. As paredes do lado do túnel central eram reduzidas a duas linhas de colunas ligadas por arcos, constituindo uma arcada. As duas naves menores eram usadas para procissões, que podiam ser espectaculares nas catedrais, e proporcionavam espaço para pequenas capelas dedicadas a santos da devoção particular dos crentes, o que atraía importantes doações extras. As catedrais eram os edifícios mais caros do mundo, muito mais do que palácios ou castelos, e tinham que ganhar o dinheiro que custavam». In Ken Follett, Os Pilares da Terra, 1989, Editorial Presença, 2007, ISBN 978-972-233-788-5.

Cortesia de EPresença/JDACT

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sábado, 13 de novembro de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «Àquela altura, Paris devia ter suas próprias medidas padronizadas, que ficavam à mostra na região do cais, junto à margem direita do Sena. Paris já era uma cidade comercial, provavelmente a maior da Europa…»

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2019

«(…) Supõe-se que tenha havido longos debates entre o bispo Maurício e seu mestre de obras, nos quais o bispo explicava seu desejo, uma igreja moderna e bem iluminada, e o mestre buscava formas de concretizar esse sonho. Mesmo assim, ambos estavam cientes de que, ao longo dos anos, à medida que a obra avançasse, o projecto seria modificado pelo surgimento de novas ideias e pela participação de novas pessoas. A altura projectada para a construção pode ter sido um tema importante dessas reuniões. Segundo o historiador Jean Gimpel, no livro Les Bâtisseurs de cathédrales (Os construtores de catedrais), toda a cidade queria que a sua fosse a igreja mais alta:

A jovem sociedade medieval representada pela burguesia, no seu entusiasmo, foi tomada pela moda do recorde mundial e fez as naves descolarem em direção aos céus.

A nave da Notre-Dame foi projectada com 33 metros de altura, a mais alta do mundo (embora não por muito tempo: seria ultrapassada pela de Chartres alguns anos depois). Enquanto isso, a antiga catedral vinha abaixo. Mas os materiais não foram descartados. As pedras em melhor condição foram empilhadas para formar as fundações da nova igreja. Até mesmo os escombros foram aproveitados, porque a parede de uma catedral medieval é uma sanduíche de duas camadas de pedra lapidada, com um recheio de entulho. Foi preciso encomendar mais pedra. Não o famoso calcaire lutécien de tom cinza-creme usado no Louvre, no Hotel des Invalides, nas casas dos milionários da indústria cinematográfica em Hollywood e nas lojas Giorgio Armani ao redor do mundo. Ele só seria descoberto no século XVII e vem de pedreiras situadas 40 quilómetros ao norte de Paris, em Oise. Na Idade Média, o custo do transporte de pedras podia ser proibitivo. Na Notre-Dame foi utilizado calcário de diversas pedreiras mais próximas, não muito além dos limites da cidade. O mestre organizava as pedras de acordo com suas características: as mais duras eram usadas para os suportes estruturais, que precisavam sustentar um peso enorme; as macias, que podiam ser esculpidas com mais facilidade, eram reservadas para os detalhes decorativos, que não suportavam carga. Uma vez finalizado o projecto, os operários precisavam de um sistema de medidas afinado. Uma jarda, uma libra e um galão não tinham os mesmos valores em todos os lugares. Cada canteiro de obras tinha a sua própria régua, uma barra de ferro que determinava para todos os operários a medida exacta de uma determinada unidade.

Àquela altura, Paris devia ter suas próprias medidas padronizadas, que ficavam à mostra na região do cais, junto à margem direita do Sena. Paris já era uma cidade comercial, provavelmente a maior da Europa, e era essencial que uma jarda de tecido, uma libra de prata ou um galão de vinho representassem a mesma medida em todas as lojas da cidade, para que os clientes soubessem o que estavam comprando. (Sem dúvida também havia comerciantes que se queixavam do excesso de regulamentação governamental!) Portanto, é provável que o mestre de obras da Notre-Dame tenha estabelecido sua régua de acordo com as medidas utilizadas pelos comerciantes parisienses. Com um projecto desenhado no piso e uma régua na mão, o mestre de obras traçou as linhas da catedral no chão onde ficava a antiga igreja e a construção pôde ter início. De repente, Paris precisava de mais artesãos e operários, principalmente pedreiros, carpinteiros e fabricantes de argamassa. Havia alguns na cidade, mas não eram suficientes para aquele ambicioso novo projecto. No entanto, os trabalhadores que actuavam na construção de catedrais eram nómadas, viajando de cidade em cidade por toda a Europa em busca de trabalho e, dessa forma, propagando inovações técnicas e estéticas». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

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sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «A Igreja construía catedrais. O bispo Maurício tinha recursos para executar seu projecto, ou, pelo menos, para dar início a ele. Ele contratou um mestre de obras, alguém cujo nome não sabemos…»

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2019

«(…) Tudo isso parece muito simples, mas na verdade é assombroso. A Catedral de Notre-Dame de Paris, assim como a maioria das grandes igrejas góticas que se mantêm como as mais belas construções de inúmeras cidades europeias, foi erguida na Idade Média, uma época marcada por violência, fome e peste. A construção de uma catedral era uma empreitada gigantesca, que se estendia por décadas. A Catedral de Chartres levou 26 anos para ser erguida, e a de Salisbury, 38 anos, mas ambos os projectos foram extraordinariamente rápidos. A Notre-Dame de Paris levou quase cem anos, e melhorias continuaram sendo feitas depois disso. Foram necessárias centenas de trabalhadores, e custou uma fortuna. Seria um feito equivalente, em tempos actuais, à viagem do homem à Lua.

Aquela enorme igreja foi erigida por pessoas que viviam em cabanas de madeira com telhado de palha, pessoas que dormiam no chão porque apenas os ricos tinham camas. As torres têm quase 70 metros de altura, mas os mestres de obras não dispunham de fórmulas matemáticas para calcular a tensão nesse tipo de estrutura. Eles se guiavam por tentativa e erro, que de facto eram cometidos. Às vezes, o trabalho desmoronava: a Catedral de Beauvais veio abaixo duas vezes. Hoje em dia podemos ir até uma loja de ferragens e comprar um martelo perfeitamente funcional, com uma cabeça de aço, por um preço muito baixo, mas as ferramentas dos operários que construíram essas catedrais eram rústicas e o aço custava tão caro que era usado com bastante moderação, em geral apenas na ponta de uma lâmina. A Notre-Dame e todas as catedrais são ricamente ornamentadas, mas os trabalhadores usavam túnicas simples costuradas em casa. A catedral possuía travessas, cálices, crucifixos e castiçais de ouro e prata, enquanto a congregação bebia em xícaras de madeira e usava pedaços secos de junco como velas.

Como isso foi possível? Como uma beleza tão majestosa emergiu em meio à brutalidade e à imundície da Idade Média? A primeira parte da resposta é algo quase sempre deixado de fora de qualquer narrativa sobre as catedrais: o clima. O período compreendido aproximadamente entre os anos 950 e 1250 é chamado pelos climatologistas de Anomalia Climática Medieval. Ao longo de trezentos anos, o clima na região do Atlântico Norte foi melhor que o normal. As evidências vêm de anéis de troncos de árvores, núcleos de gelo e depósitos de lagos, que nos fornecem informações sobre mudanças climáticas de longo prazo no passado. Ocasionalmente havia anos de colheitas ruins e fome, mas em média a temperatura era mais alta. O tempo quente era sinónimo de safras abundantes e de pessoas mais ricas. Foi dessa forma que a Europa escapou da longa depressão conhecida como a Idade das Trevas.

Todas as  vezes que seres humanos conseguem produzir mais do que precisam para sobreviver, aparece alguém para se apossar do excedente. Na Europa medieval, havia dois grupos que faziam isso: a aristocracia e a Igreja. Os nobres lutavam nas guerras e, entre uma batalha e outra, praticavam a caça para exercitar suas habilidades de montaria e conservar o espírito sanguinário. A Igreja construía catedrais. O bispo Maurício tinha recursos para executar seu projecto, ou, pelo menos, para dar início a ele. Ele contratou um mestre de obras, alguém cujo nome não sabemos, que elaborou um projecto. Mas o projecto não foi desenhado em papel. A arte de fabricar papel era novidade na Europa do século XII, e o produto era um luxo custoso. Livros como a Bíblia eram escritos em pergaminho, um couro bem fino, e também caro. Os pedreiros desenhavam seus projectos no piso. Eles espalhavam argamassa no chão e esperavam até que endurecesse. Em seguida, traçavam o esboço usando um instrumento pontiagudo de ferro, como um prego. As linhas traçadas eram brancas a princípio, mas desapareciam conforme o tempo passava, o que permitia que novos projectos fossem desenhados sobre os antigos. Alguns desses projectos desenhados no piso sobreviveram até os dias de hoje, e eu tive a oportunidade de estudar os das catedrais de York e de Wells». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

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terça-feira, 21 de setembro de 2021

Notre Dame. Ken Follett. «A Catedral de Notre-Dame era pequena demais em 1163. A população de Paris estava em crescimento. Na margem direita do rio, o comércio crescia a níveis desconhecidos no resto da Europa medieval…»

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2019

«(…) Eu temia que o sol se levantasse sobre uma pilha fumegante de escombros na Île de la Cité, onde a Notre-Dame se erguia repleta de orgulho. Fiquei extremamente emocionado ao ver que a maior parte das paredes ainda estava de pé, assim como o magnífico par de torres quadradas da fachada ocidental. Não havia sido tão ruim quanto o mundo temia, e eu me dirigi ao estúdio de televisão com uma mensagem de esperança. Passei a terça-feira toda dando entrevistas e, na quarta, viajei para Paris a fim de participar de um debate no programa de TV La Grande Librairie sobre o simbolismo das catedrais na literatura e na vida. Para mim, não fazia nenhum sentido ficar em casa. Eu admirava demais a Notre-Dame. Não sou religioso, mas frequento a igreja mesmo assim. Amo a arquitectura, a música, os ensinamentos da Bíblia e a sensação de compartilhar algo profundo com outras pessoas. Já há muito tempo encontro uma enorme paz espiritual nas grandes catedrais, assim como outros milhões de pessoas, sejam crentes ou não. E tenho outro motivo para ser grato às catedrais: meu amor por elas inspirou o romance que é sem dúvida o meu livro mais popular, e talvez o melhor deles.

O presidente Macron disse que a Notre-Dame seria reconstruída em cinco anos. Um jornal francês respondeu com a manchete Macron acredita em milagres. Mas a ligação dos franceses com a catedral é muito intensa. Ela foi palco de alguns dos principais eventos da história francesa. Toda a informação de estrada que diz a que distância se encontra de Paris informa a distância até o Ponto Zero, uma estrela de bronze incrustada no pavimento em frente à Notre-Dame. O grande sino chamado Emmanuel, na torre sul, pode ser ouvido por toda a cidade quando toca o seu profundo fá para anunciar alegria ou tristeza, o fim de uma guerra ou uma tragédia como o 11 de Setembro. Além disso, não é sábio subestimar os franceses. Se existe alguém capaz de empreender essa tarefa, são eles. Antes que eu fosse embora de Paris, minha editora francesa me perguntou se eu cogitava escrever algo inédito sobre o meu amor pela Notre-Dame, à luz do terrível acontecimento de 15 de Abril. Os lucros do livro iriam para o fundo de reconstrução, assim como meus direitos autorais. Sim, respondi. Começo amanhã. Isto é o que escrevi.

1163

A Catedral de Notre-Dame era pequena demais em 1163. A população de Paris estava em crescimento. Na margem direita do rio, o comércio crescia a níveis desconhecidos no resto da Europa medieval, e, na margem esquerda, a universidade atraía estudantes de diversos países. Entre as duas, numa ilha no Sena, ficava a catedral, e o bispo Maurício Sully achava que ela deveria ser maior. E havia algo mais. A construção existente seguia o chamado estilo românico, de arcos redondos, mas havia um novo movimento arquitectónico bastante interessante que usava arcos pontiagudos, permitindo maior entrada de luz, compondo o visual que hoje conhecemos como gótico. Esse estilo tinha sido inaugurado a apenas 10 quilómetros de distância da Notre-Dame, na abadia de Saint-Denis, onde eram sepultados os reis franceses, que combinara de forma brilhante dezenas de inovações técnicas e visuais: além do arco pontiagudo, as colunas eram formadas por um aglomerado de pilastras, das quais brotavam nervuras que seguiam até ao alto tecto abobadado, agora mais leve; uma passarela semicircular na fachada oriental, para fazer com que os peregrinos passassem diante das relíquias de Saint-Denis; e, do lado de fora, graciosos arcobotantes que permitiam a existência de janelas maiores e faziam com que a enorme igreja parecesse prestes a decolar. Maurício devia ter visto a nova igreja de Saint-Denis e se apaixonado por ela. Sem dúvida, ela fazia a Notre-Dame parecer antiquada. Talvez ele estivesse com um pouco de inveja do abade Suger, de Saint-Denis, que havia encorajado sucessivamente dois mestres de obras a fazer experimentações ousadas, com resultados incrivelmente bem-sucedidos. Assim, Maurício ordenou que sua catedral fosse demolida e substituída por uma igreja gótica. Permita-me fazer uma pausa». In Ken Follett, Notre Dame, 2019, Editorial Presença, 2019, ISBN 978-972-236-453-9.

Cortesia de EPresença/JDACT

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terça-feira, 22 de junho de 2021

O Estilete Assassino. Ken Follett. «Havia indícios, sim; mas havia o lado divertido também. Os programas de rádio satirizavam as medidas contidas nos regulamentos de guerra…»


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«No início de 1944, a espionagem alemã estava reunindo provas da existência de uma numerosa unidade armada na região do sueste da Inglaterra. Aviões de reconhecimento conseguiram fotografias de barracas e campos de pouso, além de concentração de navios ao largo da costa; o general S. Patton fora visto, com sua inconfundível calça de montaria avermelhada, andando com seu bulldog branco; havia sinais de transmissões entrecortando o ar, mensagens entre regimentos da área, espiões alemães, agindo na Inglaterra, confirmaram tudo. Apenas, não havia unidade alguma. Os navios eram imitações feitas de borracha e madeira, as barracas não eram mais reais que um cenário de cinema; Patton não tinha um só homem sob seu comando; os sinais de rádio careciam de qualquer significado; os espiões eram agentes duplos. O objectivo era iludir o inimigo para que ele se preparasse para uma invasão pelo Passo de Calais, afim de que, no Dia-D, o assalto à Normandia tivesse a vantagem da surpresa. Era um plano enorme, quase impossível. Centenas de pessoas estavam envolvidas na realização da farsa. Teria sido um milagre se nenhum espião de Hitler jamais tivesse conhecimento disso. Havia espiões? Naquele momento pensava-se que eles estivessem cercados pela que então era chamada a Quinta Coluna. Depois da guerra, surgiu uma versão de que um grande número deles havia sido capturado no Natal de 1939. A verdade parece ser que havia muito poucos, e quase todos eles foram capturados. Sabemos que os alemães viram os indícios que deveriam ver em East Anglia. Sabemos também que eles suspeitaram de que fosse uma farsa. E sabemos que eles lutaram bastante para descobrir a verdade. Tudo isso é História. Não descobri nada que já não estivesse nos livros de História. O que se segue é ficção. Apesar de tudo, acho que alguma coisa parecida pode ter acontecido.

Aquele foi o Inverno mais frio dos últimos quarenta e cinco anos. As aldeias no interior da Inglaterra estavam isoladas pela neve, e o rio Tamisa congelou. Certo dia, em Janeiro, o comboio de Glasgow para Londres chegou em Euston com um atraso de vinte e quatro horas. Dirigir era perigoso devido à neve e ao blackout: os acidentes nas estradas duplicaram e as pessoas faziam piada, dizendo que era mais arriscado dirigir um Austin Seven pela Piccadilly, à noite, do que manobrar um tanque na frente de Siegfried. Mas quando a Primavera chegou foi radiante. Os balões da barreira antiaérea flutuavam contra um céu maravilhosamente azul, e os soldados de folga namoravam com as moças, com seus vestidos vaporosos, pelas ruas de Londres.

A cidade não tinha o aspecto da capital de um país em guerra. Logicamente que havia alguns indícios e Henry Faber, fazendo de bicicleta o trajecto entre Waterloo Station e Highgate, observou-se bem: pilhas de sacos de areia diante dos edifícios públicos de maior importância, os abrigos nos parques suburbanos, posters de propaganda sobre evacuação e Precauções sobre Ataques Aéreos. Faber observava tudo isso, ele era bem mais observador que a média dos escriturários da estrada de ferro. Ele notou grupos de crianças nos parques e concluiu que a evacuação tinha falhado. Contava os carros em circulação apesar do racionamento de petróleo e lia sobre os novos modelos anunciados pelos fabricantes de automóveis. Sabia o significado da existência de operários no turno da noite, derretendo-se em fábricas que, alguns meses antes, mal tinham trabalho para o turno do dia. Acima de tudo, ele controlava o movimento das tropas ao longo das  ferrovias britânicas: todos os despachos passavam pela sua mesa. Podia-se ficar sabendo muito através desses despachos. Hoje, por exemplo, ele havia carimbado uma porção de documentos que o levaram a crer que uma nova Força Expedicionária estava sendo convocada. Tinha certeza de que a nova Força teria um total de 100 mil homens e seria enviada à Finlândia.

Havia indícios, sim; mas havia o lado divertido também. Os programas de rádio satirizavam as medidas contidas nos regulamentos de guerra, grupos cantavam nos abrigos antiaéreos e damas elegantes carregavam as suas máscaras de gás em estojos especialmente desenhados por costureiros para esse fim. Falava-se da Guerra dos Esconderijos. Todos os avisos de ataque aéreo tinha sido falsos, sem excepão. E por isso passaram a ser uma coisa rotineira, como nos filmes. Faber tinha um ponto de vista diferente, mas ele mesmo era uma pessoa diferente.

Ele entrou em Archway Road e inclinou-se um pouco na bicicleta devido à subida, suas longas pernas pedalando sem demonstrar cansaço como os pistões de uma locomotiva. Estava em forma para a sua idade, 39 anos, embora mentisse sobre isso. Ele mentia sobre muitas coisas, como medida de segurança. Começou a transpirar, à medida que subia em direcção a Highgate. A casa em que morava era uma das mais altas de Londres. E justamente por isso ele escolhera aquele lugar. Era uma casa de tijolo, no estilo vitoriano, e fazia parte de um conjunto de seis casas. As casas eram altas, estreitas e escuras, como as mentes dos homens que as construíram. Cada uma delas tinha três pavimentos mais o porão com a entrada para os criados. A classe média inglesa do século dezanove insistia na entrada dos criados, mesmo se não houvesse criados. Faber era céptico em relação aos ingleses». In Ken Follett, O Estilete Assassino, 1978, Bertrand Editora, ISBN 978-972-252-514-5.

Cortesia de BertrandE/JDACT

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segunda-feira, 21 de junho de 2021

Ken Follett. O Crespúsculo e a Aurora. «… certo dia lhe perguntara: como sabe quando é a Páscoa?, e ele respondera: cai sempre no primeiro domingo depois da primeira lua cheia depois do dia 21 de Março…»


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Quinta-feira, 17 de Junho de 997

«Até mesmo na noite mais importante da sua vida era difícil passar a noite inteira acordado, constatou Edgar. Ele havia estendido sua capa sobre os juncos que cobriam o chão e estava deitado em cima dela, com a túnica de lã marrom que vestia dia e noite durante o verão na altura dos joelhos. No Inverno, ele se enrolava na capa e ia deitar-se perto do fogo. Mas agora fazia calor: faltava uma semana para o Solstício de Verão. Edgar sempre sabia as datas. A maioria das pessoas precisava perguntar aos padres, que tinham calendários. Erman, seu irmão mais velho, certo dia lhe perguntara: como sabe quando é a Páscoa?, e ele respondera: cai sempre no primeiro domingo depois da primeira lua cheia depois do dia 21 de Março, óbvio. Fora um erro acrescentar o óbvio, porque Erman acabou lhe dando um soco no estômago pelo sarcasmo. Isso acontecera muito tempo antes, quando Edgar ainda era pequeno. Agora ele era um homem feito. Faria 18 anos três dias depois do solstício. Os irmãos nem batiam mais nele. Balançou a cabeça. Pensamentos aleatórios o faziam cochilar. Para se manter acordado, tentou adoptar uma posição desconfortável deitando-se sobre os punhos fechados. Perguntou-se quanto tempo mais teria que esperar. Olhou ao seu redor, à luz do fogo. Sua casa se parecia com quase todas as outras da cidadezinha de Combe: paredes de tábuas de carvalho, telhado de sapê, chão de terra batida parcialmente coberto por juncos de um rio próximo. Não havia janelas. No meio do único cómodo havia um quadrado de pedras sobre o qual se acendia o fogo. Acima do fogo ficava um tripé em que se podia pendurar panelas, cuja sombra na parte interna do telhado parecia formar uma aranha. Espalhados por todas as paredes havia pregos de madeira para pendurar roupas, utensílios de cozinha e ferramentas usadas na construção de barcos.

Edgar não tinha a certeza de quantas horas da noite já haviam transcorrido, porque talvez tivesse cochilado, possivelmente mais de uma vez. Mais cedo, ficara escutando os ruídos da cidade se preparando para a noite: dois bêbados cantando uma música obscena, as amargas acusações de uma briga entre marido e mulher numa das casas vizinhas, uma porta batendo e um cão latindo, e uma mulher soluçando em algum lugar próximo. Agora tudo que havia era o acalanto suave das ondas numa praia protegida. Olhou para a porta à procura de luz que lhe desse alguma informação, mas tudo que viu foi escuridão. Isso significava ou que a lua tinha se posto, ou seja, que a noite estava bem avançada, ou que o céu estava nublado, o que não lhe informava nada. A família se espalhava pelo cómodo, dormindo perto das paredes, onde a quantidade de fumaça era menor. Pa e Ma estavam de costas um para o outro. Às vezes eles acordavam no meio da noite, se abraçavam e começavam a sussurrar e a se mover juntos até relaxarem outra vez, ofegantes. Agora, porém, estavam num sono profundo e Pa roncava. Erman, aos 20 anos o irmão mais velho, estava deitado ao lado de Edgar, e Eadbald, o irmão do meio, no canto. Edgar podia ouvir sua respiração regular e tranquila. Por fim, o sino da igreja badalou.

Do outro lado da cidade havia um mosteiro. Os monges tinham um jeito próprio de contar as horas à noite: fabricavam grandes velas graduadas que iam medindo o tempo conforme se consumiam. Uma hora antes do amanhecer, eles tocavam o sino e acordavam para entoar seu cântico de matinas. Edgar se demorou mais um pouco deitado. O sino podia ter incomodado Ma, que tinha o sono leve. Ele lhe deu tempo para voltar a seu sono profundo, então, por fim, levantou-se. Em silêncio, pegou sua capa, seus sapatos e seu cinto, onde prendia a adaga embainhada. Descalço, atravessou a casa se desviando da mobília: uma mesa, dois banquinhos e um banco mais comprido. A porta se abriu sem fazer barulho: ele engraxara as dobradiças de madeira na véspera com uma quantidade generosa de sebo de carneiro. Se alguém da família acordasse e falasse com ele, Edgar diria que estava saindo para urinar, torcendo para que ninguém reparasse que estava levando os sapatos. Eadbald grunhiu. Edgar gelou. Teria o irmão acordado ou apenas feito um barulho inconsciente? Não soube dizer. Mas Eadbald era o mais passivo, sempre disposto a evitar conflitos, como Pa. Não criaria problemas. Edgar saiu e fechou a porta atrás de si com cuidado.

A lua havia se posto, mas o céu estava claro e as estrelas iluminavam a praia. Entre a casa e a linha da maré alta ficava um estaleiro. Pa construía barcos, e os três filhos trabalhavam com ele. Como ele era um bom artesão mas um mau comerciante, quem tomava todas as decisões financeiras era Ma, principalmente quando se tratava de fazer o difícil cálculo de que preço cobrar por algo tão complexo quanto um barco ou navio. Se algum comprador tentava barganhar, Pa se mostrava disposto a ceder, mas Ma o obrigava a se manter firme. Edgar ficou olhando para o estaleiro enquanto amarrava o cadarço dos sapatos e afivelava o cinto. Havia apenas uma embarcação sendo construída, um barco pequeno para subir o rio a remo. Ao seu lado estava empilhado um valioso stock de madeira. Havia troncos partidos ao meio e em quartos, prontos para serem moldados nas diferentes partes de um barco. Mais ou menos uma vez por mês, a família inteira entrava na floresta e derrubava um carvalho maduro. Pa e Edgar brandiam alternadamente dois machados de cabo longo e começavam cortando um V preciso no tronco. Então descansavam, e Erman e Eadbald assumiam. Quando a árvore vinha ao chão, eles aparavam os galhos menores e faziam o tronco flutuar rio abaixo até Combe. Tinham que pagar, claro: a floresta estava sob os cuidados de Wigelm, o senhor feudal para quem a maioria da população da cidade pagava aluguer, e ele cobrava 12 pennies de prata por árvore». In Ken Follett, O Crespúsculo e a Aurora, 2020, Editora Arqueiro, 2020, ISBN 978-655-565-018-1.

Cortesia de EArqueiro/JDACT

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