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terça-feira, 18 de abril de 2023

A Herança de Rosa-Cruz. Jorge Durão. «… lombada da obra que transportava, na certeza que encerrava nas suas páginas todas as peças que ainda não conseguira encontrar para terminar o puzzle do tesouro deixado em Óbidos pelos rosacrucianos alemães»

jdact

Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) Enquanto a obra História de Óbidos jazia no armário do espaço anexo da sala de leitura do Arquivo Distrital, O Tesouro Perdido de Óbidos passeava nas ruas da cidade, dentro do saco do Historiador. Há-de estar nestas páginas aquilo que procuro... Que sempre procurei, aliás!. O Historiador perscruta um qualquer restaurante típico nas ruelas que percorria em direcção à zona ribeirinha. Detém-se a ver o cardápio numa travessa, num ponto onde via o brilho das águas do Douro e as cores das pequenas embarcações que as navegavam. Entra e senta-se numa das mesas singulares da sala. É cumprimentado e cumprimenta o empregado, pedindo-lhe no imediato uma dose de Lulas à Bulhão Pato e um jarro de vinho branco.

Enquanto trincava umas azeitonas e um pedaço de pão, pensava onde iria a seguir. Ao fim da tarde apanharia o comboio para Lisboa, e o tempo já não era muito. Já ouviu falar de Bernardo Faria? Comerciante de antiguidades?, pergunta Carlos Nóbrega ao empregado, enquanto este pousava a travessa na mesa.

Assim de repente... Não. Nunca ouvi falar. Mas pergunto já ao meu patrão. Pouco tempo após o Historiador ter atacado as lulas, o dono do restaurante aproxima-se da sua mesa. Boa tarde. Então as lulas? Deixam-se comer? Boa tarde, cumprimenta também o comensal, limpando a boca. Estão muito boas, obrigado. Então o senhor procura Bernardo Faria? Sim, sim. Tinha um encontro marcado com ele... Há vinte anos! Pois... Acredito que sim, porque o velho Bernardo Faria, comerciante de antiguidades, faz agora oito anos que se finou. Ah... Entendo..., exterioriza o Historiador com desalento. Era amigo dele?, pergunta o outro. Pode dizer-se que sim... Era. A família vive em Campanhã. Ele tinha lá casa, onde estão agora os filhos. Por acaso não sabe a morada, sabe?

Não, não. Isso não lhe consigo dizer. Mas lá, perto da estação do comboio, toda a gente lha saberá dizer. O senhor Bernardo era uma daquelas figuras icónicas de uma terra. O homem corria o país com a tralha às costas. Esteve aqui no meu restaurante algumas vezes, eu próprio lhe comprei várias coisas... Alguma vez lhe comprou livros?... Não, isso não. Não sou muito dado à leitura. Olhe, por exemplo aquela velha peneira que ali está, Carlos Nóbrega olha para o pedaço de parede para onde o homem apontava, da qual pendia um deteriorado exemplar desse objecto tão usado outrora pelos moleiros. Olhe, muito obrigado pela informação. Vou então terminar o meu almoço... Continuação de bom apetite, e volte sempre, diz o homem, retirando-se para o interior do grande balcão.

Quando a conta chega à mesa, são quase 15h00. Mesmo que não faça mais nada, que não vá a mais lugar algum, tenho que saber o que aconteceu ao negócio do homem. O Historiador deixa sobre a mesa 15€ para pagar os 13,75€ da refeição, despedindo-se do empregado e do patrão, reiterando os agradecimentos pela simpatia, agradecimentos retribuídos pelos dois homens.

Após ter caminhado ainda um bom bocado, apanhara um táxi assim que lhe fora possível, pedindo ao taxista que o levasse até à estação de S. Bento. O mal-humorado condutor deixara-o à porta do edifício e arrancara de forma abrupta mal o homem fechara a porta do carro. Ao chegar à plataforma da estação, uma composição do metro de superfície estava a entrar no túnel de saída do espaço, dali, no máximo, a dez minutos, uma outra composição o levaria na mesma direcção. Carlos Nóbrega senta-se num dos bancos junto a uma das linhas e abre um pouco do saco, vislumbrando cerca de dois terços da lombada da obra que transportava, na certeza que encerrava nas suas páginas todas as peças que ainda não conseguira encontrar para terminar o puzzle do tesouro deixado em Óbidos pelos rosacrucianos alemães». In Jorge Durão, A Herança de Rosa-Cruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

JDACT, Jorge Durão, Óbidos, Literatura,

quarta-feira, 15 de março de 2023

A Herança de Rosa-Cruz. Jorge Durão. «Foi para nós um prazer tê-lo cá, e volte sempre. Muito obrigado por tudo, foram muito amáveis. Boa tarde, então, o sorriso da mulher acabou com a sucessão de despedida…»

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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) O Historiador tinha sobre a mesa de leitura uma pilha de seis livros, tendo começado por folhear a obra que a funcionária lhe havia entregue em mãos: O Tesouro Perdido de Óbidos, de Pedro José Gonzaga Morgado. Tratava-se do mesmo autor de Lendas e factos de Óbidos, livro de 1797. Contudo, aquele livro do Arquivo Distrital do Porto era ainda mais antigo, uma publicação de 1760. Uma folha anexa ao exemplar, colocada entre a capa e a guia, informava que o autor era nativo da vila de Óbidos, tendo feito carreira em Lisboa como especialista em Literatura Medieval. O pequeno folheto informava também que ao autor eram atribuídas duas publicações: O Tesouro Perdido de Óbidos, Lisboa, 1760; e Lendas e factos de Óbidos, Lisboa, 1797. Uma nota no final do folheto informava também que era o exemplar do Arquivo Distrital do Porto o único reconhecido e existente no país, não havendo rasto de mais exemplares e da segunda publicação do autor. Carlos Nóbrega sentiu os pêlos eriçarem-se. Palácio Nacional de Mafra! Era lá que parava um exemplar da segunda publicação! E estive tão perto de o ter! Tenho que encontrar aquele homem... Se ainda for vivo, claro!. O Historiador não pôde deixar de se surpreender com a leviandade com que este país trata a cultura e quem a faz. Como é que um livro daqueles pode ter sido negligenciado de tal forma?! Como pôde ficar à mercê de qualquer um na embrulhada das obras do palácio?!. Segundo a pequena sinopse de cada obra, o que estava presente no folheto, o primeiro livro do autor consistia no tratamento de uma lenda da vila de forma ficcionada, a lenda dos três alemães, tendo por base a disseminação de toda a produção oral da época; enquanto a segunda obra, certamente escrita com outra maturidade, note-se que se o primeiro livro tivesse sido escrito no auge dos seus trinta anos, o segundo teria sido escrito por volta dos seus setenta, era o resultado de uma exaustiva recolha de dados e informações de múltiplas fontes. Portanto, Lendas e factos de Óbidos era uma crónica da urbe entre os anos 1500 e 1700, entre os quais está a passagem pela vila dos três guardiões do manifesto Rosacruciano, entre outros tesouros.

O Historiador olha para o relógio. Eram na altura 11h20. Tinha uma hora e quarenta minutos para passar em revista aqueles exemplares. Começou então pelo volume que já estava aberto sobre a mesa, olhando de forma geral para a sala e percebendo que mais ninguém havia chegado. A funcionária estava ocupada com o computador, fixando o olhar para baixo. Conforme os olhos do Historiador iam percorrendo as linhas e as páginas, as suas expressões faciais alternavam entre a compreensão e a dúvida, apontado umas sucintas notas no seu pequeno bloco de apontamentos. Passados uns vinte minutos abandona aquele exemplar, começando a passar, na diagonal, os olhos pelos outros volumes que havia retirado do armário. Quando Carlos Nóbrega estava completamente envolto na leitura de uma parte final do penúltimo livro, um toque no ombro fá-lo dar um salto na cadeira.

Peço imensa desculpa, Dr. Nóbrega. Vamos fechar as portas dentro de dez minutos..., informa a funcionária, com uma certa pena por ter que interromper a leitura do Historiador. Se pretender, ainda pode digitalizar o que quiser num máximo de dez páginas... Eu é que peço desculpa. Não vai ser necessário digitalizar nada, obrigado. Eu ajudo-a a arrumar as obras, disse-lhe ele, solícito. Não é necessário, obrigada, refere a funcionária. Não, não! Faço questão! A leitura, a boa leitura, diga-se, é algo que sempre me fez perder a noção do tempo! O espaço deste livro continua no armário à sua espera, arrumo-lhe este e trago-lhe já a chave... Então obrigada, Sr. Doutor, autorizou a mulher que ele levasse a obra de volta à sua estante e ao seu lugar, enquanto ela pegara nos outros seis volumes e os levara de novo para o armário 11. É preciso mais alguma coisa?, pergunta o homem.

Mais nada, Dr. Nóbrega. Foi para nós um prazer tê-lo cá, e volte sempre. Muito obrigado por tudo, foram muito amáveis. Boa tarde, então, o sorriso da mulher acabou com a sucessão de despedida e contra despedida. Enquanto o historiador se despedia do jovem homem da recepção, a funcionária dirige-se ao espaço anexo, olha para o interior do armário e vislumbra no mesmo sítio a mesma castanha lombada. Olha para a chave que o Historiador lhe entregara e coloca-a no bolso, dirigindo-se para a primeira recepção do edifício, onde o homem ainda falava com o recepcionista. Já agora, o nome Bernardo Faria diz-lhes alguma coisa? Os dois funcionários olham um para o outro, numa expressão que respondia por si que nunca tinham ouvido tal nome. Poesia? Prosa? Arte?..., questiona a mulher. História... História. Não... Nunca ouvimos falar, diz a funcionária pelos dois. Mais uma vez muito obrigado. Obrigado nós, Dr. Nóbrega. Não, não. Obrigado eu. Disso podem ter toda a certeza...» In Jorge Durão, A Herança de Rosa-Cruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

 Cortesia de JDurão/JDACT

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A Herança de Rosa-Cruz. Jorge Durão. «Carlos Nóbrega, antes de ir procurar no armário 11 os exemplares que lhe pudessem interessar, leva aquele livro para uma mesa onde a luz natural incidia com força, uma mesa longe do balcão…»

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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) O agastado homem começa a penetrar na grande sala de leitura, que estava praticamente deserta, o que o homem vira com bons olhos, pois, teria o sossego necessário para as pesquisas que pretendia levar a cabo.  Muito bom dia. Posso ajudá-lo?, pergunta com simpatia a mulher de meia-idade que se encontrava no controlo daquela sala. Bom dia. Carlos Nóbrega, Historiador e bibliotecário da Biblioteca Nacional, cumprimenta o homem, puxando dos galões não por vaidade, mas na certeza que tal lhe abriria o acesso às relíquias mais bem guardadas daquela sala. Joana Castro. Muito prazer, responde a mulher. Em que posso ajudá-lo, Dr. Nóbrega? Olhe, procuro documentos, crónicas, livros que falem sobre Óbidos na perspectiva histórica. Depois, além disso, gostaria de ver alguns documentos que falem sobre a sociedade Rosa Cruz, ou o Rosacrucianismo.

Muito bem. Esteja à vontade para procurar, a mulher retira duas chaves de dentro do balcão e pede a Carlos Nóbrega que a siga. Detêm-se num armário situado diametralmente oposto à entrada da sala e ao balcão onde a mulher assentava arraiais. A sala era rectangular e com as paredes forradas a altos armários, estando, de onde em onde, um escadote estacionado. O tecto era arcado, como o tecto das igrejas, e o branco e o azul das paredes conferiam àquele ambiente uma tranquilidade compatível com a leitura e estudo. A mulher abre um grande armário com o número 11 gravado numa pequena chapa. Doutor, toda esta secção é sobre a história de Óbidos, demonstra a mulher com o movimento da mão direita. Esteja à vontade para retirar os volumes que pretender. Depois basta colocá-los em cima da mesa mais próxima do armário para que os possa voltar a arrumar segundo as suas cotas... Muito obrigado, refere o homem. Ah, trago comigo um livro da Biblioteca Nacional, a viagem de comboio propicia a leitura, informa o Historiador, mostrando parte da castanha encadernação mas sem mostrar o título ou outros pormenores.

Sim senhor, esteja à vontade, que não será acusado de roubo, riem os dois. Relativamente à sociedade Rosa Cruz, informa a mulher, começando a caminhar na sala, dirigindo-se para um espaço anexo, temos aqui uma secção onde existe um volume que, sem falar na sociedade em si, fala da sua presença no nosso país. A funcionária abre a porta do velho armário e procura o exemplar. Detém-se num livro castanho, de capa dura e grossa lombada, que retira e entrega ao Historiador. E é tudo o que temos, Dr. Nóbrega, informa a mulher. Muito obrigado. Serve perfeitamente. Não sei se o meu colega já o informou sobre as digitalizações... Sim, sim. Dez, para e-mail ou fotocópias, antecipou-se ele. Exactamente. Vou deixá-lo então à vontade, Doutor. Qualquer coisa, não hesite em me chamar.  Obrigado. Até já, então.

Carlos Nóbrega, antes de ir procurar no armário 11 os exemplares que lhe pudessem interessar, leva aquele livro para uma mesa onde a luz natural incidia com força, uma mesa longe do balcão e daquela mulher, ficando deveras surpreendido com a data de publicação e o nome do autor que vislumbrara ao fundo da grossa lombada. Bem, isto está a correr melhor do que poderia pensar!». In Jorge Durão, A Herança de Rosa-Cruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

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terça-feira, 14 de março de 2023

A Herança de Rosa-Cruz. Jorge Durão. «Carlos Nóbrega já não andava de comboio há alguns anos. Encontrava-se no momento no interior do confortável Alfa Pendular…»

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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) Nessa sexta-feira da chegada dos livros, depois da entrega à secretária de todos os documentos necessários e decorrentes da função de bibliotecário, o Historiador despede-se da mulher e começa a descer de forma ligeira a escadaria do edifício com o volume que havia começado a ler no saco. Dirige-se a um supermercado, a fim de comprar umas coisas em falta em casa, e ruma à Rua Ferreira Borges, onde no n.º 38, no 1.º andar, se abria uma porta a várias felizes recordações, configuradas em dezenas de fotografias do casal, tiradas em felizes momentos pelos país e estrangeiro, e à infelicidade da realidade. O sexagenário aquece um prato pré-confeccionado no micro-ondas, come de forma ligeira na cozinha, coloca a louça suja no lava-louça, arruma as compras nos devidos armários e no frigorífico, pega no seu saco e dirige-se para o seu santuário, um escritório com papéis empilhados quase até ao tecto, com sobreposições de livros que faziam lembrar os edifícios das cidades americanas, e com mais fotografias espalhadas por tudo o que era canto, para as quais o velho estudioso olhava mais vezes do que devia.

Carlos Nóbrega já não andava de comboio há alguns anos. Encontrava-se no momento no interior do confortável Alfa Pendular, olhando as árvores, as casas e os postes a passarem a alta velocidade do lado de fora da janela. Iria passar o dia na cidade do Porto, tendo em mente a remota possibilidade de encontrar, encontrando-o em pessoa ou perguntando por ele a alguém, o mercador Bernardo Faria. Dormira durante grande parte do trajecto e acordara já nas imediações da cidade. O historiador abandona o comboio e camufla um espreguiçar na plataforma da estação. Pensara em fazer a viagem ainda estava a ler madrugada dentro, materializando que se queria acordar para apanhar cedo o comboio tinha que se ir deitar. Assim fora. Estava no momento na histórica cidade do Porto e estava por isso ansioso. Queria visitar algumas igrejas e locais de interesse histórico, falar com algumas pessoas... Procurar Bernardo Faria. O Historiador começa a caminhar, levando dentro do seu saco o pesado livro que estava a ler. Eram por volta das 10h30. Aos sábados o Arquivo Distrital do Porto fechava às 13h00, e Carlos Nóbrega ainda por lá queria ver umas coisas. À saída da estação de S. Bento, apanha um táxi e demanda a corrida para o Arquivo Distrital, na Rua das Taipas. Entra no edifício e dirige-se à recepção, onde um jovem homem o atende. Bom dia, cumprimenta o Historiador. Bom dia, responde o jovem. Em que posso ajudá-lo?, pergunta de solícita forma.

Chamo-me Carlos Nóbrega, Historiador e bibliotecário da Biblioteca Nacional. Acabo de chegar de Lisboa. Será possível consultar alguns livros ou documentos que falem da vila de Óbidos? Com certeza, Dr. Nóbrega. Tenho só que registar aqui os seus dados... Portanto, Carlos Nóbrega... ia o homem escrevendo numa folha de cálculo no computador, à medida que falava. Morada, Doutor? Rua Ferreira Borges, n.º 38, 1.º frente... É suficiente, o programa já tem aqui o código postal... Aqui é tudo, Doutor. Agora dirige-se lá dentro à minha colega, a qual o ajudará a encontrar o que pretende. Ah, tem direito a dez digitalizações, as quais pode enviar para um e-mail ou levar como fotocópias, informou o jovem recepcionista. Muito obrigado. Até já, então. Ah, trago comigo um livro, diz o homem, à medida que vai mostrando a castanha encadernação. Este é mesmo da Biblioteca Nacional, não fossem depois à saída pensar que havia levado daqui algum exemplar, o jovem homem esboçou um sorriso». In Jorge Durão, A Herança de Rosa-Cruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

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quinta-feira, 28 de abril de 2022

A Herança de Rosa-Cruz. Jorge Durão. «Chegou mesmo a deslocar-se propositadamente a Óbidos para perscrutar na biblioteca e em variados registos da vila pela obra e seu autor. Nada. Nem mesmo recorrendo à actual Internet conseguira…»

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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) Trancado naquela grande sala, com duas grandes janelas que davam para o jardim do Campo Grande, Carlos Nóbrega volta a ser assolado pelos fragmentos de memórias daquele dia, limpando com um lenço o suor da testa. Assim era há vários anos. De forma involuntária, de vez em quando dava por si a ver a sua mulher naquela agonia de moribunda, ouvindo com uma nitidez quase real o seu grito de pânico imediatamente antes do acidente que a vitimara. Via também os máximos do carro com o qual colidiram frontalmente, e uma lancinante culpa o trespassava como uma afiada e fria espada em todos esses momentos. Abanou a cabeça e afastou temporariamente essas vívidas lembranças. Alguns anos depois do acidente, ganhara coragem e voltara a ligar ao mercador Bernardo Faria, mas o número parecia estar desactivado. Após o necessário espaço temporal para um grande luto, o Historiador pesquisa sobre Lendas e factos de Óbidos, assim como sobre o autor da obra, Pedro José Gonzaga Morgado. Nada. Em todos os documentos e registos consultados, nunca vislumbrara qualquer alusão à obra e ao seu autor. Chegou mesmo a deslocar-se propositadamente a Óbidos para perscrutar na biblioteca e em variados registos da vila pela obra e seu autor. Nada. Nem mesmo recorrendo à actual Internet conseguira o que quer que fosse com esses nomes. Sentado a uma mesa frente a uma das grandes janelas, que lhe providenciava a luz necessária a uma boa leitura, o Historiador retira a larga e castanha fita adesiva da caixa de cartão, abre-a e retira-lhe de dentro os exemplares adquiridos, livros de uma antiga e bela encadernação. História de Óbidos é o primeiro exemplar a ser aberto, puxando o homem de uma pequena pasta e retirando-lhe do âmago um velho bloco de apontamentos e uma caneta, começando a ler o volume como se nada mais existisse na vida. A encomenda fora recebida por volta das 10h00. Quando Carlos Nóbrega toma consciência que tem responsabilidades naquela casa e fecha o livro com um marcador na página onde ficara a leitura, eram 14h10. Fora da sala, o abandono pautava os espaços do edifício. A hora de almoço estendia-se até às 14h30, e o bibliotecário aproveitara para trincar qualquer coisa que levara no saco e para adiantar algum serviço, não vendo a hora de fechar as portas e de se pôr a ler fim de dia e noite fora, continuando as suas compilações de apontamentos.

O Historiador tinha lido em várias fontes algo sobre a chegada de uns alemães à vila de Óbidos, nos inícios de 1650, assim como sobre uma lenda que dizia que esses homens se haviam deslocado para Portugal para esconderem debaixo das pedras da vila uma espécie de tesouro. Carlos Nóbrega sabia que a perseguida sociedade secreta Rosacruz fora fundada junto ao Reno, na Alemanha, assim como sabia que os seus integrantes haviam sido perseguidos pela guarda alemã, mas o manifesto de Rosacruz nunca fora encontrado. Na época, os alquimistas eram considerados hereges, sendo vítimas de eficazes perseguições. O Historiador não conseguia deixar de pensar que os alemães chegados a Portugal seriam membros do topo da hierarquia de Rosacruz, que haviam escolhido o extremo ocidental da actual Europa para selarem na escuridão e protecção do solo a razão das perseguições de que eram vítimas. A lenda dizia que numa noite de Lua cheia os grandes alemães saíram à rua e enfeitiçaram toda a urbe de Óbidos, espalhando pelas ruas e ruelas espíritos inquietos, que se alimentavam das picardias que faziam abater em todos aqueles que por lá passassem, ouvindo as pessoas, principalmente nas noites de luar, pesados e sonoros passos nas pedras, assim como gargalhadas de gozo e regozijo. Carlos Nóbrega começara, já há algum tempo atrás, a esboçar um pequeno questionário sobre a lenda, o qual pretendia aplicar a alguns habitantes das muralhas de Óbidos. O Historiador voltara a mais tarde a pegar na ideia e terminara o questionário, que consistia em duas páginas, uma folha frente e verso, estando, mais que nunca, super motivado para querer perceber, através da análise de conteúdo das folhas, o que as pessoas sabem ou pensam dessa lenda, assim como o que sabem da história da vila onde vivem». In Jorge Durão, A Herança de Rosa-Cruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

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A Herança de Rosa-Cruz. Jorge Durão. «Senhor Carlos, acho que está com sorte. Tenho aqui um livro antiquíssimo, está datado de 1797. Foi um grande amigo que mo arranjou, disse o homem num sussurro, trabalha no Palácio Nacional de Mafra»

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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649

«(…) Há cerca de vinte anos atrás, Carlos Nóbrega tinha conseguido comunicar com um nómada vendedor de antiguidades, que ia estar um dia inteiro num pequeno mercado medieval nas Caldas da Rainha. O Historiador tinha conseguido o seu cartão-de-visita através de um amigo, também fascinado por história e literatura em geral, que lhe houvera referido que o homem tinha sempre umas raridades literárias de se lhes tirar o chapéu. Num telefonema que o Historiador fez para o número iniciado por 02, que o cartão dizia pertencer a Bernardo Faria, ficou a saber que o homem detinha algo que lhe poderia interessar. Sim?... Boa tarde... Boa tarde, rosna uma voz dura do outro lado. É o senhor Bernardo Faria, das antiguidades?..., perscruta o Historiador. O próprio. Estou a falar com?... Carlos Nóbrega, Historiador e um fascinado por raridades da literatura... Nacional...

Já entendo a razão da sua chamada. Onde viu o meu número?! Carlos Nóbrega percebeu uma desconfiança na expressão do homem, talvez algum trauma com as autoridades. Não sou Polícia, esteja à vontade comigo. Foi um grande amigo meu que me facultou o seu cartão-de-visita, diz que lhe comprou umas revistas de mil oitocentos e tal, aqui há tempos, estava o senhor a vender antiguidades numa pequena feira nas imediações do Palácio de Queluz... Isso foi há dois anos... Sim, confirmou o homem, impregnado de uma forte pronúncia nortenha. Dessa forma, estou a ligar-lhe porque o meu amigo me referiu que o senhor tinha mesmo muita coisa interessante, em variedade e quantidade... Sim, sim. É verdade. Fruto também de uma paixão por tudo o que é antigo. Procuro exaustivamente coisas de interesse histórico... Cá para nós, diz o homem num sussurro, fotocopio aquilo que acho verdadeiramente interessante e vendo tudo o que compro ou me dão, tenho que comer, certo?... Claro, claro. Não seriam os originais em si que lhe dariam de comer. Negócio é negócio... Mas diga-me uma coisa, dirige-se Carlos Nóbrega à razão da chamada, tem algo relacionado com a vila de Óbidos ou com a sociedade secreta Rosa-Cruz?..., no deixe-me pensar do homem e no barulho do remexer de coisas que o telefone deixava ouvir, o coração do Historiador acelerou, não vendo o momento de lhe voltar a ouvir a voz.

Senhor Carlos, acho que está com sorte. Tenho aqui um livro antiquíssimo, está datado de 1797. Foi um grande amigo que mo arranjou, disse o homem num sussurro, trabalha no Palácio Nacional de Mafra. Quando andaram lá com obras, alguns dos livros da biblioteca andavam para lá aos pontapés. Pensou em mim, pegou no exemplar, guardou-o, telefonou-me naquele dia e encontrámo-nos na semana seguinte na Ericeira... Qual é o título, senhor Bernardo? Lendas e factos de Óbidos... Autor ou autores? O único nome que vislumbro por aqui é Pedro José Gonzaga Morgado... Nunca ouvi falar! Tenho que pesquisar sobre este nome, o Historiador aponta o nome num bloco de notas.

É um livro grosso, capa dura com incrustações douradas, e está um pouco deteriorado... Quanto é que está a pedir por ele? Seis contos. Parece-me bem, é uma obra do século XVIII, pensa Carlos Nóbrega, não conseguindo conter a excitação que lhe percorria as veias. Onde e quando é que me posso encontrar consigo? O senhor é de onde? Vivo e trabalho em Lisboa. Vou estar amanhã todo o dia numa pequena feira medieval nas Caldas da Rainha, no jardim das termas. Vá até lá. Sim, sim. Estou a pensar nisso. Conto lá estar por volta das dez. Ficou assim marcado o encontro para um sábado do Verão de 93. Carlos Nóbrega foi logo relatar à mulher a conversa que havia tido com o vendedor, dizendo-lhe que iriam no dia seguinte, logo de manhã, até à cidade das Caldas da Rainha, onde já haviam estado uma meia dúzia de vezes. Maria João ficava feliz com a felicidade do marido, não obstante o achar demasiado obcecado com todas aquelas coisas que o moviam, principalmente com aquela ideia de que por baixo dos seus pés se escondiam incontáveis tesouros à espera de serem vislumbrados pela luz. Naquele dia acordaram bem-dispostos, tomaram um bom pequeno-almoço e fizeram-se à estrada. Nada fazia prever que aquela viagem iria terminar de trágica forma pouco depois do Bombarral». In Jorge Durão, A Herança de Rosa-Cruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.

Cortesia de JDurão/JDACT

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segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Herança de RosaCruz. Jorge Durão. «Temos de conseguir!. Agarrando toda a réstia de força e motivação, o homem leva o cavalo a se encostar de repente ao do seu perseguidor»

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Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649
«(…) Eles estão mesmo atrás de nós!, gritava o último dos três, mais próximo dos guardas que os outros, tão próximo que quase via as expressões de fúria estampada nos seus rostos. Vamos! Vamos! Temos de conseguir!, todos eles imprimiam a máxima força aos cansados equídeos, que exalavam um denso e branco vapor que se misturava no gélido ar que por eles passava. As espadas estavam já em riste, os guardas sentiam que os estavam a alcançar, e os fugitivos sentiam que estavam prestes a ser capturados. Cavalgaram alguns quilómetros tendo guardas e fugitivos essa sensação. Mas a sensação acabara por se materializar. Um guarda alcança o último dos cavaleiros e coloca-se a seu lado. O fugitivo tenta imprimir mais força ao cavalo, mas o animal estava esgotado, não conseguindo responder à sua demanda. A espada é içada para o golpe sobre o homem, que a olha com temor, aquela lâmina brilhante, reflectindo um Sol frouxo, o seu laranja a passar pela aragem. Um turbilhão de imagens, sons e emoções o assola. Vamos conseguir! Temos de conseguir!. Agarrando toda a réstia de força e motivação, o homem leva o cavalo a se encostar de repente ao do seu perseguidor. Nesse instante, levanta a perna esquerda e imprime movimento ao pé recorrendo a todas as reservas de força de que ainda dispunha. Com a força do impacto, o guarda cai para o lado ainda com a espada no ar, o que atrapalhara momentaneamente o avanço de todos os que cavalgavam atrás. O cavalo solitário continua com o galope, detendo-se a pastar alguns metros para lá do trilho. Os restantes guardas estão quase a intersecptar os três homens, que dão no momento o tudo por tudo para passarem os marcos... Quando os fugitivos voltam a olhar para trás, já os guardas se estão a deter no trilho, sabendo perfeitamente que haviam chegado aos germânicos limites administrativos, não tendo qualquer autoridade nas terras onde aquelas três figuras cavalgavam no momento. O baú e tudo o que o mesmo protegia e escondia estavam no momento a salvo.

Lisboa. Junho de 2003
Senhor doutor, os livros acabaram de chegar, diz a elegante secretária da Biblioteca Nacional, entregando a Carlos Nóbrega uma folha A4 dos CTT com o registo da entrega. Ah... Obrigado, Dulce... Obrigado, diz o sexagenário, esticando o braço para a folha. Todos os anos, o Historiador tinha legitimidade para gastar 100€ na aquisição de novos volumes, raridades que procurava na Internet recorrendo a importantes contactos e ao estatuto que as provas dadas como Historiador e como Bibliotecário da Biblioteca Nacional lhe conferiam. Onde estão? No momento a serem transportados para a sala de catalogação... Muito bem. Dulce, não quero ser incomodado até dar ordens em contrário! Apague todos os fogos que se atearem! Pode vir o Presidente, a chanceler alemã, o Papa... Não quero ser incomodado!
Sim senhor, dr. Carlos. Assim, anui a mulher. Carlos Nóbrega era um homem agastado, mal-humorado, possuidor de uma acutilante personalidade. O baixo e careca passa os olhos pela folha enquanto inicia a deslocação para a sala de catalogação, em frente e à direita em relação à recepção, onde estava Maria Dulce, a secretária que já pertencia à casa quando Carlos Nóbrega fora convidado para bibliotecário da Biblioteca Nacional. Dedicara toda a sua vida ao estudo, à busca de pistas de relíquias escondidas, sendo para ele uma espécie de obsessão o compilar de informação relativamente a possíveis tesouros escondidos pelos povos que passaram pelo nosso país durante os séculos da história. Para ele, o chão de todos os recantos do nosso pequeno país estaria impregnado de relíquias perdidas, riquezas escondidas para a posteridade, ou apenas para escaparem à pilhagem e à destruição.
A Urbe das Rainhas; Óbidos e os Séculos; História de Óbidos; Sociedades Secretas em Portugal; e A Fraternidade Rosa-Cruz eram os títulos adquiridos naquele ano, volumes que o homem ansiava por tocar, abrir, cheirar, folhear. Com licença, dr. Carlos... Sim, Armando. Força. Posso deixá-los aí na secretária? Ponha. Ponha aqui, Armando. Com licença. Estão-me a pedir lá em baixo esta folha assinada, a confirmar a recepção dos livros. Era o original da folha que Dulce lhe havia entregue. O Historiador assina o impresso e volta a olhar para os exemplares, ávido de os devorar mesmo antes de os catalogar e disponibilizar para leitura. Já está. Mais alguma coisa, Armando? Pergunta, esticando o braço de modo a facultar a folha ao funcionário. Está tudo. Já havia referido à Dulce que a partir deste momento não quero ser incomodado até ordens em contrário.
Muito bem. Com licença, o sexagenário despede-se do rapaz com um trejeito de cabeça. O rapaz sai e fecha a porta atrás de si». In Jorge Durão, A Herança de RosaCruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3.


Cortesia de JDurão/JDACT

domingo, 30 de abril de 2017

A Herança de RosaCruz Jorge Durão. «Temos de continuar a cavalgar! Temos que chegar à França antes que os guardas nos alcancem!»

jdact
Óbidos. 16 de Abril de 1650; madrugada
«A noite estava calma, serena, amena... O silêncio que a pautava era denunciador, acusador. A Lua projectava nas polidas pedras daquela principal rua a reflectida luz de um Sol que, naquele momento, iluminava e preenchia de vida outras paragens mais para oeste.
Três figuras haviam, no início da madrugada, começado a perscrutar o labirinto de ruas e ruelas da pequena urbe, munidas de um pequeno baú de madeira, sem quaisquer relevos, incrustações ou decorações, devidamente trancado, e de duas rudimentares ferramentas, um esguio ferro e uma pá. Àquela hora os guardas já haviam recolhido, e apenas as sentinelas que se encontravam nas portas da muralha estavam em riste face a quaisquer ameaças. Como aqueles três homens provinham da estalagem, que se situava logo na entrada este da urbe, nenhum tumulto fora suscitado ao guarda que fazia a vigilância daquele posto.
Os três homens olham a Lua pela janela e olham-se mutuamente, olhares que diziam que chegara o momento. Um deles deixa o quarto, desce cerca de um terço da escadaria que acede ao piso térreo e percebe que o pó que havia sido comprado naquele dia a um mercador, e que havia sido misturado na cerveja do estalajadeiro, estava a fazer o seu efeito. O homem dormia como uma pedra, ressonado de forma ensurdecedora, o que ajudaria a camuflar algum barulho que fizessem a descer as escadas e a sair. Todos os habitantes e os próprios guardas não viam com bons olhos aqueles alemães, que haviam chegado a Óbidos há cerca de três semanas, mas como eram grandes consumidores de cerveja e de tudo o que se mercava por ali, eram vistos como alguém que ajudava muito à pequena economia local.
Com o homem a dormir que nem um urso, juntam-se os três naquele pequeno hall empedrado, abrindo um deles a porta com cuidado e olhando para o posto do sentinela. A luz da Lua deixava perceber a silhueta do guarda. O homem sai e desloca-se com cautela para uma sombra, arremessando para bem longe, por cima da muralha, uma redonda pedra que já tinha nas mãos. Enquanto o guarda tentava perceber se era animal ou se era gente que por ali se movimentava, já com a corneta em riste, os outros dois abandonam a estalagem, deixando a pesada porta encostada, deslocando-se todos para as sombras que iam encontrando no sentido norte. Mais à frente, perto da torre, sobem para a muralha e começam a caminhar de modo a circundarem a urbe e a verificarem se a calma seria real ou apenas aparente. As ruas estavam mortas, toda a gente jazia no sono da noite e o silêncio era límpido.
Descem a muralha já perto da porta sul e, segundo os esquemas já estudados, que tinham a ver com o momento e com a posição da Lua, colocam-se no início da rua principal, a qual desembocava na torre. Aí, uma das primeiras pedras do chão é levantada sob a força dos três transmitida ao esguio ferro, debaixo da qual fora colocado um pergaminho, a decifração dos latentes indícios que a luz da Lua imprimia nas paredes, consistindo muitos desses indícios em indicações configuradas em sombras. A pedra foi colocada no sítio, viraram depois à direita, à esquerda, de novo à esquerda, e subiram outra vez à rua principal. Caminharam uns metros na rua e viraram depois à esquerda, subindo até à base da muralha do lado oeste, virando depois à direita e detendo-se uns metros mais à frente. Aí, levantam uma grande pedra, escavam um pouco por baixo, colocam no pequeno buraco o pequeno baú, repõem a terra e selam tudo com a grande pedra, varrendo com as mãos e os pés os resquícios de terra que ainda por ali permaneciam. Olham uma última vez para o local e dirigem-se de novo para a estalagem. Ao virarem para esquerda, já na rua principal, a brilhante lâmina de uma adaga que um encapuzado ostentava petrificara os seus olhares. Uma rude luta entre as rudimentares ferramentas e a brilhante adaga começara. O barulho da luta atraíra para o local os guardas que perscrutavam nas ruas por algo que lhes fora relatado. Ao chegarem ao local, os três alemães encontravam-se prostrados no chão, golpeados de profunda forma e com as vestes abertas. Mais para sul, de sombra em sombra, aquela figura encapuzada, que fora impedida de seguir todos os passos dos três rosacrucianos pela movimentação dos guardas, dirigia-se para casa, transportando dentro das vestes a réplica do papiro enterrado com que os três homens haviam ficado. Entra em casa e no imediato parecera que não era aquela noite mais que uma igual a tantas outras... Silenciosa, a envolver no sono todos os habitantes das muralhas... Ou quase todos.

Karlruhe. Alemanha, Dezembro de 1649
Temos de continuar a cavalgar! Temos que chegar à França antes que os guardas nos alcancem!, profere um dos três cavaleiros, virado para trás, tomando a liderança da deslocação. Era fim de tarde de um dia gélido, e a gélida aragem parecia cortar a carne como adagas bem afiadas. Os três homens cavalgavam pela protecção de algo que lhes proporcionava serem perseguidos pelos guardas alemães, que lhes seguiam o rasto a alguns quilómetros atrás. Aquele líder transportava no regaço um pequeno baú de madeira, simples, sem quaisquer incrustações ou relevos. Os homens davam na altura tudo por tudo para chegarem a terras francesas antes que aqueles que os perseguiam os capturassem em terras germânicas, ficando os cavaleiros imunes assim que atravessassem a fronteira». In Jorge Durão, A Herança de RosaCruz, O Tesouro Perdido de Óbidos, Edição do Autor, 2013, ISBN 978-989-866-401-3. 

Cortesia de JDurão/JDACT

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Óbidos. Castelo: Parte IV «Casa das Rainhas... Conta-se que D. João V, mirando com alguma surpresa o singular povoado, por ocasião de uma das suas frequentes jornadas às Caldas da Rainha, exclamara; “Eis ali um vilão com uma cinta de oiro!”»

Cortesia de monumentos

«Estes Noronhas, os primeiros (cronologicamente) do seu apelido, eram faustosos, mimosos de mercês régias, e muito ciosos da sua estirpe principesca. Com efeito, aquele D. João, que se distinguiu como alcaide-mor de Óbidos, era bisneto de D. Henrique II, rei de Castela, e do nosso rei D. Fernando.
Procedia do casamento de D. Afonso Henriques, filho bastardo do primeiro desses monarcas, com D. Isabel, filha natural do segundo. Diz-se que tão singular consórcio foi estipulado (tal como o dos filhos legítimos) no tratado de paz assinado pelos dois inimigos em 1383.

Em presença de tais circunstâncias, não pode em verdade estranhar-se que D. João de Noronha, o alcaide-mor, pretendesse possuir no Castelo de Óbidos (que considerava talvez seu senhorio) um palácio digno do seu nome, e que, com o fim de alcançar ou agradecer o auxílio de D. Manuel para realização de tal intento, juntasse ao brasão dos Noronhas o escudo real e ainda alguns dos emblemas que usualmente aparecem nas construções manuelinas. De qualquer modo, porém, o valor histórico dessa construção, avolumado por certos factos ali ocorridos em várias épocas, é considerável.
Por isso, e pelo estado de ruína em que se encontrou agora, exigiram especial atenção e persistente esforço os trabalhos de reparação e até de reconstituição efectuados em todo o edifício no decurso da restauração empreendida pela Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais.
Assim, generalizando, pode afirmar-se que, apesar de não ter sido necessário resolver qualquer problema técnico de excepcional complexidade - mas também sem descurar jamais a execução integral do programa previamente estudado e elaborado - se conseguiu por fim restituir, tanto ao castelo como à importante parte histórica da vila, o aspecto que devia caracterizar todo esse conjunto no período áureo da sua existência, isto é, depois das reparações, reconstruções e demais benfeitorias realizadas sucessivamente, desde o alvorecer da dinastia borgonhesa até os últimos anos (os anos crepusculares) de dinastia de Avis. Sim, principalmente dentro dos limites de tal período; pois é lícito acreditar que a decadência - a verdadeira decadência - foi a que depois chegou, sem embargo dos «repairos», ordenados por D. João IV, e ainda de outros, menos importantes, devidos aos Mascarenhas, os alcaides-mores a quem Filipe IV de Espanha, e em seguida o nosso D. Afonso VI, fizeram condes de Óbidos.

Cortesia de monumentos

Contudo, é bem certo que o castelo e a vila, inseparáveis como dois membros do mesmo corpo ou como dois seres animados pela mesma vida, ainda no século XVIII constituíam um dos mais admirados ornamentos arqueológicos, e até paisagísticos, da terra estremenha - tão rica, aliás, de aspectos que a Tradição glorifica e a Natureza muitas vezes prestigia. Conta-se que D. João V, mirando com alguma surpresa o singular povoado, por ocasião de uma das suas frequentes jornadas às Caldas da Rainha, exclamara:
  • - Eis ali um vilão com uma cinta de oiro!
A referência é, em verdade, um pouco obscura; pois se por «cinta de oiro», devemos entender a cerca de muralhas (iluminada talvez, naquele momento, pelo nosso brilhante sol meridional), não se pode interpretar com igual facilidade o pensamento associado à palavra «vilão». Talvez o antigo significado, hoje em desuso, de «habitante de vila» baste para justificar a expressão na boca de um monarca tão autocrático, e ao mesmo tempo tão mundano, como o nosso «Magnânimo».
Um escritor contemporâneo, Ramalho Ortigão, que por ali passou há cerca de 80 anos, apreciou principalmente, segundo parece, o seu pitoresco arcaico, pois notou que, para transformar Óbidos em «um velho burgo português de há trezentos anos», bastaria reerguer sobre os antigos alicerces alguns edifícios arrasados pelo terramoto de 1755, suprimir várias construções modernas, e valorizar por fim todo o resto, enobrecendo com alguns breves retoques cenográficos os amesquinhados valores da velha arquitectura… Abstraindo o que em tal quadro deva atribuir-se à fantasia ou «visão literária», do grande escritor, é certo que não podem enjeitar-se, por exageradas ou deslocadas, algumas das opiniões assim expostas.

Cortesia de monumentos

Todavia, não é menos certo que a DGEMN, sem se abalançar à inglória tarefa de reedificar, por falta de elementos idóneos e talvez de boa razão histórica, os edifícios lamentavelmente subvertidos há dois séculos, nem tampouco ao inútil rigor de demolir outros, de recente construção, logrou de facto harmonizar (não reconstituir), nas suas linhas gerais, o aspecto de todo o monumento com aquele que o devia afamar nos tempos manuelinos, a época provável da sua maior fortuna, conforme já notamos.
Neste ano de 1952, Óbidos, a vila-fortaleza ou vila castelã, nobre entre as mais nobres da terra portuguesa, conserva sem dúvida alguma, na sua velhice finalmente amparada, muitas das feições da juventude, e sem que, para isso, fosse necessário desvirtuar com quaisquer artifícios cenográficos as obras da restauração geral ultimamente concluída.

Antes da restauração
Apesar de alguns visitantes nacionais e estrangeiros terem celebrado, como fenómeno raro em construções de tão grande antiguidade, o estado de conservação do Castelo de Óbidos, é certo que foram muitos, muito demorados e por vezes muito pesados, os trabalhos da restauração empreendida pela DGEMN, para o preservar da ruína que de facto ameaçava converter proximamente em um acervo de escombros quase todos os seu poderosos muros». In Castelo de Óbidos, DGEMN, IGESPAR, 68-69, 1952.

Cortesia de DGEMN/IGESPAR/JDACT

domingo, 6 de março de 2011

Óbidos. Castelo: Parte III. «Casa das Rainhas... Foi ali que uma das mais ilustres dessas donatárias, D. Leonor, mulher de D. João II e criadora da obra das Misericórdias Portuguesas, se refugiou em 1491, para chorar livremente a perda de seu único filho, o princípe D. Afonso»


Cortesia de oacor

«Depois, nada mis que mereça crónica ou sequer lembrança. Oprimida pelas suas muralhas e pelas suas ruínas, que a divorciavam do mundo moderno, a antiga praça de armas estremenha caiu pouco a pouco na sonolência de um tardio envelhecer. Sem a sua paz interna jamais ameaçada por naturais ou estranhos, aceitou com resignação a decadência que o destino lhe impôs e, deperecendo sob a indiferença dos governantes ou por efeito do predomínio de certas ideias, a que chamavam «ideias novas», por buscarem a sua força agressiva no desprestígio do passado, qualquer que este fosse, quase pode acreditar-se que abjurou passivamente o credo histórico a que durante longos séculos foi fiel.

Isto não quer dizer que Óbidos tenha uma história bélica bem conforme com os arrogantes muros de praça forte. Depois dos tormentos que a dilaceraram em 1148, quando foi arrebatada ao jugo muçulmano e dominada por outro povo e outros costumes não menos bravios, é certo que logo em seguida readquiriu poder ofensivo e defensivo para novos empreendimentos ou novos sacrifícios; todavia, só muito raramente, como se sabe, achou ocasião de participar do tumultuoso fervet opus exigido pela formação da nossa nacionalidade. 

Cortesia de santamariaobidos
O acontecimento que mais a lembra, nesse remoto período, é o da heróica resistência que em 1246 opôs ao cerco e aos assaltos com que encarniçadamente pretenderam submetê-la os parciais do Conde de Bolonha, então regente do Reino. Tal como o famoso Martim de Freitas, em Coimbra, também o alcaide-mor de Óbidos, cujo nome se ignora, tendo o o castelo por el-rei D. Sancho II, não consentiu em entregá-lo, nem se deixou vencer pelas poderosas hostes que à força o quiseram tomar. E tão valoroso, tão desinteressado foi esse acto de fidelidade, que o mesmo «Bolonhês», depois de proclamado rei, com o nome de D. Afonso III, logo o honrou publicamente, como soberano e como cavaleiro. Óbidos recebeu então, com efeito, além de várias mercês e privilégios foralengos, o título de «Sempre Leal», que conservou até aos nossos dias.

Cortesia de IGESPAR
Esse antigo episódio constitui, em verdade, a mais bela e talvez a única página verdadeiramente notável da história militar de Óbidos. Estranhável esse facto, que atesta grande desproporção entre os seus recursos materiais de vila acastelada e os serviços prestados, em tão longa vida, ao rei e à grei? Não, por certo; pois é sabido que só as fortalezas raianas ou as praças fortes situadas na vizinhança das fronteiras terrestres foram deveras atingidas pelas tormentas guerreiras que tantas vezes se repetiram no decurso da nossa vida nacional. Certo, Óbidos não dista muito de outra fronteira, a marítima; contudo, essa, tal como era mantida e defendida, mais a protegia do que a ameaçava. Talvez por isso, o nosso «Rei Lavrador», embora se esmerasse no cuidado de lhe ampliar e consolidar as fortificações, não esqueceu também os seus direitos e privilégios de vila nobre, oferecendo-a afinal, como jóia de alto preço, a sua mulher D. Isabel de Aragão, a «Rainha Santa». logo que a recebeu por esposa, no terceiro ano do seu reinado.

Cortesia de moradasdedeus 
E tão acertada se julgou essa mercê conjugal, que todos os demais reis, seus sucessores, o imitaram. Assim, aquele senhorio, que se diria fadado para apanágio de um grande capitão, ficou pertencendo sempre, até soar a hora das reformas liberais, à «Casa das Rainhas». Foi ali que uma das mais ilustres dessas donatárias, D. Leonor, mulher de D. João II e criadora da obra das Misericórdias Portuguesas, se refugiou em 1491, para chorar livremente a perda de seu único filho, o princípe D. Afonso, morto por desastre, em plena adolescência, 28 dias depois de ter sido festejado, «com a maior magnificência que até então se tinha visto na Europa», afirma um cronista, o seu casamento com a filha primogénita de Fernando e Isabel, os reis Católicos

Cortesia de skyscrapercity

Cortesia de cienciahoje
O castelo propriamente dito ainda chegou aos nossos dias com os muros exteriores, que medem cerca de 13 m de altura, sem danos ou mutilações que irreparavelmente desfigurassem ou de qualquer modo amesquinhassem a sua fisionomia, bem característica, de gigante medieval; apenas em um estreto lanço da fachada do poente era mais visível a obra demolidora da ruína geral. Esta, porém, assinalou-se por estragos ainda maiores em toda a parte interior, sobretudo na alcáçova, ou palácio dos alcaides-mores, cuja construção data, segundo a tradição, do século XVI. Obra de D. Manuel, como induz a bela decoração arquitectónica das janelas e da porta, assim como o escudo real e a esfera armilar, que ali se vêem também? Sim, não seria justo negar a participação do rei Venturoso na edificação desse palácio. Todavia, a par de tais emblemas, há ainda outro, não menos expressivo, o brasão dos Noronhas, bem próprio para confirmar a tradição que explica de diverso modo a origem da obra. Diz-se e com fundada verosimilhança, que o autor da iniciativa foi D. João de Noronha, alcaide-mor do castelo no primeiro quartel do século XVI, pai de outro, do mesmo nome, cujo mausoléu renascentista, existente ali mesmo, em Óbidos, na histórica igreja de Santa Maria, é um dos mais notáveis do nosso país». In IGESPAR

Cortesia de IGESPAR/JDACT

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Óbidos. Castelo: Parte II. «... sobreveio ao cabo de 25 anos de relativa tranquilidade... em que a guerra civil, determinada pela proclamação de D. Miguel como rei absoluto, ali entrou violentamente, perturbando o povoado, com tumultos, atrocidades e atentados. Toda a vila aderiu à causa liberal, que antes de 8 meses devia conquistar o triunfo na Batalha da Asseiceira»

Cortesia de wufp

«Entre os povos que antes de nós, e em épocas diversas, possuíram a parte do solo hispânico onde a pátria portuguesa fixou e avigorou as suas raízes de nação livre, houve dois, o Romano e o Árabe, que, mestres na arte da guerra, deixaram ao mundo moderno preciosas lições de arquitectura militar e, ainda mais, aquilo a que se pode chamar a ciência topográfica das fortificações, ciência que consistia não só na escolha dos lugares que cumpria fortificar, mas também na distribuição desses lugares em todo o território ameaçado. No nosso País, se sondássemos oa alicerces ou os subalicerces de antigos castelos e fortalezas, encontraríamos quae sempre iniludíveis vestígios de obra romana ou de obra mourisca. Um e outro, esses dois povos, ambos conquistadores e invasores tão duramente combatidos, foram também nossos mestres.

Assim, hoje, um só olhar atento e compreensivo basta para denunciar a origem mourisca do castelo de Óbidos e desautorizar a opinião daqueles que levianamente atribuíram  a D. Dinis a sua fundação. Sim, em 1148, quando D. Afonso Henriques, depois das vitórias alcançadas em Santarém, Lisboa e outras povoações fortificadas da terra estremenha, se assenhoreou de Óbidos, já ali existia, bem firme em sobranceiro trono de rocha viva, um castelo edificado pelos descendentes daqueles que, quatro séculos antes, em 714, após a desastrosa batalha de Guadalete, gritando vitoriamente os nomes de Alá e do seu Profeta, invadiram e submeteram, de Sul a Norte, quase todo o cobiçado solo da Península. É possível, e até provável, que naquele mesmo lugar tivesse existido anteriormente outra fortaleza construida pelos Romanos; todavia, não há nenhuma notícia segura desse facto. Somente o exame dos mais profundos alicerces da construção poderia desvendar tão antigo segredo.

Cortesia de chilacamomila
Só os alicerces do castelo? Talvez ainda os de toda a povoação; pois é certo que Óbidos, tendo chegado aos nossos dias estreitamente cingida pelas suas muralhas medievais, forma com o castelo um todo indivisível. Um autor seiscentista, Jorge Cardoso, reconhecendo tal facto no seu Agiológico compara aquele arrogante conjunto de fortificações a uma nau, «servindo de popa o castelo, de proa a Torre do Facho e de mastro a do Relógio, que fica no meio da vila».
D. Afonso Henriques, depois da vitória de 1148, não se limitou a reparar os estragos causados no castelo pela terrível luta em que se empenhou para vencer a heróica resistência dos sarracenos; as muralhas exteriores deviam ter sido igualmente recompostas e até reforçadas sem detença, a fim de poderem proteger como cumpria a nova população cristã que ali enraízou logo em seguida. D. Sancho I mandou efectuar obras conforme testemunha a inscrição existente na chamada Torre de Facho.
D. Dinis foi, entre os monarcas que se seguiram, o mais diligente reconstrutor do Castelo e das muralhas e deve-se-lhe segundo se crê, a construção de uma nova torre, que ainda hoje conserva o seu nome.

Cortesia de IGESPAR 
Só em 1375, reinava então D. Fernando novas obras foram realizadas em Óbidos e que abrangeram a construção da Torre de Menagem, concluída em 1375 (ano de 1413 da era hispânica), segundo atesta uma inscrição gravada num dos umbrais da respectiva porta. D. Manuel, que em toda a parte deixou vestígios da sua administração eminentemente progressiva e construtiva, também vinculou o seu nome à conservação do Castelo de Óbidos com pormenores arquitectónicos caracterizados pela graça do seu «manuelino». Depois, como a política de D. João III foi sempre inspirada pelo pensamento de consolidar a paz peninsular, inaugurada por seu pai, e nunca teve qualquer repercussão notável, naqueles sítios, a guerra civil motivada pelas pretensões, legítimas direi eu, do Prior do Crato (D. António I), só no século seguinte, em 1642, foram ordenadas novas obras, tanto no Castelo como nas demais fortificações, quando o novo rei, D. João IV, resolveu atender os respectivos moradores, que instantemente lhe pediram «mandasse reformar os muros e as portas da vila, por tudo estar danificado».
Após essa época de inquietação geral, que durou 28 anos, sem que o valor defensivo das fortificações nem o brio patriótico da respectiva guarnição fossem jamais sujeitos a qualquer prova, ainda se tentou centralizar ali, em 1673, cinco anos depois de assinada a paz, alguns dos principais fios de uma conspiração urdida contra o regente do reino, D. Pedro II, pelo Conde de Humanes, embaixador de espanha na corte de Lisboa. Descoberto a tempo esse tenebroso enredo, que compreendia o assassinato do Regente, de sua mulher e da pequenina infanta D. Isabel Luísa Josefa (então sua única filha), quando ele e elas estivessem a banhos nas Caldas da Rainha, foi o infiel embaixador reenviado para o seu país e imediatamente justiçados vários Portugueses delinquentes. Alguns, de Óbidos, morreramtambém na forca ali erguida dentro das muralhas, com aplauso dos patriotas que abundavam entre os seu moradores.

Cortesia de IGESPAR
Volvidos 175 anos, no decurso da primeira invasão francesa, um novo alarme sobressaltou os moradores de Óbidos. Os ecos de uma brava peleja travada em lugar vizinho, entre as avançadas tropas anglo-portuguesas, comandadas por Wellesley, e a rectaguarda de um dos exércitos invasores chefiado por Delaborde. Esse combate, ocasionado em 15 de Agosto de 1808 constituiu a primeira fase da gloriosa batalha ganha dois dias depois, pelos dois aliados antinapoleónicos, nos campos da Roliça, a 6 km daqueles sítios.
Outra, mais importante, por lhe exigir participação directa e também algum sacrifício de vulto, sobreveio ao cabo de 25 anos de relativa tranquilidade, pois houve um dia  em que a guerra civil, determinada pela proclamação de D. Miguel como rei absoluto, ali entrou violentamente, e violentamente perturbou, durante algum tempo todo o povoado, com grandes tumultos, algumas atrocidades, atentados de vária espécie, e até estragos materiais de considerável importância. Dominada pelas forças miguelistas, Óbidos só recuperou o perdido sossego depois de 29 de Setembro de 1833, data em que a tomou Sá da Bandeira, em um memorável assalto. Toda a vila aderiu à causa liberal, que antes de 8 meses devia conquistar o triunfo definitivo na Batalha da Asseiceira». In IGESPAR.

Continua.
Cortesia de IGESPAR/JDACT

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Óbidos. Castelo: Parte I. «Um ideal cenográfico de Idade Média foi tão efectivo, razão da aparente atemporalidade das ruas do conjunto intra-muralhas, que, na sua sinuosidade, nas suas fachadas brancas e no vislumbre das inventadas ameias, nos transportam para um tempo mítico de um Portugal em formação»


Cortesia de IGESPAR 

«Há uma relação de afectividade neo-romântica para quem visita a vila de Óbidos. Serão poucos os casos no país onde a busca deliberada de um ideal cenográfico de Idade Média foi tão efectivo, razão da aparente atemporalidade das ruas do conjunto intra-muralhas, que, na sua sinuosidade, nas suas fachadas brancas e no vislumbre das inventadas ameias, nos transportam para um tempo mítico de um Portugal em formação.

São ainda obscuras as origens da fortaleza. Ao que tudo indica, a sua posição dominante em relação à extensa lagoa a ocidente, favoreceu a instalação de um primitivo reduto fortificado de origem romana. A Alta Idade Média não deixou vestígios aparentes da sua presença, e será, apenas, na viragem para o século XII que Óbidos voltará a merecer referências documentais precisas. No mesmo impulso expansionista que levou as fronteiras de Portugal até à linha do Tejo, em 1147, a vila passou para a posse de D. Afonso Henriques, ficando para a posteridade uma tradição de tenaz resistência por parte dos muçulmanos (PEREIRA, 1988, pp.19-21). Anos mais tarde, na sequência das investidas almóadas de final do século, coube a D. Sancho I reconquistar a localidade, dotando-a, então, de condições mais efectivas de povoamento e de organização.

Cortesia de IGESPAR 
O ano de 1210 é uma das datas mais marcantes da vila. Nesse ano, foi doada às rainhas, passando a figurar como uma importante localidade da casa das soberanas nacionais. Com presença assídua dos casais régios ao longo das Idades Média e Moderna, Óbidos floresceu e foi sucessivamente enriquecida por obras de arte. O mecenato artístico patrocinado por D. Leonor (século XV) e, especialmente, por D. Catarina (século XVI), marca, ainda hoje, a paisagem arquitectónica da vila.

O castelo e as muralhas de Óbidos evocam a importância da localidade na Baixa Idade Média. Apesar de, em grande parte, serem obra inventiva do século XX, asseguram a todos os que se dirigem à vila a identidade daquele passado emblemático. Desconhecemos a configuração do perímetro amuralhado inicial, contemporâneo da acção dos nossos primeiros monarcas. A torre do Facho, no limite Sul das muralhas e ocupando um pequeno monte, tem vindo a ser atribuída à reforma de D. Sancho I, mas a verdade é que os vestígios materiais inviabilizam uma análise mais pormenorizada. A ser assim, a ligação deste espaço ao monte do castelo ter-se-á dado logo no século XII.

Cortesia de IGESPAR
Mais consensual é a expansão urbana verificada na viragem para o século XIV. Com D. Dinis, Óbidos cresceu para fora das muralhas, ocupando o espaço em torno da igreja de São Pedro (SILVA, 1994, p.23). Paralelamente, deu-se a reforma do sistema defensivo, e consequente actualização do dispositivo militar, campanha que deverá ter conferido a actual configuração ao perímetro amuralhado. Anos mais tarde, D. Fernando terá patrocinado novas obras, tendo a torre de menagem ainda o seu nome.

Dividido em 2 zonas essenciais (o castelejo, onde séculos mais tarde se instalou a Pousada, e o bairro intra-muros), a cerca define um perímetro bastante irregular, de feição rectangular e não oval, como seria mais frequente na castelologia gótica nacional. Entre o castelo propriamente dito (a Norte) e a Porta da Vila (a Sul), a Rua Direita estabelece a comunicação e aparece como o eixo de circulação privilegiado dentro da vila. Sensivelmente a meio, a Praça de Santa Maria é o principal largo do conjunto, ocupando um espaço quadrangular que corresponde ao adro da igreja tutelar da vila.

Cortesia de IGESPAR 
A reinvenção do castelo deu-se na década de 30 do século XX. Por acção da DGEMN, que visava reverter o conjunto à sua imagem medieval, todos os parapeitos foram dotados de ameias, assim como se reedificaram torres e troços que, entretanto, haviam sido destruídos. No final dos anos 40, construiu-se a pousada, no local do antigo paço, e toda a vila foi dotada de uma homogeneidade estética que passou pelo revestimento de cal das fachadas e pelo pavimento uniforme de todas as ruas». In IGESPAR, PAF.

Cortesia de IGESPAR/JDACT