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terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «Confiou o punho à mão dessa amiga fatal, acertou o passo pelo daquela rapariga à vontade nas trevas, sem saber se Misandre obedecia ao rancor ou a uma gratidão sombria»

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«Solidão... Não creio como os outros crêem, não vivo como os outros vivem, não amo como os outros amam... Mas morrerei como todos morrem». In Marguerite Yourcenar

«(…) Patrodo, corando, rechaçou aquele abraço de mulher: Aquiles recuou, deixou que lhe agarrassem os braços, verteu lágrimas que mais não faziam do que tornar ainda mais perfeito o seu disfarce de rapariguinha, mas davam a Deidamia uma nova razão para preferir Patrodo. Olhadelas, sorrisos interceptados como uma correspondência amorosa, a perturbação do jovem, tabuleta meio naufragada sob essa vaga de rendas, transformaram a perturbação de Aquiles em ciúmes furiosos. Aquele rapaz vestido de bronze eclipsava as imagens nocturnas que Deidamia conservava de Aquiles, da mesma forma que um uniforme primava aos seus olhos de mulher sobre o pálido brilho de um corpo nu. Aquiles agarrou desajeitadamente um gládio que largou imediatamente, e serviu-se, para apertar o pescoço de Deidamia, das suas mãos de rapariga, invejosa do sucesso de uma companheira. Os olhos da mulher estrangulada saltaram como duas longas lágrimas; os escravos intervieram; as portas que se fecharam com um barulho de milhares de suspiros abafaram os últimos estertores de Deidamia: os reis desconcertados reencontraram-se do outro lado do sobrado. O quarto das Damas encheu-se de uma obscuridade sufocante, interna, que nada tinha a ver com a noite. Aquiles, de joelhos, ouvia a vida de Deidamia escapar-se-lhe da garganta, como a água no gargalo demasiado estreito de uma garrafa. Sentia-se mais separado do que nunca daquela mulher que ele tinha tentado não apenas possuir mas ser: tornando-se cada vez menos próximo à medida que estreitava o aperto, o enigma de ser uma morta tinha-se acrescentado nela ao de ser uma mulher. Apalpava com horror os seus seios, os seus flancos, os seus cabelos nus. Levantou-se, tacteando as paredes onde já não se abria qualquer saída, envergonhado por não ter reconhecido nos reis os emissários secretos da sua própria coragem, certo de ter deixado fugir a sua única oportunidade de ser um deus. Os astros, a vingança de Misandre, à indignação do pai de Deidamia, uniram-se para o manter fechado naquele palácio sem fachada para a glória: os seus mil passos em redor daquele cadáver comporiam a partir de agora a imobilidade de Aquiles. Umas mãos quase tão frias como as de Deidamia pousaram-se sobre o seu ombro: estupefacto ouviu Misandre propor-lhe fugir antes de que caísse sobre ele a cólera daquele pai todo-poderoso. Confiou o punho à mão dessa amiga fatal, acertou o passo pelo daquela rapariga à vontade nas trevas, sem saber se Misandre obedecia ao rancor ou a uma gratidão sombria, se tinha como guia uma mulher que se vingava ou uma mulher que ele tinha vingado. Batentes cediam, depois voltavam a fechar-se: os ladrilhos gastos baixavam docemente debaixo dos seus pés, como a curva mole de uma vaga; Aquiles e Misandre continuavam cada vez mais depressa a sua descida em espiral, como se a sua vertigem fosse uma gravidade. Misandre contava os degraus, desfiava em voz alta uma espécie de terço de pedra. uma porta abriu-se finalmente sobre as falésias, os diques, as escadas do farol: o ar salgado como o sangue e as lágrimas brotou diante do estranho par atordoado por essa maré de frescura. Com um riso duro, Misandre deteve o belo ser apanhando as suas saias, já prestes a cair, estendeu-lhe um espelho onde a aurora lhe permitia encontrar o seu rosto, como se ela não tivesse consentido em o trazer para o ar livre senão para lhe infligir, num reflexo mais aterrorizador do que o vazio, a prova nua e crua da sua não existência de deus. Mas a sua palidez de mármore, os cabelos ondulantes como as crinas de um capacete, a pintura misturada de choro, que se lhe colava às faces como o sangue de um ferido, reuniam pelo contrário, neste quadro estreito, todos os posteriores aspectos de Aquiles, como se aquele estreito pedaço de vidro tivesse aprisionado o futuro. O belo ser solar arrancou o cinto, desmanchou a écharpe, quis desembaraçar-se das musselinas asfixiantes, mas teve medo de se expor mais ao fogo das sentinelas, se tivesse a imprudência de se deixar ver nu». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

domingo, 27 de dezembro de 2015

A Benefício de Inventário. Marguerite Yourcenar. «O retrato de Galiano não passa de um libelo, inspirado pelo rancor senatorial; o de Cláudio, ‘o Gótico’, contém quase tanta verdade quanto um discurso eleitoral dos nossos dias ou que uma oração fúnebre do século XVII»

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Os Rostos da História na História Augusta
«(…) Em certos casos, a veracidade da História Augusta acha-se estabelecida por outros testemunhos da época. Noutros casos, e com uma singular frequência, os trabalhos dos historiadores modernos vieram posteriormente confirmá-la. As reformas económicas e administrativas de Adriano foram atestadas por demasiados textos epigráficos para que se possa acreditar que Espartiano, ou o biógrafo que toma este nome, se tenha limitado, como houve quem dissesse, a oferecer do reinado deste imperador uma pintura fantasista, copiada da imagem edificante do governo de Augusto. As incontáveis estátuas e medalhas de Antínoo descobertas do Renascimento até aos nossos dias confirmaram abundantemente a breve referência feita por este mesmo Espartiano à dor excruciante de Adriano quando da morte do favorito e às honras divinas prestadas à sua memória, a qual correria o risco de passar, sem aquelas, pelo tipo da falsificação escandalosa introduzida na biografia de um príncipe judicioso e recatado. Esse conto d'As mil e Uma Noites que é a história de Heliogábalo contada por Lamprídio parece hoje menos absurdo do que outrora, na sequência do nosso conhecimento mais exacto dos cultos e costumes do Oriente; vislumbramos o sentido daquilo que o cronista injuria sem o ter compreendido. Em suma, e apesar da longa lista de documentos forjados, de asserções absurdas e de confusões de nomes, de datas e de acontecimentos que ali podemos detectar, é menos no enunciado dos factos do que na interpretação dada aos factos que florescem frequentemente na História Augusta o erro e a mentira.
Em nove de cada dez vezes, a mentira é obviamente ditada pelo ódio sectário ou pela bajulação do príncipe no poder. O retrato de Galiano não passa de um libelo, inspirado pelo rancor senatorial; o de Cláudio, o Gótico, contém quase tanta verdade quanto um discurso eleitoral dos nossos dias ou que uma oração fúnebre do século XVII. E se é certo que este ódio e esta adulação proliferam sobretudo na biografia dos príncipes contemporâneos dos seus retratistas, também os imperadores mais recuados no tempo são igualmente difamados ou inocentados consoante as directivas políticas do cronista e as do presente Augusto. Cómodo foi seguramente um príncipe detestável, mas a sua vida por Lamprídio não é mais do que um furioso requisitório post mortem, que acaba por despertar no leitor o desejo de tomar partido a favor de uma besta-fera exposta à execração pública. Os historiadores apoiam no seu conjunto o grupo plutocrático e conservador em que o Senado se convertera; os melhores imperadores que puseram cobro a sinecuras senatoriais são vilipendiados; os piores são exaltados, se saem das fileiras senatoriais ou se o Senado apostou neles. Mas não há que exigir demasiada consistência aos biógrafos da História Augusta. Com mais frequência ainda do que ao preconceito, os seus erros parecem dever-se à palermice que acolhe sem crítica as primeiras historietas postas a circular, ao conformismo que os leva a aceitarem sem pestanejar qualquer versão oficial, e, pelo menos no que diz respeito à primeira parte da compilação, ao desfasamento no tempo.
Com efeito, mesmo na hipótese mais favorável, os biógrafos da História Augusta estão separados dos Antoninos, os seus grandes modelos, por urna distância de quatro a cinco quartos de século. Não era certamente a primeira vez que um historiador antigo se achava colocado tão longe, ou mesmo muito mais longe, da personagem que pretendia pintar. Mas o mundo antigo, na época de Plutarco, era ainda suficientemente homogéneo para que o biógrafo grego pudesse traçar a cerca de cento e cinquenta anos de distância uma imagem de César pouco mais ou menos talhada na mesma matéria que César. Na época em que foi feita a compilação da História Augusta, o mundo mudara, pelo contrário, ao ponto de tornar o modo de vida e de pensamento dos grandes Antoninos praticamente impenetrável por biógrafos postados já no caminho que conduz ao Baixo Império. Um pouco mais aproximados no tempo, mas mais exóticos, mais depressa deformados pela fantasia popular, os príncipes da dinastia síria desaparecem mais ainda sob uma floresta de lendas. As probabilidades de erro devidas ao recuo no tempo diminuem depois progressivamente com os Augustos que se devoram uns aos outros no decurso do resto do século III, mas modelos e pintores afundam-então igualmente nesse magma de confusão, de violência e de mentira que é o dos tempos de crise. De uma ponta à outra da História Augusta, tudo se passa como se um pequeno número de homens de letras de hoje, mais ou menos bem informados, mas medíocres, e muitas vezes mediocremente conscienciosos, nos contassem em primeiro lugar a história de Napoleão ou a de Luís XVIII servindo-se de uma mistura de peças autênticas e de anedotas prefabricadas, anacronicamente coloridas pelas paixões do nossos próprio tempo; e depois, passando para personagens e acontecimentos mais recentes, nos oferecessem sobre Jaurés, Pétain, Hitler ou de Gaulle uma massa de historietas sem valor misturadas com algumas informações úteis, uma avalancha de literatura de agências de propaganda e de revelações sensacionais de jornais da tarde». In Marguerite Yourcenar, A Benefício de Inventário, 1962, 1978, Difel, tradução de Rafael Filipe, Lisboa, 1988, Depósito legal nº 24582.

Cortesia de Difel/JDACT

domingo, 29 de novembro de 2015

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «Apenas Patroclo resistia ao encanto, rompia-o como uma espada nua. Um grito de admiração de Deidamia designou-o à atenção de Aquiles que mergulhou contra essa espada brilhante…»

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«Solidão... Não creio como os outros crêem, não vivo como os outros vivem, não amo como os outros amam... Mas morrerei como todos morrem». In Marguerite Yourcenar

«(…) O abrigo feminino onde a sua mãe o fechava transformava-se, para aquele emboscado, numa sublime aventura; tratava-se de entrar, debaixo da protecção de um corpete ou de um vestido, nesse vasto continente inexplorado das mulheres, onde o homem não penetrou até agora senão como vencedor, à luz dos incêndios do amor. Trânsfuga do campo dos machos, Aquiles vinha arriscar aqui a oportunidade única de ser algo mais que ele próprio. Para os escravos, pertencia à raça assexuada dos amos; o pai de Deidamia levava a aberração até amar nele a virgem que ele não era; apenas as duas primas se recusavam a acreditar naquela rapariga demasiado parecida com a imagem ideal que um homem faz das mulheres. Aquele rapaz ignorante das realidades do amor começava no leito de Deidamia a aprendizagem das lutas, das agonias, dos subterfúgios; o seu desfalecimento sobre aquela tenra vítima servia de substituto a uma alegria mais terrível que ele não sabia onde ir buscar, de que ignorava o nome, e que não era senão a Morte. O amor de Deidamia, os ciúmes de Misandre, voltavam a fazer dele o duro contrário de uma rapariga. As paixões ondulavam na torre como écharpes atormentadas pela brisa: Aquiles e Deidamia odiavam-se como aqueles que se amam; Misandre e Aquiles amavam-se como aqueles que se odeiam. Essa inimiga musculada tornava-se para Aquiles no equivalente de um irmão; esse rival delicioso enternecia Misandre como uma espécie de irmã. Cada onda que passava sobre a ilha trazia mensagens: cadáveres gregos, arrastados para o mar alto por ventos inauditos, eram outras tantas embarcações da armada naufragada, por falta de socorro de Aquiles; projectores buscavam-no no céu sob um disfarce de astro.
A glória, a guerra, vagamente entrevistas nas brumas do futuro, faziam-lhe o efeito de amantes exigentes cuja posse o obrigaria a demasiados crimes: ele pensava escapar do fundo dessa prisão de mulheres por solicitação das suas vítimas futuras. Uma grande barca de reis deteve-se aos pés do farol extinto que não era senão mais um escolho: Ulisses, Patroclo, Tersites, advertidos por uma carta anónima, tinham anunciado a sua visita às princesas; Misandre, repentinamente complacente, ajudava Deidamia a pôr ganchos na cabeleira de Aquiles. As suas grandes mãos tremiam como se tivesse acabado de deixar fugir um segredo. As portas abertas de par em par deixaram entrar a noite, os reis, o vento, o céu cheio de sinais. Tersites soprava, fatigado pelas escadas de mil degraus, esfregando entre as mãos os joelhos pontiagudos de enfermo: tinha o ar de um rei que por avareza se tivesse tornado no seu próprio truão. Patroclo, hesitando diante desse furão escondido no interior das Damas, estendia ao acaso as mãos com luvas de ferro.
A cabeça de Ulisses fazia pensar numa moeda usada, gasta, enferrujada, onde se viam ainda os traços do rei de Ítaca: a mão em pala sobre os olhos, como no cimo de um mastro, examinava as princesas encostadas à parede como uma tripla estátua de mulher; e os cabelos curtos de Misandre, as suas grandes mãos que sacudiam as dos chefes, o seu à-vontade, fizeram-no tomá-la primeiro como o esconderijo de um macho. Os marinheiros da escolta abriam as caixas, desembalavam, misturadas com os espelhos, as jóias, os estojos de esmalte, as armas que Aquiles por certo se apressaria a brandir. Mas os cascos manuseados pelas seis mãos maquilhadas lembravam aqueles de que se serviam os cabeleireiros; os cinturões amolecidos transformavam-se em cintos; nos braços de Deidamia, um escudo redondo parecia um berço. Como se o disfarce fosse uma má sorte a que ninguém escapava na ilha, o ouro transformava-se em vermelho, os marinheiros em travestis, e os dois reis em vendedores ambulantes. Apenas Patroclo resistia ao encanto, rompia-o como uma espada nua. Um grito de admiração de Deidamia designou-o à atenção de Aquiles que mergulhou contra essa espada brilhante, tomou entre as mãos a dura cabeça ciselada, como o punho de um gládio, sem se aperceber que os seus véus, as suas pulseiras, os seus anéis, faziam do seu gesto um transporte de apaixonada. A lealdade, a amizade, o heroísmo deixavam de ser palavras que serviam para os hipócritas mascararem as suas almas; a lealdade, eram esses olhos que se tinham mantido límpidos diante daquele amontoado de mentiras; a amizade seria os seus corações; a glória o seu duplo futuro». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

sexta-feira, 15 de maio de 2015

A Benefício de Inventário. Marguerite Yourcenar. «E no entanto, não é possível aos historiadores modernos da Antiguidade ignorar a ‘História Augusta’; mesmo aqueles que lhe negam qualquer valor são forçados, quer o queiram quer não, a servir-se dela»

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Os Rostos da História na História Augusta
«Se, de todas as Histórias que a memória humana registou, a de Roma fez reflectir mais filósofos, sonhar mais poetas e invectivar mais moralistas, tal deve-se em parte ao génio de um pequeno número de historiadores romanos (e a um par de historiadores gregos) que contribuíram poderosamente para prolongar até nós a recordação e o prestígio de Roma. É porque Plutarco nos mostra os conjurados arrojando-se no Senado sobre o divino Júlio que .César ficou sendo para nós, e isso mau grado todos os assassinatos políticos entretanto perpetrados, a imagem por excelência do ditador executado. É a Tácito que Tibério deve ter-lhe sido atribuído para sempre o papel do tirano misantropo, e Nero o do artista falhado. É porque a obra biográfica de Suetónio comporta doze imperadores que as prateleiras das nossas bibliotecas e as fachadas dos palácios do Renascimento são quase obrigatoriamente encimadas por doze bustos de Césares. Mas estes grandes historiadores, muitos dos quais foram primeiro e sobretudo grandes estilistas, floresceram todos, para empregarmos a expressão usual, no interior dos cerca de dois séculos que vão da juventude de César à maturidade de Adriano. O vulgar Domiciano, com que Suetónio encerra a sua revista dos Doze Césares, é o último imperador romano a beneficiar de um grande retratista. Depois dele, e durante os trezentos e cinquenta e poucos anos que decorrerão ainda até à queda de Roma, dispomos apenas de testemunhas medíocres, não só parciais (elas são-no sempre) mas crédulas, convencionais, confusas, muitas vezes excessivamente ligeiras ou exageradamente supersticiosas, trabalhando quase às claras com objectivos de propaganda, reflectindo no seu cérebro e na sua linguagem o fim de uma cultura, mas ainda assim apaixonantes porque a sua mesma mediocridade lhes confere uma espécie de veracidade, faz delas os intérpretes qualificados de um mundo agonizante.
A História Augusta, compilação em que seis historiógrafos fizeram alinhar vinte e oito retratos de imperadores, sem contar os de alguns pretendentes ao trono e de alguns Césares (título que significa aqui herdeiro presuntivo) falecidos prematuramente, oferece destes trezentos e cinquenta anos uma tranche de vida de pouco menos de dois séculos. A obra começa com Adriano e os seus sucessores imediatos, Antonino, Marco Aurélio, isto é, nos mais belos tempos da paz romana, no apogeu de um mundo que ignorava estar tão perto do seu fim. Termina com o obscuro Carino, numa hora crepuscular do fim do século III. O próprio nome e a existência dos cinco primeiros autores (Espartiano, Capitolino, Lamprídio, Polião, Vopiscus) é hoje matéria de controvérsia e as datas que lhes são atribuídas variam, consoante os eruditos e os especialistas, desde o meio do século II ao fim do século IV. Uma boa parte da recolha compila ou copia disfarçadamente biografias anteriores perdidas; ela mesma foi, por sua vez, abundantemente interpolada. Como tantas obras antigas, só chegou até nós através de algumas raras cópias incompletas e defeituosas, que se limitaram a salvá-la do esquecimento. E no entanto, não é possível aos historiadores modernos da Antiguidade ignorar a História Augusta; mesmo aqueles que lhe negam qualquer valor são forçados, quer o queiram quer não, a servir-se dela. Uma vez que os documentos que nos restam dos séculos II e III são dispersos e pobres, é neste texto incerto, e que eminentes eruditos puderam com razão suspeitar tratar-se de uma quase total impostura, que nós procuramos, à falta de melhor, um quinhão de verdade.
A autenticidade é uma coisa, a veracidade é outra. Qualquer que seja a data variando entre o ano mais recuado de 284 e o mais tardio de 395 em que se possa situar no seu conjunto a redacção da História Augusta, a questão que se levanta é a do crédito que ela nos deverá merecer. Este varia, evidentemente, de redactor para redactor e de página para página. A própria verosimilhança nem sempre é para o leitor um critério decisivo, uma vez que a noção do plausível, em matéria histórica, depende dos costumes, dos preconceitos e das ignorâncias de cada tempo. E assim, por exemplo, que os eruditos do século XVII, impregnados de tradição cristã, aceitavam de bom grado qualquer retrato de cores negras dos imperadores pagãos, por eles considerados por junto como infames perseguidores da Igreja nascente; depois, por reacção, a implícita confiança na natureza humana dos letrados do século XVIII e, mais tarde, a afectada reserva de um certo tipo de historiadores do século XIX, o seu curioso respeito pelos homens do poder, mesmo mortos há mil e oitocentos anos, ou simplesmente a falta de experiência da vida nestes homens de gabinete, levaram-nos muitas vezes a declarar impossíveis ou improváveis factos que um leitor mais habituado a olhar de frente a realidade não hesita em considerar plausíveis ou verdadeiros. As atrocidades a que assistimos em pleno século XX ensinaram-nos a ler com menos cepticismo a narrativa de crimes de imperadores da Decadência; e, no que diz respeito à história dos costumes, já La Rochefoucauld observava que os deboches de Heliogábalo nos surpreenderiam menos, se a historia secreta dos nossos contemporâneos fosse melhor conhecida». In Marguerite Yourcenar, A Benefício de Inventário, 1962, 1978, Difel, tradução de Rafael Filipe, Lisboa, 1988, Depósito legal nº 24582.

Cortesia de Difel/JDACT

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Peregrino e Estrangeiro. Ensaios. Marguerite Yourcenar. «… a pastora levando debaixo da comprida blusa o cordeiro nascido na véspera, o burrinho embranquecido pela poeira dos caminhos, ou o jovem pescador um pouco atarantado, imóvel como um bronze antigo, plantado na praça da aldeia»

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A Última Olímpica
«(…) Por pequena que seja, a aldeia não se espanta de ser atravessada por um autocarro de turismo ou de ser visitada por um avião, ou ainda, se se gaba de ter uma pequena enseada aberta ao mar, de ser acostada por algum iate vindo do estrangeiro, tal como Atenas tão-pouco fica surpreendida, pelas belas noites de Verão, de se ver atravessada por um rebanho de cabras transumantes, trocando a erva seca do Pentético pela erva seca do Parões. E os últimos noctâmbulos, sentados à mesa do terraço do café, nem sequer viram a cabeça; e os viajantes internacionais, deitados nas suas camas de hotel, ouvem batidos nos seus sonhos. O contraste, tradicional no nosso país, entre o aldeão e o citadino, está aqui despojado de sentido: o opulento armador e o chefe da aldeia, que veio tratar de algum assunto a Atenas, não contrastarão quando sentados à mesa do mesmo cafezinho na proximidade do Parténon; saborearão o mesmo líquido negro; beberricarão pelos mesmos copos de água e atirarão o resto à poeira numa libação inconsciente à frescura; estenderão ao mesmo garoto engraxador os sapatos, cedo reluzentes de brilho puxado com igual cuidado. Esta zona aldeã onde seca, em monte, a uva de Corinto, tem a sua taberna onde jovens elegantes de casaco coçado e senhores idosos de fato escuro, eternas personagens de coro grego, comentam as notícias do mundo e a do distrito no mesmo tom rápido e desprendido que os clientes dos cafés atenienses. Ainda como no teatro e para lembrar que a costa, os oliveirais ou as encostas ervosas das colinas estão muito perto, mensageiros do mar e dos campos passam de tempos a tempos sob os plátanos: a pastora levando debaixo da comprida blusa o cordeiro nascido na véspera, o burrinho embranquecido pela poeira dos caminhos, ou o jovem pescador um pouco atarantado, imóvel como um bronze antigo, plantado na praça da aldeia, de braço erguido e segurando delicadamente pelos ouvidos um enorme peixe azul:

Cartas de Gobineau a duas atenienses
Uma Atenas ainda provinciana apesar da sua recente categoria de capital, regida por uma monarquia de origem dinamarquesa; uma casa espaçosa com um rododendro; duas jovens de crinolina, de cabelos só há pouco tempo penteados para cima, estudam conscienciosamente piano e francês sob o olhar de uma mãe afectuosa; um ministro da França quase cinquentão, todo ardente de talento e de obras inacabadas, já um pouco gasto pela vida; e, por cima de tudo isso, o céu limpo da Ática, alternadamente azul ao sol e malva ao crepúsculo. Visitas diárias, conversas cada vez mais íntimas durante uma chávena de café turco, quatro anos passados numa familiaridade constante que nunca renuncia a certas reservas e a certas graças antiquadas; a partida, por fim, e o arrancar do cruel adeus, a ausência, uma visita breve ao cabo de longos anos, uma correspondência mantida durante toda a vida. Tal é a história de Gobineau e das suas duas amigas atenienses, Zoé e Maria Dragoumis. Parece ter preferido a mais velha, que era grave e altiva, mas apercebemo-nos disso sobretudo porque, em geral, escreve à mais nova, a arreliadora e risonha Maria, e ainda duvidamos se se trata de um amor disfarçado de amizade ou de uma amizade mista de amor, ou antes, de mágoas.
A colecção das Lettres de Gobineau à deux Athéniennes abarca toda uma gama de sentimentos delicados, um pouco desusados, talvez artificiais, mas de modo algum falsos, sempre mais ou menos perturbada pelas mais ligeiras relações de um homem com duas raparigas. O delicado problema não é apenas colocado: Gobineau resolve-o com tacto incomparável: esse rude Viking que se lançava ao assalto das ideias, encontra para as suas duas amigas o tom da ternura mais alegre e mais doce. Sem se desnaturar, sem nunca perder a graça, ela supera de modo brilhante a distância que o separa das duas jovens cuidadosamente guardadas: ele reduz essa torrente de emoções, de pensamentos, de experiências e de trabalhos às dimensões de um riacho de Atenas. Elas são as suas conselheiras, as suas inspiradoras; é a elas que dá parte do seu projecto da Histoire des Perses e de La Benaissance. Nunca se esquece de acompanhar de respeito os beijos permitidos pela distância, que depõe mais quatro mãozinhas que tocam o Septuor e só por vezes lhe acontece aflorar de longe os seus cabelos. Esse nómada da diplomacia serve-se delas para passar o Rio, Copenhaga e os horrores do Paris da Comuna por um filtro grego». In Marguerite Yourcenar, En Pélerin et Étranger, Gallimard, 1989, Peregrino e Estrangeiro, Ensaios, Livros do Brasil, Lisboa, 1990.

Cortesia LBrasil/JDACT

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «… em movimento, perder essa fixidez que nos faz reconhecer que ela é o duro contrário da vida. Ela dá-nos o fim do cisne atingido em pleno voo, de Aquiles agarrado pelos cabelos por não sabemos que sombria ‘Razão’»

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«Espero que este livro nunca venha a ser lido. Há entre nós melhor do que um amor: uma cumplicidade». In Marguerite Yourcenar

«(…) Confessa-se antes de morrer para ter mais uma vez o prazer de falar do seu crime. Sem mudar de lugar, regressa ao palácio familiar onde a falta é uma inocência. Empurrada pela multidão dos seus antepassados, desliza ao longo desses corredores de metro, cheios de um cheiro animalesco, onde os remos quebram a água gordurosa do Styx, onde os carris luminosos não propõem mais do que o suicídio ou a partida. No fundo das galerias de mina da sua Creta subterrânea, acabará finalmente por encontrar o jovem desfigurado pelas dentadas de fera, uma vez que, para se lhe reunir tem todos os desvios da eternidade. Não voltou a vê-lo desde a grande cena do terceiro acto; foi por causa dele que ela morreu; foi por causa dela que ele não viveu; ele não lhe deve senão a morte; ela deve-lhe os sobressaltos de uma agonia inextinguível. Tem o direito de o tornar responsável pelo seu crime, pela sua imortalidade suspeita nos lábios dos poetas, que se servirão dela para expressar as suas aspirações ao incesto, como o condutor que jaz na estrada, de crânio desfeito, pode acusar a árvore contra a qual foi embater. Como qualquer vítima, foi o seu carrasco. Palavras definitivas sairão por fim dos seus lábios, que a esperança já não faz tremer. Que dirá ela? Certamente, obrigada.

De avião, junto a ti, já não temo o perigo. Não se morre senão sozinho
Nunca serei vencida. Não o serei senão à força de vencer. Cada armadilha estendida fechando-me cada vez mais no amor que acabará por ser o meu túmulo, acabarei a minha vida numa cela de vitórias. Sozinha, a derrota encontra chaves, abre portas. A morte, para atingir o fugitivo, tem de se pôr em movimento, perder essa fixidez que nos faz reconhecer que ela é o duro contrário da vida. Ela dá-nos o fim do cisne atingido em pleno voo, de Aquiles agarrado pelos cabelos por não sabemos que sombria Razão. Como a mulher asfixiada no vestíbulo da sua casa de Pompeia, a morte não faz mais do que prolongar no outro mundo os corredores da fuga. A minha morte será de pedra. Conheço as passagens, as curvas, as armadilhas, todas as minas da Fatalidade. Não posso perder-me. A morte, para me matar, terá necessidade da minha cumplicidade. Já notaste que os fuzilados se abaixam, caem de joelhos? Tornando-se moles apesar das cordas, dobram-se como se desmaiassem depois de um ataque. Fazem como eu. Adoram a sua morte. Não há amor infeliz: não possuímos senão aquilo que não possuímos. Não há amor feliz: o que possuímos, já não o possuímos. Nada a temer. Cheguei ao fundo. Não posso cair mais baixo do que o teu coração.

Aquiles ou a mentira
Tinham apagado todas as lâmpadas. As criadas, na sala térrea, teciam às cegas os fios de uma trama inesperada que se tornava na das Parcas; um bordado inútil pendia das mãos de Aquiles. O vestido negro de Misandre já não se distinguia do vestido vermelho de Deidamia; o vestido branco de Aquiles ficava verde debaixo da lua. Desde a chegada dessa jovem estrangeira na qual todas as mulheres pressentiam um deus, o temor tinha-se introduzido na ilha, como uma sombra deitada aos pés da beleza. O dia já não era o dia, mas sim a máscara loura pousada sobre as trevas; os seios das mulheres tornavam-se couraças em gargantas de soldados. Desde que Tétis tinha visto formar-se nos olhos de Júpiter o filme dos combates em que sucumbiria Aquiles, procurara em todos os mares do mundo uma ilha, um rochedo, um leito suficientemente estanque para vogar no futuro. Esta deusa agitada tinha quebrado os cabos submarinos que transmitiam na ilha os abalos das batalhas, furado o olho do farol que guiava os navios, expulso a golpes de tempestade as aves migratórias que levavam ao seu filho as mensagens de irmãos de armas. Tal como os camponeses põem roupas de rapariga aos filhos doentes, para despistar a Febre, ela tinha-o vestido com as suas túnicas de deusa que derrotariam a Morte. Esse filho infectado pela mortalidade lembrava-lhe a única falta da sua juventude divina: tinha dormido com um homem sem tomar a precaução banal de o transformar em deus. Encontravam-se nele os traços desse pai grosseiro, revestidos de uma beleza que não retinha senão dela, e que um dia deveria tornar-lhe mais penosa a obrigação de morrer. Vestido de seda, velado de gases, atafulhado de colares de ouro, Aquiles penetrara por sua ordem na torre das jovens; tinha acabado de sair do colégio dos Centauros: cansado de florestas, sonhava com cabeleiras; farto de gargantas selvagens, sonhava com seios». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Peregrino e Estrangeiro. Ensaios. Marguerite Yourcenar. «… de uma Alexandria antiga ou de uma Roma, mas o lugar onde cada um se informava do preço das azeitonas, onde a voz de Sócrates se ouvia de uma ponta à outra da ‘Ágora’»

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A Última Olímpica
«(…) Os heróis gregos, crianças radiosas, brincavam com a morte como se brinca a andar sobre a própria sombra, com a Vitória como com um torcaz ensinado a pousar-lhes na mão. Achamo-nos aqui num dos raros pontos de contacto entre a Grécia e a Galileia onde um jovem deus se serve dos pássaros e das flores dos campos para as suas comparações: Se não vos tornardes como crianças... A Terra procria, alimenta, adormece sobre os joelhos o seu filho Aquiles, cujos pés leves foram os ossinhos da Sorte, seu filho Pélope, seu filho Alexandre, que fez do mundo uma pista olímpica. A aclamação das multidões não é mais vã que o barulho das folhas; um corpo que cai não é mais trágico que uma árvore que tomba. A morte é, quando muito, o verme inocente do belo fruto, e a árvore, e o homem e o verme integram a Natureza, ela própria o corpo dos deuses. O crepúsculo desce, tão dourado como foi a manhã, como foi o pleno dia. Os cimos recolhem-se, aceitam a noite com a mesma graça com que aceitavam a aurora. Um pouco de luz estagna no côncavo do vale, como um pouco de água no côncavo de uma mão fresca. A noite paira, tecida de oiro como um estojo divino. Aqui a obscuridade é mais maternal, mais fraternal que amorosa: a Grande Mãe muda-se em Boa Virgem: Deméter torna a ser Perséfone; Latona torna a ser Ártemis.
Os joelhos terrestres recobrem-se lentamente de um veludo estrelado. O leite de Hera escorre na Via Láctea, brotado de uma mordedura no seio azul. A sombra onde tudo se torna Sombra mal deixa adivinhar, na palestra, a mais esbelta das colunas, fuste agora solitário em torno do qual os jovens lutadores de antanho decerto passaram muitas vezes o braço como em volta de uma cintura, e que não se pode ver sem se pensar em Hipólito. A vida, madrasta ardente e repelida sob a forma de Fedra, suscitava contra ele um monstro que Hércules teria exterminado sem custo, mas cujo sopro bastava para destruir esse mancebo virgem, esse mancebo-flor. Depois, fatal, tranquilizante, lunar, a Morte aproximava-se dele sob a forma de Ártemis. Ele adivinhava-a sem a ver, pois os moribundos não fazem senão adivinhar os deuses. E nós que incessantemente morreremos a nossa vida, nós tão-pouco entrevimos Ártemis. Mas aspiramos aqui o seu perfume de erva e de astro e, deitados sob esse céu, sob essas luzes, vemos na noite um pedaço do seu manto». 1934

Aldeias gregas
«Tomemos, por exemplo, uma aldeia da Eubeia ou do Peloponeso ou mesmo dos arredores de Atenas. São as mais simples, as mais nuas. Não maravilham como as aldeias secas das ilhas, ossos polidos, conchas encantadoras, lentamente formadas pelo homem em colaboração com o mar. Não convidam, como as aldeias do Dodecaneso, das ilhas da Ásia Menor ou mesmo da Trácia, a uma doce indolência como o céu e as melopeias do Oriente. Pura forma da habitação humana, informam-nos da maneira como as cidades nasceram e muitas vezes se perpetuaram. A Atenas de Teseu era uma aldeia; a Atenas bizantina voltara a ser outra e suspeita-se de que, nos mais belos tempos, assim permaneceu: nem a poesia secreta e buliçosa das cidades do Oriente, nem a arquitectura prestigiosa, só de fachadas, de uma Alexandria antiga ou de uma Roma, mas o lugar onde cada um se informava do preço das azeitonas e da última peça de Sófocles, onde a voz de Sócrates se ouvia de uma ponta à outra da Ágora. Tal como Atenas que, por muito modernizada que esteja, permanece uma aldeia, apesar dos seus anúncios a néon e dos buildings que não fazem senão elevar um pouco mais ao céu os habituais terraços, a aldeia é uma cidade reduzida aos seus elementos essenciais: a igreja ladeada por uma espécie de pombal para sinos; a loja onde se vende de tudo e cujo dono fala inglês por ter estado em Nova lorque ou no Transval; o seu garagista heróico, pronto a lançar os seus velhos Ford por todos os caminhos pedregosos da Grécia; enfim, o seu café, com os seus dois ou três plátanos e umas quantas mesas de ferro rodeadas de cadeiras de palha, lugar sacrossanto da política, dos ócios e do sonho que não sonha nada». In Marguerite Yourcenar, En Pélerin et Étranger, Gallimard, 1989, Peregrino e Estrangeiro, Ensaios, Livros do Brasil, Lisboa, 1990.

Cortesia LBrasil/JDACT

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «Entre os lençóis húmidos de febril, consola-se com a ajuda de sussurros de confissão que chegam até às da infância, balbuciadas no pescoço da ama; suga a sua infelicidade; transforma-se por fim na miserável criada de Fedra»

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«Espero que este livro nunca venha a ser lido. Há entre nós melhor do que um amor: uma cumplicidade». In Marguerite Yourcenar, ‘Fogos

«(…) Ausente, a tua figura aumenta a ponto de encher o universo. Passas ao estado fluido que é o dos fantasmas. Presente, ela condensa-se; atinges as concentrações dos metais mais pesados, do irídio, do mercúrio. Morro com esse peso quando ele me cai sobre o coração. O admirável Paul enganou-se. (Falo do grande sofista e não do grande pregador.) Existe, para todos os pensamentos, para todos os amores que, entregues a si próprios, talvez desfalecessem, um cordial singularmente enérgico que é todo o resto do mundo, que está em oposição a ele, e que não o vale. Solidão... Não creio como eles crêem, não vivo como eles vivem, não amo como eles amam... Morrerei como eles morrem. O álcool desembriaga. Depois de alguns golos de conhaque já não penso mais em ti.

Fedra ou o desespero
Fedra consegue tudo. Abandona a mãe ao touro, a irmã à solidão: estas formas de amor não a interessam. Abandona o seu país como quem renuncia aos seus sonhos; renega a família como quem vende as suas recordações na feira da ladra. Nesse meio em que a inocência é um crime, assiste desgostosa àquilo em que acabará por se tornar. O seu destino, visto do exterior, horroriza-a: ainda não o conhece senão sob a forma de inscrição na muralha do Labirinto: pela fuga arranca-se ao seu horrível destino. Desposa distraidamente Teseu, tal como Santa Maria a Egípcia pagava com o corpo o preço da sua passagem; deixa afundar-se no Ocidente, num nevoeiro de tábula, os matadouros gigantes da sua espécie da América cretense. Desembarca, impregnada com o odor do rancho e dos venenos do Haiti, sem saber que traz em si a lepra contraída sob um tórrido Trópico do coração. A sua estupefacção à vista de Hipólito é a de um viajante que descobre ter retrocedido no seu caminho sem o saber: o perfil daquela criança recorda-lhe Cnossos, e o machado de dois gumes. Odeia-o, educa-o; ele cresce contra ela, repelido pelo seu ódio, desde sempre habituado a desconfiar das mulheres, forçado desde a escola, desde as férias do Ano Novo, a saltar os obstáculos que espalha em seu redor a inimizade de uma madrasta. Ela tem ciúme das suas flechas, quer dizer, das suas vítimas, dos seus companheiros, quer dizer, da sua solidão. Nessa floresta virgem que é o lugar de Hipólito, planta inconscientemente os postes indicativos do palácio de Minos: traça através desses bosquedos o caminho de sentido único da Fatalidade. Em cada instante, recria Hipólito; o seu amor é realmente um incesto; não pode matar aquele rapaz sem cometer uma espécie de infanticídio. Fabrica a sua beleza, a sua castidade, as suas fraquezas; arranca-as do fundo de si própria; isola dele essa pureza detestável, para a poder odiar na figura de uma virgem insípida: forja com todas as peças a inexistência de Arícia. Embebeda-se do gosto do impossível, único álcool que serve sempre de base a todas as misturas da infelicidade. No leito de Teseu, tem o amargo prazer de na realidade enganar aquele que ama, e em imaginação aquele que não ama. É mãe: tem filhos como teria remorsos. Entre os lençóis húmidos de febril, consola-se com a ajuda de sussurros de confissão que chegam até às da infância, balbuciadas no pescoço da ama; suga a sua infelicidade; transforma-se por fim na miserável criada de Fedra. Perante a frieza de Hipólito, imita o sol quando incide num cristal: transforma-se em espectro; já não habita o seu corpo senão como o seu próprio inferno. Reconstrói no fundo de si própria um Labirinto onde não pode senão reencontrar-se: o fio de Ariana já não lhe permite sair de lá pois que o enrolou em redor do coração. Enviúva; pode finalmente chorar sem que lhe perguntem porquê; mas o negro não fica bem a essa figura sombria: ela odeia o seu luto por dar troco à dor. Desembaraçada de Teseu, transporta a sua esperança como uma vergonhosa gravidez póstuma. Faz política para se distrair de si própria: aceita a Regência tal como começaria a tricotar um xaile. O regresso de Teseu dá-se demasiado tarde para a fazer regressar ao mundo das fórmulas onde se acantona esse homem de Estado; não consegue lá entrar senão por meio de um subterfúgio; inventa, de alegria em alegria, a violação de que acusa Hipólito, de tal forma que a sua mentira é para ela uma saciedade. Diz a verdade: suportou os maiores ultrajes; a sua impostura é uma tradução. Toma veneno, porque está mitridatada contra si própria; o desaparecimento de Hipólito cria o vazio em seu redor; aspirada por esse vazio, mergulha na morte». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «… conter verdades entrevistas muito cedo, mas que, de seguida, toda a vida não foi demasiada para tentar reencontrar e autenticar. Este baile de máscara foi uma das etapas de uma tomada de consciência»

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«(…) O importante é tentar demonstrar nestes jogos (onde, com efeito, o sentido de uma palavra, joga com a sua montagem sintáxica), não uma forma deliberada de afectação ou um gracejo, mas sim, como no lapsus freudiano e nas associações de ideias duplas ou triplas do delírio e do sonho, um reflexo do poeta, a contas com um tema particularmente rico, para ele, de emoções ou de perigos. Num trabalho meu, e o mais afastado possível de qualquer procura de estilo, e com maior razão ainda de qualquer ironia estilística, foi espontaneamente, sem ver que daí resultaria um calemburgo, que dei ao carcereiro da prisão onde agoniza o herói do livro, o nome de Hermann Mohr. Por muito que eu diga (o que, no entanto, é em princípio verdade) que uma compilação de poemas sobre o amor não necessita de comentários, sei que parece que procuro recusar o obstáculo ao tratar tão longamente de características estilísticas ou temáticas, ao fim e ao cabo secundárias, e ao passar em silêncio a experiência passional que inspirou este livro. Mas, além de sentir o ridículo de comentar demasiado longamente uma obra que desejaria que nunca fosse lida, não é este o local para examinar se o amor total por um ser particular, com tudo o que comporta de risco para si e para o outro, de inevitável burla, de verdadeira abnegação e humildade, mas igualmente de violência latente e de exigência egoísta, merece ou não o lugar exaltado que os poetas lhe deram.
O que parece evidente, é que esta noção do amor louco, por vezes escandaloso, e no entanto imbuído de uma espécie de virtude mística, não pode já subsistir senão associada a uma qualquer forma de fé na transcendência, ainda que apenas no seio da pessoa humana, e que uma vez privada do suporte de valores metafísicos e morais hoje desdenhados, talvez porque os nossos predecessores abusaram deles, o amor louco depressa deixa de ser outra coisa que um jogo vão de espelhos ou uma triste mania. Em fogos onde eu apenas pensava glorificar um amor muito concreto, ou talvez exorcizá-lo, a idolatria do ser amado associa-se muito visivelmente a paixões mais abstratas, mas não menos intensas, que por vezes prevalecem sobre a obsessão sentimental e carnal: em Antígona ou a escolha, a escolha de Antígona é a justiça; em Fédon ou a vertigem, a vertigem é a do conhecimento; em Maria Madalena ou a salvação a salvação é Deus. Não há aqui sublimação, como pretende uma fórmula decididamente infeliz, e insultante para a própria carne mas sim percepção obscura de que o amor por uma dada pessoa, por muito intenso, não é muitas vezes senão um belo acidente passageiro, menos real em certo sentido do que as predisposições e as escolhas que o antecedem e lhe sobreviverão. Através do ímpeto ou da desenvoltura inseparáveis deste género de confissões quase públicas, alguma passagens de fogos parecem-me hoje conter verdades entrevistas muito cedo, mas que, de seguida, toda a vida não foi demasiada para tentar reencontrar e autenticar. Este baile de máscara foi uma das etapas de uma tomada de consciência». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

Fogos. 1935. Prosas Líricas. Marguerite Yourcenar. «… queimado por mais fogos do que aqueles que ateei, não nos faça ver por detrás deste amante desesperado o imenso braseiro de Tróia, e sentir naquilo que para as pessoas de bom gosto não parece mais do que um reles equívoco…»

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«… Essa tendência que persiste ou renasce em cada época em todas as literaturas, apesar das sensatas restrições puristas ou clássicas, obstina-se, talvez quimericamente, na criação de uma linguagem totalmente poética, na qual cada palavra carregada com o máximo do sentido revelaria os seus valores escondidos, tal como debaixo de certas iluminações se revelam as fosforescências das pedras. Trata-se sempre de concretizar o sentimento ou a ideia, sob formas que se tornam elas próprias preciosas (o termo é revelador em si próprio), como essas gemas que devem a sua densidade e o seu brilho à pressões e à temperatura quase insustentáveis pelas quais passaram, ou ainda em obter da linguagem as sábias distorções das ferroadas do Renascimento, cujos complicados ornamentos foram inicialmente ferro em brasa. O que de pior se pode dizer destas audácia verbais é que aquele que a elas se entrega corre permanentemente o risco do abuso e do excesso da mesma maneira que o escritor que se dedica aos litotes clássicos corre incessantemente o perigo da elegância seca e da hipocrisia.
No mau sentido da palavra, naquilo que eu chamaria voluntariamente o expressionismo barroco, foi que nove vezes em dez o poeta cedeu com efeito ao desejo de espantar, de agradar ou de desagradar a qualquer preço; acontece por vezes também que é incapaz de ir até ao âmago da ideia ou da emoção que o poeta lhe oferece, e na qual ele não vê, erradamente, mais do que metáforas forçada ou frios conceitos. Não é culpa de Shakespeare, mas sim nossa, que, quando o poeta compara o seu amor pelo destinatário dos Sonetos a um túmulo pavimentado com os troféus das suas antigas paixões, não sintamos flutuar por cima de nós todos os estandartes da época elisabetina. Não é culpa de Racine, mas nossa, que o famoso verso pronunciado por Pirro, apaixonado por Andrómaca, … queimado por mais fogos do que aqueles que ateei, não nos faça ver por detrás deste amante desesperado o imenso braseiro de Tróia, e sentir naquilo que para as pessoas de bom gosto não parece mais do que um reles equívoco indigno do grande Racine, o obscuro arrependimento do homem que foi impiedoso e começa a saber o que é sofrer. Esse verso onde Racine, por um processo frequente nele, reanima a metáfora dos fogos do amor, já gasta no seu tempo, voltando a dar-lhe o brilho das verdadeiras chamas, leva-nos à técnica do calemburgo lírico, que faz, por assim dizer, desenhar com a mesma palavra os dois ramos de uma parábola. Se, para voltar a fogos, Fedra, para a sua descida aos infernos, aproveita ramos que são ao mesmo tempo os de Charon e os do metro, é que o afluxo humano que redemoinha às horas de ponta nos corredores subterrâneos das nossas cidades é para nós talvez a imagem mais aterrorizadora do rio das sombras; se Tétis é ao mesmo tempo o mar e a mãe, é porque este equívoco, que de resto não faz sentido senão em francês, funde num todo o aspecto duplo de Tétis mãe de Aquiles e de Tétis divindade das vagas. Poderia multiplicar os exemplos, que em fogos valem o que valem». In Marguerite Yourcenar, Feux, 1935, Éditions Galimard, 1974, Difel, Lisboa, 1995, ISBN 972-29-0315-2.

Cortesia Difel/JDACT

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Ensaios. Peregrino e Estrangeiro. Marguerite Yourcenar. «Uma igreja romana em ruínas em último plano, entre folhagens escuras, troncos de árvores descopados ou retorcidos, sepulturas, um ribeiro, “que é quase a assinatura de Ruysdael”»

jdact e cortesia de ruysdael

O homem que assinava com um ribeiro
«Ruysdael é um grande pintor muito mal apreciado. Limitado que está pelos manuais destinados a paisagistas, o que é uma definição muito restrita, pois que a paisagem assim tratada quer dizer tudo, somos tentados a ver nele um pré-romântico à Salvator Rosa, acumulando folhagens e rochedos para produzir efeitos surpreendentes e decorativos. E esse sombrio sonhador difere muito, certamente, dos outros retratistas da terra holandesa, incluindo Rembrandt aguarelista e gravador. Todos se distinguem pelo sentido das perspectivas imóveis que são as do seu país, pelo traçado sempre bem visível da linha do horizonte, pela presença plana das águas e pela doce mistura de bruma e de claridade que é a dos céus da Holanda.
Pelo contrário, Ruysdael (e, mais tarde, Hobbema, mas este foi seu aluno) escolheu amar sobretudo os bosquezinhos emaranhados, sem serem impenetráveis, isolados na lande ou, mais raramente, na planície arável por detrás dos quais se descobre sempre uma extensão de céu, a água fervilhante de pequenas torrentes que parecem ter puído as pedras com o tempo, algumas aldeias geladas pelo Inverno, quase brutalmente fechadas, onde a própria presença de um patinador seria incongruente e o peso enorme de algumas marinhas com navios balouçando na água agitada. Destas sombrias visões numa realidade que se assemelha ao sonho, as mais estranhas são talvez os seus cemitérios judeus nas proximidades de Amesterdão, sobretudo a tela de Dresda.
Falou-se de simbolismo: decerto que qualquer paisagem simboliza, quanto mais não seja, como se disse, um estado de alma. Na verdade, bem parece que o artista amador de :contrastes de luz e de sombra teve sobretudo nesse cemitério judeu a sorte do que então se chamava um belo motivo. Uma igreja romana em ruínas em último plano, entre folhagens escuras, troncos de árvores descopados ou retorcidos, sepulturas, um ribeiro, que é quase a assinatura de Ruysdael; erodindo a terra e que os ricos possuidores desse campo dos mortos por certo que; na realidade, não teriam deixado infiltrar-se assim. Tudo isso; se se quiser, é uma alegoria do fim das coisas ou das promessas de além-túmulo (às quais faria alusão, na réplica de Detroit, um arco--íris) ou da indiferença da natureza ou, pelo contrário, de uma vida vegetal tão vencida pelo tempo como os monumentos humanos. É possível que o pintor aí tenha visto principalmente o encanto tão forte sobre ele de uma sombria realidade que se transpõe pouco a pouco em sonho». In Marguerite Yourcenar, En Pélerin et Étranger, Gallimard, 1989, Peregrino e Estrangeiro, Ensaios, Livros do Brasil, Lisboa, 1990.

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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Peregrino e Estrangeiro. Ensaios. Marguerite Yourcenar. «O segredo mais profundo de Olímpia está nesta única nota pura: lutar é um jogo, viver é um jogo, morrer é um jogo; perda e ganho mais não são que diferenças passageiras…»

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«(…) Tal como no passado, os homens continuarão indubitavelmente a escolher, de entre essas alternativas anteriores, à sua época, as que melhor servem de antídoto aos seus próprios erros, ou que estão de acordo com as suas opiniões consideradas como subversivas ou, pelo menos, condenadas, pela maioria que os rodeia. A filosofia platónica foi uma forma apaixonada de livre idealismo nos círculos florentinos do século XV, oferecendo aos espíritos elementos que não eram necessariamente contrários ao pensamento cristão, pelo menos, assim o acreditaram, mas que o pensamento cristão, só por si, não lhes trazia. Os pré-socráticos só foram verdadeiramente compreendidos quando, por um lado, o estudo do pensamento oriental e, pelo outro, as novas concepções da ciência relativamente ao universo, mostraram a profundidade dos seus dados. O hedonismo e o pirronismo antigos serviram sempre ao pensamento ocidental de defesa contra os excessos do dogmatismo e do ascetismo.
O mesmo se pode dizer das nossas vidas individuais. Decerto algum homem ou alguma mulher pedirá lições de coragem à sabedoria estóica, comparará as suas noções sobre o amor com a de Platão, do tempo com as de Zenão de Eleia, ou algum espírito apaixonado de realidade pura beberá nas fontes do Tao-Te-King.

A Última Olímpica
Há vitórias e uma volta da roda transforma-as em derrotas; há derrotas e a justiça divina dá-lhes com o tempo o aspecto de vitórias: Olímpia, cidade onde se gemeu por não se ter ganhado a coroa, onde se chorou de alegria por havê-la conquistado e onde agora mais não resta do que obter a aprovação muda do silêncio e o ramo que a imparcialidade do vento entrega ao acaso. Um vale suave qual palma de mão humana atravessada pela linha do coração de uma ribeira, pela linha da vida de um rio e onde se abaula a leste o monte de Júpiter, franqueado pelo sol da manhã como se por um disco lançado por um lutador. Outrora, no tempo em que a Grécia era uma Índia pejada mas não sobrecarregada de deuses, uma equipa de sacerdotes entregava-se aqui a esfregar com azeite a estátua colossal do Zeus de Vitória na mão. Não podemos deixar de admirar sem reservas esse deus de marfim e de ouro cuja menção basta para nos lembrar que Olímpia foi um lugar aonde se vinha para orar, mas também para receber coroas.
Porém, antes da introdução do culto de Zeus, outras estátuas imperavam aqui, estátuas de mulheres: Hera de olhos bovinos, eterna como a erva, pacífica como os animais dos campos. O Zeus mais tardio não passa de uma imitação barbuda dessa grande fêmea venerável. Tal como em La Géante, um dos poemas em que Baudelaire atinge a Grécia dos mitos porque não a procurou, estamos aqui sobre os joelhos de uma mulher divina. Os pinheiros umbrosos são a sua cabeleira, em que oliveiras misturam fios cinzentos; os cursos de água são as suas veias; o turbilhão das vitórias mais não é do que um voo de pombas de penugem branca dispersa pelos séculos. Os robustos atletas eram, sem dúvida, jovens árvores; os suplicantes, troncos erguendo ao céu os seus dois ramos. Tudo aqui proclama não tanto a metamorfose quanto a profunda identidade. Até algumas colunas ainda enraizadas neste solo parecem espantar-se de não deitarem ramos ou de não darem flores, como as ninfas que se tornavam arbustos, como os rapazes que se tornavam narcisos ou jacintos.
Os joelhos da Terra são macios aos frutos, aos corações caídos. Há que vir aqui para ver derrota e triunfo fundirem-se num todo que nos ultrapassa, mas que, sem nós, estaria incompleto. Entre a vida e a morte, entre a alegria e o seu contrário, há luta, tréguas e finalmente acordo. Acordo: a flauta de um pastorzinho que passa modula essa palavra na língua do buxo, na língua do junco. Esse som apenas perceptível insere-se no silêncio em lugar de quebrá-lo. O segredo mais profundo de Olímpia está nesta única nota pura: lutar é um jogo, viver é um jogo, morrer é um jogo; perda e ganho mais não são que diferenças passageiras, mas o jogo reclama todas as nossas forças e a sorte, por aposta, aceita tão somente os nossos corações». In Marguerite Yourcenar, En Pélerin et Étranger, Gallimard, 1989, Peregrino e Estrangeiro, Ensaios, Livros do Brasil, Lisboa, 1990.

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segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Peregrino e Estrangeiro. Ensaios. Marguerite Yourcenar. «… aconchegada a si própria no decurso de alguns séculos, excepcional e única, oferecendo simultaneamente um exemplo ideal da arte de pensar, das virtudes heróicas, da beleza e da arte de viver»

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A Alguém que me perguntava se o Pensamento Grego continua válido para Nós
«O pensamento grego, ou melhor, as diferentes formas tomadas pelo pensamento dos filósofos gregos, é essencialmente minoritário: quero eu dizer que, na própria Grécia e na sua época, essas ideias foram de todas as vezes apanágio de um pequeno número. Não falemos do pensamento grego no seu conjunto: falemos das escolas pré-socráticas, da Academia, dos Peripatéticos, do Pórtico ou dos Jardins de Epicuro. No decurso do último século, demasiados espíritos bem intencionados (Renan era um deles e poderíamos citar muitos outros) tentaram apresentar ao público, uma Grécia perfeita e, por assim dizer, aconchegada a si própria no decurso de alguns séculos, excepcional e única, oferecendo simultaneamente um exemplo ideal da arte de pensar, das virtudes heróicas, da beleza e da arte de viver. Esta imagem ideológica e académica era falsa; não correspondia, bem entendido, à realidade viva de um povo durante vários séculos; contribuiu muito, sobretudo em França, para o público perder o gosto pelas leituras e pelos estudos gregos: não se sentia interesse por aquela estátua demasiado perfeita, talhada num mármore demasiado branco. Mas a realidade é diferente. Em matéria de filosofia em todo o caso, o que se passa com a Grécia é o mesmo que se passa com a China, que nunca ninguém, salvo alguns ingénuos entusiastas do século XVIII, que a viam de muito longe, pensou apresentar como a imagem exemplar da perfeição humana no decurso da sua história milenária, mas que; tal como a Grécia, soube formular, ao longo dos séculos, todas as vistas possíveis sobre a metafísica e a vida, o social e o sagrado, e oferecer, para os problemas da condição humana, soluções variadas, convergentes ou paralelas, ou muitas vezes diametralmente opostas, de entre as quais o espírito possa escolher. Gregas ou chinesas, o seu valor, tal como o de uma equação algébrica, permanece o mesmo, sejam quais forem as realidades particulares a que cada geração o aplica. Passa-se com Confúcio e com Mêncio, com o místico Lao-Tseu ou com o hedonista Motsu, ou ainda com os pragmáticos Legalistas, o mesmo que com os chefes das diferentes escolas gregas: representam pontos de v:ista que não cessarão de se combater, de se sustentar mutuamente ou de se corrigir, uns pelos outros, enquanto o homem for homem. No futuro tal como no passado, numerosos espíritos tornarão inevitavelmente a ter esses pontos de vista ou a propor essas mesmas soluções, espontaneamente, e, por assim dizer, pela força das coisas, sem sequer se referirem aos seus predecessores. Todavia, é provável que, a menos de uma catástrofe que faça desaparecer todas as culturas, venham por vezes a apoiar-se conscientemente sobre esses homens que enfrentaram os mesmos problemas, e que isso confirme e fortaleça o seu sentimento da continuidade e da fraternidade humanas através do tempo». In Marguerite Yourcenar, En Pélerin et Étranger, Gallimard, 1989, Peregrino e Estrangeiro, Ensaios, Livros do Brasil, Lisboa, 1990.

Cortesia LBrasil/JDACT