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segunda-feira, 9 de março de 2020

Alpalhão. Património Histórico e Artístico. Vítor Serrão, João Cosme, Carmen Balesteros e Margarido Ribeiro. «Há nella Mrizericordia com provedor e irmãos e hospital, erecta pella devoção e doaçans dos devotos que fazem de renda reqularmente cem mil reis, e cento e trinta réis»

jdact

Memória 16
«(pag. 141). Fica esta villa na provincia do Alemtejo, bispado de Portalegre.
He de el-Rey nosso senhor, ahinda que tem alguas terras de comenda, como Montalvão, Niza que se chamam terras do Mestrado, e da comenda que há da Ordem de Christo. Hé o seu comendador o Excelentissimo duque de Lafoens.
Tem quatrocentos e vinte fogos; e mil e quatrocentas pessoas sogeitas a hua só freguesia de Nossa Senhora da Graça, igreja apresentada por el-Rey na Meza da Com[s]ciencia por concurso, com vigario que tem dous moyos de trigo e meyo, vinte e oito mil réis e cincoenta e dous almudes e vinho, e o pé-de-altar trinta mil réis.
Tem coadjutor com dous moyos de trigo, e seis mil réis, vinte e cinco almudes de vinho. Thezoureyro com hum moyo e quinze alqueires de trigo, três arrobas de cera lavrada, cinco mil reis, oito alqueyres de azeyte.
Esta igreja tem seis altares: da Senhora da Graça que hé o orago, da Senhora da Purificação, do Menino Deus, da Senhora do Rozario, do capelo do Arcediago e das Almas.
Tem quatro irmandades a que chamam confrarias: das Almas e do Rozario, e das (pag. 142) Chagas e da Senhora da Purificação.

Está esta villa situada em hum campo mas ahinda que plano, tem sua altura donde se avista Montalvão, distante duas legos; e Niza, outras duas; Castelo Branco, oito; Villa Velha, quatro, e Aris duas; Castelo de Vide, duas. O seu termo tem por todas as partes meya legoa, muito fecundo de senteyo, feyjão e milho meudo e algum trigo.

Há nella Mrizericordia com provedor e irmãos e hospital, erecta pella devoção e doaçans dos devotos que fazem de renda reqularmente cem mil reis, e cento e trinta réis.

Tem capitão-mayor, dous capitaens da Ordenança, hum de Auxiliares, e hum sargento-mor. Fora da villa tem hua ermida de Santo Antonio, outra de S. Sebastiam e do calvario; e outra meya legoa distante de Nossa Senhora da Redonda, imagem muito milagroza e de grande veneração não só para os desta villa mas tambem para as circunvizinhanças, e honde vêm com muitas romarias de Veram. E os da villa da Amieyra, distante três legoas, vêm todos os anos; a Justiça e toda a Nobreza com provizão de el-Rey para fazerem gastos à custa dos bens do concelho.
Dentro tem duas ermidas: a de S. Pedro e da Santa Caza da Mizericordia. Tem dous juizes ordinarios, escrivam de camera, escrivão dos orphãos, escrivão do judicial e notas, (pag. 143) alcayde.
A mizericordia governa-se pello compromisso da de Lisboa.
Tem esta vrlla finalmente seu sinal de muralha que hé ao redor hua parede mais larga, arruinada e quazi posta no alicerce, e hum castello no meyo com hua das quatro faces arruinada pelos castelhanos em Mayo de mil e settecentos e quatro. Este pello terremoto foi só o que padeceo nesta villa perecer hua pequena parte lá do alto da mesma face offendida, que as outras três se conservam inteiras. Dista de Portalegre quatro legoas, de Lisboa trinta e duas.

(Rio)
Há mais hua ribeyra que, por fazer ao rio Sor, lhe deu a sua origem, que hé junto à aldeã de Lagoa, termo de Portalegre, ahonde de huns regatos se forma; e na distancia de duas legoas, a esta villa por cujo termo passa, faz moinhos que moem nos annos bem regulados de Outubro athé Mayo.
Pela pequenhez deste termo alcançaram os moradores desta villa provizoens dos senhores reys passados para serem os pastos comuns, e poderem entrar com os seus gados no termo da villa de Niza.
Há mais outra ribeyra ou riozinho chamado do Figueirô, de tão excelentes bordalos que, entrando hum homem desta villa em hua igreja da cidade de Coimbra a tempo que se faziam exorcismos a hum energúmeno (pessoa que nunca veyo a esta terra, nem o conhecia), disse o diabo: oh, homem de Alpaham! Bons bordalos de Figueirô! 0h! 0h! E por a não acabarem o diabo, guarde Deos a quem me manda fazer este papel». In João Cosme e José Varandas, Memória 16, Memórias Paroquiais, 1758, Lisboa, Caleidoscópio, Alpalhão, Património Histórico e Artístico, Vítor Serrão, João Cosme, Carmen Balesteros e Margarido Ribeiro, 2015, ISBN 978-989-205-579-4.

Cortesia de TurismoAlentejoRibatejo/JFAlpalhão/LAAlpalhão/JDACT

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Marcas de Simbologia Religiosa Judaica e Cristã em Ombreiras de Porta. Carmen Balesteros. «Pensamos que o fenómeno dos rasgos longitudinais pode ser explicado de várias formas. Entre as várias explicações plausíveis a que nos parece mais aceitável é que estes rasgos longitudinais possam continuar, ainda que de forma diferente, a tradição hebraica/judaica de marcar nas ombreiras das portas a adesão a um culto»


Cruz gravada na umbreira da janela. Encinasola
Marca na ‘mezuzah’ numa casa da rua dos Mercadores. Évora
cb e jdact

Os Rasgos Longitudinais
«Este género de marcas é constituído por traços verticais que podem atingir uma profundidade de 0,5 cm e um comprimento que pode oscilar entre os 10 cm e os 50 cm. Apresentam-se isoladamente, um único rasgo, ou num conjunto de vários rasgos, e tanto podemos identificá-los nas ombreiras direitas como nas ombreiras esquerdas das portas. Quando identificamos este género de marcas, isoladamente ou em pequenos conjuntos, a situação mais frequente é que estes se registem em ambas as ombreiras.
Tendo iniciado a nossa investigação em Castelo de Vide, verificámos que um grande número de casas do bairro judaico, ainda que não exclusivamente, apresenta gravações longitudinais que alguns explicam como resultando da necessidade dos sapateiros afiarem as suas sovelas. Suspeitámos que não fosse esta a explicação única e os dados até agora recolhidos mostram que, na maior parte dos casos, dificilmente se poderá compreender o fenómeno como resultando exclusivamente do desempenho duma actividade artesanal.
Pensamos que o fenómeno dos rasgos longitudinais pode ser explicado de várias formas, ainda que julguemos dever ser, predominantemente, entendido como um ritual de carácter mágico/religioso. Entre as várias explicações plausíveis a que nos parece mais aceitável é que estes rasgos longitudinais possam continuar, ainda que de forma diferente, a tradição hebraica/judaica de marcar nas ombreiras das portas a adesão a um culto.
Os rasgos longitudinais encontram-se geralmente em habitações, igrejas, conventos, caso do antigo convento de Sta Catarina em Estremoz, ou edifícios ligados à Igreja, caso do antigo Paço Arquiepiscopal de Évora. No caso das habitações é em Castelo de Vide que o fenómeno é mais expressivo pelo grande número de casas que apresentam gravações longitudinais nas ombreiras das portas. No caso das igrejas ou conventos os casos mais notáveis, pela quantidade e aparente escolha intencional do local de gravação, são Zamora, Barcelona, Encinasola.

As Epígrafes de Referência Religiosa
Este último grupo de marcas diz respeito à gravação de abreviaturas ou frases de referência religiosa. Este género de marcas identificam-se nas jambas das portas, caso de Elvas e Castelo Rodrigo, nos lintéis das janelas, como em Borba, ou nos lintéis das portas, caso de Trujillo em que a inscrição hebraica de Sl 118,20 permite localizar com grande probabilidade a sinagoga medieval.
Para além destas epígrafes temos também casos em que se identifica a inscrição de uma data em relação com uma ou várias cruzes nas jambas, lintéis das portas, ou na fachada de um edifício.
São estes os casos do Sabugal, Vila Viçosa, Guarda, Celorico da Beira e Estremoz. As datas inscritas distribuem-se pelo século XVI, caso de Celorico da Beira; séc. XVII, caso da Guarda e Celorico da Beira; e séc. XVIII caso de Sabugal, Vila Viçosa e Estremoz.

Distribuição das Marcas por Géneros Arquitectónicos
As diferentes marcas de simbologia religiosa que têm sido objecto do nosso estudo podem ocorrer em quatro grupos arquitectónicos diferentes:
  • Arquitectura civil de utilização privada ou pública (ex.: habitações, fontes, moinhos);
  • Arquitectura religiosa (ex.: igrejas, conventos, sinagogas);
  • Arquitectura militar (ex.: portas ou panos de muralha);
  • Outros (ex.: Rocha dos Namorados, Reguengos de Monsaraz, Pedra das Gamelas, Arraiolos.
In Carmen Balesteros, Ibn Maruán, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 7, 1997.

Fonte da Vila. Castelo de Vide
cb e jdact
Cortesia da C. M. de Marvão/JDACT

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Marcas de Simbologia Religiosa Judaica e Cristã em Ombreiras de Porta. Carmen Balesteros. «… o hábito da marcação de cruzes, nas ombreiras das portas, independentemente da intenção de quem as marcou, seja um ritual de carácter mágico/religioso […] na tradição religiosa hebraico/judaica de marcar nas ombreiras das portas, a marca na “mezuzah”, a afirmação do culto monoteísta»


Rasgos longitudinais nos pilares da igreja. Encinasola

Cruz gravada na umbreira da janela. Encinasola
cb e jdact

As Cruzes
«Ainda que as figuras cruciformes sejam anteriores a Jesus Cristo e já sejam também conhecidas no mundo vetero-testamentário, foi o cristianismo que se apoderou da cruz como símbolo identificador, pela morte de Cristo crucificado. Assim, a marcação de uma cruz num determinado espaço pode ser compreendida como um elemento de cristianização desse espaço. Consideramos também que o hábito da marcação de cruzes, sobretudo nas ombreiras das portas, independentemente da intenção de quem as marcou, seja um ritual de carácter mágico/religioso cuja origem deve procurar-se na tradição religiosa hebraico/judaica de marcar nas ombreiras das portas, a marca na “mezuzah”, a afirmação do culto monoteísta.
Depois de analisados os dados recolhidos no conjunto das 43 povoações estudadas verificamos que as cruzes, acompanhadas ou não da gravação de uma data, se apresentam, geralmente, nas ombreiras direitas ou esquerdas das portas, existindo ainda casos em que estas foram gravadas nas ombreiras das janelas, nas soleiras, ou nos lintéis das portas, ou ainda nos muros e paredes de fortificações e igrejas. Encontramos também casos em que a gravação de cruzes ocorre nos cunhais de uma casa, como em Évora na Rua dos Mercadores ou de uma igreja, caso de Marvão na Igreja de Sta Maria. A gravação de cruzes verifica-se não só em habitações, mas também em moinhos, casos de Castelo de Vide e Alpalhão, fontes públicas, casos de Castelo de Vide e Vila Viçosa e ainda em templos como em Vila Viçosa, Estremoz, Monforte, Marvão, Trujillo, Alcântara, Zamora e Barcelona ou em fortificações como no Redondo, Monsaraz, Vila Viçosa, Alandroal, Celorico da Beira e Almeida. Noutros casos foram gravadas cruzes em rochas ou monumentos megalíticos. No que diz respeito a este género de marcações, as cruzes, verificamos ainda que, apenas em duas localidades, Estremoz e Belmonte, podemos identificar a prática da marcação de cruzes invertidas.

As Marcas na Mezuzah
O texto do Shemá Israel, constitui a oração fundamental do povo judaico e é assim denominada por, as primeiras palavras desta oração serem Shemá Israel, que significa “Escuta Israel”. O Shemá Israel é uma verdadeira afirmação do culto monoteísta, que manda recordá-lo a cada momento da vida e procura evitar o seu esquecimento por diversas formas e também pela obrigação do crente o escrever nas ombreiras das portas da sua casa. Este é um texto vetero-testamentário que pode ser encontrado no “Livro do
Deuteronómio” capítulo 6, versículos 4 a 9, ou nas releituras de Dt 11 ,13-21 e ainda em Ex 13,9.16:
  • "Escuta Israel, O Senhor e só ele é o nosso Deus. Ama o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Que os mandamentos que hoje te dou estejam sempre na tua memória. Ensina-os continuamente aos teus filhos e repete-os, tanto ao deitar como ao levantar, quer estejas em casa, quer vás de viagem. Deves trazê-los no teu braço como um distintivo, na tua testa como emblema. Escreve-os nas ombreiras das tuas portas e em todos os teus portões". Dt 6,4-93.
A obrigação de marcar na “mezuzah”, palavra hebraica para ombreira de porta, a adesão ao culto monoteísta judaico, pode explicar a identificação de concavidades de cerca de 10 cm de altura e cerca de 2 cm de largura e outros tantos de profundidade, nas ombreiras de algumas portas.
As marcas na “mezuzah” identificam-se, geralmente, na jamba direita a cerca de 2/3 de altura a partir da soleira da porta. Conhecemos apenas dois casos, um em Monsaraz e outro em Évora, em que a marca na “mezuzah” se encontra na jamba esquerda ou na pedra de soleira de uma porta, apresentando o silhar granítico em que estas foram abertas, sinais de reutilização.
Estas concavidades destinar-se-iam a guardar um estojo que continha no seu interior um pequeno pergaminho em que escreviam as palavras de Dt 6-4-9; 11, 1 3-21. Um notável exemplo de estojo contendo o respectivo rolo do Shemá, encontra-se na Biblioteca Pública de Évora. O estojo consiste num fragmento de cana que foi devidamente preparado para guardar no seu interior um pequeno manuscrito em que se pode ler, em escrita quadrada hebraica, a oração do Shemá com os versículos de Dt 6,4-9; 11, 13-21. Demos já informação sobre marcas na “mezuzah” identificadas em edifícios de Castelo de Vide, Évora, Monsaraz, Albuquerque (Cáceres), e Trujillo bem como, sobre alguns casos em que nos parece existirem marcas na “mezuzah” posteriormente cristianizadas, casos de Nisa, Albuquerque e Valência de Alcântaras.
O desenvolvimento do nosso trabalho permitiu agora identificar em Castelo de Vide outra marca na “mezuzah” aberta no portal granítico localizado, actualmente, no interior de uma habitação da Rua da Judiaria, dois outros casos na Rua das Aldas, no Porto, bem como outros dois casos no interior da Judiaria de Évora.
Em Évora, num dos novos casos identificados, a marca na “mezuzah” localiza-se, como é comum, ainda que parcialmente cheia por argamassa, na jamba direita da porta duma casa na Rua da Moeda. Noutro dos casos identificados em Évora, a marca na “mezuzah” encontra-se na face externa da pedra de soleira duma casa situada na Travessa do Barão, arruamento onde se localizaram duas das sinagogas medievais desta cidade». In Carmen Balesteros, Ibn Maruán, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 7, 1997.

Cruzes em cunhais de habitação. Vila Viçosa

As ombreiras da porta apresentam várias gravações. Celorico da Beira
cb e jdact

Cortesia da C. M. de Marvão/JDACT

sábado, 21 de abril de 2012

Convento de Nossa Senhora da Estrela de Marvão. Localização Espaço-temporal. Carmen Balesteros. «Possidónio Laranjo Coelho, dá-nos uma informação importante. Para além da capela ou ermida, existiria já em 1258, nesse local, um convento de franciscanos […] fazer remontar a origem deste Convento, não ao século XV mas sim aos meados do século XIII»


jdact

«O convento de N. Sra. Da Estrela de Marvão, localiza-se extra muros, a nascente da denominada “Porta da Vila”. A sua edificação, fora do circuito protector das muralhas, revela-nos que à data da sua construção, já estaria provavelmente afastado o ambiente de guerras e consequente instabilidade socioeconómica que caracterizaram o Portugal da Reconquista: talvez por isso, nem o edifício da Igreja, nem sequer o do convento que se lhe adoça, foram estruturados de forma a resistir aos ataques do exterior, encontrando-mo nos perante edifícios que não manifestam as características de “Igreja-fortaleza”, tão vulgares em época um pouco mais recuada.
Vários autores atribuem a fundação do convento ao ano de 1448, data à qual, estaria já também longe e momentaneamente afastado, o perigo da pretensão castelhana ao trono de Portugal, não deixando no entanto, e apesar do clima de acalmia bélica, de ser estranho que esta Igreja e o respectivo convento se abram tão despreocupadamente para o exterior. Não podemos esquecer que Marvão é uma importante fortaleza da raia, e que em épocas de guerra funcionou como estrutura defensiva fulcral para a resposta aos ataques do inimigo secular de Portugal: Castela.
Esta aparente incapacidade para resistir aos ataques do exterior leva-nos a colocar a hipótese de este espaço sagrado ter sido respeitado por ambos os tradicionais contentores, prolongando-se o culto e a devoção à Sra. da Estrela de Marvão para o lado de lá da fronteira, fenómeno aliás que ainda hoje se mantém, confraternizando portugueses e espanhóis nas festas laicas e religiosas uns dos outros.
Assim, a Igreja e o Convento poderão ter estado protegidos pela força intrínseca de uma crença que naturalmente não conheceu fronteiras político-administrativas. Disto que nos dá testemunho Fr. Agostinho de Sta. Maria no santuário mariano:
  • “… dizem que huma Senhora grande de espanha, vindo nos mesmos tempos da guerra referida, ou antes della, a visitar aquelle santuário da Senhora da Estrela, levada da grande devoção que lhe tinha, mandára com industria formar outra em tudo muito semelhante & que em huma das visitas que lhe fazia, a recolhera em hum bauzinho, que levava, deyxando em seu lugar o que mandara fazer”
 Os poderes atrubuídos à Sra. da Estrela são tais que, como nos conta ainda Fr. Agostinho de Sta. Maria, a mesma senhora concorre com a fortificação de Marvão para a defesa do seu povo:
  • “… em huma oacfião intentarão os castelhanos tomar a villa de Marvão por interpreza, ou traição machinada por algum que mostrou ser pouco amigo da sua pátria. E chegando depois da meya noite, quando se lhes reprefentou que tinhão bem logrado a sua diligencia, repentinamente lhes amanheceo, ou se antecipou o dia. E neste tempo tocarão os religiosos os sinos, ou do ceo mandou a rainha da gloria aos seus Anjos, que lhe tocassem a rebate”.
Não é sem razão portanto, que o mesmo autor denomina a Sra. da Estrela de “Vigilante Sentinela”, que mais de uma vez terá, com a sua intervenção, protegido os portugueses dos ataques dos castelhanos. Mas a razão da edificação da igreja e do convento, naquele local, ainda que fora de muralhas, prende-se sem dúvida com a lenda que a justifica. Conta-se que após a batalha de Guadalete, em que foi derrotado Rodrigo, o último rei dos Visigodos, derrota essa que abriu a Península Ibérica à ocupação árabe, os habitantes de Marvão terão procurado a protecção das Astúrias, preferindo deixar a sua terra a sujeitar-se ao invasor muçulmano. As imagens que não puderam levar consigo tê-las-ão escondido de forma a evitar a sua profanação.

Cortesia de carmenbalesteros

Entre 1160 e 1164 e no âmbito da Reconquista Cristã e formação do território português, o “morro” de Marvão voltou de novo à posse dos Cristãos. Diz-nos a lenda que, pouco depois, numa noite de brenhas em que um pastor vigiava o seu rebanho, este foi surpreendido pelo brilho inaudito de uma estrela, sucesso esse que se repetiu durante várias noites, até que com um companheiro decidiu subir ao cimo do monte, guiado pela misteriosa luz.
Aí chegado, veio a descobrir, oculta numa pequena gruta, a imagem que durante cerca de 300 anos permanecera aguardando um oportunidade para se revelar. Nesse mesmo local foi a imagem da Senhora, venerada e adorada enquanto se lhe não construiu capela mais adequada.
A bula do papa Nicolau V, datada de 7 de Julho de 1448, autoriza a fundação do convento de N. Sra. da Estrela, mas pensamos que nessa altura existiria já e pelo menos, uma pequena capela ou ermida em que a imagem da Senhora era venerada. Possidónio Laranjo Coelho, dá-nos uma informação importante. Para além da capela ou ermida, existiria já em 1258, nesse local, um convento de franciscanos e de acordo com uma notícia que o mesmo autor terá visto inserta num manuscrito da Torre do Tombo. A darmos crédito a esta informação, teríamos que fazer remontar a origem deste Convento, não ao século XV mas sim aos meados do século XIII». In Carmen Balesteros, Ibn Maruán, Revista Cultural do Concelho de Marvão, Coordenação de Jorge Oliveira, nº 1, 1991.

Cortesia da C. M. de Marvão/JDACT

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Carmen Balesteros: Marcas de Simbologia Religiosa Judaica e Cristã.

Cortesia de callipole
Marcas de Simbologia Religiosa Judaica e Cristã. Para o levantamento prévio em povoações da raia portuguesa e espanhola. Carmen Balesteros, Callipole, revista cultural, nº 3/4, 1995/1996

«Começámos por nos debruçar sobre esta questão aquando do estudo desenvolvido sobre a Judiaria e a Sinagoga de Castelo de Vide, e não pudemos ficar-lhe indiferentes quando estudámos a Sinagoga de Valência de Alcântara-Cáceres.
No decorrer do estudo sobre a Sinagoga Medieval de Évora, verificámos existirem no núcleo urbano medieval da cidade algumas constantes identificadas nos casos anteriores, no que diz respeito entre outras coisas, à existência de marcas de simbologia religiosa com um discurso simbólico e estético muito semelhante. Assim sendo, consideramos justificar-se um estudo específico do assunto.

Sobre a questão específica das Marcas de Simbologia Religiosa Judaica e Cristão importa agora juntar os dados obtidos pelo alargamento da área de investigação às povoações de Vila Viçosa, Elvas, Monsaraz, Redondo, Borba, Alandroal.

Cortesia de callipole

As marcas de simbologia religiosa judaica e cristã sobre as quais nos debruçámos, ocorrem sobretudo em ombreiras de porta ou de janela, permitindo-nos os levantamentos até agora realizados, a elaboração de uma tipologia genérica mas que aponta para uma divisão das marcas identificadas em quatro grupos:
  • As marcas nas mezuzot;
  • As marcas longitudinais;
  • As cruzes cristãs;
  • As abreviaturas católicas.
Até agora, as marcas menos frequentes são as marcas nas mezuzot e as abreviaturas católicas, estas ainda menos que aquelas. As marcas que nos parecem resultar da prática judaica de marcar as ombreiras das portas, ou marcas nas mezuzot, foram localizadas, até agora, em Évora, Monsaraz, Castelo de Vide e Albuquerque (Espanha), ao passo que as marcas longitudinais e as cruzes cristãs revelam, em contrapartida, uma frequência e uma dispersão geográfica significativamente maiores. As marcas identificáveis nas quatro localidades referidas são bastante semelhantes entre si, tratando-se de concavidades de cerca de 10 cm de altura por 2 cm de largura e o mesmo de espessura, abertas todas elas em portadas graníticas a uma altura do chão que varia naturalmente, em função das dimensões da respectiva porta. Em qualquer dos casos, a localização da concavidade possibilita(va) que uma pessoa de estatura média a pudesse tocar ao ultrapassar a porta.

Cortesia de callipole

As concavidades destinavam-se a guardar um pequeno estojo que continha no seu interior um rolo de pergaminho ou papel no qual se inscreviam as palavras do Shemá, oração fundamental o culto judaico, elaborada a partir das palavras de Deuteronómio ou de Êxodo.
Para além da total adesão íntima e pessoal à fé monoteísta, e da necessidade do esforço de transmissão no espaço do núcleo familiar do credo religioso monoteísta, pressupostos pelo texto sagrado, apela-se ainda à utilização de sinais exteriores no corpo humano mas também nos umbrais da casa, que marquem e lembrem constantemente aos seus utilizadores a fé que os identifica.
( … )
Um outro género de marcas é constituído pelas cruzes cristãs e abreviaturas católicas, cujo significado simbólico se torna de mais fácil e rápida identificação. Até agora, os núcleos urbanos antigos onde encontrámos as maiores frequências deste género de marcas foram os de Valência de Alcântara-Cáceres, Alpalhão e Trancoso, ainda que nesta e noutras localidades tenhamos também identificado alguns dos outros géneros de marcas já referidos. Se bem que a informação disponível não aponte para uma significativa presença judaica medieval em Alpalhão, o mesmo não podemos dizer de Trancoso, terra do sapateiro Bandarra, ou de Valência de Alcântara, onde se casaram D. Manuel I e a infanta D. Isabel, filha de Fernando e Isabel, os Reis Católicos, existido em ambas as localidades comunas judaicas que possuíram as suas sinagogas.


Cortesia de callipole

A preocupação de cristianizar os espaços encontra-se nas casas, nas fortificações, ou mesmo noutros espaços públicos vitais como as fontes, como é o caso da fonte da praça Martim Afonso em Vila Viçosa, onde a base quadrangular de três das colunas marmóreas, apresenta a marcação de várias cruzes». In Carmen Balesteros, Callipole, revista cultural, nº 3/4, 1995/1996.

Cortesia de callipole
Cortesia de Callipole/Vila Viçosa

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

O Rio Sever. Centro do polígono turístico do Norte Alentejano: O rio de águas correntes que fogem da serra e das barragens até à fronteira - aí onde, junto das pontes e da piscina natural. ... por esse encanto, deram para todo o sempre o nome de SE VER / SEVER e ao lugar o de Porto dos Cavaleiros... Lenda e história, cultura e tradição aqui se dão as mãos

Cortesia de Norte Alentejano

O Rio Sever
Centro do polígono turístico do Norte Alentejano
«Desça o visitante dos montes e vales de S. Mamede e faça o percurso do pentágono turístico que assenta seus outros vértices na monumental cidade de Portalegre de evocação regiana, em Castelo de Vide, terra de águas puríssimas, em Marvão, ninho de águias de alcantilada fortaleza e em Valência de Alcântara, autêntico álbum de portas ogivais, já em terras de Espanha, ali a dois passos... Desça e repouse finalmente no centro do polígono - a Portagem, no sítio da Aramenha, no vale do Sever, o rio de águas correntes que fogem da serra e das barragens até à fronteira - aí onde, junto das pontes e da piscina natural, o espera o conforto de uma boa cama e o sabor de uma excelente mesa, típica, regional, autêntica, inesquecível, de bons petiscos, de bons vinhos.
Repouse no Sever, tal como o fizeram as damas da corte fidalga que em longínquos tempos ali passaram e nas límpidas águas do rio se miraram à falta de espelho, nele se ver puderam seus formosos rostos e ao rio, por esse encanto, deram para todo o sempre o nome de SE VER / SEVER e ao lugar o de Porto dos Cavaleiros...
Lenda e história, cultura e tradição aqui se dão as mãos e oferecem ao visitante arqueologia e arte, paisagem e beleza, em terras que foram de romanos e mouros, terras que se estendem desde os borbulhantes Olhos de Água às Caleiras da Escusa, desde a romana Ammaia à mourisca Aramanha até às arribas de Marvão e as fragosas águas da Serra Fria...
Estes são os sítios que nas margens do rio lendário o convidam a um momento de tranquilo repouso e de saboroso repasto, onde O Sever é um espelho para o visitante se ver e rever em férias de sonho...». In Manuel Inácio Pestana.




Cortesia de Norte Alentejano

«Durante o sua estada nesta zona do Norte Alentejano maravilhe-se com o cor do Presente que se cheiro, se toca e se sente. Saiba, contudo, que também o Passado distante gravou na pedra e na terra com labor, as misérias e grandezas doutros que, antes de nós também aqui estanciaram.
A cidade romano de Ammaia, em S. Salvador da Aramenha, já citado pelos autores clássicos e nos trabalhos impressos desde o século XVI, constitui, só por si, uma riqueza patrimonial notável a exigir visita atenta.

Cortesia de Norte Alentejano

Apesar de já no século XVII Diogo Pereira de Sotto Mayor ter defendido que Ammaia se localizava no sítio da Aramenha, até cerca de 1930 confundiu-se esta cidade com a cidade de Medóbriga e defendeu-se que a Ammaia se localizara em Portalegre. A confusão estabeleceu-se porque muita pedraria da cidade romana localizada na Aramenha foi sendo transportada, ao longo dos séculos, para Portalegre, onde foi reutilizado na construção doutros monumentos. Em 1935 Leite de Vasconcelos estabelecia, finalmente, que a cidade de Ammaia se localizava na Aramenha.


Cortesia de Norte Alentejano

Ao longo dos tempos muitos foram os materiais arqueológicos exumados, sem carácter científico, neste sítio arqueológico. Actualmente, a escavação científico da cidade de Ammaia permitiu já reconstituir e / ou identificar parte da Praça Pública, da Muralha e Torres Defensivas, os Banhos, um Templo e o Teatro. Se esta foi terra escolhida de romanos para aqui fundarem uma sua cidade também o foi, na Idade Média, para local de vivência das minorias religiosas muçulmanas e judaica cuja presença deixou testemunhos escritos e arqueológicos. No antigo cemitério do Convento de N. Sra da Estrela de Marvão foram identificadas duas cabeceiras de sepultura medievais decoradas com a menorah ou candelabro judaico de sete braços. Estas duas peças de grande valor histórico / arqueológico, fazem hoje porte do Núcleo Judaico do Museu Municipal de Marvão instalado na Torre da Portagem de Marvão onde funcionou a Alfândega Medieval da vila. instalada junto ao rio Sever, a antiga Torre da Alfândega constitui um polo de interesse para o visitante à procura do rico Património judaico desta região.


Cortesia de Norte Alentejano

No contexto de efemérides nacionais evocativas da passagem dos 500 Anos do Édito de Expulsão dos judeus de Portugal - 1496 - 1996 -, perante as autoridades portuguesas e israelitas, nesta torre se descerrou uma lápide que lembro os milhares de Judeus espanhóis que em 1492, depois do Édito de Expulsão de Espanha, atravessaram a fronteira à procura de abrigo em Portugal. Escolheu-se esta Torre pelo seu peso simbólico no contexto deste outro êxodo do povo judaico.

Cortesia de filhodovento2006
A Expulsão dos Judeos de Espanha contribuiu para que a população judaica tivesse aumentado em Portugal, sobretudo nas zonas da raia. Sendo esta uma zona raiana, os testemunhos históricos / arqueológicas da presença judaica são abundantes de um e outro lado da fronteira. Também do ponto de visto dos usos e costumes é possível identificar aqui as permanências judaicas como o bolo da massa, a evocar a Mazah, ou os molhinhos que, O SEVER Residencial e Restaurante, na margem esquerda do rio lindo de se ver, lhe permitirá saborear». In Carmen Balesteros.

Cortesia do Norte Alentejano/JDACT