Mostrar mensagens com a etiqueta Soraya Silveira Simões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Soraya Silveira Simões. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «… os papéis que a sua vida lhe exigia e citava, o de mãe, avó, dona-de-casa e esposa, mostrando que o de ‘prostituta’ não a impedia de exercer os da vida doméstica, da mulher direita, da mulher da casa e feita para o casamento»

Cortesia de wikipedia

A prostituição e a cidade: problemas públicos e identidade social
«(…) O denominador comum de cada um desses tipos de prostituição é o lenocínio, isto é, a organização comercial que garante a prostituição de outrem. O cáften, o rufião, a cafetina, o proxeneta, o gigolô, o dono de bordel, de termas ou de casas de massagem, figuras, enfim, que possibilitam o trabalho ou vendem proteção à prostituta contra ataques de clientes ou mesmo contra agentes do Estado, são, segundo as leis brasileiras, o único aspecto criminal da prostituição. Enquanto a chamada prostituição localizada costuma ser tolerada por configurar uma espécie de cordão sanitário e região moral que responde aos interesses do poder público, a prática do trottoir, mais visível e difusa, é combatida por métodos muitas vezes violentos. Na década de 1960, a polícia da capital recolhia cerca de 80 mulheres por dia, o que, ao final do mês, somava cerca de 1400 mulheres levadas às delegacias e encaminhadas às malocas, local onde permaneciam detidas de 2 a 5 dias em condições inexistentes de higiene. Nesses recintos, eram obrigadas a dormir no chão e, frequentemente, também molestadas pelos policias que as guardavam.
A humilhação ou a obrigação de obediência são, contudo, práticas de controle igualmente disseminadas nos estabelecimentos da chamada prostituição localizada. Nessas cidadelas geridas pela figura do proxeneta, a prostituta torna-se a menina da casa. Mas, para tanto, deve ser domesticada pelos gerentes ou proprietários. No final dos anos 1950, num bordel da capital paulista, Lagenest presenciou cenas em que a cafetina humilhava publicamente prostitutas devedoras de diárias. Já em 2002, o gerente de uma casa na Vila Mimosa contou a esta etnógrafa ter agredido uma prostituta que trabalhava em seu estabelecimento, com o argumento de que a mulher fazia uso da cocaína. Com a formação das associações de prostitutas, as agressões físicas e outras humilhações, actos que marcam o processo incriminatório do sujeito, passaram a ser identificados como problemas não mais individuais, mas colectivos e principalmente concernentes aos direitos civis. Para compor e difundir esta consciência entre os membros da categoria, reuniões semanais, mensais e anuais tornaram-se uma das actividades mais importantes dessas associações.
No Rio de Janeiro, o Fórum de Profissionais do Sexo, de âmbito estadual, foi criado para ser um espaço onde as mulheres pudessem discutir questões relativas, especificamente, ao trabalho sexual e a qualidade das interacções mantidas com outros agentes durante o exercício do seu ofício. No Fórum, passaram a elaborar ainda mais suas narrativas de modo a comunicar suas experiências de modo mais adequado e, com isso, persuadir um público qualificado e cada vez mais amplo da importância de suas reivindicações. O teor fático das conversas e narrativas trazidas para este tipo de encontro em que expõem seus dramas pessoais e colectivos contribui para fortalecer a identidade e fundar a solidariedade de classe.
Num sobrado próximo ao Campo de Santana, a poucos metros da Praça Tiradentes, acontecem esporadicamente as reuniões do Fórum de Profissionais do Sexo. Numa destas, a directora, há mais de trinta anos na prostituição, informava aos vinte e dois presentes que o grupo e as reuniões tinham sido criados para acabar com a discriminação. Discursava vigorosamente sobre a importância da autoestima para o desempenho satisfatório de todos os papéis que a sua vida lhe exigia e citava, como exemplo, o de mãe, avó, dona-de-casa e esposa, mostrando que o de prostituta não a impedia de exercer aqueles representativos da vida doméstica, da mulher direita, da mulher da casa e feita para o casamento». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010.

Com amizade.
Cortesia de RAntropologia/JDACT

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «… a população da cidade prestou uma anti homenagem à nova sede do governo municipal, apelidando-o de ‘Piranhão’, uma explícita alusão à “alcunha popular de prostituta” e à menção que faz à voracidade carnívora do peixe amazónico»

Cortesia de wikipedia

A prostituição e a cidade: problemas públicos e identidade social
«(…) Tal medida prenunciava ser o Mangue o lugar ideal para a localização do meretrício carioca, contribuindo para a definição dos espaços morais da cidade e, pela óptica higienista de então, também para o controle da sífilis e de outras doenças venéreas que assombravam a vida da população no início do século XX. Junto a isso, a grande mobilidade dos habitantes desta área era um dos distintivos que davam à Cidade Nova o caráter de área natural do baixo meretrício no Rio de Janeiro. Entretanto, o inexorável processo da expansão urbana pouco a pouco confinou e reduziu os seus domínios. Em 1945, a construção da Avenida Presidente Vargas pôs abaixo cerca de quinhentos edifícios da região, entre eles quatro igrejas, um mercado, a sede da prefeitura e muitas casas onde funcionavam os bordéis, espalhando, entre os moradores da cidade, o medo de que a prostituição proliferasse para outros bairros. Em 1954, iniciou-se a experiência conhecida como República do Mangue, termo cunhado pelos policiais da Delegacia de Costumes e Diversões (DCD) com o objectivo de fichar as prostitutas daquela área para que fossem exercidos simultaneamente os controles médico e policial. Em 1967, a visita da rainha Elizabeth II e de sua comitiva tornaria o casario parcialmente invisível para aqueles que cruzassem a Avenida Presidente Vargas.
A ordem dos militares era esconder o Mangue com tapumes e, com isto, traçar, finalmente, os limites da zona. Em 1970, o Jornal do Brasil chegou a anunciar o fim do Mangue. Mais de trinta casas estavam sendo desapropriadas e outras tantas deveriam passar pelo mesmo processo, pois, desde o início, a década de 1970 seria marcada pelas obras de construção do metropolitano e do Centro Administrativo São Sebastião (CASS), sede da Prefeitura do Rio de Janeiro (a população da cidade prestou uma anti homenagem à nova sede do governo municipal, apelidando-o de Piranhão, uma explícita alusão à alcunha popular de prostituta e à menção que faz à voracidade carnívora do peixe amazónico; na cidade, todos conhecem a sede da prefeitura pelo nome de Piranhão, e mesmo os seus funcionários se referem ao local de trabalho utilizando este nome; mais recentemente, um prédio anexo foi construído e, novamente, a população lembrou a antiga área dos bordéis, dando-lhe a alcunha de cafetão). Com as obras, a área abrangida pelo CASS não mais deixava espaço para um novo deslocamento das prostitutas. Havia, porém, em um pequeno trecho fronteiriço entre a Cidade Nova e o bairro do Estácio, uma travessa com casas, próxima ao sítio reurbanizado e à estação de metro, onde os bordéis seriam reinstalados, pela última vez naquele bairro, em 1979. Em seu pórtico lia-se Vila Mimosa. E a vila, anteriormente ocupada por famílias, viria acolher a escória, os últimos habitantes de uma área já totalmente desmantelada pela renovação urbana. Nas casas da Vila Mimosa, prostitutas e cafetinas preservariam seus negócios e um estilo de gerir a prostituição, não sem sofrerem muitas novas ameaças. Porém, no decorrer desse social drama, transformariam o lugar e suas actividades em um símbolo de resistência da Zona do Mangue e do direito à cidade.
Os estudos de ecologia urbana desenvolvidos pelos sociólogos de Chicago buscaram compreender a cidade e seus problemas através da análise dos processos de expansão urbana. Num artigo de 1925, Ernest Burgess ilustrou o zoneamento da cidade e seu processo de expansão com a representação de círculos concêntricos, mostrando com isso os sucessivos processos da expansão. Assim, em Chicago a prostituição se situava na zona de Loop, também chamada Zona Central de Comércio; na zona de transição, ou de deterioração e na zona residencial. Transpondo o seu esquema para a cidade do Rio de Janeiro, vemos que aqui o mesmo ocorria: no centro de comércio, onde se situam as praças Tiradentes e Campo de Santana, e em cujo prolongamento também se encontra a praça Mauá, junto ao cais do porto, o cenário é marcado pela presença das prostitutas de rua, que fazem o trottoir e frequentam bares, clubes e cinemas cuja programação se destina à exibição de filmes ou espectáculos eróticos. A prostituição de bordel, também chamada prostituição localizada, se concentra na zona de transição. Nesta podemos classificar a Vila Mimosa, último reduto da prostituição na região central do Rio, e que, devido a renovação urbana, foi reinventada em um bairro contíguo pelos seus antigos proprietários. Um tipo de prostituição mais discreta, pois confinada aos apartamentos e sustentada por um público de maior poder aquisitivo. Ficaria reservada, por fim, às áreas residenciais da cidade. Nesta modalidade, o bairro de Copacabana se sobressai na geografia moral carioca». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010.

Cortesia de RAntropologia/JDACT

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «As polacas e as francesas eram maioria, contabilizando cerca de dez mil “escravas brancas” que entre 1918 e 1930 desembarcaram nos portos brasileiros para se prostituírem. … também aportaram romenas, russas, jugoslavas, argentinas e, entre todas, predominavam as judias»

Cortesia de wikipedia 

Visibilidade pública
«(…) Tudo isso veio se configurar no novo contexto político brasileiro, que havia se tornado propício à ampla mobilização social e à emergência de diversas reivindicações colectivas. E podemos dizer que a origem do movimento de prostitutas, no Brasil, foi eminentemente urbana, configurando-se em torno de denúncias contra atentados aos direitos civis e pelo direito à cidade. Em 1987, as prostitutas militantes organizam no Rio de Janeiro o I Encontro Nacional de Prostitutas, no Centro de Artes Calouste Gulbenkian. Outros encontros similares são realizados, em seguida, em várias capitais do país. No I Encontro Norte-Nordeste de Prostitutas, em Recife, em 1988, elas discutiram a retirada do capítulo V do código penal e lançaram o primeiro jornal destinado à categoria, o Beijo da Rua; no I Encontro das Prostitutas Gaúchas, realizado em Porto Alegre, em 1989, foram relatados os problemas de humilhação institucionalizada, como, por exemplo, a existência de um termo de vadiagem a ser assinado na delegacia pelas prostitutas presas ilegalmente nas ruas da cidade; e o I Encontro de Prostitutas do Pará, realizado em Belém, no ano de 1991, as mulheres puderam contar com o apoio institucional do governo daquele estado. Naquele mesmo ano, uma rádio comunitária foi criada na Vila Mimosa. E no ano seguinte, o Programa Prostituição e Direitos Civis desvincula-se do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e passa a existir como a organização não-governamental Davida - Prostituição, Saúde e Direitos Civis, assessorando a fundação de novas associações em todo o Brasil e difundindo, através do jornal Beijo da Rua, os ideais da Rede.
Em 1988 a Assembleia Constituinte promulgou também a nova Constituição. Com ela, o Ministério da Saúde criou o Sistema Único de Saúde (SUS) e o seu Programa Nacional de AIDS, que viria desempenhar o papel determinante de incentivo à formação associativa das prostitutas, em todo o território nacional, e à participação da categoria nas Coordenações Estaduais e Municipais de DST/AIDS. O aparato institucional de promoção e apoio às associações passou a reflectir tanto o resultado da mobilização das militantes quanto um estímulo à participação política cada vez mais florescente. Agentes de saúde, profissionais do sexo e, mais recentemente, profissionais da sexualidade são terminologias que foram testadas e cunhadas na démarche das actividades associativas e no diálogo estabelecido entre os grupos organizados e o Estado. Para este, tais terminologias permitem melhor formular as acções multiplicadoras, com a qual se espera alcançar um determinado resultado junto aos membros da categoria do agente.
No que concerne aos interesses dos grupos, essas terminologias podem não passar de eufemismos ou, em alguns casos, representar uma nova profissão, o que gerou inúmeros e aguerridos debates entre as prostitutas militantes. Apesar desses imponderáveis, as terminologias vieram mudar, de todo modo, certos paradigmas relativos à prostituição ao considerarem os membros da categoria como profissionais do sexo ou da sexualidade. Permitiram também realçar uma série de procedimentos e capacidades desenvolvidas no aprendizado do métier. O emprego dessas terminologias possibilitaram, ainda, incluir e manter o debate sobre a prostituição nas mais diversas arenas sob a perspectiva do trabalho e, mais precisamente, à luz de determinadas competências reconhecidas para o exercício de um ofício. Ofício e custos aprendidos, por sua vez, nas interacções que ocorrem em determinados horários, situações, ruas e casas da cidade e que serão, a seguir, objecto de nossa atenção. 
A prostituição e a cidade: problemas públicos e identidade social
Durante quase todo o século XX o Rio de Janeiro comportou, em sua região central, conhecida como Cidade Nova, uma vasta área onde o baixo meretrício floresceu e perdurou. A Zona do Mangue, como era chamado aquele conjunto de ruelas e casas que se estendia às margens do canal, estava próxima das estações dos trens da Central do Brasil e da Leopoldina, e ligava-se ao cais do porto pelo bairro vizinho da Gamboa. Além disso, abrigava em seu perímetro pequenos alojamentos, cortiços, pensões e casas de zungu (data de 1877 e, em língua quimbundo, nzangu, quer dizer confusão, barulho, rixa. Casa de zungu possuía as mesmas características das casas de cómodo, ou seja, residências multi-familiares cuja ocupação ocorria sobretudo nos casarões da região central da cidade) que proporcionavam o acolhimento dos trabalhadores que por ali passavam nas suas rotinas quotidianas ou na chegada à cidade. Precisamente pela razão de sua localização e pelo grande número de pessoas que concentrava, (entre 1920 e 1930, para cada três brasileiras que trabalhavam no Mangue havia uma estrangeira. As polacas e as francesas eram maioria, contabilizando cerca de dez mil escravas brancas que entre 1918 e 1930 desembarcaram nos portos brasileiros para se prostituírem. Nas fichas reunidas no 13º. Distrito de Polícia vê-se que ali também aportaram romenas, russas, jugoslavas, argentinas e, entre todas, predominavam as judias, pois muitos traficantes de mulheres eram israelitas), instalaram-se nos limites do Mangue duas instituições disciplinares responsáveis por destinar àquela área a função capital de um cordão sanitário. A primeira delas foi o Hospital São Francisco de Assis, em 1922, que passou a funcionar no antigo prédio do primeiro asilo de mendigos da cidade. Dois anos antes de abrirem as portas como hospital destinado ao tratamento de doenças venéreas, o governo da antiga capital da República já havia mandado retirar as prostitutas que faziam o trottoir em outros bairros centrais, obrigando-as a permanecerem nos lupanares do Mangue durante a visita do rei e da rainha da Bélgica à cidade. A segunda instituição disciplinar instalada na região foi o 13º. Distrito de Polícia, o qual mantinha nos seus arquivos um ficheiro com o nome de todas as mulheres que trabalhavam nos bordéis locais». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010. 
 
Cortesia de RAntropologia/JDACT

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «As rubricas podem contemplar desde a capacitação de pessoal, o trabalho de campo, a elaboração de material para campanhas preventivas, reuniões e o fomento institucional, entre outras possibilidades mais pontuais»

 
Cortesia de wikipedia

«(…) Por isso, fazer reconhecer a prostituição como uma ocupação tornou-se um dos principais objectivos das associações de prostitutas de diversos países, encontrando, no Brasil, apoio entre os agentes do Ministério da Saúde e, por conseguinte, do Ministério do Trabalho e do Emprego. Utilizando a metodologia por pares e beneficiando-se da ideia de agente multiplicador, ou seja, da acção de um membro da categoria informando os outros membros sobre determinado problema e modos de agir, o Ministério da Saúde não só consubstanciou a formação das associações como as transformou em seu braço direito no combate às doenças venéreas e AIDS. O auxílio institucional e financeiro para campanhas de fortalecimento da identidade colectiva representou a consolidação de um novo capital social e político e, do mesmo modo, cumpriu o papel de um seed money que veio contribuir para o processo de definição da categoria como uma ocupação reconhecida pelo Ministério do Trabalho. Segundo o conjunto dos conceitos empregados na formulação dessas políticas de saúde, o leitmotiv de toda a empreitada se assenta nos argumentos de resgate da auto-estima, resgate da cidadania e de redução de vulnerabilidades, como forma de melhor estimular o cuidado de si no âmbito da vida pessoal, mas também, e de maneira inextrincável, no âmbito da vida cívica. As reivindicações das prostitutas brasileiras por reconhecimento não se restringiu, ao novo papel de interlocutores competentes para a definição das políticas e das ações do MS. Inúmeras outras iniciativas do grupo, ligadas também à cultura e à moda, afastaram de vez o discurso vitimizador instituindo, no espaço público, uma concepção da actividade pautada pela escolha e não pelas vicissitudes da vida. Com isso, atraíram a atenção e a simpatia de um público mais amplo e tornaram conhecidas as causas da categoria.
 
Visibilidade pública
A partir dos anos 1990, a ONG Davida, fundada pela presidente da Rede Brasileira de Prostitutas (D. Gabriela Silva Leite) e com sede no Rio de Janeiro, montou peças de teatro e organizou serestas em vários pontos de prostituição da cidade. Na década seguinte, a mesma associação ganharia visibilidade internacional com a criação da Daspu, grife para a qual desfilaram não só as prostitutas que fazem o trottoir na Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro, como manequins de renome. Na Vila Mimosa, conhecida zona de prostituição situada em região contígua ao centro de negócios da cidade, desfiles de moda também foram organizados. Aqui, no entanto, pela associação dos proprietários dos bordéis para serem protagonizados pelas prostitutas que ali trabalham. Para este desfile, a associação comprou máscaras para que as mulheres preservassem suas identidades. Estas, no entanto, preferiram deixar o rosto à mostra, surpreendendo os organizadores do evento.
Estes dois episódios exerceram um forte apelo na de comunicação social, tendo sido fartamente noticiado pela imprensa nacional e estrangeira o modo como se deu, nos dois casos, a exibição pública dessa identidade social. Os leads precisavam, no entanto, que as iniciativas partiram de grupos distintos (prostitutas, no primeiro caso; cafetinas e empresários, no segundo), reunidos em associações em torno dos quais se estruturam duas das principais áreas de prostituição na cidade do Rio de Janeiro: a Praça Tiradentes, localizada na área central de negócios, e a Vila Mimosa, espécie de cidade cenográfica da prostituição carioca, cujos bordéis funcionam em uma rua sem saída, entre os trilhos das duas gares da cidade, próximo ao centro de negócios do Rio. Essas associações, formadas por prostitutas ou por empresários da prostituição, disputam, hoje, recursos provenientes de programas financiados pelo Ministério da Saúde, através de acordos bilaterais estabelecidos com o Banco Mundial, do BID, de ONGs internacionais e, até 2004, da USAID. Nem todas integram a Rede Brasileira de Prostitutas, defensora do reconhecimento profissional da categoria e principal parceira do MS nas campanhas de prevenção da AIDS e das doenças sexualmente transmissíveis (DST). Em função disso, os conteúdos dos projectos podem variar tanto em termos de metodologia quanto em suas finalidades, embora sejam todos destinados a sustentar campanhas de prevenção junto a uma mesma população. Os principais recursos são obtidos através de projectos estruturados com um pequeno orçamento e encaminhados pelas associações ao Ministério da Saúde. As rubricas podem contemplar desde a capacitação de pessoal, o trabalho de campo, a elaboração de material para campanhas preventivas, reuniões e o fomento institucional, entre outras possibilidades mais pontuais.
Mas é o estímulo à formação de novas associações de profissionais do sexo e seu fortalecimento institucional a principal finalidade a ser alcançada através dos financiamentos oferecidos, sobretudo, pelo Ministério da Saúde. Esta, ao menos, foi a pauta estipulada pela Rede Brasileira de Prostitutas e apoiada pela Comissão Nacional de AIDS (CNAIDS). A participação dos chamados profissionais do sexo categoria que abrange prostitutas, travestis e michês, no trabalho de prevenção da AIDS e das DST é considerado, tanto pelos agentes do MS quanto pelos demais membros da CNAIDS, um dos factores responsáveis pelo reconhecimento do Programa Nacional de AIDS brasileiro como um dos mais bem estruturados e eficazes do mundo». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010.
 
Cortesia de RAntropologia/JDACT

Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil. Soraya Silveira Simões. «… objectivos do processo de profissionalização. O termo profissão pode, por isso, ser interpretado como um símbolo da concepção do trabalho que é reivindicado e, por conseguinte, um símbolo do” eu”»

Cortesia de wikipedia 

Resumo
«Este artigo procura analisar o percurso de mobilização das prostitutas no Rio de Janeiro até o reconhecimento de uma identidade profissional. A formação das associações de prostitutas no Brasil, a partir dos anos 1980, a participação efetiva no movimento de prevenção da AIDS e a interlocução com o Ministério da Saúde na conquista do almejado registro da prostituição na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), do Ministério de Trabalho, contribuíram para a definição de suas causas e serão aqui restituídos de seus contextos político, social e urbano, de modo a evidenciar o desenvolvimento de um código deontológico de um grupo profissional».
 
... la morale de demain será ce que seront les convictions de demain relativement à l’importance, à la nature et à la signification des rapports sexuels. In Gabriel Tarde, La morale sexuelle, 1902.
 
«A prostituição é uma actividade estigmatizada, proibida em alguns países e em outros tolerada ou regulamentada. Apesar dos problemas que a cercam, é também conhecida como a profissão mais antiga do mundo. Considerá-la deste modo supõe, entre outras coisas, certa virtude no seu exercício e um status positivo para essa ocupação. Pois o conceito de profissão, visto da perspectiva interacionista privilegiada por Everett Hughes (1996), é antes um julgamento de valor e prestígio do que um termo descritivo. Também para Howard Becker, profissão é ainda um folk concept que nada diz sobre as especificidades do trabalho levado a termo por certos profissionais, mas sim sobre seu status. Perguntar-se, então, se um métier é uma profissão obscurece questões mais fundamentais como, por exemplo, em que circunstâncias os membros de um métier tentam transformar o seu ofício em uma profissão? No momento em que a profissionalização se torna um objecto de discussão entre os membros do métier, pode-se observar que esta tendência corresponde à mobilidade colectiva de alguns (ou muitos) deles. Identificar aqueles que não acompanham essa mobilidade passa a ser um dos objectivos do processo de profissionalização. O termo profissão pode, por isso, ser interpretado como um símbolo da concepção do trabalho que é reivindicado e, por conseguinte, um símbolo do eu. Por essa razão, considerar o contexto em que essa mobilidade se produz e se transforma em objecto de discussão torna-se imprescindível. E isto na medida em que uma causa é sustentada não só pelos actores directamente interessados, mas, sobretudo, por aqueles outros, persuadidos de sua pertinência e capazes de conduzi-la e de legitimá-la em outras arenas.
Reivindicar a prostituição como uma profissão obriga a distinção de condutas, posturas, procedimentos, direitos, deveres e certa ética. Mas não só: para a aquisição de certas competências e a assunpção de responsabilidades, torna-se necessário recusar o papel de vítima, frequentemente atribuído às prostitutas independente do contexto em que exercem a actividade. Paralelamente às reivindicações de reconhecimento, empreendidas por prostitutas em diversos países do mundo, as histórias tristes (sad stories) continuam integrando os repertórios de argumentação de muitas dessas mulheres, de modo a justificar, paradigmaticamente, a entrada, noção demarcadora, no métier. Para o desempenho de uma actividade estigmatizada, como a prostituição, o indivíduo munido de uma história triste pode melhor organizar a sua vida, diz Goffman (1975). Mas, em contrapartida, deverá resignar-se a viver em um mundo incompleto onde figura como alguém prestes a ser desacreditado em função dos atributos do estereótipo que encarna. Ao fazer uso da história triste, que relata o momento fundador da possessão do seu estigma, a prostituta se desembaraça, justamente, da responsabilidade de ter efectuado uma escolha. Por serem eminentemente tristes, essas narrativas justificadoras distanciam o sujeito das virtualidades, confiança, respeito e estima, que lhe asseguram o auto-reconhecimento positivo do qual necessita para se sentir uma pessoa normal. E, entre outras coisas, uma profissional.
Mudar o registro da justificação de uma fatalidade para algo que possa ser percebido como uma opção é, portanto, abrir uma perspectiva sobre as responsabilidades assumidas com essa escolha. Um horizonte profissionalizante pode, então, se esboçar. E, entre as responsabilidades exigidas para a oferta de tal serviço, o cuidado do próprio corpo surge como uma das condições primeiras para o desempenho da função de prostituta. Mesmo que a tendência profissionalizante se torne pronunciada, nem sempre ela é capaz de mudar o status do indivíduo estigmatizado. Contudo, esse movimento, na medida em que ganha espaço nas arenas públicas, permite a formação de um novo consenso, possibilitando uma nova auto-representação e, com ela, uma transformação do ego e novas formas de agir». In Soraya Silveira Simões, Identidade e política. A prostituição e o reconhecimento de um ‘métier’ no Brasil, Revista de Antropologia Social dos Alunos do PPGAS-UFSCar, v.2, n.1, 2010.
 
Cortesia de RAntropologia/JDACT

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro. Soraya Silveira Simões. «A Selva de Pedra, como ficou conhecido esse imenso conjunto de prédios, viria a ser, enfim, um dos maiores exemplos desta política pública de ‘renovação urbana’»

Cortesia de wikipedia e jdact

A Questão
«(…) Os primeiros a serem contemplados pelas obras da Cruzada São Sebastião residiam nos casebres de duas favelas contíguas situadas às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, a Praia do Pinto e a Ilha das Dragas, de onde sairiam, a partir de 1957, para morar no recém construído Bairro São Sebastião do Leblon. O terreno sobre o qual foram erguidos os prédios pertencia à União, e foram cedidos pelo então presidente Café Filho após acordo definido com Dom Helder Câmara. Composto por dez prédios, com sete andares cada e sem elevadores, o Bairro abrigaria 916 famílias em apartamentos conjugados com cozinha e banheiro, de 18m2, ou com sala, cozinha, banheiro e um ou dois quartos numa área de, respectivamente, 24 e 36 metros quadrados. O terceiro conjunto foi construído já no início dos anos 1970 no terreno anteriormente ocupado pelos casebres da favela da Praia do Pinto, logo após esta ter sido definitivamente extinta, em 1969, por um incêndio sobre o qual pesam diferentes versões. O Projecto Praia do Pinto, nome com que foi registado por uma autarquia da Secretaria de Planeamento do Estado da Guanabara, contemplaria 40 prédios de 13 a 17 andares, com 2.251 apartamentos, dispostos em quatro pequenas ruas terminadas, em cul-de-sac, numa praça central. Cada unidade teria entre 90 e 100 metros quadrados, divididos em sala, cozinha, banheiros e três ou quatro quartos. A estimativa era que a densidade demográfica do local seria significativamente aumentada para 1.182 habs./ha., índice justificado, segundo os autores do projecto, por sua inserção em um grande vazio demográfico cujo aproveitamento seria destinado à construção de clubes, praças, supermercados e outros equipamentos que reduziriam a densidade relativa a 343habs./ha.. A Selva de Pedra, como ficou conhecido esse imenso conjunto de prédios, viria a ser, enfim, um dos maiores exemplos desta política pública de renovação urbana, coetânea da política de erradicação de favelas e beneficiada pelo Banco Nacional de Habitação (BNH), órgão criado pelo governo federal, na década de 1960, para financiar também as obras previstas no âmbito da política de remoções.
Em cada um desses conjuntos encontramos moradores sempre dispostos a contar e recontar histórias que ressaltam a importância do lugar onde vivem. No Jornalistas, velhos profissionais gostam de lembrar que aqueles prédios, os primeiros a serem feitos em toda a orla de Ipanema e Leblon, resultaram do prestígio que a imprensa gozava junto a Getúlio Vargas. Na Cruzada, como é hoje chamado o Bairro São Sebastião do Leblon, a memória dos moradores guarda nítida a imagem da favela, das visitas de Dom Helder Câmara e do incêndio de 1969. Na Selva de Pedra, aqueles com os quais conversamos eram membros de famílias de militares e vieram transferidos de outros estados da federação. Suas lembranças são repletas de episódios da mudança, da mobilização ansiosa de pais e irmãos e da adaptação das rotinas no bairro em que muitos sequer sabiam correctamente onde se localizava. Memória pessoal e memória social ou, como denomina Halbwachs, memória autobiográfica e memória histórica se apoiam mutuamente e, no caso desses relatos, contam a história de um bairro pela óptica dos dramas vividos por seus moradores para nele permanecerem ou se estabelecerem. Segundo dados do censo demográfico do IBGE, em 2000 a população do Leblon era de 46.670 habitantes distribuídos em 18.004 unidades residenciais, das quais 50% eram ocupadas por até duas pessoas e quase 60% de seus responsáveis ganhava mais de 15 salários mínimos. Além disso, cerca de 75% dos responsáveis possuíam curso superior e apenas 967 pessoas não eram alfabetizadas, sendo que 468 tinham entre cinco e nove anos. O apartamento, como já podemos supor, é a unidade residencial que predomina no bairro e em toda a Zona Sul da cidade. No Leblon são 17.447 unidades deste tipo, e, do total de domicílios, 12.320 são propriedade de seus residentes. A maior parte dos responsáveis por cada unidade domiciliar tem entre 40 e 69 anos, e o número daqueles com mais de 70 anos é superior aos que estão entre os 20 e 39 anos. Nesse universo os 2.957 moradores do Bairro São Sebastião são percebidos como uma população de baixa renda e de baixa escolaridade, constituída maioritariamente por jovens e negros, exercendo serviços de baixa qualificação e apresentando índices de até 60% de desemprego. Diferentemente do entorno, o número de netos e bisnetos residindo junto com o responsável pelo domicílio é significativo. A preponderante presença de filhos e o baixo índice de cônjuges habitando com o responsável segue, contudo, as taxas registadas nas demais unidades do Leblon. Estamos na Zona Sul é constatação frequente quando comparam o Bairro e a sua localização com as favelas da cidade. Para muitos destes moradores do Leblon, o objecto de comparação do seu local de moradia continua sendo a favela. E isto resulta de factores que em nada equivalem à questão da regulamentação fundiária ou outro critério legal através do qual se tenta definir favela. O Bairro, afinal de contas, é um conjunto habitacional, e o termo ocupa lugar bem definido tanto no histórico das políticas de habitação quanto nas biografias da maioria de seus moradores. O significado da sentença estamos na Zona Sul não se esgota, porém, no plano comparativo. Indica ainda os custos de se viver sobre o metro quadrado mais caro da cidade e o reconhecimento de um estilo de vida predominante ao qual se deve aderir». In Soraya Silveira Simões, Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro, Tese de Doutorado em Antropologia, Universidade Federal Fluminense, ICHF, PPGA, Niterói, Brasil, 2008.

Cortesia de UFF/JDACT

Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro. Soraya Silveira Simões. «O Leblon era um bairro parado ainda... porque não tinha água! Eu carreguei muita água aqui no Leblon, não tinha nada. Aqui, onde estão esses prédios, era circo, era parque de diversões... eram circos grandes, três picadeiros»


Cortesia de wikipedia e jdact

A Questão
«(…) Aos olhos de outros tantos habitantes do bairro, entretanto, o investimento traria mais benefícios do que desvantagens. Para o presidente da AMA-Leblon, por exemplo, o empreendimento daria maior segurança à região. Ofereceria, além disso, uma opção de lazer e conforto diversificado em suas previstas duzentas lojas, quatro salas de cinema, um teatro, uma sala de exposições e tantas outras alternativas para o comércio e o footing interessado. O empreendimento permitiria ainda desdobramentos da política cultural da Secretaria Estadual de Cultura, ao concentrar opções e equipamentos para um lazer criativo, incorporando o antigo palco do Teatro Casa Grande aos amplos domínios do imenso shopping center. A boa expectativa era também compartilhada pela Associação Comercial do Leblon, cuja opinião em muito ia de encontro àquela que pressagiava o declínio do lazer e do comércio de proximidade no bairro. Entre as associações de moradores que se manifestavam favoravelmente, uma, em especial, não somente negligenciava o lazer, o consumo e a segurança como principais objectos de seus interesses. Suas expectativas, ao contrário, acercavam-se do trabalho e das oportunidades e garantias que poderiam advir do empreendimento. O shopping, para a Associação de Moradores do Bairro São Sebastião do Leblon (AMORABASE), sinalizava oportunidades de emprego, além de benefícios exclusivos que pensavam poderiam ser negociados com a administração e os proprietários do moderno centro comercial como parte das dívidas e obrigações derivadas de uma política empresarial de responsabilidade social.
O trabalho de campo teve início justamente no momento em que os habitantes do Leblon, portanto, discutiam a construção do mega-empreendimento comercial. O shopping, como tema das conversas, tornara-se, pois, incontornável; e logo nos primeiros dias fomos convocados para tomar parte activa nas distintas arenas nas quais se desdobravam as concorridas e inflamadas assembleias. E, neste caso, tomar parte activa significava ocupar lugares muito precisos, cooptados que fomos para irmos registando as actas das reuniões entre os moradores e os administradores do shopping. A construtora Santa Izabel, responsável pelas obras, dispunha de uma equipa de técnicos e engenheiros para conduzir as reuniões e encaminhar as demandas dos moradores do entorno. Era um momento, portanto, bastante oportuno para que pudéssemos apreender e compreender o mais plenamente possível os conflitos em curso e, sobretudo, aqueles originados em torno da tópica da própria noção de bairro e da identidade que seus diferentes habitantes reivindicavam e lhe conferiam, evidenciando o lugar ocupado por cada morador naquele complexo sistema de relações local. Como moradores da cidade, sabíamos tratar-se o Leblon de um dos mais valorizados bairros da capital. Por isto mesmo, era objecto de um acelerado crescimento e especulação imobiliária e, por sua diversificada morfologia social, despertava grande interesse sociológico.
No bairro, numa área de aproximadamente 100 mil metros quadrados, haviam sido construídos, a partir dos anos 1950, nada mais nada menos do que três grandes conjuntos residenciais que resultaram de três emblemáticas políticas habitacionais direccionadas para públicos distintos. O primeiro conjunto a ser erguido obteve recursos provenientes de um dos seis antigos Institutos de Aposentadorias e Pensões (IAPs). Além dos benefícios previdenciários e de assistência médica, essas instituições, autarquias criadas nos anos 1930, tratariam também da questão habitacional dos grupos profissionais. Ao contrário das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs), que eram sociedades civis organizadas por empresas, os IAPs estatizariam a previdência e seriam estruturados, então, pelas próprias categorias profissionais. Esses novos órgãos da previdência social se favoreceriam de uma legislação igualmente nova, a Constituição de 1934, que permitia diversificar e expandir os benefícios oferecidos pelos institutos previdenciários, o que dependia apenas da força política de cada categoria profissional. O Conjunto dos Jornalistas, como ficou conhecido o primeiro conjunto de prédios erguido no Leblon, resultou de um acordo feito entre o sindicato dos jornalistas e o Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários (IAPC), em 1951. Oswaldo Miranda, um de seus primeiros moradores, integrou a comitiva do sindicato encarregada de apresentar ao presidente Getúlio Vargas o projecto de financiamento da casa própria para a categoria.

[Getúlio] Achou a ideia [de financiamento por intermédio de um dos IAPs] bem razoável e conversou com o presidente do IAPC, nessa época, o [Henrique] La Rocque, que dá nome ao nosso edifício. O La Rocque era presidente do IAPC, e na época cada categoria tinha o seu instituto próprio. Depois vieram os generais, aí fundiram tudo no INSS (...). Então ele perguntou quais eram as disponibilidades de terreno. Tinha terreno em Cascadura, em Jacarepaguá... O terreno do Leblon estava um pouco embaraçado, porque o Ministério da Aeronáutica também tinha a ideia de fazer alguma coisa aqui para o pessoal da aeronáutica. E... Getúlio disse: Mas esse terreno, você pode desembaraçar. Então ficou assim, o Getúlio aprovou a ideia e determinou ao La Rocque, presidente do IAPC, que começasse o trabalho de estudos para essa ideia. Foi feito então um projecto inicial: esses blocos aqui não eram assim [voltados pro mar]. Eles eram voltados para o [morro] Dois Irmãos. Até que veio o projecto definitivo, que é esse que aqui está. Ali embaixo [sob os pilotis] ia ter um ginásio, que não foi feito... E então começou o trabalho de construção. O Leblon não era Leblon ainda. O Leblon tem a minha idade: o Leblon tem 87 anos! Nós nascemos juntos. Mas o Leblon não tinha nada! O Leblon era um bairro parado ainda... porque não tinha água! Eu carreguei muita água aqui no Leblon, não tinha nada. Aqui, onde estão esses prédios, era circo, era parque de diversões... eram circos grandes, três picadeiros.

Localizado à beira do canal do Jardim de Alah, que separa o bairro do Leblon de Ipanema e liga a Lagoa Rodrigo de Freitas ao oceano, o Conjunto dos Jornalistas, hoje Condomínio Jardim de Alah, é composto por três edifícios de 15 andares. Dois deles comportam quatro apartamentos por andar, cada um com três quartos, sala, dois banheiros e cozinha, enquanto o terceiro abrange, em cada pavimento, seis apartamentos de dois quartos, sala, dois banheiros e cozinha. O Jornalistas possui, ao todo, 420 unidades. O segundo conjunto resultou de uma associação fundada em 1955 por Helder Câmara, então arcebispo auxiliar do Rio de Janeiro, durante o XXXVI Congresso Eucarístico Internacional. Baptizada de Cruzada São Sebastião, a iniciativa tinha como propósito precípuo urbanizar todas as favelas da capital num prazo de doze anos. Com a urbanização das favelas Dom Helder tinha em vista preservar as rotinas quotidianas dos favelados mantendo-os perto do seu local de trabalho, princípio que a política de remoção de favelas desrespeitava ao construir conjuntos habitacionais nas distantes e mal-servidas periferias da cidade». In Soraya Silveira Simões, Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro, Tese de Doutorado em Antropologia, Universidade Federal Fluminense, ICHF, PPGA, Niterói, Brasil, 2008.

Cortesia de UFF/JDACT

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro. Soraya Silveira Simões. «A mobilização dos moradores pela preservação dos valores de ambiência urbana que atribuíam ao bairro alcançara, nos dois casos, o sucesso. Pois, sem o túnel, aquele recanto carioca…»


Cortesia de wikipedia e jdact

Apresentação
«(…) Aqui talvez devêssemos nos lembrar do que  dizia Chombart de Lauwe a propósito de uma cidade e a aglomeração metropolitana. Ele dizia que um bairro urbano não é determinado apenas pelos factores geográficos e económicos, mas pela representação que fazem dele os seus moradores e a que têm dele os moradores de outros bairros. Assim, aproveitei os desdobramentos deste grande debate para expor, no primeiro capítulo, como a noção de bairro foi tratada em alguns dos trabalhos que consideramos importantes da literatura antropológica, sociológica e urbanística. Além disso, selecionamos estes trabalhos segundo um outro critério: todos mantinham entre si uma relação que se dava no campo, mas também no tempo. Em Sidewalk, Duneier escrevia sobre o Greenwich Village no período em que vigorou a política de tolerância zero do prefeito Rudolph Giuliani, trinta anos depois de Jane Jacobs ter publicado Death and Life of Great American Cities (1961), o seu grande manifesto contra o urbanismo modernista que punha em risco a vida da rua em favor da quadra como unidade mínima desta cidade preconizada pelo racionalismo da nova ciência. O segundo exemplo recai sobre o trabalho hoje incontornável para os estudos etnográficos urbanos: Street Corner Society, livro escrito por William Foote-Whyte, em 1943, a partir do North End, um bairro mal-afamado de Boston onde moravam imigrantes italianos, judeus, irlandeses e negros. Quase vinte anos depois, foi Herbert Gans quem retornou à mesma área daquela cidade para realizar sua pesquisa (The Urban Villagers, 1962), lá encontrando, já velhos, os personagens do livro de Foote-Whyte. A nossa pesquisa manteve este tipo de nexo com o livro Quando a rua vira casa (1981), escrito há quase trinta anos pelos professores Marco Antonio Silva Mello e Arno Vogel como resultado de um empreendimento colectivo realizado no bairro do Catumbi, na Selva de Pedra e na Cruzada São Sebastião pelo Centro de Pesquisas Urbanas (CPU) do Instituto Brasileiro de Administração Municipal (IBAM), em 1979. Depois de várias intervenções urbanísticas, desapropriações e demolições sucessivas, o bairro do Catumbi foi seccionado de sua vizinhança, nas encostas de Santa Teresa, para que fosse construído o viaduto da Linha Lilás. Os impactos dessas políticas hoje eufemisticamente chamadas de renovação urbana’ no ordenamento espacial e moral
da cidade configuram A Questão, título do capítulo que inaugura o presente trabalho.

[…]
A Questão
Em 2003, os moradores do Leblon, bairro situado na Zona Sul do Rio de Janeiro, estavam mobilizados e organizavam-se contra a construção de um shopping center. Nos supermercados, às mesas dos bares, na praia, nas bancas de jornais e nas praças o assunto controverso se fazia presente em diversos momentos, ora para abrir o jogo das conversas, ora como mote para o exercício das análises conjunturais. Quase dez anos se passaram desde que a notícia surgira pela primeira vez. Durante esse tempo, a população local tinha conseguido embargar as obras de um outro grande empreendimento comercial na área correspondente ao Clube de Regatas do Flamengo, chegando até mesmo a anular um ambicioso projecto municipal de construção de um túnel pelo qual deveria fluir parte considerável do tráfego entre as zonas sul e oeste da cidade, desafogando as demais áreas da região dos transtornos quotidianos causados pelos engarrafamentos. A mobilização dos moradores pela preservação dos valores de ambiência urbana que atribuíam ao bairro alcançara, nos dois casos, o sucesso. Pois, sem o túnel, aquele recanto carioca deixaria de correr o risco de se ver transformado em corredor, em passagem’ ruidosa para o que lhes parecia um insuportável fluxo suplementar de veículos.
Sem o aludido centro comercial, o bairro não escaparia também de tornar-se o destino de levas de hóspedes não convidados sob a espécie dos visitantes atraídos para suas boutiques, movidos exclusivamente pelas imposições do consumo. Entretanto, em 2003, depois das muitas idas e vindas do demorado processo de negociações, os empreendedores do moderno shopping center finalmente obtiveram a autorização concedida pela FEEMA (Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente) e pela Geo-Rio (Fundação Instituto de Geotécnica do Município do Rio de Janeiro) para a realização das obras de sua construção, iniciadas pelo desmonte da Pedra do Baiano. E, novamente, os destinos do bairro estavam sobre a mesa, pois voltava às ruas e ao debate público o polémico assunto.
Havia quem se queixasse dos impactos ambientais causados pela construção e dos transtornos no trânsito provocados pela chegada dos novos consumidores. Os proprietários do Condomínio Jardim de Alah, vizinho às obras, reclamavam a possível perda de vagas para estacionamento na pequena rua situada ao lado dos prédios. A demolição do Teatro Casa Grande representava para muitos a perda de um símbolo caro à identidade local. Além disso, o barulho causado pelas dinamites e percucientes bate-estacas e todos os perturbadores ruídos do vai-e-vem diuturno do canteiro de obras era também motivo dos veementes protestos da Associação de Moradores da Rua Almirante Guilhelm, rua paralela ao local das obras. Havia ainda os que defendiam a ideia de se preservar a intimidade do lugar na forma do seu diversificado comércio de proximidade, constituído pela clientela da vizinhança e sustentado pelas rotinas e ritmos os mais triviais do bairro. Temerosos, os membros da Associação de Moradores do Jardim de Alah (AMA-JA) argumentavam contra o descaso com que eram tratados os moradores do entorno e pelas dificuldades que encontravam para obter informações mais precisas sobre as dimensões das obras e as reais estimativas do público que esperavam atrair após a inauguração». In Soraya Silveira Simões, Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro, Tese de Doutorado em Antropologia, Universidade Federal Fluminense, ICHF, PPGA, Niterói, Brasil, 2008.

Cortesia de UFF/JDACT

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro. Soraya Silveira Simões. «Erradicada da paisagem ‘chic’ da Lagoa, a favela, não foi extinta do imaginário urbano, trazendo custos para os moradores do Bairro São Sebastião, hoje conhecido como Cruzada»

Cortesia de wikipedia

Resumo
«Cruzada São Sebastião do Leblon: uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro trata de analisar as implicações sociais, urbanísticas, políticas, económicas e morais da inscrição de uma população remanescente de assentamentos precários e de baixa renda, sobretudo proveniente das favelas da Praia do Pinto e da Ilha das Dragas, no coração chique do espaço residencial e comercial da Zona Sul carioca, entre a Lagoa Rodrigo de Freitas e as praias de Ipanema e Leblon. A partir de trabalho de campo realizado nos últimos quatro anos junto aos moradores dos 10 blocos de apartamentos do conjunto Cruzada São Sebastião do Leblon, e da consulta ao extenso noticiário jornalístico devotado ao controverso tema das políticas públicas de remoção ou urbanização das favelas cariocas, a etnografia procura evidenciar a profundidade dos estereótipos, das categorias de acusação e de estigmatização com as quais os moradores da Cruzada se defrontam quotidianamente, ao longo dos últimos 50 anos, experienciando a dura condição de vizinhança indesejável diante dos anseios de recém chegados suburbanos atraídos pelo estilo de vida e pelo gosto estético associado ao morar na Zona Sul, dos interesses particularíssimos de empresários morais e da sanha de sequiosos especuladores imobiliários. Além da pesquisa de campo de  carácter etnográfico e da análise da extensa bibliografia académica devotada ao tema, sobretudo aquela produzida a partir dos anos 1960, recorreu-se ainda ao conjunto de leis e decretos e ao texto de programas sociais e habitacionais concebidos seja pelo Estado seja por instituições laicas e religiosas. Por fim, este trabalho procura restituir o ponto de vista dos actuais moradores da Cruzada sobre si mesmos (suas histórias de vida, trajectórias e perspectivas). Mas não somente, pois alcança ainda a visão que compartilham sobre o entorno e seus vizinhos, a partir da experiência de residirem no emblemático empreendimento associado de modo incontornável ao nome de Dom Hélder Câmara, idealizador e criador da Cruzada e, naquele então, arcebispo-auxiliar do Rio de Janeiro.

Apresentação
Quando decidimos pela realização desta pesquisa, tínhamos em mãos apenas um endereço. E, com ele, uma lista de questões que passaríamos a frequentar antes mesmo de nossa primeira ida a campo. Isto porque as coordenadas, como dizem os franceses, ou seja, um endereço na cidade diz muito a respeito da experiência urbana que pode ter o seu morador. O nosso ponto de partida foi então este: o endereço e, com ele, o tipo de experiência que poderia se impor ao citadino, em especial aquele habitante de uma cidade como o Rio de Janeiro. O lugar escolhido para a realização deste trabalho era especial. Afinal, tratava-se do testemunho mais eloquente dos resultados de uma acção política da Igreja Católica iniciada em 1955 e apoiada pelo governo federal. A Cruzada São Sebastião, fundada por Hélder Câmara, na época arcebispo auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro, teve como propósito urbanizar todas as favelas do então Distrito Federal em dez anos.
A proposta era não somente dispendiosa, mas ousada, pois fazia face a política preponderante de erradicação de favelas que durante quase todo o século XX forçou uma extraordinária diáspora de centenas de milhares de habitantes da cidade do Rio de Janeiro em direcção às periferias distantes, mal-servidas em transportes e infraestrutura. Em meio a esta grandiosa operação que se estendeu ao longo dos anos por intermédio de leis, decretos e políticas públicas da qual participavam engenheiros, médicos, sanitaristas, políticos, assistentes sociais e, sobretudo, a polícia, a Cruzada São Sebastião beneficiaria os moradores das favelas mantendo-os próximos ao local de trabalho e lazer, ao invés de varrer o pobre para longe da casa do patrão, como era comum se dizer na época. A única favela inteiramente agraciada pela urbanização prevista pela Cruzada foi também a primeira a ser escolhida pelo arcebispo Hélder Câmara. A Praia do Pinto, situada no Leblon, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, e sua vizinha, a pequena Ilha das Dragas, seriam extintas após a mudança de seus moradores dos barracos para os apartamentos dos dez prédios do Bairro São Sebastião do Leblon, construído em terreno contíguo à favela.
Como o arcebispo Hélder havia antevisto, o Leblon se transformou no bairro mais valorizado da cidade. Mas, apesar de todos os seus esforços, e do que esperava como resultado do seu empreendimento, contrariando todas as suas previsões, as coisas não se passariam exactamente como as concebera. Erradicada da paisagem chic do entorno da Lagoa a favela, no entanto, não foi extinta do imaginário urbano, trazendo altos custos para os moradores do Bairro São Sebastião, hoje conhecido apenas como Cruzada. Nos quase cinco anos em que venho realizando a pesquisa de campo junto a seus moradores, pude aprender como o passado da favela se faz presente em seus quotidianos. Os meios pelos quais os significados do endereço chegam a afectar suas vidas é, em linhas gerais, o objecto deste trabalho.  E para dar conta desse propósito dividi a tese em quatro partes, cada uma contendo dois capítulos. A primeira parte trata do início da pesquisa de campo quando, em 2003, por uma feliz coincidência, os moradores do Leblon encontravam-se empenhados numa controvérsia, mobilizados que estavam em torno de um acontecimento: a construção de um moderno shopping center a ser levantado no bairro, justamente sobre uma pedra contígua aos prédios da Cruzada São Sebastião. As associações de moradores do Leblon ora questionavam sobre os impactos ambientais e os transtornos no trânsito; ora sobre a segurança, o lazer e a possibilidade de emprego. Ninguém ficava indiferente ao assunto. Tivemos, com isso, uma oportunidade excepcional para conhecermos as diferentes representações dos habitantes sobre o bairro e consequentemente as fronteiras invisíveis que, no entanto, demarcavam as muitas diferenças de uso e de status existentes no Leblon.
Em síntese, o momento expressava de forma candente o bairro em suas múltiplas dimensões: como unidade administrativa de uma cidade e, portanto, circunscrito segundo os critérios do planeamento urbano; como vizinhança e espaço de uso de seus habitantes; e, por fim, como uma arena na qual muitos citadinos, diante de uma intervenção como aquela, se sentiam impelidos a manifestarem-se contra ou a favor, utilizando, para tanto, inúmeras razões, argumentos, justificativas». In Soraya Silveira Simões, Cruzada São Sebastião do Leblon. Uma etnografia da moradia e do quotidiano dos habitantes de um conjunto habitacional na Zona Sul do Rio de Janeiro, Tese de Doutorado em Antropologia, Universidade Federal Fluminense, ICHF, PPGA, Niterói, Brasil, 2008.

Cortesia de UFF/JDACT