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sábado, 9 de fevereiro de 2019

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «Precisas de uma rainha que desse a toda a corte e ao lar, a plenitude e normalidade que não pode ser esperada dum celibatário. Além disso, o celibato tornar-se-á tanto mais perigoso…»

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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
De Dusseldorf para Lisboa. Negoceia-se o casamento
«(…) A família de Bragança era nessa época relativamente numerosa. Viviam no palácio das Necessidades os dois reis e seis infantes irmãos de Pedro: Luís, com 18 anos, João, com 14, dona Maria Ana, com 13, dona Antónia, com 11, Fernando, com 10, e Augusto, com 9. Residiam também em Lisboa uma tia-avó de Pedro, a infanta dona Isabel Maria, filha de João VI e ex-regente de Portugal. Solteira, tinha então 55 anos. E, ainda, dona Amélia de Beauharnais, viúva de Pedro IV ex-imperatriz do Brasil e agora duquesa de Bragança, a quem os infantes tratavam por avó. Com apenas 44 anos de idade, enviuvara há mais de duas décadas e perdera a única filha, falecida em 1853 com 21 anos. A 30 de Janeiro de 1857, o príncipe Alberto da Grã-Bretanha escreve a Pedro:

Precisas de uma rainha que desse a toda a corte e ao lar, a plenitude e normalidade que não pode ser esperada dum celibatário. Além disso, o celibato tornar-se-á tanto mais perigoso quanto os teus irmãos e irmãs se fizerem adultos e quanto mais se evidenciarem as diferenças, nos gostos e nas ideias, entre filho e pai. Assim, como actualmente estão as coisas, depressa o centro da família se perderá de vez e, sem este, não é possível manter uma família unida. A rainha devia ser jovem, bonita, pura, bem-educada e instruída, não ser beata nem mimada. Julgamos ter encontrado uma pessoa com estes requisitos na filha mais velha do príncipe de Hohenzollern-Sigmaringen, que abdicou em 1848. Ela pertence à Casa da Prússia, tem o seu domicílio habitual em Berlim [equívoco de Alberto] e está, neste momento, em casa da princesa da Prússia, que lhe tece os maiores elogios. Eu próprio nunca a vi; Vitória participou todos os pormenores que conseguimos saber sobre ela a teu pai. O que me leva a indicá-la é a circunstância de ela ser praticamente a única princesa católica que preencheria as condições de uma futura esposa para ti.

Já em Outubro anterior Alberto o alertara para a necessidade de se casar: quando é que tu vais pensar no matrimónio? Falta-te uma rainha que assuma a parte feminina da tarefa. Agora, a 30 de Janeiro, diz-lhe também que, se escolher Estefânia, deve apressar-se, porque se afirma que o príncipe Plon-Plon, alcunha de Napoleão Jerónimo Bonaparte, sobrinho de Napoleão I e primo de Napoleão III, estava em vias de a pedir em casamento. Ruben Andresen Leitão salientou há muito as vantagens de ir buscar consorte aos principados alemães: quando, no século XIX, se declarava entre as nações uma certa rivalidade de domínio, em relação à escolha do futuro ou da futura consorte, aparecia sempre um inocente principado, nas margens românticas do Reno, que fornecia matéria para não se extinguirem as monarquias da Europa. Pensando bem, os príncipes dos ducados da Germânia só traziam consigo vantagens, sendo mesmo difícil encontrar-lhes defeitos. Talvez apenas não trouxessem dote, mas os Parlamentos breve lhes atribuiriam uma confortável dotação. Os príncipes das margens do Reno eram na generalidade muito bem instruídos, facto este que contrastava com a corrente dos Bourbons e dos Orleães, onde esta qualidade era pouco frequente; eram bons chefes de família, com fama de prolíferos e, como já mencionei, os príncipes não traziam consigo quaisquer complicações de ordem política, o que era na verdade ideal para a compreensão e o estabelecimento da paz entre os povos do mundo ocidental europeu». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «… o rei viúvo assumiu a regência à morte da rainha, mas já desde 16 de Setembro de 1855, ao completar 18 anos, que Pedro reinava de facto»

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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
«(…) Estefânia cresceu num ambiente de grande religiosidade mas, segundo os biógrafos seus contemporâneos, sem exageros, sem demasiadas manifestações exteriores, íntima e esclarecida. Esta apreciação deve corresponder à realidade, pois é isso que as suas cartas revelam: uma jovem mulher profundamente religiosa, que procura agir em coerência com as suas crenças, que se chocou com a impreparação, preguiça e hipocrisia do clero português, que não gostava das longuíssimas cerimónias religiosas a que assistia em Lisboa, que não aceitava ser orientada por clérigos pouco esclarecidos. Em Dusseldorf, Estefânia contactou com as Ursulinas, que aí tinham um convento e se dedicavam ao tratamento de doentes e ao ensino de crianças, o que será fundamental na sua formação. Descobria o catolicismo social. É nestas mulheres, religiosas não contemplativas, que Estefânia acredita. Elas poderão regenerar a sociedade. O que a levará, já rainha de Portugal, a colocar-se indefectivelmente ao lado das Irmãs da Caridade. O que levará também Pedro V a refreá-la, não a deixando agir às claras.
A princesa envolveu-se em acções de caridade. Katharina Diez afirma que visitava os pobres em suas casas, entrando em portas onde dificilmente passava a crinolina (armação por debaixo das saias que as abriam em grande balão), tão rebelde em se dobrar. Outras vezes saía à noite disfarçada com roupas de camponesa, a socorrer as famílias necessitadas. Deixara já, pois, quando veio para Portugal, essa imagem de anjo da caridade ou ter-se-ia forjado mais tarde, com o seu destino tão ao gosto romântico. Com certeza que a fama cresceu depois da elevação a rainha e da morte prematura, mas a condessa do Lavradio testemunha em 1857 que indo com ela às terras do pai, viu que ela conhecia e falava a todos os pobres; que todos a vinham cumprimentar e que a acompanhou uma vez a um hospital (fundado pelo avô da princesa) aonde teve a prova que ela lá ia muitas vezes, pois conhecia todos os doentes e de todos era conhecida. As cartas que a rainha irá escrever de Lisboa demonstram também que em Dusseldorf se empenhara activamente em acções de beneficência.
Em finais de 1855, com 18 anos, quando em Portugal Pedro iniciava o seu reinado de facto, a mãe acompanhou Estefânia a Berlim, onde foi apresentada na corte. Tinha atingido a idade de aparecer e de lhe procurarem marido. Sob a protecção da princesa Augusta, mulher do príncipe herdeiro (futuro Guilherme I), participou em saraus, festas, bailes, etc. A jovem também viajou ao estrangeiro, pelo menos à Escócia, como a sua correspondência demonstra. Uma passagem de uma carta de 10 de Maio de 1859 revela que esteve com a mãe em casa da tia Maria na ilha de Arran, ou seja, no castelo de Brodick, mansão dos duques de Douglas-Hamilton.
Por essa altura, Napoleão III, ou talvez, por detrás dele, a tia Estefânia, avó da jovem, tentou casar a princesa de Sigmaringen com o rei da Sardenha-Piemonte Vítor Manuel II, que enviuvara em 1855, aos 35 anos, mas o soberano recusou. A princesa Estefânia poderia ter sido madrasta de Maria Pia de Saboia, então com 8 anos e sua sucessora como rainha de Portugal. O que, por certo, nenhuma das duas alguma vez soube.

De Dusseldorf para Lisboa
Negoceia-se o casamento
«(…) Em Janeiro de 1857, o príncipe Alberto de Saxe-Coburgo-Gotha, marido da rainha Vitória de Inglaterra, aconselhou Pedro V de Portugal a escolher para esposa a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen. Pedro tinha 19 anos, como Estefânia. Era filho da rainha dona Maria II, falecida em 1853, e de Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, intitulado rei desde o nascimento do seu primogénito. Porque o filho era menor, o rei viúvo assumiu a regência à morte da rainha, mas já desde 16 de Setembro de 1855, ao completar 18 anos, que Pedro reinava de facto. Vitória e Alberto, primos direitos
entre si (Vitória era Saxe-Coburgo pela mãe), eram também primos direitos do rei-consorte de Portugal, o que explica as estreitas relações. O jovem rei Pedro de Bragança nutria uma profunda admiração por Alberto de Inglaterra, a quem tratava por tio, como era costume chamar aos primos dos pais. Alberto também admirava a seriedade e sentido de responsabilidade do sobrinho, qualidades que não encontrava no filho, o futuro Eduardo VII. Em contrapartida, Pedro e o pai possuíam personalidades muito distintas e as relações entre eles eram tensas». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «A cerimónia revestia-se de grande importância, assumindo o carácter de solene ritual de passagem da infância à adolescência e de entrada na vida activa cristã, realizando-se nesta época pelos 13 ou 14 anos…»

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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
«(…) Em 1831 Estefânia de Beauharnais casou Luísa (1811-1854), a filha mais velha, com Gustavo Vasa, filho do rei destronado da Suécia. Tiveram uma filha, Carola (1833-1907), que desposou aos 20 anos o príncipe herdeiro da Saxónia. A segunda filha de Carlos de Baden e Estefânia de Beauharnais era Josefina, mãe da futura rainha de Portugal. Era afilhada de Josefina, ex-imperatriz francesa, repudiada três anos antes. A terceira filha de Estefânia de Beauharnais, de nome Maria (1817-1888), casou com Guilherme Alexandre Douglas-Hamilton, 11o duque de Hamilton. Nasceram deste casamento Guilherme Alexandre (1845-1895), Carlos (1847-1886) e Maria Vitória (1850-1922). São estes, pois, os tios e primos, pelo lado materno, da princesa Estefânia de Hohenzollern-Siemaringen. Com a subida ao poder de Napoleão III (que era Bonaparte pelo pai e Beauharnais pela mãe), a avó Estefânia, tia do novo imperador por laços de adopção, estava de novo protegida e instalou-se na corte francesa, onde vivia quando Pedro V e a princesa Estefânia se casaram.
Pelo lado paterno, Estefânia tinha apenas uma tia, Amália (1815-1841), casada com Eduardo, príncipe da Saxónia-Altenburg. Os seus filhos foram Teresa (1836-1914), Antonieta (1838- 1908), Luís (1839-1844) e João (1841-1844). Os pais de Estefânia, cujo casamento se realizou em 1834, tiveram no ano seguinte o seu primeiro filho, Leopoldo. Virá a casar com dona Antónia de Bragança, irmã de Pedro V e Luís I, já após a morte de Estefânia. A esta, dois anos mais nova do que Leopoldo, seguiram-se os nascimentos de Carlos (Carol) em 1839, António em 1841, Frederico em 1843 e Maria em 1845. Até aos seus 8 anos de vida, Estefânia viu, pois, surgir um novo irmão em cada dois anos.
Em Agosto de 1848 Carlos III abdicou no seu filho, pai de Estefânia. Dois anos depois, com a cedência da soberania de Sigmaringen ao primo afastado Frederico Guilherme IV, rei da Prússia, a família Hohenzollern-Sigmaringen abandonou a capital do ex-principado e residiu por algum tempo em Basileia e em Neisse, na Silésia. Em Maio de 1852, tinha então Estefânia 15 anos de idade, o pai foi nomeado para um alto cargo militar e a família mudou-se para Dusseldorf, na Renânia, instalando-se no castelo ou palácio de Iagerhof. Todos os anos, a família Hohenzollern-Sigmaringen passava o Outono numa das suas propriedades na Suíça, perto do lago Constança.

Formação de uma princesa
Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen era uma mulher culta. Bilingue, pois falava como línguas nativas o alemão e francês, exprimia-se facilmente em inglês e italiano. Gostava de história, de literatura, de poesia, que lia nos quatro idiomas que dominava, e possuía bons conhecimentos de arte. Aos 8 anos a sua educação foi confiada a madame Naudin, francesa. Provavelmente a sua mãe, filha de francesa, falava com os seus filhos em francês, língua que Estefânia utiliza sempre nas cartas que lhe escreve. Aprendeu desenho com o professor Mucke, cujo estilo religioso lhe agradava particularmente e que também a orientou na educação religiosa e na história e princípios teóricos e estéticos das artes gráficas. Teve como professora de música a célebre pianista e compositora Clara Wieck Schumann e recebeu lições de doutrina cristã de Lampenscherf. Como qualquer princesa da sua época, Estefânia aprendeu equitação. Montava bem, diz Katharina Diez, e, segundo a mesma, chegou a receber lições de exercícios militares com um oficial do regimento do pai. Mas não devia ser uma boa cavaleira, pois, já em Portugal, Pedro V obrigou-a a ter 1ições de equitação por ter sofrido uma queda de um cavalo que não soube dominar. A princesa foi também treinada, como é óbvio, nos tradicionais lavores femininos. Nas suas temporadas em Mafra, por vezes orientava essas matérias na aula das meninas pobres, ensinando-as a executar um ponto de renda novo, que passou a ser conhecido como ponto da rainha, ou renda alemã. Como a qualquer burguesa que tem de governar a sua casa, a mãe mandou-a ainda seguir lições de culinária e doçaria.
É conhecida uma gravura representando a sua primeira comunhão. Nela se veem os pais, em lugar de honra, e a princesa junto de outras comungantes. A cerimónia revestia-se de grande importância, assumindo o carácter de solene ritual de passagem da infância à adolescência e de entrada na vida activa cristã, realizando-se nesta época pelos 13 ou 14 anos, pois entendia-se só dever comungar quem tivesse adquirido uma sólida formação doutrinal. Posteriormente, já em Dusseldorf, a princesa recebeu o crisma na Igreja de São Lamberto, pelo cardeal, arcebispo de Colónia, monsenhor Geissel». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Maria Pia de Saboia. Maria Antónia Lopes. «Em 1845, Vítor Manuel conheceu Rosa Vercellana, uma jovem de l4 anos, plebeia analfabeta, que o atraiu para toda a vida»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
Família, nascimento e baptismo
«(…) O pai de Maria Pia era ainda desconhecido na Europa. Depois irá impor-se ao mundo dito civilizado. Unificador da Itália, rei constitucional, combatente pelos ideais da liberdade, opositor do poder temporal da Igreja e galantuomo. Este cognome tem sido mal interpretado em Portugal. É verdade que foi um conquistador de amores, que os filhos ilegítimos se sucederam a partir de 1848, mas o epíteto enaltecia uma atitude filosófico-política: a probidade e a fidelidade à palavra como determinantes da acção política, na antítese do maquiavelismo. Maria Pia tinha, pois, 17 meses quando os pais subiram ao trono, a 24 de Março de 1849. A mãe, Maria Adelaide de Habsburgo-Lorena, era uma arquiduquesa austríaca. A Casa de Áustria, porque dominava a Lombardia e o Veneto, territórios vizinhos do Piemonte, e ainda, através de diversos membros da família, várias outras unidades políticas da Península Itálica (como a Toscana), tinha relações difíceis com os Saboias. No processo de unificação italiana serão, a par do papa, os grandes adversários, Mas quando Vítor Manuel se casou, não começara ainda a expansão piemontesa. E a noiva foi uma austríaca como, afinal, também já era a sua mãe, Maria Teresa de Habsburgo-Lorena, princesa de Módena. Além disso, Vítor Manuel e Maria Adelaide eram primos direitos (pelo lado Saboia), sendo ambos Saboias e Habsburgos. Não só Carlos Alberto se unira a uma austríaca, como uma irmã dele, Maria Isabel de Saboia-Carignano, se consorciara com o arquiduque de Áustria, Renato (Rainier) de Habsburgo, vice-rei da Lombardia-Veneto e filho do imperador Leopoldo II da Áustria. E eram estes os pais de Maria Adelaide. Maria Pia era, pois, uma Habsburgo, tanto pelo lado paterno como pelo materno. Durante a sua vida adulta manterá correspondência e relações de afecto com os parentes austríacos.
Quando Maria Pia nasceu, tinha a mãe 25 anos e o pai 27 . Estavam casados desde 1842 e já existiam os irmãos Maria Clotilde, que nascera a 2 de Março de 1843, Humberto, em 14 de Março do ano seguinte, Amadeu, em 30 de Maio de 1845, e Otão (Oddone), em 11 de Julho de 1846. A seguir a Maria Pia, Maria Adelaide deu à luz três outros rapazes que não sobreviveram, numa sucessão de partos demasiado próximos. A família real habitava em Turim. Dela faziam parte, depois do exílio e morte de Carlos Alberto, o jovem casal reinante e seus filhos, a rainha-viúva Maria Teresa de Habsburgo-Lorena (1801-1855), o duque de Génova, Fernando de Saboia (1822-1855), que era irmão de Vítor Manuel, a mulher deste, Maria Isabel da Saxónia (1830-1912) [irmã de Jorge da Saxónia, com quem casou, em 1859, a infanta Maria Ana de Bragança] e os filhos, Margarida, quatro anos mais nova do que a prima Maria Pia, e Tomás Alberto, nascido em 1854. Era ainda viva uma bisavó, a mãe de Carlos Alberto, Maria Cristina da Saxónia-Curlândia (1770-1851). O bisavô, Carlos Manuel de Saboia, tinha morrido há muito, em 1800.
A família materna era mais numerosa, mas estrangeira e residindo longe. Pouco tempo depois do nascimento de Maria Pia, as relações familiares degradaram-se por motivos políticos. Quando a princesa nasceu, viviam ainda os avós Renato de Habsburgo (1783-1853) e Isabel de Saboia-Carignano (1800-1856), além de Maria da Saxónia-Curlândia, que era bisavó tanto pelo lado paterno como materno. Os tios Áustrias eram cinco: Leopoldo (1823-1898), Ernesto (1824-1899), Segismundo (1826-1891), Renato (1827-1913) e Henrique (1828-1891).
Em 1845, Vítor Manuel conheceu Rosa Vercellana, uma jovem de l4 anos, plebeia analfabeta, que o atraiu para toda a vida. Desta ligação nasceu Vitória em 1848 e Manuel em 1851. Em 1852 e 1853 o rei teve mais um filho e uma filha da actriz Laura Bon, a quem se ligara já em 1844. Depois da viuvez, Vítor Manuel terá também uma filha de Vitória du Plessis, que morreu na infância; e de Virgínia Rho nascerão Donato em 1858, Vítor Manuel em 1861 e Maria Pia em 1866. Mas com estes meios-irmãos Maria Pia de Saboia não convivia, naturalmente. Rosa Vercellana, a dilecta de Vítor Manuel II, e muito menos as outras, nunca foram admitidas na corte. Neste século XIX já não se consentiam tais ofensas à família legítima». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Dona Maria Pia de Saboia. Maria Antónia Lopes. «Por estranho que pareça, Maria Pia só tinha estes dois nomes próprios, ao contrário dos irmãos, que, como era hábito, foram baptizados com vários…»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
Família, nascimento e baptismo
«(…) Um ano antes havia sido eleito Pio IX, que nessa altura augurava excelentes relações com os Saboias. O novo papa considerava o Piemonte um pilar da Igreja e a Casa de Saboia Piíssima, distinguindo-se pelo seu filial afecto pelos Pontífices Romanos. Carlos Alberto, devoto atormentado, sempre respeitou a Igreja, e no Verão de 1847, precisamente, tinha apoiado o papa contra a ocupação de Ferrara pelas forças austríacas. Quando meses depois nasceu uma princesinha Saboia, nesta corte tão rigidamente piedosas, nada mais natural que o sumo pontífice a tivesse apadrinhado. Assim, carecem de sentido os comentários acerca da estranha escolha que Vítor Manuel fez para padrinho da sua filha e a não menos estranha aceitação do papa, o seu grande inimigo. Quando a menina nasceu, o pai era apenas príncipe herdeiro e não manifestara ainda as suas convicções políticas. Foi sem dúvida Carlos Alberto, rei e chefe da família, a decidir essa escolha de tanto significado político. E foi através do pai que Vítor Manuel soube que o papa aceitara apadrinhar o filho que iria nascer. Nasceu uma filha, às seis da manhã do dia 16 de Outubro. O parto foi rápido e o nascimento deixou a mãe feliz, pois desejava uma menina.
Nesse mesmo dia, às dezassete e trinta, foi baptizada solenemente, sendo o padrinho representado pelo núncio papal. A cerimónia, brilhantíssima, sob todos os aspectos (nas palavras do mestre de cerimónias), decorreu com rígido protocolo e aparato. Um cortejo de coches ladeados por pajens do rei caminhando a pé dirigiu-se à nunciatura a recolher o representante do papa, monsenhor Altonucci. O baptismo da princesa foi ministrado pelo arcebispo no palácio real e na presença dos reis seus avós, do pai e dos irmãos, das mais altas personalidades da corte e do primeiro-secretário de Estado. A recém-nascida apareceu nos braços da marquesa de Pallavicini, dama da rainha, que se colocou à esquerda do núncio. O arcebispo iniciou então a cerimónia e por ordem do rei impôs à criança o nome de Maria Pia. Terminada a função, a menina foi mostrada a todos os presentes!
Por estranho que pareça, Maria Pia só tinha estes dois nomes próprios, ao contrário dos irmãos, que, como era hábito, foram baptizados com vários. Na sua família sempre lhe chamaram apenas Maria e no palácio era a principessa Maria. Mas o seu nome era Maria Pia, em homenagem ao ilustríssimo padrinho. A escolha agradou à sua família austríaca. O avô materno, ao felicitar o genro pelo nascimento da menina, faz votos de que os nomes de Maria e de Pia lhe tragam felicidade e que seja a consolação dos seus pais, como a sua mãe foi a nossa.
Em 1847 o reino da Sardenha era constituído pela ilha do mesmo nome, pelo Piemonte, onde se localizava a capital do reino, Turim, pela antiga república de Génova e ainda pelo condado de Nice e ducado de Saboia, territórios que actualmente integram a França. A aspiração a uma unidade política da Itália era já bem viva, sustentada por monárquicos liberais e por republicanos. Os Saboias serão os condutores dos primeiros, conseguindo fazer da Península Itálica um reino unido sob um regime parlamentar. Será uma causa exaltante, de feição romântica, conduzida pelo ministro Cavour e pelo rei Vítor Manuel II, que fará dele o pai da Pátria. Um processo longo, culminando em 1870 com a ocupação de Roma, doravante a capital da Itália. Maria Pia viverá tudo isto de longe. Verá a sua pátria, que ama entranhadamente, construir-se gradual e gloriosamente, ignorando-a a ela, uma Saboia, filha do fundador, sem que em nada possa intervir.
Carlos Alberto iniciou a expansão territorial na direção da Lombardia, atacando os Habsburgos que a governavam e que eram a sua própria família, mas foi infeliz. Derrotado em Novara, em Março de 1849, abdicou do trono, despojou-se de tudo e saiu precipitadamente de Itália, com destino incerto. Dirigiu-se, por terra, para Portugal. Não providenciara uma abdicação formal escrita. Foi necessário que enviados especiais o encontrassem, já em território espanhol, para que produzisse um documento que incontestavelmente fazia do seu filho rei da Sardenha-Piemonte. Com 50 anos, Carlos Alberto sempre fora uma personalidade difícil de compreender. Extenuado e doente, o ex-rei da Sardenha morreu no Porto a 28 de Julho de 1849. Este fim conferiu-lhe uma aura romântica que fez esquecer as suas tergiversações». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Maria Pia de Saboia. Maria Antónia Lopes. «Carlos Alberto Saboia, que tão celebrado será pelos liberais por ter outorgado, em 1848, o Estatuto, isto é, uma carta constitucional, como Pedro IV fez no nosso país, foi nos primeiros anos do seu reinado…»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
«(…) Por tudo isto, não é fácil destrinçar a realidade da representação que se forjou, perceber a personalidade de Maria Pia e certos eventos da sua vida. O que dela se afirma é contraditório e em grande parte uma imagem que não se ajusta à pessoa que realmente foi esta rainha, imagem que é necessário desconstruir. Se em muitos aspectos foi possível fazê-lo, depurando-a das camadas sobrepostas de lendas, equívocos, preconceitos, ressentimentos e lisonjas, nem sempre as fontes o permitiram. O historiador não é omnisciente e uma biografia desafia-nos sempre com zonas de sombra que não é possível perscrutar. É bem possível que outra documentação, nomeadamente de índole privada, venha a aparecer e confirmar, matizar ou refutar muitas das minhas interpretações.

Luís Espinha Silveira foi o primeiro a analisar de forma sistematizada a correspondência de dom Luís e dona Maria Pia depositada na Torre do Tombo e no Palácio da Ajuda (Museu) para perceber a personalidade de Maria Pia. Utilizo também essas e outras muitas cartas inéditas escritas e recebidas pela rainha, assim como documentação de natureza diferente, guardadas no Arquivo da Casa Real da Torre do Tombo mas também no Arquivo de Estado de Turim, que dona Maria Pia terá levado consigo para o exílio ou que para lá foram remetidas. Um pequeno núcleo documental do Arquivo Centrai do Estado, em Roma, forneceu informações sobre o seu funeral. Encontra-se ainda documentação de tipologia diversa, incluindo mais uma vez correspondência emitida e recebida por dona Maria Pia, na Biblioteca da Ajuda, no Arquivo da Universidade de Coimbra e no Arquivo Regional de Ponta Delgada.
Dona Maria Pia escrevia em italiano para a família de Itália e em francês pouco correcto ao nível da ortografia para todas as outras pessoas, incluindo o marido e os filhos, que também se lhe dirigiam nessa língua. Assim sendo, todas as pequenas citações que faço em português são traduções da minha responsabilidade. Expressões curtas e claramente compreensíveis foram mantidas no original, mas optou-se, em geral, pelo resumo e não pela transcrição da correspondência. Nos anos de 1880 e 1890 Carlos I redigia por vezes as suas cartas à mãe em português. Maria Pia lia e falava português correctamente e escrevia em português (fazendo rever a grafia) para certas pessoas, como, por exemplo, para Hintze Ribeiro.

Princesa Maria Pia de Saboia (1847-1862). Família, nascimento e baptismo
A princesa Maria Pia nasceu em Turim a 16 de Outubro de 1847, no seio da família reinante de Saboia, a casa donde tinha saído, no século XII, dona Mafalda (ou Matilde), esposa do primeiro rei português. A menina era neta do rei da Sardenha, Carlos Alberto Saboia (1798-1849). Na realidade, a sua estirpe era Saboia-Carignano, ramo colateral da família desde a primeira metade do século XVII. Para se encontrar um rei entre os ascendentes Saboias de Carlos Alberto, há que remontar a Carlos Manuel, o Grande, falecido em 1630. Carlos Alberto, duzentos anos depois, faz aceder ao trono a linha Saboia-Carignano, que descendia de Tomás Francisco, filho segundo de Carlos Manuel, A ascensão ocorreu pacificamente, por se ter extinto a via masculina do ramo principal. Dos três reis anteriores, todos irmãos, só um teve descendência, mas nenhum filho homem: Carlos Manuel IV que reinou de 1796 a 1802, Vítor Manuel I, rei entre 1802 e 1821, e Carlos Félix, rei de 182l a 1831. À excepção de Carlos Félix, todos estes mencionados, incluindo o avô de Maria Pia, abdicaram.
Carlos Alberto, sétimo príncipe de Saboia-Carignano, que depois de rei irá deixar cair o Carignano, nome que passa a ser usado por um primo, agora representante do ramo lateral, foi designado herdeiro do trono da Sardenha por Vítor Manuel I, que, ao abdicar no irmão Carlos Félix, e porque este também não tinha herdeiros, estabeleceu a sucessão no jovem primo do ramo Carignano. A escolha desagradou a Carlos Félix, convicto absolutista que desconfiava do jovem parente educado em França, mas cumpriu a vontade do irmão. Será uma constante na família Saboia do século XIX, incluindo os dois ramos: a lealdade entre os seus membros e o respeito total pela vontade do chefe da casa.
Carlos Alberto Saboia, que tão celebrado será pelos liberais por ter outorgado, em 1848, o Estatuto, isto é, uma carta constitucional, como Pedro IV fez no nosso país, foi nos primeiros anos do seu reinado um soberano absoluto. Mas a sua actuação foi contraditória. Num período em que assumiu a regência na ausência de Carlos Félix terá patrocinado uma revolta liberal, mas submeteu-se de imediato ao rei. Quando subiu ao trono não instaurou o liberalismo. Pelo contrário, reprimiu-o violentamente em 1833-1834 e, no exterior, auxiliou os miguelistas portugueses e os carlistas espanhóis. É só com as convulsões de 1848, após a promessa de constituição feita pelo rei de Nápoles e depois da deposição do rei francês (Luís Filipe Orleães), que Carlos Alberto cede às novas ideias que se expandiam irreversivelmente. Só nesse ano reconhece as monarquias constitucionais de Portugal e de Espanha, só nesse ano, como se disse, concedeu uma Constituição ao seu povo. Por convicção? Por táctica? O certo, o que nos importa frisar, é que quando a sua neta Maria Pia nasceu, filha do príncipe herdeiro Vítor Manuel e da sua mulher Maria Adelaide Habsburgo, ainda a corte de Turim albergava um rei absoluto». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

domingo, 15 de abril de 2018

Dona Maria Pia de Sabóia. Maria Antónia Lopes. «… boneca caprichosa, orgulhosa, ardente, brava, sem medo, desprezando a vida e considerando a sua qualidade de rainha…»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
«(…) Neste livro tento compreender uma vida e um carácter, mas, como obra histórica que é, não pode deixar correr a imaginação sem o suporte documental. E este nem sempre existe. No caso vertente, a questão agrava-se com a sonegação de documentos (de certeza importantes) por quem não tinha qualquer legitimidade para o fazer, uma vez que se trata de um conjunto documental pertencente a uma instituição pública. Refiro-me ao facto de não ter sido autorizada a consultar a documentação existente no Palácio Nacional da Ajuda (não confundir com a Biblioteca da Ajuda), onde, na verdade, tais documentos não deveriam estar por se tratar de um museu e não de um arquivo ou biblioteca. Não iniciei esta investigação com o propósito de ser original à força, revendo a imagem de Maria Pia de Saboia em sentido positivo ou negativo. E, contudo, à medida que a investigação decorria, apercebi-me cada vez mais nitidamente de que esta mulher tem sido mal interpretada e que se trata de uma pessoa muito mais rica e interessante do que se tem afirmado. A minha posição é incómoda. Não há dúvida de que, em nome do rigor histórico, a personalidade tem de ser revista num sentido positivo, tanto no que se refere às suas qualidades humanas, como às suas capacidades políticas, mas este livro não é um panegírico de Maria Pia, nem, evidentemente, a sua detracção ou a de outrem.
Como disse, não existe nenhuma biografia da rainha Maria Pia assente em investigação, embora desde o seu tempo até à actualidade (2009) muitos autores se lhe tenham referido para traçar as vidas dos monarcas Luís I, Carlos I e da rainha dona Amélia ou para analisar a época. Tais escritos possuem valor muito distinto, indo da mera recolha acrítica de notícias da imprensa, boatos e lendas, ou da compilação de informações historiográficas dispersas, até à verdadeira investigação histórica que, muito recentemente, recorreu a documentação privada produzida pela própria rainha. Uma obra histórica, comecemos por esclarecer, assenta sempre, pelo menos em parte, em fontes, o que significa documentos da época, que podem ser de natureza muito diversificada. Quando assim não sucede, quando se trabalha a partir de estudos, estamos perante um trabalho de síntese ou de um ensaio, mas não de um texto historiográfico. Além do recurso a fontes, é necessário dominar a metodologia histórica da investigação e da exposição. Por isso, a história não pode ser confundida com relatos publicados por pessoas bem intencionadas mas sem o domínio dos saberes, das técnicas e da deontologia inerentes a esta ciência, Um pequeno livro publicado em 2007 com o título Maria Pia: Rainha e mulher, de autoria de José Manuel Pavão e João Cerqueira, é um exemplo de uma síntese. Tem a valia de reunir, pela primeira vez, informação que se encontrava dispersa, mas não acrescenta saber porque apenas compilou o que já estava escrito e era conhecido. Contudo, apesar das evidentes limitações e equívocos de que enferma, é uma síntese honesta. Já a passagem que as autoras de Amantes dos reis de Portugal dedicam a Maria Pia é dos exemplos mais flagrantes de leviandade de quem escreve sobre o que não estudou e sobre o que nunca reflectiu. Desculpável em tantos que, sem formação, publicam e alcançam êxitos fáceis, é inadmissível a quem se apresenta como historiador.
Autores mais antigos, alguns seus contemporâneos, escreveram sobre dona Maria Pia. Todos estes autores apresentam uma imagem muito favorável de dona Maria Pia. Pouco lisonjeiras são as apreciações da condessa de Rio Maior (Isabel Sousa Botelho), marquês de Fronteira (José Trazimundo Mascarenhas Barreto), Júlio Vilhena (1916), Raul Brandão (1998 e1925) e Aires Sá (1928). César Silva (1922), que demonstra admiração por Maria Pia, considera que na intimidade, porém, acusava um desequilíbrio por vezes desastroso. Era uma histérica. Rocha Martins (1926 e 1931) romanceia, deixa correr sem freios a imaginação, além de apresentar erros factuais e interpretações muito datadas. Define dona Maria Pia como boneca caprichosa, orgulhosa, ardente, brava, sem medo, desprezando a vida e considerando a sua qualidade de rainha acima de todas as vulgaridades, era sublime e bondosa, majestática e humilde, doce e irritável, uma histeria desenvolvida num corpo nado para os nervosismos e que as constantes contrariedades tinham levado ao excesso, ao tormento. Segundo o mesmo autor, depois do regicídio, transformou-se em uma tontinha a regar as flores dos seus tapetes. Raul Brandão, cujo diário publicado com o título de Memórias é muito utilizado, está na origem de inúmeras fantasias sobre Maria Pia, repetidas ad nauseam. Brandão registava toda a maledicência que corria em Lisboa, sem lhe aplicar qualquer crivo crítico, publicando os boatos mais inverosímeis. Tem também equívocos, só possíveis se o texto foi escrito ou acrescentado muito depois das datas que refere. Afirma, por exemplo, que no dia 11 de Maio de 1903 se discutiu na Câmara dos Pares a viagem da rainha dona Amélia, sendo acusada de ter inventado esse pretexto para não receber Émile Loubet, presidente da França. Ora, quem visitou Portugal em 1903 durante a ausência de dona Amélia foi o rei Eduardo VII. Loubet esteve em Lisboa em 1905 e foi recebido por dona Amélia e quem se encontrava no estrangeiro nesta altura era a rainha Maria Pia. No segundo volume, Raul Brandão mudou, humanizou-se. O tom é mais reflectido e quando relata boatos faz algumas apreciações sobre a sua credibilidade». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

sábado, 14 de abril de 2018

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «Assim, pelos laços de adopção, dona Estefânia, rainha de Portugal, era bisneta de Napoleão I»


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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
«(…) Como o principado de Sigmaringen e o grão-ducado de Baden (origem da mãe de Estefânia) haviam estado sob a influência de Napoleão, tinham-se criado estreitos laços familiares entre essas antigas e orgulhosas linhagens e as famílias Bonaparte e Beauharnais, enteados de Napoleão (filhos do primeiro casamento de Josefina Tascher de La Pagerie, futura imperatriz, com o visconde Beauharnais e legalmente príncipes Napoleão por terem sido adoptados  pelo imperador). Os Hohenzollern-Sigmaringen ligaram-se também à parentela de Joaquim Murat, cunhado de Napoleão, filho de um estalajadeiro e rei de Nápoles. Ora isto teve como consequência ser a princesa Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen descendente dessas famílias de nenhuns pergaminhos, que as realezas e antigas aristocracias europeias desprezavam. Quando se tratou do casamento de Pedro V tal ascendência da noiva chegou a ser encarada pelo conde do Lavradio como um possível e grande óbice à união. Contudo, nessa altura os Bonapartes estavam outra vez no trono imperial francês e também os Braganças se haviam unido aos Beauharnais. As marchas, do sangue de dona Estefânia foram caladas pelos seus biógrafos, mas, na época, esgrimidas pelos miguelistas.
Debrucemo-nos, entãoo, sobre a família da nossa rainha. O seu pai era Carlos António Hohenzollern-Sigmaringen (1811-1885) e a mãe Josefina Frederica Baden (1813-1900). Era neta paterna de Carlos III (1785-1853), príncipe soberano de Hohenzollern, e de Maria Antonieta Murat (1793-1847), sobrinha de Joaquim Murat. Os avós maternos foram Carlos Luís (1786-1818), grão-duque de Baden, e Estefânia de Beauharnais (1789-1860), princesa Napoleão, pois em 1806 o imperador francês adoptou-a como filha, casando-a com o grão-duque alemão. Dona Estefânia estava, pois, ligada aos Bonapartes tanto pelo lado paterno como materno. As suas avós eram ambas francesas e membros desse clã.
Carlos III, o avô que se casou com uma Murat, contraiu segundas núpcias em 1848, já a neta tinha 11 anos, com a princesa Catarina Hohenlohe-Waldenburg (1817-1893), a quem Estefânia chamará avó Catarina e com quem, em Lisboa, se irá corresponder. A grã-duquesa Estefânia, a avó materna, filha do conde Cláudio Beauharnais e de Claudina Francisca Lézary-Marnézia, era prima em 2.o grau do primeiro marido da imperatriz Josefina, a quem tratava por tia. Napoleão não só adoptou os dois enteados, mas também, como se disse, essa prima deles. Assim, pelos laços de adopção, dona Estefânia, rainha de Portugal, era bisneta de Napoleão I. Em 1828 um estranho acontecimento apaixonou a Europa: o celebérrimo caso de Kasper Hauser, que continua envolto em mistério e a ser estudado por qualquer aprendiz de psicólogo. Um rapaz com cerca de 16 anos apareceu em Nuremberga mal sabendo andar, falar e interagir com os seus semelhantes. Vivera aprisionado num cubículo escuro sem contactos com ninguém a não ser o carcereiro. Rapidamente se espalhou que era o filho dos grão-duques de Baden, nascido e supostamente falecido em 1812. Dizia-se que o príncipe fora sequestrado para não suceder ao pai e que o bebé morto não era ele. E por isso não tinham consentido a Estefânia Beauharnais, sua mãe, que visse o pequeno cadáver, com a desculpa do estado em que estava. Dizia-se também que o sequestro tinha sido obra de Louise Geyer Geyersberg, condessa de Hochberg (que casara morganaticamente com o avô de Carlos Luís Baden), para que os seus próprios filhos sucedessem. Sucedeu, de facto, o ramo Hochberg de Baden quando Carlos Luís morreu, logo em 1818. Estefânia Beauharnais, viúva, com 29 anos, sem apoios e sendo princesa Napoleão, o que agora era um estigma, refugiou-se com as filhas em Mannheim, cidade católica. Quanto a Kasper FIauser, morreu apunhalado em 1833. Se se tratava, de facto, do príncipe de Baden, era tio direito da rainha dona Estefânia. Não faltam mistérios e intrigas romanescas nesta família». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Maria Pia de Sabóia. Maria Antónia Lopes. «Os adversários políticos atacaram os seus gastos, propalaram as suas excentricidades, ou caprichos, consideravam-na autoritária»

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Rainha que o povo amou. Maria Pia de Sabóia (1847-1911)
«Quando em 1910 a monarquia portuguesa foi extinta, havia em Portugal duas rainhas: dona Amélia e dona Maria Pia. E, contudo, a memória colectiva do episódio da partida para o exílio apenas reteve a figura de deona Amélia. Ignora-se quem foi dona Maria Pia, quando viveu, qual a sua personalidade. Surge a surpresa quando se afirma que a 5 de Outubro saíram de Portugal duas rainhas, reacção recorrente dos meus alunos, como é também em outros círculos alheados da história. Já em ambientes com outro nível de conhecimentos, à questão sobre o que sabem de dona Maria Pia, ouve-se caracterizá-la com algumas destas fórmulas: frívola, dissipadora, vaidosa, geniosa, detestando o marido, ciumenta da nora, desequilibrada, uma tonta. Repetem-se as célebres frases que se lhe atribuem e que, na realidade, são todas apócrifas: no me piace Luigi, gravado na vidraça com os brilhantes dos anéis; se eu fosse o rei mandava-o fuzilar, dirigindo-se a Saldanha em 1870; quem quer rainhas paga-as, quando a acusavam de gastar demasiado, etc.. Outros, ainda, referem-se a publicações recentes, de nível light, que fazem dela uma mulher adúltera sexualmente insaciável. No seu país de origem, a Itália, Maria Pia foi esquecida. Os estudos sobre os Saboias do século XIX ignoram-na quase totalmente.
Como explicar este apagamento de Maria Pia da memória colectiva portuguesa se em 1910, ao partir para o exílio, vivia em Portugal há quarenta e oito anos enquanto dona Amélia apenas há vinte e quatro? Como explicá-lo, sabendo nós que foi uma rainha amada pelo povo; que nunca foi vaiada ou desconsiderada em público, ao contrário de Carlos I e de dona Amélia; a única, no dizer de muitos, que deixava saudades? Como explicar também a imagem tão negativa que se lhe colou e que contraria flagrantemente a opinião maioritária da época? Como explicar, ainda, que nunca um historiador tenha escrito uma biografia desta rainha que tanto fascínio suscitou?
A imagem que se veicula actualmente da rainha Maria Pia é quase antagónica daquela que a sua época traçou. Ao tempo, a maioria dos portugueses considerava-a caritativa, generosa, afável, mãe e educadora severa e exemplar. Celebravam-lhe a elegância do porte, a coragem manifesta nos momentos decisivos, o sentido da majestade, o apoio sempre prestado ao marido, à dinastia e ao país, a simpatia e gentileza para com grandes e pequenos. Mas sabiam-na também gastadora em demasia e muitos diziam-na infeliz no casamento. Os adversários políticos atacaram os seus gastos, propalaram as suas excentricidades, ou caprichos, consideravam-na autoritária. A propaganda republicana e a dos monárquicos afastados do poder fizeram correr muitas difamações e boatos absurdos sobre todas as pessoas da família real. Nos finais da monarquia existiam na corte duas facções que se confrontavam, a de Carlos I e a de dona Amélia, veiculando cada uma delas notícias contraditórias. E foram-se construindo imagens incompatíveis da personalidade da rainha Maria Pia.
Acrescento outros factores que contribuíram, após o fim da monarquia, para o desabono e para o apagamento de Maria Pia: os monárquicos portugueses que enaltecem a família real centram-se, quanto às figuras femininas, em dona Amélia, romantizada por ter sido a última rainha e pela sucessão de tragédias que sofreu, deixando dona Maria Pia na sombra, embora esta tenha vivido também parte desses dramas. Para traçar o panegírico e ressaltar as qualidades de dona Amélia, os seus biógrafos franceses (que não são historiadores) não se coibiram em denegrir a sogra, com quem fizeram o confronto. A uma Amélia despretensiosa, corresponde uma Maria Pia soberba e vaidosa; a uma mente equilibrada, uma desequilibrada quando não mesmo alienada; a uma mulher de gostos simples e moderados, uma perdulária; a uma esposa exemplar, uma ninfomaníaca adúltera; a uma Amélia socialmente activa com obra importante e eficaz, uma Maria Pia filantrópica de espavento e sem real utilidade. Estas biografias assentam, pelo menos em parte, em afirmações orais e escritas de dona Amélia e da sua família. Ora, Amélia de Orleães viveu muitos anos após a implantação da República e falou e fez escrever o que quis, não se inibindo de traçar um retrato pouco lisonjeiro do marido, como Rui Ramos já salientou. E da sogra, acrescento eu.
Os historiadores portugueses, questionando-se pouco ou nada sobre a personalidade de Maria Pia, têm repetido certos comentários da época e apreciações posteriores, mas é óbvio o desinteresse ou condescendência que sentem por alguém que consideram de insignificante importância. Por vezes parecem partilhar do estereótipo da mulher bela e elegante que forçosamente é fútil. Porque é assim que Maria Pia é apresentada: uma mulher frívola, perdulária, pouco inteligente e instruída. E que por isso não era levada a sério nem pelos políticos e cortesãos, nem pelo marido, pelo filho mais velho ou pela sua família de origem. Afigura-se que, inconscientemente, certos autores assimilaram o que o século XIX pensava das capacidades cerebrais das mulheres. É também comum dizerem que teve episódios de loucura, ou, pelo menos, que era desequilibrada, e que enlouqueceu depois do regicídio. Na verdade, não encontrei na documentação primária o mais leve indício de desequilíbrio mental. Outra imagem forte desta rainha, que perdurou e se reproduz, são os seus gastos excessivos, o que, ressalvando alguns exageros, corresponde à verdade. Por fim, uma questão recentemente tratada.
Segundo Luís Espinha Silveira, dona Maria Pia teve como amante, nos finais da década de 1880, Tomás Sousa Rosa. A situação terá sido de tal forma grave que Luís I ponderou a separação e mesmo a sua própria abdicação. Não me parece que se possa ser tão categórico a este respeito. Debruçar-nos-emos sobre o assunto, pois a minha leitura é bastante diferente. Mas deve salientar-se que Espinha Silveira foi o único historiador actual que procurou perceber a personalidade de dona Maria Pia». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Maria Pia de Saboia, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

Cortesia de CLeitores/JDACT

Dona Estefânia de Hohenzollern. Maria Antónia Lopes. «Vilhena, um ex-ministro monárquico já então muito idoso, ficou fascinado pela alma pura, da jovem, chegando a considerá-la a mais notável das rainhas…»

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Rainha que o povo amou. Estefânia de Hohenzollern-Sigmaringen (1837-1859)
«(…) Mendes dos Remédios, em 1903, num prefácio à edição de cartas de Pedro V, é o primeiro a referir-se ao dispendioso e luxuosíssimo enxoval de dona Estefânia, que, aliás, tinha sido descrito quando a rainha chegou a Portugal, mas que os biógrafos omitiram, por certo para não contrariarem as qualidades de modéstia e simplicidade que lhe exaltavam. Em 1922 Júlio Vilhena publicou a correspondência que dona Estefânia manteve com a mãe, 50 cartas redigidas entre 6 de Maio de 1858 (em viagem para Portugal) e 6 de Julho de 1859, dois dias antes de adoecer. Trouxe também a público sete cartas que a princesa endereçara ao noivo. Vilhena, um ex-ministro monárquico já então muito idoso, ficou fascinado pela alma pura, da jovem, chegando a considerá-la a mais notável das rainhas, de Portugal. Fez preceder a publicação de um estudo cuidadoso, onde tentou compreender a personalidade de Estefânia, apontando características que até aí não eram conhecidas, como o seu pragmatismo e capacidades de análise política. Júlio Vilhena revela possuir sensibilidade e argúcia, mas, como não podia deixar de ser, reflecte o pensamento do seu tempo, muito marcado por ideias feitas relativamente às mulheres e ao que estas deveriam e desejavam ser. Foi também este autor que em 1921 tornou conhecido um assunto que era sussurrado desde que a rainha morrera, a única polémica que a sua vida suscitou: a possível virgindade à data da morte.
Depois de 1922 pouco ou nada foi acrescentado ao conhecimento historiográfico sobre dona Estefânia, nem ao nível da informação factual, nem no plano da interpretação, apesar de tanto se haver escrito sobre Pedro V. Mas com a publicação das cartas que este escreveu a Alberto de Inglaterra, marido da rainha Vitória, e ao conde do Lavradio, editadas por Ruben Andresen Leitão, e, mais recentemente, as do príncipe Alberto para o rei de Portugal, publicadas por Maria Filomena Mónica, esclareceu-se devidamente como surgiu o nome de Estefânia para rainha de Portugal e os meandros do processo que culminou no casamento.
Não consegui localizar documentação inédita produzida por dona Estefânia ou a ela respeitante. As suas cartas, assim como as do marido, todas publicadas, serão, pois, a principal fonte deste estudo que muito se irá socorrer das suas próprias palavras. Apesar disso, é possível reapreciar a vida desta rainha e matizar a sua personalidade, analisando a correspondência contínua, pormenorizada, franca e íntima que dirigiu à mãe durante os meses que residiu em Portugal. Estes documentos permitem chegar à vida privada e aos sentimentos, quase sempre inacessíveis aos historiadores. Tem passado despercebida a ligação da família de dona Estefânia aos Bonapartes, que será esclarecida. Quanto à apreciação da relação conjugal, afasto-me da interpretação comum, pois não creio que Estefânia tenha sido realmente feliz no seu casamento. Pedro, sim. Mas Pedro não era Estefânia. Admito estar equivocada na minha leitura, embora, com as fontes actualmente disponíveis, me pareça difícil chegar a outra conclusão. Aguardemos, contudo, que um dia surja documentação inédita, nomeadamente em arquivos alemães.

A família
Estefânia Hohenzollern-Sigmaringen nasceu a 15 de Julho de 1837 em Krauchenwies, perto de Sigmaringen, no actual estado alemão de Baden-Württemberg, no Sul da Alemanha. De seu nome completo, Estefânia Frederica Guilhermina Antónia Hohenzollern-Sigmaringen, pertencia ao ramo católico dos Hohenzollern, família reinante da Prússia, e sob a qual a Alemanha será unificada. Mas quando Estefânia nasceu, a família Sigmaringen era ainda soberana no seu principado homónimo que ficava encravado no reino de Würtremberg, confinando a sul com o grão-ducado de Baden e cortado ao meio pelo de Hohenzollern-Hechingen.
Em 1806 o principado de Sigmaringen integrou a Confederação do Reno, sob a protecção do imperador Napoleão Bonaparte. Depois da derrocada deste, passou à Confederação Germânica, tutelada pelo imperador da Áustria. Na luta pela hegemonia do espaço alemão entre a Casa de Habsburgo, da Áustria, e a Casa de Hohenzollern, da Prússia, esta saiu vitoriosa ao fim de um processo de vários decénios em que gradualmente foi incorporando os estados germanófonos. O de Sigmaringen integrou-se na Prússia em 1849/1850, por cessão e abdicação de Carlos António, pai de Estefânia, a favor do rei prussiano, que se tornou chefe representante dos Hohenzollern. Em contrapartida, o chefe da família Sigmaringen ficava com prerrogativas de segundo príncipe da Casa Real prussiana, recebia uma pensão anual e conservava todos os seus bens. Depois, entre 1858 e 1862, Carlos António Hohenzollern-Sigmaringen será ministro-presidente da Prússia». In Maria Antónia Lopes, Rainha que o povo amou, Dona Estefânia de Hohenzollern, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-972-424-718-2.

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segunda-feira, 21 de março de 2016

Um Rei Avesso à Política. Fernando II. Maria Antónia Lopes. «… actuava como se não desejasse o casamento para se proteger em Viena, ou, minava as negociações porque a sua verdadeira vontade era que fracassassem»

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A renitente autorização do pai
«(…) O príncipe Fernando Augusto, os pais e os irmãos partiram finalmente para Coburgo, em Novembro de 1835, onde as negociações decorreram entre os representantes das duas famílias reinantes, o ministro Carlowitz, pelo lado de Coburgo, e Lavradio pelo português. O barão de Stockmar, que já era e será uma presença constante e fiel dos Coburgos (Leopoldo, duquesa de Kent e mais tarde Alberto), foi enviado pelo rei dos Belgas como conselheiro do duque Fernando Jorge, assumindo a qualidade de plenipotenciário deste último. As negociações revelaram-se difíceis e penosas por um conjunto de razões que, melhor do que ninguém, Lavradio explica: em todas as discussões encontrei grandes dificuldades, em consequência do nenhum ou quase nenhum conhecimento que o duque Fernando e as outras pessoas, com quem eu era obrigado a tratar, tinham da história e legislação portuguesa e, em geral, da essência e formas dos governos constitucionais. Por isso, o rei Leopoldo tinha toda a razão quando fez o sobrinho passar uma temporada em Bruxelas, onde lhe ensinaram o que era reinar em regime constitucional.
Como ponto de partida das negociações, foi apresentado o contrato do primeiro casamento da rainha, assinado precisamente um ano antes. Mas os duques de Coburgo não estavam dispostos a aceirar as mesmas condições. Daremos aqui a palavra ao negociador português, testemunho precioso do que se passou: na segunda conferência [...] Carlowirz apresentou-me uma pretensão que muito me embaraçou. Depois de me haver observado que o príncipe Fernando deveria renunciar à dignidade de magnate da Hungria acrescentou que esta renúncia fazia perder ao príncipe uma renda de 400 000 florins anuais e que, portanto, para compensar este sacrifício, seria necessário que a dotação do príncipe fosse elevada a uma soma superior à de 50 000 000 [réis] (pouco mais ou menos 150 000 florins) que eu havia proposto. Depois de várias explicações que me foram necessárias dar a Carlowitz, conclui observando-lhe: 1.º que, nas circunstâncias actuais da Nação Portuguesa, me parecia que não seria possível conceder ao príncipe maior dotação do que aquela que eu havia oferecido; 2.º que, ainda quando fosse possível conceder ao príncipe maior dotação, me parecia inconveniente, nas actuais circunstâncias, pedi-la às cortes, pois este aumento, visto um precedente muito próximo, daria lugar a discussões que não só embaraçariam o governo, mas poderiam ser indecorosas para o príncipe. Carlowitz [...] replicou-me, observando-me que a situação do primeiro marido da rainha era muito diferente da do príncipe Fernando, pois que o primeiro podia conservar os seus bens, e o segundo não, visto a natureza deles, que o obrigavam a deveres políticos que ele não podia cumprir sem ofender a majestade do trono português. Como esta observação me pareceu atendível, propus, como meio de conciliação, que se ajuntasse à convenção um artigo pelo qual Sua Majestade se obrigasse, dados certos casos, que seriam marcados, a mandar pedir pelos ministros, às cortes, um aumento da dotação do príncipe. Esta lembrança excedia as minhas instruções, porém não comprometia o governo, e eu temia que o duque Fernando fizesse ainda mais exigências, não só pelo muito que zelava os interesses do filho, mas até como meio de demorar a conclusão da aliança, o que ele muito desejava.
O motivo da renúncia do príncipe Fernando Augusto à herança da mãe está esclarecido por Carlowitz, se dúvidas houvesse. É óbvio que, como marido da rainha de Portugal, nunca poderia ser súbdito do rei da Hungria (o imperador da Áustria), o que seria se mantivesse a sua qualidade de membro da Câmara dos Magnatas. Tal posição era impensável, tanto para Portugal, como para a rainha, como para o noivo e a sua família. A renúncia de Fernando Augusto de Saxe-Coburgo-Gotha à herança materna nada tem que ver com exigências portuguesas impostas à sua família, que não estava menos interessada em garantir a dignidade do futuro rei. Também não foi provocada por supostas leis húngaras que o inabilitavam e ainda menos por outras supostas leis portuguesas que impediam os consortes de herdar bens no estrangeiro. As manobras de dilação do duque Fernando Jorge podem ser explicadas por várias razões: actuava como se não desejasse o casamento para se proteger em Viena, ou, sem forças para se opor aos irmãos, minava as negociações porque a sua verdadeira vontade era que fracassassem. Pode ainda entender-se o seu comportamento (e aqui a explicação remete para um cenário antagónico) se pensarmos que quanto mais demorassem os ajustes, mais embaraçosa ficava a situação da rainha de Portugal, obrigando-a a ceder às suas exigências». In Maria Antónia Lopes, D. Fernando II, Um Rei Avesso à Política, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-972-42-4894-3.

Cortesia de CL/JDACT

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Um Rei Avesso à Política. Fernando II. Maria Antónia Lopes. «… o paço para receber o novo marido, o que irá provocar um conflito com a madrasta, que teve de se instalar noutro palácio, significando, portanto, a sua perda de influência e afastamento definitivo do centro da corte»

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A renitente autorização do pai
«(…) O duque Fernando Jorge reuniu-se com o irmão mais velho em Praga, mas regressou a Viena e só em Novembro partiu com a família para Coburgo. Ernesto, Vitória e Leopoldo não tinham cessado de o pressionar. O mesmo fizera o governo britânico. A 22 de Setembro, Palmerston informa a duquesa Vitória que, caso as negociações do consórcio corressem bem, o governo britânico tomaria a prominent part in the matter. Nesse sentido, Guilherme IV autorizara já os seus ministros a tomarem as providências necessárias para que o enlace se viesse a concretizar. Mas Fernando Jorge continuava a resistir. Ainda a 31 de Outubro, Ernesto dirige-lhe uma longa carta que é quase um ultimato em nome dele, de Leopoldo e de Vitória: tem de partir para Coburgo sem mais dilações porque Lavradio já está a caminho, sendo inadmissível que o não encontre à chegada. Alerta-o para o facto de ser já impossível recuar e que tanto Vitória como Leopoldo e a própria Inglaterra estavam comprometidos no assunto. Fernando Jorge Coburgo continuava muito receoso da reacção de Metternich e temia também agora um possível apoio da rainha de Inglaterra à família Leuchtenberg, a da madrasta de dona Maria II, recorde-se. Ernesto procura tranquilizar o irmão, garantindo-lhe que a rainha de Inglaterra tem uma posição completamente neutral. Quanto a Metternich, nunca declarou os seus planos abertamente e, em todo o caso, é preferível afastar-se dele. Reitera, pois, que só vê benefícios e nenhuma desvantagem em que Fernando se afaste de Viena e avance com o casamento do filho. E refere-se já a pormenores como se fosse assunto decidido: cerimónia em Coburgo, casamento por procuração, viagem do noivo para Portugal, residência de Toni e da filha durante essa viagem. Envia-lhe ainda uma carta de Leopoldo que lhe garante que será acolhido na Inglaterra, onde se deseja que acompanhe o filho, e o mesmo acontecerá em Portugal, e dá-lhe conta da opinião de Vitória, segundo a qual a resolução do assunto não pode ser adiada para a Primavera seguinte, como Fernando Jorge pretendia, sob pena de não ser concluído.
Também Alberto, com apenas 16 anos, mas já muito senhor de si, escrevia ao primo: felicitava-o, informava-o de que tudo se preparava para receber a delegação portuguesa, comentava o turbilhão de sentimentos que Fernando deveria estar a experimentar, entre a alegria esfuziante e a angústia, pois não seria fácil tornar-se marido tão cedo e menos ainda separar-se dos pais e irmãos; por fim, dizia-lhe que o aguardava impaciente e que conversariam sobre o seu futuro. Alberto já então oferecia conselhos a Fernando, o que talvez irritasse o primo mais velho, como aconteceria mais tarde.
Não menos ansiosa pelo sucesso das negociações estava a jovem rainha de Portugal, que comunica a Lavradio que se ajustar esse casamento será o maior milagre que o conde pode fazer. E pede que lhe envie um retrato do príncipe, ainda que seja daqueles pretos como se fazem em Inglaterra. De imediato começa a preparar o paço para receber o novo marido, o que irá provocar um conflito com a madrasta, que teve de se instalar noutro palácio, significando, portanto, a sua perda de influência e afastamento definitivo do centro da corte. Realizado que foi o casamento, dona Maria voltará a afirmar que o considera um verdadeiro milagre, sobretudo devido aos esforços que se fizeram para que se realizasse com o irmão da duquesa de Bragança, o príncipe Max, que tem cara de batata frita.

Difíceis negociações
Num bom resumo da questão, o marquês de Fronteira escreve: A proposta do conde do Lavradio foi aceite pela rainha e seus ministros e os esponsais e escrituras matrimoniais fizeram-se na corte de Gotha. As escrituras foram idênticas às do príncipe Augusto; o príncipe Fernando, futuro marido da rainha, desistiu da grande fortuna a que tinha direito por morte de sua mãe e os seus parentes exigiram do governo de Portugal que ele estivesse na mesma posição do príncipe Augusto, inclusivamente comandante em chefe do exército, o que provocou uma grave questão na imprensa e no Parlamento. Mas este acordo matrimonial exigiu ao conde do Lavradio muito trabalho, engenho e paciência». In Maria Antónia Lopes, D. Fernando II, Um Rei Avesso à Política, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-972-42-4894-3.

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Um Rei Avesso à Política. Fernando II. Maria Antónia Lopes. «O duque reinante dominava-se, mas estava furioso com o irmão, Insiste numa reunião e que ele vá com os filhos e a mulher para Coburgo. Por fim, que considere ir a Bruxelas conferenciar…»

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A renitente autorização do pai
«(…) Em Agosto, o duque Ernesto escrevera ao irmão Fernando Jorge sobre os projectos de Vitória para o seu filho mais velho, carta que revela que já nesta altura o duque Fernando estava ao corrente do que se passava. O irmão mais velho diz-lhe que entende a sua surpresa e que precisam de falar pessoalmente, por ser matéria demasiado complicada para ser tratada por carta. Pede-lhe que se reúnam em Toplitz. Adianta logo que a questão é tão honrosa para o sobrinho e para toda a família que não pode ser ignorada, que de facto a família já foi alvo de inveja e de ressentimento, mas que quando Deus quer agraciar, não pode ser estorvado. Espera, pois, e com ansiedade, a sua resposta. Três dias depois volta a escrever-lhe, enviando a carta por Carlowitz, seu ministro. Diz-lhe agora que já deve ter lido a sua missiva anterior e tem a certeza de que aceitará a posição brilhante e honrosa que oferecem ao seu filho, mas há que conhecer as condições que lhe serão dadas. Gostaria também de saber o que pensa o sobrinho, acrescentando que nada receia, pois apesar da sua juventude tem bom discernimento. Depois de Fernando Jorge ter tomado aquilo que ele, Ernesto, considera a boa decisão, que o informe de tudo para poder ajudar. E acalma os receios do irmão perante uma provável oposição de Metternich, até porque as condições do acordo seguirão pela embaixada da Inglaterra. Insiste num encontro. Se não em Toplitz, não poderá pelo menos deslocar-se a Praga? Ou enviar os filhos mais velhos a Toplitz, onde ele estará, assim como a czarina da Rússia2? Ou seja, o duque de Coburgo faz uma pressão cerrada para demover o irmão de todos as suas dúvidas e receios, manipulando tanto quanto pode.
A carta que Ernesto escreve a 8 de Setembro revela-nos que, de facto, o duque Fernando viajara pela Hungria, respondera a Ernesto a 28 de Agosto, de Ebenthal, e ainda não tinha lido a carta que Vitória lhe enviara juntamente com a de Lavradio, a quem deixara até então sem resposta. Mas agora, diz-lhe Ernesto, que já está bem inteirado do que se passa, o melhor é encontrarem-se os dois e o sobrinho para se tratar do assunto e negociá-lo como questão que respeita à família, o que lhe poupará muitos dissabores. Isto é, o duque reinante em Coburgo-Gotha procurava retirar margem de manobra ao governo imperial da Áustria. Nesse mesmo dia 8 de Setembro, vimos que Fernando Jorge respondeu a Lavradio, uma resposta que o não era, como comentou Palmerston. Escreveu também ao irmão. Debatia-se entre sentimentos contraditórios, entre eles a dor de se separar para sempre do filho e herdeiro, o que nunca fizera parte dos seus planos. Ernesto respondeu-lhe de imediato, pressionando e manipulando mais do que nunca. Embora entendendo o que o irmão sente diz, avisa-o de que se recusar irá lamentar a sua decisão, será acusado de ter despojado o filho de um futuro excelente que lhe oferecem, o que é uma felicidade rara, um sinal da Providência divina que não se pode ignorar e que se deve seguir com confiança. Que deixe Lavradio vir a Coburgo e aí negociarão, o que terá de ser feito com muito cuidado, mas que não adie mais a questão, sob pena de a ver posta de lado, pois foi com horror que soube que a carta de Lavradio esteve quase dois meses sem resposta. O duque reinante dominava-se, mas estava furioso com o irmão, Insiste numa reunião e que ele vá com os filhos e a mulher para Coburgo. Por fim, que considere ir a Bruxelas conferenciar com Leopoldo porque o assunto é muito sério.
O convite a toda a família tinha, sem dúvida, por intuito afastá-la das intrigas políticas de Viena e do alcance de Metternich. Seria questão familiar tratada na capital do ducado independente com o chefe de família. O duque tinha razão, porque o chanceler austríaco tentaria impedir o casamento, como Lavradio testemunha: Outra, porém, era a guerra que se me deparava na Alemanha, guerra do partido absolutista, habilmente conduzida pelo príncipe de Metternich, que, por diversos princípios, fazia a máxima oposição possível à conclusão do casamento. A situação de Fernando Jorge Coburgo era muito delicada. Criar um conflito com Metternich podia comprometer o seu futuro e o dos outros filhos e é a essa luz que se pode compreender a sua atitude». In Maria Antónia Lopes, D. Fernando II, Um Rei Avesso à Política, Círculo de Leitores, 2013, ISBN 978-972-42-4894-3.

Cortesia de CL/JDACT