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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

O Infante Henrique. Memória Histórica. Alfredo Alves. «Pois o pae mandara ‘trigosamente’ cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Alfonso Furtado, o capitão…»

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A Tomada de Ceuta
«(…) Nun’Alvares desceu a estreitar nos braços o antigo companheiro de armas, e divagando os dous em passeio, João I narrou ao amigo tudo o que havia acerca do designio da empreza de Ceuta. Ouvio-o o condestavel serenamente a principio, mas depois as lagrimas soltaram-se-lhe de entre as palpebras cansadas, e proferiu, tremente a voz: pois eu vos digo que esse feito foi inspirado por Deus! João I exultou com o parecer de Nun’Alvares e comoveu-se tambem. E os dous entreolhando-se, sentiram a um tempo nos corações amigos a mesma saudade pelos dias idos de gloria e ardor. Porém era necessario cuidar dos novos que tambem almejavam glorioso futuro. E o condestavel, sempre bom, sempre leal, recommendava ao rei: reuni conselho que eu serei comvosco. Separaram-se. O rei e o infante Pedro volveram a Santarem e os dous outros infantes foram para Evora, de onde haviam partido. Os infantes socegaram e razão tinham. Pois o pae mandara trigosamente cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Alfonso Furtado, o capitão, punha a postos toda a sua gente: patrões, alcaides, arraes, pintitaes, comitres, besteiros, galeotes e marinheiros; João Alfonso Azambuja dava ordem a Ruy Peres Alandroal, thesoureiro da moeda, para que as fornalhas de fundição estivessem sempre a trabalhar, á uma; e o Gomide, escrivão da puridade, e o ajudante Caldeira iam escrevendo a todos os Anadeis para que fizessem seus alardos de besteiros e arricaveiros e mandassem relação das forças nos alcaizes, ou livros de revistas. A azafama era grande nos preparativos da expedição, da qual se ignorava o destino.
Nas margens do Tejo e do Douro, nas tercenas da Magdalena e de Villa Nova, os arcabouços das galés e naus e galeotas em construcção arqueavam-se como costellas de esqueletos monstruosos; os carpinteiros batiam a compasso os malhos; os engenhos dobadoyras aprestavam-se a lançar á agua as embarcações já promptas; estrinqueiros torciam e retorciam a cordoalha; enxerqueiras preparavam carne e pescado para as armadas; accorriam a Lisboa as mesnadas da Beira, da Extremadura e do Alemtejo, apresentando-se ao infante Pedro, que tinha a seu cargo commandal’as e fazel’as embarcar na frota que organisava; e as do Minho e Traz os-Montes eram trazidas pelo conde de Barcellos ao Porto, onde o infante Henrique, auxiliado pelo senado, dirigia os preparativos fadigosos da expedição e em cuja cidade Bento Fernandes e João Basto levantavam um grande numero de besteiros e galeotes. Toda essa decisão de trabalho fora resultado do tal conselho que Nun’Alvares induzira o rei a reunir. Tivera elle lugar em Torres Vedras.
Viera o rei João I, de Cintra, e os infantes Henrique e Pedro chegaram de Tentugal. Approximava-se o infante Henrique da villa e encontrando o pae, beijou-lhe a mão e pediu-lhe: Senhor, quando formos em nossa sagrada expedição, que seja eu o primeiro que filhe terra, vos peço. E accrescentara: quando vossa escada real for posta sobre os muros da cidade, que eu seja aquelle que va primeiro por ella, que outro algu. E o pae, rindo, retorquiu-lhe: em tempo proprio te darei resposta. E foram todos ao conselho: rei, infantes, Nun’Alvares e os maioraes da corte. O condestavel dissera a João I que apresentasse o negocio como feito já determinado, e socegava-o: fallai assim que eu serei comvosco. E todos, crentes, ouviram, em antes da reuniao, missa do Espirito Santo. Depois o rei fallou, fallou, allegando não querer guerrear christãos e só almejar combater os infieis, em gracas a Jesus Senhor Nosso. Ouviam todos, silenciosos. O rei, afinal, pediu conselho. O infante Duarte devia ser o primeiro a fallar; desistiu comtudo em favor do condestavel, como se combinara. E este com o seu aspecto patriarchal, grave, sereno, como uma visão do passado, alii mostrou na sua phrase suasoria toda a importancia e justica da empreza. E terminando ajoelhara-se aos pes do rei, oferecendo-lhe mais uma vez a sua espada gloriosa de cavalleiro. Todos se electrisaram ao ouvirem o condestavel; alii haviam estado os bons veteranos de Valverde e Aljubarrota, escutando a voz do cavalleiro-modelo, attentos, mas aquellas phrases suggestionadoras de impetos bellicosos, João Gomes Silva, um dos antigos, enthusiasmado, encarou os companheiros das lides passadas, em todos elles já as cans se destacavam, e gritou-lhes: russos, além! Além, assim seja, apoiaram os outros. Os velhos de Aljubarrota, os de cabellos brancos, os russos tinham de ir levar os rapazes á conquista da gloria, pois não! Além! Além!, clamavam todos, abraçando-se». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Galant de bien ferre, Memória Histórica, Typografia do Commercio do Porto, G 286, H5A53, Porto, 1894.

Cortesia de TCommercioPorto/1894/JDACT

quarta-feira, 8 de abril de 2015

Memórias da Grande Guerra. Jaime Cortesão. «Tudo comenta, insinua, segreda, baralha. E agora vá de chacota. São as revistas que jogam ‘piada’. Por exemplo, “venham aqui ao Eden e ouçam o fado do Ganga”».

O Cristo de Neuve-Chapelle 
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O Génio do Povo. Junho de 1916
«(…) A Inglaterra presta-nos o seu concurso financeiro para podermos entrar eficazmente na luta. E quanto à nossa entrada na guerra o governo inglês reconhece plenamente a lealdade de Portugal e a assistência que já lhe está dando e convida-o a uma maior cooperação militar ao lado dos aliados na Europa. E, dias passados, manhã clara de Agosto, o Suffolk e o Narcissus, da armada britânica, fundeiam no Tejo; vêm saudar Portugal. O contra-almirante Yelverton e os seus oficiais, os correctos gentlemen de bordo, atravessam a multidão efusiva, por um dia de brasas, e lá vão saudar o Chefe do Estado ao Palácio de Belém. Uma visita rápida, não há tempo para recreios, Cascais e a Sintra; um almoço de marinheiros ingleses e portugueses no Castelo da Pena, ao ar livre; aclamações e abraços, shake-hands, e eles lá voltam para a sua faina. Dois belos dias! Chegaram depois as missões militares inglesa e francesa para concertar assuntos que dizem respeito à nossa cooperação ao lado dos aliados. Vamos então entrar em guerra. Já não há, dúvidas. Devem, pois, ter acabado os manejos que procuravam inutilizar o nosso esforço: Qual? Vão ver. Muito pelo contrário. Q próprio Governo, reconhecendo a necessidade urgente de fazer a propaganda da guerra, resolve iniciar uma série de comícios junto aos grandes monumentos nacionais. Pelos vistos dão-nos razão. O primeiro desses comícios realiza-se na Batalha. E lá falam entre outros o António José Almeida e Afonso Costa. Resultado: o povo aplaude. Ele compreende sempre, porque não está contaminado. Mas a propaganda contrária recrudesce. O que aí vai agora a propósito da pena de morte! Sob a capa do respeito pela vida humana ataca-se o Governo violentamente. Contra a pena de morte reuniram-se todos os que têm combatido a nossa intervenção na Europa. Foi aprovada afinal somente em caso de guerra com país estrangeiro e apenas no teatro de guerra. Mas a oposição foi tal que durante a sessão no Parlamento se distribuíram nas galerias papelinhos escritos à máquina cheios de insultos e insídias e com um incitamento claro ao assassinato dos bandidos, que querem a pena de morte. O papelinho no género é perfeito. Aquilo vem de alto. É uma canção de ódio. Cada período, a jeitos de estrofe, depois de apontar os criminosos à sanha popular, termina regularmente por este ritornelo, bradando a voz de matar: Fogo! Fogo! Fogo!
O ministro da Guerra, por seu lado, não pára. Nos fins de Setembro Lisboa anima-se com a passagem de tropas, automóveis, viaturas militares: é a mobilização da Iª divisão que vai exercitar-se para as linhas de Tancos. Mas o fermento da desordem já lavrou nas mesmas tropas. Parte dum regimento de Lisboa, não sei a que pretexto, insubordina-se. O general Pereira Eça, homem de rápidas decisões e processos rudes, sufoca tudo prontamente. Mas afirma-se que tudo isto é um conto do vigário. Já se diz que o Governo não terá coragem para continuar com os comícios. Cobrem aquilo de ridículo. E começa-se a descrer geralmente da ida das nossas tropas para a França. Tudo comenta, insinua, segreda, baralha. E agora vá de chacota. São as revistas que jogam piada. Por exemplo, venham aqui ao Eden e ouçam o fado do Ganga. Vale a pena: venham. O Ganga é o carroceiro afadistado desta Lisboa gingona. Foi arrancado à rua. É assim mesmo. Sem tirar nem pôr. Cheira ainda a alcouce e a cavalariça. Então o Amarante delicioso no papel. Vem a matar: calças justas, blusa azul arremangada, a faixa na cinta descaída à banda, o boné atirado para a nuca, e sobre a gorja nua um carão deslavado a respirar insolência. E o que ele canta e diz! Gaba o grande sistema nacional da lambada. E aquilo dito em calão, sublinhado pelo guizalhar do macho, muito rufia, muito refilão, muito português, é de enternecer. Aí vem ele a gingar, a prisca entalada nos dedos e chicote caído do sangradoiro. O público sorve-lhe as palavras e os gestos.
Canta:

E quando chegar o dia
em que a gente for p'ra guerra'.

Vai o macho e põe-se a guizalhar.

Aí! Ó! Sempre estás c’uma pressa!

E a multidão ri. Ri... E cada um, ao voltar a casa vai dizendo com os seus botões que afinal talvez o Ganga tenha razão...» In Jaime Cortesão, Memórias da Grande Guerra, Obras Completas, Portugália Editora, Lisboa, 1969.

Cortesia PortugáliaE./JDACT

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Henrique. O Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. «Fr. João Xira, eloquentemente, em sermão, revelou ao exercito o fim da empreza e em mais de um coracão houve um descoroçoamento. Combater em Africa?! Era a primeira vez…»

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A Tomada de Ceuta
«(…) Anoitecia; a penumbra do crepusculo assemelhava-se a um phantasma estendendo-se no quarto da moribunda; para o poente uma lividez sinistra era a coloração do horisonte; as empenas das portas rangiam com a ventania forte. - De que lado sopra o vento? - perguntou a Rainha.
D. Duarte, carinhoso, a seu lado, respondeu: - Do Aguião, senhora. - É bom vento para a vossa partida. - Senhora, sim. - Pois ireis em dia de San Tiago. E cerrou os olhos, como que a adormecer, sorrindo.
No dia seguinte o momento fatal approximava-se. O monarca João entrava no quarto a estalar de soluços; os filhos levavam no para fora, consolando o; D. Filippa dirigia ao esposo um olhar de indizivel dôr, não podendo morrer. Os Infantes disseram ao pae que se retirasse; que se poupasse a tao grande dor. Reuniu-se conselho e deliberou se que o reo João fosse para Alhos Vedros. Amparado pelos filhos veio o heroe de Aljubarrota receber o ultimo abraço da esposa. Como louco, montando a cavallo, fugiu depois desorientado. E D. Filippa, de costas, no leito, mãos erguidas sobre o seio, tinha visões mysticas; apparecia-lhe Nossa Senhora a chamal'a, la do céo. E a tremer de goso a sua voz dizia , a custo: - Grandes louvores sejam dados a vós, minha Senhora, porque vos prouve de me virdes visitar do alto. Mudaram-a de cama, para morrer; commungou; foi ungida; ouviu rezarem-lhe em torno ao leito o officio dos mortos e finou-se. E os Infantes, frontes curvadas, lacrimosos, sahiram um a um do aposento. Na corte tudo foi tristeza; e até deu-se a coincidencia de n'esse dia da morte de D. Filippa haver um eclipse de sol, o sol ser cris, como então se dizia.
Depois dos funeraes, comecou a correr voz que a morte da Rainha era agouro do mau successo da empreza. Para que servia tao grande armada? murmurava o povo. No emtanto as galés e naus, fundeadas no Tejo, velas colhidas, sem flammulas nem galhardetes, a marinhagem n'um silencio triste, esperavam. Mas, de repente, dias depois do fallecimento de D. Filippa, içaram se nos mastros balsões e divisas, começou a azafama na multidão de galeotes e pitintaes, tangeram garridamente as trombetas, em ar de festa. O povo de Lisboa correu a beira do rio, espantadissimo. E no mesmo instante appareceu rio abaixo a galé do infante Henrique e n'ella o mesmo Infante, todo vestido de gala, e da mesma forma seus escudeiros e remadores. - O nosso Rei perdeu o siso! - diziam uns aos outros com espantos. - Sao artimanhas do Prior! - observava um, desconfiado. - Peste para elle! - rugiam alguns que ouviam o dito. E todos desapprovavam o proceder do Rei e dos Infantes. João I appareceu depois tambem a desembarcar no Restello; viera na galé do conde de Barcellos. Multidão enorme accorreu á praia, anciosa, de noute, com tochas. Sempre era certa a partida. Para que? inquiriam uns. E para onde ? interrogavam outros. E as almas retrahiam-se com o vago terror de perigos imminentes. E como a peste e fome flagellavam, e a Rainha havia morrido, e o sol estivera cris, todos diziam que o rei João ia buscar a perdição sua e do reino. Effectivamente ia ter lugar a partida da expedição.
Duvidara se algum tempo d'ella, após a morte de D. Filippa; reunira-se conselho, dividiram se as opiniões; sete diziam que se fosse á empreza, outros tantos que ella se adiasse. Pertencia a estes o Condestavel; João I e o Infante ficaram admirados da prudencia do heroe. Mas o infante Henrique todo se empenhou pela ida; lembrou as ultimas vontades da Rainha - ella dissera que partissem em dia de San Tiago; suggeriu a ideia de se vestirem de gala para levantar os animos: observou que seria um desaire deixar de executar immediatamente o que de tanto tempo já vinha preparado… João I escutou e assentiu no que Henrique lembrava; era o filho que mais se parecia com elle, bem o sabia. Todos depois apoiaram o decidido pelo Rei. O infante Duarte, esse, mais sentimental, guardou silencio, e sempre triste pensava na morte.

Com toques de trombetas e clamores, parecendo alegres, abalou a armada Tejo a fora, a 24 deJulho; e como um bando de gaivotas voando baixas, rente á superfície azulina do mar, os navios foram traçando uma curva alvejante até perderem-se de vista ao longe, encobertos pelos fraguedos de Cezimbra. Foram seguindo ao sul até á abra de Lagos. Fundearam ahi e o Rei desembarcou. Fr. João Xira, eloquentemente, em sermão, revelou ao exercito o fim da empreza e em mais de um coracão houve um descoroçoamento. Combater em Africa?! Era a primeira vez; havia um certo receio; eram inimigos desconhecidos da geração do Mestre de Aviz os infieis.
E de noute, ao scintillar das estrellas, pensava-se com saudade nos lares distantes. Era preciso, comtudo, partir; e assim todos fizeram. Foram a Faro e ahi, de noute, deu-se o seguinte caso na galé do infante Henrique; deitara-se o infante Duarte na coberta, a dormir, pois era grande o calor; mas acordando casualmente notou que a lanterna do barco se incendiara; ergueu-se o Infante e dirigiu-se a chamar o irmão Henrique, que immediatamente acudiu e lançou a lanterna ao mar, queimando-se nas mãos quando isto fez. No sabbado foram lançar ancora em Algeziras; timidos, os mouros d'ahi enviaram a João I seus presentes. E no emtanto a armada aproou ao Estreito, em comprida fila, como uma serpente. Passou ella, em meio de nevoas, por defronte de Tarifa; aqui imaginou-se que pelo mar deslisava uma ronda de phantasmas.
 - Que e aquillo? - inquiriam, das muralhas, olhando o mar, os de Tarifa. - Uma armada; decerto a do Rei de Portugal. – Impossivel - affirmava o fronteiro Martim Fernandes de Porto Carrero - nem todas as florestas de Portugal podiam dar madeira para uma frota tão numerosa. Mas um portuguez, que alli se achava, insistiu: que sim, que era a frota. E effectivamente, desprendendo-se os sendaes do nevoeiro, surgiu toda a armada, passando em frente, como um traço branco a regrar o horisonte. E assim foram indo até Malaga.
Em Ceuta, Zala-ben-Zala, o scheik; mandara convocar os kabilas, receioso da armada dos portuguezes; e entre a multidão dos mouros os terrores agoureiros perpassavam frios a gelar as almas; no Ramadan a lua estivera tres partes cris, e na outra tivera perto de si uma estrella enorme; havia alguem que sonhara vêr a cidade toda recoberta de abelhas; outro imaginara tambem em sonhos ver chegar pelo Estreito um leao coroado, com muitos pardaes a seguil'o. Outros mais fallavam em signaes precursores de desditas espantosas. E o scheik; mandara convocar os astrologos, sabedores das cousas do céo e dos futuros. Veiu a conselho o venerando Asmed-ben-Sille, almocadem de Tunis; durante duas horas o velho sabio nao pronunciara palavra, e a final, instado, só dissera que haveria sangue… porque a estrella Orion se mostrava em forma de espada. E tudo tremeu de inquietação».
In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Memória Histórica, Primeiro Pémio de Concurso no 5º Centenário, Typografia do Commercio do Porto, G 286, H5A53, Porto, 1894.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

Henrique. O Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. «Todos eram em choro. D. Filippa cahiu sobre os travesseiros, de extenuada. A seu lado a Infanta D. Isabel, desgrenhados os seus cabellos cor de ouro, toda em lagrimas, gemia. Entreabrira os olhos a Rainha e disse, dirigindo-os para a Infanta: - Duarte, filho, olha por tua irmã e pelos nossos João e Fernando»

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A Tomada de Ceuta
«(…) Sob o sol fuzilante de Julho, cortando as águas do Douro, por onde parecia rastejar um reptil de escamas de topázios, a armada começou, de manso e ordenadamente, a sair. Como o hortator vemigium das naves romanas o comitre das galés dera o grito da Eia, como o Age antigo. E os remos cahiram á uma nas aguas, que ferveram em espumas; e com um ranger de vigamentos começaram as naus deslizando rio abaixo. Á proa e á popa accumulavam-se os mais grados dos combatentes; nos bancos dos remadores, enfileiravam-se sentados, os galeotes a pintitaes. Eram sete as galés, commandadas respectivamente pelo Infante Henrique, conde de Barcellos; Fernando, senhor de Bragança, filho do Infante João e portanto primo de Henrique, Gonçalo Vasques Coutinho, marechal, filho de Brites Gonçalves de Moura, o heroe de Chaves e Almeida, rival de Martim Vasques Cunha, de Linhares, um dos verdadeiros preux da corte de João I, João Gomes Silva, alferes-mor, que em Torres Vedras dissera Russos além!; Vasco Fernandes Athayde, governador da casa do Infante; e finalmente Gomes Martins Lemos, que fora aio do conde da Barcellos.
As naus, em numero da vinte, mais ligeiras do que as galés birémes e triremes, levavam como capitães: o versatil Pedro Castro, filho de Alvaro Pires Castro; Gil Vasques Cunha; Pedro Lourenco Tavora; Diogo Gomes Silva; João Rodrigues Sá, o famoso Sá das galés do cerco de Lisboa, que as livrou da embuscada do conde de Mayorga, o furioso assaltante da villa de Guimarães e de Melgaço; João Alvares Pereira; Gonçalo Annas Souza; Martim Lopes Azevedo; Martim Affonso Souza; Fernando Alvares Cabral; Estevam Soares Mello, o primeiro qua chegaria as praias da Ceuta; Mem Rodrigues Refoyos; Garcia Moniz; Paio Araujo; Vasco Martins Albergaria, que ia ser o primeiro a entrar as portas de Ceuta; Alvaro Cunha; Alvaro Fernandas Mascarenhas e Ayres Goncalves Figueiredo, o ancião quasi centenario.
Depois galeotas, rotundas e pesadas, de carga; e uma innumeravel fustalha, embarcações ligeiras, pequenas, a remos ou a véla, avançando, cruzando-se umas com as outras, seguindo as margens, derivando no rasto das gales, galgando as ondinas como cabritos a pular pelos pastos. E todas as embarcações com suas bandeiras bordadas a ouro, seus galhardetes e flammulas de seda, seus toldes de damasco e brocatel; o balsão e a divisa do Infante Henrique sobrepujando todas as bandeiras dos fidalgos, onde se destacavam sens brazões e motes; e as trombetas soltando á cidade uns toques de despedida enthusiastas: - Á guerra! Á guerra!

NOTA: A divisa do Infante Henriqne consistia em huas capellas de carrasco bem acompanhadas de chaparia, E por meo hus motes, que dezião vontade de bem fazer; Talent de bien faire. E as suas cores erão brãco e preto e vis. In Azurara, Chronica de D. Joao I. Parte 3.

Sahiram a barra do Douro e aproaram ao sul. O Porto fez os maiores sacrificios para a sahida da armada da expedição de Ceuta. Os moradores da cidade deram para ella, a credito: arnezes, béstas, ferro, madeiras, cordoalha, vinho, carnes; pagaram a carpinteiros, calafates, marinheiros, etc. Repetidas vezes impetraram de João I que lhes pagasse o devido, e o Rei nada lhes deu, mas deixou recommendado ao herdeiro que lhes satisfizesse a divida; o rei Duarte I tambem nada pagou e egualmente deixou em recommendacao que não se esquecessem dos moradores do Porto, no tocante ás dividas da expedição africana. Passaram-se annos e o senado portuense mandou pedir ao Rei que, para descarrego das almas do pae e do avô, se dignasse satisfazer aquellas dividas, pois os credores até passavam necessidades; muitos já tinham morrido e viuvas e orphãos eram na miseria. Affonso V respondeu que era sua intenção pagar e logo que houvesse meios o pagaria (Capitulos especiaes do Porto, nas Cortes de Evora, 1442. Nunca.

De Lisboa vinha ao caminho Pedro esperar o irmão; assim lhe ordenara João I, de Sacavem, onde se achava com a Rainha, evitando a peste. Afinal ella havia-se resignado á partida do Rei; declarara-lhe elle terminantemente que tinha de ir na expedição, um dia que a procurara na sua camara. D. Filippa tinha então perto de si a Camareira-mor e a filha D. Maria Vasques, no estrado. Ouviram ellas as palavras do Rei e choraram. Olhou-as a Rainha com suavidade triste e disse-lhes: - Não choreis, antes encommendai a Deus o feito de Sua Alta Senhoria. E para o Rei teve ella coragem de dizer, suffocando soluços de afflicção: - Já que vos e mister ide, e que a vossa jornada seja muito do serviço de Deus e da vossa honra e de nossos filhos e reinos. E accrescentou que desejava bem que o rei João armasse cavalleiros os Infantes; ella cingir-lhes-hia as espadas. O rei accedeu e D. Filippa mandou dizer a João Vaz Almada que de Lisboa lhe trouxesse tres espadas bem adornadas e bem temperadas. E continuava vivendo com suas devoções.
Um dia, com o rebate da peste approximando-se, tiveram de abalar para Odivellas. O monarca João sahiu primeiro; a Rainha quiz ficar para assistir a um officio religioso em uma egreja da villa. Quando se achava lá foi atacada da peste. Participação immediata ao Rei, que voltou n'um prompto; e Affonso Annes correu á praia do Restello, á armada, a chamar Pedro e Henrique. Deixaram tudo e vieram acudir á mãe, que já ia começando a agonisar. Na sua camara, soerguida no leito, a pobre senhora chamou os filhos: - Ora vinde para perto de mim, vinde! Ajoelharam alli os tres; Duarte chorando como uma creanca; Pedro pallido como cera; Henrique n'um phrenesi de desespero. Com modo suave disse-lhes ella: - Já não assistirei á vossa empreza, não. - Haveis de vel'a, sim: Deus o hade querer - volveram os Infantes. - Sim, vel'a-hei… la do ceo… - e continuou: - Ora tomai, filhos, o lenho da Santa Cruz do Redemptor; que elle vos defenda na vida e vos ampare na morte.
E dividiu o fragmento da reliquia pelos tres. Henrique, sombrio, tomou a parte que a mae lhe dava, e abrindo o jaleco guardou-a sobre o peito, para não mais separar-se d'ella. E disse-lhes depois a rainha: - Ora, esperai. No quarto só se apercebiam soluços. O rei João, que não comia nem dormia, de magua, tinha rugidos cavos de desespero e entrava e sahia, como um doudo, no aposento. - Ora esperai - dissera a Rainha, com uma voz flebil, quasi como um cicio de aragem, triste, triste… - João Vaz dai-me as espadas que vos pedi, para meus filhos. O fidalgo trouxe-lh'as e ella estendeu-as sobre o leito, alinhadas, mirando-as e remirando-as; eram de boas laminas de aço, de punhos de ouro, cravejados de aljofares. E os Infantes, de joelhos, alli aguardando. – Duarte - disse ella ao mais velho - toma a tua espada. Deus te faça um rei justo. - Pedro, foste sempre dado a cavallarias, defende com a tua a honra das donas e donzellas. - E com a tua, Henrique, protege a fidalguia, já que és forte.
Todos eram em choro. D. Filippa cahiu sobre os travesseiros, de extenuada. A seu lado a Infanta D. Isabel, desgrenhados os seus cabellos cor de ouro, toda em lagrimas, gemia. Entreabrira os olhos a Rainha e disse, dirigindo-os para a Infanta: - Duarte, filho, olha por tua irmã e pelos nossos João e Fernando, e por minhas donas e donzellas. - Senhora, sim. – A custo volveu o pobre Infante. - Deixai vossas terras a Isabel - lembrou Pedro, desinteressadamente».
In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Memória Histórica, Primeiro Pémio de Concurso no 5º Centenário, Typografia do Commercio do Porto, G 286, H5A53, Porto, 1894.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Henrique, o Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. Parte XII. «Lá do seu solar viera Ayres Gonçalves Figueiredo, com noventa anos… - Bern vindo sejaes; - dissera-lhe o infante Henrique - mas homem de vossa edade melhor fôra filhar repouso. … a custo reprimiria um gesto de desdém para responder ao filho de João I mas, embarcou…»


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A Tomada de Ceuta
«E havia sempre quem explicasse: - Foi promessa de el-rei, nosso senhor.
E assim nessa meada de conjecturas ninguém podia achar o fio que o conduziria à descoberta da verdade. Judá Negro, um jogral-astrólogo, da casa da Rainha, em uma trova dirigida a Martim Affonso de Atouguia, revelava que El-Rei ia filhar Ceuta e que tal soubera pela Astrolomia. Isto foi espalhado e todos se riram do néscio…
Fora de Portugal soubera-se já o afanoso preparativo de guerra, extraordinário, que se estendia em todo o reino; e houve receios. O Bispo de Ávila, em Palência, mostrou-se desassossegado e, apesar das razões tranquilizadoras do Adeantado de Cacorla, induzira D. Catarina e o Infante Fernando a que mandassem à presença de João I, como embaixadores, o bispo de Mondonêdo e Diaz Sanches de Benevides, a fim de se confirmarem as pazes com Castela. João I despediu-os com as maiores honras, tranquilizando-os. Nada era com Castella.
Os genoveses que viviam em Sevilha recebiam cartas dos de Lisboa revelando-lhes que a armada ia sobre aquela cidade. O rei de Aragão em disputa com o Conde de Urgel, pedira também carta de segurança. Deu-lha o rei João com o melhor agrado. O Mouro de Granada tremeu também e induziu a favorita Riccaforra a que mandasse mensagem a rainha de Portugal, pedindo paz e oferecendo-lhe um enxoval precioso para o casamento da filha, D. Isabel. Respondeu-lhe, serenamente, a rainha que não se intrometia nos negócios de Estado.
Acorriam também os auxiliares; lá da Alemanha um certo duque e um barão vieram para ir a empresa. O duque pretendeu saber o destino da expedição; não lhe disse o rei e por isso ele retirou-se para o seu ducado. Vieram mais às aventuras três nobres franceses: Mosen Arredenton, Pierre Sonure e Gilles Botaller.
No Porto, o Infante Henrique recebia, todos os dias, apesar da peste, auxiliares em grande número. Lá do seu solar viera Ayres Gonçalves Figueiredo, com noventa anos, branco como a neve, quase um espectro, cercado de escudeiros e peões, apresentar a Henrique a sua espada. O Infante assim que o viu, pasmou; pareceu-lhe ter diante de si a personificação de todo o passado aguerrido de Portugal, luzente de armas, erecto e audaz, apesar de quase um seculo de existência.
 - Bern vindo sejaes; - dissera-lhe o infante Henrique - mas homem de vossa edade melhor fôra filhar repouso.
Ayres Goncalves a custo reprimiria um gesto de desdém para responder ao filho de João I, que não sabia se o corpo lhe enfraquecera, mas que o ânimo era tanto como os trabalhos que passara com el-rei seu pae. Embarcou, portanto. Dois baioneses que haviam visto Aljubarrota, já velhos, trementes, apresentaram-se também no Amazem ao infante Henrique. Dissera-lhes este: - Já não tenho armas para vós. - Ainda conservamos as nossas, senhor! - responderam-lhe os dois. Embarcaram também.
Era quase prestes a partir a armada, do Porto. Com a primavera pareceu diminuir um tanto a peste e por isso era mister não perder tempo para a expedição, demorando-a. No começo de Julho, Affonso Annes, por mandado do Infante Henrique, partiu do Porto, em uma fusta, e foi participar ao rei João I que a armada ia velejar para Lisboa. Tudo se achava a postos para a partida. Sob o sol fuzilante de Julho, cortando as águas do Douro, por onde parecia rastejar um reptil de escamas de topázios, a armada começou, de manso e ordenadamente, a sair». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Henrique, o Infante. Memória Histórica. Alfredo Alves. Parte XI. «No Porto tudo se preparava rapidamente, ao seu mando; nada faltaria para o aparelhamento da frota, e por isso com o máximo cuidado vigiava o Infante. Os principais cidadãos, à porfia, eram prontos a oferecerem-lhe pessoas e bens para o serviço»


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A Tomada de Ceuta
«Assim tudo combinado, haviam portanto adquirido grande actividade os preparativos da expedição. Era em 1415, o infante Henrique estava no Porto, o infante Pedro em Lisboa tinha idêntica tarefa à do irmão na cidade do norte, e o infante Duarte sempre junto ao pai, embrenhado era despachos e estudos, trabalhando sem descanso, dando audiências, escrevendo a miudo, sentia, mau grado seu, derivar o espírito para os delírios íntimos e desesperadores de um nerropatha. Bondoso e triste, resignava-se, em silêncio. Mas aquele ‘rijo pensamento com receio da morte’ tolhia-lhe toda a boa vontade de mostrar se contente com a expedição; consultava os physicos, consolava-se com os ditames da filosofia, nada o distraía porém. E então somente todo se multiplicava na tarefa da governação do Estado, mostrando bem as suas tendências de príncipe burocrata.
Henrique era muito outro; a sua mente não tinha devaneios nem alucinações; era um forte, musculoso, de bom sangue, um equilibrado, enfim; se no seu espírito alguma inquietação haveria era a do fito da tendência, da teimosia do desígnio. Para ele toda a demora seria tormento.

No Porto tudo se preparava rapidamente, ao seu mando; nada faltaria para o aparelhamento da frota, e por isso com o máximo cuidado vigiava o Infante. Os principais cidadãos, à porfia, eram prontos a oferecerem-lhe pessoas e bens para o serviço. O povo, ainda que desconfiado do destino da expedição, não regateava contudo o seu trabalho, e tudo se aparelhava, numa faina, para a partida da armada.
E não se pense que a época era de abastança e sossego, não.
Havia fome e havia peste. No Porto faltava o pão; proibia-se o embarque dele a qualquer que de fora viesse; se algum era descoberto em navio com destino a sair, era apreendido e ao senado tinha de ser paga a coima de cinco mil coroas.
A peste, outro flagelo. Morriam aos centos; os besteiros das mesnadas do Minho e Trás-os-Montes, aqueles fortes serranos do Suajo e do Marão, desciam à cidade e aqui tombavam fulminados pela peste, como que varados por um virotão dos mouros.
E os que morriam deixavam o mundo com pena de não terem vida até chegarem a saber o destino da expedição. Era segredo, que não transpirara do conselho de Torres Vedras. Nas ruas de Lisboa e Porto, em todas as outras cidades, nos castelos, nas aldeias, em toda a parte, comentava-se o caso e lançavam-se as mentes em conjecturas.
- Para onde iriam as armadas? Ao resgate do Santo Sepulcro diziam.
E havia sempre quem explicasse:
 -Foi promessa de el-rei, nosso senhor.
E assim nessa meada de conjecturas ninguém podia achar o fio que o conduziria à descoberta da verdade». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

domingo, 24 de junho de 2012

Alfredo Alves. D. Henrique o Infante. Memória Histórica: Parte X. «Nas margens do Tejo e do Douro, nas tercenas da Madalena e de Vila Nova, os arcabouços das gales e naus e galeotas em construção arqueavam-se como costelas de esqueletos monstruosos; os carpinteiros batiam a compasso os malhos; os engenhos ‘dobadoiras’ aprestavam-se a lançar à agua as embarcações já prontas»



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A Tomada de Ceuta
«Os Infantes sossegaram e razãoo tinham. Pois o pai mandara ‘trigosamente’ cortar madeira para embarcações; Micer Carlos Pezagno, o almirante, teve o encargo de recrutar mareantes, e Affonso Furtado, o capitão, punha a postos toda a sua gente: patrões, alcaides, arrais, pintitais, comitres, besteiros, galeotes e marinheiros; João Affonso de Azambuja dava ordem a Ruy Peres do Alandroal, tesoureiro da moeda, para que as fornalhas de fundição estivessem sempre a trabalhar, à uma; e o Gomide, escrivão da puridade, e o ajudante Caldeira iam escrevendo a todos os ‘Anadeis’ para que fizessem seus alardos de besteiros e arricaveiros e mandassem relação das forcas nos ‘alcaides’, ou livros de revistas. A azáfama era grande nos preparativos da expedição, da qual se ignorava o destino.
Nas margens do Tejo e do Douro, nas tercenas da Madalena e de Vila Nova, os arcabouços das gales e naus e galeotas em construção arqueavam-se como costelas de esqueletos monstruosos; os carpinteiros batiam a compasso os malhos; os engenhos ‘dobadoiras’ aprestavam-se a lançar à agua as embarcações já prontas; ‘estrinqueiros’ torciam e retorciam a cordoalha; ‘enxerqueiras’ preparavam carne e pescado para as armadas; acorriam a Lisboa as mesnadas da Beira, da Extremadura e do Alentejo, apresentando-se ao infante Pedro, que tinha a seu cargo comandar as e faze-las embarcar na frota que organizava; e as do Minho e Trás os-Montes eram trazidas pelo conde de Barcelos ao Porto, onde o infante Henrique, auxiliado pelo senado, dirigia os preparativos fadigosos da expedição e em cuja cidade Bento Fernandes e João de Basto levantavam um grande número de besteiros e galeotes. Toda essa decisão de trabalho fora resultado do tal conselho que Nun’Alvares induzira o Rei a reunir. Tivera ele lugar em Torres Vedras.
Viera João I, de Sintra, e os Infantes Henrique e Pedro chegaram de Tentugal. Aproximava-se Henrique da vila e encontrando o pai, beijou-lhe a mão e pediu-lhe: - Senhor, quando formos em nossa sagrada expedição, que seja eu o primeiro que filhe terra, vos peço. E acrescentara:
 - «Quando vossa escada real for posta sobre os muros da cidade, que eu seja aquele que vá primeiro por ela, que outro algu»
E o pai, rindo, retorquiu-lhe:
 - Em tempo próprio te darei resposta.
E foram todos ao conselho: Rei, Infantes, Nun'Alvares e os maiorais da corte. O Condestável dissera ao rei João I que apresentasse o negócio como feito já determinado, e sossegava-o:
 - Falai assim que eu serei convosco. E todos, crentes, ouviram, em antes da reunião, missa do Espirito Santo. Depois o Rei falou, falou, alegando não querer guerrear cristãos e sóp almejar combater os infiéis, em graças a Jesus Senhor Nosso. Ouviam todos, silenciosos.
O Rei, afinal, pediu conselho. O infante Duarte devia ser o primeiro a falar; desistiu contudo em favor do Condestável, como se combinara. E este com o seu aspecto patriarcal, grave, sereno, como uma visão do passado, ali mostrou na sua frase suasória toda a importância e justiça da empresa. E terminando ajoelhara-se aos pés do Rei, oferecendo-lhe mais uma vez a sua espada gloriosa de cavaleiro.
Todos se electrizaram ao ouvirem o Condestável; ali haviam estado os bons veteranos de Valverde e Aljubarrota, escutando a voz do cavaleiro-modelo, atentos, mas aquelas frases sugestionadoras de ímpetos belicosos, João Gomes da Silva, um dos antigos, entusiasmado, encarou os companheiros das lides passadas, em todos eles já as cãs se destacavam, - e gritou-lhes:
 - Além, assim seja, apoiaram os outros. Os velhos de Aljubarrota, os de cabelos brancos, os “russos” tinham de ir levar os rapazes à conquista da glória, pois não!
Além! Além! - clamavam todos, abraçando-se». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Alfredo Alves. D. Henrique o Infante. Memória Histórica: Parte IX. «O rei João, atento, olhava. Os Infantes curvavam-se, numa curiosidade, examinando; e em meio deles, Henrique destacava-se mais que todos atento, um vinco de meditação na fronte larga, o olhar carregado e fito, a mão direita segurando o queixo»



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A Tomada de Ceuta
«Sabia se já que o ancoradouro da praça era bom.
- Que lhe dissessem as disposições dele, inquiria o rei.
E o prior, com modo grave, respondeu-lhe:
- Que Sua Real Senhoria mandasse vir para ali duas cargas de areia e umas fitas e meio alqueire de favas e uma escudela de pão.
O rei pasmou. Mas o prior retorquiu:
- Sem isso nada vos direi, senhor.
- Ora, sus, dom Prior - dizia o Rei, a rir, a rir, quereis usar de feitiços como o capitão de “astrolomias”?
Mas Álvaro Camello pondo um joelho no lajedo da sala onde falavam, e tendo-se-lhe trazido os objectos que requisitara, ali principiou a traçar em relevo, no chão, a topografia de Ceuta; as colinas, o monte da Almina, os quarteirões de casas, as abras, os ancoradouros. O rei João, atento, olhava. Os Infantes curvavam-se, numa curiosidade, examinando; e em meio deles, Henrique destacava-se mais que todos atento, um vinco de meditação na fronte larga, o olhar carregado e fito, a mão direita segurando o queixo. Nenhum se interessava mais do que ele nessa conquista da cidade querida do Maghreb; já se imaginava a desembarcar naquelas praias, a escalar aquelas quadrelas, a erguer o seu balsão na muralha branca de Mohammed.
- Ora aí tendes, senhor, as minhas feitiçarias!, dissera o prior.
Ao que João I respondeu:
- Bem avisado sois e sages, meu cavaleiro!
E afastaram se todos, comentando e meditando no caso.
O infante Henrique gravou na mente todo aquele mapa que Álvaro Camello traçara ali no ladrilho da sala do paço de Sintra, e o seu pensamento irrequieto começou desde então a divagar por aquelas colinas e muralhas, enseadas, torres e casarias.
Ia-se decidindo pouco a pouco a expedição. O rei João resolveu-se a falar a D. Filipa em ir combater os mouros.
A virtuosa dona resignadamente aceitava a ida dos infantes; filhos de reis deviam ser cavaleiros. Sim, os infantes deviam ir; quisera ela, a boa mãe, que bem próximo estivesse já o dia em que cingisse com suas mãos amoráveis as espadas de heróis aos filhos queridos; dar-lhes-ia ela também uma coroa de beijos e um colar carinhoso de abraços. Mas para que havia de ir também o rei? Não ganhara já tanta glória no passado combater? Que descansasse das fadigas das guerras; que se dedicasse unicamente às da governação do Estado, já não era pequeno o labor Lembrasse-se que ia declinando na existência, como ela também; que descansasse a seu lado até à morte que bem cedo podia vir. João I estremecia e hesitava. As palavras suaves da esposa infundiam-lhe na alma uma impressão religiosa, como se fossem invocações de litanias.
Queria ceder; mas o temperamento meridional, ardente, arrebatava-o e retorquia:
  • - Era mister que ele se fosse purificar derramando o sangue dos infiéis em combate leal e perigoso, ele que só na guerra entre cristãos ganhara as suas palmas de vitória.
- Podia, objectava a Rainha, perder num lance arriscado toda a glória e fama, que em sua vida conquistara.
E o Rei com as mesmas razões de purificar-se, combatendo os inimigos da religião de Cristo, retorquia sempre. E D. Filipa piedosa como era, numa época tão característica do valor bélico, sentiu a alma retrair-se ao lembrarem-lhe o serviço de Deus. Talvez que no seu íntimo suave desabrochasse o pensamento que nenhum serviço podia a Deus prestar a guerra, bem antagónica da ideia de paz e de amor universal que da ‘Essência Divina Dimana’, talvez, mas esse pensamento guardou-o ela, timidamente. João I não insistiu com a esposa e resolveu adiar a sua decisão. Falaria ao Condestável; esse era um oráculo; grave e solene ia já penetrando em vida no templo glorioso que os louvores póstumos erigem. Ele diria da expedição o que a sua grande alma parecesse bem. Era considerado um santo; tinha uma serenidade de quem se desprende das ambições do mundo, a pouco e pouco, gostosamente. Resolveu el rei falar-lhe. Não o chamaria à corte; isso dava nas vistas; comentar-se-ia de variados modos o caso; o povo imaginar-se-ia em vésperas de algum rompimento lá das bandas de Castela de onde a sanha dos vencidos era ainda mal represada.
E João I queria que todos os preparativos do cometimento fossem discretamente conduzidos. Estavam em Santarém e então o rei combinou com os infantes uma certa caçada, em que se reuniriam num ponto onde fosse fácil encontrarem-se com Nun'Alvares. Os infantes Duarte e Henrique partiram pois um dia, com monteiros e falcoeiros, em direcção às terras de Arraiolos. Andaram por lá a montear, dois meses a mais que não menos; e ao fim desse tempo o rei disse um dia ao infante Pedro:
  • - Filho, apesar de velho ainda posso galgar os montes e bater os matagais a perseguir os javardos. Teus irmãos lá andam em sua folgança de montear. Vamos também reunirmo-nos com eles; seguiremos a ribeira de Mugem; nessa direcção encontrá-los-emos.
Assim fizeram, e passando a seguir a margem da ribeira de Sor, chegaram às proximidades de Coruche. Então disse o rei para os do séquito:
  • - Os meus lebréus estão cansados; não podem com a montaria sós, carecem do incentivo de outros bem folgados. Ide pois procurar aí por essas devesas algum solar de nobre que tenha seus lebréus e mos empreste.
Lembraram o Condestável, e o rei apoiou, sorrindo. Mas esse sorriso só o compreendeu o Infante Pedro (28)». In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT

domingo, 22 de abril de 2012

Alfredo Alves. D. Henrique o Infante. Memória Histórica: Parte VIII. «O Prior viu tudo e notou, como João I lhe incumbira; o sen olhar experimentado media a altura das muralhas e a robustez das quadrelas, ao passo que a sonda de Afonso Furtado, descia, descia, cautelosamente, a devassar o ancoradouro. Excelente era este; todos os navios lá podiam entrar»



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A Tomada de Ceuta
«Era preciso em primeiro lugar estudar o objectivo das operações : — Ceuta. Que tal seria a grandeza da cidade? Quantos defensores abrigaria em seus muros? Era preciso reconhecer as praias e lançar a sonda a ver que tal seria o ancoradouro.
Informações não faltavam era certo; lá no Algarve eram muitos os pescadores e mareantes que levavam suas barcas boiar um pouco a sombra das alvadias muralhas d'aquela cidade querida dos filhos do ‘Propheta’. Carecia-se, não obstante, para a expedição, de um observador inteligente, sagaz e perito, que fosse e visse e notasse tudo, de maneira a resolver todas as dúvidas e a dissipar todas as hesitações.
Para esse fim João I escolheu o Prior do Hospital, Álvaro Goncalves Camello, homem que já o havia atraiçoado, era certo, e de quem todos desconfiavam, mas que possuía como nenhum o carácter dissimulado já requerido na diplomacia d'esses tempos. Iria em uma nau do comando de Afonso Furtado, capitão do mar. Aonde? A Ceuta, sabia-se. Com que pretexto? Ao principio custou a encontrá-lo, mas depois apareceu. Recebera João I uma embaixada da rainha da Sicília, viúva de Martinho I, que pretendendo evitar a união do seu reino ao Aragão, o que veio a suceder, mandara pedir ao infante Duarte para seu segundo marido.
João I ficou de responder, o que fez por intermedio do Prior. Não concederia a D. Branca da Sicília seu filho Duarte, mas oferecer-lhe-ia o infante Pedro. Resposta bem pouco delicada, era certo; e João, ladino de seu natural, conhecia que o Prior voltava com uma recusa a esse câmbio de maridos.
Mas pouco ou nada se importava; a embaixada era um pretexto apenas para o reconhecimento de Ceuta. Foram portanto os dois comissionados.
A rainha da Sicília, como se previa, ficou despeitada, despediu o embaixador e de si para si pensou que o Rei de Portugal era o homem menos atencioso de então. E o Prior, rindo à custa da pobre viúva, lá veio a Ceuta observando.
Estendia-se a cidade de oeste a leste, em frente a Algeciras, (“a ilha verde”), subindo e descendo as suas colinas confinantes, com suas casarias brancas, de terraços, acima dos quais os limoeiros, aqui e ali, faziam surgir as copas verdes esmaltadas dos pomos cor de canário; e na região vizinha, a que os naturais davam o nome de “Balyounich”, as águas espadanavam nas fontes e nos ribeiros, os pastos mostravam-se estendidos em alfombras veludosas, e de onde em onde o berbér tisnado, com o seu ‘alvadio cadawir’ vestido e enrolado na cabeça o ‘carazi’ indolentemente cultivando a ‘cana sacarina’ nos terrenos mais quentes.
Ao oriente da cidade surgia-lhes uma montanha, a que o mouro dava o nome de “DjabaloT-Mina” bem alta e fragosa.
E no cimo d'ella, correndo uma chapada, os muros erguidos por Mohammed-Ibn-Abi-Amir deslumbravam na sua brancura de jaspe. Ficava Ceuta em uma península ligada por um estreito istmo; as águas azuei do Estreito, o “az-Zocac” serviam de espelho às suas torres e muralhas, ao norte; e ao meio dia o mar de “Bosul” vinha quebrar as suas vagas sobre as praias voltadas às solidões do Atlântico.
E sobre essas ondas centenas de barcos divagavam na sua faina de pesca; os harpões vibravam-se certeiramente aos atuns (thon), e das recônditas profundezas do mar extraíam-se os corais, como árvores da cor das româs.

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O Prior viu tudo e notou, como João I lhe incumbira; o sen olhar experimentado media a altura das muralhas e a robustez das quadrelas, ao passo que a sonda de Afonso Furtado, descia, descia, cautelosamente, a devassar o ancoradouro.
Excelente era este; todos os navios lá podiam entrar.
Voltaram os dois, e um domingo, a nau dos embaixadores veio Tejo acima, de encontro á maré, flamulas serpeando nos mastros com suas cores garridas, e grande número de trombetas tocadas, à proa, em alegria. Desembarcaram, olhados de perto pelo povo, nesse dia em descanso e voltando da missa a essas horas.
Foram logo a Sintra, ao rei. Este dissimulou perante a corte e ouviu, rindo-se intimamente, o recado dos embaixadores. Mas estes, a sós com João I e os Infantes, falaram depois acerca de Ceuta.
Afonso Furtado declarou o ancoradouro excelente, e contou ali, imediatamente, profecias fagueiras ao cometimento: que em menino ele fora com seu pai a Ceuta,— reinava então Pedro I, lembrara o capitão, e afastando-se um pouco do seu progenitor fora ter a uma fonte aonde uns cavalos ali tinham vindo, devagar, a beber. Parou a olhar os animais, curioso como criança, e nisto um velho ali lhe aparecera e perguntou-lhe:
- De onde és, menino?
- De Portugal.
- E quem é o teu Rei?
- D. Pedro.
- E sabes os nomes de seus filhos?
- Sim. Chamam-se Fernando, João e Diniz.
- E mais nenhum?
- Nao. - respondera. Mas depois lembrou-se do Mestre de Avis, a quem agora dava o titulo de Rei; Lembrou se e disse ao velho:
- D. Pedro tem mais outro filho, - o Mestre de Avis.
E o ancião arrepelou suas barbas em desespero, e chorando. Porquê?
Ele então proferiu gravemente:
- Eu choro porque esse filho, que pequeno ainda é, será o primeiro a enterrar o conto da sua lança nas areias do Moghreb; os seus cavalos hão-de vir beber também a esta fonte, como fazem aqueles que são montados pelos filhos do Profeta; e esse filho do Rei de Portugal será “como huma pequena faisca, de que se levanta muy grande fugueira”.
João I riu se, mas intimamente não deixava de acreditar nos vaticínios. A Idade -Média em tudo sentia a previsão e o agouro». 
In Alfredo Alves, D. Henrique o Infante, Typografia do Commercio do Porto, 1894G 286, H5A53, Porto.

Cortesia de Typografia do Commercio do Porto, 1894/JDACT