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quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

O Cavaleiro de Olivença. João Paulo O. Costa. «Vasco voltou a escoicear, irritado. O Isasaga sabe de mais. García recuperou seu sorriso cínico. Ora, meu amigo, para que serve um embaixador…»

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O pedido da Rainha

«(…) Sua Alteza a rainha Isabel teve a infelicidade de só gerar um varão, dom João, que Deus tenha em sua glória. A minha rainha quase endoideceu ao ver o filho morto, mas esperançou-se na gravidez de Madama Margarida; infelizmente a criança que ela pariu não viveu nem uma hora; depois, a minha rainha ainda se consolou em ver sua herança passar para dona Isabel, a filha mais velha, mas também ela morreu naquele dia aziago, em Saragoça, e depois o filho, o príncipe Miguel. O principezinho sempre foi fraquito. Vi-o o ano passado, pouco antes de falecer e não inspirava confiança. Mas livrava-nos dos Flamengos e do imperador. Que agora se aprestam para abocanhar Castela e Aragão. Sabes bem, Vasco, que a maior aflição está do nosso lado de Castela. A rainha Isabel não pode ter mais herdeiros legítimos e está doente. Sempre com achaques, perdeu boa parte da energia com que domou os grandes de Castela e que lhe permitiu aturar e controlar o aragonês, seu marido. Há quem diga que el-rei Fernando já sonha com a viuvez e com seu próximo casamento; os Aragoneses ainda esperam que o rei lhes dê um filho varão que os livre do arquiduque Filipe.

Joana, a terceira filha dos Reis Católicos, casara em 1496 com Filipe, duque da Borgonha, filho do imperador Maximiliano e de Maria da Borgonha. O casal já tivera dois filhos, Leonor e Carlos, nascidos em 1498 e 1500, respectivamente. Assim, a herança de Castela cabia inevitavelmente à Casa da Borgonha, senhora dos Países Baixos, herdeira dos Habsburgos e forte candidata a nova eleição imperial. Em Castela, esta solução trazia muita gente inquieta. Mas vós, Castelhanos, tendes de aceitar a realeza da infanta Joana, embora eu esteja certo que ficaríeis melhor servidos com sua irmã dona Maria e el-rei meu senhor. Pois, mas as leis sucessórias não podem ser mudadas. Quais são vossos receios? A própria infanta Joana. Por meus informadores, não conheço problemas graves. O marido está muito contente com o seu desempenho. Já lhe deu sucessão. E parece que lhe agrada muitíssimo na cama.

Então, que vos preocupa? Consta que a infanta Joana é louca… Há uns rumores de que é muito apaixonada e aparatosa, mas é mesmo desmiolada? O semblante de dom García carregou-se pela preocupação, e a língua de Vasco estalou de novo. O Pacheco prosseguiu ao contrário das irmãs, a pequena Joana sempre foi pouco comedida e nunca seguia a etiqueta por muito tempo. Diz-se que se ajuntou com Filipe assim que o viu. E é demasiado apaixonada por seu marido. Não sabe sofrer a condição de fêmea e cria escândalo sempre que desconfia que Filipe se ajuntou com outra. Faz bem a infanta. Faria se não fosse uma princesa. Ora, dom García, tem sentimentos, como as outras mulheres. E se está apaixonada pelo arquiduque, melhor se compreende suas atitudes. Ela devia pôr os olhos em sua mãe que pariu a primeira filha ao mesmo tempo que nascia o arcebispo Afonso, primeiro bastardo d'el-rei Fernando, e que manteve firme o casamento e o sossego dos reinos. E então qual é o vosso receio?

Que sendo a infanta Joana louca, seus pais não a possam preparar para defender os interesses de Castela face a Filipe. A falta de tino não é muito grave enquanto for apenas a consorte da Borgonha, mas se suceder no trono de Castela será ela a fonte do poder. Então o problema é saber quem domina Joana, se o marido com seus Flamengos e Borguinhões, se vocês os Castelhanos. Dá-me mais vinho, Vasquito. Enquanto limpava as barbas, García prosseguiu: sei que partes em breve para os Países Baixos. Vasco voltou a escoicear, irritado. O Isasaga sabe de mais. García recuperou seu sorriso cínico. Ora, meu amigo, para que serve um embaixador se não obtiver informações. Pois, mas o vosso embaixador na minha corte é demasiado inquiridor. El-rei há-de tratar do assunto. E o que me quereis? Não sou eu. É a própria rainha. E, não quer que ninguém saiba de seu pedido. Nem o teu rei, nem el-rei Fernando, seu marido. Estais a pedir-me o impossível. Vais ver que não. Ela nunca se esqueceu do teu desempenho na defesa do duque de Beja, em Roma, e sabe de nossa amizade». In João Paulo Oliveira Costa, O Cavaleiro de Olivença, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, ISBN 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

JDACT, História, João Paulo Oliveira Costa, Literatura, O Saber, 

quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

O Cavaleiro de Olivença. João Paulo O. Costa. «Não estou aqui para falar do que não sei, nem apenas para rever um bom amigo. Aliviado pela mudança do rumo da conversa, Vasco replicou: não nos víamos desde que nos separámos em Saragoça…»

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O pedido da Rainha

«(…) Que cisma, dom García. Estais mais desconfiado com o passar dos anos? Não brinques, Vasquito. Sei que um navio da armada que enviastes à Índia no ano passado já chegou a Lisboa. E além das especiarias das Índias trazia novas de descobertas a ocidente. Ainda aguardamos a chegada do capitão-mor, para depois avaliarmos o que se passou verdadeiramente. A caravela que entrou no Tejo era de mercadores particulares e não trazia oficiais da Coroa a bordo. Não me queiras convencer de que não têm notícias certas, mas somos pacientes, e havemos de vos fazer cumprir nossos acordos.

Vasco piscou os olhos três vezes seguidas, enquanto dom García prosseguiu: mas não interessa. Não estou aqui para falar do que não sei, nem apenas para rever um bom amigo. Aliviado pela mudança do rumo da conversa, Vasco replicou: não nos víamos desde que nos separámos em Saragoça, vai para três anos. Num dia desgraçado, em que o vosso rei deixou de ser o nosso príncipe. García ficou pensativo, e experimentou o vinho oferecido pelo amigo. Depois retomou a conversa: soube que morreu o vosso amigo dom Álvaro Ataíde. Sim. Foi em Novembro do ano passado. Era bem velho. Tinha cento e um anos. Sabes, conheci-o em Alcântara, no ano de mil quatrocentos e setenta e nove. Eu fazia parte da comitiva da rainha Isabel que foi negociar a paz com a duquesa de Viseu. García Pacheco pertencia à família de Diego López Pacheco, o marquês de Vilhena. De ascendência portuguesa, o marquês fora fidelíssimo do rei Henrique IV e apoiara a Beltraneja contra Isabel durante a Guerra de Sucessão de Castela; derrotado, aceitara a nova ordem e perdera uma parle de seus estados, mas era sabido que continuava a ser um simpatizante dos interesses do rei de Portugal em Castela. García fora um dos raros Pachecos que não secundara a posição de seu chefe, pois era amigo de infância de Isabel. Consumada a vitória, lograra salvar a posição do marquês e tornara-se num dos conselheiros privados da rainha.

Álvaro era um bom amigo. Foi ele quem me armou cavaleiro, em Arzila, há doze anos, e eu estive a seu lado no momento de sua morte; custou-me mais assistir a seu apagamento, que ver um companheiro tombar em batalha. É a vida. Deveis saber que estive na vossa corte há um ano, durante os preparativos do casamento de dom Manuel com a rainha dona Maria. Soube disso, mas eu estava em Inglaterra. Decerto que estais a par das tentativas d'el-rei Henrique para se assenhorear de terras no mar oceano. Aquele infeliz do Caboto parece ter andado por terras de vossa demarcação, de acordo com o tratado que firmámos em Tordesilhas. E agora el-rei Henrique quer doar ilhas no oceano a quem as for descobrir para sua Coroa, e consta que certos portugueses vão navegar sob sua bandeira. Devíamos unir esforços, dom García. Pois devíamos, Vasquito. É assunto de que poderemos falar assim que vosso rei se dispuser a preparar a armada das duas coroas e a nos relatar o que tem sido descoberto pelos seus navegadores. O nariz de Vasco Melo bamboleou mais depressa, e a orelha agitou-se para admiração de García. Tem novas manias, este rapaz. O castelhano prosseguiu: eu sei que nossos reinos têm outros problemas em mãos. É o caso da sucessão. Bem o teu dom Manuel é rei há quse seis anos e continua sem descendência.

Mas tem seus sobrinhos e esperamos que a rainha dona Maria emprenhe brevemente. Se Deus quiser será tão capaz quanto sua irmã dona Joana, que já deu herdeiro à Casa da Borgonha. Bem, e vós em Castela tende-la como herdeira por ser jurada. É precisamente dona Joana que me levou a procurar-te. Um estalo da língua assinalou a surpresa do Melo». In João Paulo Oliveira Costa, O Cavaleiro de Olivença, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, ISBN 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

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terça-feira, 14 de abril de 2020

Episódios da Monarquia Portuguesa. João Paulo Oliveira Costa. « Século e meio depois da fundação do reino de Portugal, a sua população já tinha uma língua que a distinguia entre os demais povos peninsulares»

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1267, 16 de Fevereiro
O Tratado de Badajoz
«(…) A conquista do Algarve não resolveu de imediato a questão da soberania sobre a região, pois Afonso X de Castela reclamou a sua posse pelo facto de esse território ter estado sujeito ao reino mouro de Niebla, cuja capital fora tomada pelos castelhanos. A apropriação e incorporação das terras recém-conquistadas decorria em simultâneo com as lutas políticas internas no seio de cada reino hispânico e com as lutas que travavam entre si na busca de uma definição mais clara das fronteiras que os separavam. Aliados e inimigos, conforme as ocasiões, sempre rivais, os reis cristãos espreitavam as fraquezas dos vizinhos para reforçar as suas posições.
Afonso III de Portugal e Afonso X de Castela travaram esse jogo ambíguo ao longo dos seus reinados, e o castelhano conseguiu dispor de direitos eclesiásticos e nomear alcaides para os castelos algarvios nos anos 50. Por essa altura, o monarca português terá mesmo prometido que o apoiaria com cinquenta cavaleiros, numa declaração que configurava uma situação de vassalagem, pois era dever dos súbditos prestar auxilium aos seus suseranos. Em contrapartida, o soberano de Castela intervinha no Algarve a pretexto de uma doação vitalícia que lhe fora feita pelo genro, o que mantinha a soberania algarvia do lado português.
Nos anos 60, Afonso X enfrentou novos problemas, nomeadamente sublevações de populações muçulmanas e dificuldades na fronteira com Granada, e a sua fragilidade logo foi aproveitada por el-rei Afonso III para aumentar a pressão sobre a questão do Algarve. Em 1261, Afonso X ainda nomeava o bispo de Silves e concedia-lhe privilégios, mas dois anos mais tarde já buscava a concórdia com o vizinho; a 5 de Junho de 1264, foi celebrado um primeiro acordo que definia o curso do Guadiana como a fronteira luso-castelhana o que colocava o Algarve definitivamente do lado português. Por fim, a 16 de Fevereiro de 1267, era celebrado o Tratado de Badajoz, que confirmava o acordo anterior. Na subtileza da diplomacia, Afonso X doava a Afonso III e ao seu sucessor Dinis I, que era neto do castelhano, o Algarve que nós temos de vós, reconhecendo, na verdade, que o território sempre pertencera ao rei de Portugal. Ainda assim, as terras meridionais constituíam formalmente um outro reino, e os monarcas lusos intitularam-se reis de Portugal e do Algarve.

1296. A adopção do português como única língua da chancelaria régia
Entre as sobrevivências da Roma Antiga contou-se o uso do latim, através da liturgia, da administração e da cultura. Acima dos múltiplos falares que se foram forjando pelas movimentações dos povos e pela sua adaptação a novos espaços, o latim conferia unidade à república cristã e assegurou-lhe uma comunicabilidade rápida desde a Escandinávia até às praias do Mediterrâneo, ou desde a remota Irlanda até às terras dos magiares. Com o passar do tempo, porém, começaram a emergir práticas culturais próprias e identitárias entre os povos que ganharam dimensão capaz de forjar um sentimento de nação.
Século e meio depois da fundação do reino de Portugal, a sua população já tinha uma língua que a distinguia entre os demais povos peninsulares. As fronteiras linguísticas ainda não eram claras: pela raia, o galego e o leonês ainda se misturavam com a língua portuguesa e no Alto Douro perduraria um falar distinto que viria a consolidar-se no mirandês dos nossos dias. E pelo interior do reino havia súbditos d'el-rei de Portugal que viviam em pequenas comunidades que falavam o árabe ou o hebraico, e conservavam livros nessas línguas, embora fossem decerto bilingues. No entanto, genericamente, a comunidade portuguesa que se ia desenvolvendo crescia a falar uma única língua, o que lhe conferia coesão e identidade. Pronunciada, por certo, com  acentuações e dialectos variados, essa linguagem tendia a ser passada a escrito com alguma uniformidade». In João Paulo Oliveira Costa, Episódios da Monarquia Portuguesa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2013, ISBN 978-989-644-248-4.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

Episódios da Monarquia Portuguesa. João Paulo Oliveira Costa. «… as cortes de 1254 devem ser vistas como o momento da consagração definitiva dos órgãos municipais como participantes activos na definição do país»

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1253, Maio, 20. O Rei Bígamo
«(…) Consolidada a sua vitória, pacificado o reino, Afonso III tinha de acautelar a sucessão e a 20 de Maio de 1253 tomou por esposa, em Chaves, dona Beatriz, filha bastarda do rei Afonso X de Castela. À luz da Igreja e dos ditames da sociedade, el-rei de Portugal tornava-se bígamo, o que nunca sucedeu, nem antes nem depois. A esposa, porém, tinha apenas 9 anos, pelo que a sua entrega à corte portuguesa tinha uma leitura política, mas retardava a questão da sucessão para a idade núbil da nova rainha. Talvez Afonso III esperasse que o tempo resolvesse o seu problema, tendo em conta a idade avançada da sua primeira esposa, No entanto, Matilde não se resignou; pelo contrário, protestou e apelou à Santa Sé. A cúria romana deu razão à queixosa e em Maio de 1255 convocou o rei para se apresentar no prazo de quatro meses, a fim de explicar a sua conduta. O rei não acarou a chamada e o papado lançou o interdito sobre o reino de Portugal, que se prolongaria até 1262.
O casamento d'el-rei Afonso III com dona Beatriz terá sido consumado por Maio de 1258, quando a rainha perfez 14 anos de idade, e logo mostrou provas de fertilidade, dando à luz a infanta dona Branca a 28 de Fevereiro de 1259. No mês seguinte, chegava a notícia do falecimento da velha Matilde, e Afonso III deixou de ser bígamo, embora tenha tardado a restabelecer a concórdia com a Igreja.

1254, Fevereiro/Março. As Primeiras Cortes Gerais
A Reconquista foi concluída pouco antes e o reino buscava a pacificação, depois dos anos turbulentos do reinado de Sancho I1. Coube a Afonso III iniciar a consolidação do reino, numa época em que a fronteira com Castela ainda era instável e que a própria questão da soberania do Algarve tardava em ser solucionada. E neste tempo o comércio externo era ainda incipiente. Tendo governado um condado à beira do Atlântico, o monarca compreendera a importância do comércio marítimo e procurou promover as exportações pela via marítima, como via para diversificar os mercados e diminuir os constrangimentos a que estavam sempre sujeitos os negócios internacionais realizados por terra.
Dentre as medidas emblemáticas do novo rei conta-se a admissão de representantes dos concelhos às reuniões das cortes. Desde o tempo de Afonso Henriques que a Coroa ia reforçando a autonomia de vilas e cidades pela concessão de cartas, de foral. A outorga de liberdades aos núcleos populacionais era um dos meios que os reis usavam para criar novas localidades ou reforçar as existentes, com a finalidade de povoar o reino de forma sustentada. Há muito que os reis ouviam o conselho da nobreza e do clero, pelo que a abertura das cortes aos representantes do povo é muito significativa: aumentava a coesão do reino, proporcionava um contacto mais directo entre o monarca e o terceiro estado e reconhecia ao povo o direito de fazer propostas sobre a vida comum e de se queixar dos abusos de que poderia ser vítima. O fortalecimento dos concelhos sempre foi entendido como uma forma de minorar o poder da nobreza e, consequentemente, de aumentar o da Coroa.
No início de 1254 dveram lugar as cortes de Leiria, que são as primeiras em que está documentada inequivocamente a participação de representantes dos concelhos; talvez já tivessem estado presentes nas que se reuniram em Guimarães no ano de 1250, mas as de Leiria marcam a consagração do poder desta assembleia para matérias financeiras, como a desvalorização da moeda e o lançamento de impostos. A força e a representatividade dos concelhos perdurou até aos nossos dias como um elemento estruturante do país; as cortes de 1254 devem ser vistas como o momento da consagração definitiva dos órgãos municipais como participantes activos na definição do país». In João Paulo Oliveira Costa, Episódios da Monarquia Portuguesa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2013, ISBN 978-989-644-248-4.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

segunda-feira, 16 de março de 2020

Episódios da Monarquia Portuguesa. João Paulo Oliveira Costa. «… com a conquista de Faro encerrou-se o ciclo da guerra contra o mouro; o próprio Afonso III, aureolado com a vitória tão importante, abriria de imediato um outro ciclo…»

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1249, Março. A Conquista de Faro
«(…) O infante Afonso desembarcou em Lisboa, em Dezembro desse ano, assumindo-se como curador do reino, e foi circunscrevendo a resistência do irmão até que este se retirou para Castela no final do inverno de 1247. Depois, a notícia da morte de Sancho II em Toledo, a 30 de Janeiro de 1248, tornou incontestada a realeza de Afonso III, mas o novo monarca necessitava de acrescentar ao Direito o prestígio que só as armas conferiam aos bellatores. O seu primeiro acto foi, por isso, completar a ocupação do Algarve, e um ano depois dominou Porches, Albufeira, Silves e, finalmente, entrou em Faro.
Em 1249 completava-se assim a configuração do Portugal peninsular, forma ainda insuficiente para o país, mas a dimensão possível no contexto hispânico, que nos anos seguintes continuaria à mercê dos apetites hegemónicos de Castela, engrandecida, como se viu, pela absorção do reino de Leão, em 1230. De facto, o controlo da região continuaria a ser disputado por Castela nas décadas seguintes e o rei português não se intitulou de imediato rei do Algarve.
Ainda assim, com a conquista de Faro encerrou-se o ciclo da guerra contra o mouro; o próprio Afonso III, aureolado com a vitória tão importante, abriria de imediato um outro ciclo dedicado à organização do país e à adequação das instituições, das comunidades e das actividades económicas ao território estabilizado e à nova conjuntura peninsular e euro-mediterrânica.

1253, Maio, 20. O Rei Bígamo
Afonso III iniciou a sua carreira política em França, em data incerta, sendo referido pela documentação gaulesa a partir de 1234. Aí casou, em Maio de 1239, com Matilde, condessa de Boulogne, viúva de Filipe Hurepel; Afonso teria entre 22 e 27 anos, e a esposa seria uns vinte anos mais velha. Talvez tivesse beleza suficiente para agradar ao infante de Portugal feito conde e assegurou-lhe poder e riqueza, mas não estava em condições de lhe dar herdeiro. Pouco se sabe da relação entre ambos, mas Afonso manteve sempre o título condal que recebeu pelo casamento, enquanto Matilde foi viva.
Quando Afonso partiu para Portugal não levou a esposa consigo. Não sabemos como decorria então a convivialidade do casal, mas o candidato ao trono entenderia por certo que se vencesse teria de gerar herdeiro para a coroa, e a condessa já não tinha corpo para o feito. Assim, Afonso abandonou Matilde e depois de tomar o trono nunca se lhe referiu como rainha de Portugal». In João Paulo Oliveira Costa, Episódios da Monarquia Portuguesa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2013, ISBN 978-989-644-248-4.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

Episódios da Monarquia Portuguesa. João Paulo Oliveira Costa. «A partir de 1229, a linha da Reconquista voltou a acelerar para sul por toda a Hispânia. A 24 de Setembro de 1230, a morte do rei Afonso IX de Leão permitiu que o seu filho…»

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1241, Julho. O Desaparecimento de Sancho II
«O historiador necessita de informação para poder recriar e interpretar o passado. Como o leitor compreenderá facilmente, as fontes são inesgotáveis para acontecimentos posteriores a 1600, pois o volume da burocracia administrativa era enorme, o texto impresso já se tornara num produto de consumo barato e muito divulgado, a população letrada já era razoável e os poucos séculos que passaram desde então permitiram a sobrevivência de muito mais material. Além disso, as fontes foram-se diversificando significativamente. Para os séculos XV e XVI, embora já abundem as imagens, a situação é diferente, pois há inúmeros factos silenciados pelas fontes. Mesmo para uma personagem como Afonso de Albuquerque sabe-se muito pouco sobre a sua vida, salvo o tempo em que serviu a Coroa no Índico; por isso, o historiador precisa de completar o quebra-cabeças da informação documental com intuições.
Para períodos mais recuados a capacidade de recriar os factos ocorridos é cada vez menor, mesmo para figuras de relevo, como são os reis. Assim, este capítulo não é dedicado a um episódio, mas a um caso extremo de falta de informação: não temos notícias sobre a vida e os feitos de Sancho II entre Julho de 1241 e Janeiro de 1244. Trinta meses sem que a chancelaria régia nos dê um sinal de vida do rei é um caso único na História da monarquia portuguesa, e bem revelador da dificuldade com que se deparam amiúde os historiadores desta época. Por onde andou e o que fez el-rei Sancho II?

1249, Março. A Conquista de Faro
A partir de 1229, a linha da Reconquista voltou a acelerar para sul por toda a Hispânia. A 24 de Setembro de 1230, a morte do rei Afonso IX de Leão permitiu que o seu filho, Fernando III, rei de Castela desde 1217, lhe sucedesse no trono e unisse definitivamente as coroas leonesa e castelhana num único reino, aumentando o poderio da cristandade no centro da Península. Cáceres (1229), Maiorca, Mérida, Badajoz e Elvas (1230), Córdova (1236), Valencia (1237) e Sevilha (1246) são alguns dos marcos mais significativos deste avanço global de leste para oeste. O reino de Portugal, apesar da falta de autoridade de Sancho II, participou nesta arrancada fulgurante: dominou o Alentejo, e chegou à foz do Guadiana em 1239. Seguiu-se a guerra civil, o que adiou o assalto final ao último bastião islamita. A instabilidade política levou o papa Inocêncio IV a promulgar a bula Grandi non immerito, a 24 de Julho de 1245, porque ordenava a deposição de Sancho II». In João Paulo Oliveira Costa, Episódios da Monarquia Portuguesa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2013, ISBN 978-989-644-248-4.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

sábado, 14 de março de 2020

O Império dos Pardais. João Paulo Oliveira Costa. «Eram todos jovens nos começos da puberdade quando se haviam reunido na vila de Moura, na última fase das terçarias. Nessa ocasião, no Outono de 1482…»

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A Irmandade de Moura
[…]
Depois da refeição, o rei juntou-se aos companheiros que tinham ficado na vila, numa das salas do Paço Ducal. Era uma reunião de velhos amigos, que havia muito tinham cruzado seus destinos com o membro mais novo da família real, um jovem que apenas aspirava a obter o governo de uma ordem militar secundária, mas que a roda da fortuna guindara ao trono e à cabeça de um novo império ultramarino, Ali estavam Nuno Manuel, colaço de dom Manuel, Gaspar Lemos, Jorge Brito, Miguel Castro, Luís Vasconcelos, Álvaro Sousa e Vasco Melo. A irmandade era maior quando fora construída, havia trinta e quatro anos, mas o tempo encarregara-se de fazer desaparecer os outros cinco: António Brito, irmão de Jorge, morrera de doença, em 1499; Ambrósio Serpa, fora assassinado em Bristol, no ano de 1502, quando tentava infiltrar-se numa expedição de descobrimento a ocidente, financiada por el-rei Henrique VII de Inglaterra; Lourenço Brito, outro irmão de Jorge, partira para a Índia, em 1505, com o vice-rei Francisco Almeida, e perecera com ele em 1510, quando regressava ao reino, numa escaramuça escusada com indígenas nas proximidades do cabo da Boa Esperança; Rui Sá morrera havia três anos com a amante, trespassados pela espada de um marido enganado; Lopo Góis tombara no ano anterior, combatendo os mouros na batalha dos Alcaides, que se ferira não muito longe de Azamor, em dia de Sexta-Feira Santa.
Assim que chegou, dom Manuel pediu a Vasco que lhe desse notícias sobre as obras que decorriam no Castelo de Moura, bem como as da edificação da nova igreja matriz, fora da cinta de muralhas. Depois saudou uma vez mais os amigos.
Era um encontro fraternal. Naquele grupo nunca houvera cerimónias, por mais que o destino tivesse elevado a condição de Manuel. Com qualquer um daqueles doze, desde que estivessem em privado, logo desaparecia a formalidade com que tinha de se tratar um neto de rei, um duque, ou o próprio rei. Eram ocasiões de desabafo para quem levava uma vida quase sempre controlada pela etiqueta, a que só escapavam os momentos em que Manuel se fechava na intimidade com a rainha. Mas dona Maria, nascida princesa numa corte severa como a dos reis Fernando e Isabel, nunca pudera subir às árvores, correr à frente dos touros ou atrás de uma bola, como Manuel fizera nos primeiros anos tranquilos da sua existência. Mesmo na intimidade do leito conjugal, Maria, embora delicada, aprazível e sempre disponível para seu marido, não deixava de ser uma Trastâmara modelada pela etiqueta. Os encontros com seus amigos da irmandade eram momentos raros de absoluta liberdade para o rei, que vivia preso ao seu poder.

Eram todos jovens nos começos da puberdade quando se haviam reunido na vila de Moura, na última fase das terçarias. Nessa ocasião, no Outono de 1482, dom Manuel não regressara a Castela como refém, em substituição de seu irmão, Diogo. O entendimento entre as duas monarquias adivinhava-se, e esperava-se para breve a libertação do príncipe Afonso de Portugal e da infanta dona Isabel de Castela, que por então estavam à guarda da infanta dona Beatriz, mãe de Manuel, no Castelo de Moura, como garantes da paz alcançada em 1479. Por isso, a rainha Isabel de Castela aceitara que o representante da Casa de Viseu nesta complexa trama política ficasse também enclausurado no castelo alentejano. Depois da confusão que o duque Diogo provocara na corte castelhana, engendrando um filho à esposa do duque de Villahermosa, que era nem mais nem menos que o meio-irmão do rei Fernando, a rainha decidira evitar mais barafunda, embora Manuel fosse muito mais tranquilo e discreto que o altivo irmão». In João Paulo Oliveira Costa, O Império dos Pardais, 2008, Temas e Debates, 1ª Edição, 2008, ISBN 978-972-759-993-6.

Cortesia de TeDebates/JDACT

domingo, 8 de março de 2020

O Cavaleiro de Olivença. João Paulo O. Costa. «A Casa de Beja actuara discretamente, e contara com o apoio da rainha de Castela, prima de Manuel. Vasco Melo fora enviado para Roma…»

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O pedido da Rainha
«(…) Vasco Melo pertencia à linhagem dos Me1os. Era um das várias dezenas de bisnetos do grande Martim Afonso de Melo, o velho, que fora guarda-mor d'el-rei João I. Linhagem alentejana, seus membros principais haviam obtido as alcaidaria de Évora, Castelo de Vide, Serpa e Elvas. Na terceira geração, o neto primogénito de Martim Afonso, Rodrigo Melo, ganhara o senhorio de Olivença, a que el-rei Afonso V acrescentara o título condal. Rodrigo, e depois seu irmão Manuel, haviam detido a capitania de Tânger. Os Melos continuavam a ser uma linhagem influente e tinham mesmo casado a herdeira do conde de Olivença com Álvaro, tio de Jaime, o duque de Bragança. O avô de Vasco também se instalara em Olivença, à sombra do primo, e Vasco beneficiara de mortes e de esterilidades para se tornar no único herdeiro do seu ramo dos Melos. Possuía, por isso, mruitas propriedades na vila e seu termo, que lhe davam segurança económica.
Cavaleiro itinerante, era no Alentejo que recuperava de suas fadigas, sobretudo quando podia passar alguns dias na casa de Olivença. Além disso, a localização da vila na margem esquerda do Guadiana tornava-a numa guarda avançada do espião, um sítio propício para coordenar seus agentes espalhados pelo reino de Castela.

Era perto da meia-noite, quando Vasco ouviu o som de cascos na rua. Pouco depois, um criado apareceu. Senhor, tendes uma visita. Com os olhos postos no mapa, disse: deixa entrar García Pacheco.
O castelhano entrou na sala e os dois abraçaram-se. Oficiais do mesmo mestre, conheciam-se havia nove anos, quando tinham trabalhado juntos em Roma, na defesa dos interesses do duque de Beja na sucessão do trono de Portugal. Quando o príncipe Afonso morrera, em Julho de 1491, João II havia tentado legitimar Jorge, o seu bastardo, para o tornar herdeiro da Coroa Portuguesa, mas a Santa Sé resistira aos pedidos do monarca luso. A Casa de Beja actuara discretamente, e contara com o apoio da rainha de Castela, prima de Manuel. Vasco Melo fora enviado para Roma, como agente da Casa de Beja e contara com a ajuda de García. Entre os dois forjara-se uma sólida amizade, que perdurava, embora agora defendessem, muitas vezes, interesses antagónicos. Vi vosso sinal.
Ainda bem, Vasquito. O meu taberneiro de Cáceres ainda está vivo? Com um sorriso, García respondeu: o António sempre foi um bom servidor da rainha. Vasco escoiceou e deu um estalo com a língua, irritado. Ganhaste-me nesse lance, dom García. E tu ganhaste hoje. Eu queria mesmo apanhar o teu correio. Não apanharíeis informação relevante. García encolheu os ombros. Isso dizes tu, meu dissimulado. Paciência. Entre nossas coroas não devia haver segredos, e nós sabemo-los quase todos, mas estou certo que o teu rei não está a respeitar os termos do Tratado de Tordesilhas. A rainha continua a aguardar a ocasião de organizarmos a armada conjunta que vá explorar a linha de demarcação entre as duas coroas. Era a vez de Vasco sorrir. Temos tido muitos assuntos de Estado a atrapalhar o apresto de esquadra tão importante. Pois estou certo que se tivesse caçado o teu correio, estaríamos agora a falar dessa armada das duas coroas». In João Paulo Oliveira Costa, O Cavaleiro de Olivença, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, ISBN 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

O Cavaleiro de Olivença. João Paulo O. Costa. «Vasco apercebeu-se de que os Castelhanos também estavam a par das movimentações d'el-rei Henrique de Inglaterra para ganhar novos domínios no mar oceano»


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O pedido da Rainha
«(…) Com ar ameaçador, encarou Francisco: este ofício é serviço para toda a vida. Só termina com a morte. Espero que não a queiras apressar. Assustado, distraído pelo movimento da orelha do Melo, Francisco aceitou a mudança de seu destino. Vai. E prepara o teu fato. Partes amanhã para Lisboa, com Fernão Pires e o Heitor. Lá aguardas a minha chegada. Assim que o correio saiu, um criado entrou na sala. Vigia-o, ordenou Vasco.
O Melo passou o resto da tarde a ler as mensagens. Continuavam as negociações a propósito do casamento do senhor dom Dinis, irmão do duque de Bragança, e a rainha Isabel não lhe queria dar noiva do estatuto pretendido por el-rei Manuel I. enquanto cofiava uma sobrancelha, Vasco suspirou ao receber nova confirmação de que os castelhanos não desconfiavam da paragem da esquadra de Pedro Álvares em terras do outro lado do oceano, e a armada de Gonçalo Coelho, que seguira para essas mesmas terras em Abril, tarnbém não dera nas vistas; os portugueses podiam explorar o território recém-descoberto sem obedecer aos trâmites do Tratado de Tordesilhas, que obrigava à organização de uma armada luso-castelhana para reconhecer a região por onde passava a linha divisória das zonas de conquista das duas coroas. A revelação da descoberta estava por dias, pois o primeiro navio da armada da Índia chegara a Lisboa no último São João, e além das notícias sobre os bons negócios realizados e sobre a má vontade do samorim de Calecut, a Anunciada trouxera também as aves garridas da Terra de Vera Cruz. A notícia da descoberta já devia, por isso, ter chegado aos ouvidos da rainha de Castela, mas o rei Manuel I procurava ganhar mais algum tempo, e fora decidido que Isabel e Fernando só seriam notificados oficialmente depois da chegada do capitão-mor da armada.
Vasco apercebeu-se de que os Castelhanos também estavam a par das movimentações d'el-rei Henrique de Inglaterra para ganhar novos domínios no mar oceano. Embora os assuntos do Oriente ainda estivessem inseguros, urgia resolver esta disputa a ocidente, onde os Castelhanos tanto eram rivais como podiam ser aliados, pois o Túdor era um problema que afectava ambas as coroas hispânicas. O resto eram miudezas sobre as intrigas na corte castelhana, mas seu espírito alvoroçou-se quando olhou de novo para a missiva vinda de Mérida. Chamou um escudeiro e entregou-lhe um escrito. Entrega-o ao anadel.
Depois, ceou e passou horas a olhar atentamente para um mapa da região de Mérida. Por vezes suspirava, algumas vezes arregalou um olho ou piscou o outro, e passou um bom bocado tremendo uma perna; o nariz, por sua vez, nunca parou, Vasco Melo era o chefe dos espiões d'el-rei Manuel I. Amigo de infância do monarca, entrara com mais onze amigos numa irmandade inspirada nas lendas da Távola Redonda, quando ninguém suspeitava que o irmão mais novo do duque de Viseu viria a ser rei de Portugal. A irmandade persistira e, naqueles dias, Vasco podia tratar por tu o monarca, quando estavam a sós, ou junto com os outros membros da irmandade de Moura. Cavaleiro incansável, Vasco falava diversas línguas, o que lhe fora estimulado desde pequenino, pois sua mãe, a flamenga Erika, sempre conversara com ele em sua língua. Seu pai, Lançarote Melo, perecera na batalha travada junto a Mérida, em 1479, durante a Guerra de Sucessão de Castela. Sua mãe morrera poucos dias depois de receber a triste notícia, e Vasco crescera protegido por dona Beatriz, duquesa de Viseu, e por Leonel de Ataíde, seu colaço». In João Paulo Oliveira Costa, O Cavaleiro de Olivença, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, ISBN 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

quinta-feira, 14 de junho de 2018

O Cavaleiro de Olivença João Paulo O Costa. «A vila integrara definitivamente os domínios da coroa portuguesa há duzentos anos, no tempo d’el-rei Dinis I. pelo tratado de Alcanizes, a fronteira fora definida para sempre e Olivença ficara do lado certo»

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O pedido da Rainha
«(…) O grupo português trotava calmamente. O Relâmpago estava esgotado e uma montada levava dois cavaleiros. Quando contornaram nova curva, ao fundo surgiu a vila. Olivença, guarda avançada de Portugal além-Guadiana, ostentava poder e riqueza. A vila integrara definitivamente os domínios da coroa portuguesa há duzentos anos, no tempo d’el-rei Dinis I. pelo tratado de Alcanizes, a fronteira fora definida para sempre e Olivença ficara do lado certo. O rei lavrador povoara-a e defendera-a, mas a cerca velha cedo se mostrou insuficiente para proteger todos os oliventinos, pois a vila cresceu depressa, até que el-rei Fernando I ordenara a construção de novas muralhas.
Os cavaleiros aproximavam-se, e aos seus olhos destacava-se a torre de menagem altaneira, reconstruída no tempo de João II. No alto, flutuava a bandeira branca com a esfera armilar e uma outra com o escudo de Portugal. Já havia novos bairros desprotegidos, pelo que a cerca fernandina carecia de acrescentamento. Quando se acercaram, já distinguiam o fosso que contornava a muralha e ouviram o relógio dando as horas. Fora colocado numa esquina da cerca velha, em torre reforçada para o efeito. Ao longe, nas colinas sobranceiras à vila, erguiam-se duas atalaias que vigiavam Castela; uma espreitava para as bandas de Alconchel e a outra na direcção de Badajoz e de Jerez de los Caballeros.
Agora sinto-me mesmo de volta a Portugal, suspirou Francisco. Ainda bem que Vossa Senhoria andava por perto. Estava preocupado com o teu atraso e nossas atalaias avisaram que tinham avistado um cavaleiro a ser perseguido, vindo nesta direcção, e saí logo com estes homens. Estava certo que irias entrar por aquele vau, e ao deixar os castelhanos entrar em nosso reino, ficámos em vantagem. Além disso, eles estavam pior armados do que nós. O grupo entrou pela Porta de São Sebastião, junto à torre de menagem, e foi saudado pela soldadesca que aguardava notícias. Francisco, vem comigo, ordenou Vasco. Pouco depois estavam na casa do Melo, que se situava na parte velha da vila, próxima da Porta de Alconchel. O que tens para mim? O correio pousou o bornal, despiu as calças e tirou um envelope que estava num bolso por dentro da perna; com uma faca descoseu sua capa e tirou um macinho com vários papéis em letra miudinha; finalmente, acionou o mecanismo que abria a sola se sua bota e retirou saí uma nova missiva. Parece que foste reconhecido, Francisco. O meu contacto em Mérida estava nervoso. Fostes a Mérida? Não vieste directo de Cáceres? Não, senhor. O nosso amigo de Cáceres disse-me que havia novidades para mim em Mérida. Então o nosso agente de Cáceres bandeou-se e tu estás mesmo identificado. Qual é a carta que te deram em Mérida? É essa com o brasão. Vasco deu um estalo com a língua, ao ver o símbolo dos Pachecos, e sua perna direita escoiceou. Foi uma armadilha para se certificarem que eras um dos nossos correios.
O que diz a carta? Não te interessa, tolo. Temos que te mudar. Dentro de duas semanas partes comigo para a Flandres. Lá faz frio. E aqui cortam-te o pescoço num instante. E Vossa Senhoria não poderia aceitar que eu deixasse este serviço? Se assim o queres, serei eu próprio a cortar-te o pescoço, rosnou Vasco Melo, com o nariz mexendo-se desenfreadamente». In João Paulo Oliveira Costa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

quarta-feira, 13 de junho de 2018

O Cavaleiro de Olivença João Paulo O Costa. «A tropa castelhana depressa reentrou em seu reino. Gastón, ouvistes a conversa do capitão com o endemoninhado do português? Sim, Manolo»

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O pedido da Rainha
«(…) Desta vez podeis brincar. Tenho muito respeito por vossas barbas brancas, mas fostes vós, dom García, que zombaste sobre vossa correria. Mas não interessa. Vedes decerto além aquele curso de água. Aliás passastes por ele. No entusiasmo de vossa caçada imaginária entrastes nas terras do termo de Olivença, pelo que estais no reino de Portugal, e aqui não podeis caçar sem autorização de Sua Alteza el-rei Manuel I. Não podeis prosseguir, mas sois meus convidados para um copo de vinho. Foi a vez de o castelhano sorrir, enquanto colocava as duas mãos na sela. O nariz de Vasco acelerou ligeiramente. Quando vos viram, os meus homens comentaram que sois um matador terrível, um conquistador incorrigível... Manolo não se conteve: rompeste a minha irmã, cabr… Vasco arregalou um olho e aproximou-se do novo interlocutor. Como se chama a tua irmã? Hesitante e arrependido, Manolo murmurou: Isabel.
E donde és, caballero? De Jerez de los Caballeros. Ah! Essa Isabel. Boa moça, bem mais real que o vosso porco selvagem e bem mais bonita que tu, pedaço de asno. Podeis dizer-lhe que será sempre bem-vinda em Olivença. Bem que lhe supliquei que viesse comigo. Dom García interrompeu: chega, señor Vasco. Estamos de facto fora do nosso reino e de nossa jurisdição. Peço-vos desculpa pelo engano e agradeço o vosso convite para uma bebida, mas ficará para outra ocasião. Muito gostaria de vos receber. Se puder irei esta noite, retorquiu dom García com um sorriso. Quando vos aprouver, meu caro. Por um momento, os dois comandantes olharam-se nos olhos. e depois Vasco Melo pôs fim à conversa. Começou por virar-se para os seus e de seguida deu sua despedida. Fernão, um cavalo para o castelhano que foi apeado. E agora, senhores, ide e atinai com vossa caçada. Estavam os castelhanos a iniciar seu galope, quando Vasco acrescentou, gritando: e não vos esqueçais que Olivença é terra de Portugal.
A tropa castelhana depressa reentrou em seu reino. Gastón, ouvistes a conversa do capitão com o endemoninhado do português? Sim, Manolo. Estavam a combinar um encontro. Não sejas idiota, hombre. Aquilo é conversa de oficiais de seu mester. Cheios de delicadezas quando se encontram à vista de outros, e matando-se impiedosamente sempre que podem. Então era só conversa! Claro, Manolo. E não sejas muito coscuvilheiro, pois dom García faz o que quer, mesmo quando nos parece estranho. O velho não está acima das leis. Cuidado com o que dizes, desgraçado. Dom García é íntimo da rainha Isabel. Estava a seu lado quando el-rei Henrique se partiu deste mundo, apoiou-a na guerra contra a Beltraneja. Foi de grande valia para enfraquecer o partido do rei Afonso de Portugal e continua a merecer o favor da nossa rainha». In João Paulo Oliveira Costa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

O Cavaleiro de Olivença João Paulo O Costa. «Buenos dias señores. Podeis falar em vossa língua, señor VascoMelo. Ora, dom García, estava só a tentar ser cortês ao receber-vos em minha terra»

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O pedido da Rainha
«(…) Francisco tivera tempo para preparar a arma; apercebera-se dos sinais que anunciavam o provável socorro e, com o disparo, procurou ganhar tempo e assinalar sua posição. Se porventura fossem outros castelhanos não fazia mal, pois os perseguidores abastavam para sua perdição. Paco estás bem? Ai! Olhe para mim capitão! Achais que estou bem? Devo ter partido o nariz. E perdeste pelo menos um dente, amigo. De rosto coberto de coberto de sangue, Paco desembainhou a espada e começou a correr. Vou matar aquele desgraçado. Dera três passadas, quando estacou. No alto do monte surgiu uma dúzia de cavaleiros e soaram dois estampidos. Os recém-chegados estavam armados com espingardas pelo que tinham vantagem sobre os adversários, mas não davam mostras de querer atacar. Francisco sorriu, pois estava salvo, Olhou para a cabeça do esquadrão português e sentiu ainda mais alegria e alívio. O chefe veio em meu socorro. Estes malditos não se vão atrever a lutar contra ele.
O desânimo apossou-se dos castelhanos. Vede capitão! É o cavaleiro das plumas vermelhas. O que mexe o nariz. E as orelhas. É um grande lutador. Um matador. Rompeu a minha irmã. Mas ela queria-o, Manolo. E gostou muitíssimo. Dizem que é amigo do rei de Portugal. Amicíssimo. Fala muitas línguas. O se castelhano é perfeito. E fala a língua dos mouros. E aquela algaraviada dos flamengos. Um nosso companheiro que veio de Lisboa disse-me que corre por lá que se deita com uma monja. O bicho tem pacto com o demónio. Vejam. Vem directo a nós. Está na minha mira, capitão. Quietos. Se o feres, aqueles perros acabam connosco. E nós estamos em falso.
Os dois grupos de cavaleiros olhavam-se com aparente sossego, mas estavam todos prontos para empunhar suas armas e se matarem; no entanto, os dois comandantes, veteranos de seu ofício, sabiam que não era altura apropriada para verter sangue. O castelhano era um fidalgo já idoso, com mais de cinquenta anos, enquanto seu rival andava pelos trinta. Os portugueses tinham vantagem suficiente para ser óbvio que o correio não seria interceptado, pelo que tudo estava resolvido, mas o capitão português saiu do seu grupo e encaminhou-se para os rivais a passo, enquanto seus homens de armas rodeavam Francisco. Por fim, ficou à beira do comandante castelhano; a viseira do elma estava erguida e todos viram o nariz trepidante.
Buenos dias señores. Podeis falar em vossa língua, señor VascoMelo. Ora, dom García, estava só a tentar ser cortês ao receber-vos em minha terra. Vi vosso pendão e desejo honrar vossa fidalguia. Sois muito amável. Peço-vos perdão por nossa distracção. Estávamos à caça de um porco szelvagem e passámos os limites sem reparar. Vasco sorriu, enquanto encolhia um dedo do pé. Não vi nenhum porco por aqui, mas quem se perde por estas veredas também pode julgar que anda à caça de presas imaginárias». In João Paulo Oliveira Costa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

O Cavaleiro de Olivença João Paulo O Costa. «Os castelhanos entusiasmavam-se. Vamos apanhá-lo. Já estamos em terras de Portugal, capitão. Ora, ninguém nos vê»

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O pedido da Rainha
«(…) Ao sinal das rédeas, o galope recomeçou; a gritaria dos detrás já lhe chegava aos ouvidos, mas Francisco porfiou em sua cavalgada. Passado o tempo de dois padres-nossos, atravessaram o curso de água lamacento, quando soprou o silvo de um virote. Malditos. não desistem. Para seu desespero, Francisco apercebeu-se que os castelhanos não se intimidavam com a fronteira e que estavam dispostos a atacá-lo mesmo do lado do reino de Portugal. O Relâmpago dava sinais evidentes de cansaço e era óbvio que não chegaria à vila a galope. A distância encurtava e escutou novos silvos; um virote ficou cravado numa azinheira a dois passos de si. Viu uns arbustos mais densos e dirigiu-se para aí. Francisco pertencia aos serviços de espionagem d’el-rei de Portugal. Suas funções eram simples, mas sempre arriscadas, pois cabia-lhe transportar as informações obtidas pelos companheiros. Havia dois anos que percorria discretamente as estradas de Castela sem dar nas vistas, mas desta vez algo correra mal. Naquele Verão 1501, havia várias pendências entre as duas coroas, aliadas mas sempre desconfiadas. Os canais oficiais da diplomacia eram insuficientes pelo que de um lado e outro se buscavam mais informações.
Francisco pouco sabia dos assuntos que apoquentavam os seus senhores, pois era um simples correio. Recebia cartas, muitas delas em cifra, e levava-as para seu destino. Desta vez recolhera as mensagens em Valhadolid, Cáceres e em Mérida. Ele desconfiava que fora traído por algum dos informadores, pois sentira-se perseguido havia dois dias, quando recolhera uma última encomenda numa albergaria nas vizinhanças de Mérida. Fora a primeira vez que recebera correio nesse ponto e o seu contacto estava nervoso. Julgara que eram nervos de principiante, mas agora admitia que o desgraçado estava a fazer jogo duplo. Na véspera sentira os perseguidores, mas pensara que os despistara durante a noite. No entanto, havia duas horas, os cavaleiros tinham reaparecido, em dois grupos separados, que tentavam cortar-lhe o caminho para Portugal. A velocidade do Relâmpago e o conhecimento detalhado daquele território tinham-lhe permitido ludibriar os perseguidores, uma vez mais, até porque estes bloqueavam o acesso a Elvas, mas o seu destino era outro. Conseguira chegar a Portugal, mas agora encurralado.
Os castelhanos entusiasmavam-se. Vamos apanhá-lo. Já estamos em terras de Portugal, capitão. Ora, ninguém nos vê. Caçamos esse perro e voltamos prestes para o outro lado do rio. Mas não o matem. Quero-o vivo. Vede, capitão. Aproximam-se cavaleiros. A ele, antes que os outros cheguem. Nessa altura soou um estrondo e uma das montadas castelhanas tombou, arrastando seu cavaleiro para uma queda dolorosa. Cuidado. O cabr… tem uma espingarda». In João Paulo Oliveira Costa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

O Fio do Tempo. João Paulo O. Costa. «Álvaro suspirou; aparentemente distraído, de olhar ausente, levou a mão ao bornal onde estava a ampulheta, e Tristão Coutinho percebeu que os fantasmas do passado ainda estavam presentes»

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Fugaz reencontro
«(…) Podem fazer mulatinhas jeitosas, acrescentou um dos interlocutores, cujo bafo a vinho era particularmente notório, apontando para a mulata que conversava na mesa do lado. Dois olhos riram-se e começaram a aproximar-se da moça com um olhar alarve, porém, dois homens corpulentos, um branco e outro mulato, interpuseram-se, com um aspecto suficientemente ameaçador para demover o assédio. O sapateiro e os seus amigos continuavam o diálogo. entretendo-se com uns nacos de toucinho assado acompanhados de castanhas e pão de centeio. A certa altura, as conversas foram interrompidas por um cacarejar intenso vindo dos fundos, quando um escravo do taberneiro pegou numa das ocupantes do galinheiro; contudo, ninguém ouviu, pouco depois, o som do cutelo. Sentado, com o seu quartinho de vinho entre as mãos, indiferente ao alarido que ecoava pela sala, Álvaro conversou com dois rapazes que se dispuseram a ouvi-lo, e recordou uma vez mais as suas proezas de cavalaria vividas ali mesmo no tempo d'el-rei João, o primeiro. Os dois moços ouviam a sua descrição, fascinados, até que um deles perguntou: e por que razão tinha vossa senhoria uma armadura negra?
Nesse momento Álvaro transfigurou-se e afirmou: estava de 1uto... O pior dos lutos. E, olhando-os com um ar ameaçador, disse: deixem-me. Os dois rapazes abandonaram a mesa pois o velho centenário parecia bem capaz de brandir o seu bordão com força e eficiência. Álvaro retirou a ampulheta do bornal. Colocou-a em cima da mesa e contemplou o fio contínuo do tempo, sem que os seus olhos capturassem a beleza da mulata ou a sofreguidão com que um dos ingleses devorava a galinha. Desejava ardentemente voltar a ver a areia a subir e a ampulheta fez-lhe a vontade.

Corria o ano de 1424, nesse mesmo mês de Outubro, e um grupo de dez cavaleiros percorria tranquilamente a estrada que ligava Marialva a Trancoso. Quando a vila surgiu à sua vista, um dos cavaleiros aproximou-se do principal. Senhor Álvaro, poderemos pernoitar naquela estalagem. Imponente no seu alazão, coberto por uma túnica amarela e roxa com as suas insígnias, tendo ao lado um pajem que empunhava o seu pendão, Álvaro Ataíde fez um gesto de assentimento. Vai ver se têm acomodação para nós e para as montadas. Virou-se, sorridente, para outro cavaleiro do grupo. Tristão, sabe-te bem regressar ao nosso Portugal? Tristão Coutinho acelerou o trote e colocou-se a seu lado. Já  era tempo de regressarmos, meu amigo. Cobriste-te de glória e honra num cento de torneios, ajudámos el-rei Henrique, que Deus haja, a vencer os franceses. Este é o momento de voltarmos ao serviço do senhor infante..., desde que já tenhas mesmo esquecido os teus infortúnios.
Álvaro suspirou; aparentemente distraído, de olhar ausente, levou a mão ao bornal onde estava a ampulheta, e Tristão Coutinho percebeu que os fantasmas do passado ainda estavam presentes. No final da coluna dois escudeiros conversavam: os nossos amos andam sempre juntos..., parece-me que em demasia. Cala-te, Afonso. São bons amigos. Pois. Porém, nestes oito anos que andámos com eles, divertimo-nos com muitas moças, mas eles até fugiam das saias. Ora, Afonso, não sabes que o senhor Álvaro, antes de partirmos para a nossa aventura, tentou entrar para a regra monástica em Alcobaça? E como não o deixaram entrar na ordem, fez votos pessoais de castidade. Seja... E Tristão Coutinho? Também seguiu essa sandice de não ter mulheres? É apenas um homem discreto. Lembras-te da Nicole, em Paris, da Brígida, em Bruges, da Susan, em Cantuária, ou da Pauline, em Nantes? Com todas elas dormiu o senhor Tristão Coutinho. E houve outras. Em Londres, uma noite, ficou com duas ao mesmo tempo..., umas irmãs sardentas. Só que o faz com recato, por respeito aos votos do senhor Álvaro. Disse-me uma noite que não queria tentá-lo, pois a sua jura era sagrada». In João Paulo O. Costa, O Fio do Tempo, 2009, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-989-644-135-7.

Cortesia CL/TDebates/JDACT

O Fio do Tempo. João Paulo O. Costa. «Numa outra mesa comentava-se o caso do aprendiz de alfaiate que fora dado como desaparecido, havia quase um ano, e que acabava de chegar a Lisboa acorrentado; o estouvado do rapaz deixara-se tentar…»

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Fugaz reencontro
«(…) O sexagenário perturbou-se com a saudação. Senhor dom Álvaro, bem sabeis que abracei a religião cristã vai para três anos e que tomei nome mais apropriado à minha nova fé. Ora, amigo, deixai essa farsa para os outros. O médico irritou-se com a impertinência do fidalgo. Farsa, dizeis vós? Olhai ali para baixo. Porventura está aí a judiaria onde nasci e vivi? Vedes lá a sinagoga onde celebrei a minha fé, sábado após sábado? Tudo nos foi tirado... Mantivestes vossos cabedais... Grande obra a d'el-rei, que nos obrigou a mudar de religião, que nos fez sair das nossas casas, mas que não roubou todo o nosso dinheiro. Roubá-lo-á, se eu decidir partir para fora deste reino. Senhor dom Álrraro, sei que não fostes mal-intencionado ao mencionardes o meu antigo nome, mas respeitai a minha nova condição. E desculpai-me a pressa, porém, um paciente espera-me. Álvaro observava o cristão-novo, enquanto este seguia o seu caminho, amaldiçoando a hora em que el-rei Manuel impusera a expulsão dos judeus. Passava ao lado da Sé, quando topou com João Nova, alcaide-menor de Lisboa. Sabeis a notícia, senhor dom Álvaro? El-rei nomeou-me capitão-mor da armada que há-de ir à Índia no próximo ano.
O Ataíde saudou a novidade, pensando: não viverei para ver o seu regresso... Quiçá, nem o veja partir. Felicito-vos, meu bom amigo. Partis antes do regresso da armada que por lá anda? Tem de ser, pois de outra forma el-rei só mandaria armadas à Índia, ano sim, ano não. Pedro Álvares e os seus capitães deixar-nos-ão mensagens nos portos de Sofala e de Melinde, ou junto ao Cabo. Deus vos guarde... E tende cuidado, pois estou certo de que os índios não são cristãos. João Nova desapareceu por entre as gentes que enxameavam as ruas de Lisboa e Álvaro desembocou na Rua dos Mercadores, que atravessava toda a parte baixa da cidade. O Ataíde sentiu o sortilégio do tempo. Ficou parado demoradamente, encostado a uma parede e amparado ao bordão. Os transeuntes como que se esfumaram e ele reviu aquela mesma rua tal como entrara nela em Setembro de 1428, havia setenta e dois anos.
Lisboa festejava o casamento da infanta dona Isabel com o duque da Borgonha e a Rua dos Mercadores era palco de justas memoráveis. Álvaro era o campeão da tarde. Montado no corcel favorito, de lança em riste, com a armadura negra que adoptara quatro anos antes, galopava à desfilada, derrubando os adversários à primeira; as donzelas sorriam-lhe e lançavam-lhe flores; os rapazes ofereciam-se para que os tomasse por pajens, e os cavaleiros não escondiam a sua admiração. A cada triunfo ele erguia a lança, soltava um urro pleno de raiva e de orgulho e recolhia-se aguardando novo desafio. Na outra extremidade da rua estava Charles Gant, envolto na sua armadura luzidia coberta por uma túnica verde e branca. O flamengo empinara a sua montada e partira à desfilada contra Álvaro; este esporeou o Bonito, que iniciou a corrida. Sacudido pelo galope, de viseira baixa, Álvaro via apenas a silhueta do adversário a crescer; o sol faiscou no elmo emplumado de Charles, Álvaro apontou a lança ao alvo resplandecente e o flamengo foi projectado pelos ares. O impacte foi tão forte que o Ataíde só se manteve na garupa à custa de muito esforço. O rival rebolou pelo chão da Rua dos Mercadores.
O coração de Álvaro batia acelerado, como no momento em que derrubara o cavaleiro de Gant. Não se contendo, ergueu o bordão e repetiu o seu grito de guerra. Um escravo d'el-rei que o reconheceu perguntou-lhe se precisava de ajuda, porém, ele já se recompusera. Estava um pouco cansado e resolveu parar na adega de Júlio Gomes. O interior do estabelecimento estava animado. Junto à porta, um tanoeiro de meia-idade ditava uma carta a um clérigo; a missiva tinha por destinatária a mãe, que não via desde que deixara a sua aldeia, no termo de Abrantes, e rumara a Lisboa, ia para vinte anos. A seu lado, dois rafeiros entretinham-se com uns ossos que a ajudante do taberneiro lhes dera. A um canto, Febo Antunes, sapateiro, conversava discretamente com uns estrangeiros, sem reparar no jovem negro que o observava pelo canto do olho, enquanto petiscava azeitonas e conversava, entusiasmado, com uma mulata de corpo bem-feito. Numa outra mesa comentava-se o caso do aprendiz de alfaiate que fora dado como desaparecido, havia quase um ano, e que acabava de chegar a Lisboa acorrentado; o estouvado do rapaz deixara-se tentar e embarcara num navio que fora negociar aos rios da Guiné sem autorização d'el-rei. Os contrabandistas haviam sido interceptados por uma caravela da Coroa e os seus bens apresados. Os membros da tripulação não iriam escapar a uma dura pena; muito provavelmente seriam degradados para as praças de África, que tinham sempre guarnições incompletas. Quiçá, mandam-nos para a ilha de São Tomé, já que gostam tanto de navegações... Ui, que não duram muito tempo. Um primo de um vizinho da minha comadre foi com o capitão Álvares Caminha, mas chegou-lhe uma febre ao cabo de dois meses e o pobrezito finou-se numa semana. El-rei mandou povoar outras ilhas dessas paragens alongadas. O melhor que têm a fazer é aproveitar-se das negras, enquanto não lhes chega a febre». In João Paulo O. Costa, O Fio do Tempo, 2009, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-989-644-135-7.

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quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O Fio do Tempo. João Paulo O. Costa. «No final de Agosto, Álvaro Ataíde regressou ao reino, na companhia do rei; em Ceuta ficara uma guarnição sob o comando de Pedro Meneses. Portugal dava uma nova forma ao seu destino»

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O primeiro voo
«(…) O moribundo agitou-se, tentou recuperar o fio e quando quis falar expirou num vómito de sangue, com os olhos muito abertos, fitando o rival. Álvaro baixou-lhe as pálpebras, colocou o fio ao pescoço e ergueu-se. Voltou aos combates; passou por ruas fumegantes e viu a soldadesca inebriada com o triunfo. Havia quem carregasse arcas, tecidos e toda a sorte de objectos; num canto, um magote de gente ria ao observar um homem que violava uma jovem enquanto gritava: sente, moura danada, o que minha irmã sofreu às mãos dos teus. A cidade caíra, porém, havia bolsas de resistência. Álvaro não queria participar no saque e procurou guiar-se pelo alarido. Acabou por se cruzar com o infante Henrique e voltou ao prélio na companhia do seu senhor. A espada voltou a rasgar a carne de adversários e a sua coragem foi percebida pelo infante. No final do dia afastou-se das celebrações. Sentia-se honrado pelas palavras do infante Henrique, que lhe prometera a honra da cavalaria, e desistira de morrer. Tinha um filho... Um filho que teria o nome de outro. Enquanto ouvia os cânticos dos vencedores e os gemidos dos vencidos, Álvaro contemplava o fio do tempo, que afinal não fora interrompido, mas que não sabia como iria prosseguir. Macambúzio, só sentiu um leve entusiasmo quando a espada de Henrique tocou nos seus ombros. Os feitos da manhã do dia 21 de Agosto haviam-no tornado famoso, e até el-rei o chamara para louvar a sua audácia e presteza. Ajudara a resgatar o corpo de Jerónimo, que fora sepultado na antiga mesquita, transformada agora em igreja matriz. Soubera, entretanto, que por um incrível golpe da roda da fortuna, duas das testemunhas do incidente da serra de Monchique tinham perecido. Pedro Sá apanhara a peste na embarcação e finara-se em pouco tempo. Fernando Góis morrera em combate, atingido pelas mesmas pedras que derrubaram fatalmente Vasco Fernandes Ataíde, vedor da Casa do infante Henrique. Só restavam Tristão Coutinho e o primo do alcaide de Silves, porém, do seu amigo nada transpiraria, e o algarvio parecia de confiança. Além disso, se abrisse a boca não teria quem confirmasse a verdade. O cadáver de Jorge Távora, por sua vez, também não revelou o crime; no local da queda os parentes encontraram apenas alguns ossos, pois o corpo servira de repasto a lobos e a aves necrófagas.
No final de Agosto, Álvaro Ataíde regressou ao reino, na companhia do rei; em Ceuta ficara uma guarnição sob o comando de Pedro Meneses. Portugal dava uma nova forma ao seu destino. Estava a armada real a zarpar da cidade africana, quando uma brisa mais forte soprou por entre as fragas cimeiras da serra de Monchique. A jovem águia voltou a abrir as asas, desafiando desajeitadamente o precipício. O seu esforço foi coroado de êxito e a pequena ave realizou o seu primeiro voo. Tinha o mundo a seus pés... Era tempo de descobri-lo.

Fugaz reencontro
Quando acordou, na manhã seguinte, estava um dia soalheiro, como o anterior, e Álvaro decidiu passear pela cidade e visitar o Convento do Carmo, para confirmar se o superior pusera cobro à irresponsabilidade do frade sineiro. A sua vetusta idade não lhe tolhia o gosto de andar, mesmo que fosse devagar e com a ajuda do seu bordão. Além disso, conhecia tanta gente, que durante a sua travessia parava um bom par de vezes para conversar com amigos. Aprazou com o criado que o fosse buscar ao convento a seguir às vésperas, num carro, pois já não teria pernas para empreender nova caminhada de volta para a Alcáçova. Começou a descida, dirigindo-se para a Sé, e a primeira figura conhecida com que se deparou foi o médico Antão Vaz, seu amigo havia mais de quarenta anos. Prazenteiro, Álvaro saudou-o: bons dias, mestre Isaac». In João Paulo O. Costa, O Fio do Tempo, 2009, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2011, ISBN 978-989-644-135-7.

Cortesia CL/TDebates/JDACT

domingo, 20 de novembro de 2016

O Cavaleiro de Olivença. João Paulo O. Costa. «Era uma tarde de Julho. A canícula apertava e o ar estava quase irrespirável. Um cavaleiro galopava por entre sobreiros. Um rasto de poeira assinalava a sua passagem apressada»

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O amigo da rainha
«(…) O espírito de Matilde perturbou-se. Está quase, pensou Antónia. Mas a amiga recompôs-se, enquanto revia seus tempos com Gonçalo.  Nem sempre consegui satisfazê-1o perfeitamente, mas entendemo-nos. Mas sabei que em meu grupo quem arrancava segredos na cama era Madalena. A anâ? Valia pela diferença e era muito habilidosa e insinuante, e quando a luz se apagava ela como que crescia. Como deveis ter percebido em vossa vida, quando chega a escuridão ou o espírito se nos tolda, a beleza deixa de contar, e Madalena era uma mulher extraordinária, apesar do tamanho. Antónia escutava atenta, e Matilde prosseguiu: Eu tratava das mezinhas. Adormeci imensos, fiz muitos dizerem o que não queriam e envenenei uns quantos, mas nunca vi meus alvos sob efeito de minhas poções. Isso era trabalho dos meus companheiros. Sempre às ordens de Vasco.
Sempre com seu conhecimento, mas também trabalhávamos para o duque Jaime e para seus parentes castelhanos, sobretudo o irmão, o conde Dinis. Foram quase vinte anos muito aventurosos. Hoje apercebo-me de que gostávamos do nosso ofício e que fomos um grupo bem-sucedido. Mas separaste-vos de vez, depois da Revolta das Comunidades? Sim, mas ainda antes, por alturas da morte de Vasco, ficámos sem um anão e o corcunda. Andámos perto de vinte anos no fio da navalha, e depois tornámo-nos demasiado conhecidos e nossos truques já não impressionavam suficientemente. Será que se Vasco estivesse vivo, a Revolta das Comunidades teria tido um final diferente? Se Vasco Melo tivesse estado em Tordesilhas no momento em que os Comuneros libertaram a rainha Joana, talvez a tivesse convencido a tomar decisões sozinha. E com um olhar malicioso, Matilde acrescentou: talvez vos tivesse abandonado para ficar junto da rainha. Infelizmente abandonou-nos mais cedo.
Agora era Matilde quem procurava satisfazer curiosidades antigas. Mas vós tínheis vosso feitor. Antónia sorriu. Matilde podia manter seus segredos, mas ela não carecia desse artifício. Bem sabes que, em sua enorme bondade, Vasco casou comigo só para eu poder viver meu amor sem perder o morgadio. Então ele poderia ter ficado com a rainha Joana. Aquele homem bom e doce merecia ter sido mais feliz do que foi, tal e qual a rainha Joana. A criada apareceu para avisar que a ceia estava pronta, e Antónia decidiu tentar uma última vez. E Luís? Nunca tentou seduzir-vos? Apesar de sua corcunda? Enquanto se esforçava para erguer o corpo cansado, Matilde cedeu interiormente. O que vale um bom segredo se não for contado a ninguém? Dona Antónia, eu conto-vos tudo durante a ceia. As duas senhoras tinham aberto a caixa das memórias e iam destrancar o baú dos segredos. O passado, que continuava presente em seus espíritos, ia ser revisitado durante horas, qual Pandora impossível de voltar a fechar.

O pedido da Rainha
Era uma tarde de Julho. A canícula apertava e o ar estava quase irrespirável. Um cavaleiro galopava por entre sobreiros. Um rasto de poeira assinalava a sua passagem apressada, mas a curta distância uma nuvem mais densa elevava-se igualmente nos ares. A montada transpirava e dava os primeiros sinais de fadiga, mas o homem esporava-a. Vamos, vamos. Só mais um esforço. Eles não vos vão apanhar! A paisagem ondulante exigia a subida de mais uma colina e o cavalo ainda teve forças para manter o ritmo acelerado. Quando atingiram o cimo, pararam momentaneamente; os perseguidores já estavam no sopé da encosta, a pouco mais de um tiro de besta, mas abaixo estava o leito de um rio que assinalava a sua salvação. Está quase. Do outro lado são terras de Portugal, e esses cães já não nos podem prender». In João Paulo Oliveira Costa, Círculo de Leitores, Temas e Debates, 2012, 978-989-644-184-5.

Cortesia de CL/TDebates/JDACT