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domingo, 30 de junho de 2024

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Sacrifiquei os meus vinte anos a tratar do pai e dos irmãos. Agora, com trinta e cinco, não achas que é tempo de casar? ... e de ter filhos... Mais uma razão para lhe fazeres companhia»

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A Tempestade

«São grandes senhores!, disse frei Zedilho. Sim, eram! Mas, com o serem, continuavam escravos do grão-turco e se não cumpriam os seus ofícios e governos como deviam, não se ensaiava nada em tirá-los do cargo e com facilidade os mandava matar, se lhe parecia, sem haver quem lho ousasse contradizer. Se porém serviam fiel e louvavelmente, promovia-os de uma dignidade pequena a outra maior. Ordinariamente não dava estas funções senão por três anos, já se via com que intenção...

Tínhamos passada toda a Albânia com a diversidade dos seus portos, cidades e lugares, entre os quais a famosa Castória, edificada dentro do mar como a rica Veneza, e a inexpugnável Valona, onde ao presente o grão-turco tem a sua esquadra de galés e naus de que se serve nas batalhas navais. Pérides, com o seu olhar habituado a perscrutar o horizonte onde começava a sombrear a mancha de uma ilha, disse: Tenho de vos deixar. Estamos a chegar a Corfu. Bateu-me mais forte o coração e senti subitamente um grande medo do que iria encontrar naquela ilha.

Não tardou muito que a víssemos com nitidez, suas muralhas edificadas sobre a rocha viva, e pouco tempo depois dávamos entrada pelo estreitíssimo canal que vai entre a ilha e a terra dos Turcos, tão estreito que as embarcações que entram não podem fazer manobra para se voltarem e necessitam de um vento para entrar e outro para sair. Por isso muitas vezes sucede estarem ali detidas sem poderem fazer viagem, salvo sendo ajudadas pelas galés que a senhoria veneziana ali tem continuamente para guarda e defensão da ilha.

A muita proximidade da terra dos Turcos faz que estes a cobicem e mais que uma vez tentaram tomá-la, mas sem resultado, pois Veneza tem sabido defendê-la, com a guarnição militar dos seus dois fortíssimos castelos roqueiros sobre o mar e as suas cerca de trinta galés.

Enigma Alfa. 1501 - 1545

O que murmuram os canaviais

Herdou as saboarias paterna, mas não a provedoria, que o pai vendera para pagar dívidas. Casava assim a irmã Inês com um homem bem dotado e rico. Uma pontinha de inveja? Ana era mais velha que Inês e lá se quedava naquele casarão de Santarém, condenada a cuidar do pai viúvo e dos irmãos, sem a companhia da irmã nem da aia Maria do Céu que Inês levava consigo. Súbito veio o luto: Inês morria do parto do filho Francisco; o cunhado casava segunda vez, com uma prima dele, Filipa, de quem teve o filho Fruitos; falecida a segunda mulher, volta a contrair matrimónio, agora Isabel Vieira que se finou de peste sem lhe dar geração: e pela quarta vez com Isabel Gomes Limi que gerou cinco filhos: primeiro Rui como o pai, falecido ainda no berço, o segundo Manuel e depois Damião, Baltasar e Antónia. A aia ia ficando na casa a cuidar das crianças.

Em mil e quinhentos e onze, Isabel viu-se viúva. Foi então que ao menino Damião, nascera em mil e quinhentos e dois como o príncipe João, recordava Ana, após o saimento do pai levou-o para a corte, ainda na idade do eixo e do pião, o meio-irmão Fruitos, a sugestão de el-rei de quem era moço da guarda-roupa. Aí vão os dois rapazes a entrar nos Paços da Ribeira. Largo e comprido corredor de portadas de vidro viradas ao terreiro e, ao fundo, às naus varadas no Tejo. Grossos tocheiros em castiçais dourados. A espaços certos, pesadas portas de carvalho polido e nos intervalos, em frente das portadas, grandes espelhos a beberem a luz e a espalharem claridade.

Soam-lhes os passos nas lajes de mármore, os de Fruitos mais largos, os do irmão miudinhos. Na última porta dois archeiros fardados de librés com galões de ouro fazem sentinela. Na antecâmara vem recebê-los o guarda-mor: por aqui. Vais ver o senhor do mundo, segreda Fruitos ao ouvido do irmão.

O rei Emanuel estava sentado em cadeirão de espaldar, junto a uma mesa com papéis, a ditar suas cartas ao secretário. Ao vê-los, parou de ditar e ergueu o olhar para o menino. Damião arregalou os olhos de água. O rei sorria-lhe: aproxima-te. Beija a mão a Sua Alteza, disse-lhe Fruitos em voz baixa. Damião, num dobrar de joelhos, os olhos cheios de lágrimas, beijou a mão do rei. Estás espantado, moço? Nunca viste um rei? Que se passa com teu irmão, Fruitos? Senhor, nosso pai foi a enterrar. E ver-te agora…, a tua parecença com ele... Até eu, habituado a ti, estou torvado. Vá meu filho, disse o rei afagando a cabeça do menino, enxuga-me essas lágrimas. Serei para ti um pai, verás. Ana Macedo recordava estas coisa com o susto na alma e, quando Maria do Céu se preparava para ingressar num convento… Volta para Santarém, propõe-lhe. A nossa casa continua a ser a tua. Maria do Céu ripostava: mas, menina… Céu, estou sozinha, meu paizinho Deus o chamou, meus irmãos na Índia... Cá me soou que a menina vai casar…

Sacrifiquei os meus vinte anos a tratar do pai e dos irmãos. Agora, com trinta e cinco, não achas que é tempo de casar? ... e de ter filhos... Mais uma razão para lhe fazeres companhia. Recordaremos os tempos felizes e tu ajudas-me a tratar das crianças que nascerem… Quem é ele? Um cavaleiro-fidalgo chamado Simão Vaz. Vem. Contar-te-ei tudo quando estiveres comigo. Um dia, já casada, foram viver para Lisboa e por essa altura vira Ana o rei pela primeira vez e logo notara a extrema semelhança dele com o defunto marido da sua defunta irmã, que ambos Deus fosse servido de ter em sua glória, amém. Homem de boa estatura de corpo el-rei Emanuel, mais delgado que grosso, a cabeça sobre o redondo, cabelos castanhos, a testa desanuviada deles, olhos alegres, de um verde quase branco, alvo, semblante bem-assombrado, risonho nas covas da face e na comissura dos lábios, os braços carnudos, tão compridos que as mãos lhe passavam abaixo dos joelhos, as pernas proporcionadas ao corpo...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

sábado, 29 de junho de 2024

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Que as mandava criar com muito cuidado e diligência, doutrinar na bruta e maldita seita do sancarrão Mafamede e instruir em todas as boas artes militares: na cavalaria, no pelejar com toda a sorte de armas. Com que fim?»

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O Rei de Marfim

«(…) Falas de outra luta? Tu, minha irmã, é que referiste esse rei de Mmarfim como sendo o bom rei Duarte nosso avô. À roda dele giravam nobres senhores e esboçavam-se as lutas que ao depois se seguiram. Marfim, ébano... eu sei. encetaremos outra jogada, outras jogadas. reveremos tudo. com a morte recente da nossa avó Isabel de Urgel fecha-se um círculo de tamanho ódio! Psiu! falasse baixo! Tia Filipa podia ouvir pobre senhora de luto pela mãe...

Tudo aí começou  voltou-se Filipa em lágrimas. Não chores, minha tia! Então? Levantava-se Joana a abraçá-la, a sentá-la ao pé de si, trinta e um anos secos e martirizados. Tudo aí começou ..., abriu-se em soluços,  e agora, de uma casa tão grande e tão feliz, só eu e a triste da minha irmã Catarina encerrada na casa.

(…)

A Tempestade

No dia seguinte, a fúria do vento minguava e nós fomos costeando a Dalmácia, Argentina, Zara, Lissa, Meleda, Cúrsula, terras sujeitas umas a Veneza e outras à senhoria de Aragusa. Vinham-me à lembrança fragmentos de antigas e recentes leituras: a Dalmácia era a pátria de São Jerónimo e também do papa mártir São Caio, da parentela do imperador Diocleciano; Aragusa ou Ragusa, o antigo Epidauro, era ao presente dos Turcos e chamava-se Dobrónica, cidade grandíssima, rica, muito nomeada naquelas partes, terra de grandes tratos e mercadores, onde se fazem muitas naus, as maiores e mais grossas de todo o Levante. É daqui o nosso padre guardião, frei Bonifácio. Seguimos sempre ao longo da costa, o que amenizava a viagem, pois tinham nossos olhos com que se entreterem. Que montes seriam aqueles?, apontava frei Zedilho. Eu consultava o meu enquirídio e não demorava muito a identificá-los: eram os montes Acroceráunios, muito afamados na Antiguidade.

Ah! Deles fazia memória São Jerónimo no segundo prólogo da Bíblia, comentava o meu teólogo. Vinha depois a costa do Epiro, a que está ligada a Macedónia, pátria de Alexandre Magno, do qual tantas grandezas contam tantos escritores gregos e latinos.

As línguas de todas estas terras são muito diversas umas das outras, mas os Aragúsios e os Dalmacianos entendem-se bem entre si pela contínua comunicação. Os Albaneses e os Epirotas usam comumente o grego, mas, como presentemente estão submetidos aos Turcos, toda a gente principal e nobre fala a língua turca. Estas informações colhi-as eu de um marinheiro grego chamado Pérides, a quem frequentemente fazíamos perguntas quando queríamos saber alguma coisa.

Era muito sensível ao facto de a sua pátria grega estar sob o domínio turco. Isolava-se amiúde junto à amurada a olhar a linha da costa passar, os montes e vales, as lágrimas a desfiarem-lhe pelas faces e cantando baixinho, só para si, saudosas melopeias que aprendera em menino. Ansiava pelo dia em que a Grécia sua bem-amada recobrasse a independência. Mal adivinhava eu, naquele tempo, que também me estava destinado ter, a respeito do meu país, essa dolorosíssima experiência!... Contava-nos ele factos nunca ouvidos.

De todas as partes e províncias e em especial do Epiro, da Macedónia e da Albânia, todas as pias de baptizar eram obrigadas cada ano a dar certas crianças de tributo ao grão-turco... Dar crianças ao turco?, admirava-se, escandalizado, frei Zedilho. Para quê?, secundava eu. Que as mandava criar com muito cuidado e diligência, doutrinar na bruta e maldita seita do sancarrão Mafamede e instruir em todas as boas artes militares: na cavalaria, no pelejar com toda a sorte de armas. Com que fim?

Criavam assim um corpo militar de eleição, no qual residia toda a força e potência humana do grão-turco. Era com eles que fazia a guerra a todo o mundo..., e conquistava tantos reinos e províncias como tinha tomado aos cristãos, por nossos pecados, rematava eu tomando calor no que dizia, e pela ambição e cobiça de alguns príncipes católicos, se este nome lhes cabia, que procurando com injustas guerras o alheio perdiam o próprio...

Aqueles eram os guerreiros a que se chamava janízaros. Mas não era só nas guerras que o grão-turco deles se servia. Usava-os também no governo da sua corte e de todos os seus reinos e províncias. Segundo o esforço, a prudência, a valentia e virtude que cada um demonstrava ia-lhes dando os ofícios e honras, dignidades e prémios que lhe parecia merecerem: a uns fazia baxás, que eram uma espécie de vizo-reis de reinos e províncias, a outros sanjacos, que eram governadores das cidades e seus termos, a outros berebés, chauses, cádis, que eram como justiças-mores das terras onde residiam...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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sexta-feira, 28 de junho de 2024

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras…»

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O Rei de Marfim

«(…) Por areias e papirais marginam o rio sagrado e junto de frescas nascentes avistam enfim, a brilhar ao sol, o palácio das portas de cedro e janelas de cristal, e ante o trono encastoado de safiras ajoelham e beijam a mão do Preste João das Índias... ai menina! Dizem que no regresso lutou com os gigantes de um só olho e com a dextra alçando a cruz da espada fez frente aos enleios da feiticeira circe... o infante, minha dona, não é criatura deste mundo ... Tu ouvias, calado, a cismar, pensavas já, talvez, que um dia haverias de enviar teus embaixadores a esse rei cristão das terras distantes... mas a tua tia Filipa ali estava a falar vestida de negro, cabelo negro, o poço dos olhos negrume de água salobra fetos e salamandras... saíra à mãe, ao sangue de Urgel... sua irmã Isabel, a tua mãe, dizia ela que era branca, esguia, loira, tu não chegaste a conhecê-la...

Era verdade, senhor meu pai? Ele sorria entre sisudo que sempre se mostrava. Não, não era verdade, invenções de simples e crédulos, de servos e gente do povo, de algum jogral cego a cantar fadários nos arcos da rua Nova, com seu espantado respeito e maravilhamento, como se estivessem a imaginar seres fabulosos, cosiam lá entre si ao que ouviam e iam passando de boca a orelha acrescentamentos e remendos de fantasia. Não, saíra do reino por fins de Junho de vinte e cinco, depois de ter ido à corte tomar a bênção do rei seu pai e despedir-se do irmão Duarte, que ajudava já nas canseiras da governação, entrara em Castela por alfaiates e ao fim de três jornadas atingia Ciudad Rodrigo, subira até Valladolid, corte de poetas, a ver em seu paço o rei João primo co-irmão, longas caminhadas de paladinos...

Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras não dizidoiras, a brejeirice dos trovadores, ouvidas aos cavaleiros sem a presença feminina... fungavam risotas ao pronunciá-las, eu até gostava... porque é que a aia as queria esconder dos meus ouvidos? Não as declaravam diante das damas nos serões reais?..., com seus quarenta cavaleiros e homens de pé, a carriagem bem aparelhada, seguia o infante pelas sendas do vento e da água, por florestas cerradas, vales descobertos, desfiladeiros cortados no cerne de montanhas de lobo, urso e javali, descansando no desconforto de albergues ermos, em catraias de portelas onde sob o cascalho esfarelado e nas frinchas das penhas o tojo rasteiro, a urze, a carqueja, o espinheiro, enregelados da nortada ou queimados do Suão, sugam a última lentura da terra. Não, não se tratava de peregrinação de cavaleiros da Távola Redonda em demanda do Santo Graal nem desafio de magriços e seus companheiros para desagravo de damas... pelo caminho iam conversando: Quando chegares a Inglaterra, infante, receberás a garroteia, estou em crer... Cala-te, Álvaro Vaz, também terás a tua, como teu pai». In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «… de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?»

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O Rei de Marfim

«(…) Para onde mais podia ela ir, senão ali ficar na cela em que recolheu o último bafo da mãe?..., tudo aí começou. Tânger foi o descalabro de todos nós..., do cativeiro do infante, da morte prematura do rei na menoridade do filho, do rebentar dessa semente funesta da malquerença contra o regente meu pai..., porque não se cansava a tia Filipa de falar nisso?, ainda lhe doía a morte do pai, agora avivada pela da mãe?, raiva, ódio, desejo de vingança?..., que outra coisa havias tu e tua irmã de fazer senão afagar-lhe o ombro, abraçá-la, tomar-lhe as mãos, a consolá-la à tia Filipa, irmã de vossa mãe?..., nunca te haveria de esquecer o olhar dela molhado a erguer-se para ti, para Joana: devereis saber, meus sobrinhos..., e as palavras se lhe mergulhavam atrás a revolver no poço do tempo... bom monteiro e caçador, não há que ver, como todos os varões dessa família ..., eu sei, eu sei, minha senhora tia, intervinhas tu. Meu bisavô João até escreveu aquele livro ..., sim, e nosso avô Duarte, lembrava Joana, compôs também um outro ..., assim é. E este nosso avô Pedro ...

É isso, sim, meus sobrinhos, mas particularmente do que vosso avô Pedro mais gostava era de ocupar suas horas..., com que minúcia repartia cada tarefa, cada obrigação pelas horas do dia!..., deixa-me ver se adivinho, deixa ..., diz, meu sobrinho. Do que ele mais gostava era de ocupar suas horas metido na livraria ..., a estudar ..., completava tua irmã. E a verter do latim o livro dos ofícios de Marco Túlio Cicerão..., costumava dizer que cada livro era uma janela do universo, mas acrescentava pensativo: Mais se aprende dos costumes a índole dos homens do que pela leitura de grossos volumes, homem sábio, meu pai! Arrumado nas ideias e na acção, o cuidado que punha em mandar abrir valas para enxugar os pântanos do Mondego..., bom administrador de sua casa como dos negócios da república, conhecedor como poucos da arte da guerra, perito do regimento da corte..., que saudades as minhas! Quando ele aparecia à porta da câmara cansado do estudo, meus meninos, desembaraçava-me eu do colo da ama e corria a estender-lhe os braços para o alto, ele avançava no seu andar manso, dobrava-se, içava-me a beijar-me..., a mim, enquanto sentia aquela barba ruiva arranhar-me a cara, semelhava-me estar a ver do cimo da torre de um castelo a sala e as pessoas lá em baixo muito pequenas..., depois sentava-se..., quantas vezes o fazia, com os filhos em roda e a minha mãe ao lado, a recordar as suas viagens por essa Europa fora..., de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?, lá vai cavalgando em seu corcel de prata e de arreios de ouro, seguem-no atrás os doze companheiros, Cristo mai-los discípulos, como fantasmas caminham sobre as montadas tarrenego mafarrico, não parecem desta vida, bestas do apocalis a correr campos de turcos, ladeiam já as margens do termodonte no país das amazonas, atravessam desertos em cima de dromedários e chegam à Noruega onde os dias não luzem mais do que quatro horas, passam Babilónia, a província dos centauros, a terra dos alarves em que os filhos são sepultura dos pais, nas serranias da arménia vêem a arca de noé, por damasco descem à Terra Santa, ao Egipto, onde assistem ao suplício de um mouro que por ter dado uma bofetada num peregrino é empalado numa vara afiada que lhe saía pela boca..., visitam a região dos gigantes, dos homens com cabeça de cão, dos pigmeus que têm guerra com as aves... em Meca admiram, suspenso no ar por seis pedras imãs, o moimento de mafoma... e entram no paraíso terreal, que é banhado por quatro rios: do Tigre, que corre por território dos assírios, saem ramos de ciprestes e de oliveiras; das ondas do Eufrates erguem-se palmeirais agitados pelo vento; do Géon, que circunda o chão da Etiópia, surgem homens cor de bronze; do Físon, que rodeia a região de Hevilath, onde nasce o ouro e se encontra o Bdélio e a Cornalina, esvoaçam papagaios coloridos em seus ninhos pelas águas... » In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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domingo, 23 de junho de 2024

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Como é que sabes isso?, contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada…»

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O Rei de Marfim

«(…) Que me estás tu a cantar, mofino?, agastado que te mostravas! Vendo-te tão apaixonado, juntei duas folhas de papel, desenhei um tabuleiro e aproximei-me da mesa, o rei ralhava o moço chorava: Senhor, trago aqui tabuleiro e com um pouco de cera apeguei-o ao tampo da mesa. Logo te serenou a ira: Ora estais a ver? Exclamaste sorrindo a todos. Para que é trazer tabuleiro nem coisa nenhuma? Basta trazer Resende…, contar as tuas bondades, reconhecer como eras agradecido de qualquer coisa pequena que fosse..., e tentar compreender como é que um homem tão generoso podia dar criamento dentro de si àquela fera, bicho era a tua expressão, que te impelia a praticares actos tão temerosos e cruentos como os que levaste a cabo em tua vida. Como os que levaste a cabo em tua vida. Res dura et regni novítas me talia cogunt molirí, ouvi-te certa ocasião dizer. Res dura, era matéria grave, sim, essa que te coagiu a derramares tanto sangue pelo caminho. Como foi tudo isso possível? Aí vais tu, hirto, deitado na tumba, frio como a alma do gelo, à luz das tochas. Esperam-te diante três alcofas de cal virgem para te ajudarem a seres comido mais cedo. Tinhas tu sete meses morre-te a mãe lacerada de desgostos..., que vozes grita a ventania nos galhos das árvores? Parecem embuçados a arranhar ameaças nos refegos da noite..., paira sobre esta família o espectro da morte violenta e da bastardia..., joga o teu xadrez, rei, um trebelho, outro e outro e outro, cabeças coroadas, bispos, cavaleiros, peões humildes, as paredes cruas de castelos e de paços..., pretas ou brancas, meu irmão?, perguntava-te Joana. sentados à sombra de um carvalho, nos paços de Santo Elói. Sobre a mesa de pedra o tabuleiro. Vestida de dó, de costas à borda do tanque, alheada, a tia Filipa dava migalhas às pombas.

Tanto faz, escolhe tu, irmã. Prefiro  as brancas. É cor de bodas. dezasseis anos...  pretendes casar? É cor de outra coisa, ordena as tuas figuras, não queres começar o torneio? Não te praz a conversa, bem te entendo. o rei nosso pai deve ter sobre isso suas tenções. Andar, andar. Gosto do teu sorriso, apesar da tristeza dos olhos e de..., ora!  Estou pronto! Torneio e justas é comigo. Avança. Este é o rei Duarte..., nosso avô paterno? Então já sei que vou ganhar o jogo. Como assim? Após a morte do pai, nosso bisavô João..., primeiro deste nome. Tu serás um dia o segundo. Não quis o rei Duarte dilatar para depois do meio-dia a cerimónia do seu alevantamento nem sofreu aguardar melhor conjunção dos astros. Mestre Guedelha, seu físico e astrólogo, bem o avisava: Júpiter encontrava-se retrogradado, o Sol em caimento e havia no céu sinais de mau agouro...

Como é que sabes isso?,  contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada, e estarem os corpos inferiores sujeitos aos sobrecelestes, porém sobre todos pairar a mão e a ordenança de Deus. Justa sentença é essa na verdade. O judeu profetizou então a el-rei um reinado curto e atribulado, o que veio a acontecer, como adiante se viu. Por isso te digo, irmã, que este jogo será breve..., e eu o ganharei. Como ganharás?, queres ver? Dizias manobrando com cuidado as pedras. Com o desastre de Tânger e o cativeiro do irmão Fernando... Joana tentava defender-se contrapondo os cavalos, as torres, os peões, que iam caindo uns atrás dos outros. Move os cavaleiros, os bispos, frecheiros, archeiros, besteiros o que quiseres, eu ganharei. olha! Aí está: o rei morreu..., e deslocaste o trebelho fatal.

 Oh! Pensam alguns que da amargura de lhe aparecer em insónias o corpo do irmão a apodrecer de maus tratos nas masmorras de Fez. Corriam boatos de que se lhe havia empeçonhentado uma ferida de um ombro ou havia aspirado veneno ao abrir de uma carta... Falas de outra luta? Tu, minha irmã, é que referiste esse rei de marfim como sendo o bom rei Duarte nosso avô. À roda dele giravam nobres senhores e esboçavam-se as lutas que ao depois se seguiram. Marfim, ébano..., eu sei. Encetaremos outra jogada, outras jogadas. Reveremos tudo, com a morte recente da nossa avó Isabel de Urgel fecha-se um círculo de tamanho ódio! Psiu! Falasse baixo! Tia Filipa podia ouvir pobre senhora de luto pela mãe... Tudo aí começou » voltou-se Filipa em lágrimas. “ não chores, minha tia! então? Levantava-se Joana a abraçá-la, a sentá-la ao pé de si, trinta e um anos secos e martirizados. Tudo aí começou... Abriu-se em soluços, e agora, de uma casa tão grande e tão feliz, só eu e a triste da minha irmã Catarina encerrada na clausura de Santa Clara...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

 Cortesia de Difel/JDACT

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A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Três léguas bem puxadas de Alvor a Silves, todo o teu destino infeliz no meu pensamento. Morreres abandonado, um tal rei! Ires aí às costas de mula, metido em quatro tábuas disfarçadas à pressa de estofos reais…»

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O Rei de Marfim

«(…) Terminado o casario, pelo adiantado da hora alguma gente vai-se deixando ficar para trás arrimada às paredes, os braços cruzados cingindo o próprio corpo transido da friagem que sopra das dunas e se escoa a zinir pelas ruelas estreitas. um pequeno grupo de mulheres chorosas ainda acena um pobre adeus, mas, com o decorrer da caminhada por trilhos rudes que sobem de leve a ladear a ribeira do Arade, aos gritos e carpidos sucede o silêncio de almas cansadas. Ouve-se apenas o som continuado do patear das cavalgaduras e do andar dos peões neste fúnebre seguir à luz das tochas. É como se eu aqui vá sozinho contigo pela última vez. Gosto das sendas solitárias abeiradas de pinheiros mansos e palmeiras africanas, das breves encostas de amendoeiras e alfarrobeiras, das figueiras que vergam até ao solo os ramos carregados de frutos roxos que pingam mel. Passam canaviais inclinados pelo suão. Amarelejam agora aqui ao lado, no lampejo dos brandões, como olhos de fogo a espiarem-nos no negrume, os pomos de um laranjal. Três léguas bem puxadas de Alvor a Silves, todo o teu destino infeliz no meu pensamento. Morreres abandonado, um tal rei! Ires aí às costas de mula, metido em quatro tábuas disfarçadas à pressa de estofos reais, aos solavancos por carreiros pedragulhentos no segredo da noite!... Ninguém se atreveu a clamar, embora a todos espantasse, que é uma vergonha o duque Manuel não estar presente ao teu saimento. Ninguém ousou gritar que foi uma infâmia a rainha Leonor não ter assistido ao esposo moribundo. Cada um de nós, no foro íntimo, busca encontrar explicação para zanga mais teimosa que a morte..., e os nobres senhores onde estão eles? Os poucos que te acompanham, teus próximos servidores, já nem avanço dizer teus fiéis servidores, sabe-se lá quem é que..., quando o caminho alarga achegam as montadas e cochicham apreensões ou..., assim que as veredas apertam, seguem em fila, calados, focinhudos, escoltados pelas caras vermelhas e suadas dos servos que se afadigam de facho em punho por igualar o andamento dos animais. Os outros, lá longe em seus castelos e palácios, aprestam o ouvido se nos ruídos do vento distinguem galopear de cavalo que, por paradas nas estradas do reino, tragam recado de esculcas de que tu já morreste. De manhã, sinos a dobrar a finado..., sinos algures a repicar regozijos..., em cada coração o amor ou o ódio..., no teu, Deus me perdoe e perdoa-me tu também, ambas as coisas. De onde te veio esse raiarem-se-te os olhos de sangue? Essa comissura descaída e raivosa dos lábios? Como a de tua irmã Joana. Que parecença! Que gana e força de alma num e noutro!... E no entanto que sorriso bondoso e aberto tantas vezes te surpreendi..., até para mim!... Caminhamos agora por um trecho de velha calçada romana com suas grandes lajes sulcadas pelo rodado de carroças de outros séculos. É mais vivo o patear dos cascos ferrados da cavalgada. Para lá do clarão dos archotes apenas se enxergam trevas, mas eu, que conheço esta paisagem, adivinho para além da planície a colina em que se ergue o castelo de Silves, de pedra rosada, o corpo esbranquiçado da sé catedral, as casas caiadas de fresco e, lá bem ao fundo, os contrafortes da serrania. Nunca me tinha acontecido olhar perfurando a escuridão com os olhos da memória. Vem a calhar, que todo o espírito se me vaza atrás a buscar as coisas passadas. Ainda há poucos dias descias tu, com toda a tua comitiva, a serra do Algarve, a pedir saúde às águas das caldas. sol a pino, vibravam alfarrobeiras e aloendros a zunideira das cigarras. Paraste para jantar junto de um ribeiro, à sombra de umas sovereiras.

Chegai-me o xadrez para eu espantar o sono, pediste depois de comer, estes médicos! prescrevem-me que beba algum vinho... É o mais aconselhável no caso presente, meu senhor, dizia o físico-mor. Dá-me sonolência e vindes-me com essa de que me faz mal dormir a sesta… Chegou o moço da guarda-roupa muito aflito: Senhor, a bolsa com os trebelhos... e então? Está aqui..., mas, põe aí. Senhor, o tabuleiro,.., o tabuleiro ... Já lá vai adiante com a cama..., por esquecimento...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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quarta-feira, 28 de dezembro de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras…»

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O Rei de Marfim

«(…) Por areias e papirais marginam o rio sagrado e junto de frescas nascentes avistam enfim, a brilhar ao sol, o palácio das portas de cedro e janelas de cristal, e ante o trono encastoado de safiras ajoelham e beijam a mão do Preste João das Índias... ai menina! Dizem que no regresso lutou com os gigantes de um só olho e com a dextra alçando a cruz da espada fez frente aos enleios da feiticeira circe... o infante, minha dona, não é criatura deste mundo ... Tu ouvias, calado, a cismar, pensavas já, talvez, que um dia haverias de enviar teus embaixadores a esse rei cristão das terras distantes... mas a tua tia Filipa ali estava a falar vestida de negro, cabelo negro, o poço dos olhos negrume de água salobra fetos e salamandras... saíra à mãe, ao sangue de Urgel... sua irmã Isabel, a tua mãe, dizia ela que era branca, esguia, loira, tu não chegaste a conhecê-la...

Era verdade, senhor meu pai? Ele sorria entre sisudo que sempre se mostrava. Não, não era verdade, invenções de simples e crédulos, de servos e gente do povo, de algum jogral cego a cantar fadários nos arcos da rua Nova, com seu espantado respeito e maravilhamento, como se estivessem a imaginar seres fabulosos, cosiam lá entre si ao que ouviam e iam passando de boca a orelha acrescentamentos e remendos de fantasia. Não, saíra do reino por fins de Junho de vinte e cinco, depois de ter ido à corte tomar a bênção do rei seu pai e despedir-se do irmão Duarte, que ajudava já nas canseiras da governação, entrara em Castela por alfaiates e ao fim de três jornadas atingia Ciudad Rodrigo, subira até Valladolid, corte de poetas, a ver em seu paço o rei João primo co-irmão, longas caminhadas de paladinos...

Meu pai falava mas o conto por vezes era completado, em hora de recreio, na roda de meus irmãos Pedro e Jaime, com cores mais vivas e a rudeza de palavras não dizidoiras, a brejeirice dos trovadores, ouvidas aos cavaleiros sem a presença feminina... fungavam risotas ao pronunciá-las, eu até gostava... porque é que a aia as queria esconder dos meus ouvidos? Não as declaravam diante das damas nos serões reais?..., com seus quarenta cavaleiros e homens de pé, a carriagem bem aparelhada, seguia o infante pelas sendas do vento e da água, por florestas cerradas, vales descobertos, desfiladeiros cortados no cerne de montanhas de lobo, urso e javali, descansando no desconforto de albergues ermos, em catraias de portelas onde sob o cascalho esfarelado e nas frinchas das penhas o tojo rasteiro, a urze, a carqueja, o espinheiro, enregelados da nortada ou queimados do Suão, sugam a última lentura da terra. Não, não se tratava de peregrinação de cavaleiros da Távola Redonda em demanda do Santo Graal nem desafio de magriços e seus companheiros para desagravo de damas... pelo caminho iam conversando: Quando chegares a Inglaterra, infante, receberás a garroteia, estou em crer... Cala-te, Álvaro Vaz, também terás a tua, como teu pai». In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

D. João II, JDACT, Literatura, Saber, Fernando Campos,

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «… de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?»

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O Rei de Marfim

«(…) Para onde mais podia ela ir, senão ali ficar na cela em que recolheu o último bafo da mãe?..., tudo aí começou. Tânger foi o descalabro de todos nós..., do cativeiro do infante, da morte prematura do rei na menoridade do filho, do rebentar dessa semente funesta da malquerença contra o regente meu pai..., porque não se cansava a tia Filipa de falar nisso?, ainda lhe doía a morte do pai, agora avivada pela da mãe?, raiva, ódio, desejo de vingança?..., que outra coisa havias tu e tua irmã de fazer senão afagar-lhe o ombro, abraçá-la, tomar-lhe as mãos, a consolá-la à tia Filipa, irmã de vossa mãe?..., nunca te haveria de esquecer o olhar dela molhado a erguer-se para ti, para Joana: devereis saber, meus sobrinhos..., e as palavras se lhe mergulhavam atrás a revolver no poço do tempo... bom monteiro e caçador, não há que ver, como todos os varões dessa família ..., eu sei, eu sei, minha senhora tia, intervinhas tu. Meu bisavô João até escreveu aquele livro ..., sim, e nosso avô Duarte, lembrava Joana, compôs também um outro ..., assim é. E este nosso avô Pedro ...

É isso, sim, meus sobrinhos, mas particularmente do que vosso avô Pedro mais gostava era de ocupar suas horas..., com que minúcia repartia cada tarefa, cada obrigação pelas horas do dia!..., deixa-me ver se adivinho, deixa ..., diz, meu sobrinho. Do que ele mais gostava era de ocupar suas horas metido na livraria ..., a estudar ..., completava tua irmã. E a verter do latim o livro dos ofícios de Marco Túlio Cicerão..., costumava dizer que cada livro era uma janela do universo, mas acrescentava pensativo: Mais se aprende dos costumes a índole dos homens do que pela leitura de grossos volumes, homem sábio, meu pai! Arrumado nas ideias e na acção, o cuidado que punha em mandar abrir valas para enxugar os pântanos do Mondego..., bom administrador de sua casa como dos negócios da república, conhecedor como poucos da arte da guerra, perito do regimento da corte..., que saudades as minhas! Quando ele aparecia à porta da câmara cansado do estudo, meus meninos, desembaraçava-me eu do colo da ama e corria a estender-lhe os braços para o alto, ele avançava no seu andar manso, dobrava-se, içava-me a beijar-me..., a mim, enquanto sentia aquela barba ruiva arranhar-me a cara, semelhava-me estar a ver do cimo da torre de um castelo a sala e as pessoas lá em baixo muito pequenas..., depois sentava-se..., quantas vezes o fazia, com os filhos em roda e a minha mãe ao lado, a recordar as suas viagens por essa Europa fora..., de seu jeito, bem diferente, mas contava a minha aia e eu trazia os ouvidos cheios de histórias maravilhosas: que é dele o cavaleiro louro de olhos azuis?, lá vai cavalgando em seu corcel de prata e de arreios de ouro, seguem-no atrás os doze companheiros, Cristo mai-los discípulos, como fantasmas caminham sobre as montadas tarrenego mafarrico, não parecem desta vida, bestas do apocalis a correr campos de turcos, ladeiam já as margens do termodonte no país das amazonas, atravessam desertos em cima de dromedários e chegam à Noruega onde os dias não luzem mais do que quatro horas, passam Babilónia, a província dos centauros, a terra dos alarves em que os filhos são sepultura dos pais, nas serranias da arménia vêem a arca de noé, por damasco descem à Terra Santa, ao Egipto, onde assistem ao suplício de um mouro que por ter dado uma bofetada num peregrino é empalado numa vara afiada que lhe saía pela boca..., visitam a região dos gigantes, dos homens com cabeça de cão, dos pigmeus que têm guerra com as aves... em Meca admiram, suspenso no ar por seis pedras imãs, o moimento de mafoma... e entram no paraíso terreal, que é banhado por quatro rios: do Tigre, que corre por território dos assírios, saem ramos de ciprestes e de oliveiras; das ondas do Eufrates erguem-se palmeirais agitados pelo vento; do Géon, que circunda o chão da Etiópia, surgem homens cor de bronze; do Físon, que rodeia a região de Hevilath, onde nasce o ouro e se encontra o Bdélio e a Cornalina, esvoaçam papagaios coloridos em seus ninhos pelas águas... » In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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segunda-feira, 18 de julho de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Como é que sabes isso?, contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada…»

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O Rei de Marfim

«(…) Que me estás tu a cantar, mofino?, agastado que te mostravas! Vendo-te tão apaixonado, juntei duas folhas de papel, desenhei um tabuleiro e aproximei-me da mesa, o rei ralhava o moço chorava: Senhor, trago aqui tabuleiro e com um pouco de cera apeguei-o ao tampo da mesa. Logo te serenou a ira: Ora estais a ver? Exclamaste sorrindo a todos. Para que é trazer tabuleiro nem coisa nenhuma? Basta trazer Resende…, contar as tuas bondades, reconhecer como eras agradecido de qualquer coisa pequena que fosse..., e tentar compreender como é que um homem tão generoso podia dar criamento dentro de si àquela fera, bicho era a tua expressão, que te impelia a praticares actos tão temerosos e cruentos como os que levaste a cabo em tua vida. Como os que levaste a cabo em tua vida. Res dura et regni novítas me talia cogunt molirí, ouvi-te certa ocasião dizer. Res dura, era matéria grave, sim, essa que te coagiu a derramares tanto sangue pelo caminho. Como foi tudo isso possível? Aí vais tu, hirto, deitado na tumba, frio como a alma do gelo, à luz das tochas. Esperam-te diante três alcofas de cal virgem para te ajudarem a seres comido mais cedo. Tinhas tu sete meses morre-te a mãe lacerada de desgostos..., que vozes grita a ventania nos galhos das árvores? Parecem embuçados a arranhar ameaças nos refegos da noite..., paira sobre esta família o espectro da morte violenta e da bastardia..., joga o teu xadrez, rei, um trebelho, outro e outro e outro, cabeças coroadas, bispos, cavaleiros, peões humildes, as paredes cruas de castelos e de paços..., pretas ou brancas, meu irmão?, perguntava-te Joana. sentados à sombra de um carvalho, nos paços de Santo Elói. Sobre a mesa de pedra o tabuleiro. Vestida de dó, de costas à borda do tanque, alheada, a tia Filipa dava migalhas às pombas.

Tanto faz, escolhe tu, irmã. Prefiro  as brancas. É cor de bodas. dezasseis anos...  pretendes casar? É cor de outra coisa, ordena as tuas figuras, não queres começar o torneio? Não te praz a conversa, bem te entendo. o rei nosso pai deve ter sobre isso suas tenções. Andar, andar. Gosto do teu sorriso, apesar da tristeza dos olhos e de..., ora!  Estou pronto! Torneio e justas é comigo. Avança. Este é o rei Duarte..., nosso avô paterno? Então já sei que vou ganhar o jogo. Como assim? Após a morte do pai, nosso bisavô João..., primeiro deste nome. Tu serás um dia o segundo. Não quis o rei Duarte dilatar para depois do meio-dia a cerimónia do seu alevantamento nem sofreu aguardar melhor conjunção dos astros. Mestre Guedelha, seu físico e astrólogo, bem o avisava: Júpiter encontrava-se retrogradado, o Sol em caimento e havia no céu sinais de mau agouro...

Como é que sabes isso?,  contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada, e estarem os corpos inferiores sujeitos aos sobrecelestes, porém sobre todos pairar a mão e a ordenança de Deus. Justa sentença é essa na verdade. O judeu profetizou então a el-rei um reinado curto e atribulado, o que veio a acontecer, como adiante se viu. Por isso te digo, irmã, que este jogo será breve..., e eu o ganharei. Como ganharás?, queres ver? Dizias manobrando com cuidado as pedras. Com o desastre de Tânger e o cativeiro do irmão Fernando... Joana tentava defender-se contrapondo os cavalos, as torres, os peões, que iam caindo uns atrás dos outros. Move os cavaleiros, os bispos, frecheiros, archeiros, besteiros o que quiseres, eu ganharei. olha! Aí está: o rei morreu..., e deslocaste o trebelho fatal.

 Oh! Pensam alguns que da amargura de lhe aparecer em insónias o corpo do irmão a apodrecer de maus tratos nas masmorras de Fez. Corriam boatos de que se lhe havia empeçonhentado uma ferida de um ombro ou havia aspirado veneno ao abrir de uma carta... Falas de outra luta? Tu, minha irmã, é que referiste esse rei de marfim como sendo o bom rei Duarte nosso avô. À roda dele giravam nobres senhores e esboçavam-se as lutas que ao depois se seguiram. Marfim, ébano..., eu sei. Encetaremos outra jogada, outras jogadas. Reveremos tudo, com a morte recente da nossa avó Isabel de Urgel fecha-se um círculo de tamanho ódio! Psiu! Falasse baixo! Tia Filipa podia ouvir pobre senhora de luto pela mãe... Tudo aí começou » voltou-se Filipa em lágrimas. “ não chores, minha tia! então? Levantava-se Joana a abraçá-la, a sentá-la ao pé de si, trinta e um anos secos e martirizados. Tudo aí começou... Abriu-se em soluços, e agora, de uma casa tão grande e tão feliz, só eu e a triste da minha irmã Catarina encerrada na clausura de Santa Clara...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

Cortesia de Difel/JDACT

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quarta-feira, 29 de junho de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Tanto faz. Escolhe tu, irmã. Prefiro as brancas. É cor de bodas. dezasseis anos... pretendes casar? É cor de outra coisa, ordena as tuas figuras, não queres começar o torneio?»

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O Rei de Marfim

«(…) Que me estás tu a cantar, mofino?, agastado que te mostravas! Vendo-te tão apaixonado, juntei duas folhas de papel, desenhei um tabuleiro e aproximei-me da mesa, o rei ralhava o moço chorava: Senhor, trago aqui tabuleiro e com um pouco de cera apeguei-o ao tampo da mesa. Logo te serenou a ira: Ora estais a ver? Exclamaste sorrindo a todos. Para que é trazer tabuleiro nem coisa nenhuma? Basta trazer Resende…, contar as tuas bondades, reconhecer como eras agradecido de qualquer coisa pequena que fosse..., e tentar compreender como é que um homem tão generoso podia dar criamento dentro de si àquela fera, bicho era a tua expressão, que te impelia a praticares actos tão temerosos e cruentos como os que levaste a cabo em tua vida. Como os que levaste a cabo em tua vida. Res dura et regni novítas me talia cogunt molirí, ouvi-te certa ocasião dizer. Res dura, era matéria grave, sim, essa que te coagiu a derramares tanto sangue pelo caminho. Como foi tudo isso possível? Aí vais tu, hirto, deitado na tumba, frio como a alma do gelo, à luz das tochas. Esperam-te diante três alcofas de cal virgem para te ajudarem a seres comido mais cedo. Tinhas tu sete meses morre-te a mãe lacerada de desgostos..., que vozes grita a ventania nos galhos das árvores? Parecem embuçados a arranhar ameaças nos refegos da noite..., paira sobre esta família o espectro da morte violenta e da bastardia..., joga o teu xadrez, rei, um trebelho, outro e outro e outro, cabeças coroadas, bispos, cavaleiros, peões humildes, as paredes cruas de castelos e de paços..., pretas ou brancas, meu irmão?, perguntava-te Joana. sentados à sombra de um carvalho, nos paços de Santo Elói. Sobre a mesa de pedra o tabuleiro. Vestida de dó, de costas à borda do tanque, alheada, a tia Filipa dava migalhas às pombas.

Tanto faz. Escolhe tu, irmã. Prefiro as brancas. É cor de bodas. dezasseis anos...  pretendes casar? É cor de outra coisa, ordena as tuas figuras, não queres começar o torneio?  Não  te praz a conversa, bem te entendo. o rei nosso pai deve ter sobre isso suas tenções. Andar, andar. Gosto do teu sorriso, apesar da tristeza dos olhos e de ..., ora!  Estou pronto! Torneio  e justas é comigo. Avança. Este é o rei Duarte ..., nosso avô paterno? Então já sei que vou ganhar o jogo. Como assim? Após a morte do pai, nosso bisavô João..., primeiro deste nome. Tu serás um dia o segundo. Não quis o rei Duarte dilatar para depois do meio-dia a cerimónia do seu alevantamento nem sofreu aguardar melhor conjunção dos astros. Mestre Guedelha, seu físico e astrólogo, bem o avisava: Júpiter encontrava-se retrogradado, o Sol em caimento e havia no céu sinais de mau agouro...

Como é que sabes isso?,  contou-mo meu aio Diogo Soares..., bem conhecia, respondeu o rei, o grande amor que mestre Guedelha lhe tinha e não duvidava ser a astronomia ciência boa e entre outras permitida e aprovada, e estarem os corpos inferiores sujeitos aos sobrecelestes, porém sobre todos pairar a mão e a ordenança de Deus. Justa  sentença é essa na verdade. O  judeu profetizou então a el-rei um reinado curto e atribulado, o que veio a acontecer, como adiante se viu. por isso te digo, irmã, que este jogo será breve..., e eu o ganharei. Como  ganharás? Queres ver?, dizias manobrando com cuidado as pedras. Com o desastre de Tânger e o cativeiro do irmão Fernando...

Joana tentava defender-se contrapondo os cavalos, as torres, os peões, que iam caindo uns atrás dos outros. Move os cavaleiros, os bispos, frecheiros, archeiros, besteiros o que quiseres. Eu ganharei. Olha! Aí  está: o rei morreu..., e deslocaste o trebelho fatal. Oh! Pensam alguns que da amargura de lhe aparecer em insónias o corpo do irmão a apodrecer de maus tratos nas masmorras de Fez. Corriam boatos de que se lhe havia empeçonhentado uma ferida de um ombro ou havia aspirado veneno ao abrir de uma carta...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

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sexta-feira, 24 de junho de 2022

A Esmeralda Partida. Fernando Campos. «Três léguas bem puxadas de Alvor a Silves, todo o teu destino infeliz no meu pensamento. Morreres abandonado, um tal rei! Ires aí às costas de mula, metido em quatro tábuas disfarçadas à pressa de estofos reais…»

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O Rei de Marfim

«(…) Terminado o casario, pelo adiantado da hora alguma gente vai-se deixando ficar para trás arrimada às paredes, os braços cruzados cingindo o próprio corpo transido da friagem que sopra das dunas e se escoa a zinir pelas ruelas estreitas. um pequeno grupo de mulheres chorosas ainda acena um pobre adeus, mas, com o decorrer da caminhada por trilhos rudes que sobem de leve a ladear a ribeira do Arade, aos gritos e carpidos sucede o silêncio de almas cansadas. Ouve-se apenas o som continuado do patear das cavalgaduras e do andar dos peões neste fúnebre seguir à luz das tochas. É como se eu aqui vá sozinho contigo pela última vez. Gosto das sendas solitárias abeiradas de pinheiros mansos e palmeiras africanas, das breves encostas de amendoeiras e alfarrobeiras, das figueiras que vergam até ao solo os ramos carregados de frutos roxos que pingam mel. Passam canaviais inclinados pelo suão. Amarelejam agora aqui ao lado, no lampejo dos brandões, como olhos de fogo a espiarem-nos no negrume, os pomos de um laranjal. Três léguas bem puxadas de Alvor a Silves, todo o teu destino infeliz no meu pensamento. Morreres abandonado, um tal rei! Ires aí às costas de mula, metido em quatro tábuas disfarçadas à pressa de estofos reais, aos solavancos por carreiros pedragulhentos no segredo da noite!... Ninguém se atreveu a clamar, embora a todos espantasse, que é uma vergonha o duque Manuel não estar presente ao teu saimento. Ninguém ousou gritar que foi uma infâmia a rainha Leonor não ter assistido ao esposo moribundo. Cada um de nós, no foro íntimo, busca encontrar explicação para zanga mais teimosa que a morte..., e os nobres senhores onde estão eles? Os poucos que te acompanham, teus próximos servidores, já nem avanço dizer teus fiéis servidores, sabe-se lá quem é que..., quando o caminho alarga achegam as montadas e cochicham apreensões ou..., assim que as veredas apertam, seguem em fila, calados, focinhudos, escoltados pelas caras vermelhas e suadas dos servos que se afadigam de facho em punho por igualar o andamento dos animais. Os outros, lá longe em seus castelos e palácios, aprestam o ouvido se nos ruídos do vento distinguem galopear de cavalo que, por paradas nas estradas do reino, tragam recado de esculcas de que tu já morreste. De manhã, sinos a dobrar a finado..., sinos algures a repicar regozijos..., em cada coração o amor ou o ódio..., no teu, Deus me perdoe e perdoa-me tu também, ambas as coisas. De onde te veio esse raiarem-se-te os olhos de sangue? Essa comissura descaída e raivosa dos lábios? Como a de tua irmã Joana. Que parecença! Que gana e força de alma num e noutro!... E no entanto que sorriso bondoso e aberto tantas vezes te surpreendi..., até para mim!... Caminhamos agora por um trecho de velha calçada romana com suas grandes lajes sulcadas pelo rodado de carroças de outros séculos. É mais vivo o patear dos cascos ferrados da cavalgada. Para lá do clarão dos archotes apenas se enxergam trevas, mas eu, que conheço esta paisagem, adivinho para além da planície a colina em que se ergue o castelo de Silves, de pedra rosada, o corpo esbranquiçado da sé catedral, as casas caiadas de fresco e, lá bem ao fundo, os contrafortes da serrania. Nunca me tinha acontecido olhar perfurando a escuridão com os olhos da memória. Vem a calhar, que todo o espírito se me vaza atrás a buscar as coisas passadas. Ainda há poucos dias descias tu, com toda a tua comitiva, a serra do Algarve, a pedir saúde às águas das caldas. sol a pino, vibravam alfarrobeiras e aloendros a zunideira das cigarras. Paraste para jantar junto de um ribeiro, à sombra de umas sovereiras.

Chegai-me o xadrez para eu espantar o sono, pediste depois de comer, estes médicos! prescrevem-me que beba algum vinho... É o mais aconselhável no caso presente, meu senhor, dizia o físico-mor. Dá-me sonolência e vindes-me com essa de que me faz mal dormir a sesta… Chegou o moço da guarda-roupa muito aflito: Senhor, a bolsa com os trebelhos... e então? Está aqui..., mas, põe aí. Senhor, o tabuleiro,.., o tabuleiro ... Já lá vai adiante com a cama..., por esquecimento...» In Fernando Campos, A Esmeralda Partida, 1995, Difel, Lisboa, 2008, ISBN 978-972-290-330-1.

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quinta-feira, 4 de junho de 2020

Em Nome D’El Rei. Luís Barriga. «Segundo constava, o infante Pedro terá sido o precursor destas relações com os cosmógrafos europeus, aquando das suas viagens pela Europa. Num desses périplos pelas capitais europeias…»

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Início de uma vida épica
Lisboa. Maio de 1459
«(…) Os presentes aplaudiram com convicção as palavras seguras do infante, alcaide-mor de Silves, imaginando o enorme empreendimento que se lhes afigurava e as colossais dificuldades que teriam de enfrentar, mas espelhavam-se nos seus semblantes os sonhos de glória e riquezas numerosas que desta aventura comum adviriam. Desde 1453, o mundo estava em mudança. Os otomanos haviam conquistado Constantinopla e, em conjunto com os mamelucos, bloqueavam todo o comércio com o Oriente. Chegar à Índia, rodeando África, permitiria o estabelecimento de rotas comerciais alternativas e rentáveis. El-rei Afonso V congeminava ligar pelo mar Portugal à fonte das especiarias, com base em todo o avanço que o seu tio, o infante Henrique, havia conseguido. A bula Romanus Pontifex, do Papa Nicolau V de 8 de Janeiro de 1455, confirma a pertença a Portugal de todas as terras e mares descobertos a sul do Bojador, permitindo a cobrança de impostos sobre a navegação e o comércio.
Os embaixadores de Portugal, liderados pelo doutor João da Silveira, chanceler-mor de Afonso V dirigiram-se a Roma para a negociação com o Papa. Esta embaixada estava envolvida no acordo para uma cruzada, com vista a libertar Constantinopla. A viagem foi utilizada pela comitiva portuguesa para, em Veneza, contactar Fra Mauro, monge camaldulense, tendo em vista as descobertas. O encontro, previamente agendado, tinha como finalidade uma encomenda, em nome do rei e a pedido do infante Henrique: a realização de um mapa que abarcasse tudo o que se sabia sobre o mundo. A negociação chegou a bom porto, o preço foi acordado, o rei de Portugal pagaria trinta ducados por tão ambicionado mapa-mundi. Segundo constava, o infante Pedro terá sido o precursor destas relações com os cosmógrafos europeus, aquando das suas viagens pela Europa. Num desses périplos pelas capitais europeias, trouxera de Veneza um livro manuscrito, de Marco Polo, onde se relatavam as suas fantásticas viagens pela Ásia, acicatando a curiosidade da Corte lusa. Moldado pelos ventos de mudança que sopravam na Europa, o infante editou um livro com o título Virtuosa Benfeitoria, tratado de política social, desagradando à nobreza.
Fra Mauro, considerado pelo infante Henrique o maior cartógrafo de todos os tempos, era, por certo, aquele que reunia um estádio de maior avanço científico e técnico, para levar de vencida a tarefa que lhe incumbiam. Ele e o seu assistente, Andrea Bianco, navegador-cartógrafo, criaram minuciosamente um planisfério, com base nas informações recolhidas por todo o mundo conhecido. A execução do mapa terminou depois de um longo trabalho de precisão e clausura. A preciosa encomenda acabaria por sair do mosteiro de São Miguel de Murano aos 24 dias do mês de Abril do ano de 1459. Fra Mauro viu da janela do mosteiro a partida da barca, enquanto enchia os pulmões da fresca maresia. Entre silvos estridentes e braços robustos desfraldando a vela latina, fez-se ao mar à bolina, enfrentando o vento adverso. A bordo da embarcação, já devidamente instalado, estava o nobre encarregue de fazer chegar ao destinatário o valioso manufacto que transportava. Enviado a Lisboa, Stefano Travisan segurava com desvelo o magnífico trabalho, almejando já, a praia do Restelo, para assim cumprir o seu desígnio.
O infante Henrique, depois que tomou posse da valiosa encomenda e antes de rumar ao Algarve, usufruiu, por mais alguns dias, da proximidade da família. O conforto que lhe trazia a presença dos seus familiares era um alento para as demandas a sul, onde estariam à espera das novas orientações para futuras empresas, promissoras de  um porvir de glória. O príncipe João correu ao seu encontro, cuidando que o tio-avô Henrique lhe contasse uma das suas muitas histórias de bravos marinheiros e de velas audazes, ostentando a cruz de Cristo. O infante sentou-o no joelho direito e dispôs-se a contar uma história ao pequeno João». In Luís Barriga, Em Nome D’El Rey, Clube do Autor, Lisboa, ISBN 978-989-724-448-3.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

terça-feira, 31 de março de 2020

No 31. Os Meninos Judeus Desterrados. Orlando Piedade. «Ela tinha mais ou menos a minha idade e foi a primeira a dar pela minha presença na cozinha indo, por isso, chamar o seu pai, o senhor Abner. Pai, ele está a chorar. Onde estarão os seus pais?»


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De Portugal para S. Tomé e Príncipe por ordem d’el-rei João II em 1493
«(…) Completamente ensonado, pernas e vozes trémulas, olhei para o alto, numa tentativa de alcançar o rosto daquele que não mais parecia senão uma torre perante os seus mais de cinco pés, devidamente encostado à minha insignificante estatura, empunhando um punhal. Ainda assim, senti um vento fraterno que chegou a misturar-
-se com o paterno... Estava quebrado o silêncio.
Vieram-me à memória os traços do meu pai. Devo confessar que não sei se aquela voz que me gritava ao ouvido era a dos relatos da minha irmã ou dos ecos da minha memória, a verdade é que, para todo esse drama, havia uma voz, um olhar, palavras e lágrimas que antes daqueles momentos dramáticos eu desconhecia. Naquele momento, a figura central era o meu pai, dada a presença daquele indivíduo, mas sentia a presença de todos: minha irmã, minha mãe e a minha avó.
Todas as histórias que eles contavam começavam da mesma forma, baseavam-se em terrores e angústias. Não consegui captar as primeiras palavras proferidas por aquela figura; apercebi-me de ele ter rumorejado qualquer coisa, mas parecia a reprodução fiel das últimas palavras da minha irmã. Procurava, de forma tão desesperada, ser bafejado com algum vento vindo do meu passado, uma leve brisa que me levasse a ter uma vaga ideia daquilo que fui, naqueles momentos em que nada me ocorria, para melhor perceber os acontecimentos presentes. Se calhar por isso, nada mais ouvia senão aqueles que sempre me foram queridos e me ofereceram a necessária segurança até ao fatídico dia.
Depois de ter vagueado sem norte, os meus seis anos em nada ajudavam para que alguma coisa fizesse sentido, senão o tão almejado conforto. Eu desesperava pelo consolo de alguém mas, ao mesmo tempo, desconfiava da minha própria sombra. Não sabia e nem podia saber de onde podiam surgir, outra vez, aqueles mesmos homens que tinham desmoronado a minha família. Nunca lhes cheguei a alcançar os rostos. As suas motivações, para mim, ainda eram dúbias, apesar do esforço da minha irmã. Barba eriçada, espessa e dourada, cabelo farto, olhos escuros e grandes, um xaile azul e branco em cima dos ombros, voz inflamada, mesmo própria de quem nasceu com o dom da oração, mas circunstancialmente suplantada, uma boca grande, o elemento mais marcante daquela face sisuda, que nem mesmo aquelas imponentes barbas conseguiam ofuscar, badalavam em movimentos verticais e reprimiam aquela corda vocal que não podia ir além dos atributos natos para se fazer ouvir mas, ainda assim, suficientemente vigorosa.
A minha tenra idade, o meu olhar escuro, triste e pujado de dó, a minha imagem dilacerada mas, ainda assim, a deixar transparecer alguma estirpe, conferiram-me alguns créditos mas nem por isso ele cedeu um mínimo sequer. Por instinto, fitei-o firmemente, antes de sentir o peso do pânico que se abateu sobre mim, da cabeça aos pés. As primeiras vítimas foram os meus braços que tombaram e se colaram ao meu tronco como um servo que obedece ao seu senhor. Deixei cair o meu olhar, desamparadamente, indo este estacionar junto aos meus pés descalços.
Nunca cheguei a saber o que terá passado pela sua cabeça naquele momento. Aquela postura serene, o olhar frio e cru que me foi servido como entrada povoava aquele pedaço de chão, onde os meus olhos se tinham estacionado. Podia ter passado pela minha cabeça esboçar uma fuga, mas para quê? Duas, três ou talvez quatro valas abertas no meu rosto serviam de curso para a corrente do meu pranto acrimonioso que arrastava camadas de poeiras aí alojadas. Depois de um olhar panorâmico e mais umas quantas espreitadelas, de modo a assegurar-se de que eu estava sozinho, estendeu o seu braço direito, agarrou-me no queixo e levantou-me a cabeça. Não há perigo, disse, ao mesmo tempo que acariciava o meu queixo com o seu polegar direito. Não te aflijas. Onde estão os teus pais?, prosseguiu. Ainda ensaiei a resposta mas não consegui mais do que soluços e lágrimas, misturadas com alguns murmúrios descoordenados e completamente imperceptíveis. Acenou com a cabeça, num gesto de compreensão, e agarrou-me pelo braço esquerdo agudizando ainda mais a minha dor. Espantado ficou quando libertei um grito, cuja espontaneidade fez lembrar quando se pisa a cauda a um cão distraído. Soltou o meu braço e olhou para a sua mão ensanguentada. Como quem não acredita nos próprios olhos, voltou a olhar, mas desta feita para ambas as mãos, como quem procura diferença entre elas. E havia! Dirigiu-se outra vez para mim, como se estivesse a dirigir-se à metragens, agarrou--me pelo braço enfermo, uma mão pelo sovaco e outra pelo pulso, rodou ligeiramente para tentar perceber a extensão do ferimento. Fitou a sua filha Alisah, que entretanto chegara, ordenando-lhe que se retirasse.
Ela tinha mais ou menos a minha idade e foi a primeira a dar pela minha presença na cozinha indo, por isso, chamar o seu pai, o senhor Abner. Pai, ele está a chorar. Onde estarão os seus pais? Ciciou ela ao ouvido do seu progenitor antes de se retirar. Terá sido abandonado? Prosseguiu. Como que abençoando a minha presença e iluminando os meus primeiros passos naquela casa, ele estendeu na minha direcção a sua enorme mão direita que abafou completamente a minha, num entrelaçar perfeito, com um sufoco incapaz de ensaiar qualquer dança, dada a perfeição da fusão. Não sei de onde terá surgido tão grande confiança, mas foi sentida com à vontade e deixei-me levar sem temores». In Orlando Piedade, Os Meninos Judeus Desterrados, De Portugal para S. Tomé e Príncipe por ordem d’el-rei João II em 1493, Edições Colibri, 2014, ISBN 978-989-689-450-4.

Cortesia de Colibri/JDACT

quarta-feira, 11 de março de 2020

João II. Crónica Esquecida. Seomara Veiga Ferreira. «Deve haver por lá o resto da obra. Isto pertence a um monte de livros que vieram da França. Assim fiz. O tio Gil achava-se acompanhado por outro irmão…»

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A morte de Lancelot
«(…) Sentia o livro formar-se dentro de mim como um filho e passava os dias possuído por uma profunda e conturbada alegria, porque as dúvidas também me assaltavam. Estava no limbo, espécie de zona entre o sonho e a realidade, e movia-se dentro de mim como um feto no ventre de uma mulher. Era uma experiência nova. Obcecado pelo trabalho, falhei muitas vezes a mestre João Paz. Meu amigo alquimista copiou o que conseguiu. Que sonho é esse, rapaz? Estás absorto, pareces um fantasma, ou um velho meditabundo. Olhei-o. Se eu vos dissesse que tenho medo de não ter tempo, acreditáveis?, Ele sorriu. Acreditava. Sei o que isso é. Comigo, até eu aprender, foi a mesma coisa. Aquela necessidade de recuar dentro da nossa própria alma. É isso. Mas como foi possível aprender? Como? Terás tempo, o teu tempo, e aprenderás. Essa é a única coisa que te não posso ensinar. Agora vai ter com o teu tio e pede-lhe que alguém te ajude. Deve haver por lá o resto da obra. Isto pertence a um monte de livros que vieram da França. Assim fiz. O tio Gil achava-se acompanhado por outro irmão, talvez um pouco mais velho, de forte compleição, louro como eu, mas de olhos castanhos. Olha, filho, aqui tens o irmão Jerónimo. Veio de longe. Da Palestina. Vai ficar connosco por uns tempos. O irmão Jerónimo que parecia ocupar toda a cela, sorriu e apontou o grosso livro que eu embrulhara em pano e apertava sob o braço: precisas certamente de qualquer coisa, filho. Foi sempre a frase com que me recebeu, até há pouco tempo, quando me despedi dele. Com o apoio do tio Gil, mostrei o livro. Eu ajudo-te. Tens aqui um futuro sábio?, perguntou o meu tio. Ainda és muito novo, mas é de novo que se começa a aprender a arte e o caminho para a sabedoria. Vem ter comigo um dia destes, à biblioteca. Também estou a escrever. Uma encomenda. Para a Itália, para a casa de nossos irmãos no Norte de Itália. Continuei o trabalho durante todo esse ano até meados de Março de 1479. Resolvera festejar o meu aniversário na cela do tio Gil onde estariam também meu pai e minha mãe, além de mestre João Paz, homem culto e muito inteligente, de uma coruscante sagacidade. Eu iria ler-lhe os primeiros capítulos da obra iniciada. Fui combinar tudo para fazer surpresa a meu pai. Três dias depois, mestre João Paz chamou-me. Íamos partir para sul, ter com a mãe da Rainha. Um dos filhos não estava bem e o físico que por lá vivia não atinava com a febre. Fui contrariado, mas o trabalho exigia. Quando chegámos, deparou-se-nos uma azáfama inusitada. Uma das açafatas informou-nos de que a Infanta partia para Espanha. Que tomássemos conta do enfermo, o jovem Manuel.
Tanto a rainha Isabel de Castela como o príncipe João, pois o rei Afonso limitava-se a aceder, depois de perdidas as verdadeiras ilusões, desejavam concertar a paz. Dona. Beatriz, que era tia da rainha por parte de sua mãe, depois do infante João ter estado em secreto colóquio com a sogra na sua quinta de Belas, onde a viúva do infante Fernando passava longas temporadas, resolvera ajudar e, como se se tratasse de uma visita de cortesia (como instava, do outro lado, aliás, dona Isabel) encontrar-se com a esperta mulher de Fernando de Aragão. Seria em Alcântara, na zona fronteiriça. Para o efeito, dona Beatriz foi até ao seu paço de Beja preparar-se e organizar a cansativa viagem. Existia uma peça essencial neste jogo complicado de forças: a infeliz Beltraneja, a dona Joana que o próprio pai desacreditara, e que ingenuamente ainda assinava yo la Reyna, e se intitulava rainha de Castela, de Leão, de Portugal como herdeira de Henrique IV e esposa de Afonso de Portugal... La Chica, como se lhe referia Isabel de Castela, com o sorriso depreciativo dos que podem decidir, porque têm meios e força, o destino dos outros sem preconceitos nem hesitações. E Isabel estava decidida a crucificá-la. Em Beja, para onde seguimos no dorso de mulas, depois de várias paragens por hospedarias miseráveis onde dormíamos sobre enxergas coalhadas de percevejos, a ponto de colocar água à volta dos paus da cama que serviam de pés, pois as baratas e os percevejos percorriam o sobrado aos milhares, e sempre com um de nós de guarda por causa
das rapinas, fomos ver o jovem Manuel. O outro físico e mestre João lá se entenderam porque nisto de profissão não se deve arranjar problemas, mas colaborar...» In Seomara Luzia da Veiga Ferreira, Crónica Esquecida d’el rei João II, Editorial Presença, Lisboa 1995, 4ª edição, Lisboa 2002, ISBN 972-23-1942-6.
                                                                                 
Cortesia de EPresença/JDACT