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segunda-feira, 4 de outubro de 2010

O Primeiro Busto da República: A Musa escolhida foi Ilda Pulga. O Alentejo «presente» no Parlamento. A escultura não sofreu alterações, passado um século da Revolução de 05 de Outubro de 1910

Cortesia de forum1viriatoweb

Com a devida vénia ao Jornal Público e LUSA.
O orgulho está patente na forma como um dos descendentes de Ilda Pulga, a «musa» que serviu de modelo para o primeiro busto da República, descreve a sua familiar, que supõe ter sido «uma mulher atrevida» para a época. «Deverá ter sido uma mulher lindíssima, para o escultor a ir buscar para ser o seu modelo para o busto, o que me leva a pensar também que terá sido uma pessoa muito atrevida» para a época, afirma à agência Lusa Joaquim Pulga.

Cortesia de republica100anos19102010
Apesar de não ter conhecido Ilda Pulga, que faleceu em 1993, com 101 anos, o sobrinho bisneto da mulher que posou e inspirou o escultor que concebeu o busto da República encara esse facto como «um afago para o ego». «Uma pessoa que, aos 18 ou 19 anos, serve de modelo a um escultor para busto da República deve ter evoluído de uma forma diferente do comum dos mortais», presume, considerando que a sua familiar «terá sido uma mulher com uma vida cultural muito intensa».
O interesse de Joaquim Pulga pelo assunto «nasceu» em 1993, depois de ler num jornal a notícia da morte da Ilda Pulga. Na altura, desconfiou, porque, segundo diz, «Pulgas em Portugal só há uma família», que é a sua. «Ao ver no jornal Ilda Pulga, natural de Arraiolos, fui procurar, mas foi muito difícil, porque tinha de entrar nos arquivos da igreja», conta, lembrando que «só a partir da implantação da República é que os assentos começaram a ser feitos no registo civil».
O sobrinho bisneto da «mulher que representa a República» lembra ainda que sempre existiu uma «grande dúvida sobre quem foi o escultor do busto», mas defende que «o verdadeiro autor foi João da Silva, que usava como pseudónimo João da Nova». «Era João da Nova porque também escrevia para a revista Seara Nova», acrescenta. In Jornal Público, LUSA.

Em Portugal, a escultura não sofreu alterações e passado um século da Revolução de 05 de Outubro de 1910 a Comissão para as Comemorações do Centenário não prevê a modernização do símbolo. Fernanda Rollo, Comissária das Comemorações do Centenário da República, disse à Lusa que, ao contrário de França, dificilmente a sociedade portuguesa iria aceitar a mudança e que o importante é conhecer o busto actual. «Temos dinâmicas diferentes. Não está prevista pela Comissão qualquer iniciativa no sentido de mudar o busto da República. Estamos mais interessados em conhecer o busto actual e as várias manifestações artísticas que inspirou. Em relação a França, não temos de ter esse quadro de mimetização. Não sei se a sociedade portuguesa aderiria a este tipo de mudanças», disse a historiadora Fernanda Rollo. Também António Arnaut, antigo grão mestre do GOL, considera que alterar o busto da República seria deturpar os símbolos originais da República Portuguesa. «Os símbolos são representações perpétuas da ideia. Mudar o busto seria um absurdo. Uma profanação», disse.
Busto da República
Cortesia de parlamento

Tal como o busto com a mesma alegoria, de Tomás da Costa, esta cabeça da República, da autoria de Francisco Santos, foi executada para o concurso promovido pela Câmara Municipal de Lisboa em 1910. Vencedora sobre as propostas de Costa Mota (sobrinho) e de Júlio Vaz (respectivamente premiadas com o 2º e 3º prémios), veio, porém, a ser mais tarde preterida pela de Simões de Almeida (sobrinho), quando esta última foi profusamente difundida para fins propagandísticos oficiais em medalhas e moedas. In Parlamento.

Cortesia de forum-numismatica, galeria presidentes

 Cortesia de artesvivas
Da autoria de Simões de Almeida (sobrinho). A imagem da República retirou o barrete frígio, por vezes a bandeira, a figura feminina, o olhar decidido e a sensualidade, não explícita no erotismo dos seios descobertos daquela, mas recatada e implícita na blusa de cordões afrouxados que deixa entrever o peito, acrescentando-lhe o raminho de loureiro como símbolo triunfal, ou o molho de feno e a foice como símbolo da abundância.



A Liberdade guiando o Povo de Eugène Delacroix 1830
Inspiração da imagem da República.
Cortesia de wikipédia
Cortesia de alentejanand
Cortesia de alleurocoins
Cortesia do Parlamento/LUSA/Jornal Público/JDACT

As Mulheres da República: Carolina Beatriz Ângelo. Ser cidadã de corpo inteiro. «Enfeitem tudo com plantas verdes»

(1877 ou 1878-1911)
Guarda
Cortesia de estrolabio

Cirurgiã e activista dos direitos femininos, Carolina Beatriz Ângelo foi a primeira mulher a votar em Portugal. Estava-se em 1911, a República acabara de ser Implantada em Outubro de 1910, e Carolina «torceu» a seu favor um dos «buracos» da lei ou, se se quiser, da língua portuguesa.
Estudou medicina em Lisboa, concluindo o curso em 1902. Tornou-se a primeira médica portuguesa a operar no Hospital de São José, dedicando-se mais tarde à especialidade de ginecologia. A militância cívica iniciou-a em 1906, em conjunto com outras médicas, vindo a aderir a movimentos femininos a favor da paz e da Implantação da República e à Maçonaria e tornando-se defensora dos direitos das mulheres, nomeadamente o de votar. Por toda a Europa, e não só, havia anos que as sufragistas reivindicavam ruidosamente este direito para as mulheres e a Nova Zelândia tinha-se tornado o primeiro país a concedê-lo em 1893.
Cortesia de diariodarepublicasacouto
A primeira lei eleitoral da República Portuguesa reconhecia o direito de votar aos «cidadãos portugueses com mais de 21 anos, que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família». Carolina Ângelo viu nesta redacção da lei a oportunidade de a subverter a seu favor, dado que, gramaticalmente, o plural masculino das palavras inclui o masculino e o feminino. Viúva e com uma filha menor a cargo, com mais de 21 anos e instruída, dirigiu ao presidente da comissão recenseadora do 2º bairro de Lisboa um requerimento no sentido de o seu nome «ser incluído no novo recenseamento eleitoral a que tem de proceder-se».
Cortesia de nacguarda
A pretensão foi indeferida pela comissão recenseadora, o que a levou a apresentar recurso em tribunal, argumentando que a lei não excluía expressamente as mulheres. A 28 de Abril de 1911, o juiz João Baptista de Castro proferia a sentença que ficaria para a História: «Excluir a mulher (…) só por ser mulher (…) é simplesmente absurdo e iníquo e em oposição com as próprias ideias da democracia e justiça proclamadas pelo partido republicano. (…) Onde a lei não distingue, não pode o julgador distinguir (…) e mando que a reclamante seja incluída no recenseamento eleitoral».
Assim, a 28 de Maio de 1911, nas eleições para a Assembleia Constituinte, Carolina Beatriz Ângelo tornou-se a primeira mulher portuguesa a exercer o direito de voto.

Nesse mesmo mês, Julho de 1911, escrevia as suas últimas vontades: «Por ocasião do meu falecimento, desejo que me seja feito enterro civil. (…) Peço que, logo depois da minha morte, me coloquem em qualquer compartimento de casa sem sinal algum de luto e enfeitem tudo com plantas verdes, que eu tanto amo». A 3 de Outubro do mesmo ano, morre de síncope cardíaca.
Tinha 34 anos (ou 33 anos) de idade.
 
Cortesia de Ana Glória Lucas/JDACT

domingo, 3 de outubro de 2010

As Mulheres da República: Beatriz Pinheiro. «Reinvindiquem os seus direitos, que façam por conquistar a igualdade civil e política, que sejam nos bancos das Escolas as dignas rivais dos mais inteligentes e dos mais estudiosos»

(1871-1922)
Viseu
Cortesia de acidadedasmulheres
 
Beatriz Pinheiro, de nome completo Beatriz da Conceição Pais Pinheiro de Lemos, silenciada e olvidade pelo tempo, faz parte do grupo de mulheres que, na viragem do século XIX para XX, reflectiu sobre o que é ser mulher na sociedade, contribuindo para a divulgação do feminismo em Portugal. Em Viseu fez parte da revista literária Ave Azul, centro de debate sobre a emancipação das mulheres. Incitou as mulheres à luta para que «reinvindiquem os seus direitos, que façam por conquistar a igualdade civil e política, que sejam nos bancos das Escolas as dignas rivais dos mais inteligentes e dos mais estudiosos» (15.08.1899, Ave Azul, p.324).
 
Cortesia de acidadedasmulheres
Beatriz Pinheiro foi para além de feminista e republicana, escritora, actriz amadora e executante de harpa. Presidiu à União de Senhoras Liberais de Viseu e fundou a Escola Liberal de João de Deus, destinada a raparigas desfavorecidas.
 
Sobre ela, pode consultar-se o Dicionário no Feminino (Direcção Zília Osório de Castro e João Esteves, Livros Horizonte, Lisboa, 2005). Beatriz Pinheiro colaborou ainda em variadíssimos periódicos da sua época:
  • A Beira;
  • Nova Aurora;
  • Alamanach das Senhoras;
  • A Crónica;
  • Alma Feminina.
Enquanto educadora e feminista, batalhou para que rapazes e raparigas fossem instruídos «segundo o mesmo plano, segundo as mesmas vistas».
 
Cortesia d'A Cidade das Mulheres

As Mulheres da República: Angelina Vidal. Jornalista e defensora dos direitos dos operários, nomeadamente das mulheres. Republicana assumida com intervenções públicas de cariz social

(1853-1917)
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Cortesia de wook

Com a devida vénia a Irene Pimentel.
É no estudo de Mário Campos Vidal que se acesso, em profundidade, ao pensamento e à obra da republicana socialista, feminista, autodidacta, poeta, escritora, jornalista, conferencista e activista política que tão importante foi no final do século XIX e no início do século XX.

O livro sobre Angelina Vidal fornece um retrato multifacetado de uma mãe, que viveu sozinha, ganhou a vida através do trabalho intelectual e lutou politicamente, sempre com uma voz original, livre e independente. Nesta biografia de Angelina Vidal o autor revela um admirável equilíbrio entre a empatia necessária com a personagem biografada e a objectividade de análise.
Acima de tudo, dá com mestria um retrato do pensamento político dos meios intelectuais da época em geral, e dos republicanos e socialistas em particular. Por exemplo, ao debate recorrente na época acerca dos meios para mudar o regime: entre evolução e revolução, entre a via violenta ou a via pacífica, entre a reforma do regime monárquico ou o seu derrube para implantar a República.
 
Cortesia de porabrantes
No início dos anos 80 do século XIX, Angelina Vidal iniciou a sua longa colaboração com a Voz do Operário, de cujo jornal veio a ser editora, entre 1897 e 1901. Além de jornalista, trabalhou como tradutora, professora e olissipógrafa, além de escrever teatro, prosa e poesia. Ganhou dois prémios internacionais, o primeiro em 1885, com o poema Noite do Espírito e o segundo, em 1902, com Ícaro.
 
Republicana, socialista e militante nas hostes «avançadas», participou nas grandes homenagens republicanas a Camões e, embora com menor entusiasmo, ao marquês de Pombal, insurgiu-se contra o Ultimatum inglês de 1890 e apoiou a revolução no Porto de 1 de Janeiro de 1891.
Se Angelina Vidal foi uma voz crítica do clericalismo, da monarquia e do sistema económico e social vigente, foi sobretudo defensora do socialismo, o único regime que, segundo ela, resolveria a «questão social». Afirmou que, sendo o capital «trabalho não pago» e tendo em conta a estrutura vigente, qualquer acção política «por mais liberal, mais democrática» que fosse, era «sempre conservadora e autoritária em face do problema operário».

Cortesia de centenriodarepblica
Angelina Vidal aproximou-se em 1879 do socialismo. Defensora da existência da incompatibilidade absoluta de interesses entre os capitalistas e os operários, considerava porém que as «classes directivas» e o capital tinham uma parte importante no destino dos povos, desde que fossem base do progresso, e não déspotas dos trabalhadores. Lutadora pelo associativismo operário e pela igualdade social, Angelina Vidal sempre disse que seriam os trabalhadores a conquistar, pela força do Direito e não pelo direito da força, a sua própria emancipação, munindo-se do arsenal da instrução social. A revolução «controlada» de Angelina Vidal era aquela que traria a ordem, a economia politica, o desenvolvimento industrial e agrícola, a descentralização, o federalismo, a separação entre a Igreja e o Estado, mas com respeito pela religião do foro íntimo. Em suma, era uma revolução que favoreceria a instrução, solidariedade, a paz, o trabalho e liberdade universal.

Continuando a apoiar os sindicatos, mas não os sindicalistas, então quase todos anarquistas, Angelina Vidal não cessou de defender reformas que pusessem fim à miséria das classes laboriosas e de denunciar a repressão dos operários pelo governo republicano. Pugnando pela greve como meio de luta económica, embora opondo-se à greve política continuou a alertar para o facto de a emancipação das classes trabalhadoras ser obra dos próprios trabalhadores. A bandeira destes deveria, no entanto, ser «vermelha de luz, mas não de sangue».
 
Cortesia de portalis 
«A vida dessa pobre senhora foi um verdadeiro calvário. Havia quem a apodasse de leviana e de pouco ponderada; mas o certo é que ela era uma mulher de grande ilustração e de espírito ardente, vivendo em profundo desequilíbrio com uma sociedade sorna, bafienta e estúpida. É que então o problema económico para nós apresentava-se como devendo ter uma solução política. Angelina Vidal que muitas vezes foi levar uma parte do seu vencimento de professora, a mansardas que outros não visitariam, foi a companheira de muitos homens que pela política conseguiram governar-se». In Irene Pimentel, Mário Campos Vidal.
Cortesia de Irene Pimentel/ Mário Campos Vidal/JDACT

As Mulheres da República: Carolina Michaelis. A primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa, na Universidade de Coimbra

(1851-1925)
Berlim, Alemanha
Cortesia de bibloguewordpress

Carolina Wilhelma Michaëlis de Vasconcelos foi a mais célebre filóloga da língua portuguesa. Carolina foi crítica literária, escritora, lexicógrafa, investigadora e a primeira mulher a leccionar numa universidade portuguesa, na Universidade de Coimbra. Ela tem grande importância como mediadora entre a cultura portuguesa e a cultura alemã.

Cortesia de  inliminawordpress
Obras
  • Poesias de Sá de Miranda, 1885;
  • História da Literatura Portuguesa, 1897;
  • A Infanta D. Maria de Portugal e as suas Damas (1521-1577), 1902;
  • Cancioneiro da Ajuda (2 volumes), 1904;
  • Dicionário Etimológico das Línguas Hispânicas;
  • Estudos sobre o Romanceiro Peninsular: Romances Velhos em Portugal;
  • As Cem Melhores Poesias Líricas da Língua Portuguesa, 1914;
  • A Saudade Portuguesa, 1914;
  • Notas Vicentinas: Preliminares de uma Edição Crítica das Obras de Gil Vicente, 1920-1922;
  • Autos Portugueses de Gil Vicente y dela Escuela Vicentina, 1922;
  • Mil Provérbios Portugueses.


Cortesia de purl
Não é possível reportar-se aqui nem o essencial da sua produção nas áreas camoniana, vicentina, mirandina, bernardina, da romancística e, claro, da lírica trovadoresca, enfim todos os seus contributos para o conhecimento da literatura medieval e clássica - vejam-se a bibliografia que abre a Miscelânea de estudos em honra de D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (Coimbra, 1933), ou, para síntese, o verbete sobre a filóloga no Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa (organizado por G. Lanciani e G. Tavani; Lisboa, 1993).

Cortesia de 1ciuc
«Como professora, o meu entusiasmo e a capacidade de tudo animar, mesmo as coisas mais insípidas, fizeram-me conquistar o amor de alunos e alunas. E a solicitude e benevolência que me são inatas granjearam-me em abundância a simpatia de colegas e colaboradores. Mesmo que eu aqui neste país apenas tenha estimulado os outros e dado exemplo de como se trata um texto, se analisa um escritor, etc, mesmo que no futuro nenhum resultado continue de pé, mesmo assim a minha actividade não foi em vão. Seja como for, tornou a minha vida rica e bela, e ensinou-me a superar ou a suportar as dores, preocupações e contrariedades que a vida real traz consigo». In Carta a Luisa Ey, Porto, 26 de Março de 1921.

Cancioneiro da Ajuda
...guardara inédito esse Glossário durante dezoito anos,
devido à indiferença com que o texto fora acolhido!
Cortesia de auladeliteraturaportuguesa

http://descargas.cervantesvirtual.com/servlet/SirveObras/scclit/80227252878488943532279/028775.pdf?incr=1
http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/3027.pdf

Cortesia do Instituto Camões/JDACT

As Mulheres da República: Laura Summavielle. Um espelho da vivência democrática. Foi aderente da Cruzada das Mulheres Portuguesas

(1879-1971)
Fafe
Cortesia de viva-a-republica

Laura Soares de Oliveira casou em 1903, com o advogado José Summavielle Soares (1881-1969). Este licenciado em Direito destacar-se-ia politicamente, pelo seu enorme empenho em favor da República, sendo ele quem proclamou, nas varandas do Paços do Concelho, a implantação do novo regime em Fafe.

Cortesia de viva-a-republica
Laura Soares de Oliveira Summavielle, viveu desde que se casou neste ambiente de fortes tradições republicanas e, apesar dos dez filhos que deu à luz, a maternidade não a afastou da luta política do tempo. De facto, no jornal «A Semeadora», dirigido por Ana Castro Osório e propriedade da Empresa de Propaganda Feminista e de Defesa dos Direitos da Mulher, o seu nome é mencionado em 1916 como aderente da Cruzada das Mulheres Portuguesas, na qualidade de dirigente da Subcomissão de Fafe. A Cruzada era uma associação de «cariz patriótico» que pretendia evitar as perturbações sociais que a participação de Portugal na I Guerra Mundial traria inevitavelmente. A comissão de Fafe, tal como as sediadas noutras localidades, devia dar assistência local a crianças e mulheres e contribuir para o bem-estar «dos filhos da terra».

Cortesia de viva-a-republica
Laura Summavielle parece ter-se empenhado bastante neste trabalho, cuja vertente de assistência social deixava antever a propaganda feminina republicana. Nos anos seguintes participou ao lado do marido nas campanhas eleitorais. 
Um facto real e «espelho da vivência democrática»: quando foi proclamada a monarquia do Norte, e as bandeiras republicanas desapareceram de vários edifícios, na sua casa manteve hasteada a bandeira que os monárquicos não tiveram coragem de derrubar. A mesma atitude manteve quando da implantação do Estado Novo, manifestando o seu desagrado e exigindo o seu direito de voto nas eleições presidenciais.
A sua faceta irónica manifestou-se, aliás, por diversas vezes nas quadras que compôs contra a situação política da época. Era para todos certo e sabido que, sempre que passavam um 5 de Outubro, Laura Summavielle hasteava as bandeiras verdes e rubras na sacada de sua casa e também no Cine-Teatro de Fafe, onde nunca autorizou comícios da União Nacional.
Laura Summavielle morre aos 92 anos de idade, depois de ter viajado por numerosos países da Europa, muitas vezes sozinha, ou acompanhada das suas amigas e correlegionárias, o que na época era muito pouco vulgar.

Cortesia de viva-a-republica
 
Cortesia de wikipédia/CMFafe/JDACT

As Mulheres da República: Maria Veleda. Professora. Republicana. Livre-Pensadora

(1871-1955)
Faro
Cortesia de bibliotecaesdica

Com a devida vénia a Natividade Monteiro, APH e Pinhal Digital.
Maria Carolina Frederico Crespim foi o seu verdadeiro nome. Mas ficou conhecida por Maria Veleda. Uma das mais importantes dirigentes do primeiro movimento feminista português, dedicada aos ideais de justiça, liberdade, igualdade e democracia e empenhada na construção de uma sociedade melhor.

Estreou-se na imprensa algarvia e alentejana com a publicação de poesia, contos e novelas, tendo-se dedicado mais tarde aos temas feministas e educativos, defendendo a educação laica e integral, numa combinação ideal entre a teoria e a prática, a liberdade, a criatividade, o espírito crítico e os valores éticos e cívicos.

Cortesia de aph
Convertida ao livre-pensamento e iniciada na Maçonaria, em 1907, aderiu também aos ideais da República e tornou-se oradora dos Centros Republicanos, escolas liberais, associações operárias e intelectuais, grémios, círios civis e comícios do Partido Republicano, da Junta Federal do Livre-Pensamento e da Associação Promotora do Registo Civil.
Entre 1910 e 1915, como dirigente da «Liga Republicana das Mulheres Portuguesas» e das revistas A Mulher e a Criança e A Madrugada, empenhou-se na luta pelo sufrágio feminino, escrevendo, discursando, fazendo petições e chefiando delegações e representações aos órgãos de soberania. Combateu a prostituição, sobretudo, a de menores, e o direito de fiança por abuso sexual de crianças. Fundou «O Grupo das Treze» para combater a superstição, o obscurantismo e o fanatismo religioso que afectava sobretudo as mulheres e as impedia de se libertarem dos preconceitos sociais e da influência clerical que as mantinham submetidas aos dogmas da Igreja e à tutela masculina.
Cortesia de aph
Porém, após os acontecimentos da «noite sangrenta», em 1921, e a desilusão dos sucessivos governos republicanos, que não cumpriram as promessas de conceder o voto às mulheres, Maria Veleda abandonou o activismo político e feminista em 1921. Fez-se jornalista do Século e de A Pátria de Luanda, onde continuou a defender os ideais feministas e republicanos que sempre a nortearam.
Em 1925, fundou o «Grupo Espiritualista Luz e Amor», aderindo ao fenómeno espiritista, muito em voga na década de 20, e colaborando na sua imprensa. Publicou as «Memórias de Maria Veleda» no jornal República, em 1950, cinco anos antes da sua morte.

Maria Veleda dedicou a sua vida aos ideais de justiça. Iniciou processoa de mudança nas práticas sociais e lançou o debate sobre os lugares, os papéis e os poderes de mulheres e homens num mundo novo.

Cortesia de pinhaldigital Cortesia de eb23-maria-veleda  

Cortesia de Natividade Monteiro/APH/PinhalDigital/JDACT

As Mulheres da República: Ana de Castro Osório. É considerada a criadora da Literatura Infantil em Portugal

(1872-1935)
Mangualde
Cortesia de leme

Ana de Castro Osório foi uma escritora, especialmente no domínio da literatura infantil, pedagoga, feminista e activista republicana portuguesa.
Ana de Castro Osório foi pioneira em Portugal na luta pela igualdade de direitos entre homem e mulher. Escreveu, em 1905, «Mulheres Portuguesas», o primeiro manifesto feminista português.

Foi uma das fundadoras do Grupo Português de Estudos Feministas, em 1907, da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, em 1909, da Associação de Propaganda Feminista, em 1912, da Comissão Feminina «Pela Pátria», em 1916, a partir da qual se formou, no mesmo ano, a Cruzada das Mulheres Portuguesas.
Depois da Instauração da República, colaborou com o ministro da Justiça, Afonso Costa, na elaboração da Lei do Divórcio. É considerada a criadora da Literatura Infantil em Portugal.
Foi membro da obediência maçónica Grande Oriente Lusitano e da Ordem Maçónica Mista Internacional «Le Droit Humain», O Direito Humano.

Cortesia de rtp
Algumas obras
Para as crianças. Setúbal, 1897, a 1935:
  • Contos tradicionais portugueses, 10 volumes;
  • Contos de Grimm (tradução do alemão);
  • Alma infantil;
  • Animais, 1903;
  • Boas crianças;
  • Histórias escolhidas (tradução do alemão).
Infelizes: histórias vividas, 1892;
Quatro Novelas, 1908;
Ambições: romance. Lisboa, Guimarães Libânio, 1903;
Bem prega frei Tomás (comédia), 1905.

Teatro Infantil
  • A comédia da Lili, 1903;
  • Um sermão do sr. Cura, 1907;
A Garrett no seu primeiro centenário, 1899;
A nossa homenagem a Bocage, 1905;
A minha Pátria;
A mulher no casamento e no divórcio, 1911;
Às mulheres portuguesas. Lisboa, Viúva Tavares Cardoso, 1905.

Cortesia de humorgrafe

Cortesia de wikipédia/Sociedade Setubalense/JDACT

sábado, 2 de outubro de 2010

As Mulheres da República: O Grupo das Treze.

Cortesia de esffl

O Grupo das Treze
Queriam acima de tudo combater a ignorância e a superstição e foi com esse objectivo que, em Maio de 1911, constituíram o «Grupo das Treze», número simbólico com o qual as sócias da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas quiseram surpreender e, desde logo, quebrar uma primeira superstição. Para elucidar a sociedade quanto aos seus propósitos tinham máximas, todas elas compostas por 13 palavras, como:
  • O fanatismo é uma espécie de lepra que corrompe e devora o pensamento;
  • A sociedade ideal será aquela em que a mulher levante templos à ciência;
  • A ciência fortalece as almas, a superstição amortalha-as na treva da Morte.

Foi com este espírito ousado, que surgiram, tentando despertar novas ideias nas assembleias que as ouviam: «Iluminar as almas, libertar as consciências, eis a verdadeira missão da mulher moderna». Criaram um distintivo: uma medalha com o número 13 e foi com ela que se apresentaram na sessão solene de apresentação pública do Grupo das Treze, em que estiveram presentes:
  • Judite Pontes Rodrigues;
  • Carolina Amado;
  • Ernestina Pereira Santos;
  • Lydia d’Oliveira;
  • Maria Veleda;
  • Antónia Silva;
  • Adelina Marreiros;
  • Honorata de Carvalho;
  • Marianna Silva;
  • Filipa d’Oliveira;
  • Berta Vilar Coelho;
  • Lenia Loyo Pequito;
  • Carolina Rocha da Silva - esta última em substituição de Maria da Madre de Deus Diniz d’Almeida, que não pode comparecer na sessão inaugural.

Como «Grupo das Treze» não duraram muito: existiram apenas até Outubro de 1913.

Cortesia de esffl
Mas como sócias da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas foram activistas dinâmicas e destacaram-se pelas iniciativas cívicas e políticas. Lutaram pela lei do divórcio, pelo direito ao voto das mulheres e apoiaram a Obra Maternal, instituição criada no tempo da monarquia com o objectivo de proteger e educar as crianças sem família ou vítimas de maus tratos.
Em 1913, reivindicaram no Senado e na Câmara de Deputados a revogação da lei que permitia o direito de fiança a violadores de menores.

Cortesia de Escola Secundária Francisco Fernandes Lopes/JDACT

terça-feira, 8 de junho de 2010

Os Selos 2009 dos CTT: As Mulheres da República

Cortesia dos CTT
«Com a institucionalização da República as mulheres portuguesas ganharam mais direitos cívicos, muito embora sem correspondência nos direitos políticos. O seu activismo cívico e associativo conheceu no entanto um vigoroso desenvolvimento.
Cortesia dos CTT
A presente emissão de selos evoca algumas das mais destacadas figuras de mulheres do período inicial da República, designadamente: Adelaide Cabete (1867-1935), médica ginecologista, professora e grande feminista, lutou contra o flagelo da mortalidade infantil, do alcoolismo feminino e da prostituição, fundou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e o Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas e organizou o I Congresso Feminista e de Educação; Ana de Castro Osório (1872-1935), escritora, em especial de literatura infantil, editora, pedagoga, publicista, conferencista, defensora dos ideais republicanos, fundou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e esteve ligada a outros movimentos feministas.
Cortesia dos CTT
Angelina Vidal (1853-1917), professora, jornalista e propagandista dos direitos dos operários, nomeadamente das mulheres, republicana assumida com intervenções públicas de cariz social; Carolina Beatriz Ângelo (1877-1911), médica (a primeira a operar no Hospital de S. José) e primeira eleitora portuguesa, em 1911, pertenceu a várias organizações feministas, tendo dirigido a Associação de Propaganda Feminista; Carolina Michaëlis de Vasconcelos (1851-1925), romancista, destacou-se no ensino, tendo sido a primeira mulher admitida como professora universitária na Faculdade de Letras de Coimbra.
Cortesia dos CTT
Emília de Sousa Costa (1877-1959), escritora e defensora da educação feminina, contribuiu para a criação da Caixa de Auxílio a Raparigas Estudantes Pobres, leccionou na Tutoria Central de Lisboa, instituição para crianças delinquentes ou abandonadas e pertenceu ao Conselho Central da Federação Nacional dos Amigos das Crianças; Maria Veleda (1871-1955), professora do ensino primário, escritora para crianças, fez parte da Liga Republicana de Mulheres Portuguesas e do Grupo Português de Estudos Feministas, sendo defensora da emancipação e participação política das mulheres; Virgínia Quaresma (1882-1973), jornalista, distinguiu-se pelas suas reportagens de teor politico e social, designadamente em O Século e em A Capital e, também, no Brasil.
Cortesia dos CTT
Foi das primeiras mulheres a licenciarem-se pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo sido condecorada com a Ordem de Santiago pelos serviços prestados ao país durante a Grande Guerra». In CTT, Mulheres da República
Cortesia CTT/JDACT