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domingo, 13 de julho de 2014

A Arte de Furtar. Protestação do autor a quem ler este tratado. Anónimo. «E eis aqui como os que têm por ofício livrar-nos de ladrões vêm a ser os maiores ladrões que nos destroem. Não falo de varas grandes, porque as residências as fazem andar direitas…»

jdact e wikipedia

Como a Arte de Furtar é muito nobre
«(…) Mais claro proponho e deslindo tudo. A nobreza das ciências colhe-se de três princípios: o primeiro é o objecto, ou matéria, em que se ocupa; segundo, as regras e preceitos de que consta; terceiro, os mestres e sujeitos que a professam. Pelo primeiro princípio, é a teologia mais nobre que todas, porque tem a Deus por objecto. Pelo segundo, é a filosofia, porque suas regras e preceitos são delicadíssimos e admiráveis. Pelo terceiro, é a música, porque a professam anjos, no céu e, na terra, príncipes. E por todos estes três princípios é a arte de furtar muito nobre, porque o seu objecto e matéria em que se emprega é tudo o que tem nome de precioso. As suas regras e preceitos são subtilíssimos e infalíveis; e os sujeitos e mestres que a professam, ainda mal, que as mais das vezes são os que se prezam de mais nobres, para que não digamos que são senhorias, altezas e majestades. Na formação de um mosquito mostra Deus mais seu grande entendimento que na fábrica do Universo. Quero dizer que não engrandece tanto as ciências a matéria em que se exercitam como o engenho da arte com que obram. E como o engenho e arte de furtar anda hoje tão subtil que transcende as águias, bem podemos dizer que é ciência nobre. [...]

Como os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar-nos de outros ladrões
Não pode haver maior desgraça, no mundo, que converter-se, a um doente, em veneno a teriaga que tomou para vencer a peçonha que o vai matando. Ferir-se e matar-se um homem, com a espada que cingiu ou arrancou para se defender de seu inimigo, a arrebentar-lhe nas mãos o mosquete e matá-lo, quando fazia tiro para se livrar da morte, é fortuna muito má de sofrer. E tal é que acontece em muitas Repúblicas do mundo, e até nos reinos mais bem governados, os quais, para se livrarem de ladrões, que é a pior peste que os abrasa, fizeram varas que chamam de justiça, isto é, meirinhos, almotaceis, alcaides; puseram guardas, rendeiros e jurados; e fortaleceram a todos com provisões, privilégios e armas. Mas eles, virando tudo de carnaz para fora, tomam o rasto às avessas e, em vez de nos guardarem as fazendas, são os que maior estrago nos fazem nelas, de sorte que não se distinguem dos ladrões que lhes mandam vigiar em mais senão que os ladrões furtam nas charnecas e eles no povoado; aqueles com carapuças de rebuço e eles com as caras descobertas; aqueles com seu risco e estes com provisão e cartas de seguro.
Declaro-me: manda a lei aos senhores almotaceis que vigiem as padeiras, regateiras, estalagens e tabernas, etc., se vendem as coisas por seu justo preço. Antecipam-se todas as pessoas sobreditas, mandam a casa as primícias e meias natas de seus interesses e ficam logo licenciadas para maquinarem tudo como quiserem. Têm obrigação os meirinhos e alcaides de tomarem as armas defesas, prenderem os que acharem de noite e darem cumprimento aos mandatos de prisões e execuções que se lhes encarregam. Dissimulam e passam por tudo, pelo dobrão e pela pataca que lhes metem na bolsa, e seguem-se daí mortes, roubos e perdas intoleráveis. Corre por conta dos guardas e rendeiros a defensão dos pastos, vinhas, olivais, coutadas, que não as destruam os gados alheios. Quem os tem avença-se com eles, por pouco mais de nada, que vem a ser muito, porque concorrem os poucos de muitas partes; ficam livres para poderem lograr as fazendas alheias, como se foram próprias, sem incorrerem nas coimas. E eis aqui como os que têm por ofício livrar-nos de ladrões vêm a ser os maiores ladrões que nos destroem. Não falo de varas grandes, porque as residências as fazem andar direitas, nem das garnachas, que esperam maiores postos e não querem perder o muito pelo pouco. Livre-nos Deus a todos de oferecimentos secretos, que correm sua fortuna sem testemunhas; aceitos, torcem logo as meadas, até quebrar o fiado pelo mais fraco, e a poder de nós-cegos o fazem parecer inteiro. Até nas residências, onde se dão em se fazerem as barbas uns aos outros, fica tudo sem remédio e com a maior parte da presa, em um momento, quem nos ia restaurar dos danos de um triénio.
Milhares de exemplos há que explicam bem esta espécie de furtos, e melhor que todos o que poderemos pôr nos físicos; mas manda a Sagrada Escritura que nos honremos propter sanitatem, e assim é bem que lhes guardemos aqui respeitos, ainda que a verdade sempre tem lugar. Digamo-lo, ao menos, dos boticários. Têm estes um livrinho, não é maior que uma cartilha, e nada tem de sua doutrina, porque se devia de compor no limbo. Certo é que o não imprimiu Galeno, que houvera de ser muito bom cristão se não fora gentio, porque tinha bom entendimento. A este livro chamam eles Qui pro quo, quer dizer uma coisa por outra; e o título basta para se entender que contém mais mentiras que verdades. Antes, só uma verdade contém e é que, em tudo, ensina a vender gato por lebre, como agora. Se lhe faltar na botica a água de escorcioneira, que receita o médico para o cordial, que lhe podem botar água de cevada cozida; e se não tiverem pedra de bazar, que pevides de cidra tanto montam; se não houver óleo de amêndoas, que lhe ponham o da candeia. E assim vai baralhando tudo, de maneira que não pode haver boticário que deixe de ter quanto lhe pedem. E daí pode ser que veio o provérbio, com que declaramos a abundância de uma casa rica, que tudo se acha nela como em botica». In Manuel da Costa, Arte de Furtar, 1ª edição de 1743 ou 1744, Lisboa, Editorial Estampa, 2001, Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de FCG/JDACT

A Arte de Furtar. Protestação do autor a quem ler este tratado. Anónimo. «Assim se prova que há arte de furtar; e que esta seja ciência verdadeira é muito mais fácil de provar, ainda que não tenha escola pública, nem doutores graduados que a ensinem em universidade, como têm as outras ciências»

jdact

Tratado Único. Como para Furtar há Arte, que é ciência verdadeira
«(…) As artes dizem seus autores que são emulações da natureza; e dizem pouco, porque a experiência mostra que também lhe acrescentam perfeições. Deu a natureza ao homem cabelo e barba, para autoridade e ornato; e se a arte não compuser tudo, em quatro dias se fará um monstro. Com arte repara uma mulher as ruínas que lhe causou a idade, restituindo-se de cores, dentes e cabelo, com que a natureza no melhor lhe faltou. Com arte faz o escultor do tronco inútil uma imagem tão perfeita que parece viva. Com arte tiram os cobiçosos, das entranhas da terra e centro do mar, a pedraria e metais preciosos, que a natureza produziu em tosco e, aperfeiçoando tudo, lhe dão outro valor. E não só sobre coisas boas têm as artes jurisdição, para as melhorar mais do que a natureza; mas também sobre as más e nocivas, para as diminuir em proveito de quem as exercita, ou para as acrescentar em dano de outrem, como se vê nas máquinas da guerra, partos da arte militar, que todas vão dirigidas a assolações e incêndios, com que uns se defendem e outros são destruídos.
Não perde a arte seu ser por fazer mal, quando faz bem e a propósito esse mesmo mal que professa, para tirar dele para outrem algum bem, ainda que seja ilícito. E tal é a arte de furtar, que toda se ocupa em despir uns para vestir outros. E se é famosa a arte que, do centro da terra, desentranha o oiro, que se defende com montes de dificuldades, não é menos admirável a do ladrão que das entranhas de um escritório, que, fechado a sete chaves, se resguarda com mil artifícios, desencova com outros maiores o tesouro com que se melhora de fortuna. Nem perde seu ser a arte pelo mal que causa, quando obra com ciladas segundo suas regras, que todas se fundam em estratagemas e enganos, como as da milícia; e essa é a arte, e é o que dizia um grande mestre desta profissão: con arte y con engaño, vivo la mitad del año; y con engaño y arte vivo la otra parte. E se os ladrões não tiverem arte, busquem outro oficio; por mais que a este os leve e ajude a natureza, se não alentarem esta com os documentos da arte, terão mais certas perdas que ganhos, nem se poderão conservar contra as invasões de infinitas contrariedades que os perseguem. E, quando os vejo continuar no oficio ilesos, não posso deixar de o atribuir à destreza de sua arte, que os livra até da justiça mais vigilante, deslumbrando-a por mil modos ou obrigando-a que os largue e tolere, porque até para isso têm os ladrões arte. Assim se prova que há arte de furtar; e que esta seja ciência verdadeira é muito mais fácil de provar, ainda que não tenha escola pública, nem doutores graduados que a ensinem em universidade, como têm as outras ciências. [...]

Como a Arte de Furtar é muito nobre
Mais fácil achou um prudente que seria acender dentro do mar uma fogueira que espertar, em um peito vil, fervores de nobreza. Contudo, ninguém me estranhe chamar nobre à arte cujos professores, por leis divinas e humanas, são tidos por infames. Essa é a valentia desta arte, como a dos alquimistas, que se gabam que sabem fazer oiro de enxofre, que de gente vil faz fidalgos, porque aonde luz o oiro não há vileza. Além de que não é implicação acharem-se duas contrariedades em um sujeito, quando respeitam diferentes motivos. Que coisa mais vil e baixa que uma formiga! Tão pequena que não se enxerga, tão rasteira que vive enterrada, tão pobre, que se sustenta de leves rapinas! Que coisa mais ilustre que o sol que a tudo dá lustre, tão grande que é maior que a terra, tão alto que anda no quarto céu, tão rico que tudo produz! E se vê a maior nobreza com a maior baixeza em um sujeito, em uma formiga.
Baixezas há que não andam em uso, porque são só de nome; e nomes há que não põem nem tiram, ainda que se encontrem, porque se compadecem para diferentes efeitos. Fazia doutrina um padre da Companhia, no pelourinho de Faro. Perguntou a um menino como se chamava. Respondeu: chamo-me, em casa, Abraãozinho, e na rua Joanico. Assim são os ladrões: na Casa da Suplicação, chamam-se infames, quando os sentenciam, que é poucas vezes; mas nas ruas, por onde andam de contínuo em alcateias, têm nomes muito nobres, porque uns são Godos, outros chamam-se Cabos e Xerifes outros; mas nas obras todos são piratas». In Manuel da Costa, Arte de Furtar, 1ª edição de 1743 ou 1744, Lisboa, Editorial Estampa, 2001, Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de FCG/JDACT

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Jazz. John Zorn. «Amigos, gostaria que soubésseis a Verdade e a dissésseis! Não como cansados Césares fugitivos: amanhã vem farinha! Mas como Lenine: amanhã à noitinha estamos perdidos, se não... Irmãos, com esta questão quero logo começar: da nossa difícil situação não há que escapar. Amigos, uma forte confissão e um forte se não!»

Cortesia de wikipedia


«A fraqueza crónica de um sistema democrático de governo, em oposição à ocasional, parece ser proporcional ao grau da sua democratização. Os mais poderosos e estáveis estados democráticos são aqueles onde os princípios da democracia foram menos lógica e consistentemente aplicados. Assim, um parlamento eleito segundo um sistema de representação proporcional é um parlamento verdadeiramente democrático. Mas é também, na mairoria dos casos, um instrumento não de governo mas de anarquia. A representação proporcional garante que todos os sectores da opinião estarão representados na assembleia. É o ideal da democracia cumprido. Infelizmente, a multiplicação de pequenos grupos dentro do parlamento torna impossível a formação de um governo estável e forte. Nas assembleias proporcionalmente eleitas os governos têm geralmente de confiar numa maioria compósita. Têm de comprar o apoio de pequenos grupos com uma distribuição de favores mais ou menos corrupta, e como nunca conseguem dar o suficiente ficam sujeitos a ser derrotados em qualquer altura. A representação proporcional em Itália conduziu ao fascismo através da anarquia». In Aldous Huxley.


JDACT

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

‘Defensa Femenina’ e ‘Invectiva da Fermosura’. Literatura Panfletária e Satírica. Ana Hatherly. «Assim, enquanto na ‘Defensa Femenina’ nos é proposta uma etimologia em que se destaca a sua dimensão alegórica, na ‘Invectiva da Fermosura’ a questão é sobretudo explorada para fins de sátira, de crítica, ao declarar-se que mana está ligada a mona, palavra que significa ‘macaca’»


Cortesia de quimera


Defensa Femenina em abono da Manisse das Senhoras Mulheres contra a murmuração dos homens.
Invectiva da fermosura contra o indecoroso abuzo da manice em resposta à defensa feminina feita para manifesta ainda que indigna protecção do mesmo dilirio.  In Quimera.


«Os textos atribuídos ao visconde de Asseca e a frei João Manuel atraíram a nossa atenção por conterem elementos que julgamos de interesse para uma investigação das relações entre a imaginação literária e a convivência no nosso país durante o período barroco, em particular no que diz respeito às críticas ao comportamento da mulher.
O texto atribuído ao visconde de Asseca intitula-se Defensa Femenina / em abono da Manisse / das Senhoras Mulheres / contra a murmuração dos homëns; o atribuído a fr. João Manuel, Invectiva da fermosura contra o indeco /roso abuzo da manice em resposta à defença / femenina feita para manifesta ainda que indigna / protecçaõ do mesmo dilirio. Do manuscrito do visconde de Asseca encontrámos duas versões: a acima referida, numa Miscelânea de Prosas compilada por Antonio Correya Vianna, com data de 1782, actualmente na Biblioteca da Ajuda, e uma outra, sem data, incompleta e com algumas diferenças textuais, incluída numa Miscelânea do século XVIII da Colecção Pombalina, existente na Biblioteca Nacional em Lisboa. A versão por nós transcrita é a que se encontra na compilação de Antonio Correya Vianna, sendo as mais significativas variantes da outra assinaladas em notas ao longo do traslado.
Do texto de fr. João Manuel também conhecemos dois manuscritos: o que transcrevemos, que consta da mesma Miscelânea da Colecção Pombalina da Biblioteca Nacional, e o que se guarda na Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora. Nenhum tem data. As diferenças entre estas duas versões são mínimas e pouco significativas. Por isso não as assinalamos.
Na transcrição das versões seleccionadas reproduzimos a ortografia original, respeitando a acentuação e a pontuação peculiares, sem corrigir lapsos. Porém, para facilitar a leitura, desenvolvemos as abreviaturas e introduzimos no texto de fr. João Manuel algumas palavras (entre parênteses rectos) que no original tinham sido obliteradas por um derrame de tinta e que o cotejo com a versão de Évora nos permitiu conhecer.
A identificação dos autores, nos códices da Biblioteca Nacional, é feita pelos respectivos copistas no alto da primeira folha, sumariamente dizendo, num: Visconde de Aseca; noutro: Fr. João M.el .No códice da Biblioteca da Ajuda o copista acrescentou ao título os seguintes dizeres: Discurso / jocosserio / Escrito / Pello Exmo Visconde de Asseca. [...]

Debruçando-nos agora sobre o conteúdo dos textos, verificamos que ambos giram à volta da questão da Manice, palavra que designa uma prática que os dois autores se empenham, respectivamente, em defender (visconde de Asseca) e em condenar (fr. João Manuel).
No discurso do visconde de Asseca, em que a Manice é justificada em nome do ‘amor de sÿ mesmo’ e em virtude duma tendência segundo a qual ‘uma Formozura se inclina a outra Formozura’, é de importância considerável a declaração da etimologia da palavra, grafada manisse pelo copista do visconde de Asseca e manice pelo de fr. João Manuel.
Na ‘Defensa Femenina’ pode ler-se:
  • Para darmos principio a esta Manisse, he necessario examinar a derivassaõ, ou principio que tem este docissimo nome de Mana. Os Autores mais graves que tractáram de ethimologias, dizem que Mana, se deriva de Maná; e a razaõ he, porque o Maná sabia a tudo aquilo que a vontade podia apetecer; e que nas Manas, se acha tambem esta propriedade, porque tem differentes sabores na diversidade dos üzos: derigidos igoalmente pella ley do gosto...
Na ‘Invectiva da Fermosura’, depois de ter sido contestado que a Formosura seja a origem da Manice, declara-se quanto à etimologia da palavra:
  • Diz o nosso Author que segundo a melhor etimologia, este nome mana se diriva de Manna: naõ o duvido, mas he do manná galenico com que se emfastia o gosto e naõ daquelle manná em que o desejo encontra na variedade o desfastio. He hüa mana hum rescipe de Cupido com que a fermosura se purga do aggrado e bizarria. Senaõ vejaõ as manas a propria etimologia do seu nome que a coriosidade descobrio nos authores de melhor nota, e incognitos ao seu defensor. Manná (se avemos de seguir os authores castelhanos) derivace de mano, que em portugues significa a maõ a qual como instromento da manice, deu a etimologia ao nome...
A seguir, o autor afirma que ‘este nome manná he Paranomazia de mona’, acabando por estabelecer um paralelo jocoso entre ‘manas’ e ‘monas’, e ‘manices’ e ‘monices’.
Assim, enquanto na ‘Defensa Femenina’ nos é proposta uma etimologia em que se destaca a sua dimensão culta, alegórica, séria, na ‘Invectiva da Fermosura’ a questão é sobretudo explorada para fins de sátira, de crítica, ao declarar-se que mana está ligada a mona, palavra que significa ‘macaca’.
Da comparação dos dois textos em breve se torna evidente que a sua maior virtude residirá, porventura, no seu acentuado contraste.
[...]
Destes dois textos pode dizer-se que ambos seguem as normas do debate académico barroco, ambos são elegantes, eruditos e discretos, só que o do visconde de Asseca é um discurso sério e o de fr. Manuel é um discurso joco-sério [...]. In Ana Hatherly, Defesa e Condenação da Manice, Quimera, Lisboa, 1989, Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de FCG/JDACT

Dialéctica da camuflagem. Literatura Panfletária e Satírica. Maria Thereza Alves. «No entanto, a ortodoxia católica das 'Obras' não é motivo suficiente para que se exclua a hipótese de ser o ‘Judeu’ o autor da novela. Obviamente, não é necessário praticar um credo para conhecer-lhe as leis»



Cortesia de wikipedia

«[...] O problema de autoria das Obras é consequência do anonimato dos manuscritos. O Manuscrito da Biblioteca de Lisboa vem apenso a uma peça em espanhol, intitulada ‘El Prodigio de Amarante: São Gonçalo’, os dois textos, neste manuscrito que segundo Porto Alegre não é autógrafo e sim uma cópia, vêm atribuídos ao ‘Judeu’. Gustavo Freitas e Castro Cabral acreditam na origem espanhola do copista. O Manuscrito da Academia das Ciências foi atribuído, em sua catalogação, a Pedro José Fonseca, linguista e dicionarista do século XVIII, que fornecera manuscritos de sua colecção particular à referida Academia. Innocencio, que, em seu Diccionárío bibliographico portuguez, regista esses manuscritos, atribui a Pedro José Fonseca a autoria das Obras; depois da publicação da novela pela ‘Revista Brasileira’, passa a atribuir a autoria a António José Silva, acreditando que Pedro José seria apenas um copista.
Fidelino Figueiredo não acredita que as Obras sejam da autoria de António José Silva e fundamenta seu ponto de vista na ortodoxia católica manifestada nos folhetos. Segundo Fidelino, seria inexplicável que um indivíduo perseguido e morto pela Inquisição (maldita), acusado de judaísmo, conhecesse tão bem a religião católica.
No entanto, a ortodoxia católica das Obras não é motivo suficiente para que se exclua a hipótese de ser o ‘Judeu’ o autor da novela. Obviamente, não é necessário praticar um credo para conhecer-lhe as leis. Mostra-se ser a novela possuidora de um discurso que, correndo paralelo ao dogma, o questiona; discurso que se poderia atribuir a qualquer judeu culto da época. Seguindo o mestre, tanto Gustavo Freitas como Miguel Castro Cabral contestam a possível autoria de António José Silva.
Todavia não creem que as Obras possam ser de Pedro José Fonseca. Baseiam-se os dois estudiosos no vestuário descrito na novela, certamente anterior ao século XVIII.
José Pereira Tavares demonstra as razões que o levaram a atribuir as Obras ao autor de Guerras do Alecrim e Mangerona:
  • em primeiro lugar coloca a falta de provas em contrário e, em seguida, documenta a existência, na novela, de ‘fortes ressaibos da linguagem do Judeu quando não assaltado pelo propósito, muito frequente em suas comédias, de ridicularizar o gongorismo’.
As semelhanças aludidas, apontadas na edição dos ’Clássicos Sá da Costa’, prendem-se a certas expressões e neologismos empregados comicamente.
António José Saraiva e Óscar Lopes acreditam numa origem clerical, possivelmente franciscana, para as Obras e excluem a hipótese de autoria do ‘Judeu’, quando ressaltam ter sido a novela ‘por mais de uma vez, mas indevidamente, atribuída a António José da Silva’. Saraiva e Lopes não apresentam razões plausíveis, nem para a tese da origem clerical, nem para a negativa da autoria do ‘Judeu’.
Bernard Emery, em sua edição, não elucida o problema, mesmo porque, no estágio actual dos estudos, é impossível obter uma certeza absoluta sobre o autor. No entanto, o estudioso, ao dar como subtítulo à sua edição, ‘conto moral atribuído a António José da Silva’, indirectamente endossa a corrente tradicional que considera o dramaturgo o autor de tão discutido texto.
Em ensaio publicado na revista, Colóquio / Letras, Emery explicita não ter sido fortuita a reunião, no mesmo manuscrito, de El Prodigio de Amarante e das Obras. Foi o arcebispo de Évora, Manuel do Cenáculo Vilas Boas, eminente bibliófilo e conceituado erudito, que fez a junção das duas obras». In Maria Thereza Abelha Alves, A Dialéctica da Camuflagem nas Obras do Diabinho da Mão Furada, Lisboa, INCM, 1983, Fundação Calouste Gulbenkian, 2005.

Cortesia da FCG/JDACT

terça-feira, 11 de setembro de 2012

A Arte de Furtar. Protestação do autor a quem ler este tratado. Anónimo. «E assim protesto que não é meu intento ensinar-vos os lances que nesta “Arte de Furtar” ignoráveis, senão alumiar-vos o conhecimento…»


jdact

«Em Ouguela, lugar de Além-Tejo, entre Elvas e Campo Maior, há uma fonte cuja água não coze carne, nem peixe por mais que ferva. E na vila de Pombal, perto de Leiria, há um forno em que todos os anos se coze uma grande fogaça para a festa do Espírito Santo; e entra um homem nele, quando mais quente, para acomodar a fogaça e se detém dentro quanto tempo é necessário, sem padecer lesão alguma do fogo que, cozendo o pão, não coze o homem. E, pelo contrário, na tapada de Vila Viçosa, retiro agradável da grande casa de Bragança, adverti uma coisa notável: que haverá mais de dois mil veados nela, que todos os anos mudam as pontas, bastante número para, em pouco tempo, ficar toda a tapada juncada delas; e no cabo não há quem ache uma. Perguntei a razão ao senhor infante Alexandre, irmão de el-rei nosso senhor, grande perscrutador de coisas naturais; e me respondeu, o que é certo, que os mesmos veados em as arrancando logo as comem. Mais me admirou que haja animais que comam e possam digerir ossos mais duros que pedras! Mas que muito, se há aves que comem e digerem ferro, quais são as emas!
Conforme a estes exemplos, também nos homens há estômagos que não cozem muitos manjares, como a fonte de Ouguela, o forno de Pombal, nem os admitem, por bons que sejam, e abraçam outros mais grosseiros, com que se fazem como veados e emas. E se perguntarmos ao filósofo a razão destas desigualdades? Dirá que são efeitos e monstruosidades da natureza, que obra conforme as compleições e qualidades dos sujeitos. O mesmo digo, se houver estômagos que não admitam e cozam bem os pontos e matérias que discursa este Tratado, que não vem o mal da qualidade das coisas que aqui ofereço, senão do mau humor com que as mastigam, mais para as morder que para as digerir. E como o mantimento que se não digere, o estômago o converte em veneno, assim os tais de tudo fazem peçonha, mas que seja teriaga cordial e antídoto escolhido. Como teríaga e como antídoto, proponho tudo para remédio dos males que padece a nossa República.
Se houver aranhas que façam peçonha mortal das flores aromáticas, de que as abelhas tirem mel suave, não é a culpa das flores, que todas são medicinais; o mal vem das aranhas, que pervertem o que é bom. É o juízo humano, assim como os moldes ou sinetes, que imprimem em cera e massa suas figuras: se o molde as tem de serpentes, toda a massa, por sã que seja, fica coberta de sevandijas, como se as produzira e estivera corrupta; e, pelo contrário, se o sinete é de figuras boas e perfeitas, tais as imprime, até na cera mais tosca. Quero dizer, amigo leitor, que se fordes inimigo da verdade, sempre vos há-de amargar e nunca haveis de dizer bem dela, com ela ser de seu natural muito doce e formosa, porque é filha de Deus. Verdades puras professo dizer, não para vos ofender com elas, senão para vos mostrar onde e como vos ofendeis vós a vós mesmo e à vossa República, para que vos melhoreis, se vos achardes compreendido.
E não me digais que não convém tirar a público afrontas públicas de toda uma nação, porque a isso se responde que, se são públicas, nenhum descrédito move quem as repete, antes vos honra mostrando-vos disposto para a emenda, e vos melhora abrindo-vos caminho para conhecerdes o engano em que viveis. E assim protesto que não é meu intento ensinar-vos os lances que nesta “Arte de Furtar” ignoráveis, senão alumiar-vos o conhecimento da deformidade deles, para que os abomineis. Nem cuideis que vos conheço, quem quer que sois, nem que ponho o dedo em vossas coisas em particular. [...]» In Manuel da Costa, Arte de Furtar, 1ª edição de 1743 ou 1744, Lisboa, Editorial Estampa, 2001, Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de FCG/JDACT

A Arte de Furtar. Literatura Panfletária e Satírica. Manuel da Costa. António José Saraiva e Óscar Lopes. «Pelo contrário, a alta burguesia e a nobreza, ainda que sem individualização de pessoas, saem (!?) a escorrer sangue deste cadastro de extorsões e violências que é impossível resumir…»


Cortesia de wikipedia e jdact

(continuação)
«Todavia, insistimos, quaisquer que sejam as interpolações tardias, não há dúvida de que o essencial do livro exprime as preocupações do tempo de João IV encaradas sob o ponto de vista dominante do clero. É frequente a observação de que tais ou tais desmandos se evitariam, caso a incumbência em questão fosse desempenhada por ‘religioso’. Há todo um capítulo (VII) a enumerar os prejuízos que o ‘regime filipino’ acarretara ao clero. Pelo contrário, a alta burguesia e a nobreza, ainda que sem individualização de pessoas, saem a escorrer sangue deste cadastro de extorsões e violências que é impossível resumir.
Considerando o conteúdo do livro ao nível da simples descrição de factos isolados e típicos dos mais variados comportamentos sociais, o seu realismo supera de muito o melhor dos ‘Apólogos Dialogais’, e possivelmente nenhum panfleto da nossa literatura o iguala. Lá surgem, entre outros, casos de ‘estanco’, açambarcamento e monopólio, de géneros de venda, importação ou exportação, na mais diversa escala; casos de especulação com as ‘rendas’ ou títulos de dívida pública, como baixas de cotação artificialmente provocadas e seguidas da sua arrematação pelos próprios intermediários oficiais; casos de aquisição pela Coroa, mediante suborno, de cavalos inutilizados, de bacalhau estragado e de outras mercadorias desvalorizadas, para fornecimento ao exército; casos de alistamento para a tropa ou para a marinha em que se registam contingentes imaginários, depois imaginariamente dispersos, para justificar escuros manejos de fundos, e em que, além disso, a incorporação ou não incorporação forçada de mancebos depende só do preço do suborno, reduzindo numerosas famílias à miséria ou à hipoteca; malversações fiscais; acumulações ou excessivas ramificações burocráticas; sonegação, por parte da nobreza, de bens da Coroa, que as dificuldades políticas da Restauração não permitem recuperar; cursos universitários completados, às dezenas, por interposta pessoa; simples desfalques ou vigarices, em todos os andares do funcionalismo e da vida comercial; viciação ou atraso propositado dos despachos oficiais ou dos processos judiciais; etc., etc.» In Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de FC Gulbenkian/JDACT

domingo, 9 de setembro de 2012

História da Literatura Portuguesa. A Arte de Furtar. Manuel da Costa. António José Saraiva e Óscar Lopes. «Um depoimento literário muito completo e variado acerca da realidade social do tempo do rei João IV. Nela se espelham ao vivo todos os principais problemas em que se debatia a administração interna e todo o jogo das forças sociais»


Cortesia de wikipedia

«Entre as obras de conteúdo panfletário merece atenção especial “Arte de Furtar”, escrita no tempo da Restauração, que excede em interesse informativo e graça literária as obras atrás mencionadas (exceptuando a ‘Fastigímia’) e que ainda hoje ,e lê com agrado, como se verifica aliás pelo número considerável e ainda não devidamente controlado de edições que tem tido.
(…)
A “Arte de Furtar” é um depoimento literário muito completo e variado acerca da realidade social do tempo do rei João IV; nela se espelham ao vivo todos os principais problemas em que se debatia a administração interna e todo o jogo das forças sociais. Trata-se, em grande parte, de um panfleto desmascarador dos vários tipos de logro e irregularidade, ao longo dos diversos escalões da sociedade, desde os mendigos artificialmente chagados e das pequenas trapaças de artífice ‘mecânico’ ou de regateira, até às grandes roubalheiras e compadrios do alto funcionalismo. Tão concretas e precisas são as informações que, além de uma incontestável familiaridade com as secretarias de Estado, não pode deixar de pensar-se que este livro aproveita experiência de confessionário, tanto mais que o autor alude várias vezes à confissão e ao receio do Inferno como única escápula que há para a dissimulação de toda e gente. Por outro lado, se o livro tem interessado sobretudo pelo escândalo e desmascaramento, há também a apontar um seu outro importante aspecto: o aspecto apologético de claro apoio ao rei, decerto João IV, a quem foi dedicado, a quem foi mesmo dado, provavelmente muito antes da sua impressão, a julgar pelo que se diz na alusão que é feita a Manuel da Costa no Arquivo da Companhia de Jesus em Roma.

Com efeito, o livro contém capítulos que são autênticas súmulas para uso régio, como o capítulo XVI, que discute os direitos dinásticos dos Filipes e da Casa de Bragança à Coroa Portuguesa; o capítulo XXI, que é um resumo das normas de direito natural e internacional referentes à guerra; o capítulo L, que sumariamente define um conceito de soberania e discute a jurisdição régia a respeito do clero; e o capítulo final, que recapitula a série de medidas anteriormente sugeridas ao rei para se pôr cobro aos desmandos indicados.
Sob o aspecto jurídico, as teses da “Arte de Furtar” são fundamentalmente as mesmas que vamos encontrar nos doutrinários seus contemporâneos. Sublinhemos a tese, característica dos jesuítas da Restauração, segundo a qual a soberania vem de Deus para os reis, não imediatamente, mas através de um pacto de sujeição dos respectivos povos, que estes não têm a faculdade de revogar ou limitar (capítulo L).
O autor aspira, pois, a um reformismo regalista, ainda fora dos moldes pombalinos da ‘Dedução Cronológica’ (dentro dos quais o rei governa por delegação divina imediata e, portanto, ‘de ciência certa e poder absoluto’, e estabelece uma fundamentação acentuadamente teológica da política e da moral, como na época se encontra mesmo em doutrinários laicos como António Sousa Macedo. Mas não é menos sensível a preocupação de definir as prerrogativas régias perante Roma:
  • O papa não é senhor temporal de tudo, porque Cristo só o poder espiritual lhe deu, e o temporal só os povos lho podiam dar, e consta que não lho deram.
Arrostando com o riso de que ‘lhe levantem que sente mal do eclesiástico’, o autor condena a excessiva sonsa, ‘perto de um milhão’, que trienalmente em Portugal se gasta em “demandas de lana-caprina” junto da Cúria Romana, pois ‘há neste Reino dez mil frades, e mais de quinze mil freiras, e mais de trinta mil clérigos, e mais de cinquenta mil embaraços de consciência em leigos’. Se ligarmos estas frases com a frouxa apologia de ‘certos servos de Deus a quem murmurações chamam por desdém da Apanhia, levantando-lhe que mandam olhar a gente para o céu enquanto lhe apanham a terra’ e com uma exaltação da intolerância inquisitorial completamente oposta à tese que a Companhia de Jesus sustentou sob João IV (capítulo LX), torna-se problemática a autoria do jesuíta Manuel da Costa. Deve notar-se no entanto que este não era bem visto pelo confrade que o identifica como autor, e que foi castigado pelos seus superiores com o afastamento para o Algarve. É de admitir que o texto inicial tivesse sofrido interpolações e modificações por parte do livreiro que parece ter especulado com as primeiras edições do livro em 1744 ou pouco antes. Isso explicaria, entre outras coisas contraditórias, a inserção de dois capítulos (XLV e XLVI) inconfundivelmente decalcados de António Vieira quanto ao estilo e quanto às teses:
  • ‘O dinheiro é o nervo da guerra, e onde falta, arrisca-se a vitória’;
A condenação formal da escravatura, o elogio da missionação e, indirectamente, da Companhia de Jesus. Todavia, insistimos, quaisquer que sejam as interpolações tardias, não há dúvida de que o essencial do livro exprime as preocupações do tempo de João IV encaradas sob o ponto de vista dominante do clero». In Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de FC Gulbenkian/JDACT

sábado, 23 de julho de 2011

Centro de Arte Moderna da FCG: Apresenta retrospectiva de João Penalva. Trabalhos com texto e imagem. «Trata-se de uma obra onde ler e ver são actos fundamentais. Nada do que parece é, nada daquilo que pensamos estar a ver ou a ler é de facto o que temos frente aos olhos»

Cortesia de anniene

CAM apresenta retrospectiva de João Penalva. Trabalhos com texto e imagem. Até ao pf dia 9 de Outubro de 2011.
«João Penalva, um dos mais internacionais artistas portugueses, apresenta no Centro de Arte Moderna, CAM, a sua exposição mais retrospectiva de sempre e a maior realizada, até agora, em Portugal. A mostra vai abranger as múltiplas facetas do seu trabalho, desde a pintura dos anos 90 até às instalações e filmes que criou a partir do final dessa década, ocupando todos os espaços expositivos do CAM, à excepção do piso com a colecção permanente. Serão ainda apresentadas duas obras inéditas. Com curadoria de Isabel Carlos, parte da mostra será exposta na Kunsthallen Brandts, Dinamarca, no próximo ano.
O título, Trabalhos com Texto e Imagem, remete para as referências fundamentais da sua obra:
  • o teatro,
  • o cinema,
  • a narrativa,
  • o texto.
Trata-se de uma obra onde ler e ver são actos fundamentais, e que nos alerta permanentemente para os mecanismos da percepção e da interpretação, desmontando-os e isolando-os. Nada do que parece é, ou melhor, nada daquilo que pensamos estar a ver ou a ler é de facto o que temos frente aos olhos.


Cortesia de fcg

A tradução e o recurso a várias línguas, do esperanto ao russo, passando pelo japonês, o português e o inglês, são outros elementos fundamentais na sua obra, a que não será alheio o facto de viver há mais de quarenta anos em Londres.
Bailarino, pintor, actor, escritor, tradutor, gráfico, curador, cineasta, fotógrafo – João Penalva circula por todos estes papéis, e, por extensão, movimenta-se entre o universo da escrita e o universo das imagens criando um lugar único e simultaneamente universal. É esse lugar único que esta exposição pretende mostrar. Curadoria, Isabel Carlos». In Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia da FCGulbenkian/JDACT

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Biblioteca Nacional de Portugal: Doação do filósofo Delfim Santos. «O espólio, que agora a Família generosamente doou à Biblioteca Nacional de Portugal, integrando o seu Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, será entregue por fases. Permitirá aos investigadores estudar sobre fontes primárias o percurso e pensamento de Delfim Santos, autor cujas obras completas têm a chancela da Fundação Calouste Gulbenkian»

Cortesia da bnp

O espólio do filósofo e pedagogo Delfim Santos (1907-1966) foi doado à Biblioteca Nacional de Portugal pelos herdeiros do escritor representados pela viúva, Doutora Maria Manuela Hanemann Saavedra de Sousa Marques Pinto dos Santos.

Delfim Pinto dos Santos, natural do Porto, licenciou-se em Ciências Histório-Filosóficas na Faculdade de Letras do Porto, onde teve como mestre Leonardo Coimbra e por condiscípulos Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro, José Marinho ou Santana Dionísio. Tendo iniciado a vida activa na arte da ourivesaria, na empresa de seu pai, aos 18 anos completa, em um ano como aluno externo, os estudos preparatórios na Escola Mouzinho da Silveira e o curso geral no Liceu Alexandre Herculano.

Concluída a licenciatura em 1931, inicia uma profícua carreira como docente, em colégios particulares, depois no Liceu Normal de José Falcão em Coimbra, onde inicia o estágio que vem a concluir no Liceu Normal de Lisboa (Pedro Nunes). Em 1934, é professor no Liceu Gil Vicente, em 1942 professor de Filosofia no Liceu Camões e, em 1943, ingressa, como assistente da Secção de Ciências, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde, em 1948, ano em que obteve uma bolsa para especialização em orientação vocacional e profissional nos EUA, passa a professor extraordinário e, em 1950, a professor catedrático.

Cortesia de bnp

Na segunda metade da década de trinta do século passado, Delfim Santos aprofunda os seus conhecimentos, como bolseiro do Instituto para a Alta Cultura, em Viena (1935), Berlim, Londres e Cambridge, familiarizando-se com a Filosofia das Ciências e a Metafísica do Conhecimento. Em 1937, inicia o leitorado em Berlim e desenvolve divulgação cultural no Instituto para Portugal e Brasil da Universidade dessa cidade. Em 1940, doutora-se na Universidade de Coimbra, com a tese Conhecimento e Realidade. Em 1958 é professor no Instituto de Altos Estudos Militares, cargo que manterá até 1962. Em 1963 é Director do recém-formado Centro de Investigação Pedagógica da Fundação Calouste Gulbenkian e, em 1966, pouco antes de morrer, é nomeado Director do Instituto Pedagógico de Adolfo Coelho da Faculdade de Letras de Lisboa.

Ao longo da sua carreira Delfim Santos participou e proferiu conferências em diversos congressos nacionais e estrangeiros e colaborou em numerosas publicações periódicas, entre as quais a revista A Águia, de que chegou a ser director, Revista de Portugal, Presença, Revista do Porto, Inquérito, Diário Popular, Revista da Faculdade de Letras, Litoral, O Mundo Literário, Escola Portuguesa, Revista Brasileira de Filosofia, Arquivos da Universidade de Lisboa ou Diário do Norte. Algumas dessas colaborações foram editadas em separatas. Publicou ainda, por exemplo, Linha Geral da Nova Universidade de Coimbra (1934), Situação Valorativa do Positivismo (1938), Da Filosofia (1939), Conhecimento e Realidade (1940), Notes pour une Étude sur Descartes (1944), Fundamentação Existencial da Pedagogia (1946), Meditação sobre a Cultura (1946), A Criança e a Escola (1959), tendo prefaciado e preparado introduções e versões de obras de autores como Friedrich Nietzsche, Régis Jolivet, Hermann Hesse e Karl Jaspers.


Cortesia de museusportugal e delfimsantos 

O espólio, que agora a Família generosamente doou à Biblioteca Nacional de Portugal, integrando o seu Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, será entregue por fases. Permitirá aos investigadores estudar sobre fontes primárias o percurso e pensamento de Delfim Santos, autor cujas obras completas têm a chancela da Fundação Calouste Gulbenkian». In Biblioteca Nacional de Portugal.

Cortesia de BNP/JDACT

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Fundação Calouste Gulbenkian: Doris Salcedo expõe no Centro de Arte Moderna. «Plegaria Muda»

Cortesia de alexanderandbonin

Doris Salcedo expõe no CAM.
Inaugura a 10 de Novembro de 2011, no Centro de Arte Moderna, a grande exposição Plegaria Muda, da artista colombiana Doris Salcedo.
Plegaria Muda (Oração Silenciosa) é uma instalação constituída por 166 peças escultóricas, pensada a partir da história recente da Colômbia, da sua natureza violenta e dos muitos jovens assassinados e enterrados anonimamente em valas comuns. É uma obra impregnada de luto e memória, mas também de perseverança de vida.

Foto de Oscar Monsalve
Cortesia de gulbenkian

A exposição resulta de uma proposta do CAM lançada à artista, a que se associou o Moderna Museet de Malmö (Suécia), onde Plegaria Muda estará patente até ao início de Setembro. Entre 2011 e 2012, outras instituições museológicas internacionais, como o MUAC na Cidade do México, o MAXXI de Roma e a Pinacoteca do Estado de São Paulo, acolhem igualmente esta exposição, com curadoria de Isabel Carlos, directora do CAM.
Doris Salcedo, que vive e trabalha em Bogotá, participou na 8ª Bienal de Istambul, em 2003, e foi em 2007 a artista convidada a intervir na Turbine Hall da Tate Modern, em Londres». In Fundação Calouste Gulbenkian.

Cortesia de FCG/JDACT

domingo, 10 de julho de 2011

Fundação Calouste Gulbenkian. Jazz em Agosto 2011: Programação da 28ª edição do festival de Jazz. «desenrola-se de 5 a 14 de Agosto com seis concertos principais no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian, o seu espaço anfitrião»

Cortesia de fcg

Jazz em Agosto 2011.
Programação da 28ª edição do festival de Jazz.
«O Jazz em Agosto continua a apresentar, em 2011, o outro lado do jazz com formações e músicos incontornáveis, numa programação que demonstra a capacidade de mudança e inovação do jazz contemporâneo.
A 28ª edição do Festival desenrola-se de 5 a 14 de Agosto com seis concertos principais no Anfiteatro ao Ar Livre da Fundação Calouste Gulbenkian, o seu espaço anfitrião.
A abrir esta edição do Jazz em Agosto uma das figuras emblemáticas dos últimos 50 anos de história do jazz, a par de Ornette Coleman e John Coltrane External Link:
  • o pianista Cecil Taylor que, numa aparição rara a solo, apresenta o lado intimista e multidimensional da sua obra.
Revisitando a história do jazz numa leitura que realça os antagonismos do género com uma lógica inquestionável, Ingrid Laubrock, saxofonista alemã com carreira ascensional em Londres e Nova Iorque, traz ao Jazz em Agosto o Quinteto Anti-House, constituído por músicos que se destacam individualmente e que interagem com extraordinária eficácia.
O trompetista Wadada Leo Smith, um dos fundadores da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians, Chicago), apresenta o Noneto Organic, citando o início do período eléctrico de Miles Davis External Link, quando se comemoram os 40 anos do seu álbum seminal Bitches Brew, num concerto que será enriquecido pelas imagens em tempo real do VJ Jesse Gilbert.

Cortesia de fcg

Peter Brötzmann, saxofonista e clarinetista considerado como farol da improvisação europeia e que celebra 70 anos em 2011, sobe ao palco com o Quarteto Hairy Bones, um novo projecto com raízes no Quarteto Die Like a Dog (presente no jazz em Agosto 2000), que conta com uma nova secção rítmica, explorando e renovando o espírito libertário do freejazz.
Uma recente e inesperada formação sobe ao palco do Anfiteatro ao Ar Livre para apresentar mais um concerto raro: The Ex-Guitars meet Paal Nillsen-Love/Vandermark Duo e que cozinham uma mistura de rock radical e improvisação jazz, com referências John Coltrane External Link, Sonny Rollins e Albert Ayler, numa conjugação intensa e contemporânea de universos tão próximos como antagónicos.
John Hollenbeck, baterista, compositor, arranjador, à cabeça da sua orquestra, herdeiro estético da Third Stream, encerra o Jazz em Agosto 2011 numa Première europeia do seu Large Ensemble, uma orquestra de 18 músicos de excepção que redefine o tradicionalismo da big band, esbatendo fronteiras com criatividade.
Para além dos concertos no Anfiteatro ao ar Livre, este ano o Jazz em Agosto estende a sua programação, ao longo da semana, a um espaço recente e alternativo da cidade, o Teatro do Bairro (Bairro Alto). Retomando o espírito do clube de jazz, num ambiente mais informal, serão apresentados neste teatro concertos arrojados e experimentais de pequenas formações de jazz.
A programação do Jazz em Agosto no Teatro do Bairro é inaugurada com Luís Lopes Humanization 4tet, uma formação que reúne dois portugueses, Luís Lopes (guitarra eléctrica) e Rodrigo Amado (saxofone), com os dois descendentes de Dennis Gonzales, Aaron (contrabaixo) e Stefan (bateria).

Cortesia de fcg

Darius Jones, promissor saxofonista, apresenta o Quarteto Little Women, uma formação que solta música explosiva através de dois saxofones uníssonos apoiados por guitarra eléctrica e bateria.
FIRE!, um novo projecto de Mats Gustafsson com músicos mais jovens conjuga música para amantes de freejazz, electrónica e heavy metal, num concerto que expande o jazz a limites inesperados.
Após cada concerto, DJ e VJ Johnny prolonga as noites do Teatro do Bairro com música mixado ao vivo, transformando temas de jazz com sonoridades funk, e imagens em tempo real.
A programação do Jazz em Agosto inclui ainda a exibição inédita, na Sala Polivalente do Centro de Arte Moderna, de filmes documentais que aprofundam a programação da 28ª edição, num horário que antecede os concertos do Anfiteatro ao Ar Livre.

Cortesia de fcg

Cecyl Taylor: All The Notes, de Chistopher Felver, realizador de filmes sobre John Cage e Sonic Youth, um retrato do dia-a-dia de Cecil Taylor documentado por personalidades como Elvin Jones e Amiri Baraka.
Black February: A Film about Butch Morris, de Vipal Monga, revisita o criador do sistema da Condução. Presente no Jazz em Agosto 2009, a invenção de Butch Morris é aqui comentada por músicos como Henry Threadgill, Graham Haynes, entre outros.
Playing your own thing: A story of Jazz in Europe, de Julian Benedikt, uma viagem através da história do jazz, que marcou a vanguarda europeia no Pós-Segunda Guerra Mundial, e um relato fidedigno que reflecte a diversidade estilística que sempre caracterizou o jazz na Europa.
Femmes du Jazz/Women in Jazz, de Gilles Corre, documenta o jazz tocado e composto no feminino por personalidades heterogéneas, de Marilyn Crispell a Sylvia CuenKa e Jeanne Lee, entre outras.
O Jazz em Agosto encerra a programação das 18h, no dia 14, com uma conferência proferida pelo crítico de jazz Bill Shoemaker, coordenador do jornal online Point of Departure e colocará bases teóricas à programação do festival». In Newsletter.


Cortesia da FCGulbenkian/JDACT

Vasco Mouzinho: Santa Isabel, Rainha de Portugal. Parte 1. Canto V. «Isabel interpõe-se entre os exércitos de D. Dinis e do filho, o príncipe Afonso; Isabel exalta o amor à terra-mãe; os soldados largam as armas»


Cortesia de artvalue e ascoisassaocomosao

Santa Isabel, Rainha de Portugal
Canto V: Isabel interpõe-se entre os exércitos de D. Dinis e do filho, o príncipe Afonso; Isabel exalta o amor à terra-mãe; os soldados largam as armas.

Canto Quinto
Estão os esquadrões de fronte a fronte
E longe cada qual o temor bota,
E já se vê, pelo ar de outro horizonte,
De abuitres feros sanguinosa frota
Que, ora assombrando o vale, agora o monte,
Espera pela mísera e triste rota.
Sente Isabel; e quão dePressa pode,
A tamanho desastre logo acode.

Chegando ao duro campo, que coberto
De armada gente estava em próprio dano,
Não crendo tanto o mal que viu de perto,
Caiu no verdadeiro desengano.
Estende por aquele desconcerto
Os olhos tristes e, do peito humano,
Estas palavras lastimosas solta,
Com voz em brandas 1ágrimas envolta:

É possível que veja o mal que vejo?
A isto me trouxestes, dias tristes?
Não me levareis num melhor ensejo
Quando algü' hora alegre me sentistes.
Olhai em que parou um vão desejo,
Vós outras que também filhos paristes!
Desejei filhos, filho do Céu tive,
Que para minha pena e mágoa vive!

Qu'é isto, Portugal, que determinas?
Contra tuas entranhas te embraveces?
Quinas de Portugal, contra outras quinas
A ti próprio desamas e aborreces?
Não te move teu sangue. Não te inclinas
À tua piedade. Em sede creces
De tua desestrada, própria morte;
Contra ti mesmo te assinalas forte.

Que farás, triste filho, se te achares
C'o pai diante do sanguino braço?
E tu, pai, se c'o filho te encontrares,
Que farás nesse lastimoso passo?
Firir, crueza; e, quando atrás tornares,
Covardia; confuso, então, te faço.
Mas, ai, temo crueza nunca usada,
Que atrás não torna mais a nua espada!

Que dirão, quando virem que por nada,
Por um pedaço de pequena terra,
Que por morte há-de ser enfim herdada,
Amor e obediência se desterra?
Que seria, se fosse demandada
A parte que o Sol vê quando se encerra
No largo mar, e quando, do Oriente,
Mostra a dourada face a Ocidente?

E aquela também que longe toca
Com raio oblíquo, ou a gelada e fria
C'o Norte, ou a mais quente com a boca
Do Sul, ou quanto enfim conhece o dia,
Se a tanto isto tão pouco nos provoca,
Quão diferente então tudo seria!
Mas, ai, que digo, se co'a mesma sede
Um só ponto da terra hoje se pede!

( ... )

Vasco Mouzinho, in «Discurso sobre a vida, e morte de santa Isabel Rainha de Portugal e outras várias rimas, Lisboa 1596.

Cortesia de FCGulbenkian/JDACT