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sexta-feira, 12 de julho de 2024

Fernando Campos. Psiché. «Uma caixa de fósforos, se faz favor. O gesto mecânico do empregado, olhar distante, rosto enjoado, passando o pano sórdido sobre o mármore do balcão…»

jdact

A memória do esquecimento

«Levanto‑me. Vou comprar qualquer coisa e depois venho olhando de frente, digo, deixando António a puxar de um cigarro. Caminho até ao bar. Uma caixa de fósforos, se faz favor. O gesto mecânico do empregado, olhar distante, rosto enjoado, passando o pano sórdido sobre o mármore do balcão, os ombros e a cabeça recortados na superfície polida do grande espelho que corre a todo o comprimento da parede. Procuro nos retalhos de imagens, entre prateleiras de garrafas, reconstituir o cenário atrás de mim, enquanto pago os fósforos. No embaciamento daqueles estilhaços de prata velha a custo reconheço António sentado à mesa e, três filas além, a mancha de um vestido claro, uma vaga sombra de mulher que se ergueu e se afasta. Volto‑me para regressar. E este voltar‑me... Como o virar de página do tempo! Trinta anos transcorridos!... Aquele meu voltar‑me para não encontrar ninguém! Apenas uma mesa vazia. No pires, junto à chávena, um guardanapo de papel amarrotado, uma ponta de cigarro esmagada... Perdi para sempre a ocasião de alguma vez me encontrar com ela? De saber quem era?... Os anos desataram a transformar em húmus e a diluir em éter, numa vertigem, aqueles que foram protagonistas ou meras testemunhas desses insólitos acontecimentos. Caíram na voragem novos e velhos: Silva Lisboa, Albertina, outros... Os que ficaram, ainda quando aqui e ali roçaram por eles vestígios vivos desse passado, fecharam‑se numa cómoda ausência de curiosidade ou uma estudada distanciação e apatia. Como que acabaram por esquecer.

Nem esquecer‑me nem lembrar‑me podia eu. Factos que mal conhecera fragmentariamente esbateram‑se em nebuloso fundo de outras preocupações que vieram relevar‑se longos anos, em nitidez e luz, na ribalta da vida. Andanças de errante saltimbanco do ofício de professor... Terras distantes escondidas nas voltas das estradas, no tramontar das serras.... Muralhas tisnadas dos séculos e dos sonhos, vigiando a veiga expectante e úbere do vale imenso... Perfumes e cores exalando‑se do seio do oceano na ilha perdida como nenúfar que floriu no cume de um vulcão extinto... Banho de brancura luminosa, olhos magoados da claridade do céu e da cal de paredes e açoteias mouriscas... Maresia ribeirinha de gaivotas e traineiras ondulando no porto fenício... Até vir aproar na cidade de Ulisses a lustrar‑me de rosa... Que me chamou então de novo, decorrido tanto tempo, a atenção para o mistério?...

Toma!‑ disse‑me Fernanda um dia ajoelhada no chão à boca da antiga mala abaulada, enquanto me ia entregando livros, embrulhos, velhas fotografias. "Esta mala! Viajou connosco tantos anos por todo o lado!...E parava, cansada, com as mãos no regaço, o olhar tresmalhado no passado. De súbito acordava e tornava a mexer na papelada. Estes são os álbuns dele. Que canseira miúda e aturada! As mãos dele! Estou a vê‑las, habilidosas, a recortar, a colar... Que paciência! Coligidos quase dia a dia, recortes de jornais, postais ilustrados, recordações dos teatros em que actuou, de amigos, artistas, personalidades que conheceu... O desnovelar da vida!... Tudo passou!» In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

JDACT, Fernando Campos, Conhecimento, Educação, Literatura, A Arte,

Fernando Campos. Psiché. «Uma caixa de fósforos, se faz favor. O gesto mecânico do empregado, olhar distante, rosto enjoado, passando o pano sórdido sobre o mármore do balcão…»

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A memória do esquecimento

«Pairava no ar um certo receio de se virem a descobrir realidades penosas que fossem contra as conveniências. Ela, sim. Sentia‑se desinibida à beira dele, a conversar com ele. O visconde de Cairu? surpreendi‑a uma vez a perguntar‑lhe. É verdade, respondia ele. E o pai?... Como é que o vovô soube?..., tornava ela. E ele lá contava, com a voz um pouco sumida, à puridade, a estranha história... Flanela azul às riscas... sentado na borda da cama..., o faiscar do anel no dedo mindinho... Basta um pormenor para lhe avivar a imagem! Ela estendia‑lhe as mãos de costas para cima. Ah! É um rapaz! Vou ter um bisnetinho! Mas a vinte e seis de Dezembro nascia uma menina que ele já não pôde conhecer. Foi por isso que não desci esse Natal ao Porto. Tampouco pela Páscoa me fiz à estrada. Tinha, entretanto, tirado a carta e comprara um carro, motorizando‑me, fazendo preito ao progresso. Só lá para os fins dos exames, em Julho, princípios desse outro Agosto, de cinquenta e seis, cheguei do nordeste, nos olhos ainda a longa negra fita de alcatrão ou paralelipípedos a enrolar‑se no galgar dos quilómetros, nos rins o cansaço das intermináveis horas sentado ao volante do Volkswagen, que vinha todo vomitado das voltinhas do Marão. Foi António o primeiro que falou. Não porque sentisse necessidade de abordar o assunto. Aliás, posteriormente, quando eu já me encontrava senhor dos acontecimentos, compreendi aquele como que preconceituoso pudor da família em rodear o caso de um espesso mutismo. O que o fez falar foram as circunstâncias... Aí estava ela! Não, não olhasse ainda, para não dar nas vistas!... A mesa da terceira fila, atrás de mim...

Animava‑se o café àquela hora, onze e meia da manhã, acabada a missa. Homens fumando, chávena vazia à frente ou por instantes aflorada aos lábios, jornal aberto, folheado, saboreado. Fatos cuidados, na ausência de nódoa ou enxovalho, no vinco recente da calça. Barba escanhoada, camisa lavada. Catarro matinal, tabacal. Aos pés de um deles, cabelo ralo todo lambido de brilhantina, para trás, cara chupada, o macaco coçado, os tornozelos escanzelados a saírem das peúgas lassas e do calçado cambado, faz o engraxador chiar e estalar a tira de pano lustroso ao polir do sapato. Dá‑se um casal ao luxo da fofa loira torrada com manteiga, em palitos, lambuzando os dedos. Os dela são papudos e brilham de jóias. Por detrás do tinir das xícaras, pires e talheres, das vozes dos empregados de mesa a comunicarem ao bufete os pedidos dos clientes (Sai um galão! Três pingos e um copo de leite com canela!...), por entre a névoa que paira no ar, misto de fumo e de vapor que embacia as vidraças, vêm de fora as vibrações do tanger dos sinos. Coisa concreta, que quase se corta à faca, a respiração e o perfume domingueiro. Que semelhança!, continuava António. Enquanto o escutava, eu ia esperando a oportunidade de me voltar para trás. Aparecia por ali muitas vezes, no Amial, dizia a voz dele. Morava talvez perto ou então andava a espiá‑lo, a persegui‑lo. Isto pelo menos era o que insinuava sua mulher, a Catalina, desconfiada... Cruzava com a desconhecida na rua, nos lugares mais diversos e imprevisíveis da cidade, na Cordoaria, na Avenida dos Aliados, na Lapa. Olá, sobrinho!, palavras dela no ar quando passava... As feições um pouco menos amaciadas mas muito parecidas com as de Fernanda e com um retrato antigo que ele vira da avó Ana... Teria aí uns vinte e dois anos. Parece que aquilo fora caso acontecido aquando da morte de Raquel... Estranha coincidência! O nascimento e a morte! Para Silva Lisboa tornara‑se motivo de funda meditação. Albertina, porém, não podia admitir a junção dos dois factos, das duas dores a lancear‑lhe a alma. Em cima da perda da filha, aquilo!... Olá, sobrinho! Que queria tudo isso dizer?...» In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

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Fernando Campos. Psiché. «Ela estendia‑lhe as mãos de costas para cima. Ah! É um rapaz! Vou ter um bisnetinho! Mas a vinte e seis de Dezembro nascia uma menina que ele já não pôde conhecer»

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A memória do esquecimento

«O telefone tocara no meio da barafunda do início do ano lectivo e das preocupações. Não se deve expor a uma tal viagem agora, foi a proibição do Mário Carneiro. Nem pensar! Ela concordava, virava‑se para mim: tu... Também não podes ir. Não há ninguém para te substituir no colégio. Foi assim que não estive presente no funeral de Silva Lisboa. Escrevo Silva Lisboa e não meu avô porque, como narrador que conta os factos muitos anos volvidos, desejo aproveitar esse distanciamento para ganhar a perspectiva e imparcialidade possíveis e desfazer a natural emoção. Silva Lisboa e Albertina, Raquel e Alberto Tavares, Fernanda e Alberto Campos..., e Mário..., e Ana de Jesus..., e Maria José..., e João..., e Josué..., e a desconhecida... Pessoas, personagens de romance. Lembro a última imagem que dele me ficou. Chegara o fim de Agosto e partíamos, eu e Maria Olga, com as duas filhas, acabadas as férias grandes, para o nosso castelo roqueiro, por causa da abertura do colégio. Fomos ao quarto dele despedirmo‑nos. Olhou‑nos com um sorriso a disfarçar o ar triste, sentado na borda da cama, seu pijama de flanela azul às riscas. Mostre‑me as suas mãos!, recordo‑lhe a voz dirigindo‑se à Maria Olga. Pegou‑lhas vivamente quando ela as estendeu de costas para cima. Gostava de falar com ela, que tinha muita paciência para o escutar, lhe fazia atenciosa companhia quando lá passávamos uns dias. Deixava‑a arrancar‑lhe pormenores da sua vida que a mais ninguém confidenciara. Talvez porque mais ninguém lhe fazia ou ousava fazer perguntas ou se sentia à vontade para lhas fazer.

Pairava no ar um certo receio de se virem a descobrir realidades penosas que fossem contra as conveniências. Ela, sim. Sentia‑se desinibida à beira dele, a conversar com ele. O visconde de Cairu? surpreendi‑a uma vez a perguntar‑lhe. É verdade, respondia ele. E o pai?... Como é que o vovô soube?..., tornava ela. E ele lá contava, com a voz um pouco sumida, à puridade, a estranha história... Flanela azul às riscas... sentado na borda da cama..., o faiscar do anel no dedo mindinho... Basta um pormenor para lhe avivar a imagem! Ela estendia‑lhe as mãos de costas para cima. Ah! É um rapaz! Vou ter um bisnetinho! Mas a vinte e seis de Dezembro nascia uma menina que ele já não pôde conhecer». In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

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Fernando Campos. Psiché. «Escrevo Silva Lisboa e não meu avô porque, como narrador que conta os factos muitos anos volvidos, desejo aproveitar esse distanciamento para ganhar a perspectiva e imparcialidade…»

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A memória do esquecimento

«Lembrava‑se apenas de que se esquecera... ou esquecera‑se de se lembrar. Que queria? Fraca memória a sua!, suspirava. Os anos!... Fernanda tinha muitas vezes comigo este desabafo e eu tomava‑lhe a preocupação, procurava colar‑lhe os restos das lembranças, reconstituía‑as em mantas de retalhos, a tentar conservar o calor das veias, a cor das faces, o brilho de um olhar, o tom de uma voz, o latejar dos corações atingidos pelo gelo do tempo que chegou ao seu limite... Procurar trabalhar a matéria perpetuável, no limiar do eterno... e transpô‑lo! Tomar o esquecimento e recolocá‑lo na memória! Repor a memória no pedestal do esquecimento, na cidade indiferente e distraída..., nas cidades, vilas, aldeias e lugares distraídos e indiferentes por onde Silva Lisboa espalhou a rodos a fantasia e o riso!... Antes que o verme pontual e infalível roa com suas mandíbulas tenazes os últimos músculos putrefactíveis, ainda vivos, que o sal do artista fez contrair num sorriso, vibrar e estalar numa gargalhada. Fixar as recordações para ao menos essas se não transformarem em cinza!... Descuidados que somos até da única certeza indesmentível! Dir‑se‑á não querermos acreditar que nascemos mortais. Surpreende‑nos sempre desprevenidos a notícia da morte. A carta, o telegrama que nos bate à porta quando se está longe. O telefone que toca como tantas vezes rotineiras... Está? Fernando?, Sim. É para te dizer que o avô...

O gesto lento, interiorizado, de pousar no descanso o telefone. Então aquele foi mesmo o último suspiro?... E aquele corpo vai arrefecer?... Do espantoso lance teatral inesperadamente surgido no cemitério junto ao corpo exânime do actor, ao fechar do caixão, quando o padre pronunciava as últimas encomendações, lançava as derradeiras aspersões de água‑benta, traçava no ar a cruz do requiem e um coveiro avançava com a pá de cal viva, far‑me‑iam relato mais tarde os parentes que assistiram. Estranha realidade: nenhuma das versões é coincidente! Eu encontrava‑me no norte, para lá das montanhas, desmaiava Setembro. Grande a azáfama do abrir das aulas. A mulher, pesadona, a três meses do fim do tempo. Eu não possuía ainda carta nem carro nesse tempo e a única possibilidade de me deslocar para ir assistir ao enterro era aquele comboiinho de brincar que levava meio dia a chegar, depois de fumegar e resfolegar as voltinhas gaiatamente apitadas, trepando a montes de vento e lobos, espreitando telhados isolados, adormecidos em vales perdidos, bordejando pegos e córregos de vertigem. Apareciam os pais a trazerem os filhos para o internato, os professores vinham pelos horários e as cadernetas. Tudo eu fazia ali, naquele colégio que era de brincar como o comboio. A única coisa bonita que tinha era estar alcandorado nas velhas muralhas medievais bordadas de lírios a olhar o rio largo e lento sob a ponte de Trajano. De resto achava‑me praticamente só num barco a naufragar. Trinta alunos que mal davam para as despesas, um sócio que fugira mal cheirara o descalabro, deixando‑me com as suas dívidas. Director, prefeito, administrador, professor de tudo e mais alguma coisa, português, francês, inglês, desenho, treinador de jogos, para evitar ter de pagar a outros aquilo que eu não recebia. Vinte e seis anos de idade..., a construção do meu futuro!».. In Fernando Campos, Psiché, Difel, Lisboa, 1987, Dl nº 83973.

Cortesia de Difel/JDACT

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quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Educação e Emancipação. Theodor W. Adorno. «Adorno combate numa dupla frente: a um tempo contra a ‘falsa cultura’ e a favor da “cultura”. Intervém sem a empostação fria falsamente engessada, mas sem distanciar-se do rigor»

Cortesia de wikipedia

«Pessoas que se enquadram cegamente no colectivo fazem de si mesmas meros objectos materiais, anulando-se como sujeitos dotados de motivação própria. (...) Inclui-se ai a postura de tratar os outros como massa amorfa. Uma democracia não deve apenas funcionar, mas sobretudo trabalhar o seu conceito, e para isso exige pessoas emancipadas. Só é possível imaginar a verdadeira democracia como uma sociedade de emancipados. (...) A única concretização efectiva da emancipação consiste em que aquelas poucas pessoas interessadas nesta direcção orientem toda a sua energia para que a educação seja uma educação para a contestação e para a resistência. Estes são textos de intervenção viva, densos mas fluentes e brilhantes, contrariando a imagem de um pensador de difícil acesso. A influência de Adorno é crescente, como acontece em maior ou menor medida ao conjunto chamado escola de Frankfurt. Nem poderia ser diferente: um pensador comprometido com os problemas do trabalho social e da sociedade de classes (ao contrário de Habermas), que não se encontra praticamente tolhido por uma forma social concreta de sujeito histórico (partido etc.) não poderia ser mais actual em tempos de queda do muro. Ainda mais quando provem da cultura burguesa e argumenta de modo intelectualmente inconteste para os seus adversários, apologistas da inevitabilidade da formação social burguesa existente. Adorno ficou conhecido, ao lado de Horkheimer, como autor da Dialéctica do Esclarecimento, onde cunharia o conceito famoso de indústria cultural, e que, vinte anos apos a primeira e acanhada edição em 1947, circularia em grande número de cópias-pirata entre os estudantes e rebeldes de 68. Desde o fim da década de 50, Adorno valorizaria progressivamente as suas intervenções públicas, em debates com os estudantes radicais junto a Habermas, com os movimentos sociais e sindicatos, com Oskar Negt, influenciando o Cinema Novo Alemao, com Alexander Kluge etc. No seu pais assume grande notoriedade ainda antes de Marcuse, por artigos na imprensa, em revistas e em debates pelo rádio. Nos textos ora em pauta, a amizade com Hellmut Becker estimularia um conjunto de intervenções sobre a temática educacional e formativa. Os próprios textos já fazem as vezes de experiência formativa em uma de suas dimensões fundamentais, em que cabe ao leitor abrir-se a experiência do objecto focalizado, experimentá-lo para tornar-se por esta via experiente e, por isso, autónomo. Para isto impõe-se um contacto aberto. O que perturba, diria nosso autor, é a ruptura entre o que constitui objecto de elaboração e os sujeitos vivos. Alguns textos são ensaios arrebatadores no seu ofício de desencantamento: O que significa elaborar o passado Educação após Auschwitz são verdadeiras aulas de dialéctica. A filosofia e os professores e Tabus acerca do magistério são exemplos de reconstrução do sentido emancipatório da formação cultural, dosando rebeldia e indignação em termos cultivados. Adorno combate numa dupla frente: a um tempo contra a falsa cultura e a favor da cultura. Intervém sem a empostação fria falsamente engessada, mas sem distanciar-se do rigor, atentando minuciosamente a distinção das particularidades sem perder de vista o todo em seu estilo ensaístico». In prefácio de Wolfgang Leo Maar.

Adorno e a experiência formativa
A educação não é necessariamente um factor de emancipação. Numa época em que educação, ciência e tecnologia se apresentam, agora globalmente, conforme a moda em voga, como passaportes para um mundo moderno conforme os ideais de humanização, estas considerações de Adorno podem soar como um melancólico desânimo. Na verdade significam exactamente o contrário: a necessidade da crítica permanente. Após Auschwitz, é preciso elaborar o passado e criticar o presente prejudicado, evitando que este perdure e, assim, que aquele se repita. O filósofo alerta os educadores em relação ao deslumbramento geral, e em particular o relativo à educação, que ameaça o conteúdo ético do processo formativo em função de sua determinação social. Isto é, adverte contra os efeitos negativos de um processo educacional pautado meramente numa estratégia de esclarecimento da consciência, sem levar na devida conta a forma social em que a educação se concretiza como apropriação de conhecimentos técnicos. Parafraseando Adorno no último parágrafo da Minima Moralia, quanto mais a educação procura se fechar ao seu condicionamento social, tanto mais ela se converte em mera presa da situação social existente. É a situação do sonho de uma humanidade que torna o mundo humano, sonho que o próprio mundo sufoca com obstinação na humanidade! O desenvolvimento da sociedade a partir da Ilustração, em que cabe importante papel a educação e formação cultural, conduziu inexoravelmente à barbárie. Ou, para dizer o mesmo pelo reverso: o próprio processo que impõe a barbárie aos homens ao mesmo tempo constitui a base de sua sobrevivência. Eis aqui o nó a ser desatado. A função da teoria crítica seria justamente analisar a formação social em que isto se dá, revelando as raízes deste movimento, que não são acidentais, e descobrindo as condições para interferir no seu rumo. O essencial é pensar a sociedade e a educação em seu devir. Só assim seria possível fixar alternativas históricas tendo como base a emancipação de todos no sentido de se tornarem sujeitos reflectidos da história, aptos a interromper a barbárie e realizar o conteúdo positivo, emancipatório, do movimento de ilustração da razão. Esta, porém, seria uma tarefa que diz respeito a características do objecto, da formação social no seu movimento, que são travadas pelo seu encantamento, pelo seu feitiço. Por isto a educação, necessária para produzir a situação vigente, parece impotente para transformá-la». In Theodor W. Adorno, Educação e Emancipação, tradução de Wolfgang Leo Maar, Editora Paz e Terra, Debates na Rádio Hessen, Agosto de 1969, Escritos, 1975, 1976, 1978, Wipipédia, ISBN 978-857-753-117-2.

Cortesia de Wikipédia/JDACT

domingo, 14 de setembro de 2014

Protestantismo Educação José António Afonso. «… foram lançando corresponde a posicionamentos em contextos sócio-políticos diferentes e vitais na intensa mudança que percorria um Portugal que após 1820 pretendia reerguer-se. “Democracia, tolerância e pluralismo são a ancoragem do liberalismo”»

jdact e cortesia de pedrosalinas

Objecto, metodologia e fontes
«A emergência na sociedade portuguesa de Oitocentos de movimentos acatólicos, que paulatinamente foram ganhando uma relativa expressividade no espaço público, despoletou um conjunto de questões que estavam tacitamente adormecidas, ou que em surdina circulavam nos meios intelectuais mais esclarecidos. Os protestantes, ou evangélicos, agendaram uma paleta de temas que revelando actualidade e oportunidade sócio-política, eram, também, centrais para uma afirmação identitária, como, ainda, cruciais para a inclusão social destes protagonistas novos na dinâmica de uma sociedade que procurava mudar a herança de um Antigo Regime retrógrado e censório. Centrando a discussão, justamente, em torno dos tópicos que consideravam como fundamentais para que um Portugal moderno pudesse ser erguido, os protestantes foram ousados na denúncia de um conjunto de constrangimentos sócio-simbólicos que impediam a libertação do País, arrastando-o para um constante definhar, que acentuava o secular mirramento de um espaço que tinha sido independente e glorioso. Configura-se, com particular ênfase, a invenção de um cidadão capaz de responder, implicando-se, aos desafios que a construção de uma nova sociedade implicava.
A emergência dessa figura cívica passaria indelevelmente pelo trabalho metódico e difuso de integração de um conjunto de geradores de estruturas cognitivas que permitissem a reflexividade definidora de uma alteridade, ou seja, que a consciência da presença de um passado se pudesse transformar num critério de diferenciação. Escolher, objectivamente, é a assunção de um momento de intensa visibilidade, traduzida, também, como modalidade de intervenção, ainda que diversamente matizada, mas, também, a luta que permita que a autonomia se vá desenhando e em que a tónica no opus operatum emerge com nitidez, apesar dos paradoxos, das contrariedades e das hesitações que uma trajectória desta natureza pressupunha. Num outro nível, este processo educativo, encontra expressão num modus operandi que permitiu criar estruturas objectivas que correspondessem a tempos, também, de auto-aprendizagem e de construção criativa de actividades sociais.
Compreender a lógica de participação dos protestantes portugueses, em particular pela sua intervenção nos mecanismos e processos educativos, é no essencial o sentido da nossa sondagem. Entre os finais da década de Sessenta do século XIX e os primeiros Trinta anos do século nascente, a diversidade de propostas que estes protagonistas foram lançando corresponde a posicionamentos em contextos sócio-políticos diferentes e vitais na intensa mudança que percorria um Portugal que após 1820 pretendia reerguer-se. Democracia, tolerância e pluralismo são a ancoragem do liberalismo. Mais do que procurar uma essencialidade nos movimentos protestantes portugueses, insistimos em indagar o tempo de construção de uma identidade, no seu próprio interior, que corresponde a um ciclo de inovação fortemente marcado pelo modo como os protestantes se relacionam com o mundo social, tendo consciência que apesar dos traços comuns que poderiam fazer convergir agentes situados em pólos diferentes no campo das reformas sociais, em muitos tópicos os afastamentos são notórios e flagrantes. Usando uma sugestiva observação de Pierre Bourdieu, arriscamos afirmar que eram agentes contemporâneos de outros protagonistas mas em que temporalmente manifestavam discordâncias. Nesta óptica, aproximamo-nos dos seus discursos com o objectivo de seriar as suas posições e esmiuçando as categorias de percepção da realidade esquiçamos, o que se poderá designar por estratégia de legitimação moral. Acompanhamos o empenho de universalização, destacando duas dimensões. Uma, corresponde a uma afirmação verbal, em que se manifestam as tensões face às condições políticas que legitimam a intolerância, em todas as suas possíveis declinações, e que condicionam o pluralismo, essencialmente o religioso, cuja expressão em todas as esferas sociais tende a configurar regimes de unanimismo que sustentam a sua reprodução. Com intensidade, por vezes inusitada, os protestantes pretendem criar uma clara demarcação face a modelos comuns e banais, prestando uma particular atenção à questão religiosa, mas não olvidando a questão educativa que é abordada com clareza, denotando-se, em alguns aspectos, uma pragmática crítica». In José António Martin Moreno Afonso, Protestantismo e Educação, História de um projecto Pedagógico Alternativo em Portugal na Transição do século XIX, Universidade do Minho, Tese de Doutoramento em História, Braga, 2006.

Cortesia da UMinho/JDACT

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Os dias de Hoje. O Fim da Inocência. Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa. Francisco Salgueiro. «Por detrás das aparências, a realidade é outra, e bem distinta. Inês e os seus amigos são consumidores regulares de drogas, participam em arriscados jogos sexuais e utilizam desregradamente a internet»

Cortesia de wikipedia

«Aos olhos do mundo, Inês é a menina perfeita. Frequenta um dos melhores colégios nos arredores de Lisboa e relaciona-se com filhos de embaixadores e presidentes de grandes empresas. Por detrás das aparências, a realidade é outra, e bem distinta. Inês e os seus amigos são consumidores regulares de drogas, participam em arriscados jogos sexuais e utilizam desregradamente a internet, transformando as suas vidas numa espiral marcada pelo descontrolo físico e emocional. Francisco Salgueiro dá voz à história real e chocante de uma adolescente portuguesa, contada na primeira pessoa. Um aviso para os pais estarem mais atentos ao que se passa nas suas casas». In Sinopse

«Este livro esteve quase para não ser publicado. O conceito e o conteúdo são de tal maneira polémicos que foram necessários muitos meses de negociação para estar hoje nas bancas das livrarias. A minha querida editora X, da Oficina do Livro, acreditou nele e batalhou de forma incansável. Muito obrigado. Faço, ainda, uma menção à Y, que, após tomar contacto com o manuscrito, mostrou um grande entusiasmo».

Nota escrita pela pessoa cuja vida é retratada neste livro
«Hoje em dia os pais têm pouca ideia daquilo que realmente se passa com os filhos. Julgam que as suas adolescências são iguais às que tiveram, e deixam-nos à solta. Acontece que a realidade actual é muitíssimo diferente daquilo que eu oiço dizer que era nos anos setenta, oitenta e noventa. É uma realidade em que o sexo e as drogas fazem parte do dia-a-dia. Se pensar e disser: Com o meu filho isso não acontece, porque é bom aluno e não o educo para se meter nessas coisas, talvez não seja má ideia ler estas frases do livro até ao fim. Eu também era boa aluna e os meus pais não me educaram para me meter nessas coisas. A primeira vez que li um livro do FS devia ter os meus dez anos. Foi o Homens Há Muitos. Havia algo de fálico na capa com a fotografia das cenouras que chamou a minha atenção. Eu sei que pensar em objectos fálicos aos dez anos pode parecer um pouco precoce. Se calhar para quem nasceu antes de 1990. Porque todas nós, que nascemos após essa data, falamos de sexo desde os dez anos. Continuei a ler os livros do FS e sempre tive a ideia de que ele seria uma pessoa a quem eu gostaria de contar a minha história. Uma história real e chocante. Infelizmente, não uma história única, porque à minha volta vi acontecer outras muito parecidas. Este livro é um alerta aos pais, para que estejam mais atentos ao que se passa nas suas casas. Só vocês podem prevenir, para que não aconteça aquilo que vão ler a seguir». Inês

Nota do Autor
«Ao longo de toda a minha vida profissional fui estando muito atento às diferentes gerações de adolescentes que foram surgindo. Escrevia para programas de televisão e sites para esse público-alvo, e achava que sabia tudo sobre eles. Confesso que a minha visão mudou totalmente ao conhecer a Inês. Nessa altura percebi que apenas sabia aquilo que eles queriam que eu soubesse. A Inês deu-me a conhecer o que se passa com os adolescentes portugueses da primeira década do século XXI, assim que fecham a porta de casa e chegam à rua. E o que ela contou deixou-me chocado. Comecei a contactar com a Inês depois de ela me ter enviado um e-mail a dizer que gostava muito de ler os meus livros. Foi mais um entre os inúmeros que recebo. Respondi, como faço sempre, só que a Inês continuou a escrever-me. Em cada novo e-mail contava-me um aspecto diferente da sua vida. Em cada mensagem, uma história mais chocante do que a anterior. Imaginei que tudo não passasse de fantasias de uma adolescente. Até que numa noite ela encontrou-me numa discoteca, onde estava com uns amigos, e veio apresentar-se. Aí percebi que as histórias que me contava eram verdadeiras. E sendo verdade, tudo aquilo representava um choque enorme. Fui estando com a Inês e com os amigos, recolhendo histórias e depoimentos. A primeira ideia era escrever um artigo, mas depois percebi que tinha de ser mais do que isso. Precisava de escrever um livro. Um aviso para os pais, que julgam saber o que os filhos fazem quando não estão em casa. Quero fazer um agradecimento muito especial à Inês, à R, à M, à F, ao B, ao P e ao H, que aparecem neste livro, por me terem confiado as histórias reais que aqui são contadas e por me terem deixado publicá-las. Os nomes são fictícios a fim de proteger as suas identidades. Por questões legais, todos os lugares e nomes de personagens secundárias foram alterados ou omitidos». In Francisco Salgueiro

In Francisco Salgueiro, O Fim da Inocência, Diário Secreto de Uma Adolescente Portuguesa, Oficina do Livro, Lisboa, 2010, ISBN: 978 989 555 19 6.

Cortesia de Oficina do Livro/JDACT

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Escola pública como ‘arena’ política. Contexto e ambivalências da socialização política escolar. José Manuel Resende e Bruno Miguel Dionísio. «… apesar das diferenças de ritmo na sua efectiva realização prática, apresenta efeitos não despiciendos em relação à difusão de um certo perfil de cité política que é já marcante ao longo de todo o século XIX…»

Cortesia de wikipedia

Os processos de escolarização e a constituição da cité política nas sociedades modernas europeias. Pensar a socialização política escolar da escola contemporânea a partir da história da experiência escolar em Portugal
«Num texto recente sobre os processos de construção da alfabetização e da escolaridade: o caso português, António Candeias propõe uma outra forma de reflectir as relações entre a sociedade portuguesa e os processos de aquisição das competências relativamente à escrita. Ao contrário da habitual interrogação sobre as causas do atraso do nosso país face à penetração dos mundos da escrita, o autor sugere ser mais interessante perceber a maneira como, durante o século XX, os portugueses foram constituindo laços cada vez mais firmes com um tipo de cultura escrita, qual o papel que as suas próprias vontades e necessidades tiveram nesse caminho e qual o presumível papel que o Estado e outras instituições, independentemente das ideologias expressas, foram tendo nesta construção de uma sociedade letrada.
Ainda segundo o mesmo autor, uma das etapas fundamentais para se entender a construção dos referidos laços entre os diferentes sectores da população portuguesa com a cultura escrita de tipo escolar passava, por um lado, pela indispensabilidade de se efectuar uma distinção entre os conceitos de alfabetização e de escolarização e, por outro lado, pela indispensabilidade de combinar as metodologias de carácter extensivo e documental com metodologias de carácter intensivo, circunscrito e etnográfico nos estudos sobre esta imbricada relação. Assim, as duas questões assinaladas chamam a atenção tanto para a necessidade de distinguir dois processos de aprendizagem que são muitas vezes confundidos no plano da fundamentação conceptual como para a necessidade de utilizar uma pluralidade de métodos e de técnicas de observação, combinação muito útil para apreender (no sentido de seguir) de uma forma cada vez mais apurada a construção dos sentidos das acções dos indivíduos modernos, quer como indivíduos singulares, quer como indivíduos ligados a distintas formas colectivas.
Insistir sobre a importância de distinguir conceptualmente os processos de alfabetização e de escolarização parece nada ter a ver com as reflexões sociológicas que pretendemos realizar sobre os actuais processos de socialização política dos professores e estudantes do ensino secundário no quadro do Observatório de Escolas promovido no ICS. Num primeiro olhar, tudo indica que não há qualquer relação. Num olhar mais aproximado das interrogações e hipóteses que pretendemos lançar, tal relação não só faz sentido, como é imprescindível. Na verdade, António Candeias faz notar que as transições verificadas entre os processos de alfabetização da leitura e da escrita para os processos de aquisição da cultura letrada de tipo escolar foram decisivas tanto na construção como na consolidação do projecto imaginado de modernidade europeu, sobretudo na sua dimensão política.
Não vamos aqui delinear as diferenças entre cada um destes dois processos nas complexas relações que desenvolvem com a cultura letrada, nem tão-pouco vamos estabelecer as diferenças entre dois tipos de cultura letrada e as suas correspondências com cada um destes processos. O que neste momento nos interessa sublinhar é que a escolarização aparece na modernidade como um processo formal e instituído de transmissão e aquisição da cultura letrada, mas também de submissão de coortes populacionais com níveis etários bem determinados a uma forma de socialização imposta e aplicada através de uma instituição construída expressamente para o efeito […], o que transforma a escola numa instância central que se organiza em rede e se articula com outras formas de educação, sob o comando político, pedagógico e administrativo do Estado.

NOTA: A noção de cité é aqui utilizada a partir do sentido que Luc Boltanski e Laurent Thévenot lhe conferem ao inspirarem-se nas filosofias políticas clássicas que lhe atribuem como objecto a possibilidade de esboçar uma ordem legítima assente em princípios de justiça. A cité política pode assim ser entendida como um modelo analítico que permite identificar os diferentes regimes de justificação que estão na base da crítica, da disputa ou do acordo entre os membros de um mesmo espaço social nas sociedades modernas complexas.

Tendo em conta a distinção operada por Wagner quando este sociólogo reflecte sobre os dois principais tipos de narrativas constitutivas do projecto imaginado de modernidade, a narrativa com o enfoque disciplinar e a narrativa com o enfoque na autonomia, é possível avançar com a hipótese geral de que os processos de escolarização, tal como são apresentados conceptualmente por António Candeias, contribuem para sustentar tanto as teses da disciplina como as teses da liberdade no período de transição entre a modernidade liberal restrita e a modernidade liberal organizada. Seguindo este raciocínio, a natureza institucional do modelo escolar produzido historicamente em toda a Europa, apesar das diferenças de ritmo na sua efectiva realização prática, apresenta efeitos não despiciendos em relação à difusão de um certo perfil de cité política que é já marcante ao longo de todo o século XIX, mas que se torna mais representativo com o triunfo político da configuração administrativa do Estado-nação». In José Manuel Resende e Bruno Miguel Dionísio, Escola pública como ‘arena’ política. Contexto e ambivalências da socialização política escolar, Análise Social, vol. XL, 2005.

Cortesia de ASocial/JDACT

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

A Noite Europeia dos Investigadores. «A NEI 2011, à semelhança de anos anteriores, assume-se como intermediário entre a comunidade científica e o público. Dirija-se ao espaço aderente mais perto de si e venha falar com investigadores, conhecer o seu trabalho, vida, anseios e paixões»

Cortesia de fcg

Noite dos investigadores, amanhã, Sexta-feira, dia 23 de Setembro às 18h30.
Pavilhão do Conhecimento, Centros Ciência Viva do país, Praça da Reitoria da Universidade do  Porto

O que é?
A Noite Europeia dos Investigadores (NEI) permite a cientistas e público geral conviverem num ambiente descontraído. A troca de ideias e experiências que a NEI proporciona pretende contribuir para a construção de uma imagem mais saudável dos investigadores junto do público e demonstrar que, afinal, a ciência não é tão complicada quanto se julga.
A primeira edição da NEI data de 2005. A Comissão Europeia, no âmbito do 7º Programa-Quadro para a Investigação e Desenvolvimento, promove e financia esta iniciativa que ocorre no mesmo dia em diversos países europeus e Israel. Através da realização de actividades que constituem uma boa alternativa ao típico programa de noite de sexta-feira, procura-se criar um ambiente propício à interacção entre a comunidade científica e o público, sejam jovens com interesse em seguir uma carreira na área, crianças e adultos curiosos, professores que procuram dinamizar as suas aulas, ou qualquer outra pessoa em busca de uma noite diferente. Se nunca participou na NEI, 2011 é a oportunidade perfeita para explorar o seu lado racional e conhecer um pouco melhor os cientistas que trabalham para melhorar a sua qualidade de vida.

Para usufruir das actividades que temos preparadas para si não é necessário que o seu sonho de criança fosse ser um Niels Bohr ou uma Marie Curie, basta ter uma curiosidade aguçada e vontade de aprender mais sobre ciência.
A NEI 2011, à semelhança de anos anteriores, assume-se como intermediário entre a comunidade científica e o público. Dirija-se ao espaço aderente mais perto de si e venha falar com investigadores, conhecer o seu trabalho, vida, anseios e paixões.

Cortesia da fcg

O consórcio organizador da edição de 2011 da Noite Europeia dos Investigadores é composto pelas seguintes instituições:
  • Ciência Viva. A Ciência Viva – Agência Nacional para Cultura Científica e Tecnológica foi criada em 1996. Através da Rede Nacional de Centros Ciência Viva, com 20 centros de ciência em todo o país, apoio a projectos e acções de educação científica e ensino experimental das ciências, é considerada uma referência Europeia na promoção da educação e cultura científica e tecnológica. http://www.cienciaviva.pt/
  • CAUP. O Centro de Astrofísica da Universidade do Porto (CAUP) é a maior instituição nacional de Astronomia. Procura desenvolver a Astronomia através da investigação, ensino e divulgação. A estratégia de investigação a longo prazo do CAUP centra-se nas áreas de:
  • 1- Origem e Evolução de Estrelas e Planetas, Galáxias e Cosmologia Observacional. http://www.astro.up.pt/
  • IBMC.INEB. O Laboratório Associado IBMC.INEB (Instituto de Biologia Molecular e Celular . Instituto de Engenharia Biomédica) foi fundado em 2000 e rapidamente se tornou uma instituição de referência. O consórcio acolhe 41 grupos de investigação que desenvolvem a sua actividade nas áreas das Ciências da Vida, da Saúde e da Engenharia Biomédica. Tendo como missão a investigação, formação e desenvolvimento, o L.A. tem vindo a estabelecer parcerias com diversas instituições de ensino superior, de investigação e centros hospitalares, bem como com entidades governativas e com o tecido empresarial. http://www.ibmc.up.pt/ ; http://www.ineb.up.pt/.
  • IGC – FCG. O Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) é um dos principais centros de investigação biomédica em Portugal. O IGC funciona como instituição de acolhimento, com capacidade para 50 grupos de investigação, que desenvolvem os seus projectos autonomamente, usufruindo de instalações e serviços de excelência. O IGC desenvolve um programa ambicioso de ensino pós-graduado assim como um programa dedicado à promoção da cultura científica. Em 2010 e 2011 o IGC foi considerado um dos 10 melhores centros para doutorados fora dos EUA, pela revista internacional ‘The Scientist’. http://www.igc.gulbenkian.pt/
  • UPIN. A Universidade do Porto é a maior instituição de ensino superior e investigação científica em Portugal. Cerca de 31.000 estudantes e 2.300 docentes/investigadores frequentam as suas 15 escolas e 69 unidades de investigação. http://upin.up.pt/


Cortesia da fcg

Em Lisboa, dois são os locais dedicados à ciência que terão as suas portas abertas para o convívio entre investigadores e público. Será possível usufruir de actividades e experiências de áreas diferentes, variadas e interessantes.
Consulte o programa do Pavilhão do Conhecimento e dirija-se ao Parque das Nações na noite de 23 de Setembro, ou a Belém ao Instituto de Investigação Científica Tropical, localizado no Jardim Botânico Tropical, consulte a programação». In FC Gulbenkian.


Cortesia de Ciência Viva./JDACT

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto II: Parte IV. «... As naus que navegarem do Ocidente. Toda esta costa, enfim, que agora urdia o mortífero engano, obediente lhe pagará tributos, conhecendo não poder resistir ao Luso horrendo...»

Cortesia de staighworldbank 

OS LUSÍADAS
Canto II

( ...)
«Mas moura enfim nas mãos das brutas gentes,
Que pois eu fui ...» E nisto, de mimosa,
O rosto banha em lágrimas ardentes,
Como co orvalho fica a fresca rosa.
Calada um pouco, como se entre os dentes
Lhe impedira a fala piedosa,
Torna a segui-la; e indo por diante,
Lhe atalha o poderoso e grão Tonante.

E destas brandas mostras comovido,
Que moveram de um tigre o peito duro,
Co vulto alegre, qual, do Céu subido,
Torna sereno e claro o ar escuro,
As lágrimas lhe alimpa e, acendido,
Na face a beija e abraça o colo puro;
De modo que dali, se só se achara,
Outro novo Cupido se gerara.

 E, co seu apertando o rosto amado,
Que os saluços e lágrimas aumenta,
Como minino da ama castigado,
Que quem no afaga o choro lhe acrecenta,
Por lhe pôr em sossego o peito irado,
Muitos casos futuros lhe apresenta.
Dos Fados as entranhas revolvendo,
Desta maneira enfim lhe está dizendo:

«Fermosa filha minha, não temais
Perigo algum nos vossos Lusitanos,
Nem que ninguém comigo possa mais
Que esses chorosos olhos soberanos;
Que eu vos prometo, filha, que vejais
Esquecerem-se Gregos e Romanos,
Pelos ilustres feitos que esta gente
Há-de fazer nas partes do Oriente,

«Que, se o facundo Ulisses escapou
De ser na Ogígia Ilha eterno escravo,
E se Antenor os seios penetrou
Ilíricos e a fonte de Timavo,
E se o piadoso Eneias navegou
De Cila e de Caríbdis o mar bravo,
Os vossos, mores cousas atentando,
Novos mundos ao mundo irão mostrando.

 «Fortalezas, cidades e altos muros
Por eles vereis, filha, edificados;
Os Turcos belacíssimos e duros
Deles sempre vereis desbaratados;
Os Reis da Índia, livres e seguros,
Vereis ao Rei potente sojugados,
E por eles, de tudo enfim senhores,
Serão dadas na terra leis milhores.

«Vereis este que agora, pres[s]uroso,
Por tantos medos o Indo vai buscando,
Tremer dele Neptuno de medroso,
Sem vento suas águas encrespando.
Ó caso nunca visto e milagroso,
Que trema e ferva o mar, em calma estando!
Ó gente forte e de altos pensamentos,
Que também dela hão medo os Elementos!

«Vereis a terra que a água lhe tolhia,
Que inda há-de ser um porto mui decente,
Em que vão descansar da longa via
As naus que navegarem do Ocidente.
Toda esta costa, enfim, que agora urdia
O mortífero engano, obediente
Lhe pagará tributos, conhecendo
Não poder resistir ao Luso horrendo.

«E vereis o Mar Roxo, tão famoso,
Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado;
Vereis de Ormuz o Reino poderoso
Duas vezes tomado e sojugado.
Ali vereis o Mouro furioso
De suas mesmas setas traspassado;
Que quem vai contra os vossos, claro veja
Que, se resiste, contra si peleja.
( ... )

Cortesia de institutocamoes


Cortesia de Instituto Camões/Biblioteca Digital/JDACT

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Universidade do Porto: U. Porto 100. Fórum Colégios da Escola Doutoral. «As actividades de ID&I da U.Porto têm registado um forte incremento qualitativo e quantitativo»


Cortesia de up

«As minhas primeiras palavras são para lhe dar as boas-vindas ao portal da U.Porto. Agradeço a sua visita e espero que a informação aqui disponibilizada seja credora de interesse, revestida de utilidade e promotora de interactividade. Da nossa parte, há o propósito de lhe proporcionar uma viagem virtual pelas entidades que configuram o universo orgânico da U.Porto, permitindo assim o conhecimento das respectivas actividades, competências, valências e recursos humanos.
A U.Porto é a instituição portuguesa do ensino superior que maior número de estudantes acolhe. Diariamente, uma comunidade estudantil de quase 31 mil membros alarga o seu horizonte de conhecimentos em 14 faculdades, uma business school e perto de 70 estruturas de investigação científica. Tudo isto repartido por três campus universitários que congregam, igualmente, residências para estudantes, equipamentos desportivos e instalações de apoio social.
A U.Porto disponibiliza mais de 700 programas de formação (1º, 2º e 3º ciclos e formação contínua), cobrindo áreas do conhecimento tão distintas como as ciências da vida, as engenharias, a inovação tecnológica, os estudos humanísticos, sociais e culturais e a criação artística. Para tanto, a U.Porto possui um corpo qualificado e especializado de 1 873 docentes e investigadores ETI, dos quais 76% são doutorados.
As actividades de ID&I da U.Porto têm registado um forte incremento qualitativo e quantitativo.


Cortesia de up
A nossa Universidade domina a produção científica nacional e é reconhecida além-fronteiras pela sua capacidade de inovação. Nos últimos anos, mais de 1/5 dos artigos científicos portugueses foram publicados por docentes e investigadores da U.Porto. Para dar a conhecer esta realidade multifacetada, o portal da U.Porto organiza conteúdos, estabelece links e uniformiza procedimentos de forma a facilitar o acesso à informação quer por parte dos membros da comunidade académica (estudantes, antigos alunos, docentes, investigadores e demais colaboradores da Universidade), quer ainda por parte de visitantes exteriores à instituição. No primeiro caso, o portal é uma ferramenta de trabalho e de conhecimento interno da comunidade académica da U.Porto. No segundo caso, o portal promove a aproximação da instituição à sociedade onde está inserida, tirando partido das potencialidades das novas tecnologias e da vontade de abertura, transparência e interacção que anima a U.Porto.
Como meio privilegiado de comunicação, o portal da U.Porto está receptivo a comentários e sugestões dos visitantes. O contributo de todos é essencial para que a nossa Universidade avance nos objectivos estratégicos a que se propôs, como o reforço da qualidade e abrangência da formação, a promoção das actividades de ID&I, o incremento do empreendedorismo, a subida do nível de internacionalização e a optimização do modelo de governação universitária. Por tudo isto, desejo-lhe uma boa viagem virtual»! In O Reitor, José Carlos D. Marques dos Santos.

Cortesia da Universidade do Porto/JDACT

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto II: Parte III. «... Mas pois saber humano nem prudência enganos tão fingidos não alcança, ó tu, Guarda Divina, tem cuidado de quem sem ti não pode ser guardado!»

Cortesia de institutocamoes

OS LUSÍADAS
Canto II

( ... )
«Bem nos mostra a Divina Providência
Destes portos a pouca segurança,
Bem claro temos visto na aparência
Que era enganada a nossa confiança;
Mas pois saber humano nem prudência
Enganos tão fingidos não alcança,
Ó tu, Guarda Divina, tem cuidado
De quem sem ti não pode ser guardado!

«E, se te move tanto a piedade
Desta mísera gente peregrina,
Que, só por tua altíssima bondade,
Da gente a salvas pérfida e malina,
Nalgum porto seguro de verdade
Conduzir-nos já agora determina,
Ou nos amostra a terra que buscamos,
Pois só por teu serviço navegamos.»

Ouviu-lhe estas palavras piadosas
A fermosa Dione e, comovida,
Dantre as Ninfas se vai, que saüdosas
Ficaram desta súbita partida.
Já penetra as Estrelas luminosas,
Já na terceira Esfera recebida
Avante passa, e lá no sexto Céu,
Pera onde estava o Padre, se moveu.

E, como ia afrontada do caminho,
Tão fermosa no gesto se mostrava
Que as Estrelas e o Céu e o Ar vizinho
E tudo quanto a via, namorava.
Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
Uns espíritos vivos inspirava,
Com que os Pólos gelados acendia,
E tornava do Fogo a Esfera, fria.

E, por mais namorar o soberano
Padre, de quem foi sempre amada e cara,
Se lh’ apresenta assi como ao Troiano,
Na selva Ideia, já se apresentara.
Se a vira o caçador que o vulto humano
Perdeu, vendo Diana na água clara,
Nunca os famintos galgos o mataram,
Que primeiro desejos o acabaram.

Os crespos fios d’ ouro se esparziam
Pelo colo que a neve escurecia;
Andando, as lácteas tetas lhe tremiam,
Com quem Amor brincava e não se via;
Da alva petrina flamas lhe saíam,
Onde o Minino as almas acendia.
Polas lisas colũnas lhe trepavam
Desejos, que como hera se enrolavam.

Cum delgado cendal as partes cobre
De quem vergonha é natural reparo;
Porém nem tudo esconde nem descobre
O véu, dos roxos lírios pouco avaro;
Mas, pera que o desejo acenda e dobre,
Lhe põe diante aquele objecto raro.
Já se sentem no Céu, por toda a parte,
Ciúmes em Vulcano, amor em Marte.

E mostrando no angélico sembrante
Co riso ũa tristeza misturada,
Como dama que foi do incauto amante
Em brincos amorosos mal tratada,
Que se aqueixa e se ri num mesmo instante
E se torna entre alegre, magoada,
Destarte a Deusa a quem nenhũa iguala,
Mais mimosa que triste ao Padre fala:

 – «Sempre eu cuidei, ó Padre poderoso,
Que, pera as cousas que eu do peito amasse,
Te achasse brando, afábil e amoroso,
Posto que a algum contrairo lhe pesasse;
Mas, pois que contra mi te vejo iroso,
Sem que to merecesse nem te errasse,
Faça-se como Baco determina;
Assentarei, enfim, que fui mofina.

«Este povo, que é meu, por quem derramo
As lágrimas que em vão caídas vejo,
Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
Sendo tu tanto contra meu desejo;
Por ele a ti rogando, choro e bramo,
E contra minha dita enfim pelejo.
Ora pois, porque o amo é mal tratado;
Quero-lhe querer mal, será guardado.
( ... )

Cortesia de staighworldbank

Cortesia de Instituto Camões/Biblioteca Digital/JDACT

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Matemática. Parte XVI. Trigonometria

Cortesia de anossaescola

Cortesia de aa

Na imagem, encontram-se duas mãos, que representam a multiplicação de 9 por 4.

Como é que isso se faz?
Contar pelos dedos, hoje em dia já não é uma regra, o avanço tecnológico «não permite», dizem, tal atrevimento. No entanto, em «eras» referentes ao passado, por exemplo na Idade Média, na Universidade ensinava-se como efectuar, com os dedos, cálculos longos e por vezes complexos. Se as adições são perceptíveis e por isso mesmo, evidentes, já o mesmo não se pode dizer das multiplicações.
Vejamos, então, como se faz a multiplicação representada em cima que, curiosamente, era a mais fácil de todas, a multiplicação por nove:
  • Enumeramos os dedos das duas mãos abertas, começando pelo dedo mindinho da mão esquerda. Dobramos o dedo correspondente ao número pelo qual queremos multiplicar nove (neste caso, n = 4). Deste modo, dobramos o dedo número quatro. Que obtemos? O valor 9 x 4. À esquerda do dedo dobrado há tantas dezenas quantos os dedos (neste caso 3 x 10 = 30) e à direita do mesmo dedo dobrado há tantas unidades quantos os dedos (neste caso 6). Que se faz agora? A seguinte adição: 30 + 6 = 36. De facto, 9 x 4 = 36.
Experimentem e exemplifiquem com outro qualquer dedo.


Com a colaboração do amigo Armando Araújo, um «notável» em Artes Gráficas, continuo a publicar algumas noções de Matemática.

Cortesia de atractor


JDACT/Com a colaboração de AA

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Luís de Camões. Os Lusíadas. Canto II: Parte II. «... «Ó caso grande, estranho e não cuidado! Ó milagre claríssimo e evidente, ó descoberto engano inopinado, ó pérfida, inimiga e falsa gente! ...»

Cortesia de institutocamoes

OS LUSÍADAS
Canto II

( ... )
Convoca as alvas filhas de Nereu,
Com toda a mais cerúlea companhia,
Que, porque no salgado mar nasceu,
Das águas o poder lhe obedecia;
E, propondo-lhe a causa a que deceu,
Com todos juntamente se partia
Pera estorvar que a armada não chegasse
Aonde pera sempre se acabasse.

Já na água erguendo vão, com grande pressa,
Com as argênteas caudas branca escuma;
Cloto co peito corta e atravessa
Com mais furor o mar do que costuma;
Salta Nise, Nerine se arremessa
Por cima da água crespa em força suma;
Abrem caminho as ondas encurvadas,
De temor das Nereidas apressadas.

Nos ombros de um Tritão, com gesto aceso,
Vai a linda Dione furiosa;
Não sente quem a leva o doce peso,
De soberbo com carga tão fermosa.
Já chegam perto donde o vento teso
Enche as velas da frota belicosa;
Repartem-se e rodeiam nesse instante
As naus ligeiras, que iam por diante.

Põe-se a Deusa com outras em direito
Da proa capitaina, e ali fechando
O caminho da barra, estão de jeito
Que em vão assopra o vento, a vela inchando;
Põem no madeiro duro o brando peito,
Pera detrás a forte nau forçando;
Outras em derredor levando-a estavam
E da barra inimiga a desviavam.
Quais pera a cova as próvidas formigas,
Levando o peso grande acomodado
As forças exercitam, de inimigas
Do inimigo Inverno congelado;
Ali são seus trabalhos e fadigas,
Ali mostram vigor nunca esperado:
Tais andavam as Ninfas estorvando
À gente Portuguesa o fim nefando.

Torna pera detrás a nau, forçada,
Apesar dos que leva, que, gritando,
Mareiam velas; ferve a gente irada,
O leme a um bordo e a outro atravessando;
O mestre astuto em vão da popa brada,
Vendo como diante ameaçando
Os estava um marítimo penedo,
Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.

A celeuma medonha se alevanta
No rudo marinheiro que trabalha;
O grande estrondo a Maura gente espanta,
Como se vissem hórrida batalha;
Não sabem a razão de fúria tanta,
Não sabem nesta pressa quem lhe valha:
Cuidam que seus enganos são sabidos
E que hão-de ser por isso aqui punidos.

Ei-los sùbitamente se lançavam
A seus batéis veloces que traziam;
Outros em cima o mar alevantavam
Saltando n’ água, a nado se acolhiam;
De um bordo e doutro súbito saltavam,
Que o medo os compelia do que viam;
Que antes querem ao mar aventurar-se
Que nas mãos inimigas entregar-se.

Assi como em selvática alagoa
As rãs, no tempo antigo Lícia gente,
Se sentem porventura vir pessoa,
Estando fora da água incautamente,
Daqui e dali saltando (o charco soa),
Por fugir do perigo que se sente,
E, acolhendo-se ao couto que conhecem,
Sós as cabeças na água lhe aparecem:

Assi fogem os Mouros; e o piloto,
Que ao perigo grande as naus guiara,
Crendo que seu engano estava noto,
Também foge, saltando na água amara.
Mas, por não darem no penedo imoto,
Onde percam a vida doce e cara,
A âncora solta logo a capitaina,
Qualquer das outras junto dela amaina.

Vendo o Gama, atentado, a estranheza
Dos Mouros, não cuidada, e juntamente
O piloto fugir-lhe com presteza,
Entende o que ordenava a bruta gente;
E vendo, sem contraste e sem braveza
Dos ventos ou das águas sem corrente,
Que a nau passar avante não podia,
Havendo-o por milagre, assi dizia:

– «Ó caso grande, estranho e não cuidado!
Ó milagre claríssimo e evidente,
Ó descoberto engano inopinado,
Ó pérfida, inimiga e falsa gente!
Quem poderá do mal aparelhado
Livrar-se sem perigo, sàbiamente,
Se lá de cima a Guarda Soberana
Não acudir à fraca força humana?
( ... )

Cortesia de straightworldbank

Cortesia do Instituto Camões/Biblioteca Digital/JDACT