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quarta-feira, 8 de abril de 2020

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «O taverneiro, entre os que assistiam, limpava as mãos ao avental e dizia: ah! Se homens desta cepa tivessem pelejado naquela maldita batalha!»

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O Sapateiro Santo
«(…) Telo, sem arma, tirara o capote e, rodando-o no ar, procurava desarmar algum dos meliantes. Savachão retirou de sob a axila a muleta, assentou a perna doente no chão e arremeteu volteando o madeiro com tanta violência e destreza que escachou a cabeça a um, arrombou o costado a outro e desfez a muleta no traseiro de um terceiro que virava costas a fugir, já Luís, João e Cristóvão acudiam à refrega e castigavam com suas estocadas os salteadores e os punham em debandada malferidos. Assomavam homens e mulheres à porta de uma taverna a verem a bernarda. Savachão ainda tentou apanhar a muleta, mas ela estava feita em pedaços. Caminhou coxeando da perna dorida. Uma rapariga adiantou-se da porta e veio dar-lhe o braço: agarra-te a mim, filho. Ao menos sirvo de cajado. O taverneiro, entre os que assistiam, limpava as mãos ao avental e dizia: ah! Se homens desta cepa tivessem pelejado naquela maldita batalha!
Savachão entrou pelo braço da rapariga. Os outros seguiam-no. Sentaram-se numa mesa vaga a um canto. Pareceis mendigos, disse o taverneiro, mas mendigo não luta assim contra malandros. Romeiros, mentiu Telo, a caminho de Santiago. E que vão querer Vossas Senhorias? Queremos cear, respondeu Cristóvão. Vinho, ainda me resta uma pipa. De estalo. Carne, só toucinho rançoso. Pão, viste-lo. Na Casa da Índia nem um saco de trigo da Flandres. Levaram tudo..., para os Mouros comerem... Mas tenho umas migas de farelo com couve e feijão que é um primor. Traz do que tiveres. Romeiro tem boa boca.
As mulheres rodeavam os valentões comentando o sucedido. A rapariga, sentada ao lado de Savachão, enxugava-lhe a testa suada: querido, que valente foste! Uma muleta! Minha mãe! Só visto!... Tens uns lindos olhos... E esta boca?..., e deu-lhe um beijo nos lábios... Nem o vento nem o sol, a espuma do mar, o sopro de asas das gaivotas, o respiro de velas enfunadas, o calor das achas da lareira..., o frémito da montaria, a vertigem de uma luta de vida e de morte... Este beijo ficou-me na carne. Hei-de senti-lo por toda a vida. Nunca meu corpo estremeceu assim... Que me está a acontecer?... Olhou a jovem. Era formosa, embora lhe sombreassem os cantos dos olhos e da boca pequenas linhas de amargura. Lembrava-lhe alguém que conhecia, lembrava-lhe... Também danças? Também lês o passado e o futuro? Também? Sim, como... Ah! Faço-te lembrar outra. A tua namorada abandonou-te? É por isso que te fizeste andarilho? Não, não! Deixa lá, filho. Sei o que é dor de corno. Eu faço-te esquecer. Como te chamas? Minha mãe! Olha-me um que me pergunta o nome! Há quantos séculos foi isso? Não tens nome? Os homens procuram-me pelo meu corpo. Que importa quem sou? Pu… sem nome... E, de repente, vens tu, meu docinho, e perguntas-me pelo fundo de mim... Diz.
Queres mesmo saber? Acenou que sim. Essa é a única coisa que ainda guardo de mim. Deixa-a comigo, o meu segredo... O resto..., e encolhia os ombros, ... Olha, chama-me Cadela. É nome a condizer. Ouço-o todas as noites. Putarroa, Cabra, Tinhosa..., lindos nomes deste baptizado... Respeitarei o teu pudor, princesa. Tão querido! Vem, dizia a moça tomando-lhe da mão. Descansarás um pouco lá em cima, enquanto não chega a ceia... Levantou-se Savachão como adormecido e, levado pela rapariga, subiu as escadas e desapareceram. Ao fim da noite, quando se dispôs a descer, ela disse-lhe: nós temos dois corações, meu querido. Aquele que bate aqui no peito..., dizem que é um pedaço de carne maior do que o de um cabrito..., o outro, não sei bem dizer..., é uma a modos de boceta invisível onde nós guardamos pequenas coisas, olha, uma flor que ali vai fanar, desbotar, descheirar, sem apodrecer, como para a não deixarmos morrer. É aí que guardo o que sinto por ti. Tu és o meu rei e no meu coração eu tenho..., dizem que os reis têm uma cadeira de ouro numa sala muito grande...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «O caso é que, continuou Jorge, frei Miguel afirmava que só pregaria se ordenasse o sermão com tal arte que nem desse o rei por vivo nem por morto»

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O Sapateiro Santo
«(…) Poderíamos embarcar numa nau para a Índia propôs Jorge...,
ou para a Flandres..., acrescentava Luís. Não antes de..., disse o rei, mas Telo disse: Savachão atalhou, quer mortificar-se mais ainda. Dentro de dias, o cardeal presidirá no mosteiro dos Jerónimos à cerimónia solene..., das minhas exéquias. Pensarão todos que serão de corpo ausente, mas eu quero que sejam de corpo presente... De um sei eu que desconfia disso adiantou Jorge. Quem? Ouvi-o contar há dias a dois frades que pararam junto de mim. O sermão fora encomendado a frei Miguel dos Santos, provincial da ordem dos eremitas de Santo Agostinho... Conheço. Foi pregador de minha avó, a rainha..., suspendeu-se, olhando aos lados, e num sussurro terminou: dona Catarina. Alguém o avisou em segredo: Olhasse como pregava. O rei era vivo e havia de o ouvir. O pregador, enfiado, deu parte a dom Henrique do que passava e que assim não haveria de pregar. O cardeal mandou logo o corregedor Diogo Fonseca tirar devassa do que se por aí diz... Devassa? Andam a tirar devassa? Sim, confirmou João. E parece que não apareceu ninguém que jurasse ter-te visto morrer..., ter visto o rei morrer na batalha..., que não seria fácil conhecê-lo depois de morto, dois dias passados, despido... Ainda vestidos e frescos, eram desconhecidos de pais e de filhos os que acabavam de morrer, quanto mais cobertos de pó, suor e sangue, talhados de feridas, inchados ao ardor do sol, desfigurados... Nem se achara no campo ou em mão de mouros insígnia sua, coisa do seu corpo, fáceis de reconhecer pelas guarnições de armas reais e até nas fivelas dos sapatos...
O caso é que, continuou Jorge, frei Miguel afirmava que só pregaria se ordenasse o sermão com tal arte que nem desse o rei por vivo nem por morto. O cardeal despachou-o e entregou o encargo ao padre Luís Álvares da Companhia de Jesus. Muito me contais, disse Savachão. Por mais que me custe, é meu propósito assistir a essas exéquias. Savachão, disse Telo, folga de remexer na ferida que está a sangrar. Se não quereis assistir, ficai ao largo. Eu assistirei.
Uma noite, pela Betesga saíram a Santa Justa. Zona de tavernas, malandros, rufias e mulheres da vida. Esse rei que tanto admiras, João segundo disse Telo a Savachão, quando príncipe, gostava de se escapar da alcáçova pela calada da noite a ter amores com as rameiras. E rixas, bem sei, disse Savachão. Não o imitei nisso... Olhou o amigo, hesitando em vestir de voz o pensamento. Olhou os outros, que seguiam à frente, distanciados para que o grupo não desse nas vistas, e enfim perguntou: e tu? Alguma vez te escapaste a experimentar amores por estes sítios? Acenou Telo que sim, sem adiantar palavra, lembrado de que o rei, segundo se dizia, ainda não conhecera mulher. Leu-lhe o pensamento Savachão, que desabafou: sempre tive medo de apanhar alguma doença..., o morbo serpentino... A conversa levou Telo a voar a outro lado: e agora? O cardeal como é que... As minhas culpas não têm perdão, disse Savachão. Porque não morri eu? Jorge tinha-se deixado aproximar e ouviu estas palavras. Ainda estás a tempo de tudo remediar, disse.
Não, não!, respondeu Savachão com violência. Já há outro rei alçado sobre a minha morte. Quando Afonso quinto regressou de França ao reino, o príncipe João, que havia sido alçado rei, ajoelhou-se aos pés do pai a restituir-lhe o trono. Não é a mesma coisa. Pode ser, se tu quiseres. Cala-te, cala-te. Deixa-me estar morto. Meu tio há-de pedir ao papa licença, há-de casar e dar herdeiro ao reino, verás... Casar, ele?, disse Telo. Mesmo que o papa conceda a licença das ordens, como poderá ele...? Da sombra de uma esquina surgiram súbito cinco embuçados de negro, as lâminas das espadas a cintilarem ao luar. As vossas bolsas, vá, depressa disse uma voz rouca. Como um raio, Jorge abriu a capa de mendigo, na mão fino sabre desembainhado, a cota de malha a reluzir-lhe no peito: a mim, vilões!, e investia». In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

segunda-feira, 30 de março de 2020

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «É hoje à noite que os outros virão juntar-se a nós. Onde é o encontro? Luís sugerira as casas em que, num dos pátios do hospital, se acolhem peregrinos e mendigos»

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O Sapateiro Santo
«(…) Porque dizes isso?, perguntou Telo. Com o fedor que vem de África, onde filhos e maridos apodrecem, os ventos começam a ser de devassidão..., sorriam-lhe os dentes sujos e acrescentava: se os maridos soubessem..., eh, eh, eh..., antes queriam continuar mortos... Levantaram-se, entraram pelas portas de Santo Antão e, pela rua que vai da estrebaria de el-rei, caminharam ao longo da muralha que descia de Santa Ana. Ficaram lá todos, disse Savachão. Até eles. Eles quem? Os cavalos. Repara, Telo, como está vazia a estrebaria. Temos agora ali boa palha para dormirmos. Telo comoveu-se: meu Senhor! Savachão enlaçou-o com o braço direito pelos ombros: amigo..., e, continuando a caminhar, acrescentou: vou estando habituado, mas quero ainda sepultar-me de vez, quando, daqui a dias, forem as minhas solenes exéquias nos Jerónimos. Esquecia-me de dizer-te informou Telo. É hoje à noite que os outros virão juntar-se a nós. Onde é o encontro? Luís sugerira as casas em que, num dos pátios do hospital, se acolhem peregrinos e mendigos. Junto às da roda e do criadoiro?, riu-se Cristóvão. Lá enjeitados somos nós, que nos enjeitámos a nós próprios, mas julgo que dispensamos amas cristãs e vacas leiteiras. João lembrou então os aposentos das corporações, onde se costumam reunir caldeireiros, bate-folhas, barbeiros... Mas Jorge considerou estes lugares demasiado próximos das gentes... Com razão. Deixassem com ele, dizia, que haveria de amanhar sítio resguardado. Onde? No boqueirão do Corpo Santo. Não estou a ver onde é. Ali adiante, passados os estaleiros da Ribeira das Naus, uma angustura cega de janelas, na babugem do rio. Para lá se dirigiram ao anoitecer e encontraram os quatro companheiros sentados num bote varado, preso a uma argola da parede. Ao verem chegar o rei, apearam-se e, desabituados, esboçaram a vénia, logo atalhados pelos gestos de Savachão: então, então! Ficavam calados, depois de tornarem todos a sentar-se no barco, interditos, sem saberem como se dirigir ao soberano. As vossas feridas são saradas?,  perguntou Savachão a quebrar-lhes a tolheição.
Savachão ainda anda de muleta ajudava Telo, mas é já só quase fingimento, que a perna vai melhor. Notícias?, perguntou o rei. Não sei como falar..., contigo..., adiantou Jorge. Vejo que Telo se acostumou. Fala. As feridas estão a cicatrizar..., e o resto... Bem, no maior dos segredos, conseguimos dinheiro e garantias de crédito junto de vários banqueiros estrangeiros... Podemos partir, sem necessitarmos de..., olhou para Savachão e Telo: de que tendes vivido? De esmolas, respondeu Telo. Telo é hábil, acrescentou Savachão, em deitar o barrete ao chão. A minha perna tem ajudado.
Tudo isso agora acabou, disse Cristóvão com raiva nos olhos. Não, amigos, não, ripostou Savachão. Por enquanto, na cidade e no reino, teremos de continuar a ser mendigos. Deixa-nos ao menos, disse Luís, arranjar-te cómodos condignos para dormires... Temos boa palha nas cavalariças vazias de el-rei, atrás dos muros... Olhou em redor a embarcação: este barco... Não o fretastes, não? Não, respondeu Jorge. Estava aqui amarrado. Sentámo-nos nele. Ostentar riqueza será mau neste transe. Quais são os teus planos?, perguntou João. Isto é uma violência e constante agravo de nossas qualidades, disse Cristóvão, ... quanto mais da tua. Calculo o que te vai na alma. Não tenho senão o que mereço. Até a morte seria alívio... Penso que devemos sair do reino...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

quinta-feira, 26 de março de 2020

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Como o povo corresponde sem alegria!... Vem, Telo. Já me custa morrer tanta vez. E afastam-se dali, pelas traseiras dos Estaus…»

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O Sapateiro Santo
«(…) Entravam. Sentavam-se a uma mesa corrida, diante de uma tijela de caldo e um naco de pão. Savachão hesitava. A seu lado, à sua frente, sôfrega sorvia a pobreza a sopa nas gorjas sequiosas os lábios a escorrerem. As freiras apressavam-nos: vamos, vamos. Dar o lugar. Levantavam-se limpando as beiças às mangas dos gibões, levando à boca com grandes dentadas a polpa do pão. Então não comes?, perguntava a irmã a Savachão. Não sei comer depressa. Andar, andar. Há outros à espera. Telo tocou-lhe de leve no braço a urgi-lo. Beberam o caldo, ergueram-se e saíram. Savachão tinha os olhos húmidos. O pajem olhou-o, mas evitou dizer fosse o que fosse. Vinha lá um cortejo em direcção à igreja. Em cavalos baios de gualdrapas quarteadas de vermelho e branco, os trombeteiros e atabaleiros com os instrumentos calados... Por de mais conhecia ele aquele protocolo, as precedências. Podia vê-los de olhos fechados... os três reis-de-armas, os arautos, os passavantes... Abria os olhos. Já desfilava a representação da câmara, agora os desembargadores e..., seus pecados!..., os magros fidalgos que restavam na corte. A negrura da ausência povoa o séquito. O que meus olhos da culpa estão vendo é a multidão dos fantasmas dos que se finaram lá em baixo...
Sacudo-os com a mão... Lá vem o alferes-mor, a bandeira enrolada na haste, como condestável o duque de Bragança com o estoque... Meu tio Henrique! De vermelho. Montado em mula preta de gualdrapa escarlate, doirados os copos da brida e os arreios da cabeçada. Às rédeas, os condes da Sortelha e da Castanheira. Diante deles, empunhando a vara de mordomo-mor, o conde de Portalegre... Escolheu esta capela, conheço bem porquê: aqui foi ele sagrado arcebispo de Braga. Agora vai ser rei... Já sobe a escadaria. No patamar espera-o toda a clerezia da capela real e do cabido. Lá está o arcebispo Teotónio e os bispos Osório, André, Jorge e aquele ali, diz-me, Telo... É Sebastião Fonseca, bispo de Targa... Olha o meu capelão-mor João Castro... Debaixo do pálio, Jorge Almeida, arcebispo de Lisboa... Já entram no templo.
Sei bem o que se vai passar lá dentro: meu tio no estrado, sob o dossel..., a jurar, de joelhos, sobre o missal e a cruz, bem governar, sustentar a justiça, guardar privilégios e liberdades..., o camareiro-mor a entregar-lhe o ceptro..., a cerimónia do beija-mão..., e não tardará, tão poucos são os senhores para lhe beijarem a mão, que o rei-de-armas... Ouvide! Ouvide! Ouvide!, soa dentro a grita do rei-de-armas. ... o alferes-mor já desfralda a bandeira e solta o brado... Real! Real! Real! Pelo Sereníssimo Príncipe Dom Henrique, Rei de Portugal!
... Ah! Que tibieza! Como o povo corresponde sem alegria!... Vem, Telo. Já me custa morrer tanta vez. E afastam-se dali, pelas traseiras dos Estaus, soavam na praça as trombetas e os atabales. Vieram de detrás de São Domingos e no largo da feira das bestas, sentaram-se nos degraus da ermida da Senhora da Escada. Saíam da igreja do mosteiro damas embiocadas, seguidas das criadas e escravas negras, e juntavam-se a falar. De luto, senhora? Pois já tendes a certeza? Não, mas..., é o luto da alma. Eu recuso-me a acreditar. Choro dia e noite..., mas não me visto de negro enquanto não souber. Dá mau sestro. Esta angústia em que vivemos... Conseguistes saber alguma coisa dos poucos que chegaram na armada de dom Diogo? Não queirais saber! Insisti, insisti... Caras de pau, senho sombrio, carrancudos, a boca cerrada..., um túmulo..., um túmulo como todo o reino... Mas podiam, ao menos, desabafar, dizer o que sabem... Dizerem que o rei morreu é dizerem que o deixaram morrer... Ah! Meu Deus! Tenho lá o meu marido, os meus filhos..., agonia de alma! Sabeis que vos digo? Eu não sou pessoa para ficar nesta incerteza. Que ides fazer? Falaram-me de uma mulher de virtude que vive no Borratém... Também a mim. Mas essa foi presa por roubar. Está presa no Aljube. Pois irei ao Aljube. Sentou-se junto deles um mendigo que rondara as damas de mão estendida: pobres comadres!, rosnou coçando os sovacos. Tão desvairadas e andejas, acabam por não fazer diferença entre luto e romaria». In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

sexta-feira, 13 de março de 2020

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Ergue bem alto, acima da cabeça, o escudo negro e arranca das cavernas do peito um ronco raivoso: chorai, senhores! Chorai, gentes!»

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O Sapateiro Santo
«(…) Tu morreste, não te recordas?, acordava-o Telo. Esta manhã o quebrar dos escudos. Eis o meu caminho de negrume. Sigamos por ele, Telo. Pintemos de luto o pranto dos sinos. Ali vai saindo das portas da câmara o alferes municipal, a abrir o préstito. Conheço-o. É André Pires. Negras são as suas vestes e monta à bastarda um cavalo murzelo azeviche, de negra gualdrapa rastejante e cabeçada de nojo. Tão longa a haste preta da bandeira de canhamaço preto, que se verga desde o punho direito e do ombro do porta-bandeira até roçar o chão. Ladeiam-no, a pé, negras as túnicas, negros os capuzes aguçados, negras as varas nas mãos, os vereadores, os procuradores da cidade e dos mesteres. A seguir, em cavalos murzelos gualdrapados de preto, os fidalgos que, pela idade ou doença, não foram a Alcácer. Este é dom João, duque de Bragança, aquele dom Francisco Melo, conde de Tentúgal. Acolá, os senhores nobres que eu deixei por governadores do reino... Lá vem meu tio dom Henrique. Que mau ar tem!... E o povo atrás gemendo orfandade e viuvez... Chegamos à sé. Já o juiz do cível, Lourenço Marques, sobe ao patamar do pórtico. Ergue bem alto, acima da cabeça, o escudo negro e arranca das cavernas do peito um ronco raivoso: chorai, senhores! Chorai, gentes! Morreu o nosso rei Sebastião I! Telo fita-me com os olhos aguados e o lábio a tremer. O juiz quebra o escudo contra os degraus da escadaria e o guaiar do povo sobe pelas ruelas até às muralhas da alcáçova. Descemos à rua Nova. O cortejo estende-se vagaroso ao badalar dos sinos: a meio caminho pára. Agora é Duarte Lampreia, juiz do crime, que ergue o escudo e brada enrouquecido: chorai, senhores! Chorai, cidadãos! Chorai, povo! Morreu o rei Sebastião!, e, por entre soluços e choros, estilhaça o escudo na calçada. Vamos daqui agarra-me Telo pelo braço. Deixa, digo-lhe. Irei até ao fim. Já no Rossio, sobe o outro juiz do crime, Gaspar Campelo, as escadas do hospital de Todos-os-Santos e, com o mesmo brado fúnebre, quebra na pedra o terceiro escudo... Regressam por São Nicolau a ouvir missa na sé.

Ficamos no vão de um portal a vê-los desaparecer... Vem, disse Telo. Ali adiante, numa porta sob as arcadas, entra-se para um refeitório. As freiras do hospital servem uma sopa quente e pão. A sopa dos pobres, considerou Savachão, enquanto caminhavam por entre esvoaçar de pombos que vinham às migalhas. Um rei morto não pode sentir o orgulho ferido. Grande fila de mendigos à espera de vez. Escondem nos alforges de andrajos a sua fortuna: côdeas de pão revelho, alguma castanha pilada, um botão encontrado no chão... Tristes alguns, metidos consigo, desdentados e sujos, homens de barba por desfazer coçando-se pulgas e cinches, mulheres desguelhadas cheias de lêndeas... Outros lépidos na galhofa dos comentários... Hoje é dia de festa. O cardeal vai ser alçado aqui ao lado. Pão a dobrar, caldo de feijão com couves..., ... e um naco de chouriço... A sopa dos ricos. O rei morreu. Viva o rei. Ontem chorou-se, hoje ri-se. Que estais prà i a dizer?, segredou um, olhando em redor. Puxou os que estavam próximos, entre eles Savachão e Telo, à colação e disse: sabeis o que corre? O rei não morreu e anda por aí entre nós... Agora! Não me digas! Ainda te enforcam por isso. A minha avó!, e fazia um gesto obsceno. Se ele anda por aí e te ouve, manda cortar-te a língua... ... a mão direita... ... os colh… Que disse eu de mal? É o que consta... Ah! Se ele estivesse vivo, mesmo na minha miséria era capaz de lhe beijar a mão, os pés..., até lhe beijava o cu... Agora o velhadas, o padreco... Pchiu! Pobre reino! Um louco, outro velho...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

quinta-feira, 12 de março de 2020

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «O meu senhor rei também tinha um pé assim..., e olhou-o acima: não tens, por acaso, uma verruga no dedo mindinho do pé direito, pois não?»

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O Sapateiro Santo
«(…) O arcebispo fez com as mãos o gesto de assentimento e o peregrino, afirmando o propósito de os não maçar muito mais tempo, continuou a contar...

Um dia haviam chegado a Évora com os sapatos rotos do caminho. Savachão lembrou-se de Simão Gomes. O sapateiro santo?, perguntou Telo. Assim lhe chama o povo, por via das suas muitas cantigas proféticas como as do Bandarra. Queres que eu te encomende uns chapins novos? Será bom que ele nos tire a medida dos pés. Numa ruela perto da sé, era aí a oficina de Simão. Lá estava ele, sentado num mocho, à porta, cosendo gáspeas com a sovela, cantando:

Vejo montes humilhados
vejo vales levantados
vejo gemidos e prantos
vejo...

Que desejais? Uns chapins, disse Telo. Hum! Mendigo não costuma comprar chapins. Sola dura, calejada, nos pés. Esses que trazes, todos rotos, roubaste-os a algum defunto? Não desconverses. Alto lá! Temos fidalgo! Quanto queres por eles? Mediu-o desconfiado da cabeça aos pés: tens dinheiro? De esmolas. Não é muito, mas... Quando eu for pajem do cardeal... Ah, ah, ah! Vais ser pajem do cardeal? E eu deão da sé. Tu pagas-me e eu aspirjo-te com o hissope in nomine Patris e Filho. Olhou para Savachão, que se conservara calado um pouco atrás de Telo: e tu? Também queres chapins? Uns sapatos? Umas botas? Um para o pé direito, outro para a muleta... ah, ah, ah! É mais em conta... e pagas-me quando fores rei: o lugar está vago... Súbito tornou-se sério, os olhos turvos de água: desculpa. Gracejo, mas tenho o luto aqui..., e levava a sovela ao peito. ... Quando ele me chamava ao paço... enquanto eu, de joelhos, lhe ia tirando o molde do pé... Como ele gostava de falar comigo!... Coisas do futuro... E eu dava-lhe trela àquele desejo tenaz, àquela imaginação sem rédea... Também tenho a minha parte de culpa no que aconteceu... Naquela idade, com aquelas manias, o de que ele precisava era de levar nas trombas. Mas não houve ninguém..., até que os Mouros... Fazes os chapins?, cortou Telo. Pareceis boas pessoas. Vá, mostra-me o teu pé. Telo aprestou-se. Simão Gomes tirou de uma prateleira uns chapins já feitos e experimentou-lhos: mesmo a calhar. Agora o teu amigo. Savachão aproximou-se e ele examinou-lhe o pé esquerdo, que, por mor da muleta, tinha no ar: ah! Peito arqueado, alto... O meu senhor rei também tinha um pé assim..., e olhou-o acima: não tens, por acaso, uma verruga no dedo mindinho do pé direito, pois não? Não. Era tão grande, dizia o sapateiro, recordando, enquanto da prateleira pegava outros chapins: ... que parecia um sexto dedo, nunca o esquecerei..., e calava-se, continuando a afagar o pé de Savachão e olhando-o pensativo nos olhos... Aqui tens uns chapins mesmo a matar. Quanto é? perguntou Telo. Pagar-me-eis..., e esganava-se-lhe o sentimento na garganta, ... quando eu for deão da sé...

Soluçavam dobrando tangendo os bronzes plangentes por toda a cidade..., corriam pessoas os olhos chorosos de todas as ruas... Que luto será este? Savachão desembarcava na Ribeira com o companheiro, vindos do Sul. Telo, no cais, inquiria um velho que passava. O barqueiro estendia a Savachão a muleta... Já assentava o pé no chão, embora continuasse a apoiar-se e manquejar. Mais como disfarce, meu pai que eu não conheci, minha mãe que me abandonaste..., verdade que, por ter os membros direitos mais avantajados, sempre coxeara, mas sempre o soubera dissimular. Até das duas bolsas a esquerda era a mirrada. Pecara como fruto chocho, por apartar para esse lado. "Para que lado aparta Vossa Alteza?, perguntava-lhe o alfaiate ao medir-lhe as calças na virilha, para poder talhar a barguilha à feição. Não sabia bem definir o que sentia, vergonha, mal-estar, quando as mãos dele lhe mexiam naquelas partes...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

quinta-feira, 5 de março de 2020

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Está nos teus olhos, já to disse, e as linhas das tuas palmas o hão-de confirmar. A notícia está aí a rebentar e a espalhar-se por todo o reino. De que estás tu a falar? Estrella ergueu-se»

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Estrella
«(…) Obrigado, Estrella. Quando eu puder... Não prometesse nada, que tinha à frente muita vida madrasta a percorrer. Que desgraça tamanha! Quando quisesse desabafar, pensasse em Estrella, mesmo que estivesse longe ela tinha a caixa aberta e a alma muy ancha... Escurecia. A meia légua de uma povoação, escolheram local de acampamento num sobreiral junto de um ribeiro. As carroças fizeram muralha em redor do terreiro. Ergueram-se as tendas e não tardou que uma boa fogueira ardesse no centro do eirado e, sobre um tripé, numa grande caldeira de ferro começasse a borbulhar a cozedura. Estrella fez sentar-se Savachão num fardo de palha e Consuelo começou a desatar-lhe as ligaduras da perna e da cabeça. O rei dos ciganos dava ordens: Maurício. Vai à vila por vitualhas. O moço logo atrelou um burrico a uma pequena carroça e deitou-se a caminho. "Que mexerufada é essa que me estás a pôr na perna?, perguntou Savachão.
Não te cheira bem?, disse Consuelo, de joelhos diante da perna dele, a saia preta em roda pelo chão. Vais ficar bom e massajava de leve para não magoar. Unguento milagroso. Mas não me perguntes como se faz. Segredo. Vem já da minha avó e da avó da minha avó..., sei lá... Linda ferida, sim, senhora. Como é que arranjaste isto? E esta cabeça, meu loiraço! Andaste à esgrima com os meirinhos? Savachão olhou Estrella que, de pé, observava o tratamento. Sim. Mais ou menos isso, respondeu. Estes moços vagam por aí de noite, pelas tabernas e pelas put… e depois pegam-se uns com os outros... Telo, prestável, para não levantar dúvidas quanto aos seus hábitos e os do companheiro, ajudava Manolo a pensar os animais e a procurar lenha. Estrella agachou-se ao lado direito de Savachão e pegou-lhe na mão, afagando-lha: mi precioso, ahora te puedo leir la buena-dicha? Não, deixa!, sacudia ele a mão. ... saber lo que te espera... Olhou-a desvairado: só Deus sabe.
Está nos teus olhos, já to disse, e as linhas das tuas palmas o hão-de confirmar. A notícia está aí a rebentar e a espalhar-se por todo o reino. De que estás tu a falar? Estrella ergueu-se. Maurício chegava da vila. Apeou-se esbaforido, ciganos e ciganas rodeavam-no. Consuelo levantou-se e chegou-se a eles. Sabeis o que corre na vila? Que é? Que foi? A batalha perdida, o exército destroçado... Quem to disse? Não se fala noutra coisa. Os velhos arrepelam-se, as mulheres uivam. E o rei? Uns dizem que morreu, outros que desapareceu. Grande desgraça! A morte! O luto! Viuvez! Orfandade! Eu bem vos dizia que ele era louco, afirmava o rei dos ciganos. Telo e Manolo aproximavam-se. Que aconteceu? Perguntou Manolo. Uma multidão de vozes deu-lhe a notícia. Telo afastou-se e chegou-se a Savachão: ouviste?
Meneou que sim. Depois disse em voz baixa: temos de desaparecer quanto antes. Quanta chaga a fechar, alminha! Vai levar tempo..., disse Estrella que se aproximara. Fica, enquanto o acampamento aqui estiver. Não há melhor sítio. Savachão olhou-a hesitante. O rei dos ciganos achegava-se falando com os outros: Rei, sabeis o que vos digo?..., vale mais ser rei dos ciganitos... Se toda a cavalaria, carriagem e mais acampamento por lá ficou..., morta, ferida, pilhada, aprisionada tanta alimária, quem vai fazer bom negócio com cavalos, muares, potros, burros, digo-vos eu quem é..., e batia no peito, cá o rei dos ciganos.
Depois da ceia o acampamento adormeceu. Em respeito pelo luto, essa noite não houve descantes. De madrugada, Savachão, que estava estendido na palha, na tenda de Manolo, tocou no braço de Telo a seu lado. Levantaram-se em silêncio. Manolo ressonava. Savachão apoiou-se à muleta e saíram por detrás das carroças, junto aos animais. Quando se afastavam do acampamento, Savachão parou a olhar para trás. Estrella, de pé à boca da sua tenda, levantava o braço num adeus.

O Sapateiro Santo
O que me contais é coisa de espanto, disse o arcebispo de Espálato. Não achais, cónego Battista? O romeiro conservou a testa apoiada na mão, o pensamento alheado, enquanto o cónego respondia: como muito bem sabe Vossa Eminência, a missão sacerdotal leva o padre a conhecer as maiores alegrias e tragédias da humanidade..., buscava de longe, com método, a resposta à pergunta do prelado: ... nos alçapões da alma, as histórias mais imprevistas. Mas, desde a do rei Édipo, que, sem o saber, investiga o próprio crime, ou a do mouro Arum Al-Rachid, que sonha ser rei, nunca como agora tomara conhecimento de caso tão extraordinário como o que este infeliz está contando: um rei que, por vergonha, pusilanimidade ou covardia louca... Não digais mais, atalhou angustiado o peregrino. Poupai quem tanto tem sofrido. Desculpai, disse o cónego, compassivo. Eu não queria... Escutai o resto, que para isso vim». In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «O sol declinava. Lá muito atrás o rolar de carros, o patear de alimárias. Era uma caravana de carriolas e carroças que lá vinha de seu vagar. Quando a primeira os alcançou, envolveu-os uma nuvem de poeira»

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Estrella
«(…) Telo chegava com a água: o ribeiro vai quase seco. Sempre assim nesta quadra. Tens uma púcara? Rosinha, vai dentro pela púcara. A menina foi dentro e veio de lá com uma púcara encardida de sarro. Telo encheu-a de água e deu a Savachão, que hesitou com relutância. Bebe. A água sabe bem. Não olhes à vasilha. Savachão bebeu um golo e em seguida sorveu a água toda. Telo oferecia-lhe um naco de broa. Savachão partiu um pouco e levou à boca. Sentiu em si os olhos da criança e viu neles a fome: dá à menina, disse, estendendo o resto a Telo. Porque não lho dás tu?, respondeu Telo, fitando-o acinte nos olhos. Savachão chamou a criança: anda cá, Rosinha. A menina aproximou-se. Tens um lindo nome. Queres pão? A criança acenou que sim. Toma. Obrigada, senhor, disse a mãe. Há quanto tempo não vemos pão! Telo abriu o barrete e apresentou pão e figos. E todos ali, no sossego da tarde, comeram do que o barrete trazia e beberam da água do balde pela púcara única. Junto da menina, o cão pedia com os olhos e a pata levantada. A menina deu-lhe do seu pão, que ele abocanhou. Deus vá convosco, disse a mulher agradecida, quando eles se deitaram ao caminho. Seguiram estrada fora. O sol apertava. Telo enfiara o carapuço vazio, a Savachão fazia de sombreiro a faixa de pano que lhe pensava as feridas.
Sei que estais a ter uma experiência dolorosa, meu senhor, quebrou Telo o silêncio.
Pchiu! Quem nos ouve, nesta solidão? A mim custa-me desdobrar a língua e tratar-te por tu. Mas tu... Sentires a fome e a sede, comeres de esmolas, dirigir-te a palavra o povoléu sem sombra de respeito e distância... Dão-me aquilo que lhes tirei. Tirei-lhes o pão, sequei-lhes as terras, roubei-lhes a caça, trouxe-lhes a viuvez e a orfandade, a miséria e a morte..., e vê tu que me dão amizade e do pouco que possuem. Que lição! Essa foi a guerra que eu não quis travar..., e tinha-a em minhas mãos. Maldito rei! Não ouviste dizer? O outro que eu era mandá-los-ia enforcar por muito menos. Se eu tivesse morrido, estava agora a penar nas profundas do Inferno. Agradece a Deus ter-te conservado a vida... Um rei sem reino..., um povo sem pátria... É aqui que devemos penar os nossos erros.
O sol declinava. Lá muito atrás o rolar de carros, o patear de alimárias. Era uma caravana de carriolas e carroças que lá vinha de seu vagar. Quando a primeira os alcançou, envolveu-os uma nuvem de poeira. Estacaram na berma a deixá-las passar. Savachão sentou-se na raiz de uma azinheira. Telo encostou-se ao tronco. As mulas, suadas, tiravam de manso as pesadas cargas, os cães caminhavam ao lado, as línguas de fora. Nas carriolas cobertas seguiam pessoas. Pelo vestuário, os lenços de cabeça vermelhos com pintas redondas brancas, os xailes negros, com franjas, das mulheres, o ,moreno da pele de caras e braços, reconheceram que eram ciganos. Hou!, regougou do alto da boleia um dos cocheiros, sacudindo as rédeas. Um dos carros parou e, atrás dele, os outros. Subid, hombres. La noche no tarda. Telo e o cocheiro, um de baixo e o outro de cima, ajudaram Savachão a trepar ao assento e daí a pouco seguiam estrada fora. No te lo dixo yo, veio de trás uma voz feminina, que volveríamos a encontrarnos?
Savachão voltou-se. No interior do carro, Estrella, entre donas e crianças que dormitavam, sorria-lhe e começou a falar-lhe em voz baixa. Com aquela perna doente não iria longe e a noite apanhá-lo-ia no descampado sem manta para se abrigar nem caldo para conforto do estômago. Não negasse. Ela sabia bem que eles nada tinham que comer. Não é o comer que me dói. Sim, sim, o mais..., e a perna. Ela sabia. Quando acampassem para passar a noite, ia ali su madrecita que sabia de mezinhas e era grande curandeira das feridas que os homens se faziam uns aos outros ao pegarem-se de rixa e sacarem das navalhas..., suspendia-se e, com olhar acintoso, acrescentava: ... ou ao meterem-se em guerras..., mas não se arreceasse, ela sabia guardar um segredo, por grande que fosse...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

quarta-feira, 4 de março de 2020

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Nunca olhara nenhuma mulher. Os padres habituaram-no a desviar os olhos. E tinha poluções nocturnas... Como estava sentindo agrado em ver aquela moça a dançar!...»

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Estrella
«(…) No adro, sentou-se no muro baixo a descansar, a ganhar forças para a caminhada, a perna ferida estendida ao pé da muleta. Telo teve uma ideia. Haviam passado por mendigos que, mostrando suas chagas, lançavam a boca de gorros no chão a solicitar esmola. O pajem tirou o barrete e deixou-o cair aberto aos pés de Savachão. Que fazes?, eriçaram-se os sobejos da prosápia real, erguendo-se de súbito. Com simplicidade Telo fê-lo sentar-se de novo e disse, encolhendo os ombros num meio sorriso: precisamos de dinheiro. Não queres roubar, pois não? Deixa isso por minha conta. Por ti não se me arriçam os pergaminhos. Savachão fechou as lágrimas nos olhos e engoliu o soluço na garganta e quedou-se ali como uma estátua. As pessoas passavam, entrando e saindo, magras moedas caíam na carapuça, côdeas de broa, fruta passa. Veio distrair daquela sonolência o som de uma viola e do canto gorjeado de um cigano. Olhou. Do lado de fora do adro uma companhia de gitanos, numa clareira entre árvores, dava seu espectáculo. Veio um de tronco nu, musculado, pegou de uma mecha embebida em resina, acendeu-a na fogueira, engoliu um líquido que guardou na boca e chegou-lhe fogo lançando as chamas, que lhe saíam das fauces como dragão. Depois, enfiou a mecha acesa pela garganta e tornou-a a retirar sem que se apagasse e roçou o fogo pelos peitos, pelos braços como se nada sentisse. Em redor, o público aplaudia. Uma menina vinha pela roda com um púcaro na mão a recolher a paga. Alguns viravam costas e retiravam-se quando ela se aproximava. Já entrava outro, com facas afiadas e desatava a metê-las pela goela feita bainha. Mais aplausos ante a façanha. As guitarras tocavam, dois cantores garganteavam trinados andaluzes, quando, livre a pequena arena, salta de lá uma moça, a saia rodada aos folhos, em airosos requebros de ancas, braços e mãos, rodopiando sobre um só pé como pião, estacando súbito, batendo os calcanhares, estalando castanholas, ao som de pandeiros, adufes, palmas e olés desencontrados dos companheiros.
Nunca olhara nenhuma mulher. Os padres habituaram-no a desviar os olhos. E tinha poluções nocturnas... Como estava sentindo agrado em ver aquela moça a dançar!... Nenhuma das princesas que lhe inculcavam para mulher teria certamente a graça daquela rapariga... E pôs-se a pensar que, se razões de estado ou o seu desinteresse haviam sido até ali impedimento a que se casasse, nem que quisesse poderia casar-se com uma moça como aquela em razão de clã e de raça da parte, não de si, mas da família cigana... A dançarina tinha terminado. Savachão procurou-a com os olhos, mas não a viu. Na pequena arena dois macacos faziam cabriolas. Queres que te leia a sina, chico?, como aparição estava a cigana diante dele. Tão confuso ficou que a olhava sem responder. Não, não quer, respondeu Telo a despachá-la. Tu agora lês a sina a mendigos? Vens dar-nos esmola? E quem te disse que eu dele quero dinheiro? Mendigos vós? Não enganais a ciganita. Como te chamas, moça?, perguntou Savachão. Estrella, senhor. Tratas-me por senhor... No lo es? Estás diante de um romeiro pobre. O teu pensamento me chamou. Não pensavas em mim ainda agora quando me viste dançar?
Savachão não encontrou que dizer. Olhava a moça nos olhos. Nem preciso das tuas mãos, disse ela. Esse azul dos teus olhos contam tudo. Calla!, sem bem saber porquê, Savachão levantou-se e levou o indicador aos lábios. Tomou da muleta e começou a caminhar. Aún hoy volveremos a encontrarnos. Interdito com a cena, Telo apanhou do chão o barrete com as esmolas e seguiu-o. Em breve saíram do terreiro e deixavam a romaria, estrada fora. Passavam terras maninhas, abandonadas, casais desertos. Vinha lá um casebre. Um cão magricela  pôs-se a ladrar. Num quinteiro uma mulher, a quem a miséria secara a beleza, cavava a horta. Uma criança apareceu, rota e descalça, no negrume da porta. Quando se aproximaram, a mulher estacou arrimada ao cabo da enxada. Deus te salve, dona! Salve-vos Deus. Que quereis? Um pouco de água, disse Telo. Está aí um balde. Ide por ela ao ribeiro, ali a baixo. Telo foi pela água. Savachão sentou-se num banco de pedra, sob a latada, a descansar a perna. Estás ferido, notou a mulher, chegando-se... Vens da guerra? O meu homem também lá anda. Deus o traga vivo... Vens de lá? El-rei ganhou a batalha? Não, não!, respondia Savachão aturdido. Não ganhou?, levou a mulher as mãos à cabeça, largando a enxada. Ai minha Nossa Senhora! Meu rico homem! "Não é isso, mulher, apiedou-se Savachão. Não?
Não. Não venho da batalha nem sei nada dela. Se ele por lá me morre e eu fico viúva com esta menina órfã!... Que desgraça vai ser!... Maldito rei! Levou-me o braço que nos protegia». In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Não é verdade que temos todo o tempo do mundo e da vida? Que vai ser de ti? Não me esperam despachos, louvores ou punições alheias, serões nos paços, audiências a embaixadores…»

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Estrella
«(…) Olhou-os a todos, que se prestavam a partir, como um pai olha os filhos: pobres de vós! Sem cavalo, sem égua, sem asno que vos leve... E tu, Senhor? Savachão, emendou o rei. E tu? Ainda por cima com muleta... Deixa. Verei mais de passo a minha ruína. Separaram-se, seguindo seus destinos, após haverem combinado com Telo o modo de darem sinais de si. Os primeiros passos andados, reconhecera Savachão que havia chegado a hora das provações. Telo, sem ferimentos, nem se dera conta de que já ia lá adiante. Quando se viu sozinho e, olhando atrás, enxergou o rei a um tiro de pedra, envergonhou-se da desatenção. Correu a reunir-se-lhe: perdoai, Senhor. Emendou-se a um gesto do amo: perdoa, Savachão. Como vai ser? Tu quase não podes andar. Levará mais tempo. Não é verdade que temos todo o tempo do mundo e da vida? Que vai ser de ti? Não me esperam despachos, louvores ou punições alheias, serões nos paços, audiências a embaixadores, preocupações de governo, montarias, refregas militares...
Dizia estas coisas procurando sorrir por entre a água dos olhos. Telo olhava-o constrangido. Savachão retomou o caminhar trôpego, vagaroso. Meu cavalo baio, tão formoso! Caído ferido no último relincho..., a apodrecer lá em baixo no areal fedorento... A fortaleza de São Vicente ficara para trás. Ele voltara-se como a dizer-lhe adeus. Telo acompanhou-lhe o olhar. Contra a prata do mar Oceano negrejavam as pedras das muralhas. Ali fundei eu a minha Ordem do Cavaleiro da Cruz de Jesus Cristo... Posso chamar-te Cavaleiro da Cruz? perguntou o pajem. Já não há ocasião disso. O Cavaleiro da Cruz morreu naquela desgraçada batalha. Tenho fé que não. Algum tempo depois chegavam à vista da ermida de Nossa Senhora de Guadalupe, próximo da Raposeira. Vinham de lá os sons de romaria e arraial. Pararam a escutar...
Quinze de Agosto. Romagem à Senhora, disse Savachão. Caminharam pela várzea, pela sombra e o cheiro das figueiras, que vergavam pejadas de fruto. Telo colheu alguns e veio apresentá-los ao rei na bandeja de uma folha. Distraído, ia a fazer vénia... Estás doido! Olha além peregrinos. Podem ver-nos. Comeu um figo e perguntou: e tu? Não comes? Ele próprio meteu um na boca do companheiro. Mas... Somos iguais, não te esqueças. A ermidinha surgia com os seus fortes botaréus arrimados às paredes baixas, as carrancas toscas das gárgulas a rirem-se de cima, no adro murado o portal gótico aberto e a rosácea um pouco descentrada do pórtico, a cruz no topo da fachada. Entravam mulherzinhas do povo, os lenços na cabeça, arrastando os joelhos pela pedra, os olhos postos na imagem venerada lá adiante no altar-mor. Os romeiros espalhavam-se pelo adro, pelo largo à volta da capela, à sombra de tendas de pano que esvoaçava na aragem marítima, ou sob as ramas das figueiras, ou sentados em palha que se acamava sob as carroças, rodeados de bilhas de água e pichéis de vinho, de condessas de ovos, pão e salpicões.
Alguns haviam armado suas bancas de venda: de mistura com comidas e bebidas, rosários e agnusdei, cestinhas de ovos cozidos coloridos, de figos, alfarrobas e amêndoas. Savachão quis entrar no templo a rezar. Molhou a ponta dos dedos na pia de água benta e persignou-se e benzeu-se, encostado ao primeiro arco da nave, olhou além a imagem da Senhora sobre o altar-mor e fechou os olhos, concentrado. A seu lado, Telo olhava ao alto a abóbada artesoada, as nervuras que vinham apoiar-se nas colunas, a lavra dos capitéis, uma cabeça de boi, cabeças humanas de bela expressão, um peixe, ramos e folhas de carrasqueiro e palma, os fustes de grés amarelo ou cinzento com veios verdes e rosa-pálido, a janela alta ao fundo, por detrás do altar, fendida em duas frestas, os travejamentos do resto do tecto com a telha-vã a descoberto, da trave lançada entre as impostas do arco triunfal a lamparina pendente, acesa diante do sacrário, a gente que, sentada no chão sobre as próprias pernas, aguardava a hora da função religiosa. Vem, encaminhava-se Savachão para a porta». In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

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sábado, 19 de outubro de 2019

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «João certamente, disse Cristóvão, tomará o caminho da Guarda..., ... para mais perto, para Góis... ... Luís o da serra de Ossa... Por lá passarei. ... tu, Jorge, o de Setúbal, o da Arrábida, como eu. Irei contigo. Faremos companhia um ao outro…»

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Estrella
«(…) Tendes razão, Senhor, respondera o duque de Aveiro. Desonra e deslustre. Mas a vergonha não chega para esconder a covardia. Abespinhara-se Sebastião. Vinha ao de cima a conhecida sanha. Puxando do punhal que Cristóvão Távora trazia à cinta: como te atreves, vilão?, rouquejou. Chamas-me covarde? Deveríeis ter morrido a combater respondia-lhe sem medo o duque, ter pejo de estares vivo. Assim, acrescentais a uma grande tragédia, outra não menor. Guardai esse punhal. Também o meu sangue, o do rei João segundo, me ferve de vergonha. Também eu deveria lá ter ficado no campo de batalha. Fui covarde para vos salvar. Vede lá agora se não sou vário... Com as lágrimas a brotarem-lhe dos olhos, Sebastião, abatido, estendeu o punhal a Cristóvão Távora e abraçou-se ao duque de Aveiro desfeito em soluços.
O arcebispo e o cónego ouviam-no num silêncio contristado. O peregrino continuou: dir-se-ia que me custava mais o vexame da derrota que a perda do trono. Mas o pior estava para chegar. Virei-me para os meus companheiros: senhores, poderei por uma derradeira vez ordenar-vos... Não. A minha autoridade real morreu naquele areal africano. Poderei pedir-vos, rogar-vos... Beijavam-me as mãos, ajoelhavam-se-me aos pés, misturando-se as lágrimas por aquelas barbas com o sangue das feridas trazidas da batalha, protestando, as palavras embargadas nas goelas. Disse-lhes que não queria mais aparecer, fosse cada um a seu destino, eu seguiria incógnito por aí, pelo mundo..., mas nunca revelassem que era vivo. Cristóvão Távora falou por todos: para onde eu fosse, eles iriam também, disfarçados em trajos comuns, reuniriam dinheiro e correriam mundo à procura de uma morte honrosa a combater o Turco ou a penitenciarem-se dos pecados na Terra Santa..., mas primeiro era necessário curarem aquelas feridas demasiado acusadoras de donde vinham... A vossa perna, Alteza... Pchiu! Nada de Altezas nem de vós. Daí em diante tratar-se-iam por tu e nunca pronunciariam os nomes verdadeiros... ... inchada e feia...
Começa a ficar gangrenada. É urgente tratá-la. Poderíamos sair em terra no cabo de São Vicente. Há aí um convento de capuchos. Poderão acudir-nos nos primeiros cuidados... O São Mateus pairou ao largo do cabo e, num escaler, remaram para terra. O bote atracou na estreita língua de rebos, à sombra da arriba alcantilada, que causava vertigens só de olhar para cima onde o céu se aclarava na manhã nascente. Fernão Álvares, o mestre da capitaina, fitou o rei e apontou-lhe a perna que parecia um cepo: não podereis... O rei fez-lhe um sinal e ele emendou: não poderás andar..., ia a dizer Alteza, mas conteve-se: ... e muito menos subir esta fraga... E quem o poderá?, perguntou Jorge, olhando as rochas talhadas a pique. Tens razão. Impossível, se eu não estivesse aqui. Quando a maré enchesse, o mar engolir-vos-ia. Mas poucos sabem o que eu sei. Vinde comigo. Eu levo Sua..., eu levo Sebastião às costas. Vinde. Seguiram pelos rebos e, diante de uma brecha da fraga, Fernão Álvares disse: por aqui e começou a subir, com o rei aos ombros, por uma escada tosca ferida a picão na rocha. Cuidado!, dizia aos outros.
Quando chegaram a cima, o sol começava a erguer-se. Descansaram um pouco na relva, junto à fortaleza de São Vicente. O rei disse: tenho vindo a pensar. Tu podes chamar-te Jorge, tu Luís, tu João, tu Cristóvão, tu Telo e tu Fernão..., mas eu não mais me poderei chamar Sebastião. Ouvi um dia uma mulher do povo chamar-me Savachão. Assim me chamareis daqui por diante. Acolhemo-nos à fortaleza?, perguntou Luís. Melhor será, atalhou Fernão, acolherdes-vos ao convento dos capuchos que daqui se avista. São mais discretos. Vamos e ia a tomar outra vez o rei às costas, disse-lhe este: não. Tu tens de voltar quanto antes ao galeão. Eu arrimo-me no braço de Jorge. Vai e obrigado. Fernão Álvares olhou o rei: posso dar-te um abraço? Abraçaram-se. Vai, amigo. Não te esquecerei. O mestre aproximou-se do abismo. O rei acenou-lhe adeus: boca selada, fez-lhe sinal.
Daí a pouco viram-no remar em direcção ao galeão e, virando costas, caminharam para o conventinho dos capuchos. Passados alguns dias o grupo saía do convento. Savachão trazia a cabeça empanada e, debaixo do braço esquerdo, uma muleta que o ajudava na impossibilidade de pousar a perna ferida no chão. Os outros também vinham pensados: Luís com um braço ao peito, João com o peito e o pescoço enfaixados, Jorge e Cristóvão com as marcas de curativos pelo corpo. Só Telo se encontrava incólume. Lindo grupo é o nosso, disse o rei. Não podemos caminhar assim todos juntos. As pessoas começariam a murmurar, a desconfiar. Sim, concordou Jorge. É melhor separarmo-nos por algum tempo. Proponho que aqueles que têm mais possibilidade de rápida e secretamente arranjar dinheiro, eu, o Luís, o João, sigamos cada um seu caminho. Cristóvão à Arrábida, à Caparica, a Guimarães, com o mesmo propósito. Telo acompanhe Sua..., acompanhe Savachão...
João certamente, disse Cristóvão, tomará o caminho da Guarda..., ... para mais perto, para Góis... ... Luís o da serra de Ossa... Por lá passarei. ... tu, Jorge, o de Setúbal, o da Arrábida, como eu. Irei contigo. Faremos companhia um ao outro. E quando nos tornaremos a reunir? Antes de sairmos do reino, esclareceu Savachão, desejo fazer por ele peregrinação. Quero ver com as chagas da alma o mal que lhe fiz. Então quando? Concertai com Telo a maneira de cada um de nós se conservar sempre em comunicação comigo e..., estamos em Agosto..., lá para o fim do ano reunir-nos-emos algures e sairemos talvez pelo Norte, caminho de Santiago..., e que Deus nos proteja...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

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sexta-feira, 18 de outubro de 2019

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «É el-rei que chega, gritam de baixo. Recebem-nos na alcáçova e, pouco depois, o mestre da capitânia da armada, ancorada na foz do Larache…»

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O galeão S. Mateus
«(…) Só mostrei a carta aos meus mais íntimos conselheiros quando já na marcha, por temer que me embaraçassem de passar avante, mas eles tiveram-na por astúcia do bárbaro. No dia sete tínhamos navegado para Tânger, de onde partíamos a doze para Arzila. A vinte e sete metíamo-nos terras adentro por aquele deserto e, quase sem água, alcançávamos a ponte de Alcácer. A batalha feriu-se a quatro de Agosto... Que desgraça tamanha!, disse o arcebispo, compungido. Meu Deus! Aquele fatídico fim de tarde! Trago ainda nos olhos e nos ouvidos, na alma e na carne aquele apocalipse... E, de olhar perdido, o peregrino contava da bravura dos golpes, das arrancadas dos cavaleiros, do relampejo de espadas, alfanges e cimitarras, da saraivada dos pelouros que zuniam, das hordas de mouros que cercavam os cristãos, do estrondo da artilharia, da grita e alarido, dos urros de dor e de raiva, da carga dos arcabuzeiros, dos tiros das escopetas, do fumo e poeira no ar doirado pelo sol ardente, empapado de sangue o areal onde uivavam os feridos sobre montões de cadáveres e esperneavam cavalos e escoucinhavam nos sacões da morte... Olhando em redor, já não via junto de si o seu alferes com a bandeira. Apenas o seguia a destemida agilidade do moço pajem do guião. O cavalo em que ia montado escorria sangue e já não podia dar passo. Mas ali estava Jorge Albuquerque Coelho, senhor de Pernambuco, muito chagado de quatro cutiladas e atravessado de uma seta pelos peitos, aguentando-se bravamente em cima de um cavalo ruço-queimado muito formoso. Pede-lhe o cavalo.
Para este momento vo-lo guardei, meu senhor, responde o fidalgo, que logo, por se não poder menear das feridas nem se firmar nos estribos, chama soldados que o ajudem a desmontar. Salva-te, rei repetia, deitado no chão. Salvai-vos. É o que importa. Já não há outro remédio e quanto a vista lhe alcança vê o furacão do rei abalar dali, a espada apontada como lança em riste. Adiante estava caído, a sangrar, golpeado, o Prior do Crato: É o fim, senhor, é o fim. Por amor de Deus, fugide. Não quer fugir. Deseja morrer com honra. Mas súbito vê-se rodeado por Jorge Lencastre, duque de Aveiro, por Luís Coutinho, conde do Redondo, por João Silveira, filho do conde da Sortelha, por Cristóvão Távora, que lhe indicam na chusma dos mouros uma nesga por onde escapar. Seguidos do pajem Telo Meneses, deram em o levar para trás e foram saindo do campo de batalha...
Eu não queria fugir, contava, contristado, mas o duque de Aveiro..., pretendia talvez, observou o arcebispo, salvar a vida do seu rei..., salvar-me a vida, bem sei. Não era desonra, dizia ele, perder uma batalha, mas sim, perdendo-me, perder o reino... Caía a noite. Os fugitivos chegam às portas de Arzila. Batem. O capitão Pero Mesquita não quer abrir. É el-rei que chega, gritam de baixo. Recebem-nos na alcáçova e, pouco depois, o mestre da capitânia da armada, ancorada na foz do Larache, recolhe os fugitivos no galeão São Mateus e a toda a vela rumam para o reino...

Estrella
E depois?, perguntava o arcebispo. Depois fora a vergonha, uma vergonha profunda e miserável. O seu sangue, o sangue de seus avós, revoltava-se, fervia turbulento. Pejo de si, viscoso e imundo. Escorrera-lhe pelo corpo e pela alma. Só lhe apetecia vomitar-se a si mesmo, tapar o rosto com as mãos como criança apanhada em falta, velar-se, não deixar que ninguém lhe fitasse o opróbrio..., sepultar-se em qualquer ignorado chavascal longínquo... Tinha-se despojado da armadura, das luvas, das vestes, de qualquer objecto ou sinal que o identificasse. Levaram-nos os companheiros para os lançarem ao mar. Enfiara o corpo numa roupa tirada a um vilão dos muitos que jaziam por terra nos montões de cadáveres. A bem dizer estava nu, um rei nu como agora diante de Sua Eminência. E essa nudez era o seu pudor... Os amigos procuravam levantar-lhe o ânimo, mas ele, enraivecido, perguntava-lhes: sabeis que coisa é a vergonha? Asco de morte pela desonra e deslustre...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 5 de outubro de 2019

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Aos catorze de Junho da desventurada era de mil e quinhentos e setenta e oito, saiu el-rei dos seus paços da Ribeira com toda a monarquia deste reino e se foi logo embarcar na sua galé real…»

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O galeão S. Mateus
«(…) Juan Silva fazia as últimas tentativas de lhe acalmar o ímpeto. Compreendia, respondia-lhe Sebastião, que houvesse alguns que deixariam de participar na empresa, se lhes mostrassem os inconvenientes, mas, posto o negócio no ponto a que chegara, onde no mundo estava homem que volvesse atrás? Entendesse o embaixador que não era tempo de admitir conselhos...
... elrey se arde bibo..., por respeito algum suspenderia a jornada de Alarache nem haveria de diferir uma hora nem meia o seu embarque e partida..., ...el sabado nos embarcamos..., como homem de bem, não me provi nem fiz nada de quanto é necessário para ir com ele..., parto para a guerra, embaixador de Sua Majestade, sem armas nem tendas..., queda-me a esperança de morrer dentro de seis dias... Uma romaria Lisboa, arraial de ilusão e ligeireza. À miséria dos soldados vindos de Viana, do Porto, de Aveiro, de Buarcos, recrutados à força, contrariados, arrancados aos seus e à enxada, seu ganha-pão, metidos tristes aos magotes nos porões dos barcos, atravessava-se a gralhada, movimento, cor, por terreiros, pátios, ruas, bodegas, bordéis, de alemães, flamengos e valões de Martim de Borgonha, hereges, veteranos e calvinistas, acompanhados das mulheres, amantes e filhos, os seiscentos italianos de Tomás Stukeley, marquês de Leinster, a quem uma tempestade obrigou a acolher-se a Lisboa e o rei aliciou com grossa quantia para desviar a sua missão de ir acudir aos católicos irlandeses, os castelhanos do porto de Santa Maria. Sobre o Tejo não se amanhavam bem as gaivotas, que voavam de largo, ante tanto tremular colorido de bandeiras, pendões e galhardetes e não se viam golfinhos a saltarem nas águas, que lhes não deixavam espaço as zabras, barcas, barinéis, galés, batelões, urcas e caravelas e naus em que se embarcava soldadesca, armas, provisões, lenha, água, palha para as cavalgaduras... O terço dos aventureiros, fidalgos portugueses, dava nas vistas no luxo dos vestidos, no lavrado das armas, no atavio de jóias, na riqueza de baixelas, no requinte de manjares e vinhos, na corte de criados, no fausto de tendas de campanha franjadas de ouro, nas colgaduras de seda...
Aos catorze de Junho da desventurada era de mil e quinhentos e setenta e oito, saiu el-rei dos seus paços da Ribeira com toda a monarquia deste reino e se foi logo embarcar na sua galé real e outro dia, que foram vinte e cinco, reunida toda a armada, partiu barra fora e com próspera viagem seguiu até Lagos, no reino do Algarve, e em dois dias e meio, com vento em popa, chegou à baía de Cádis, onde ficou três dias a aguardar que se juntasse toda aquela esquadra, que, se fosse tão galharda como aparentava, dizia o embaixador Juan Silva, pudieramos ir confiados de qualquer empresa, pero, conociendola bien, mas se hade confiar en la ignorancia o impossibilidad de los enemigos que en las fuerzas que llevamos... Los marineros dicen que es hermosa cosa de.navios si no viniesen cargados de marmelada... Como podia ser tamanha cegueira?, perguntava abismado o arcebispo. O cónego Battista esse, de tão incrédulo, não tugia nem mugia. Escutai, Eminência, escutai. O próprio inimigo me escreveu a desenganar-me..., não sei qual a causa e razão, rei Sebastião, que te moveu a quereres guerra comigo tão injusta. Que agravo tu ou os teus tendes de mim?...
… aconselhava-me a não confiar no xarife, dizia-me que mais queria a minha amizade e vizinhança que a desse perro, que nos víssemos eu e ele irmãmente... Tu me vens buscar sem razão e queres guerra comigo injusta... Sabe que isto há-de custar mais vidas do que pode caber de grãos de mostarda num grande saco. És moço e cavaleiro, tens quem te aconselhe. Faze-o para tua segurança...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Porque não matamos este louco que encaminha para a perdição o reino e todos nós?, segredou ao ouvido do barão de Alvito Fernando Noronha. Com uma mentira? Será mentira? El-rei não mente»

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O galeão S. Mateus
«(…) Queres deixar-nos a todos órfãos de rei e de legítimo herdeiro? Já pensaste se a fortuna nesta viagem te responder ao contrário do que cuidas?... Estátua de teimosia e de silêncio, o rei parece não ouvir. Não respondes? Não queres escutar a tua avó? Ah! Ingrato! Ingrato!... Doutor, doutor, não me sinto bem... Acorre o médico, a camareira: senhora! Senhora! Desfaleceu, disse o físico. Retira-se el-rei como sonâmbulo. Pela janela vê-se no céu o rasto lento de um cometa. Uma cauda de fogo!, aponta um cortesão. Estende-se para o Meio-Dia, Alteza, aonde fica a África, diz o astrólogo da corte. Sinal de bom augúrio para a vossa empresa. Sinal de mau agouro, rosna entre dentes um conselheiro velho.

Porque não matamos este louco que encaminha para a perdição o reino e todos nós?, segredou ao ouvido do barão de Alvito Fernando Noronha. Com uma mentira? Será mentira? El-rei não mente. Ia lá mentir em matéria de tanto cabedal! Sem serdes provocado?, estranhou o arcebispo. E prosseguistes em vosso desvairo? Escute Vossa Eminência e meça quanto desvairo... A rainha sua avó falecera a onze de Fevereiro e ele, conquanto se recolhesse a Penalonga em retiro de dó, como era de praxe, não deixara um só instante de cuidar dos preparativos para a campanha de África. Elrey esta mas caido que nunca en su proposito y así no se detuvo en Penalonga mas de tres o cuatro dias, escrevia a Filipe de Castela o embaixador em Lisboa Juan de Silva. Que loução anda o reizinho! Vestido de cores, com plumas... Sinal de loucura... Este moto hierve. El-rei arde!
Tão descontente, o povo espera milagre que impeça a jornada. Senhor! Senhor!, gritam os da cidade. Olhai o perigo que é de tua pessoa se não deixas sucessão. El-rei pára em sua montada, deixa que a multidão o cerque: sossegai, diz. Faço-vos saber que estou casado... Com quem, Senhor? Quem é tua mulher? Não vos posso de momento declarar com quem. A seu tempo o sabereis. Y así paso elrey este barranco! Vozes, vozes, vozes... Julgará Vossa Eminência que eu não tinha conhecimento delas? Tinha, sim..., e não fiz caso. Como não fiz caso dos conselhos do duque de Medina Celi, que esteve em Lisboa com sua mulher em Abril de setenta e oito.  Perguntei-lhe com grande instância se o rei Filipe de Espanha suspeitava que eu queria meter-me por terra dentro em África e perder o mar de vista. Sabeis que me respondeu? Que isso, mais do que arriscar-me, seria de certeza perder-me. Não lhe dei ouvidos..., e foi isso mesmo que aconteceu. Havia certamente entre os vossos pessoas experimentadas na guerra em África, na Índia e noutras partes. Poderíeis ter escolhido um bom general para a empresa...
João Mascarenhas poderia ser esse general. Conselheiro de Estado, era um excelente cavaleiro que defendeu Dio com valor. Servira muitos anos em África e na Índia... Porque o não nomeastes? Ordenei-lhe por carta que ficasse em Portugal para, com outros três, fazer parte do conselho de Estado que havia de governar o reino na minha ausência. Em minha insensatez, achava que só eu, Francisco Portugal e Luís Silva é que sabíamos de guerra..., quando nenhum de nós três havia visto em vida inimigo armado... Não sei que vos diga. E o romeiro continuava a contar. Com que fervor procedia aos preparativos da partida! Arrestar navios, embarcar vitualhas, dia e noite sem alçar mão do trabalho...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT

sábado, 28 de setembro de 2019

A Ponte dos Suspiros. Fernando Campos. «Não, não. Eu é que sei. Estou muito doente. Já pouco tempo resta para Nosso Senhor me chamar. Ainda bem que vieste. Desejava tanto aliviar a consciência, esta angústia que trago comigo»

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O galeão S. Mateus
«(…) Que fogoso cavalga o reizinho na montaria! Lida o cervo e o porco-montês como se já estivesse a combater o Mouro. Foste seu aio. Viste-o crescer nessa mania. Desde pequeno o tenho seguido no exercitar da espada, da lança, do estoque... Não admira tenha fortalecido mais todo o lado direito do corpo... Olhai! A matilha dos rafeiros, em latidos excitados, levantou duas feras do seu fojo de entre o canavial! Que corpulentas! Cuidado, Senhor! Está a rainha Catarina em seu leito deitada, cuidam-lhe as aias do aspecto. Ora graças a Deus!, diz a camareira-mor, aos pés da cama. Como Vossa Alteza está hoje bem melhor! Foi Nosso Senhor que a quis festejar neste dia catorze de Janeiro..., dia dos seus anos..., humedece-lhe uma açafata o rosto com água-de-rosas. Que linda está! De ontem para hoje rejuvenesceu dez anos.
Já a noite vem descendo e el-rei que não chega! Mandaram-lhe recado, como eu ordenei? Sim, Alteza. Logo de manhã. Não deve tardar. El-rei desembarca no cais do terreiro. Esperam-no cortesãos e fazem-lhe vénia. Tan hermoso deve estar el campo, Alteza, diz Juan Silva, enviado de Castela, que no pudiera dejar por menos causa que la indisposición de la reina. Ainda que fora isso, era já tempo de vir e de partir para África. Camareira, que passos são esses aí fora? El-rei que chega, Alteza. Retiram-se as aias, quando el-rei entra acompanhado do médico. A quentura desceu, vem informando o físico, a respiração tornou-se menos custosa, mas...
Senhora, abeira-se el-rei da avó, vim, mal me deram a notícia do vosso mal-estar. Mas Deus seja louvado, que vos venho encontrar com boa disposição no vosso aniversário. Ah, meu querido neto! Ainda me sinto muito fraca. Logo passará, vereis. E acrescentou: se assim o ordenardes, folgarei que se diga mandara Sua Alteza matar um fidalgo velho por lhe dizer as verdades tocantes a seu serviço. Bramei com ele, agastado, mas, abalado da resposta e do que a experiência e outras razões me mostravam e vencido agora do desvelo e autoridade de Fernando, disse-lhe enfim: ora vamos, já que porfiais, e fartar-vos-ei essa vontade. E ordenei se suspendesse, por então, a marcha da gente do reino. Honrosa resolução, em verdade, observou o arcebispo, com ar de dúvida, afagando um sobrolho crítico. Mas depois... Altivo de minha condição, arrogante, insensato, não desisti de meus planos. Adiados apenas. Prossegui os preparativos para a grande jornada. Meu tio Henrique, quando fui a Évora dar-lhe conta da empresa e rogar-lhe que a aprovasse, embora com brandura não deixou de me contradizer e recusou-se a ser regente durante a minha ausência. Minha avó Catarina, um mês antes de falecer..., estava eu em Salvaterra, era Janeiro de setenta e oito, uma terça-feira, dia catorze... vieram-me dizer que ela...
Não, não. Eu é que sei. Estou muito doente. Já pouco tempo resta para Nosso Senhor me chamar. Ainda bem que vieste. Desejava tanto aliviar a consciência, esta angústia que trago comigo, que me tira o sono e me não estanca as lágrimas... Vá, senhora, vá, disse el-rei, compreendendo-lhe o alcance. Acalmai. Já falámos muitas vezes desse assunto e eu... Com incontido vigor e determinação a rainha ripostou: pois é forçoso e urgente uma última vez ouvires o que tens evitado escutar... Que gesto de enfado esboçou el-rei!, pensou a camareira. Eu sei que contrario o teu pendor, continua dona Catarina. És muito novo e essa tua tenção de ganhar honra por teu próprio braço seria bem de louvar, não fosse estorvarem-no razões ponderosas. É a empresa honrosa? Não se duvida. Mas o tempo não é o disposto nem convinhável. És rei, és responsável por estes reinos e impérios e ainda não asseguraste descendência nem sucessor. Três pontos por que as leis divinas e humanas desaconselham de saíres de tua casa a fazer, em terras estranhas e sem seres provocado, guerra duvidosa...» In Fernando Campos, A Ponte dos Suspiros, 1999, Difel SA, 2000, ISBN 978-972-290-806-1.

Cortesia de Difel/JDACT