quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Sucesso no 31 do Segundo Cerco de Diu Jerónimo Corte-Real. «Oprimindo, avexando a gente fraca; bem vedes que, por força, se fizeram absolutos senhores do Oriente»

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Canto 2: carta de Mamude aos senhores das cidades portuárias indianas.

Canto Segundo
[...]
Sendo chegado o tempo de mostrar-se
Aquele desamor que está escondido,
O grão sultão mandou embaixadores
Aos príncipes e reis que ali possuem
Marítimas cidades, onde havia
Fortalezas cristãs, e a todos quantos
Ao lusitano rei pagam tributo.
Mandou ao Idalcão e ao Bramaluco;
Mandou também aos reis que a grande costa
Do Malavar habitam; e as palavras
Das cartas assi deziam:
A vós, que mandava reis poderosos do Oriente,
Mamude paz, amor e bem deseja.
Bem vedes quão sujeitos somos todos
A estes portugueses fementidos;
Bem vedes quantos danos e desgostos,
Quantos roubos e mortes, quanto males,
Estes duros imigos vão fazendo
Cada momento mais por nossas terras,
Oprimindo, avexando a gente fraca;
Bem vedes que, por força, se fizeram
Absolutos senhores do Oriente.
Se se isto não atalha e se castiga,
Cedo nos deitarão de nossos reinos,
Por força, desonrados e abatidos.
Restauremos as terras quasi postas
Em jugo e vencimento. Com armada
E belicosa gente persigamos
Estes cruéis tiranos e imigos.
Como a nova vos for que já de todo
São quebrados os pactos e a paz rota,
Que por nós foi guardada injustamente,
Todos acudireis com tai socorro
Que para livres ser é necessário.
Uma liga façamos todos juntos,
E assi conquistaremos esta gente
Enganosa e soberba, tiraremos
Os nossos naturais de ser cativos,
Vingaremos aquela grande afronta
Que até este ponto a todos nos é feita,
Tributos e pensões sempre pagando,
Fazendo-nos sujeitos, sendo 1ivres.
[…]

In Jerónimo Corte-Real, colecção Tesouros da Literatura e da História, Obras de Jerónimo Corte-Real, HALP, FCG, Lello & Irmãos Editores, Porto, 1979.

Cortesia de LelloeI/HALP/JDACT

No 31. O Bibliotecário. AM Dean. «Naquela cidade, e naqueles gabinetes, todas as paredes tinham ouvidos. Mas não deixe que isso o desvie. Mantemos a nossa rota»

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«(…) Hines digeriu a informação, ou melhor, a falta dela. Após cada atentado terrorista, havia sempre uma mancheia de grupos que declarava a autoria do mesmo em busca da publicidade que proporcionavam os atentados contra a Grande Besta do Ocidente. Também existiam excepções, claro, e eram bastante frequentes para que a ausência de reivindicação, como no caso presente, não fizesse soar nenhum alarme, mas não deixava de ser um silêncio interessante. Já houve alguma reacção oficial por parte do Governo britânico? Limitaram-se a expressar a sua surpresa e o horror e a assegurar que estão a trabalhar com celeridade para levarem os culpados de tão horrendo crime perante a justiça, et ceterat et cetera. Mitch Forrester agitou os dedos num trejeito que indicava a total ausência de conteúdo daquelas respostas padronizadas. Trabalhava no gabinete de Hines há apenas seis meses, mas fazia aqueles comentários com um ar de quem já tinha escutado tudo aquilo antes. Hines não foi capaz de conter-se e perguntou-lhe: quantos anos tem, Mitch? A pergunta apanhou o assistente desprevenido. Desculpe? Estou a perguntar-lhe a idade. Quantos anos tem?
O jovem Forrester mirou-o de um modo estranho, com uma expressão que combinava o seu desdém habitual e a mais completa perplexidade. Se estivessem sozinhos, teria retorquido manifestando a aversão que sentia naquele momento, contudo, estava demasiado consciente da presença de outro homem no gabinete de Hines, tipo sentado silenciosamente a um canto. E não desejava que essa pessoa fosse testemunha da sua impertinência. Vinte e seis, respondeu por fim.
Vinte e seis, repetiu Hines, e deixou escapar um suspiro, deprimido com aquele número tão pequeno. Teria sido ele tão cabeça-dura nessa idade? Passaram-se mais de vinte e seis anos desde essa altura. Ele sempre fora ambicioso, porém, não acreditava que se tivesse comportado com a impetuosidade do rapaz que se encontrava à sua frente. Não tenho a certeza de que isso seja relevante para... Não é, não é, interrompeu Hines, agitando a mão. Mais alguma coisa? Por enquanto não, redarguiu Forrester secamente. Informá-lo-ei assim que tivermos mais novidades... Senhor. Deixou que a pausa antes da última palavra evidenciasse o seu descontentamento pelo modo como fora tratado. Ainda assim, com todo o egotismo da juventude, ficou de pé à espera de reconhecimento pelo seu trabalho. Hines limitou-se a olhar para o televisor. O jovem assistente girou nos calcanhares e saiu quando compreendeu, por fim, que não ia receber nada em troca. Hines esperou meio minuto em silêncio antes de se voltar para o homem sentado no canto mais afastado do gabinete. Embora há muito se tivesse resignado ao serviço que aqueles homens prestavam à organização, ainda sentia uma pontada de nervosismo de cada vez que ficava sozinho com um deles. O seu papel na organização sempre havia sido diplomático, profissional. Nunca fora um desses tipos que faziam o sempre necessário trabalho sujo. Era uma dimensão vil da causa, mas essencial. Embora a maioria das pessoas o considerasse um indivíduo com muita influência, Jefferson Hines sabia que o homem sentado a escassos metros dele representava um poder maior do que alguma vez seria capaz de alcançar.
Acredita que esteja relacionado?, indagou por fim, apontando para a pasta vermelha na sua secretária e depois para o televisor sem som. Relacionado com a missão. Claro. Ambos sabiam que não deviam falar do plano de outro modo que não fosse a missão. Naquela cidade, e naqueles gabinetes, todas as paredes tinham ouvidos. Mas não deixe que isso o desvie. Mantemos a nossa rota. Hines não estava satisfeito. Nunca discutimos isto. Marlake, Gifford..., e os restantes. Esse era o plano. Que diabo se passa em Inglaterra? O seu interlocutor levantou-se quando Hines começou a falar e lançou-lhe um olhar fulminante cujo significado não deixava margem para dúvidas: Cala-te. Nunca deviam mencionar os nomes.
Hines compreendeu o olhar e a mensagem que este encerrava. Tamborilou com os dedos sobre a mesa, contrariado e nervoso. Diga-me que já esperávamos respostas deste tipo, pediu. Diga-me que isto não constitui uma surpresa. Se o seu interlocutor sentia algum tipo de hesitação antes de responder, não o demonstrou. Exibia o ar de um homem que desejava emanar confiança, de alguém que pretendia que o seu ouvinte se mantivesse firme e inabalável». In AM Dean, O Bibliotecário, 2012, Clube do Autor, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-724-124-6.

Cortesia de CdoAutor/JDACT

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Sucesso do Segundo Cerco de Diu Jerónimo Corte-Real. «Olhos e liga os membros de Mamude. Cessaram, por então, os pensamentos, e o seu ânimo teve algum alívio»

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Canto 1: sonho de Mamude, jovem sultão de Cambaia.

Canto Primeiro
[...]
Estava o mundo todo envolto em sombra,
De luzentes estrelas o céu cheio;
Em grave e doce sono transportados
Os trabalhados corpos dos que vivem;
As feras, nas montanhas e desertos,
Em profundo silêncio descansavam;
Não repousa Mamude; desvelado
Está, que nunca os olhos sono admitem,
Mas um cuidado a outro encontra e fere,
Crescendo por momentos a milhares;
Revolve na torvada fantasia
Um grão tropel d'acordos diferentes;
Parece-lhe já ver, bem sucedidos,
Os casos que inda não vê começados:
Um pensamento vão, uma esperança
De natural soberba acompanhada,
Já deste incerto bem o certificam.
Estando assi consigo vacilando,
Entra o sono quieto e invisível,
Prende com subtil manha os desvelados
Olhos e liga os membros de Mamude.
Cessaram, por então, os pensamentos,
E o seu ânimo teve algum alívio.
Não tardou muito espaço que o mancebo,
Sepultado em profundo e doce sono,
Lhe parecia ver uma disforme,
Horríbel, infernal, triste figura,
A cabeça de bíboras cercada
E rebuçada com sangrentas toucas.
O nome desta fúria era Discórdia.
Que até nos paternais peitos acende
Ódios e dissensões, guerras e mortes.
Chega-se a fera sombra ao rei dormido
E com rigor lhe diz estas palavras:
Qua1 coração será tão de diamante,
Quais entranhas de hircano, fero tigre,
Que não se movam, vendo a crua morte
Que ao grão sultão Baudúr se deu sem causa?
Como sofrerás tu tão grande ofensa?
Como não andarás sempre corrido,
Se não vingares morte de um tal homem
Em tudo tão perfeito e acabado?
Sofrerás. porventura, que uma gente
Peregrina, estrangeira e tão soberba
Mate um tão grande rei dentro em seu reino?
Não és tu neto seu? Que mais aguardas?
Que fazes, que não vingas tal desonra?,
[...]

In Jerónimo Corte-Real, colecção Tesouros da Literatura e da História, Obras de Jerónimo Corte-Real, HALP, FCG, Lello & Irmãos Editores, Porto, 1979.

Cortesia de LelloeI/HALP/JDACT

Os Reféns. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «No dia seguinte, a desejada torre de assalto entrou em acção. Desde o nascer do Sol que os trabucos massacravam as muralhas ocidentais, mas quando a nova estrutura surgiu, uma forte emoção invadiu-me»

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Os Reféns. 1147
Lisboa, Outubro de 1147
«(…) No momento desta dolorosa e inédita separação, ao passar a cavalo perto de nós, Gonçalo Sousa não resistiu a uma provocação. Já não sei quem é o rei e quem é o usurpador. Apontava para mim e vi Afonso Henriques cerrar os olhos. Nunca antes um nobre portucalense se atrevera a insinuar que ele não era o verdadeiro filho do conde Henrique e de dona Teresa.
Isso dizem os nossos inimigos!, gritei.
Porém, o antigo alferes não se acanhou. O imperador duvida, os cruzados duvidam, até os mouros duvidam! É gente a mais a duvidar, não vos parece, Lourenço Viegas? Irritado, Afonso Henriques anunciou: depois de tomar Lisboa, convocarei os nobres para os esclarecer. Até lá, lembrais-vos de quem venceu em São Mamede, em Cerneja, em Ourique e em Santarém! Com um sorriso cínico Gonçalo ainda ripostou: com a moura, com a galega, com a francesa. Como podeis ser um bom rei quando gostais mais de estrangeiras?
O meu melhor amigo não lhe respondeu e deixou Gonçalo Sousa partir, enquanto eu olhava, preocupado, para Hervey Glanville sabendo que com aquela cisão os cruzados ascendiam a uma posição ainda mais privilegiada. Na minha terra, matamos os traidores..., provocou o inglês.
O nosso sensato rer ignorou-o. Uma punição da debandada teria consequências dramáticas, os nobres de Entre Douro e Minho eram gente essencial, não podia dar-se ao luxo de os empurrar para o regaço de Afonso VII e do Trava. Desconfiam de vós, escarafunchou Glanville. Olhei-o com crítica frieza, mas o rei não se acanhou: paguei a nova torre, estou à espera de que a usem! O anglo-normando alegou ligeiros atrasos, madeiras e pregos em falta. Depois, insistiu na malícia, olhando para nós. Um safado. Corre por aí que fostes trocados em crianças... O sempre pacificador Cristiano Gistelles, que entretanto também chegara, lembrou os avisos de Bernardo Claraval. Os intriguistas queriam manchar a reputação do rei, mas o abade de Cluny avisara que não lhes déssemos ouvidos! Só quem tinha passado em Compostela, como Glanville, se contaminara pela desconfiança.
Pela minha parte, tolices dessas não se promovem, antes se sepultam!, garantiu Cristiano Gistelles, que viera informar-nos de que a sua mina acabara de explodir. Dirigimo-nos para o lado oriental, onde soubemos que alguns soldados já entravam por uma brecha na muralha. Por momentos, acreditámos no fim do cerco, mas em pouco tempo essa crença esfumou-se. Os habitantes defendiam-se atrás de barricadas altas e impediam o avanço dos cruzados. Desalentado, Cristiano Gistelles concedeu que, perante tão forte resistência, a iniciativa passaria para os anglo-normandos, o que levou Pêro Pais a comentar, irritado: estamos nas mãos do bobo inglês...

No dia seguinte, a desejada torre de assalto entrou em acção. Desde o nascer do Sol que os trabucos massacravam as muralhas ocidentais, mas quando a nova estrutura surgiu, uma forte emoção invadiu-me. É desta!, gritou Gualdim Pais. Com vinte e tal passos de altura, três pisos e dezenas de arqueiros e besteiros lá em cima, a máquina foi-se aproximando da muralha, empurrada por centenas de homens, enquanto outros molhavam os couros que a revestiam. Deus queira que não pegue fogo!, lembrou Pêro Pais. Uma saraivada constante de flechas e pedras, lançadas a partir da torre, foi vergastando os inimigos, que, perante a visão daquele dragão invencível, reforçaram os locais atingidos. O dia passou-se assim, mas com a chegada da noite uma evidência impôs-se: a torre não conquistara um palmo e o cansaço fazia a sua aparição. Frustrado e vendo que a maré subia, Glanville fez recuar as tropas e ordenou que duzentos cavaleiros e arqueiros permanecessem na torre, para a defender. Nós vamos ficar!, declarou Pêro Pais. Era uma operação de risco elevado. Com a subida das águas, a estrutura separava-se do grosso dos exércitos, não podendo ser ajudada por terra, o que obrigava os que lá pernoitariam a uma vigília permanente e a uma provação feroz». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Os Reféns. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Pela primeira vez desde que fora aclamado rei em Ourique, Afonso Henriques viu nascer contra si uma dissidência. Liderados pelo irado Gonçalo Sousa…»

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Os Reféns. 1147
Lisboa, Setembro de 1147
«(…) Dando-lhe a mão, recordou o quanto sofrera ao lado de Ibn Qasi. Por sorte, escapara, mas ainda se sentia muito triste e só agora a esperança lhe voltava ao coração. Vejo um futuro para mim e para a minha filha. Um sorriso matreiro iluminou-lhe o rosto. Quereis viver na minha corte?, perguntou o rei. A viúva de Ibn Qasi aceitaria dar-se, desde que ele a tomasse a seu cargo. Debaixo da sua asa, renasceria. Contudo, tinha um desejo prévio para realizar em Lisboa. Deixai-me ir ver Fátima!, pediu ela. Afonso Henriques olhou para ela com alguma preocupação, mas depois uma ideia ocorreu-lhe. Para convencer a princesa, contou-lhe o que se passava em Lisboa, a dureza do cerco e a rebeldia dos portucalenses, bem como a intriga de Compostela, com que o minavam os inimigos. Por fim, revelou-lhe quem era Orimar. Ramiro?, espantou-se a princesa.
O rei explicou-lhe também que, aquando da rendição das cidades, era costume os sitiados entregarem reféns. Vou exigir cinco a Lisboa, anunciou. Zhakaria, Fátima, Raimunda, Ramiro e o último dos feddayins. Minha irmã está a morrer…, lembrou a princesa. Como quem já pensara nisso, o rei ripostou-lhe: tomai o lugar dela. Ninguém se aperceberá! Os reféns seriam entregues a Arnaldo Aerschot e a Cristiano Gistelles, e Zaida substituiria a moribunda irmã. Os cruzados não lhe fariam mal, por respeito a Afonso Henriques, e a princesa teria apenas de se manter atenta a Raimunda. Com Ramiro também a morrer, só a bruxa conhecia o esconderijo da Lança de Cristo. Estou certo de que conseguireis vigiá-la! A princesa fez-lhe festas na mão, agradada. Farei o que desejardes, garantiu.
Nessa noite, Zaida dormiu na tenda do rei e, na manhã seguinte, Afonso Henriques comentou comigo que o casamento com Ibn Qasi a tornara menos alegre, o que era uma pena, mas também mais submissa, o que lhe agradava. Agora, percebe melhor qual é o seu lugar. Concluí, em silêncio, que, viúva e depois de tanto sofrer, Zaida perdera as ambições de reinar em Córdova, mas não a lucidez. Ser amante do rei de Portugal era bem melhor do que casar com Mem. A princesa moura era um encanto de mulher, mas nunca descurava os seus interesses pessoais. Perdido um emir, abria-se a um rei.
Contudo, queridos filhos e netos, a sua inesperada chegada a Lisboa acelerou um dominó devastador. Gonçalo Sousa fora o primeiro enamorado de Zaida, muitos anos antes, mas perdera-a. Ao vê-la aninhada no regaço do rei de Portugal, uma dor de cor… antiga e dolorosa regressou, multiplicando a sua fúria.

Lisboa, Outubro de 1147
Pela primeira vez desde que fora aclamado rei em Ourique, Afonso Henriques viu nascer contra si uma dissidência. Liderados pelo irado Gonçalo Sousa, enciumados com a primazia dada aos cruzados, insatisfeitos com as promessas de benesses que não chegavam, cansados de uma luta que durara o Verão inteiro, um relevante número de nobres de Entre Douro e Minho e de Bragança decidiu regressar às suas terras, levando dois terços do nosso exército». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

Os Reféns. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «A francesa é uma maçadora, resmungou o rei. Zaida sorriu levemente e perguntou: e Chamoa? Sei que vive em Coimbra. O meu melhor amigo encolheu os ombros: continua a mesma tola de sempre»

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Os Reféns. 1147
Lisboa, Setembro de 1147
«(…) Lisboa tem de cair, senão..., murmurei. Preocupado, o rei enviou-me ao campo dos flamengos e dos alemães, para averiguar do andamento da nova mina. Parti depressa e a cavalo, com Pêro Pais e Gualdim. Haviam sido abertas cinco entradas para confundir os mouros, que assim não iam perceber qual a verdadeira. Com mais de vinte passos de largura, o túnel iniciava-se perto da Porta do Sol e terminava no interior da alcáçova, debaixo da Cerca Moura. Só faltam cinquenta passos, explicou Gistelles. Quando podem rebentar a mina?, perguntei. O chefe flamengo suspirou. Sabia da revolta dos ricos-homens portucalenses, mas precisava de duas semanas, o que era de mais. A mina não ia evitar a cisão dos nossos exércitos. Nem a torre paga por Afonso Henriques, que os normandos terminavam à pressa. Os sacanas são duros de roer..., resmungou Gistelles. Nesse momento, um escudeiro dele veio avisar-nos de que junto ao Tejo tinha sido aprisionada uma moura com uma criança, bem como um homem que se dizia um cavaleiro portucalense. Ide ver do que se trata, sugeriu Gistelles. Descemos até à beira-rio e, apesar de a noite estar escura, a luz dos archotes iluminou a cara dos recém-chegados e o meu coração deu um pulo. O homem era Mem e a mulher, a princesa Zaida, que trazia a filha Maryam. Vou levar-vos ao rei, disse-lhes, depois de um abraço emocionado.
Pelo caminho, Mem contou-nos a tomada de Silves por Ibn Wasir, a morte de Ibn Qasi e a fuga difícil dos três. Atrás dele, reparei que Zaida não falava. Notara a forma diferente como estava vestida, com um manto escuro a tapá-la, mas o que mais me impressionou foi a ausência de sorrisos. A princípio, atribuí essa rigidez à infelicidade pela morte de Ibn Qasi, mas Mem esclareceu-me. O filho de uma cadela deu cabo da Zaida. O espírito alegre e meigo da princesa, que eu conhecera e tanto estimara em Coimbra, ensombrara-se. Perdera o riso, a leveza, a graça feminina e o atrevimento físico. Antes, vestia transparências e alifafes coloridos, mostrava as pernas, os braços, até o peito, a voz doce enfeitiçava e o olhar era uma terra prometida de mistérios entusiasmantes. No presente, nada disso existia: a mudez impunha-se, o rosto fechava-se, o olhar perdia-se, o manto cobria-a. Parece bem, mas está morta, lamentou Mem.
Nada acontecera entre eles após a fuga de Silves. A doçura do passado e a vontade de unir os corpos não reaparecera. E não era do desgosto, pois ela já não se dava ao marido, contou Mem, antes de descrever a lenta agonia que Zaida vivera, vergastada pela rigidez do Islão, constantemente reprimida em Tinmel e depois em Silves, onde um fanatismo estúpido e inculto lhe degradara a vida. Ibn Wasir foi mais esperto, comentou Mem. O homem que agora dominava o Al-Gharb e parte da Andaluzia fingia ser um fervoroso crente das doutrinas dos almóadas, para conseguir o apoio militar destes, mas depois dava às gentes locais liberdade e aceitava manter os costumes andaluzes mais antigos. Já o marido de Zaida, na ânsia de agradar ao líder de Tinmel, obrigara as gentes de Silves e Mértolaao cumprimento de normas que nada lhes diziam e estas haviam-no rejeitado. Ou encolhido por dentro, como Zaida.
Princesa, lamento a vossa perda, disse Afonso Henriques, ao vê-la entrar na sua tenda. Abraçou-a, mas ela ficou atrapalhada, como se aquele fosse um gesto proibido, enquanto ele se lamentava por não ter aceitado a paz de Zaida. Em tempos, a bela princesa sugerira um casamento entre os dois para unir o Condado Portucalense à Andaluzia, mas o meu melhor amigo rejeitara essa quimera inviável. Tanta guerra e tristeza se teriam evitado... Zaida nada disse, pois ainda estava habituada a calar as opiniões em frente do marido. Só se interessou quando o rei de Portugal confessou não ter tido sorte no casamento. De repente, notei um novo brilho no seu olhar, enquanto dava os parabéns ao rei pelo matrimónio e pelo nascimento do primeiro filho legítimo. A francesa é uma maçadora, resmungou o rei. Zaida sorriu levemente e perguntou: e Chamoa? Sei que vive em Coimbra. O meu melhor amigo encolheu os ombros: continua a mesma tola de sempre. Meteu na cabeça que fui trocado em pequenino com o Lourenço... Tossi, enervado com a forma leviana como ele resumia a intriga de Compostela, mas Afonso Henriques não me ligou, dizendo-se perplexo com a súbita amizade entre Chamoa e Mafalda da Sabóia. Odiavam-se, mas agora dão-se bem!
A princesa sorriu e murmurou: mulheres... O rei olhou-a demoradamente e depois perguntou: que desejais, princesa Zaida? Quero fazer-vos um pedido, disse ela, baixando a voz. Afonso Henriques aproximou-se mais dela e apreciou: continuais tão bela... Nesse momento, a antes tão pálida e séria Zaida corou. Deixem-nos, ordenou o rei. A meu lado, Mem franziu a testa, irritado. Contudo, nada podia fazer. Eu e ele abandonámos a tenda e só dias depois conheci o refinado estratagema que o rei de Portugal engendrou com a princesa. Já a sós com Afonso Henriques, Zaida disse-lhe: tenho pena de não me ter casado com vós…» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Os Reféns. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «O antigo alferes regressou a Lisboa ufano e vitorioso, mas a sua surtida enfureceu Afonso Henriques, que o obrigou a distribuir os proveitos pelos cruzados»

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Os Reféns. 1147
Silves, Agosto de 1147
«(…) Embora esgotado, depois de ajudar Maryam e Zaida a subirem para o barco, Mem correu a apagar as chamas, aquilo não podia acabar assim. E não acabou. Apesar dos danos, de manhã conseguiram chegar à foz do Arade. Estamos salvos no mar, disse o piloto. Só pararam a meio da tarde, numa pequena vila piscatória mais a norte, onde conseguiram obter víveres e remendar a vela. Maryam estava com febre e Mem colocou-lhe panos molhados na testa até a criança adormecer. Para onde vamos? perguntou Zaida. Mem referiu Lisboa, onde se encontravam Afonso Henriques e os cruzados, mas ela protestou, dizendo-se farta de perigos. Só quando o antigo almocreve lhe disse que a irmã Fátima estava a morrer é que a princesa acedeu. O sangue dos Benu Ummeya impunha-lhe uma última homenagem. Por fim, com um ar triste, perguntou a Mem: cortaram-lhe a cabeça? O cavaleiro de Almourol não queria falar sobre a morte de Ibn Qasi, mas acabou por confirmá-la. Zaida manteve-se calada algum tempo e depois comentou: o meu marido morreu como o tirano que era.

Lisboa, Setembro de 1147
Os relatos vindos do interior de Lisboa eram aterradores. Os que de lá escapavam descreviam uma degradação intensa, com a fome a ceifar inúmeras vidas. Faltavam cereais, legumes, frutas e mesmo a água rareava. Desalentados com as notícias de que o socorro não chegaria, muitos habitantes entregavam-se aos cruzados, sendo obrigados a aceitar uma conversão forçada. No entanto, por vezes matavam-nos antes de um prelado chegar. Os irmãos Vítulo e Giraldo lideravam um grupo que se especializara em torturar os sitiados. À noite, colocavam comida perto das muralhas e quando algum mais afoito aparecia degolavam o infeliz, mesmo que este se rendesse. Que bestas..., comentou Pêro Pais.
Só uma última esperança havia entre os mouros, a de que Sintra e Almada enviassem reforços. Porém, em meados de Setembro dois acontecimentos reduziram a pó essa derradeira expectativa. Gonçalo Sousa, acompanhado apenas por portucalenses, realizou um fossado contra Sintra sem autorização prévia do rei de Portugal, obtendo um importante saque. O antigo alferes regressou a Lisboa ufano e vitorioso, mas a sua surtida enfureceu Afonso Henriques, que o obrigou a distribuir os proveitos pelos cruzados.
Sois nosso rei ou vassalo deles?, indignou-se Gonçalo. O segundo episódio aconteceu perto do fim do mês, quando um pequeno grupo de anglo-normandos foi dizimado pela guarnição sarracena de Almada. Enfurecidos, os irmãos Vítulo exigiram uma pronta retaliação, obrigando Hervey Glanville a aprovar uma expedição. Também sem o conhecimento do rei de Portugal, quarenta nobres anglo-normandos, acompanhados por mais de cem peões, arqueiros e besteiros, atravessaram o Tejo e lançaram-se ao assalto da pequena povoação. Uma chacina desnecessária, protestou Pêro Pais. Quinhentos populares foram mortos, incluindo velhos, mulheres e crianças, enquanto eram decapitados os oitenta soldados que defendiam o castelo. As suas cabeças, trazidas para Lisboa de barco, foram espetadas em lanças em frente das muralhas, para que os resistentes lisboetas percebessem que ninguém os viria socorrer. Porém, não ter existido divisão do saque de Almada atiçou as fúrias dos portucalenses. Damos-lhe o nosso saque, mas eles não dividem o deles?, perguntou Gonçalo Sousa.
Perante esta ausência de reciprocidade, Gonçalo acusou o rei de parcialidade inaceitável! A discórdia portucalense cresceu e de uma assentada vários notáveis vieram à tenda de Afonso Henriques debitar queixumes. Por mais que este lhes fizesse ver o quanto precisava dos cruzados, a querela inflamou-se. Querem deixar-nos, lamentou-se o rei de Portugal. Nessa noite, com ele já só estavam João Peculiar, arcebispo de Braga; Pedro Pitões, bispo do Porto; Peres Cativo, o mordomo; o alferes Pêro Pais e o seu amigo Gualdim Pais. Dos inúmeros nobres portucalenses que meses antes tinham vindo, restavam os meus irmãos e eu, todos os outros queriam regressar ao Norte». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

domingo, 27 de janeiro de 2019

A Criada do conde Henrique. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Ficou decidido que só circulariam em Lisboa dois grupos. O primeiro, composto por cento e quarenta anglo-normandos, entraria pela Porta da Alfofa»

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A Criada do conde Henrique. 1147
Coimbra, Outubro de 1147
«(…)
Lisboa, Outubro de 1147
Ouvi  à minha volta berros e senti que algo me queimava. Era a minha dalmática a arder e despi-a, num frenesim assustado. Depois, sacudi-me e rebolei pelo chão até chocar com Giraldo, que, também deitado e agarrado aos olhos, gritava: Pu… da bruxa cegou-me! Só aos poucos me apercebi do que se passara. Surgiu gente à minha volta: Chamoa, Zaida, Mem. Depois, vi o rei de pé. Chamuscado nas barbas e nos cabelos, Afonso Henriques já dava ordens. A Raimunda fugiu!, informou Chamoa. A reles víbora lançara cinco bolas de fogo, duas contra o rei e três para criar espaço à sua volta, uma roda de chamas que afastou os soldados. Aproveitando a confusão, correra na direcção da mina que os flamengos tinham aberto há dias. Vamos atrás dela!, gritou Mem. Embora me doessem os olhos e os ouvidos, desatei a correr, seguindo o cavaleiro de Almourol. Entrámos no subterrâneo juntos e avançámos, na companhia de alguns soldados com archotes. Mas por mais que a procurássemos, não a encontrámos. Foi para a cidade, disse Mem. No final do túnel, já no interior de Lisboa e junto à Cerca Moura, vimos um grupo de guerreiros sarracenos, que nos mirava sem saber o que fazer. A manhã nascia, Lisboa cobria-se de uma nova luz, os cinzentos das casas tornavam-se mais claros, quase brancos. Os combates estão suspensos, relembrei. Não podemos entrar na cidade, é esse o acordo com os mouros. Irritados, demos meia-volta. A esperta bruxa escapara.

Queridos filhos e netos, foi depois desta iniciativa falhada, quando regressei ao acampamento dos flamengos, já de manhã, que soube ser Ramiro um filho bastardo de dona Urraca, um meio-irmão de Afonso VII. Embora tivesse sido o último a conhecer a intriga de Compostela, foi bom ter finalmente a certeza de que nunca houvera qualquer troca de meninos há quase quarenta anos. Eu era filho de Egas Moniz e de Dordia Viegas e o rei de Portugal do conde Henrique e de dona Teresa (??). Não precisava de me atormentar mais. Nesse momento clarificador, olhei para o Céu e pedi a meu pai que me perdoasse por ter duvidado dele, mas logo me distraí, pois as negociações matinais com os cruzados estavam a correr mal. Temos direito a pilhar a cidade!, lembrava Arnaldo Aerschot. Ainda indignado com o que se passara com os reféns, o rei de Portugal apresentou as suas condições: a vida dos lisboetas tinha de ser garantida, não aceitava massacres, roubos ou estupros de mulheres. Por fim, exigia uma entrada das tropas ordeira. Todos têm de se comportar!, gritou o meu amigo.
Ficou decidido que só circulariam em Lisboa dois grupos. O primeiro, composto por cento e quarenta anglo-normandos, entraria pela Porta da Alfofa. Quanto ao segundo, incluiria cento e sessenta alemães e flamengos, que a partir da porta do Sol fariam a inspecção da cidade, encontrando-se no castelo lisboeta com o outro grupo, para ambos recolherem o saque. Por fim, os portucalenses só entrariam depois dos cruzados, mas Pêro e Gualdim Pais acompanhariam os anglo-normandos, ficando eu e Peres Cativo com alemães e flamengos. Mantende-vos junto a mim, disse-me Gistelles. A meio da manhã, verifiquei com pesar que as falhas de autoridade do chefe flamengo eram evidentes. Os homens ignoravam as suas ordens e cheguei a protestar junto dele, quando mirei o vasto contingente que se lançava nas ruas: são quase trezentos, muitos mais do que o combinado! Os mouros vão sentir-se enganados!
De nada serviram os meus avisos, flamengos e alemães surpreenderam-me pela ira e pela ganância demonstrada. Aos magotes, fosse pelas portas, fosse pela mina, avançaram numa espiral de violência facínora que o bem-intencionado Cristiano Gistelles não conseguiu evitar. Nesse dia, morreram às mãos dos flamengos vários dos anciãos notáveis com quem tínhamos negociado a rendição, incluindo o alcaide da cidade. Mais grave ainda foi o assassínio do bispo dos moçárabes, um homem calmo e respeitador, um resistente às tentativas canalhas dos Mantos Vermelhos, que agora morria às mãos dos cristãos, cuja entrada na cidade esperara com alegria.
Do lado ocidental, coisa semelhante se passou. Contou-me depois Pêro Pais que um vasto número de anglo-normandos, cerca de quatrocentos, fugiu ao controlo de Hervey Glanville e passeou, em fúria, na cidade. O condestável inglês alegou que haviam sido instigados por um sacerdote de Bristol, mas só a meio da tarde conseguiu acalmar os ânimos, o que não impediu os habitantes de Lisboa de passarem um péssimo bocado.
Meus queridos filhos e netos, a guerra é uma coisa estúpida, uma desordem total, um regresso ao pior dos homens, aos tempos em que só existia a vida, a morte e a luta pela sobrevivência». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Criada do conde Henrique. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Ao contrário de mim, que no momento ainda nada sabia, Afonso Henriques não se surpreendeu com a eliminação do templário, pois não ignorava que eram essas as instruções da bruxa»

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A Criada do conde Henrique. 1147
Coimbra, Outubro de 1147
«(…) Ao chegarem ao acampamento flamengo, viram as fogueiras crepitando, mas também ouviram gritos. Algo se passava, havia dois corpos espetados em estacas e uma matula de cruzados cercava um pequeno grupo de pessoas. Vamos!, gritou Afonso Henriques, esporeando o Sultão. Quando o rei de Portugal se aproximou de nós, um primeiro olhar tranquilizou-o: Zaida, Mem e eu estávamos vivos, Ramiro deitado na padiola e Raimunda ao lado dele. Mas o seu rosto empalideceu quando viu que o primeiro dos empalados era o antigo governador de Santarém, sendo o segundo Malik, que havia sido morto há pouco tempo. Quem matou o wali?, perguntou. Esclareci o meu amigo, que fez um curto elogio fúnebre de Abu Zhakaria, furibundo por o terem executado. Ainda para mais, com a sua morte fora quebrada a palavra dada aos anciãos lisboetas, que agora podiam recusar a rendição.
E se a cidade continuar a lutar?, questionou o rei. Giraldo justificou-se: Malik e Zhakaria eram dispensáveis, pois Ramiro, Raimunda, Zaida e o feddayin ainda estavam vivos. O Mem pode ser o quinto refém! Este cerrou os olhos, furioso, mas Afonso Henriques, que entretanto desmontara, perguntou a Giraldo: a quem deveis lealdade? Bati-me por vós!, ripostou o outro, depois de um estremecimento. Mas sei que Mem é um traidor! O meu melhor amigo aproximou-se dele. O rei sou eu. Ajoelhai a meus pés e jurai-me lealdade. Giraldo empalideceu, humilhado em frente dos novos amigos. Fui dos primeiros a entrarem na cidade..., lembrou. Afonso Henriques não o deixou continuar. Ajoelhai!
Contrariado, Giraldo genuflectiu e baixou a cabeça, murmurando uma jura ao rei de Portugal, ouvida já por Hervey Glanville, que fingira acordar com o rebuliço. Que se passa?, perguntou o sonso condestável inglês. Confrontado pelo meu melhor amigo, enxotou as culpas das atrocidades para os seus homens, em cujos corações ainda não se finara o ódio aos infiéis. Certamente por causa da bebida, haviam perdido a lucidez, matando dois dos mouros que ali estavam, crime pelo qual seriam punidos.
Os reféns não podiam ser mortos!, ripostou Afonso Henriques. E a princesa Zaida é minha convidada. Não sabia disto!, mentiu Glanville, apontando para os corpos empalados. Expus a sua falsidade. O inglês aprovara a morte de Zhakaria e Malik, e por isso o rei de Portugal ordenou que os reféns fossem imediatamente levados para o acampamento portucalense. No dia seguinte, as chefias cristãs estabeleceriam novas regras.
Mas..., balbuciou Glanville. Os seus homens já o pressionavam, batendo com as espadas no chão. Aquela desfeita desonrosa enraivecia-os. Tínhamos de partir depressa, avisei o meu melhor amigo, pois Glanville era escorregadio como uma enguia e os Vítulo uns perigosos brutos. Esperai, ripostou-me Afonso Henriques. Passando por Giraldo, que permanecia ajoelhado, aproximou-se da padiola onde gemia Ramiro. Cuidado..., murmurou Chamoa, atrás de mim. Avancei para próximo de Raimunda. Com a espada apontada, ameacei-a de morte, mas a bruxa nem piou. A Lança de Cristo está escondida na mina da Adiça?, perguntou Afonso Henriques a Ramiro. O desgraçado moribundo era um destroço humano. O rei concluiu que ele estava condenado e deu ordens para que quatro soldados carregassem a padiola, enquanto outros retiravam das varas Zhakaria e Malik, que tinham de ser enterrados com dignidade.
Vamos!, ordenou Afonso Henriques. Segui-o, vigiando pelo canto do olho Raimunda, que acarinhava o doente. Ao passar por Giraldo, reparei que lhe brilhavam os olhos, mas só dias depois soube porquê. No momento, apenas ouvi um grito. A bruxa! Chamoa apontava na direcção de Raimunda e vi um punhal na mão desta. Julgando que o ia lançar contra Afonso Henriques, coloquei-me na possível trajectória da arma, entre a bruxa e o rei. Contudo, Raimunda fez o que eu não esperava: cortou a garganta de Ramiro. Mer…!, rosnei.
Ao contrário de mim, que no momento ainda nada sabia, Afonso Henriques não se surpreendeu com a eliminação do templário, pois não ignorava que eram essas as instruções da bruxa. O imperador dos Cinco Reinos, o seu primo Afonso VII, conseguira matar o meio-irmão. Cuidado!, voltou a gritar Chamoa. Sohba, a avó de Raimunda, costumava usar bolas de fogo quando se sentia encurralada. E, na mão direita da bruxa, a minha cunhada viu aparecer uma dessas pequenas esferas, que logo voou e aterrou próximo dos meus pés, libertando enormes labaredas que me cegaram e deitaram ao chão, bem como a Afonso Henriques. O rei de Portugal a cair foi a última coisa que vi antes de tudo ficar negro». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

A Criada do conde Henrique. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Ela sorriu-lhe, embevecida. Os cavalos iam a passo, havia tempo para conversarem. Peres Cativo, Pêro Pais e Gualdim Pais seguiam à frente deles…»

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A Criada do conde Henrique. 1147
Coimbra, Outubro de 1147
«(…) Agastado com a gritaria, Afonso Henriques ordenou a dona Justa que levasse dali os filhos, e a Maria Gomes e a Teresa Celanova que colocassem Chamoa na tenda mais longínqua do acampamento. Depois, pediu tempo a Pêro Pais e a Peres Cativo. Primeiro, teria de amansar a fera, só depois poderia ir buscar-nos. Não demoro, sei do que precisa!, explicou o rei.
Algum tempo depois, Afonso Henriques juntou-se a Peres Cativo, a Gualdim e a Pêro Pais, a quem perguntou: que queria vossa mãe? O meu sobrinho descreveu a aventura de Chamoa, vinda desde Coimbra disfarçada de criada, escondida numa carroça de carga, só para enganar dona Mafalda. O rei de Portugal riu-se, convencido de que ela fizera aquilo para o rever, mas Pêro Pais jurou que a mãe só viera porque trazia novidades, coisa que ficou confirmada com a súbita aparição da própria. Afonso, deixai-me falar antes de partires!, exclamou Chamoa. Contente, Afonso Henriques abraçou-a com força, espalmando os fartos seios dela contra o peito e beijando-a. Irei visitar-vos esta noite. A rainha já dorme... A minha cunhada sorriu-lhe, lisonjeada, com os olhos a brilharem. Mas depois desatou a falar muito depressa. Deslindara a intriga de Compostela, Ramiro era um bastardo de dona Urraca, que Paio Soares perfilhara a pedido do conde Henrique e que Afonso VII agora mandara matar! Chamoa..., suspirou o rei. Falais depressa de mais, não vos consigo acompanhar. Que dizeis de meu pai? A minha cunhada resumiu o que descobrira, mas um desagradado Afonso Henriques logo lhe disparou: haveis ido a Toledo?
Também Pêro Pais mirava a mãe, suspeitando do que tal significava. Contudo, Chamoa não se acanhou. Foi meu tio Fernão Peres quem me chamou lá!, mentiu ela.
Reafirmou que Ramiro era meio-irmão de Afonso VII, e que este já sabia que o bastardo estava vivo em Lisboa, disfarçado como Orimar. A Raimunda vai matá-lo!, gritou. Peres Cativo lembrou que, anos antes, Raimunda tentara que muçulmanos e leoneses nos derrotassem. Não espantava que estivesse novamente a colaborar com Afonso VII. Ela foi a Toledo há uns meses, garantiu Chamoa. Afonso Henriques duvidou: o antigo templário estava moribundo. Se a bruxa o quisesse matar, já o teria feito. Mesmo assim... Vou eu buscar os reféns!, prontificou-se Pêro Pais.
O rei de Portugal recusou, pois estava certo de que os cruzados não entregariam os cinco escolhidos ao alferes. Só eu tenho autoridade para os reclamar! Decidido, montou o Sultão e ordenou aos outros que o seguissem, incluindo Chamoa, o que encheu a minha cunhada de júbilo. O grupo avançou a cavalo, enquanto no céu a noite se transformava em madrugada. Corria um vento frio, que penetrava até aos ossos. Ao ouvir Chamoa espirrar, o rei de Portugal retirou o manto dos ombros e pousou-o sobre os dela. Não vos quero doente.
Ela sorriu-lhe, embevecida. Os cavalos iam a passo, havia tempo para conversarem. Peres Cativo, Pêro Pais e Gualdim Pais seguiam à frente deles, ninguém ouvia o que diziam. Mafalda quer banir-vos da corte, murmurou o rei. Chamoa suspirou. Vontade não lhe faltava de apoucar a rainha, essa víbora francesa, falsa como Judas: em Coimbra uma simpatia, ali uma feroz rival. Mas não o fez.
Tem ciúmes. Compreendo-a. Também ela se enraivecera no passado, com Raimunda, com Elvira Gualter e até com Zaida, de quem era amiga. Todas as que se aproximassem do rei eram perigosas, o mesmo transtorno que agora assustava Mafalda da Sabóia também a assombrara. Já não me amais?, perguntou o rei de Portugal. Lá ao fundo, uma ténue luz nascia, o dia começava no levante. Chamoa pensou em Mem, um homem bom, que nunca lhe fizera mal, ao contrário de Afonso Henriques, que tanto a magoara. Depois, lembrou-se de Zaida e disse que já a sabia em Lisboa. Está viúva, comentou o rei. O Mem quer levá-la para Almourol..., adiantou ela. Afonso Henriques encolheu os ombros, era ele quem decidia essas coisas. Numa voz solene e autoritária, declarou: Zaida irá comigo para Coimbra. E vós também. Em silêncio, Chamoa concluiu que permaneceria uma das barregãs do rei de Portugal. Submissa, esperaria as visitas dele para a filhar. Nunca seria capaz de o deixar. Uma parte dela amava-o, a outra precisava dele. É a história da minha vida...» In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.

Cortesia da CasadasLetras/JDACT

sábado, 26 de janeiro de 2019

A Criada do conde Henrique. 1147. Assim Nasceu Portugal. Domingos Amaral. «Em Coimbra, Mafalda da Sabóia multiplicava-se em simpatias, mas era evidente que não iria deixá-la aproximar-se do rei. Vou convencê-la, afirmou Chamoa…»

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A Criada do conde Henrique. 1147
Coimbra, Outubro de 1147
«(…) Após esses acontecimentos, servira na Maia, primeiro como criada de Paio Soares e a seguir como ama dos filhos de Chamoa. Nunca casara nem conhecera homem, mas sofrera com a morte dos seus dois senhores, primeiro, o conde Henrique, depois, Paio Soares. Admirava-os, embora temesse que o bom coração de ambos os fizesse perder, como veio a verificar-se. O conde confiara na malévola cunhada, que o envenenara; e Paio Soares apostara no bom senso de Afonso Henriques, sem prever que este, doido de ciúmes, o mataria para poder ficar com Chamoa. Os homens bons morrem cedo de mais, sentenciou dona Justa. Depois de um curto silêncio, Chamoa interrogou-a: e Ramiro? A ama nunca se surpreendera com a atribulada vida do antigo templário. Ramiro sempre fora um mal-amado, Paio Soares desprezava-o e ele sentia-se um bastardo injustiçado, a confusão e a revolta habitavam aquela alma desde a infância. O imperador quer matá-lo, tenho de ir a Lisboa, disse Chamoa. Duvido de que a rainha vos autorize..., murmurou dona Justa.
Em Coimbra, Mafalda da Sabóia multiplicava-se em simpatias, mas era evidente que não iria deixá-la aproximar-se do rei. Vou convencê-la, afirmou Chamoa, antes de fazer um comentário inesperado. Agora entendo o vosso nervosismo em Cárquere, quando fomos ao mosteiro! Dona Justa não se aproximara do depósito dos órfãos, ficara com as crianças na carroça e revelara o seu desconforto a Mem. Trouxe más recordações..., confessou a ama.

Foi a passagem dos exércitos portucalenses por Coimbra, vindos de Lisboa, que possibilitou a ida de Chamoa para junto de nós. O rei prejudicou-nos, dá tudo aos cruzados, justificou-se Gonçalo Sousa. E dorme com uma moura! Enfurecida com a traição daqueles nobres e enciumada com a existência de uma nova rival, Mafalda da Sabóia decidiu partir de imediato para o Sul. Em poucos dias, ficou pronta uma comitiva de mulheres, onde se incluíam a minha Maria Gomes, Teresa Celanova, a minha irmã Elvira Viegas e ainda dona Justa, que tomaria conta dos filhos de Afonso Henriques. Só uma pessoa foi proibida de viajar: Chamoa. A francesa não a queria em Lisboa. Manhosa, a minha cunhada fez de conta que acatava a ordem, mas logo engendrou um estratagema. Iria na carroça das criadas, na rectaguarda da comitiva, onde Mafalda da Sabóia jamais a toparia!

Lisboa, Outubro de 1147
Meus queridos filhos e netos, volto agora ao ponto onde suspendi a minha narrativa lisboeta. Precisamente na mesma altura em que Peres Cativo me deixou a guardar os reféns, dona Mafalda da Sabóia, primeira rainha de Portugal (???), apresentou-se na tenda de Afonso Henriques. Com o filho Henrique ao colo, a francesa entrou, orgulhosa com a sua demonstração de solidariedade num momento tao difícil. Je suis ici por toi, mon roi!, declarou. Este momento agradável, presenciado por Teresa Celanova, Elvira Viegas, Maria Gomes e dona Justa, foi bruscamente interrompido pela chegada de Peres Cativo, que informou o rei da instável situação que se vivia no acampamento dos flamengos. Fátima morreu e Zaida ofereceu-se para a substituir, confirmou o mordomo-mor. Mas Glanville exige a Lança de Cristo e quer torturar o Ramiro ou a Raimunda! Irei até lá!, aflrmou o rei. Não podem prender a... De repente, Chamoa surgiu à entrada da tenda e ele calou-se. Mas, percebendo que tinha sido ludibriada, Mafalda da Sabóia urrou: la vache est la?! Como se o próprio Diabo estivesse ali, num acesso de fúria desatou aos gritos e foi necessária a força de gigante de Afonso Henriques para a impedir de carregar sobre Chamoa». In Domingos Amaral, Assim Nasceu Portugal, Oficina do Livro, Casa das Letras, 2017, ISBN 978-989-741-713-9.
                    
Cortesia da CasadasLetras/JDACT