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sábado, 9 de abril de 2016

Sancho I. Peregrino e devoto de S. Senhorinha de Basto. Geraldo Coelho Dias. «O túmulo de Santa Senhorinha é venerado na freguesia do mesmo nome e a igreja paroquial, seiscentista, tem várias e pobres referências iconográficas e tumulares à Santa, mas no mosteiro nada subsiste»

Cortesia de wikipedia

«(…) Santa Senhorinha de Basto (924-982, aproximadamente) é uma santa do século X, nascida em território português, perto de Vieira do Minho, prima de S. Rosendo. Foi educada por uma tia, chamada Godinha e também ela venerada como santa e fundadora do mosteiro de S. João de Vieira, a qual aparece referenciada no cartulário bracarense do Biber Fidei. Todavia, a vida de Santa Senhorinha, pouco estudada ainda, foi publicada em latim nos Portugaliae Monumenta Historica-Scriptores e recentemente traduzida para português. Sabemos que os monges beneditinos da antiga Congregação dos Monges Negros de S. Bento do Reino de Portugal, a consideravam monja e abadessa beneditina e como tal a representaram e difundiram o seu culto. Frei Leão de S. Tomás resume a sua vida e descreve o seu mosteiro, situado no fundo do vale, junto ao rio Basto, a três quilómetros do mosteiro de Refojos, no caminho para Arco de Baúlhe. Na realidade, porém, Santa Senhorinha é anterior à introdução da vida beneditina na nossa região, patrocinada pelas determinações do Concílio de Coyança em 1050, favorecida por Afonso VI de Leão. Deste modo, é puro anacronismo vesti-la a ela e à tia de abadessas beneditinas. Quando muito, tanto ela como seu primo S. Rosendo, terão levado um tipo de vida consagrada, que prolongaria no tempo os usos e costumes da região, que ainda conservava a memória do monaquismo de S. Frutuoso.
Tempos depois, em plena monarquia portuguesa, sucedeu que o miraculado filho de Sancho I, feito rei Afonso II, deu privilégios à igreja de Santa Senhorinha de Basto por provisão datada de Guimarães, a 28/2/1220. O rei Afonso III, filho do dito Afonso II, confirmou o couto e ampliou os privilégios, como consta das Inquirições de 1258. Sabe-se que o rei Pedro I, a 15/9/1360, estando em Valença do Minho, honrou Santa Senhorinha fazendo à sua igreja, onda dona Inês de Castro erigira uma capela a S. Gervásio, uma doação do padroado que detinha na igreja de Santa Maria do Salto, no Barroso, dando-nos a entender que esta, já então, era simples freguesia e não mosteiro. Parece que o couto foi extinto por volta de 1620, quando o benefício passou para o morgado da Taipa, em Celorico de Basto. A igreja tinha quatro anexas (Santa Maria do salto, Ourilhe, Painzela, Pedraido), as quais eram da apresentação do respectivo abade que, por isso mesmo, daí colhia os rendimentos.
De Santa Senhorinha se ocupou, modernamente, o arcediago-bispo de Lamego António Castro Xavier Monteiro, em livrinho de 48 páginas. O túmulo de Santa Senhorinha é venerado na freguesia do mesmo nome e a igreja paroquial, seiscentista, tem várias e pobres referências iconográficas e tumulares à Santa, mas no mosteiro nada subsiste. É sabido de todos que as tropas francesas, depois da 2ª Invasão comandada por Soult (16/5/1809), retiraram a toda a pressa pela mágica e dantesca ponte da Misarela, sobre o rio Rabagão, quase na confluência com o Cávado, na freguesia do Ferral, já no concelho de Montalegre. É ponte muito antiga, romano-medieval, por onde passavam peregrinos a caminho de S. Tiago de Compostela. A ela está ligado um curioso culto dos irmãos S. Gervásio e Santa Senhorinha, que a tradição faz naturais da vizinha região de Basto e que, aqui, teriam atravessado o rio para ir a Compostela e ao mosteiro de Celanova visitar seu primo S. Rosendo. De faco, na região existe uma lenda cde gostoso sabor antropológico-cristão segundo a qual, quando para uma mulher o período de gestação foi atribilado ou já houve caso de nado-morto, se deve fazer o baptismo pré-natal no útero da mãe, extra-sacramental, por um padrinho ali surpreendido, de noite e ao acaso. Este, deitando água do rio sobre o ventre materno, deverá dizer a seguinte fórmula: eu te baptizo, criatura de Deus, pelo poder do Senhor e de Santa Maria. Se fores rapaz, serás Gervaz; se fores menina, serás Senhorinha». In In Geraldo Coelho Dias, D. Sancho I, Peregrino e devoto de Santa Senhorinha de Basto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Revista da Faculdade de Letras, II Série, Vol. XIII, Porto, 1996.

Cortesia da FLUP/JDACT

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Senhorinha de Basto. Memórias Literárias da Vida e Milagres de uma Santa Medieval. Pedro V. Boas Tavares. « São pelo menos mais duas as biografias medievais, em latim, de Santa Senhorinha. Foram por Alexandre Herculano insertas no volume "Scriptores", dos "Portugaliae Monumenta Historica"»

jdact

«(…) Na realidade, a lista dos milagres era suficientemente conhecida. E não só a lenda da santa estava há séculos cristalizada, como até formatada por um tipo de divulgação anterior a Jerónimo Baía (embora não se conheça a data de composição da Loa, ela é necessariamente posterior à tomada de hábito do seu autor, em 1643, e certamente já próxima ou posterior ao início dos anos sessenta, momento a partir do qual parece assistir-se à consagração pública de Jerónimo Baía. Recordemos que Afonso VI, de quem foi nomeado pregador, subiu ao poder em 1662, e que as primeiras impressões conhecidas de textos de Baía datam de 1661), de que são exemplo o Flos Sanctorum de frei Diogo Rosário, o Jardim de Portugal, de frei Luís Anjos, a Segunda e Quarta Partes da Monarchia Lusitana, respectivamente de frei Bernardo Brito e frei António Brandão, as crónicas beneditinas de rei António Yepes e de frei Leão de São Tomás, a História Eclesiástica dos Arcebispos de Braga, de Rodrigo Cunha, e o Agiológio Lusitano de Jorge Cardoso.
São pelo menos mais duas as biografias medievais, em latim, de Santa Senhorinha. Foram por Alexandre Herculano insertas no volume Scriptores, dos Portugaliae Monumenta Historica. Dedicaram-lhes cuidada atenção, no recém-transacto século, António Xavier Monteiro, José Mattoso, José Geraldes Freire e Maria Helena Pereira, investigadora que reeditou as duas. Por clareza e comodidade, continuaremos a referi-las com as siglas que lhes apôs o prelado lamecense.
A primeira narração, A (Vita Beatae Senorinae Virginis) é a transcrição dum manuscrito copiado no século XVI ou começos do século seguinte, proveniente do Colégio da Graça, de Coimbra, dos Eremitas Calçados de Santo Agostinho, por sua vez dependendente de um outro que estava na Igreja de Santa Senhorinha de Basto, pois se lê que fora desumpta ex antiquissimo exemplari quod in ipsa Ecclesia Bastensi observatur. Conforme já foi notado, este antiquíssimo exemplar dataria do século XII, pois o seu autor, certamente um monge do vizinho convento beneditino de Refojos, ouvira pessoas que viviam quando se deslocou a Basto o arcebispo Paio Mendes, falecido em 1138.
O escritor anónimo da vida declara ter estado pessoalmente em Basto, onde falou com as testemunhas dalguns factos, recolhendo o relato dos milagres mais recentes de um clérigo chamado Paio, prior da igreja de Santa Senhorinha, que ali vivia, atendendo e escutando os peregrinos que então demandavam o túmulo da monja, rezando, trazendo ofertas, cumprindo promessas e relatando graças e prodígios sobrenaturais, atribuídos à intercessão e poder daquele orago. Assim nos é possível uma reconstituição parcial, ingénua e viva, das práticas e comportamentos religiosos dos romeiros de Santa Senhorinha, já que, como lembra Mário Martins, os hagiógrafos só registavam uma pequena parte do que andava de boca em boca ou do que ficava consignado nos Livros de Milagres. Além da tradição oral de quase dois séculos, José Geraldes Freire parece crer, com palpável fundamento, na possibilidade de em Refojos se ter vindo a fazer a reunião de algum espólio hagiográfico relativo a Senhorinha. Para Geraldes Freire esta vida parece um texto para ser lido, para interpelação de ouvintes e leitores, enquanto o padre Mário Martins, a nosso modesto juízo com mais certeira precisão, vê nela o tom de um sermão de festa, desde o prólogo até ao começar dos milagres sucedidos após a morte da Santa, os quais se acrescentaram pelo mesmo pregador ou por outro qualquer, e têm assim a aparência de um apêndice, corroborativo da santidade e força taumatúrgica de Senhorinha. Mais curto e cronologicamente posterior, o texto da segunda vida, B, (Alia Sanctae Senorinae Vita ex Actis Sanctorum), depende do texto da anterior, e tem a sua origem num manuscrito que existia em Santa Cruz de Coimbra e de que Manuel Faria Sousa forneceu cópia ao primeiro editor, Tamaio Salazar (1652). Daqui passou para os Acta Sanctorum, dos Bolandistas, de onde o foi extrair Herculano. No entender de José Geraldes Freire a redacção actual deverá ter sido retocada ou sofrido mesmo uma reescrita no fim do século XVI ou principio do século XVII, a ajuizar por certos termos gregos latinizados e pelo desenho culto do fraseado, coloração humanística esta já enfatizada a propósito da primeira narração». In Pedro Vilas Boas Tavares, Senhorinha de Basto, Memórias Literárias da Vida e Milagres de uma Santa Medieval, Via Spiritus 10, 2003.

Cortesia de ViaSpiritus/JDACT

quinta-feira, 7 de abril de 2016

Senhorinha de Basto. Memórias Literárias da Vida e Milagres de uma Santa Medieval. Pedro V. Boas Tavares. «Anunciada a empresa a que mete ombros e fornecida a chave de descodificação da ficção literária, uma vez feita a “captatio” do público, o autor…»

jdact e wikipedia

«(…) Falta-nos o conhecimento das circunstâncias e contexto exacto a que obedeceu a composição do poema, mas, da sua leitura, extrai-se, indubitavelmente, que ele foi concebido para umas luzidas festas realizadas em Basto, em honra de uns hóspedes sublimes, de grande fidalguia, muito provavelmente de passagem pelo Mosteiro de S. Miguel de Refojos, e testemunhadas por gente daquela Terra. Dessa sua gente o poeta, porventura pensando nos seus irmãos de hábito, residentes e bem alatinados em Refojos, diz que pudera ser de Roma, mais que de Basto patricia. Segundo percebemos, nessas festas, levadas porventura a efeito em um dia 22 de Abril, comemoração litúrgica de Santa Senhorinha, Jerónimo Baía diz ter consagrado à Santa (como organizador das festas ou como autor?) uma comédia, intitulada Solo el piedoso es mi hijo. Com base na letra das alusões feitas, parece entrever-se, entre gente estraña y propria, entre galanes y Damas, alguém jovem, de varonil gala e destro cavaleiro a la gineta e a la brida, mas não parece fácil a identificação desse referido e decantado maestro de dos Sillas...
Nesta Loa, interessante e representativa pela matéria tratada e pelo relevo literário do autor, impressiona, desde logo, o carácter leve, jocoso (em certos momentos burlesco mesmo) dos seus versos, adequado às circunstâncias festivas já referidas. Devoto da Santa (Raton muy su lacayo), o autor vem louvá-la, mas a nobreza da matéria não o impede de desejar levar o seu público ao riso (Brindando, & no sin razon / Con su gracia a vuestra riza). De resto, e em síntese, estamos perante poesia de encarecimentos, e as imprevistas agudezas, subtilezas de linguagem, jogos de construção e de sentido aqui patentes, integram-se, como é evidente, na conhecida panóplia de formalismos cultistas e conceptistas do barroco. Anunciada a empresa a que mete ombros e fornecida a chave de descodificação da ficção literária, uma vez feita a captatio do público, o autor começa por deter-se na tópica hiperbolização da beleza física do retrato de Senhorinha (de criança conhecemos a imagem desta Santa, no seu templo de Basto e numa pequena imagem de vestir, de anacrónicos folhos negros e alvas rendas, que existia na capela da destruída Casa de Quintela, em S. Clemente de Basto; ontem como hoje, dir-se-á que a mortalha do hábito não permite que alguém se lembre do carácter humano da alegada e, certamente frágil, beleza daquela Bem-aventurada, pelas suas vidas apresentada sob duríssimo regime ascético, com relevo para o martírio de sanguinolentos açoites e punhadas, auto-infligidas; a iconografia conhecida, apresentando-a como austera abadessa beneditina, de olhar no Alto, báculo na mão, escassamente se lhe vendo o rosto alvo, aparentemente não favorecia a difusão da ideia da beleza de Senhorinha; alimentava-se ela, todavia, da tradição biográfica que fazia esta virgem, além de ilustre por geração, dotada de todas as boas partes naturais que levaram a afeiçoar-se-lhe e a pedi-la em casamento hum cavaleyro muy principal & muy rico, o qual dizem que era conde muy chegado à casa Real), parecendo La mas linda entre las Santas, / La mas Santa entre las lindas. Findo, com tradicional e oportuno Laus Deo, o debuxo dessa sobrenatural, idealizada e convencional formusura, o poeta passa então a evocar os principais pontos da vida e milagres de Senhorinha, remetendo-se a uma tradição hagiográfica já muito consolidada e divulgada.
É suposto que o público destinatário da Loa fosse maioritariamente conhecedor do maravilhoso desses factos e circunstâncias, sumariamente referidos, pois os próprios sermões de festa e até probabilíssimos folhetos de cordel se teriam encarregado de lhes publicitar o eco... O autor refere o nobre berço de Senhorinha [como se extrai da leitura das biografias medievais em latim, infra referidas, Senhorinha nasceu em 924 da era cristã, e faleceu em 22 de Abril de 982, com 58 anos de idade, sendo seu pai, da Casa de Sousa, conde e senhor do território de Vieira e Basto na diocese bracarense; sobre os ascendentes de Santa Senhorinha, cf. António de Castro Xavier MONTEIRO, Santa Senhorinha de Basto, advertindo todavia para a insegurança documental nesta matéria. Nos seus manuscritos, publicados em folhetim num diário católico do Porto, José Moura Coutinho, ex-cónego de S. João Evangelista, bispo de Lamego, genealogista geralmente estimado, reportando-se à origem dos Sousas, antigos Senhores de Basto, aponta a seguinte progénie a Santa Senhorinha: 1. Siubulo, filho de el-rei Ejica, dos godos, que reinou em Hespanha até o anno de 702 da era christã, o qual recebeu de seu pai o governo da cidade de Coimbra, de que se chamou conde; casou com Aldonça e teve dela. 2. Atarico, conde de Coimbra, que ficou debaixo do domínio dos mouros e alli viveu com sua mulher Phio, de quem teve Thiodo. 3. Thiodo, governador dos cristãos, teve pelo menos três filhos: Teodorico, Hermenegildo, pai de Agatão, este bisavô de S. Rosendo; 4. Ataulfo, pai de Soeiro Belfaguer, 1.º senhor da Casa de Sousa e bisavô de Santa Senhorinha, o qual parece que se ausentou para Galliza e Asturias, para ajudar os outros cristãos contra os sarracenos; teve filho a Soeiro Velfaia, o primeiro em quem o conde Pedro falla nos d'esta familia. 5. Soeiro Velfaia viveu na terra de Souza em tempo dos reis Affonso, o Casto, e Ramiro I, que foi pelo anno de 800. Dizem que foi o que deu nome ao lugar de Ariphana de Sousa, chamando-se ao principio Suarifaina; casou com Minaia Ribeiro; teve filho; 6. Upo Soares Velfaia, rico-homem que viveu pelo tempo de Affonso Magno, de Leão, e o acompanhou nas grandes guerras que teve com os mouros; casou com Omendola; teve filho; 7. Avulfo, também designado Hufo Hufes, ou Ahufo Ahufez, teve de sua mulher Teresa, Gonçoi, S. Gervaz e S. Senhorinha, santos estes tumulados em Basto, na igreja de invocação da última; ainda segundo o bispo de Lamego, Gonçoi teve de sua mulher, Mónica, a Echiguiçoi, que casou com Aragunte Soares Novelas; sucedeu na casa de Echiguiçoi seu filho Gomes Echiguis que estava sendo senhor de Basto no anno de 1045, como consta de um documento do mosteiro de Arnoia sobre a egreja de Britello], as goradas pretensões à sua mão por parte de um conde de real sangue, a profissão beneditina da donzela junto al Ave ilustre Rio (mais do que um documento sobre a sua vida, deve ser empregada para estudar a espiritualidade e os costumes das monjas beneditinas no fim do século XII ou princípios do seguinte), a duríssima vida religiosa, perpetua en la disciplina, aí levada, a passagem do Rio Ave ao Rio Basto (de S. João de Vieira a S. Jorge de Basto), e os mais importantes milagres então realizados: a súbita aparição de grande quantidade de farinha no mosteiro da Santa, como resposta às preces por si feitas, em momento de grande penúria de pão; o obediente silêncio imposto pela religiosa a umas ruidosas rãs, e a transformação, em certa ocasião (mil vezes, amplifica o poema), de água da fonte de Basto em vinho. Finalmente, referindo-se aos tempos posteriores à morte da monja, o poeta ainda lembra a cura de um cego de nascença que viera a Basto visitar o seu sepulcro (em alusão a um prodígio aí testemunhado pelo arcebispo Paio Mendes), mas, declarando deixar a lista de milagres que ia seguindo, opta por evocar, genericamente, um mudo, um surdo, coxos, mancos, hidrópicos, bem como os poderes miraculosos da terra de Senhorinha, assim aludindo à crença popular no largo espectro de propriedades curativas da pulvurenta relíquia que, em seiscentos, com ansiosa habilidade, numerosos devotos insistiam em tentar fazer desprender, pelos seus interstícios, do interior do túmulo da santa...» In Pedro Vilas Boas Tavares, Senhorinha de Basto, Memórias Literárias da Vida e Milagres de uma Santa Medieval, Via Spiritus 10, 2003.

Cortesia de ViaSpiritus/JDACT

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Judaísmo. Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Conferência. Porto. Geraldo Coelho Dias. «… quando Qumran foi destruído e ocupado por um posto militar romano. Fugindo à invasão e perseguição romanas, os habitantes esconderam os seus preciosos tesouros culturais…»

Cortesia de wikipédia

O acaso da descoberta e a riqueza das pesquisas arqueológicas.
«(…) Livros Bíblicos canónicos. Segundo o que sabemos, foi no Concílio rabínico de Jâmnia ou Jabne, entre os anos 80-90, que se formou o Cânone hebraico da Bíblia. Do Antigo Testamento, entre os manuscritos só não está representado o Livro de Ester e de alguns livros há vários manuscritos fragmentados. Os exegetas e críticos atribuem grande significado ao Livro de Isaías, que aparece em dois exemplares. O exemplar completo, com 7,35m de comprido e 66 capítulos, tem particular relevo, porque na coluna 33 apresenta entre o capítulo 39 e o 40 um espaço em branco, que os homens da crítica literária bíblica assumem como um indício e uma reminiscência da distinção estabelecida pelos exegetas entre o Proto-Isaías (séc. VIII) e o Deutero-Isaías (séc. VI). Isso seria a confirmação da exegese crítica moderna sobre a pluralidade de autores daquele livro sagrado. Apareceram também alguns livros considerados Deuterocanónicos (Tobias, Eclesiastico ou Ben Sirac, Carta de Jeremias), isto é, livros bíblicos que só mais tarde a autoridade cristã incluiu na lista dos livros sagrados, o que demonstra o seu interesse. É enorme a série de fragmentos com textos da TENAK, isto é, dos três grandes blocos em que se subdivide a Torá hebraica ou Antigo Testamento cristão.

Livros para-bíblicos ou Apócrifos. São livros que não pertencem ao Cânone da Sagrada Escritura ou são supostamente atribuídos a figuras bíblicas: Livro dos Jubileus, Henoc, Testamento dos 12 Patriarcas, Oração de Nabónides, apócrifo do Génese e os Pesharyim ou comentários aramaicos a livros bíblicos hebraicos (Pesher de Habacuc), bem como os Targumim ou traduções com paráfrases sobre livros bíblicos em aramaico, Levítico, Job, etc..

Literatura de ideologia essénia. Sérek HaYahad, isto é, Livro da Regra também chamado Manual da Disciplina em dois exemplares fragmentados, Sérek Há Eda, isto é, Regra da Congregação, Séfer HáMmilhamah, isto é, Livro da Guerra dos Filhos da Luz contra os Filhos das Trevas, Documento de Damasco, já conhecido pela descoberta na guenizá do Cairo em 1892, Hinos (Hodayot), um conjunto de oito salmos próprios da comunidade, colecção de Bençãos.

Literatura vária. Rolo do Templo em dois exemplares (4 Q e 11 Q) e outros muitos fragmentos (dezenas de milhar), que só a paciência e o amor foram identificando. Pelo que foi dito se pode imaginar o trabalho e a técnica a que foi preciso recorrer para se chegar aos textos que agora nos são oferecidos em leitura bilingue. Com a breve resenha apresentada se vê a extraordinária importância destes manuscritos para a Bíblia, em primeiro lugar. É que, desconhecendo ainda a posterior vocalização massorética, mas usando já a escrita plena com as matres lectionis (Alef, He, Yod, Vau), os homens de Qumran vieram em certa medida provar a fidelidade substancial do texto hebraico ou massorético estabelecido pelos rabinos já em adiantada era cristã. Por outro lado, vê-se que, para os textos gregos da Bíblia, os habitantes de Qumran já conheciam a versão grega dos LXX, que tinha sido traduzida no Egipto. É arriscada e não provada a hipótese de se encontrarem textos do Novo Testamento, como quis provar José O’Callaghan. Por exemplo, ele pretendeu num minúsculo fragmento de papiro (3,9cmx2,7cm e 4 linhas), datado de 50 d.C., reconstituir com poucas letras gregas o texto de Marcos sobre o milagre da multiplicação do pão. Quanto ao tipo de escrita semítica usada nos manuscritos hebreus e arameus, vê-se que a letra ainda tem características arcaicas, mas está em nítida evolução para o que vai ser a típica escrita quadrada.

Que comunidade era a detentora do lugar e autora dos textos?
As escavações arqueológicas de 1952 puseram a descoberto as grandiosas ruínas de Qumran na plataforma de marga argilosa sobranceira ao Wadi Qumran, a 50 metros acima do Mar Morto, mas a 330 metros abaixo do nível do mar. Desde logo, esse lugar foi identificado com o mosteiro dos essénios, Essénoi, como informa Flávio Josefo na transcrição grega do aramaico Hasdin ou do hebraico Hasidim = piedosos. Tratava-se dum complexo habitacional, com longo aqueduto e canais de água para sustento das pessoas e abluções rituais, comprovadas pelos vários tanques ou Miqvéh, e onde os arqueólogos foram identificando diversos espaços, a que deram o nome de torre, scriptorium, cozinha, sala de reuniões, oficina de cerâmica, depósito de louça, estábulo, cemitério. Sem dúvida nenhuma, portanto, um vasto espaço de vida comum, apesar de se notarem vários cortes cronológicos nas sucessivas camadas do terreno. A ocupação do lugar estende-se, com certeza, desde 152 a.C. até à guerra 66-70, quando Qumran foi destruído e ocupado por um posto militar romano. Fugindo à invasão e perseguição romanas, os habitantes esconderam os seus preciosos tesouros culturais, fugiram uns e juntaram-se outros aos guerrilheiros da resistência, como informa Flávio Josefo. O complexo ficou deserto, possivelmente, até 132-135, se é que não foi reocupado por outros judeus, que ignoravam a fuga dos anteriores e os esconderijos dos seus manuscritos. À volta de Qumran, outras descobertas foram feitas em Murabba`at, Masada, Hirbet Mird, lugares altos e quase inacessíveis da resistência judaica. Na verdade, toda aquela zona parece ter sido envolvida pela ocupação romana de Pompeu em 63 a.C. e pelas duas guerras judaicas contra os romanos de Tito em 66-70 e de Adriano em 132-135, quando até a cidade de Jerusalém foi arrasada ao solo e reconstruída à maneira romana com o nome de Aelia Capitolina em honra do Imperador Élio Adriano». In Geraldo Coelho Dias, Judaísmo, Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Texto inédito. Conferência no Museu dos Transportes e Comunicações. Porto. Maio de 2005.

Cortesia de MTC do Porto/JDACT

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Judaísmo. Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Conferência. Porto. Geraldo Coelho Dias. «Os conhecimentos arqueológicos e a análise do ‘Carbono 14’ permitiram uma datação bastante precisa para todo aquele valioso e extraordinário achado. Em termos de manuscritos hebraicos da Bíblia…»

Cortesia de wikipédia

O acaso da descoberta e a riqueza das pesquisas arqueológicas
«(…) Trata-se de Hirbet Qumran, mas chegaram também à 3 Q com dois rolos de cobre, e, mais no interior, exploraram Hirbet Mird, restos de antigo mosteiro bizantino, perto de Mar Saba, onde descobriram documentos gregos do século VIII depois de Cristo. Contudo, em Setembro de 1952, os beduínos, guiados pela história da perdiz, contada por um ancião, fizeram-se eles também pesquisadores e, ao longo do Wadi Qumran, descobriram as grutas 4, 5, 6 Q. Entretanto, foi criado em 1960 um grupo de estudiosos, que eu conheci no Museu Rockefeller em 1961 (John Allegro pela Universidade de Manchester, John Strugnel pela de Oxford, os padres João Starky e José Tadeu Milik por Paris e outros), os quais foram fazendo a decifração e leitura dos documentos no Museu Palestiniano ou Rockefeller Museum, na zona oriental de Jerusalém ou Jerusalém Velha.
A Universidade de Oxford, por meio de Millar Burrows, iniciava a publicação: Discoveries in the Judaean Desert. Todavia, seria longa, difícil e controversa a leitura dos documentos. Em França, André Dupont-Sommer traduziu os textos principais e levantou algumas interrogações a esse respeito. Também John Allegro, um dos especialistas dos textos, embarcou, à luz dos mesmos, na visão mítica de Jesus, negando a sua historicidade e reduzindo-o uma espécie de anestesiante cogumelo sagrado (The sacred Mushroom). De 1955 a 1956, novas escavações, sempre dirigidas pelo pe. De Vaux, acabaram por pôr a descoberto as 11 grutas de Qumran, sendo as mais importantes a 1 Q descoberta em 1947, a 4 Q em 1952, a 11 Q em 1956. Depois de algumas hesitações e divergências, é ao pe. De Vaux que se deve o sistema em vigor das siglas para a citação dos documentos de Qumran, apontando o número da gruta e a inicial de cada documento (1 QS = Serek HaYahad; 1 QM = Milhamah; 1 Q P = Pesher de Habacuc; 1 QH = Hodayot; f indica fragmento: 1 Q 35f7) ou antepondo a este o M (grutas de Murabba`at), ou pospondo o P (papiro).
Com a vitória da Guerra dos Seis Dias, que em 1966 levou Israel a tomar a faixa ocidental do Jordão e toda a zona de Qumran até Eilat ou Aqaba, começou a levantar-se uma onda de crítica à demora na leitura e publicação dos textos de Qumran, como se algum intencional atraso ou discreto secretismo favorecido pela Igreja Católica acerca das origens cristãs, quisesse encobrir a verdade dos documentos. Ao mesmo tempo, a comissão internacional tinha os seus membros a envelhecer, com Strugnel diminuído e convertido do Anglicanismo ao Cristianismo, mesmo contando com o dinamismo do epigrafista Emílio Puech do CNRS, o que favoreceu ainda mais a campanha que eu acompanhei pela revista Biblical Archaeology Review. Era preciso apressar a leitura dos textos e completa publicação dos manuscritos e é esse desafio que os cientistas ficam a dever à Universidade Brigham Young pelo seu acordo com o governo de Israel em 1983 e pelo denodo com que se atirou à tarefa, ajudada por Emmnuel Tov. Com muito trabalho, imenso esforço e paciência mais que beneditina, foi possível termos hoje a edição completa em 6 volumes dos Discoveries in the Judaean Desert pela E. J. Brill de Leiden. Os textos estão todos publicados, abertos aos estudiosos de qualquer religião, e desapareceu a maldosa tentativa de soupçon. Há manuscritos dispersos por várias instituições, mas os dois depósitos principais são o belíssimo Santuário do Livro, cuja silhueta decalca a típica tampa das jarras de Qumran junto ao Museu de Israel em Jerusalém e o Rockefeller Museum.

A singular importância dos documentos
Os conhecimentos arqueológicos e a análise do Carbono 14 permitiram uma datação bastante precisa para todo aquele valioso e extraordinário achado. Em termos de manuscritos hebraicos da Bíblia, dava-se um enorme salto qualitativo que permitia passar do século X da nossa era cristã para o século II antes de Cristo. Por seu lado, a descoberta de moedas, sobretudo na zona do Hirbet Qumran, sem que nenhuma se descobrisse nas grutas, permitiu uma datação muito aproximada dos factos, que se escalonam de cerca 152 a.C, até 135 d.C.. Na verdade, podemos apresentar do seguinte modo, os manuscritos em suporte de papiro, pergaminho e cobre e que conhecemos nas línguas hebraica, aramaica e grega». In Geraldo Coelho Dias, Judaísmo, Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Texto inédito. Conferência no Museu dos Transportes e Comunicações. Porto. Maio de 2005.

Cortesia de MTC do Porto/JDACT

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Senhorinha de Basto. Memórias Literárias da Vida e Milagres de uma Santa Medieval. Pedro V. Boas Tavares. «A “Santa Senhorinha” arrastou junto do seu túmulo, peregrinações e romeiros, durante a Idade Média. A festa de “Santa Senhorinha” só foi introduzida no Breviário Bracarense no ano de 1724»

Cortesia de wikipedia

«Ainda não há muito tempo se admitia que, juntamente com algumas vagas crenças, de sabor popular, a onomástica constituísse a única sobrevivência, na Região do Barroso, do culto popular desta santa medieval do séc. X (do estimado amigo, Geraldo Coelho Dias, D. Sancho I, peregrino e devoto de Santa Senhorinha de Basto). Sobrevivência nortenha e regional, sendo ambos estes traços, como é natural, facilmente verificáveis na vizinha Região de Basto, aqui subsiste todavia, com alguma vivacidade, o culto a Senhorinha, patente nas promessas, ex-votos e asseio que sempre rodeiam o seu túmulo, albergado em modesto mas prestigioso templo paroquial, outrora conhecido como matriz, ou até, segundo Pinho Leal, como sé de Basto, e no qual se continuam a perpetuar a memória da morada terrena escolhida por esta monja, sua vida e virtudes. Sabendo-se que o culto eclesiástico se iniciou em 1130, por autoridade do arcebispo Paio Mendes, num tempo em que os prelados canonizavam nas suas dioceses, que a introdução da festa em calendários litúrgicos portugueses data do século XIII, e que a veneração a Santa Senhorinha arrastou junto do seu túmulo, incontestavelmente, grande cópia de peregrinações e romeiros, durante a Idade Média, gostaríamos de focalizar a nossa atenção na época moderna, para tentar percepcionar impulsos de continuidade ou descontinuidade nesse culto, até porque, um pouco surpreendentemente, a festa de Santa Senhorinha só foi introduzida no Breviário Bracarense de Rodrigo Moura Teles, no ano de 1724.
Propomo-nos trazer hoje à colação um outro vector de abordagem, porventura indiciador útil e fornecedor de elementos exemplificativos da atenção moderna consagrada a Senhorinha, no quadro do hagiológio nacional, e consistindo na exploração da memória literariamente construída da Santa. Descontados conhecidos e incontornáveis textos de hagiógrafos consagrados, que teremos ocasião de evocar, está praticamente por fazer o levantamento deste tipo de testemunhos. Também nós nos limitamos aqui à indicação de uma pista de investigação, já que não logramos organizar, para já, certamente mais por falta de prospecção do que por raridade de dos textos, um corpus literário digno desse nome. Por agora, optamos por centrar a nossa atenção, num exemplo de composição literária muito significativo de interesse por Senhorinha, sua vida e milagres, arrancado a um dos nossos cancioneiros barrocos, a Fénix Renascida, e a um dos seus mais consagrados autores, frei Jerónimo Baía. Referimo-nos à Loa que este poeta escreveu Em louvor de Santa Senhorinha Portugueza.
Autor de Varios Romances e Decimas, a diferentes assuntos, também a Loa consta, como diz Diogo Barbosa Machado, de um Romance muito largo». Está escrito em castelhano, mas da parte de frei Jerónimo Baía, prestigioso pregador de Afonso VI, ou até mais provavelmente do  organizador da Fénix Renascida, quis-se frisar o carácter português desta santa, apesar de muito anterior à nacionalidade. Professo em Tibães (1643), o monge-poeta, chamado outrossim ao desempenho das funções de cronista de S. Bento, invocava uma glória nacional e da congregação, mesmo se usava o castelhano, ele que, de resto, em verso celebrou também êxitos das armas portuguesas na Guerra da Restauração. O reivindicado carácter nacional desta santa parece acompanhar as tendências gerais do sentimento religioso e do afã hagiográfico em Portugal, à época, com notório investimento, por parte da coroa, no favorecimento do culto e festas aos santos mais fácil e popularmente reconhecíveis como tutelares e protectores do Reino, e na nacionalização daqueles outros que, como Santa Senhorinha, aparentemente se prestavam menos a tal emblematização. Uma tendência nacionalizante que vinha, afinal, de trás, como vemos com um curioso exemplo, dado pelo próprio duque de Bragança, futuro João IV, escrevendo em 30 de Abril de 1625, de Vila Viçosa, ao padre Jorge Ribeiro, então abade da Freguesia de Santa Senhorinha de Basto, ao pedir-lhe informações sobre as comemorações e festas a Santa Senhorinha, S. Gervásio e Santa Godinha, levadas a efeito naquela igreja, onde se veneravam os seus túmulos, porque também desejava festejar a estes sanctos portuguezes na sua capela.
Apresentando-se sob as vestes literárias de rato pobre, como aquel que Horacio pinta (alusão à fábula do rato do campo e do rato da cidade, da sátira do Venusino), frei Jerónimo Baía pede ao seu público benevolência, Sus mercedes mucho callen / Sus mercedes nada digan, / Pues mas urbana mi Musa / Se lo pide en cortesia, para a breve Loa que se propõe recitar: Oid del Raton un rato / la Loa mas exquisita; / Es cosa del otro mundo / Que al fin es de le Bahia...» In Pedro Vilas Boas Tavares, Senhorinha de Basto, Memórias Literárias da Vida e Milagres de uma Santa Medieval, Via Spiritus 10, 2003.


Cortesia de Via Spiritus/JDACT

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Sancho I. Peregrino e devoto de S. Senhorinha de Basto. Geraldo Coelho Dias. «… foi levado por Egas Moniz em peregrinação à ermida de Santa Maria de Cárquere, Resende, onde foi salvo, por milagre de Nossa Senhora, do aleijão com que nasceu?»

Cortesia de wikipedia

«Todos sabemos que, para os reis cristãos da Idade Média, por mais pecadores e violentos que fossem, a religião fazia parte da sua vida e eles não tinham vergonha de a manifestar em público. Não precisavam de se declarar católicos quando andavam pelo reino, em corte aberta, a administrar justiça, a passar correição às suas gentes ou a fazer inquirições sobre os seus reguengos. A Idade Média era tempo de muitas carências ao nível da vida real e de muito atraso cultural; a ciência médica ainda não conseguira resolver banais problemas de saúde ou vencer doenças mais ou menos naturais. Por isso, Deus e os seus Santos, mesmo para os reis, eram sempre o recurso mais imediato e os grandes protectores para os males do corpo e do espírito. Afinal, os reis também sentiam a sua fraqueza natural e, por isso, não deixavam de rezar por si e pelos seus. Para isso faziam peregrinações à Tera Santa, a Santiago de Compostela e a outros lugares santos espalhados pela cristandade. Dentro dos seus reinos, não raras vezes, aproveitavam as suas viagens de governação para visitar os santuários mais famosos e invocar os santos mediadores, que a devoção do seu povo sentia próximos e chegados ao mundo dos homens, particulares advogados para coisas ruins e males desconhecidos. Na doença e nos infortúnios da vida, todos os mortais eram iguais. Não foi assim que Afonso Henriques, o pai da pátria portuguesa, foi levado por Egas Moniz em peregrinação à ermida de Santa Maria de Cárquere, Resende, onde foi salvo, por milagre de Nossa Senhora, do aleijão com que nasceu? Ora, tal pai, tal filho. Que admira, que também seu filho, Sancho I, lhe seguisse o exemplo, quando a desgraça lhe bateu à porta e pôs seu filho, futuro Afonso II, o Gordo, em grave perigo de vida?
Foi exactamente isso que aconteceu, naquele distante 29 de Maio de 1200, conforme reza a pública-forma duma carta de couto passada em Braga pelo tabelião João Fortes, a 10/XII/1278, transcrita depois no Liber Fidei da Sé de Braga e a cujo conteúdo faz referência frei António Brandão na Monarquia Lusitana, parte IV, Livro 12, capítulo 27. Andava o rei em visita pelas úberes mas ermadas terras de Basto, então chefiadas pelo nobre Gonçalo Mendes, da nobre linhagem dos Sousões. Tinha visitado e pousado, com certeza, no célebre mosteiro beneditino de S. Miguel de Refojos de Basto e, ali, teria exposto aos monges a sua apreensão e desolação, face a uma esquisita doença (lepra?) de seu filho e herdeiro, que viria a ser o nosso rei Afonso II, o Gordo (1185-1223). Nessa altura o príncipe herdeiro teria cinco anos de idade. Aos monges teria, então, o aflito e preocupado progenitor ouvido falar da poderosa intercessão e dos extraordinários milagres de Santa Senhorinha. A igreja da Santa era ali bem pertinho e os religiosos, qua assistiam espiritualmente a igreja da Santa, para lá encaminharam o atribulado pai e impotente rei.
Conforme o próprio monarca narra, em estilo directo, na primeira pessoa, lá se dirigiu a fim de rezar, causa orationis, junto do túmulo da gloriosa Virgem, Santa Senhorinha. Não teve respeitos humanos e, diante dos presentes, com gemidos e suspiros, gemitibus et suspiriis, impetrou a saúde para seu filho Afonso, fazendo a promessa de criar à volta da igreja um couto de protecção, que ele próprio percorreu a pé, mandando que Gonçalo Mendes, senhor da terra, levantasse as pedras de coutação. O documento é autêntico e vem reproduzido entre os documentos de Sancho I». In Geraldo Coelho Dias, D. Sancho I, Peregrino e devoto de Santa Senhorinha de Basto, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, Revista da Faculdade de Letras, II Série, Vol. XIII, Porto, 1996.

Cortesia da FLUP/JDACT

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Judaísmo. Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Conferência. Porto. Geraldo Coelho Dias. «Ficou, porém, atarantado porque a pedra produzira um baque, como se se tivesse partido qualquer objecto de barro. Assustado, juntou o rebanho e partiu…»


Cortesia de wikipedia

Os manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto
«Temos a honra e o privilégio de ter entre nós uma curiosa exposição sobre antiquíssimos manuscritos bíblicos e todo o contexto arqueológico em que se encontravam envolvidos. Na verdade, os Documentos de Qumrah, ou Manuscritos do Mar Morto, ou Rolos do Deserto de Judá, já que variados são os nomes para indicar a sensacional descoberta deste conjunto de documentos judaicos, fazem-nos dar o salto qualitativo e cronológico do século X d.C. para o século II a.C., da Idade Média para antes de Jesus Cristo. Na verdade, estes numerosos documentos manuscritos, mais de 800, e inumeráveis e complicados fragmentos, constituem verdadeira biblioteca. Por um lado, apresentam-nos documentos em hebraico, aramaico e grego; por outro lado, dada a importância e antiguidade dos manuscritos bíblicos, põem-nos diante do problema científico da fidelidade e veracidade do texto hebraico massorético, constituído bastante mais tarde; dão-nos ainda a conhecer o quadro ideológico judaico ao tempo do nascimento do Evangelho cristão, isto é, o ambiente vital em que o Cristianismo nasceu. Com os documentos de Qumrah, portanto, é todo um labirinto de problemas a afectar o mundo das ciências bíblicas e das origens do Cristianismo, que veio trazer algumas perturbadoras perguntas sobre a figura de João Baptista, cuja vida e pregação os Evangelhos cristãos situam no Deserto de Judá. Terá ele sido, afinal, um membro desta desaparecida comunidade, possivelmente essénica, que, ao fugir dos romanos aquando da primeira revolta judaica de 66-70, escondeu os seus preciosos manuscritos? O próprio Cristianismo é tocado pela questão do messianismo e pela hipotética identificação do Mestre de Justiça com Jesus Cristo. Terá mesmo Jesus sido influenciado pelas doutrinas dos essénios? Terá Jesus aprendido ou tirado deles alguma coisa?

O acaso da descoberta e a riqueza das pesquisas arqueológicas
Um mero acaso está na origem da mais sensacional e importante descoberta de documentação hebraica. Na Primavera de 1947, um pastor da tribo beduína dos Ta`âmirah, que vagueiam com seus rebanhos ao sabor da transumância entre Belém e o Mar Morto, o Mar do Sal para os hebreus, Yam HaMmelah, encontrava-se quase na embocadura do Wâdi Qumrah, um desses muitos ribeiros secos, que atravessam o deserto de Judá. Estava preocupado e aflito pelo desaparecimento duma cabra. Olhando para a parede rochosa do Wâdi, viu um buraco e atirou uma pedra, porque talvez a cabra tivesse entrado por ali. Ficou, porém, atarantado porque a pedra produzira um baque, como se se tivesse partido qualquer objecto de barro. Assustado, juntou o rebanho e partiu para o acampamento, mas, ainda assim, decido a voltar com um amigo para encontrar resposta àquele ruído estranho. Muhammad ed-Di`b (Maomé o Lobo) voltou no dia seguinte com um primo, e penetraram na gruta. Descobriram, então, uma gruta com pedaços de barro partidos e 8 jarras ou ânforas intactas, 7 das quais vazias, mas dentro da oitava acharam três rolos de couro, que levaram a um antiquário de Belém para vender. Este, pensando que estavam escritas em caracteres siríacos, levou-as a Mar Atanásio, arquimandrita do mosteiro siríaco de S. Marcos de Jerusalém. Era a descoberta em 1947 da gruta nº 1 de Qumrah (1 Q). A notícia da descoberta divulgou-se e outros beduínos começaram a fazer pesquisas por conta própria, de tal modo que em Dezembro de 1947, a Universidade Hebraica de Jerusalém, por meio do arqueólogo judeu Eliezer Sukenik, que tinha intuído a antiguidade dos documentos e a sua ligação aos essénios, comprou um maço de três manuscritos, que hoje se conservam e mostram através de réplicas no Santuário do Livro em Jerusalém.
Entretanto, em Fevereiro de 1948, Mar Atanásio mostrou os 4 rolos da 1 Q à ASOR (American School of Oriental Research) para ver se os seus técnicos podiam decifrar aquela estranha escrita. Contudo, o rebentar da guerra pela independência de Israel, obrigou-o a emigrar para os Estados Unidos, levando consigo os manuscritos, onde, em seguida, por intermédias pessoas, o novo Estado de Israel os comprou por 250 mil dólares. Após o armistício da guerra Palestino-Israelita, em Julho de 1948, com a divisão da Palestina entre Israel e a Jordânia, a parte oriental da Palestina, chamada Cisjordânia, ficou integrada no Reino Hashemita da Jordânia e, logo no começo de 1949, o Departamento de Antiguidades da Jordânia, em colaboração com a École Biblique et Archéologique Française e outras instituições científicas de Jerusalém oriental, empreendeu escavações na região de Qumrah, cujas descobertas arqueológicas, desde 1947 a 1958, foram logo estudadas e publicadas. Quando em 1951 decorria a campanha associada de escavações, os beduínos trouxeram a Jerusalém mais um lote de documentos descobertos um pouco mais abaixo nas grutas de Murabba`ât, que foram datados da 2ª Guerra Judaica, entre 132-135, a revolta de Bar Kokheba (Filho da Estrela) no tempo de imperador Adriano. Há mesmo algumas cartas autografas deste chefe de rebelião, considerado um avatar messiânico ou realização messiânica da profecia de Balaão, segundo o Livro dos Números: Eu vejo, mas não para já; contemplo-o, mas ainda não próximo. Uma estrela surge de Jacob e um ceptro se ergue de Israel.
Em Fevereiro de 1952, os beduínos Ta`âmirah descobriam a 2 Q com fragmentos semelhantes aos da 1 Q. Imediatamente se associaram em pesquisa arqueológica, sob a direcção do Pe. Roland De Vaux, OP, os vários organismos interessados na antiguidade (Direction des Antiquités de Jourdanie, École Biblique et Archéologique Française, American School of Oriental Research, Palestine Museum ou Rockefeller Museum). De facto, passaram a pente fino numa pesquisa arqueológica sistemática toda a região da zona rochosa ou falésia de Qumrah com uma extensão de 8 quilómetros passando por `Ain Fesha, a fonte de água potável da região, até às grutas Murabba´at. Exploraram também o sítio das ruínas das instalações de Qumrah ou antigo mosteiro de Qumrah, possivelmente sede dos essénios». In Geraldo Coelho Dias, Judaísmo, Os Manuscritos de Qumrah e a Comunidade Judaica do Mar Morto. Texto inédito. Conferência no Museu dos Transportes e Comunicações. Porto. Maio de 2005.

Cortesia de MTC do Porto/JDACT