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sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «… mandado d’a ditta Senhora com bôa e luzida Casa, sem se dar a conhecer, nem se saber quem fossem até o prezente seus Paes. Fez seu assento n’a Ribeira d’os Soccorrídos; porém, levando-lhe uma chêa as casas…»

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O Bastardo Escondido

«(…) Dona Joana veio então para Portugal, onde era considerada a Excelente Senhora. Recolheu-se ao Mosteiro de Santa Clara de Santarém e, depois de professar, à Casa das Clarissas de Coimbra. Em 1487, ainda se falou no seu casamento com o rei de Navarra. Mas dona Joana permaneceu solteira, e assim morreu, em 1530, no Paço das Alcáçovas, onde João II, depois de a ter retirado do convento, lhe deu casa e estado de rainha. Não obstante o seu celibato, houve quem dissesse que dona Joana houvera, do rei Afonso V, seu tio, um filho. Esse rebento do régio tálamo foi enviado, ainda criança, para a ilha da Madeira e aí se criou, rodeado de grandezas como quem era, mas proibido absolutamente de sair da ilha. Isto escreve César Silva, que acrescenta: Chamou-se Gonçalo de Avis Trastâmara, mas ajuntou aos seus nobres apelidos de família o de Fernandes, certamente por assim lhe ter sido imposto por seu irmão, o Príncipe Perfeito, e por esse modo ficou confundido na massa dos habitantes plebeus da ilha da Madeira. A seu tempo e como simples particular casou com uma dama da localidade e teve prole. Nada parece mais longe da verdade histórica.

Ainda assim, um genealogista madeirense, Luiz Peter Clode, compôs uma obra sobre a Descendência de D. Gonçalo Afonso d’Avis Trastâmara Fernandes, O Máscara de Ferro Português, onde declina a descendência de Gonçalo Fernandes Andrade, filho de João Fernandes Andrade e de Beatriz Abreu. Segundo Henrique Henriques Noronha, no seu Nobiliário da Ilha da Madeira, Gonçalo Fernandes criou-se em casa d’a Excellente Senhora dona Joanna, e foi Vedor d’o Infante Fernando, Pae d’El Rei dom Manuel. Estabeleceu-se na Madeira por mandado d’a ditta Senhora com bôa e luzida Casa, sem se dar a conhecer, nem se saber quem fossem até o prezente seus Paes. Fez seu assento n’a Ribeira d’os Soccorrídos; porém, levando-lhe uma chêa as casas, a mudou para a Calhêta, e’em um sítio, a que chamão a Serra d’Agua, de quem elle tomou o nome, fabricou casas e uma Ermida de Nossa Senhora d’a Conceição, a que avinculou sua terça, tomandoa com muito luzimento, e bôas pinturas em que poz por Armas as quinas portuguezas sobre uma cruz, e com estas mesmas sellou o testamento com que faleceu em 13 de Junho de 1539 annos, e jaz enterrado n’a dicta Egreja.

Para o marquês de Abrantes, genealogista ilustre, a ascendência real de Gonçalo Fernandes não passa de uma lenda sem qualquer verosimilhança, bastando olhar para a cronologia: como podia o vedor do infante Fernando, que morreu em 1470, ser fruto de um casamento celebrado em 1475?

Quanto a Afonso V, é sabido que sempre gozou da fama de ser muito casto. Rui de Pina assegura, na sua Crónica, que o monarca foi de mui louvada continência porque havendo não mais de 23 anos ao tempo que a Rainha sua mulher faleceu, sendo aquela idade de maiores pungimentos e alterações da carne, tendo para isso disposições e despejo, foi depois acerca de mulheres muito abstinente, ao menos cauto […] Mas um descuido, pelo menos, pode ter tido. E assim foi que, estando no Porto, entre Novembro de 1465 e Fevereiro de 1466, ter-se-ia tomado de amores por Maria Cunha, que era sobrinha de Fernão Coutinho, conselheiro régio, em casa de quem Afonso V então estava, e haveria de casar com Sancho Noronha». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento,

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «… mais força à causa de dona Joana que o rei de Portugal prometeu casar com ela. O casamento chegou a ser celebrado, por procuração, em Maio de 1475. Mas o papa Sixto IV…»

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O Bastardo Escondido

«(…) Dom Afonso V, o Africano, tinha 15 anos quando casou, em 1447, com a infanta dona Isabel, sua prima, filha do infante Pedro, o das Sete Partidas. Desse casamento nasceram três filhos: (1) João, que morreu menino; (2) Joana, a Princesa Santa, que morreu solteira; e (3) um outro João, o Príncipe Perfeito, que sucedeu a seu pai. Depois, em 1455, enviuvou. Tinha 23 anos de idade e não voltou a casar. Mas, envolvido na guerra que a grande nobreza de Castela fez ao seu rei, Henrique IV, o Impotente, ponderou por duas vezes novo casamento: a primeira, em 1465, com a irmã do monarca castelhano, dona Isabel, e a segunda, dez anos depois, com a filha dele, dona Joana, que era, aliás, sua sobrinha. Mas nenhum desses casamentos veio realmente a efeito.

O primeiro casamento foi proposto a Afonso V por Henrique IV, que estava casado em segundas núpcias com a infanta dona Joana, irmã do rei de Portugal. Com esta aliança matrimonial, o Impotente pretendia obter o apoio do cunhado para derrotar os seus inimigos, que tinham por essa altura aclamado um novo rei, o infante Afonso, meio-irmão de Henrique IV, que passou à história como o rei de Ávila. O matrimónio foi negociado por Afonso V com a rainha de Castela, sua irmã, e dessas negociações resultaram umas capitulações que foram assinadas na Guarda, a 12 de Setembro de 1465. Mas dona Isabel, que era por esse tempo uma menina de catorze anos, recusou unir-se a um monarca que podia ser seu avô e guardou-se para casar com Fernando II de Aragão, o que fez às escondidas de seu irmão (e seu rei), em 1469.

O segundo casamento destinava-se a defender os direitos ao trono castelhano de sua sobrinha, a infanta Joana de Castela, filha de Henrique IV e de dona Joana de Portugal, sua segunda mulher. Era ela a legítima herdeira de seu pai e como tal tinha sido jurada após o seu nascimento. Mas, depois, os inimigos do monarca, querendo sentar no trono um dos seus tios, o infante Afonso, primeiro; e a infanta Isabel, depois, afirmavam que dona Joana não era, porque não podia ser, filha do Impotente, dando-a por fruto dos amores adúlteros de sua mãe com Beltran de la Cueva, um dos favoritos de seu pai, que teria, aliás, promovido o adultério. E, por isso, os inimigos da princesa chamavam-lhe a Beltraneja.

Em 1464, Henrique IV aceitou reconhecer seu irmão Afonso como herdeiro do trono castelhano desde que o infante se tornasse seu genro, casando com dona Joana, a quem as cortes nessa altura não tiveram dúvidas em dar o título e o tratamento de princesa, o que correspondeu a um ínvio reconhecimento da sua legitimidade. Mas esse casamento não chegou a realizar-se. E, em 1467, Henrique IV, para conservar o trono, repudiou a filha, que tinha cinco anos de idade e foi, nessa altura, retirada à mãe. Esta, declarada adúltera pelo rei seu marido, foi mandada prender num castelo próximo de Valladolid. Foi aí que a rainha conheceu Pedro de Castilla y Fonseca, um bisneto do rei Pedro I de Castela, por quem se apaixonou. Desses amores nasceu um par de gémeos, que dona Joana, tendo conseguido fugir da sua prisão, deu à luz no lugar de Buitragos (Madrid), em 1496. Pedro Apóstolo e André de Castela e Portugal, como haveriam de ser chamados, não foram criados pela mãe, que se recolheria a um convento. O pouco que deles se sabe é que casaram e, segundo alguns genealogistas, não tiveram filhos, extinguindo-se assim a geração daqueles que são, muito provavelmente, os únicos filhos ilegítimos que uma princesa portuguesa teve.

Em finais de 1474, Henrique IV morreu, não sem antes voltar a afirmar a legitimidade de sua filha. dona Joana reclamou os seus direitos à coroa de Castela, que Isabel, a futura Rainha Católica, reivindicava para si. Afonso V resolveu tomar a defesa da sobrinha. E foi para dar mais força à causa de dona Joana que o rei de Portugal prometeu casar com ela. O casamento chegou a ser celebrado, por procuração, em Maio de 1475. Mas o papa Sixto IV (que confirmara o casamento de Isabel de Castela com Fernando de Aragão, mau grado os laços de consanguinidade) não concedeu as necessárias dispensas e o rei Africano conformou-se com a vontade do sumo pontífice, deixando a sobrinha solteira, mas não desamparada.

Em defesa da sua realeza, invadiu Castela. Foi, porém, derrotado na Batalha de Toro, a 1 de Março de 1476. E, não tendo conseguido obter do rei de França, Luís XI, a ajuda de que carecia para vencer aqueles que serão depois chamados Reis Católicos, foi obrigado a reconhecer a sua derrota e a renunciar ao trono do país vizinho, o que fez pelo Tratado das Alcáçovas, assinado a 4 de Setembro de 1479». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

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quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «… mordomo-mor de Manuel I e embaixador em Castela, e Nuno Manoel, guarda-mor do rei Manuel, almotacé-mor e senhor de Salvaterra de Magos»

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O Bastardo que Nunca Existiu?

«(…) A história tem barbas, remontando já à primeira metade de Quinhentos, mas continua a suscitar muitas dúvidas e reservas entre os historiadores pátrios. Anselmo Braamcamp Freire, o célebre autor dos Brasões da Sala de Sintra, por exemplo, recusa-se a aceitar a hipótese de dom Duarte ter tido um filho fora do casamento, com razões que Luís Miguel Duarte, o mais recente biógrafo do rei Eloquente, considera impossível não acompanhar. O monarca seria o modelo das virtudes que apregoava no seu livro. Contudo, os argumentos que apresenta contra António Caetano Sousa não convenceram muitos genealogistas, como Felgueiras Gayo, por exemplo, que, na peugada do autor da História Genealógica, continuam a afirmar a existência do bastardo de dom Duarte. Veríssimo Serrão, na sua História de Portugal, também o faz. Seria ele João Manoel, ou João Manoel de Portugal e Vilhena, como alguns historiadores e genealogistas preferem chamar-lhe, e teria nascido, em data que se ignora, dos amores do rei com Joana Manoel Vilhena. Esta era uma senhora de qualidade que, dizem uns, veio para Portugal com a rainha dona Leonor de Aragão e, afirmam outros, era dama da rainha dona Filipa de Lencastre. Se Joana Manoel era dama de dona Leonor, João Manoel é filho adulterino; se, porém, era dama de dona Filipa, então pode o bastardo ter nascido antes do casamento de seu pai, celebrado em 1429.

João Manoel foi dado à luz em Lisboa, sendo recolhido no Mosteiro do Carmo, onde se diz que Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, o criou com estimação. Educado em virtuosos princípios e ilustrado nas belas letras, tomou o hábito carmelita e, prosseguindo os estudos, saiu bom letrado. Provincial da Ordem do Carmo, em 1441, foi mandado a Roma para tratar da dispensa que era necessária ao casamento do rei Africano com dona Isabel, sua prima, filha do infante Pedro. Trouxe da Cidade Eterna a dispensa requerida, e o título de Bispo Titular de Tiberíades. Em 1443, foi feito bispo de Ceuta e primaz de África. E, em 1450, Afonso V nomeou-o seu capelão-mor. Nove anos depois, foi nomeado bispo da Guarda. Mas não tomou posse da diocese. O rei nunca reconheceu este seu filho, que, por isso, nunca foi tratado como tal. Explica o autor da História Genealógica: Somente ao pai compete fazer semelhante declaração e, não a tendo feito dom Duarte, mais ninguém a podia fazer. Por isso, mal podia El-Rei Afonso V conferir-lhe aquela honra que seu pai não lhe dera.

Mas João Manoel aceitou o seu estatuto com talento e discrição. E reconheceu perante o rei Africano, seu meio-irmão, que a quem seu pai encobriu o real sangue, que lhe dera a natureza, bem é que Vossa Alteza lho negue. Ainda assim, em muitas ocasiões depois  Afonso V confessar o parentesco.

De uma Justa Rodrigues Pereira, mulher solteira e nobre, que depois fundou o Mosteiro de Jesus, em Setúbal, em que acabou com vida exemplar e com quem, sendo moço, o bispo teve trato, houve dois filhos: João Manoel, alcaide-mor de Santarém, mordomo-mor de Manuel I e embaixador em Castela, e Nuno Manoel, guarda-mor do rei Manuel, almotacé-mor e senhor de Salvaterra de Magos. Ambos foram legitimados por Afonso V, em 1475, e tiveram copiosa e ilustre descendência». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento, 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Filho herdeiro de João I e marido de dona Leonor de Aragão, o rei dom Duarte teve cinco filhos legítimos: (1) Afonso V; (2) Fernando, duque de Viseu, que foi pai do rei dom Manuel I; dona Leonor, que casou com Frederico III…»

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Os Bastardos de Avis. Os Bastardos do Rei Bastardo

«(…) Afonso, duque de Bragança, ambicionou para o filho o título de Condestável do Reino, que fora de seu sogro. Mas o infante Pedro já o reservara para o seu próprio filho, também chamado Pedro, que viria a ser mestre de Avis e, depois, rei de Aragão. Por isso, os dois irmãos voltaram a zangar-se. E a oposição do duque de Bragança ao regente não mais teve descanso. Em 1446, quando o rei atingiu a maioridade, Afonso tratou de o incompatibilizar com o regente Pedro. Este acabou por ser afastado da corte pelo sobrinho, que era também seu genro. Em 1447, com efeito, Afonso V casara com dona Isabel, filha do duque de Coimbra e da condessa de Urgel, sua mulher.

Caído em desgraça no ano seguinte ao casamento da filha, o infante Pedro foi acusado pelo partido do duque de Bragança de ter envenenado a rainha dona Leonor, viúva de dom Duarte (que faleceu em Castela, no ano de 1445), e de ter mesmo tentado matar Afonso V, para sentar no trono o seu filho. O príncipe defendeu-se como pôde. Mas sem sucesso.

Em Outubro de 1448, Afonso V, o rei Africano, chamou Afonso à corte. Mas aconselhou-o a vir bem acompanhado de homens e armas, uma vez que tinha de atravessar as terras do Mondego, que pertenciam ao infante Pedro. O duque de Bragança marchou sobre Lisboa na Semana Santa de 1449, à frente de um exército de três mil homens, mas o duque de Coimbra não lhe consentiu a passagem pelos seus domínios, pelo que Afonso foi forçado a mudar o itinerário. E, quando chegou à corte, apresentou queixa contra o antigo regente. Reunido o conselho do rei para apreciar o protesto, foi o infante Pedro declarado rebelde e desleal ao monarca. E este decidiu ir submeter pelas armas o sogro e os seus partidários. Enfrentou-os e derrotou-os a 20 de Maio de 1449, em Alfarrobeira, perto de Alverca, numa batalha em que o antigo regente Pedro perdeu a vida.

Afonso viverá mais uma dúzia de anos, na companhia de sua segunda mulher, Constança Noronha, filha daquele conde de Gijón e Noronha que casou com a bastarda do rei dom Fernando. Morrerá, carregado de anos, em Chaves, no ano de 1461, riquíssimo, poderosíssimo, na plena satisfação das suas grandes ambições, como escreveu Oliveira Martins:

Teve o 1.º duque de Bragança uma copiosa e ilustre descendência, imperadores, reis, príncipes, fidalgos e plebeus. Dela fazem parte o actual duque de Bragança ??, é claro, mas também o rei de Espanha ou o rei dos Belgas, o grão-duque do Luxemburgo e os príncipes soberanos do Mónaco ou do Liechtenstein, o conde de Paris, o chefe da Casa de Áustria e o príncipe herdeiro da Jugoslávia. Mas a ela pertencem igualmente o cónego João Seabra e frei Hermano da Câmara (que, também por via bastarda, é descendente do rei Luís XV de França), os jornalistas Maria João Avillez, Miguel Sousa Tavares e Sofia Pinto Coelho, os fadistas Maria Ana Bobone ou Vicente e José da Câmara, além de vários nomes sonantes da política portuguesa como António Capucho, José Pacheco Pereira, José Miguel Júdice, Leonor Beleza ou Teresa Patrício Gouveia. E ainda o cineasta António-Pedro Vasconcelos, os cavaleiros tauromáquicos António e João Ribeiro Teles, o cozinheiro José Avilez e os actores Francisco Nicholson e Rui Mendes.

O Bastardo que Nunca Existiu?

Filho herdeiro de João I e marido de dona Leonor de Aragão, o rei dom Duarte teve cinco filhos legítimos: (1) Afonso V; (2) Fernando, duque de Viseu, que foi pai do rei dom  Manuel I; dona Leonor, que casou com Frederico III, imperador da Alemanha; (4) dona Catarina; e (5) dona Joana, que foi rainha de Castela pelo seu casamento com Henrique IV, o Impotente. Sobre isso, dom Duarte foi autor de dois livros, que lhe valeram o cognome de Eloquente: o Leal Conselheiro e A Arte de Bem Cavalgar Toda a Sela. No capítulo XXX da primeira destas obras, que trata Do pecado da luxúria, escreve o monarca:

Para guarda deste pecado, nosso primeiro fundamento deve ser amar e prezar virgindade e castidade quanto se mais puder fazer, havendo-a por grande virtude, que muito desejamos sempre haver e possuir. E porque todo o homem com grande diligência guarda o que muito ama e preza, quem esta virtude muito amar e prezar por a bem guardar se afastará das ocasiões e azos por que a possa perder.

Mas um dia terá havido na vida do rei Eloquente, um dia, pelo menos, em que ele pode não ter resistido à tentação da carne, cometendo o pecado da luxúria, que tantos sabedores e grandes pessoas tem vencido. E isto porque dom Duarte poderá ter sido pai de um bastardo». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

 Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento, 

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «O bastardo de dom João I, insaciável, ansioso por vingar com o poder e com a riqueza a inferioridade da sua origem, perante irmãos mais nobres a todos os respeitos…»

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Os Bastardos de Avis. Os Bastardos do Rei Bastardo

«(…) O outro bastardo de João I (que foi, aliás, o primeiro de todos os seus filhos, legítimos ou ilegítimos) nasceu entre 1370 e 1377, numa casa à Porta da Aira, junto ao Tejo, que era pertença de Rui Penteado. Afonso foi criado por Gomes Martins Lemos, seu aio, que morava em Leiria e nesta vila viveu até 1401, ano em que dom João I o legitimou para ele casar, a 8 de Novembro, com dona Brites (ou Beatriz) Pereira Alvim, única filha de Nuno Álvares Pereira, o Santo Condestável, que era, também ele, um bastardo.

Com a mulher, que era condessa de Barcelos e Arraiolos, Afonso recebeu muitas e boas terras: a vila de Chaves e o seu termo, as terras de Penafiel, Basto e Montalegre e várias quintas, honras, coutos e julgados, além do título de conde que, a pedido do sogro, seu pai lhe concedeu. Tornou-se assim o mais opulento senhor do reino.

Do seu casamento nasceram três filhos. O primeiro foi Afonso, conde de Ourém e, depois, marquês de Valença (o primeiro marquez que ouve neste reino), que teve de uma Brites Sousa (que ele à hora da morte mandou chamar para receber por mulher e quando chegou era já morto) um filho, Afonso de Portugal, que terá sido bispo de Silves e foi com certeza bispo de Évora, sendo considerado uma das personagens mais interessantes do Renascimento português. Afonso, que morreu em 1460, ainda em vida de seu pai, teve três filhos bastardos, o primeiro dos quais, Francisco, será conde de Vimioso.

Nasceu depois dom Fernando, quasi parvo, a que chamavão epicondríaco e se fazia pote e outras cousas galantes. Foi o segundo duque de Bragança e casou com Joana de Castro, que lhe deu oito filhos. Por fim, nasceu Isabel, que casou com o infante dom João, seu tio, filho legítimo do rei de Boa Memória. Em 1405, depois de ter acompanhado sua irmã a Inglaterra, Afonso visitou várias cortes europeias. Por 1410, esteve em Jerusalém, para venerar o Santo Sepulcro, tendo sido honrosamente recebido pela senhoria de Veneza quando por lá passou.

Depois de ter sido decidida a conquista de Ceuta, em 1415 (ano em que enviuvou), Afonso levantou gente nas províncias da Estremadura e Entre-Douro-e-Minho, e com ela foi embarcar ao Porto. Assumiu o cargo de capitão da capitania real e, na conquista da cidade, diz Azurara, bateu-se valorosamente. De regresso a Portugal, recebeu de seu pai novas mercês, que dom Duarte acrescentou quando subiu ao trono, em 1433. Durante o reinado de seu meio-irmão gozou, aliás, de muito valimento. Mas, aquando da frustrada conquista de Tânger, em 1437, o seu conselho, que era contrário a ela, não foi seguido.

Após a morte do rei Eloquente, colocou-se ao lado de dona Leonor, a rainha viúva (e triste), a quem dom Duarte confiara a regência, na menoridade de dom Afonso V. E encabeçou o partido que se opunha à intervenção do infante dom Pedro (seu meio-irmão) no governo do reino e de que faziam parte o arcebispo de Lisboa (neto bastardo do rei dom Fernando) e muitos fidalgos da Beira e de Entre-Douro-e-Minho.

Quando, na sequência das Cortes de Lisboa de 1439, o infante tomou o poder, assumindo a regência, o bastardo quis dar-lhe luta. E esteve a ponto de o fazer em Mesão Frio. Mas Afonso, conde de Ourém, seu filho primogénito, evitou o confronto, logrando reconciliar o pai com o tio. Com esta reconciliação, que foi, aliás, de curta duração, ganhou Afonso, em finais de 1422, o título de duque de Bragança. Mas não era suficiente para aplacar a sua ambição.

Escreve Oliveira Martins: O bastardo de dom João I, insaciável, ansioso por vingar com o poder e com a riqueza a inferioridade da sua origem, perante irmãos mais nobres a todos os respeitos, conseguiu penetrar também: subir, voando como um falcão, ou insinuar-se, rojando-se como uma serpente: trepar até sobre o cadáver do desgraçado de Alfarrobeira e, ganhando afinal, com o ducado de Bragança, um lugar ao lado dos duques de Viseu e de Coimbra, fazer desse posto o degrau que levou também ao trono os seus descendentes». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento,

quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «… conde de Arundell, que foi um dos primeiros entre os nobres que ajudaram Henrique de Bolingbroke, o filho de João de Gaunt, duque de Lencastre, a conquistar a coroa de Inglaterra. O contrato nupcial foi assinado a 21 de Abril de 1404»

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A Bastarda do Formoso

«(…) O jovem conde, porém, não anuiu de bom grado ao casamento, nem nos desposórios nem quando posteriormente se tratou de o efectuar. Fugiu para Avinhão, de onde só regressou apertado pelas ameaças paternas e a muito custo, ante o altar, disse o sim sacramental, em 1378. Mas não consumou o casamento. Morto o rei seu pai, Afonso pediu e, em 1379, obteve o divórcio, mas dele não se aproveitou, pois que não só consumou o matrimónio como teve de sua mulher vários filhos. E dona Isabel, esposa exemplar ou pura e simplesmente agradecida, nunca deixou de estar ao lado do marido, a quem acompanhou nas guerras que ele fez ao rei João de Castela, seu meio-irmão. Sofreu por isso a prisão, a confiscação dos seus bens e o exílio.

Após a morte do conde de Gijón, em Marans (França), no ano de 1395, dona Isabel regressou a Portugal, trazendo consigo seis filhos: (1) Pedro Noronha, arcebispo de Lisboa e pai de nada menos do que sete filhos, todos evidentemente bastardos; (2) Fernando Noronha, conde de Vila Real pelo seu casamento; (3) Sancho, primeiro conde de Odemira; (4) Henrique Noronha, capitão da gente de guerra na tomada de Ceuta; (5) João Noronha, sem descendentes; e (6) Constança Noronha, primeira duquesa de Bragança pelo seu casamento com dom Afonso, filho de dom João I, de quem não teve geração.

De dona Isabel descendem, entre muitos outros, o escritor e jornalista Tiago Rebelo, o pintor Luís Noronha Costa e a fadista Teresa Tarouca, que igualmente descende de Afonso Dinis e Urraca Afonso, bastardos de Afonso III. A condessa de Noroña e Gijón é ainda antepassada de Guilherme d’Oliveira Martins, que também descende de dona Teresa Sanches e Afonso Dinis (bastardos de Afonso III), e do advogado Francisco Teixeira Mota, que, sendo descendente de dona Teresa Sanches, dona Urraca Afonso e Martim Afonso Chichorro, descende também por via bastarda do rei Afonso IX de Castela.

Os Bastardos de Avis. Os Bastardos do Rei Bastardo

O único bastardo que foi rei de Portugal teve, também ele, filhos fora do casamento: um rapaz e uma rapariga, nascidos antes de João I casar com dona Filipa de Lencastre. O rapaz chamou-se Afonso e viu a luz entre 1370 e 1377; a rapariga recebeu o nome de Beatriz e veio ao mundo entre 1378 e 1380. Discute-se ainda hoje o nome de sua mãe. Mas a maioria dos historiadores e genealogistas entende que eles nasceram da relação do rei de Boa Memória, quando era ainda mestre da Ordem de Avis (e estava por isso obrigado à castidade), com Inês Pires, que era muito provavelmente filha de Pêro Esteves, o Barbadão. Conheceram-se, ao que se diz, numa cerimónia religiosa da Ordem. E só se separaram quando dom João casou. Inês saiu então da sua casa, ao pé da Cordoaria Velha, em Lisboa, e recolheu-se no Convento de Santos, de que se tornou comendadeira.

Dona Beatriz tinha pouco mais de 13 anos quando se tratou do seu casamento em Inglaterra. A ideia do consórcio partiu da rainha dona Filipa de Lencastre, sua madrasta, que o recomendou vivamente ao rei Henrique IV de Inglaterra, seu irmão. Acordou-se então que dona Beatriz havia de casar com Tomás Fitzalan, conde de Arundell, que foi um dos primeiros entre os nobres que ajudaram Henrique de Bolingbroke, o filho de João de Gaunt, duque de Lencastre, a conquistar a coroa de Inglaterra. O contrato nupcial foi assinado a 21 de Abril de 1404. E, em Outubro de 1405, dona Beatriz partiu para Inglaterra. Foi por mar com muita honra, diz o Livro da Noa de Santa Cruz de Coimbra, levando um avultado dote de 50 mil coroas. Acompanhou-a seu irmão, Afonso.

A chegada a Inglaterra no princípio de Novembro foi solene. E solene também foi o casamento a 16 do mesmo mês, celebrado na presença de Henrique IV e de toda a corte, na capela gótica de Lambeth, que fica sobre a margem direita do Tamisa, escreve o conde de Sabugosa, que acrescenta: Era o conde de Arundell a esse tempo um rapaz alto, forte, espadaúdo, e realizando o perfeito tipo da raça a que pertencia. Celebrado o matrimónio, partiu dona Beatriz para os domínios de seu marido, acompanhando-a sua dama favorita, Inês Oliveira. Viveu tempos felizes. Mas, aos 23 anos, ficou viúva, depois de Tomás falecer, vítima de uma epidemia, a 13 de Outubro de 1415, o dia em que ele completava 34 anos. Sem filhos, dona Beatriz teve de abandonar o castelo de Arundell. Possuía, no País de Gales, as terras que constituíam as suas arras. Os herdeiros do marido contestaram-lhe a posse, invocando a sua qualidade de estrangeira. Mas ela fez-lhes frente e venceu-os.

Em 1432, John Holland, conde de Huntingdon, filho do duque de Exeter, pediu a mão da condessa viúva de Arundell. E o casamento celebrou-se. Em 1439, acompanhou o marido, que foi combater para França. E, achando-se em Bordéus, adoeceu e, a 25 de Outubro, morreu. A instâncias da família do primeiro marido, foi o seu corpo trasladado para Inglaterra e enterrado no sumptuoso mausoléu da capela de S. Nicolau, ao lado do conde com quem primeiro casara». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

 JDACT, História de Portugal, Isabel Lencastre,  O Paço Real,  Conhecimento,

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Estes incestuosos amores poderão ter tido um fruto, dona Isabel, uma menina nascida em 1364, quando dom Fernando ainda era solteiro. Há quem a diga filha de dona Beatriz, o que não parece de todo impossível»

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O Bastardo do rei Bravo

«(…) De dom João I descendem, por via legítima ou ilegítima, todos os reis que depois dele reinaram em Portugal, mas também muitos dos príncipes que reinaram (ou ainda reinam) em Espanha, França, Alemanha e Áustria, Bélgica, Luxemburgo, Hungria, Boémia, Baviera, Polónia, Saxónia, Liechtenstein, Württemberg, Bulgária, Roménia, Jugoslávia, Itália, Etrúria, Parma, Sardenha, Toscana, Brasil ou México. Para só falar nos mais importantes descendentes do bastardo de dom Pedro I.

A Bastarda do Formoso

O último rei da primeira dinastia, formoso em parecer e muito vistoso, não foi um modelo de virtudes. Mancebo valente, ledo e namorado, amador de mulheres e chegador a elas, como Fernão Lopes o descreve na sua crónica, dom Fernando esteve para casar primeiro com a infanta dona Leonor de Aragão, de quem alguns disseram nunca tão feia coisa terem visto. Mas esse casamento, contratado para obrigar o pai da noiva a participar na primeira guerra fernandina contra os castelhanos, acabou por não se realizar. E outro foi contratado, com outra Leonor, a filha de Henrique II, o Bastardo de Trastâmara.

Esse matrimónio ficou assente em 1371, quando Portugal e Castela firmaram as Pazes de Alcoutim. Mas também ele não veio a efeito, porque dom Fernando conheceu, entretanto, uma terceira Leonor, a famosa e formosa Leonor Teles, por quem ficou ferido de amor. O monarca desejou-a para amante; mas ela declarou que só casada se deitaria com ele. E dom Fernando fez-lhe a vontade, sem dar nenhuma importância ao facto de Leonor Teles ser a legítima esposa de João Lourenço Cunha, senhor de Pombeiro, a quem já dera um filho, Álvaro Cunha, e estava prestes a dar outro. Invocando impedimentos canónicos para o primeiro casamento da sua amada, dom Fernando apropriou-se dela. Munido das dispensas papais que oportunamente requerera para contrair matrimónio, João Lourenço ainda tentou contrariar o rei. Mas vendo que não lhe cumpria porfiar muito em tal feito deu à demanda lugar que se vencesse cedo e foi-se para Castela, por segurança de sua vida. Diz-se que, no reino vizinho, andou sempre com um chapéu decorado com um corno de oiro, para que todos pudessem conhecer a dolorosa razão do seu exílio forçado. E assim foi que dom Fernando se uniu a dona Leonor Teles Meneses, primeiro às ocultas (ou a furto, como então se dizia) e, a seguir, de praça, provocando o seu casamento grão nojo a Deus, aos fidalgos e a todo o povo.

Leonor Teles não foi, contudo, o primeiro amor do rei Formoso, que, sendo mancebo e ledo e homem de prol, se apaixonou por dona Beatriz, sua irmã, ou, mais exactamente, sua meia-irmã, por ser filha de dom Pedro e de dona Inês de Castro. Teve por ela, no dizer do cronista, uma afeição mui continuada, de que veio a nascer nele tal desejo de a haver por mulher que determinou em sua vontade casar com ela, cousa que até aquele tempo não fora vista. Ao que parece, chegou a dar alguns passos nesse sentido. E, em qualquer caso, eram os jogos e falas entre eles tão amiúde, misturados com beijos e abraços e outros desenfadamentos de semelhante preço, que fazia a alguém ter a desonesta suspeita da sua virgindade ser por ele minguada.

Estes incestuosos amores poderão ter tido um fruto, dona Isabel, uma menina nascida em 1364, quando dom Fernando ainda era solteiro. Há quem a diga filha de dona Beatriz, o que não parece de todo impossível. Mas a maioria dos historiadores e genealogistas declaram-na havida de mãe desconhecida. A única bastarda do rei Formoso (desde que se admita ter sido legítimo o seu casamento com dona Leonor Teles) estivera acertada para casar com dom João, filho do conde de Barcelos e sobrinho da rainha, que morreu de tenra idade. E, como dote do seu casamento, recebeu a cidade de Viseu e as vilas de Celorico, Linhares e Algodres. Mas, depois de dom Fernando assinar com o Bastardo de Trastâmara o Tratado de Santarém, que, em Março de 1373, pôs termo à segunda guerra fernandina, assentou-se que dona Isabel casaria com o conde de Gijón e Noronha, Afonso Henriques, que tinha 18 anos e era o primeiro dos 15 filhos bastardos de Henrique II». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

Cortesia de OdoLivro/JDACT

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Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Mas quem lhe herdou a causa foi seu irmão mais novo, o infante dom Dinis. Aclamado rei pelos portugueses exilados em Castela, com aplauso da rainha dona Beatriz, filha do rei dom Fernando…»

 

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O Bastardo do rei Bravo

«(…) Nas Cortes de Coimbra de 1385 havia três partidos: o Partido Legitimista, que apoiava os reis de Castela; o Partido Legitimista-Nacionalista, que defendia o infante dom João; e o Partido Nacionalista, que defendia o Mestre de Avis. Foi este quem ganhou a contenda, beneficiando nomeadamente da prisão do filho de Inês de Castro. Com efeito, se em Portugal se desejava que reinasse um português, tudo recomendava, por muitos e bons direitos que assistissem a dom João, futuro duque de Valência de Campos, esquecer a sua candidatura e defender a do outro dom João, Mestre de Avis, que estava livre em Portugal e podia assim fazer frente ao maior perigo, representado pelo terceiro João desta disputa, o rei de Castela. Mas, depois de as Cortes de Coimbra aclamarem a realeza do Mestre de Avis e este ter vencido a batalha de Aljubarrota, o filho de Inês de Castro tornou-se feroz inimigo do novo monarca português. Libertado da sua prisão pelo rei de Castela, dom João recebeu dele o encargo de governar Portugal em seu nome. E foi com o título de regente que atravessou a fronteira para combater o rei de Boa Memória, seu meio-irmão.

Os combates chegaram ao fim em Novembro de 1389, com as tréguas de Monção. E, de regresso à corte castelhana, dom João foi feito duque de Valência do Campo. Mas o rei de Castela morreu no ano seguinte, sucedendo-lhe Henrique III, que, filho do primeiro casamento de seu pai, com dona Leonor de Aragão, não tinha qualquer direito à coroa de Portugal nem estava disposto a alimentar guerras com o país vizinho. Dom João de Castro continuou a reivindicar a coroa de seu meio-irmão, mas sem contar com apoios políticos e militares para fazer vencer a sua causa. E por 1397 morreu, deixando vários filhos: (1) dom Fernando Eça, nascido do seu primeiro casamento, um devasso acabado, que tinha o fraco de casar, chegando ao ponto de ter às vezes três e quatro mulheres vivas, e um nunca acabar de filhos, que, segundo os nobiliários, podem ter sido quarenta e dois; (2) dona Maria; (3) dona Beatriz e (4) dona Joana de Portugal, filhas do segundo casamento; e (5) dom Afonso, senhor de Cascais; (6) dom Pedro Guerra (que se acolheu à protecção do rei de Boa Memória ainda em vida de seu pai, fazendo-lhe dom João I grandes mercês e honras); (7) dom Fernando de Portugal, senhor de Bragança; e (8) dona Beatriz Afonso, bastardos.

Mas quem lhe herdou a causa foi seu irmão mais novo, o infante dom Dinis. Aclamado rei pelos portugueses exilados em Castela, com aplauso da rainha dona Beatriz, filha do rei dom Fernando, tentou fazer valer o que dizia ser os seus direitos, entrando em Portugal pela fronteira da Beira. Derrotado, não voltou a tentar a sua sorte. Mas não renunciou às suas pretensões. Falecido nos primeiros anos do século XV, sua filha, dona Beatriz, construiu-lhe um mausoléu no Mosteiro de Guadalupe, onde dom Dinis é declarado rei de Portugal…» In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

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quinta-feira, 19 de maio de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Também não ficou esclarecido. E começou a ponderar refugiar-se em Castela, como sucedera com seus irmãos, filhos de Inês de Castro. Acabou por permanecer no reino»

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O Bastardo do rei Bravo

«(…) Andou algum tempo fugido. Mas, regressado à corte, percebeu que o prometido casamento com dona Beatriz nunca se realizaria. E, por isso, dom João de Castro decidiu acolher-se à protecção do rei de Castela, ao serviço do qual travará a terceira guerra fernandina (1381-1382), cercando Trancoso, tentando atacar Lisboa por mar, sitiando Elvas e Almeida. Em Castela também casará, entre 1379 e 1380, com dona Constança, senhora de Alba de Tormes, filha ilegítima do rei Henrique II. E em Castela encontrará seus irmãos, dom Dinis e dona Beatriz. Esta tinha-se casado, em Março de 1373, com dom Sancho, conde de Albuquerque e Haro, filho bastardo do rei Afonso XI de Castela, que o teve de Leonor de Guzman.

Dom Dinis, por seu turno, residia em Castela desde que se recusara a beijar a mão de dona Leonor Teles, mostrando assim a displicência e dissabor que lhe causava o casamento do rei Formoso. Este estivera para o matar, o que o obrigou a andar escondido e, depois, a refugiar-se no reino vizinho, onde, muitos anos mais tarde, o rei Henrique II lhe dará por mulher uma outra das suas filhas bastardas, dona Joana, havida de Joana, senhora de Cifuentes.

A devoção de dom João de Castro ao rei de Castela e os serviços que lhe prestou não evitaram que, após a morte de dom Fernando, em 1383, o monarca, casado com a herdeira do rei Formoso, o mandasse prender no castelo de Almonacid. Nada que deva surpreender ou indignar: o filho de Inês de Castro era, para muitos portugueses, o legítimo herdeiro da coroa que o rei de Castela sustentava pertencer, pelas leis e pelos tratados, à rainha D. Beatriz, sua mulher. Entre os portugueses que desejavam ver coroado o infante dom João de Castro, contava-se então o Mestre de Avis, cujas relações com a rainha Aleivosa e seu amante, o conde de Ourém, João Fernandes Andeiro, estavam longe de ser pacíficas. Ainda em vida do rei dom Fernando, seu meio-irmão, o filho de Teresa Lourenço fora maltratado, sendo acusado de correspondência com o rei de Castela. Preso no castelo de Évora, o Mestre de Avis encomendou-se a Cristo e fez promessa de ir ao Santo Sepulcro, em Jerusalém, se saísse vivo da sua prisão. Acabou por ser libertado por dona Leonor Teles, a cujos pés se ajoelhou, pedindo para ser esclarecido sobre os motivos da sua detenção. Não obtendo nenhum esclarecimento da rainha, foi ao Vimeiro, onde estava dom Fernando, doente, para pedir ao meio-irmão que lhe explicasse porque fora preso. Também não ficou esclarecido. E começou a ponderar refugiar-se em Castela, como sucedera com seus irmãos, filhos de Inês de Castro. Acabou por permanecer no reino.

Em Maio de 1383, acompanhou a infanta dona Beatriz, sua sobrinha, a Badajoz, onde a princesa uniu os seus destinos aos do rei de Castela. Em Outubro, perdeu seu irmão mais velho e viu dona Leonor proclamar-se, pela graça de Deus, Rainha, Governadora e Regedora dos Reinos de Portugal e do Algarve, enquanto o rei de Castela reclamava a aclamação de sua mulher como rainha de Portugal. O povo de Lisboa revoltou-se. E, a 6 de Dezembro, o Mestre de Avis foi ao paço matar o conde Andeiro, assumindo a chefia da revolta popular. Proclamado Defensor e Regedor do Reino, tratou com dom Nuno Álvares Pereira de fazer frente ao invasor, que conseguiu derrotar. A peste que grassou nos arraiais castelhanos e chegou a tocar dona Beatriz deu uma preciosa ajuda ao levantar do cerco castelhano. E, quando o rei de Castela partiu, o Mestre de Avis foi venerado como o Messias de Lisboa. Não tardaria a ser aclamado rei de Portugal». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos,  Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

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Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Mas, tendo-se apaixonado por Maria Teles, irmã de Leonor e, portanto, cunhada de dom Fernando, casou com ela às ocultas. Este casamento deixou preocupada a Aleivosa, cognome que o povo dera a Leonor Teles»

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O Bastardo do rei Bravo

«(…) Por essa altura, dom Pedro concedeu umas casas na mouraria de Avis à mãe de dom João, que se chamava Teresa Lourenço e, dizem Fernão Lopes e Rui Pina, entre muitos outros, seria natural da Galiza, de onde veio para Lisboa como dama da infanta dona Constança. Mas frei Manuel Santos, na Monarquia Lusitana, garante que dona Teresa pertencia a uma família minhota, a dos Almeidas, e era parente do mestre de Cristo. Por seu turno, António Caetano Sousa limita-se a assegurar na sua História Genealógica que ninguém duvida da nobreza desta dama. Outros autores dizem outras coisas ainda. Por isso, não se pode afirmar, sem margem para dúvidas, quem realmente era a mãe de dom João I. A questão continua em aberto e muito provavelmente não será nunca esclarecida. Pouco ou nada se sabe das primeiras duas décadas da vida de dom João, conhecendo-se, no entanto, os seus amores com Inês Pires, que era, segundo Soares Silva, filha de Pêro Esteves e Leonor Anes, pessoas de conhecida nobreza. Entre 1370 e 1380 dar-lhe-á dois filhos, como mais adiante se verá melhor.

Não parece que dom João tenha frequentado a corte de seu pai, que, falecido em 1367, quando o bastardo tinha dez anos, não o contemplou no seu testamento. Mas, na corte de seu irmão, o formoso dom Fernando, teve assídua presença, que não era, aliás, muito apreciada pela rainha Leonor Teles, talvez porque o filho de Teresa Lourenço era dos melhores amigos do filho de Inês de Castro que tinha o mesmo nome que ele. Este dom João, doravante designado por dom João de Castro, tinha cinco anos mais do que o outro, porque nascera, provavelmente em Bragança, pelo ano de 1352. Era, na descrição de Fernão Lopes, homem bem composto em parecer e feições, e comprido de boas manhas. Nas Cortes de Évora de 1361, dom Fernando fez-lhe doação de muitas terras, um pouco por todo o país: Porto de Mós, Seia, Lafões, Oliveira do Bairro, etc. E, durante a primeira guerra fernandina com Castela, nomeou-o fronteiro-mor entre o Tejo e o Guadiana. Na segunda, dom João de Castro acompanhou dom Fernando quando este se encontrou com o rei de Castela. Participou nas Cortes de Leiria, em Novembro de 1376, e foi considerado por Fernão Lopes o maior do reino.

Mas, tendo-se apaixonado por Maria Teles, irmã de Leonor e, portanto, cunhada de dom Fernando, casou com ela às ocultas. Este casamento deixou preocupada a Aleivosa, cognome que o povo dera a Leonor Teles: Dom João de Castro gozava de grande prestígio na corte e no reino, era amado dos povos e dos fidalgos, como escreveu Fernão Lopes. Podia por isso constituir uma ameaça a que dona Beatriz, a única filha de dom Fernando e dona Leonor, sucedesse a seu pai no trono. Para melhor garantir as hipóteses da infanta, Leonor Teles prometeu então a dom João casá-la com ele. Era, porém, necessário remover de cena dona Maria Teles, o que o próprio dom João se encarregou de fazer. Acusando-a de me poerdes as cornas dormindo com outrem, assassinou-a barbaramente, enquanto o filho de ambos dormia na câmara contígua à da mãe, quando ela foi assassinada. Foi isto, segundo parece, em Novembro de 1379». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos,  Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

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quarta-feira, 18 de maio de 2022

Os Bastardos Reais. Isabel Lencastre. « O que torna as coisas ainda mais confusas e complicadas, fazendo pender sobre o rei Cruel a suspeita de bigamia ou, mesmo, de trigamia. Se nunca foi anulado o casamento de dom Pedro com dona Branca …»

 

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O Bastardo do rei Bravo

«(…) Há, no entanto, quem não tenha dúvidas de que dom Pedro casou efectivamente com Inês de Castro, sustentando, porém, que este matrimónio se realizou antes do casamento com dona Constança Manuel. É essa nomeadamente a opinião de Agustina Bessa-Luís, que assegurou ter o matrimónio sido celebrado em 1335. O que torna as coisas ainda mais confusas e complicadas, fazendo pender sobre o rei Cruel a suspeita de bigamia ou, mesmo, de trigamia. Se nunca foi anulado o casamento de dom Pedro com dona Branca (que só faleceu em 1375), então os casamentos com dona Constança e com dona Inês não foram válidos, e os filhos deles nascidos são todos ilegítimos. Se, por outro lado, dom Pedro, tendo repudiado dona Branca com justa causa, casou com dona Inês antes de casar com dona Constança, então dom Fernando foi, antes de dom João I (também filho de dom Pedro!), o primeiro bastardo a sentar-se no trono de Portugal.

Finalmente, se o casamento de dom Pedro com dona Inês nunca existiu, então os três filhos nascidos dessa união, dona Beatriz, dom João e dom Dinis, foram ilegítimos. E, se apenas existiu a partir da data em que dom Pedro afirmou tê-lo celebrado, então só por esse casamento foram legitimados os filhos da mísera e mesquinha, que era, também ela, uma bastarda.

De facto, Inês de Castro foi o fruto dos amores de seu pai, dom Pedro Fernandes Castro, o da Guerra, com dona Aldonça Lourenço de Valadares, que não era sua legítima esposa. E quem a criou foi dona Teresa Martins, mulher de Afonso Sanches, o bastardo querido do rei dom Dinis, que dom Afonso IV execrava, o que pode ter contribuído para que o rei Bravo não a apreciasse como nora... Dê-se, porém, de barato que tudo se passou como dom Pedro disse que se tinha passado. Ou seja: que não casou, ou casou mas não consumou o casamento, com dona Branca de Castela, em 1325; que casou depois, em 1339, com dona Constança Manuel; e que, tendo enviuvado, casou, finalmente, em 1350 (ou em 1354), com dona Inês de Castro.

Do seu primeiro casamento não teve evidentemente filhos. Do segundo, nasceram três: (1) dom Luís, o afilhado de Inês de Castro, que morreu ao nascer, em 1340; (2) dona Maria, que casou com Fernando de Aragão, marquês de Tortosa; e (3) dom Fernando, que foi rei de Portugal. E do terceiro, mas antes de ele ter sido celebrado, nasceram outros quatro filhos: (1) dom Afonso, que morreu pouco depois de nascer; (2) dom João; (3) dom Dinis; e (4) dona Beatriz, todos legitimados pelo suposto matrimónio de seus pais. Além destes filhos, que serão legítimos ou não, conforme a posição que se adopte quanto aos casamentos de dom Pedro com dona Constança Manuel e com dona Inês de Castro, o rei Cruel foi pai do mais famoso dos bastardos reais, dom João, o de Boa Memória, que as cortes elegeram para suceder a seu meio-irmão dom Fernando, o Formoso. E, segundo a História Genealógica, terá tido ainda uma filha bastarda, de nome desconhecido, que se criou no Mosteiro de Santa Clara, em Coimbra, e a quem o monarca deixou cinco mil libras para casamento. Mas dela não há mais novas nem mandados.

Dom João I foi o último dos filhos de dom Pedro I. Nascido por 1357, foi entregue aos cuidados de Lourenço Martins, honrado cidadão de Lisboa, que morava junto à Sé, sendo depois confiado aos cuidados do mestre de Cristo, dom Nuno Freire Andrade. Mas, tendo falecido frei Martim (ou Martinho) Avelar, mestre da Ordem de Avis, em 1362, foi dom João ocupar o seu lugar. O rei seu pai, muito ledo, armou-o cavaleiro, beijou-o e abençoou-o. O bastardo teria então sete anos e era, segundo Oliveira Martins, rapaz manhoso, atrevido, audaz sim, mas nunca temerário». In Isabel Lencastre, Os Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos,  Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

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quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal. Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Sabe-se que a sua primeira mulher foi, ou devia ter sido, a infanta dona Branca, filha de Pedro, regente de Castela, e da princesa dona Maria de Aragão. Segundo uns, o casamento com a infanta castelhana não chegou a realizar-se…»

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A Bastarda do rei Bravo
«(…) Do seu casamento com a infanta dona Beatriz de Castela, teve Afonso IV (1291-1357) sete filhos, quatro dos quais não terão sobrevivido ao primeiro ano de vida. Dos três restantes, Pedro foi rei de Portugal; dona Maria, a primogénita, foi rainha de Castela; e dona Leonor, que morreu com 20 anos, foi, por pouco tempo embora, rainha de Aragão. Fora do seu casamento, afirmam alguns que D. Afonso IV não teve descendência, o que não seria para estranhar num monarca que tanto se empenhou em tolher os usos e costumes que são contra a vontade de Deus e a prol [o bem] comunal, combatendo especialmente os adultérios com mulheres alheias e os homens casados que tiverem barregãs. A estes chegou aliás a castigar com a pena de morte. Sucede, porém, que o rei Bravo foi, na opinião de autorizados genealogistas, o pai de uma dona Maria, ou Maria Afonso, de Portugal, nascida em 1316 e falecida em 1384. Esta bastarda casou com Fernando Afonso, senhor de Valência de Campos e grão-mestre da Ordem de Santiago, que era bisneto do rei Afonso X da Castela, e deu-lhe
três filhos: João, marechal de Castela, Pedro; e Fernando, monge na Ordem de São Jerónimo. Além desta bastarda, disseram as más-línguas que Afonso IV também fora pai de uma criança nascida de dona Violante Sanchez, outra bastarda real, filha do rei Sancho IV de Castela e Leão e de dona Maria Alfonso Ucero. Mas nenhuma prova foi apresentada dessa relação nem ninguém nomeou alguma vez este ou qualquer outro putativo bastardo do rei Bravo.

El-rei Bastardo
Em 1383 nas Cortes de Coimbra, João das Regras deu a entender que o rei Pedro I, em toda a sua vida, só uma vez estivera bem casado: com dona Branca de Castela, sua primeira mulher. Todos os casamentos que celebrara ou dizia ter celebrado depois não eram válidos, porque esse primeiro matrimónio, tendo sido consumado, nunca fora anulado e a infanta espanhola não morrera antes das outras esposas do monarca. Daí resultava que todos os filhos do rei Cruel eram bastardos, e não valiam mais do que João, Mestre de Avis, o filho que o rei Pedro I houvera fora dos seus casamentos. João das Regras (o Doutor) era o melhor advogado da aclamação do Mestre como rei de Portugal. E, por isso, dizem muitos, as suas palavras não deviam ser levadas a sério. Não deviam pelo menos ser levadas à letra. É verdade. Mas verdade é também que a história dos casamentos de Pedro I constitui ainda hoje um intrincado novelo muito difícil de deslindar.
Sabe-se que a sua primeira mulher foi, ou devia ter sido, a infanta dona Branca, filha de Pedro, regente de Castela, e da princesa dona Maria de Aragão. Segundo uns, o casamento com a infanta castelhana não chegou a realizar-se, tendo a noiva sido devolvida ao reino em que nascera por ser apoucadinha de corpo e de espírito. Segundo outros, tratou-se de um casamento celebrado mas não consumado. E há ainda quem defenda que esse casamento, celebrado em 1325, foi consumado, sendo o único casamento legítimo que o monarca celebrou. Em qualquer caso, Pedro I voltou a casar em 1339, desta feita com dona Constança Manuel, filha do príncipe de Vilhena e mulher do rei Afonso XI de Castela. Este repudiara-a antes de consumar o matrimónio, para casar, três anos depois, com a infanta dona Maria de Portugal, irmã mais velha de Pedro I.
Na sua companhia dona Constança Manuel trouxe dona Inês de Castro, uma dama galega por quem o infante Pedro logo se perdeu de amores e que se tornou sua amante. O monarca víria a casar com ela após a morte da sua segunda mulher, ocorrida em 1349. Mas, segundo o próprio infante Pedro e futuro rei Pedro I dirá, este seu casamento foi secreto, pelo muito medo que tinha de seu pai, tendo-se realizado em dia de que ele não se lembrava, no ano de 1350. Esta declaração, feita em Cantanhede, em Junho de 1360, levantou, desde sempre, as maiores dúvidas, e a Igreja nunca aceitou que Pedro tivesse alguma vez casado com dona Inês de Castro. Até porque seria, em qualquer caso, um casamento ilegítimo: dona Inês era prima de Pedro, já que ambos eram netos de Sancho IV, o Bravo, rei de Castela; e era, além disso, sua comadre, por ter sido madrinha do infante Luís, filho primogénito de Pedro e de dona Constança, que morreu menino». In Isabel Lencastre, Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

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Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal. Bastardos Reais. Isabel Lencastre. «Pedro Afonso, conde de Barcelos, foi viver para os seus paços de Lalim, na companhia da sua amásia (e não, como alguns disseram, sua terceira mulher). Foi aí que coligiu o interminável Livro de Linhagens e redigiu a Crónica Geral de Espanha de 1344»

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A fina-flor do reino de Dinis I
«(…) Mal subiu ao trono, após a morte do monarca Dinis I, a 7 de Janeiro de 1325, Afonso IV convocou as cortes para que o recebessem como rei e senhor e lhe prestassem menagem. Logo a seguir, tratou de perseguir o meio-irmão, exilado em Castela, não obstante ele ter reconhecido a sua realeza. Acusou-o de traição, confiscou-lhe os bens e condenou-o a desterro perpétuo. Afonso Sanches protestou mas em vão. E, não sendo ouvido, resolveu agir. Pegou em armas, reuniu forças de Castela e invadiu Portugal, espalhando a lei do ferro e do fogo nas terras de fronteira, desde Trás-os-Montes até ao Alentejo. Afonso IV retribuiu na mesma moeda, visando em especial Albuquerque, que era onde o adversário tinha sede e principais apoios. A contenda durou três anos e só terminou porque Afonso Sanches adoeceu. Negociou-se então a paz, tendo o bastardo querido de Dinis I obtido a restituição de todos os bens que lhe tinham sido confiscados. Assim que lhe foram devolvidos, morreu, sendo enterrado no Convento de Santa Clara, que fundara em Vila do Conde, de que era senhor. Deixou um filho, João Afonso Albuquerque, o do Ataúde, 6.º senhor de Albuquerque, que foi mordomo-mor do rei Pedro I e deixou numerosa descendência, legítima e ilegítima.
Já então Afonso IV, cognominado o Bravo, menos por ser corajoso do que por ser violento, tinha mandado matar outro dos seus irmãos bastardos, João Afonso, que fora, também ele, mordomo-mor de Dinis I e, depois, seu alferes-mor. Acusado de traição por se ter conluiado com Afonso Sanches nosso inimigo, João Afonso fora condenado à morte por uma sentença de 4 de Julho de 1326, em que Afonso IV se declarava muito pesaroso por ter de castigar um homem que se chama filho de el-rei Dinis, nosso padre.
Senhor da Lousã, João Afonso deixara viúva dona Joana Ponce Leon (bisneta de Afonso IX, rei de Leão e Castela), que lhe dera uma filha: dona Urraca Afonso, mulher de Álvaro Perez Guzman, senhor de Manzanedo. Mas deixara também uma bastarda, dona Leonor Afonso, que casou com Gonçalo Martins Portocarreiro. Quanto a Pedro Afonso, conde de Barcelos, afastou-se da corte de seu irmão e foi viver para os seus paços de Lalim, na companhia de dona Teresa Anes Toledo, sua amásia (e não, como alguns disseram, sua terceira mulher). Foi aí que coligiu trovas e cantigas, compôs o interminável Livro de Linhagens e redigiu a Crónica Geral de Espanha de 1344.
Em 1347, tinha-se definitivamente separado de sua segunda mulher, dona Maria Ximenez Coronel, com quem, aliás, quase não coabitara. Com efeito, desde o seu casamento, marido e mulher tinham quase sempre vivido apartados um do outro. No ano em que se consumou a ruptura, o conde doou à condessa todos os bens que o casal possuía em Aragão, enquanto a condessa lhe doava a ele todos os bens que o casal tinha em Portugal e no Algarve. Figura central no panorama político e cultural português da primeira metade do século XIV (como o marquês de Castelo Melhor o descreve), Pedro Afonso morreu entre 2 de Fevereiro e 5 de Julho de 1354, sendo sepultado no Mosteiro de S. João de Tarouca». In Isabel Lencastre, Bastardos Reais, Os Filhos Ilegítimos dos Reis de Portugal, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-989-555-845-2.

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terça-feira, 9 de junho de 2015

Nos Confins da Idade Média. Arte Portuguesa. Séculos XII-XV. Evolução Política. Humberto Moreno. «Hábil diplomata Sancho I estabelece relações com alguns países europeus através duma bem urdida política de casamentos. Internamente promove a colonização e o repovoamento. O número de forais por ele concedidos ultrapassa o quantitativo de sessenta»

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«Somente depois da morte de Sancho III de Castela ocorrida em 1458, um ano após o falecimento do imperador Afonso VII, é que com toda a probabilidade Fernando II, a troco do reconhecimento por parte de Afonso Henriques do título de soberano de toda a Espanha, permite que se criem as condições para que os portugueses retomem a sua iniciativa no campo militar em terras do Alentejo. Mesmo assim pouco depois da conquista de Alcácer estimula-se a iniciativa privada nas acções militares, destacando-se pela sua temeridade o conquistador de Évora, o famoso Geraldo. As praças alentejanas ora são conquista das, ora deixam de o ser, numa alternância permanente. O período de 1160 a 1165 corresponde a uma série de guerras com Leão, saldando-se por algumas conquistas territoriais na Galiza, Fernando II reconheceu a autonomia portuguesa e consorciou-se com dona Urraca, filha de Afonso Henriques. Em 1169 assiste-se a uma invasão dos almóadas, comandados por Abú Iacube, o qual depois de ter conquistado quási todo o Alentejo cerca o povoado português em Santarém. Esta circunstância leva-o a pactuar com os muçulmanos e a pedir tréguas pelo espaço de dois anos. Nesse mesmo ano ataca Badajoz, sendo mal sucedido ao cair do cavalo, quebrar uma perna e ficar prisioneiro do genro.
Incapacitado para o combate coube a seu filho Sancho I a condução das operações militares. Numa delas (1173) o príncipe herdeiro penetrou até Sevilha e regressou cheio de prestígio e de despojos. Uma das constantes da política de Afonso Henriques consistiu em normalizar as relações com a Santa Sé. Fruto dessa perspicácia resultou a concessão da bula Manifestis Probatum (1179) pelo papa Alexandre III, que reconheceu ao monarca português o título de rei, transmissível a seus sucessores, com a garantia do reconhecimento na posse das terras conquistadas aos muçulmanos, desde que as mesmas não pertencessem aos príncipes cristãos seus vizinhos. O permanente fluxo e refluxo das armas cristãs revela a insuficiência do domínio de certas áreas totalmente por colonizar. Sancho I que herdara o trono por falecimento de seu pai (1185), tira partido por ocasião da terceira cruzada, duma armada de escandinavos, flamengos e alemães que havia fundeado no Tejo. Dirige-se ao Algarve e ocupa o castelo de Alvor (1189). No mesmo ano, apoiado noutro contingente, realiza a conquista de Silves, que era na altura a capital do Garb sarraceno, As grandes invasões do chefe almóada Al-Mansur fizeram-no perder todo o Alentejo, à excepção de Évora, (1190-1191), com um avanço até à linha do Tejo, que ultrapassada deu origem ao cerco de Torres Novas. Envolveu-se Sancho I em conflitos com o rei leonês (1196-1197 e 1199-1200) e com o clero portucalense (1208- 1211).
Hábil diplomata Sancho I estabelece relações com alguns países europeus através duma bem urdida política de casamentos. Internamente promove a colonização e o repovoamento. O número de forais por ele concedidos ultrapassa o quantitativo de sessenta. Além de promover as ordens dos Templários e dos Hospitalários, que entraram no nosso país no reinado de Afonso Henriques, apoiou as milícias de Santiago e de Calatrava (Avis), cuja acção militar e repovoadora foi a todos os títulos notável. Com o advento de Afonso II (1211) criam-se os mecanismos que visam o aumento da autoridade do estado. Na luta contra o poderio do alto clero e da nobreza, com replicação das inquirições, constitui uma arma ensaiada pelo rei-leproso. Opôs-se tenazmente ao testamento paterno o que ensanguentou o reino durante três anos (1211-1214). Na coligação organizada contra o monarca entraram o rei de Leão Afonso IX e o próprio papa Inocêncio III. Excomungado pela Santa Sé (1220), reconciliou-se com a igreja ao sentir que se aproximava a morte, que ocorreu em 1223, sendo ainda jovem. No plano militar organizou um exército, em que se integravam os freires do Templo, do Hospital e de Santiago, tendo o mesmo conquistado Alcácer do Sal (1217) em definitivo. Já anteriormente (1212) enviara uma expedição militar a Navas de Tolosa, que cooperou com Castela na vitória alcançada sobre os muçulmanos.
O reinado de Sancho II caracterizou-se pela turbulência imposta pelos poderosos que se aproveitaram da fraqueza e da incapacidade do rei. Grande parte do Alentejo e uma pequena parte do Algarve foram entregues às ordens monástico-militares, na sequência de campanhas de ocupação fundamentalmente resultantes do colapso almóada. Face ao clima de tumultos o papa Inocêncio IV convencido pelo alto clero que o rei não tinha condições para reinar nomeou como curador do reino o seu irmão Afonso. Este que era conde de Bolonha e se encontrava fora do país desde a adolescência veio para Portugal. Na sequência da guerra civil (1246-1247) o rei Sancho refugiou-se em Castela, onde veio a falecer pouco depois. Graças sobretudo às promessas que fez ao clero, o rei Afonso III alcançou o poder (1248). À medida porém que assumiu as rédeas da governação faltou ao prometido. Além das lutas que entabulou contra o bispo do Porto e outros prelados, também contra a nobreza aplicou as inquirições e outras normas legais tendentes a refrear o seu poderio de senhores feudais. No seu reinado concluiu-se a conquista do território português com a ocupação de Faro (1249). A integração do reino do Algarve em Portugal não foi bem recebida pelo reino de Castela. A questão em aberto apenas ficou resolvida quando Afonso X o Sábio pelo tratado de Badajoz (1267), renunciou à sua posse em benefício de seu neto Dinis». In Humberto C. Baquero Moreno, Evolução Política, Nos Confins da Idade Média. Arte Portuguesa. Séculos XII-XV, Instituto Português dos Museus, Porto.1992.

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