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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Dicionário da Origem das Palavras. Orlando Neves. «Estou daqui a ouvir os senhores abades de Itália, da Alemanha, da Flandres, da Borgonha, a dizerem: porque é que não temos o direito de acumular bens e honrarias?»


jdact e wikipedia

«… Na feitura desta reunião de dados, consultei algumas dezenas de publicações. Seria fastidioso e desnecessário enumerá-las exaustivamente. Para o leitor vulgar, tornar-se-ia desinteressante tal lista; para o especialista nada traria de novo. Todavia, sempre que achei necessário, citei, nos próprios verbetes, os autores e as obras em que me baseei.

Abade
Sabe que abade significa pai? Se assume esta palavra, presta um serviço ao Estado. Desempenhará o melhor papel que um homem pode desempenhar: nascerá de si um ser pensante. Nisso há qualquer coisa de divino. Mas se você é abade só porque quis ser tonsurado, quis usar um colarinho branco, uma capinha e auferir um rendimento fixo, você não merece o título de abade. Os antigos monges davam esse nome ao superior que elegiam. O abade era o seu pai espiritual. Como o mesmo título significa coisas diferentes com o passar do tempo! O abade espiritual era um pobre à frente de outros pobres, mas os pobres abades, mais tarde, já tinham 200, 400 mil libras de renda e hoje há pobres pais espirituais que têm um regimento de guardas por sua conta. Um pobre, que fez juramento de ser pobre e que, afinal, é um rei! Já se disse isto, frequentemente, mas é preciso dizê-lo mais vezes, porque é intolerável. [... ] Estou daqui a ouvir os senhores abades de Itália, da Alemanha, da Flandres, da Borgonha, a dizerem: porque é que não temos o direito de acumular bens e honrarias? Porque não podemos ser príncipes? Os bispos são-no; originariamente, eram pobres como nós, enriqueceram, ascenderam aos mais altos postos, um deles até se tornou soberano dos reis, deixem-nos imitá-los. Têm razão, senhores, invadam a terra. Ela pertence ao forte e ao hábil que dela se apodere. Vós tendes aproveitado tempos de ignorância, de superstição, de demência para nos despojarem do que herdámos, para nos espezinharem, para engordarem com a carne dos infelizes. Tremam quando o dia da razão chegar.
Estas palavras de Voltaire definem o estado a que chegara o título de abade, poucos anos antes da Revolução Francesa. Era cognome e cargo dado a torto e a direito, autêntica sinecura, todos os eclesiásticos, com ordens ou sem ordens (e mesmo os leigos) podiam receber a distinção e o proveito ainda que não pertencessem a qualquer abadia (chamava-se a estes, entre outros designativos, abades sem abadia, abades cortesãos ou abades da Santa Esperança de algum dia virem a ter abadia). Verdadeiros peralvilhos, inúteis, ociosos, frequentadores das senhoras da nobreza, passeavam o seu estatuto pelos salões (recorde-se o célebre abade Prevost, escritor de mérito, autor, por exemplo, de Manon Lescaut). Daí a indignação de Voltaire. Porque a palavra abade é profana. Foram os cristãos gregos que a introduziram na religião, chamando aos primeiros superiores dos monges abbot, o que, na língua síria, significava pai. Origem contestada, no entanto, pelos que dizem ser a palavra hebraica, aba (com o sentido de amar, querer bem e daí também pai). Antes dessa passagem para a linguagem religiosa, a palavra era atribuída àquele que, pela idade, sabedoria e pureza de alma, aconselhava, orientava os que se lhe dirigiam. Cristo invocando Deus, em Getsémani, diz Abbá. S. Paulo nas epístolas aos Romanos e aos Gálatas, utiliza também Abbá. Os judeus no livro dos Apótegmas incluem um capítulo chamado Pirke abbot, ou seja, Capítulo dos pais. Jesus Cristo terá proibido os seus discípulos, por tal razão, de chamarem pai a qualquer homem, visto que pai no sentido místico só seria Deus. E S. Jerónimo proibiu, igualmente, os monges de darem esse título àqueles que os superintendiam. Preveria o santo o que acontecia nos tempos de Voltaire? A verdade é que as palavras do filósofo estão bem presentes ainda na nossa linguagem popular em expressões como: cara de abade, dormir como um abade, comer como um abade.

Abalar
Pode significar partir com pressa, ir-se embora ou abanar, oscilar, fazer tremer, sentidos que só por generalização se ligam à origem da palavra. Proveniente do verbo latino advallare, por sua vez, vindo de vallis (vale) é, literalmente, descer para o vale, ir para baixo». In Orlando Neves, Dicionário da Origem das Palavras, 2001, Editorial Notícias, 2007, ISBN 978-972-461-187-7.

Cortesia de ENotícias/JDACT

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Máscaras. Poesia. Orlando Neves. «A potente mão pousa e acaricia o amor no lugar que foi privação. Por quantas praias as corças correram felizes até ao afogamento nas águas róseas, nos doces jardins sangrentos de flores abertas»

jdact
(CDU)

Dionísio converte o seu conterrâneo…
«Porque queres ir a Kâshi?
Livrar-me do peso da morte.
A quem pedes?
A deusa Kâli, a mãe dos três mundos.
Aqui mais perto está aquele que te salvará.
Negro de aspecto, negro de nome
ó o vinho.
Bebe, Khayyam.
Que importa que o futuro seja a morte?
Não a conhecerás se o vinho
for o teu leite e a tua unção.
Bebe. Nenhum peso te sufocará.
Bebe e serás leve, Khayyam».


Dinamene e Camões discutem o Tao
«Dinamene
Confúcio disse: ama.

Camões
Que outra coisa eu fiz?
Mas meu desejo foi sempre desacertado
com as coisas do mundo!

Dinamene
Eis-te, assim, infeliz.
Tu, expansivo oceano,
desperdiçaste a água vital
em solos estéreis.

Camões
Amada Dinamene, de que morre um homem bom
senão da sua bondade?

Dinamene
Tua vida é um momento na infinitude do tempo.
Busca tudo em ti.

Camões
Eu tive pouco, nada recebi.
Jamais fui o iluminado
porque nunca a mim mesmo me conheci.
Conheci os outros
e nem por isso fui sábio.
Como não alcancei a paz,
se de todas as coisas me esvaziei?

Dinamene
Seguir errado e não mudar de caminho
é, assim o diz o Tao, seguir errado.
O destino é incurável».

Lamentação de Lisistrata
«Sob o signo do Escorpião
a arma se levanta
directa ao meu corpo arco-íris.
A potente mão pousa e acaricia
o amor
no lugar que foi privação.
Por quantas praias as corças correram felizes
até ao afogamento nas águas róseas,
nos doces jardins sangrentos de flores abertas.
Desceu sobre nós a palavra paz,
cresceram lilases na pele dos amantes!
E partimos as flechas,
consumada a reunião.

Mas entre os muros brancos da casa,
engendram-se as mentiras.
Não se repete o nosso clamor uníssono
contra o poder.
São desertos as belas palavras
de todos os idiomas,
espuma de mares jovens
moribunda no desejo das fortes pernas.
Nos campos de aveia,
lúbricas,
suportamos a solidão,
regressamos à submissa paciência,
mortais musgos de açucenas
dispostas ao sacrifício e à escravidão.
E vos recebemos com canções heróicas.

Miserável é o tempo do futuro
pois que, sedentas, débeis, selvagens,
vos esperamos perfumadas a sândalo e frutos.

Eu sou um corpo que não tenho,
pura emanação e olfacto,
lesão disponível.

Dormiremos por séculos
no vosso sangue derramado
bebido em sémen e lágrimas.
Para sempre».
Poemas de Orlando Neves, in ‘As Máscaras

In Orlando Neves, Máscaras, edições Sol XXI, Tipografia Voz de Lamego, 1997, ISBN 972-8183-52-6.

JDACT

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Poesia. Máscaras. Orlando Neves. «Jamais o jogo terá fim, jamais as palavras sairão do caos para a harmonia. Das Palavras apenas fará palavras com duplos triplos sentidos infinitos sentidos. Assim: amigo 1 amigo 2 amigo 3 amigo 4…»


jdact

Pitágoras nos jardins da Babilónia
«Tenta-se o filósofo ao jogo,
no terraço de begónias:
como as palavras serão deuses?
Sofia amigo razão fábula erro música luz
amigo razão fábula erro música luz
amigo razão erro música luz
amigo razão música luz.
A tarde fecha-se num eclipse sem surpresa.
O filósofo está exausto.
Jamais o jogo terá fim,
jamais as palavras sairão do caos
para a harmonia. Das Palavras
apenas fará palavras
com duplos triplos sentidos
infinitos sentidos. Assim:
amigo 1 amigo 2 amigo 3 amigo 4
razão 1 razão 2 razão 3 razão 4
música 1 música 2 música 3 música 4
luz 1 luz 2 luz 3 luz 4.
De súbito, o deserto incendeia-se:
palavras, palavras, campos fechados
expostos à radiação apenas do número
10.

Eis o acorde perfeito, a harmonia,
o princípio de todas as coisas,
a chave do Universo.
Finalmente, as palavras
caminham em busca do equilíbrio:
energia, inteligência, amor.
Pitágoras invoca os céus de Babilónia.
Ó número divino que engendraste
os deuses e os homens, bendito sejas!»


Schopenhauer. Invectiva Platão
«Ei-lo, o tempo, ó velho sonhador,
o círculo, a roda eterna do suplício sem termo.
Opaco como um falso sol,
ele gira, perpetuamente, em torno de si mesmo.
Ixíon é o homem condenado
à repetição infinita da vida.
Ei-lo, o tempo, ó velho grego,
a água que as Danaides
despejam no tonel sem fundo,
circuito perene.
Ei-lo: pedra de Sísifo, sede de Tântalo,
movimento oco, gesto vazio.
Eis o tempo nu, sem artifício, senhor do tédio.
Ó velho sábio ingénuo,
porque lhe chamaste
entrega insaciável a paixões insatisfeitas?
O tempo é o eco,
o nenhum futuro,
apenas monotonia sem fim.
Nada é novo, tudo recomeça igual,
eadem sed aliter».
Poemas de Orlando Neves, in ‘As Máscaras

In Orlando Neves, Máscaras, edições Sol XXI, Tipografia Voz de Lamego, 1997, ISBN 972-8183-52-6.

JDACT

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Poesia. Máscaras. Orlando Neves. «No Jardim, Idomeneu ensina a ataraxia a serenidade a paz íntima a fuga a todos os excessos a ausência de desespero a separação total dos deuses»

jdact

Balnibarbi
O grande sábio da academia de Lagado
mandou que os 40 alunos rodassem
o gigantesco quadro de cubos.
Nos seis lados de cada estavam inscritas
todas as palavras de todas as línguas.

Gulliver leu, de relance:
tenebrae abba sef'r bil love dun
thanks morte akrós atman eco
pesach dálet bild ga-hlaiba veld
yhnhnm amor figlio rlm arbeit son
psyke duomo kome fête gaia

Outra vez! Comandou o grande sábio balnibarbiano.

Mare solo noon thwahila tear virtú
proskénion mulier destino parole
adonai festa palavra goró abelós
force dike baro ghost kalk wealth

Ininterruptamente, nas 24 horas do dia,
os jovens rodavam as fiadas de cubos
e iam anotando todas as palavras.
Alguma vez, disse o grande sábio de Balnibarbi,
elas surgirão ordenadas e formarão
as mais belas frases poéticas.
Gulliver saiu enquanto o movimento
continuava, pausado, cadenciado:

pathós moon dieu light esclave hybris dor bit

Morte de Epicuro
A vida (maior) do que a morte,
abandona Epicuro.
A dor apodrece-lhe o ventre.
Milhões de átomos,
caindo no vazio,
destroem-lhe o equilíbrio do corpo vivo.
Sabe que os deuses sempre desconheceram
a sua existência humana.
Encontrará na natureza,
enfim, o repouso e a paz.

a = privação
taraxis = agitação

Jesus mortifica-lhe o cadáver,
propõe-lhe a vida para além da morte.
Mas Epicuro é indiferente ao futuro,
nada lhe diria o supremo prazer de Jesus,
a outra vida.
Enquanto os rins se decompõem
ainda o filósofo sabe
que a outra vida
a viveu na terra.
Agora, que sofre a dor física,
repercutida na alma,
reafirma o prazer como seu contrário.
No Jardim,
Idomeneu ensina
a ataraxia
a serenidade
a paz íntima
a fuga a todos os excessos
a ausência de desespero
a separação total dos deuses.

Achando-me no feliz e último dia de vida,
eis-me definitivamente escondido
no seio da natureza. Jamais morrerá
a pulsação do mundo pelo prazer.
Por favor, Idomeneu,
deixa que as moscas devorem,
serenas,
meu vómito negro.

Teresa Cruz lê Teresa de Ávila no museu Grão Vasco
Viseu gela nos vidros vazios, brancos.
Uma chuva de lâminas agrestes marca o
rosto da Virgem de Grão Vasco. Suponho
a vida rápida. Porém o tempo nas pala-

vras filtra os suplícios da carne que
nas telas se consome. E o teu Deus não
cala o grito dos mártires ecoando nas
cores. Porque rezam as bocas de velhas

nestes quadros em que parecem ruir os
Cristos brilhantes que penetram o teu
corpo? E estes duques de joelhos de pra-
ta, em tons de chumbo, que choram conti-

go em calvários pintados? Passas, lenta,
nos claustros, por tapetes sanguíneos,
os teus passos rasos. Correm galgos re-
ais nos campos para além do convento.

Ágeis, erectos, ávidos. Foges ao tiro da
caça, entre desenhos e estalos de óleo,
ruínas de som. O caos perfura os teus
seios virgens e a água do suor dissol-

ve-te a pele. E, incerta, a tua voz mur-
mura o nome do crucificado. Em teus ca-
belos ácidos, secos de luz, sinto-me i-
nundada de ti, vejo a cruz sombria, le-

vantada como um falo, esmagando a aze-
da flor que beijas. Nas tuas palavras
eis a parte das águas que me lava das
pestes. Não me curaram. Não me ressusci-

taram. Mas são como a estrela da tela,
desvendando a infância na alva do nas-
cimento divino. Os teus terrores e eni-
gmas têm estas cores castanhas e plúm-

beas. Mas foram as minhas janelas de o-
lhar o meu corpo, ardente como a memó-
ria do amado amante. Ó asa clara e ne-
gra sobre as chagas pintadas do Cris-

to, aquece-me de amor nesta cidade am-
bígua, campo soterrado de gelo e chama!

Poemas de Orlando Neves, in ‘Máscaras

In Orlando Neves, Máscaras, edições Sol XXI, Tipografia Voz de Lamego, 1997, ISBN 972-8183-52-6.

JDACT

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Poesia. Máscaras. Orlando Neves. «O poeta, à medida que avança, apaga os rastos que foi deixando entre os dois horizontes. Um deserto que traçou e depois abriu num terreno alisado, uma rota que já foi sua, pessoal, a fim de desvendar os seus propósitos…»

jdact

Hamlet Sopesa a Caveira. No oco das Mãos
O tempo é um vaso vazio,
um caracol marinho de gestos ambíguos.
Falemos do que foi o banquete final.
Que pássaro comeu a tua boca?
Quantos golpes te transformaram em osso de peixe?
Ao toque dos meus dedos,
perdes o poder,
vela-te o vento de verão
dentro e fora
do côncavo do tempo.
Em todas as direcções
Para cima e para o lado
és pó em Saturno.
A luz que atravessou os teus olhos
sangra salobras purificações.
Chamo-me ninguém.

As mãos vazias estão repletas
de consequências e palavras frouxas.
Posso imaginar-te um triângulo
um passado
um estado natural,
uma força da água,
uma relação de vidências e formas
que jamais resolverá os dilemas.
Ponto final.
Não és terra.
Não és não-terra.

As nossas bodas estão findas.
Sigo os cães roubando fruta.


Ovídio
Dizem-no Tito Lívio e Cícero e Valério e Frontino:
Lúcio Márcio peleja na llíria
quando de súbito sai da sua cabeça
uma enorme chama de fogo.
Em poucos minutos queima
trinta e sete mil inimigos.
Só então se extingue a labareda
que rompera do interior da cabeça
de Lúcio Márcio,
centurião do exército romano.
Uma ligeira brisa desperta a chuva.
Vagueiam no campo os comedores de ervas e cinzas.
Cães e estrelas caminham.
Lunaque nocturnos alta regebat equos.

Poema de Orlando Neves, in ‘Máscaras

In Orlando Neves, Máscaras, edições Sol XXI, Tipografia Voz de Lamego, 1997, ISBN 972-8183-52-6.

JDACT

sábado, 3 de agosto de 2013

Poesia. Máscaras. Orlando Neves. «Todo o sangue terminou o seu percurso no corpo de Nefertiti. O frio do metal, o negro da água, o incandescente fogo secaram-lhe, para sempre, no rosto voluptuoso a ardência do olhar divino»

jdact

Lamentação de Kiya, Último Sacerdote de Aketaton, na Morte de Nefertiti
A bela que veio,
soberana da graça,
senhora do norte e do sul,
a de semblante claro,
a amada de Aton,
a eternamente bela
Nefer Neferu Nofrete Nefertiti
ao 11.315º dia de vida
olhou o sol escurecendo e clamou:

O Senhor da Eternidade,
quando despontas magnífico,
ó Disco Vivo,
tu és resplandescente,
belo e poderoso.
O amor que inspiras é grande e único.
Os teus raios acariciam-me o rosto,
o teu fulgor suaviza o meu peito.
Ó Deus majestoso
que a Ti mesmo te criaste,
ó Deus que formaste a Terra,
e modelaste tudo o que existe,
enche-me o coração de alegria!

Mas ao 11.316º dia,
a água, o fogo, a madeira, o metal, a terra,
os elementos l-2-3-4-5,
tomaram a jovem Nefertiti
e invadiram-na
de cólera, amargura, acidez, dor e vento
tempestuoso.
Todo o sangue terminou
o seu percurso no corpo de Nefertiti.
O frio do metal,
o negro da água,
o incandescente fogo
secaram-lhe, para sempre, no rosto voluptuoso
a ardência do olhar divino.

Mas Nefertiti viverá
até que o cisne fique preto
e o corvo fique branco,
até que as montanhas se movam
na direcção dos rios e dos mares
e surjam na terra
os homens de raça dourada
que criarão a cidade do Sol.

Poema de Orlando Neves, in ‘Máscaras

In Orlando Neves, Máscaras, edições Sol XXI, Tipografia Voz de Lamego, 1997, ISBN 972-8183-52-6.

JDACT

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

A Bela Poesia. Máscaras. Orlando Neves. «As minhas palavras foram a parte da água que subiu ao encontro das pestes. Nos declives densos suaves das dunas, milhões de átomos matéria cristalina…»


jdact

Pórtico
Tudo é posto em equilíbrio.
Haverá pássaros.
Sempre.
E uma leve morte.
Cerrar-se-á a luz de amar.
E a paz do chão.
As minhas palavras
foram a parte da água
que subiu ao encontro
das pestes.
Nada curaram
ou ressuscitaram.
Fabricaram
uma grande estrela que.

E nada separaram.
Atira-me, amor,
a alma.

Tratado geral das utopias
A Ave Divina
Em Marmin caiu a manucodiata,
a ave do paraíso.
Desceu de asas abertas,
reluzentes como o ouro,
resplandescentes como o Sol.
Em Marmin caiu a manucodiata,
a ave do além.
Das suas costas elevaram-se
ao orvalho do céu,
os jovens filhos.
Em Marmin caiu a manucodiata,
a ave do ar,
que vive do ar
e permanece continuamente no ar.
Em Marmin caiu, morta, a manucodiata,
a aye de Deus.

OMar e o Fogo
Confusas bibliotecas amarelecem
sob as areias velhas de Osíris,
caindo a poente.
Na paralisada noite do seu sono
uma língua / olor
jaz em meditações sobre o tempo
e as paixões. Que terror sobre-humano
nestes ossos invisíveis pela opacidade
purulenta do sol letal!
Nos declives densos suaves das dunas,
milhões de átomos
matéria cristalina dos espaços vazios,
gotejam sangue em Alexandria.

Poemas de Orlando Neves, in ‘Máscaras

JDACT

sábado, 7 de agosto de 2010

Orlando Neves: Uma vida muito multifacetada e quase sempre ligada à cultura. Escreveu obras de diversos tipos literários, da poesia ao romance, passando pelo teatro e literatura juvenil

(1935-2005)
Portalegre
Cortesia de vidaslusofonas
Orlando Neves de nome completo Orlando Loureiro Neves foi um escritor, poeta e dramaturgo. Foi também tradutor, tendo traduzido para português dezenas de obras. Encenou diversas peças de teatro.
Orlando Neves estudou na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa onde, com 22 anos de idade, terminou a licenciatura em Direito. Exerceu diversas actividades, quase todas ligadas à cultura. Colaborou no Teatro Moderno dos Fenianos da cidade do Porto. Foi vice-presidente do Teatro Experimental do Porto e trabalhou como documentalista no Laboratório Nacional de Engenharia Civil em Lisboa, onde esteve cerca de um ano e de onde foi obrigado a sair por se recusar a assinar um documento em que declarava a não prática de actos contra o Estado Novo, regime com que ele não concordava.

Cortesia de triplov
Trabalhou como jornalista no Jornal República no campo da cultura, tendo aí sido crítico de teatro e de televisão. Em 1971/1972, foi convidado para director literário do Círculo de Leitores. Em  1974 assumiu a direcção literária da Portugália Editora, de onde saiu por divergências de vária ordem. Em 1975 fundou a Cooperativa Editorial Diabril para a qual leva José Gomes Ferreira e de quem são publicadas e reeditadas várias obras. Foi director de Relações Públicas e assessor do Teatro São Luiz, na altura em que este era dirigido por Carlos Wallenstein.

Cortesia de junior.mediabooks
Como jornalista, colaborou  nos jornais «A Luta» e «Expresso» com críticas de televisão, teatro e literatura. Trabalhou no jornal «Diário de Notícias» também com críticas de rádio e crónicas. Em 1980 foi apresentador do programa cultural semanal «Manta de Retalhos» na RTP1, considerado pela crítica como um dos melhores programas culturais da televisão.

Cortesia de sites
Em 1984, encenou no Teatro Nacional D. Maria II, a peça de Vicente Sanches «A birra do Morto», que obteve o Prémio Revelação em Encenação pela Associação Portuguesa de Crítica de Teatro. Entre 1985 e 1986, encenou na Fundação Calouste Gulbenkian, no ciclo «Retorno à Tragédia», as peças «À procura da Tragédia» e o «Indesejado» de Jorge de Sena.
Faleceu na cidade do Porto, a 24 de Janeiro de 2005 e como vimos teve uma vida muito multifacetada quase sempre ligada à cultura.

Obras
Poesia:
  • Sopapo para a destruição da felicidade (1959);
  • O silêncio na cidade (1963);
  • Canção para o jovem país (1963);
  • Respondo por mim (1971);
  • O corpo e a voz (1973);
  • Morte minuciosa (1976);
  • Diário da desordem, fragmentos (1984);
  • 20 ironias literais (1985);
  • Morte minuciosa, 2ª edição, refundida e aumentada (1986); 3ª edição (1996);
  • Trovas da infância na aldeia (1987);
  • Regresso de Orfeu (1989);
  • Odes de Mitilene (1990);
  • Lamentação em Cáucaso (1990);
  • Ulisses e Nausica (1990);
  • Noema (1991);
  • Decomposição – A Casa (1992);
  • Mar de que futuro (1993);
  • Organon para a decifração da poesia (1993);
  • Loca obscura, pranto de Leonor de Sepúlveda (1994);
  • Poesia (1995);
  • Máscaras (1997);
  • Nocturnidade (1999);
  • Diário de Estar e Ser (2000);
  • Clamores (2001).
Romances:
  • Morte em Campo de Ourique (1987);
  • Morta em Vila Viçosa(1991);
  • Memórias de um rufia lisboês (1994);
  • Torrebriga – Cenas da Vida no Interior (1999).
Teatro:
  • A Execução, seguida de seis peças em um acto (1966);
  • Humor Próprio, com colaboração (1975);
  • Crisântemos e Malmequeres (1987), não publicado, mas levada a cena pela Companhia de Teatro Reportório, no Trindade no Porto;
  • 30 Anos de Teatro (1993), recolha de críticas e ensaios sobre teatro.
Outras
  • Pão com manteiga (1º volume) (1981);
  • O castelo medieval e a cultura coeva (1984);
  • De longe à China (1988);
  • Dicionário de frases feitas (1991);
  • Dicionário das origens das frases feitas (1992);
  • Dicionário do palavrão e afins (com palavras de calão) (1994);
  • Dicionário de nomes próprios.
Ao longo da sua vida colaborou em jornais e revistas de todo o País, das quais se destaca: Bandarra, Vértice, Europa, Távola redonda, A esfera, Planície, Mundo, Século Ilustrado, Jornal de Letras e Artes, Jornal de Notícias, O Comércio do Porto, Diário de Coimbra, Diário Ilustrado, Diário Popular, Jornal do Fundão, Europeu, Jornal de Letras, Artes e Ideias, Letras e letras, Sirgo, A cidade (Portalegre), Colóquio/Letras, Calípole, Sol XXI, etc.

A Idade
Ao princípio, era a doença de ser, pura e simples
exaltação das trevas de que a casa era a luz do mundo.
Ao princípio, estava o amor oculto no secreto fio
da memória do mundo. Ao princípio, era o insondável

desconhecido, aberto nas mãos maternais, sortilégio
o mundo. Ao princípio, vinha o silêncio como ponto
de encontro do nada do mundo. Ao princípio, chegava
a dor da pedra opressa nos corações, sublime prodígio

do mundo. Ao princípio, revelava-se o inominável,
o imóvel, o informe, a intimidade temida do mundo.
Ao princípio, clamava-se a concórdia e a piedade,

afirmação absoluta da constância do mundo.
Ao princípio, era o calor e a paz. Depois, a casa
abriu-se à terra fértil, a madre terra, a medonha terra.
Orlando Neves, in «Decomposição - a Casa»

Cortesia de appoetas
Participou em outras actividades culturais, foi fundador e primeiro presidente do Cineclube Universitário do Porto, membro da direcção da Casa de Imprensa de Lisboa, director da ompanhia Teatral Rafael de Oliveira (na sua fase amadora), vice-presidente do Clube de Jornalistas de Lisboa, presidente da Associação Património XXI, dedicada à defesa do património monumental do País, vice-presidente da Associação Portuguesa dos Amigos dos Castelos, presidente da Associação Cultural Sol XXI que tem organizado vários encontros e jornadas de divulgação cultural.

Só os Lábios Respiram
Só os lábios respiram. Simples gesto vivo,
exílio do som onde se oculta o pavor da
palavra, pátria salgada cerrada no vazio
da casa de velhos deuses ávidos de preces.
Na garra da águia se fecha e rompe a boca,
templo e entranha, prodígio e anel
do eco, sinal esparso do caído concerto
da vida. Por estes soberbos montes, estas
rasas colinas, estas águas circulantes,
vai o grito da cegueira, o delírio lasso
na manhã, a saciada loucura do escuro
nome nocturno. Como um fragor dos céus,
caminha o canto agudo das árduas cigarras
perseguindo a funesta morte. Por esta
paisagem parda, que lábios me guardam
do próximo desastre, a mudança em ave,
cio ou sal, erva ou peixe, cicatriz ou
mito, veia ou água? Que lábios respiram
na coisa mortal que serei após o termo
da eterna efemeridade deste meu corpo,
coma de luz, deste desejo, rijo resíduo,
deste pensamento, disfarce ou máscara,
deste rapto do tempo, deste
coração que começa?
Orlando Neves, in «Lamentação em Cáucaso»

Homenagem a O. N.
Cortesia de homo100sapiens