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quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Líricas Portuguesas. 1ª Série. José Régio. «Vy oj’eu donas muy bem parecer e de muy bom prez e de muy bom sen e muyt’amigas son de todo ben, mays d’üa moça vos quero dizer: de parecer venceu quantas achou hüa moça que x’agora chegou»

jdact

Os Poetas dos Cancioneiros. Séculos XII a XVI
Rei Sancho I
«El-Rei Sancho I nasceu em 1159 e morreu em 1211. É, portanto, um dos nossos mais antigos trovadores, a ser seu, como parece averiguado, o Cantar de amigo. Tal é a opinião de Carolina Michaëlis, que o supõe composto pelo rei para a sua célebre amante Maria Pais Ribeiro.

Cantar de Amigo
«Ai eu coitada!
Como vivo en gram cuidado
por meu amigo
que ei alongado!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

Ai eu coitada!
Como vivo en gram desejo
por meu amigo
que tarda e non vejo!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!»

João Garcia de Guilhade
Foi um simples cavaleiro-vilão na opinião de Rodrigues Lapa, e cavaleiro de pequena nobreza na de Carolina Michaëlis. Não há datas precisas sobre a sua biografia. Parece ter levado a vida de soldado, e ser português, chamando-se Guilhade não de qualquer localidade galega, mas dum dos lugares portugueses com o mesmo nome. Terçou armas, poeticamente, com o fidalgo João Soares Coelho, num litígio célebre. O fidalgo o amesquinhou por vilão, sem contudo, o vencer como trovador. É um dos nossos mais fecundos e originais poetas do século XIII, distinguindo-se, quer nas cantigas de amor, quer nas de amigo, quer nas de escárnio ou maldizer pela sua agilidade técnica e a vivacidade do seu espírito.

Cantiga de Amigo
«Quer’eu, amigas, o mundo loar
por quanto bem mi nostro Senhor fez:
fez-me fremosa e de mui bom prez,
ar faz-mi meu amigo muit’amar:
aqueste mundo x’est a malhor ren
das que Deus fez a quen el i faz bem.

O paraíso bõo x’é’de pran,
ca o fez Deus, e non digu’eu de non,
mai-los amigos, que no mundo son,
e amigas muit’ambos lezer na:
aqueste mundo x’est a melhor ren
das que Deus fez a quen el i faz bem.

Querria-m’eu o parais’aver,
des que morresse, ben come quen quer,
mais, poi-la dona seu amig’oer
com el pode no mundo viver,
aqueste mundo x’est a melhor ren
das que Deus fez a quen el i faz bem.
E quem aquesto non tever por ben
já nunca lhi Deus dê en ele ren».

Cantiga de Amor
«Vy oj’eu donas muy bem parecer
e de muy bom prez e de muy bom sen
e muyt’amigas son de todo ben,
mays d’üa moça vos quero dizer:
de parecer venceu quantas achou
hüa moça que x’agora chegou.

Cuydava-m’eu que non avyam par
de parecer as donas que eu vi,
attan ben me parecian ali,
mays, poi’la moça filhou seu loguar,
de parecer venceu quantas acou
hüa moça que x’ agora chegou.

Que feramente as todas venceu
a mocelinha en pouca sazon!
De parecer todas vençudas son!
Mays, poy’la moça hi pareceu,
de parecer venceu quantas achou
hüa moça que x’agora chegou».

In José Régio, Líricas Portuguesas, 1ª Série, Selecção, Prefácio, Notas, Portugália Editora, Lisboa, 1959.

Cortesia Portugália/JDACT

segunda-feira, 21 de março de 2011

Há dias assim... Dia Mundial da Poesia: Luís de Camões. «...Vosso mantimento não no entendereis; isso que comeis, não são ervas, não: são graças dos olhos, do meu coração»

Cortesia de malhatlantica 

Verdes são os Campos
Verdes são os campos,
De cor de limão:
Assim são os olhos
Do meu coração.

Campo, que te estendes
Com verdura bela;
Ovelhas, que nela
Vosso pasto tendes,
De ervas vos mantendes
Que traz o Verão,
E eu das lembranças
Do meu coração.

Gados que pasceis
Com contentamento,
Vosso mantimento
Não no entendereis;
Isso que comeis
Não são ervas, não:
São graças dos olhos
Do meu coração.
Luís de Camões

Descalça vai para a Fonte
Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.
Luís de Camões

JDACT

sábado, 12 de março de 2011

Luís de Camões. Líricas XXII: «Mudando andei costume, terra e estado, por ver se se mudava a sorte dura; A vida pus nas mãos de um leve lenho...Achado tenho já que não a tenho»

Cortesia de lisboacity

No mundo quis o Tempo que se achasse
No mundo quis o Tempo que se achasse
O bem que por acerto ou sorte vinha;
E, por exprimentar que dita tinha,
Quis que a Fortuna em mim se exprimentasse.

Mas por que meu destino me mostrasse
Que nem ter esperanças me convinha,
Nunca nesta tão longa vida minha
Cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado,
Por ver se se mudava a sorte dura;
A vida pus nas mãos de um leve lenho.

Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado,
Já sei que deste meu buscar ventura
Achado tenho já que não a tenho.
Luís de Camões

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades
Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.
Luís de Camões

JDACT

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Luís de Camões. Líricas XXI: «Porém, como em casos tais ando já visto e corrente, sem outros certos sinais, quanto me ela jura mais...»

Cortesia de segundavida

Amor, que o gesto humano na alma escreve
Amor, que o gesto humano na alma escreve,
Vivas faíscas me mostrou um dia,
Donde um puro cristal se derretia
Por entre vivas rosas e alva neve.

A vista, que em si mesma não se atreve,
Por se certificar do que ali via,
Foi convertida em fonte, que fazia
A dor ao sofrimento doce e leve.

Jura Amor que brandura de vontade
Causa o primeiro efeito; o pensamento
Endoudece, se cuida que é verdade.

Olhai como Amor gera, num momento
De lágrimas de honesta piedade,
Lágrimas de imortal contentamento.
Luís de Camões

Quando me quer enganar
Quando me quer enganar
A minha bela perjura,
Pera mais me confirmar
O que quer certificar,
Pelos seus olhos mo jura.
Como meu contentamento
Todo se rege por eles,
Imagina o pensamento
Que se faz agravo a eles
Não crer tão grão juramento.

Porém, como em casos tais
Ando já visto e corrente,
Sem outros certos sinais,
Quanto me ela jura mais,
Tanto mais cuido que mente.
Então, vendo-lhe ofender
Uns tais olhos como aqueles,
Deixo-me antes tudo crer,
Só pela não constranger
A jurar falso por eles.
Luís de Camões

JDACT

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Luís de Camões. Líricas XX: «Ditosa esta alma vossa, que quisestes em posse pôr de prenda tão subida, como, Senhora, foi a que me destes»

Cortesia de valiteratura

Posto me tem Fortuna em tal estado
Posto me tem Fortuna em tal estado,
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.

Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,

Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.

E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.
Luís de Camões


Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.

Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.

Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.

Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.
Luís de Camões

Cortesia de users.isr.ist.ut/JDACT

sábado, 22 de janeiro de 2011

Luís de Camões: Líricas XIX. «Aquilo a que já quis é tão mudado, que quase é outra cousa, porque os dias têm o primeiro gosto já danado»

Cortesia de letrasinversoreverso

Ao desconcerto do Mundo
Os bons vi sempre passar
No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.
Luís de Camões

Que me quereis, perpétuas saudades?
Que me quereis, perpétuas saudades?
Com que esperança inda me enganais?
Que o tempo que se vai não torna mais,
E se torna, não tornam as idades.

Razão é já, ó anos, que vos vades,
Porque estes tão ligeiros que passais,
Nem todos pera um gosto são iguais,
Nem sempre são conformes as vontades.

Aquilo a que já quis é tão mudado,
Que quase é outra cousa, porque os dias
Têm o primeiro gosto já danado.

Esperanças de novas alegrias
Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
Que do contentamento são espias.
Luís de Camões

JDACT

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Luís de Camões: Líricas XVIII. «Faz-me, enfim, chorar e rir: Rio quando me promete, mas choro quando me mente»

Cortesia de  academia

Aquela triste e leda madrugada
Aquela triste e leda madrugada,
cheia toda de mágoa e de piedade,
enquanto houver no mundo saudade
quero que seja sempre celebrada.

Ela só, quando amena e marchetada
saía, dando ao mundo claridade,
viu apartar-se de üa outra vontade,
que nunca poderá ver-se apartada.

Ela só viu as lágrimas em fio,
de que uns e outros olhos derivadas
se acrescentaram em grande e largo rio.

Ela viu as palavras magoadas
que puderam tornar o fogo frio,
e dar descanso às almas condenadas.
Luís de Camões

Cortesia de emule 

Catarina é mais fermosa
Mote
Catarina
bem promete;
Eramá! como ela mente!
Voltas
Catarina
é mais fermosa
Pera mim que a luz do dia;
Mas mais fermosa seria,
Se não fosse mentirosa.
Hoje a vejo piedosa;
Amanhã tão diferente,
Que sempre cuido que mente.
Catarina
me mentiu
Muitas vezes, sem ter lei,
E todas lhe perdoei
Por uma só que cumpriu.
Se como me consentiu
Falar-lhe, o mais me consente,
Nunca mais direi que mente.
Má,
mentirosa, malvada,
Dizei: pera que mentis?
Prometeis, e não cumpris?
Pois sem cumprir, tudo é nada.
Nem sois bem aconselhada;
Que quem promete, se mente,
O que perde não no sente.
Jurou-me
aquela cadela
De vir, pela alma que tinha;
Enganou-me; tinha a minha,
Deu-lhe pouco de perdê-la.
A vida gasto após ela.
Porque ma dá, se promete;
Mas tira-ma, quando mente.
Tudo vos consentiria
Quanto quisésseis fazer,
Se esse vosso prometer
Fosse por me ter um dia.
Todo então me desfaria
Convosco; e vós, de contente,
Zombaríeis de quem mente.
Prometeu-me
ontem de vir,
Nunca mais apareceu;
Creio que não prometeu
Se não só por me mentir.
Faz-me, enfim, chorar e rir:
Rio quando me promete,
Mas choro quando me mente.
Mas
pois folgais de mentir,
Prometendo de me ver,
Eu vos deixo o prometer,
Deixai-me vós o cumprir:
Haveis então de sentir
Quanto a minha vida sente
O servir a quem lhe mente.
Luís de Camões

JDACT

domingo, 26 de dezembro de 2010

Luís de Camões.Líricas XVIII: «Vá revolvendo a terra, o mar e o vento, busque riquezas, honras a outra gente, vencendo ferro, fogo, frio e calma»

Cortesia de odecimofdaaa

Julga-me a gente toda por perdido
Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.
Luís de Camões

Cortesia de vialactealiteratura 

Vencido está de amor
Vencido está de amor Meu pensamento
O mais que pode ser Vencida a vida,
Sujeita a vos servir e Instituída,
Oferecendo tudo A vosso intento.

Contente deste bem, Louva o momento
Outra vez renovar Tão bem perdida;
A causa que me guia A tal ferida,
Ou hora em que se viu Seu perdimento.

Mil vezes desejando Está segura
Com essa pretensão Nesta empresa,
Tão estranha, tão doce, Honrosa e alta

Voltando só por vós Outra ventura,
Jurando não seguir Rara firmeza,
Sem ser no vosso amor Achado em falta.
Luís de Camões

JDACT

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Luís de Camões. Líricas XVII: «Assim, Senhora minha, quando via o triste fim que davam meus amores, estando posto já no extremo fio ...»

Cortesia de litterascriptalitteratura

Se pena por amar-vos se merece
Se pena por amar-vos se merece,
Quem dela livre está? ou quem isento?
Que alma, que razão, que entendimento
Em ver-vos se não rende e obedece?

Que mor glória na vida se oferece
Que ocupar-se em vós o pensamento?
Toda a pena cruel, todo o tormento
Em ver-vos se não sente, mas esquece.

Mas se merece pena quem amando
Contínuo vos está, se vos ofende,
O mundo matareis, que todo é vosso.

Em mim, Senhora, podeis ir começando,
Que claro se conhece e bem se entende
Amar-vos quanto devo e quanto posso.
Luís de Camões

Cortesia de odecimofdaaa 
 
O cisne, quando sente ser chegada
O cisne, quando sente ser chegada
A hora que põe termo a sua vida,
Música com voz alta e mui subida
Levanta pela praia inabitada.

Deseja ter a vida prolongada
Chorando do viver a despedida;
Com grande saudade da partida,
Celebra o triste fim desta jornada.

Assim, Senhora minha, quando via
O triste fim que davam meus amores,
Estando posto já no extremo fio,

Com mais suave canto e harmonia
Descantei pelos vossos desfavores
La vuestra falsa fé y el amor mio.
Luís de Camões

Cortesia de Usersisrist/JDACT

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Luís de Camões. Líricas XVI: «Mas a Razão, que a luta vence, enfim, não creio que é Razão; mas há-de ser inclinação que eu tenho contra mim»

Cortesia de leiloes

Coitado! que em um tempo choro e rio
Coitado! que em um tempo choro e rio;
Espero e temo, quero e aborreço;
Juntamente me alegro e entristeço;
Duma cousa confio e desconfio.

Voo sem asas; estou cego e guio;
E no que valho mais menos mereço.
Calo e dou vozes, falo e emudeço,
Nada me contradiz, e eu aporfio.

Queria, se ser pudesse, o impossível;
Queria poder mudar-me e estar quedo;
Usar de liberdade e estar cativo;

Queria que visto fosse e invisível;
Queira desenredar-me e mais me enredo:
Tais os extremos em que triste vivo!
Luís de Camões

Cortesia de emule

Sempre a Razão vencida foi de Amor
Sempre a Razão vencida foi de Amor;
Mas, porque assim o pedia o coração,
Quis Amor ser vencido da Razão.
Ora que caso pode haver maior!

Novo modo de morte e nova dor!
Estranheza de grande admiração,
Que perde suas forças a afeição,
Por que não perca a pena o seu rigor.

Pois nunca houve fraqueza no querer,
Mas antes muito mais se esforça assim
Um contrário com outro por vencer.

Mas a Razão, que a luta vence, enfim,
Não creio que é Razão; mas há-de ser
Inclinação que eu tenho contra mim.
Luís de Camões

Cortesia de users.isr.ist.utl/JDACT

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Luís de Camões. Líricas XV: «Erros meus, má fortuna, amor ardente em minha perdição se conjuraram; Os erros e a fortuna sobejaram, que pera mim bastava amor somente»

Cortesia de comunidade

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que pera mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram,
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos;
Dei causa [a] que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh! quem tanto pudesse, que fartasse
Este meu duro Génio de vinganças!
Luís de Camões

Cortesia de wook
Nunca em amor danou o atrevimento
Nunca em amor danou o atrevimento;
Favorece a Fortuna a ousadia;
Porque sempre a encolhida cobardia
De pedra serve ao livre pensamento.

Quem se eleva ao sublime Firmamento,
A Estrela nele encontra que lhe é guia;
Que o bem que encerra em si a fantasia,
São umas ilusões que leva o vento.

Abrir-se devem passos à ventura;
Sem si próprio ninguém será ditoso;
Os princípios somente a Sorte os move.

Atrever-se é valor e não loucura;
Perderá por cobarde o venturoso
Que vos vê, se os temores não remove.
Luís de Camões

Cortesia de users.isr.ist.utl/JDACT

sábado, 20 de novembro de 2010

Luís de Camões. Líricas XIV: «O tempo busca e acaba onde mora qualquer ingratidão, qualquer dureza; mas não pode acabar minha tristeza, enquanto não quiserdes vós, Senhora»

O tempo acaba o ano, o mês e a hora
O tempo acaba o ano, o mês e a hora,
A força, a arte, a manha, a fortaleza;
O tempo acaba a fama e a riqueza,
O tempo o mesmo tempo de si chora;

O tempo busca e acaba onde mora
Qualquer ingratidão, qualquer dureza;
Mas não pode acabar minha tristeza,
Enquanto não quiserdes vós, Senhora.

O tempo o claro dia torna escuro
E o mais ledo prazer em choro triste;
O tempo, a tempestade em grão bonança.

Mas de abrandar o tempo estou seguro
O peito de diamante, onde consiste
A pena e o prazer desta esperança.
Luís de Camões

Cortesia de carloscorreia

Qual tem a borboleta por costume
Qual tem a borboleta por costume,
Que, enlevada na luz da acesa vela,
Dando vai voltas mil, até que nela
Se queima agora, agore se consume,

Tal eu correndo vou ao vivo lume
Desses olhos gentis, Aónia bela;
E abraso-me por mais que com cautela
Livrar-me a parte racional presume.

Conheço o muito a que se atreve a vista,
O quanto se levanta o pensamento,
O como vou morrendo claramente;

Porém, não quer Amor que lhe resista,
Nem a minha alma o quer; que em tal tormento,
Qual em glória maior, está contente.
Luís de Camões

Cortesia de usersisrist/JDACT

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Luís de Camões. Líricas XIII: «Ditoso seja aquele que somente se queixa de amorosas esquivanças; porque, inda mais que se tema de mudanças, menos se teme a dor quando se sente»

Cortesia de omelhordos1

Ditoso seja aquele que somente
Ditoso seja aquele que somente
Se queixa de amorosas esquivanças;
Pois por elas não perde as esperanças
De poder nalgum tempo ser contente.

Ditoso seja quem, estando absente,
Não sente mais que a pena das lembranças,
Porque, inda mais que se tema de mudanças,
Menos se teme a dor quando se sente.

Ditoso seja, enfim, qualquer estado,
Onde enganos, desprezos e isenção
Trazem o coração atormentado.

Mas triste de quem se sente magoado
De erros em que não pode haver perdão,
Sem ficar na alma a mágoa do pecado.
Luís de Camões


De quantas graças tinha, a Natureza
De quantas graças tinha, a Natureza
Fez um belo e riquíssimo tesouro,
E com rubis e rosas, neve e ouro,
Formou sublime e angélica beleza.

Pôs na boca os rubis, e na pureza
Do belo rosto as rosas, por quem mouro;
No cabelo o valor do metal louro;
No peito a neve em que a alma tenho acesa.

Mas nos olhos mostrou quanto podia,
E fez deles um sol, onde se apura
A luz mais clara que a do claro dia.

Enfim, Senhora, em vossa compostura
Ela a apurar chegou quanto sabia
De ouro, rosas, rubis, neve e luz pura.
Luís de Camões

Cortesia de usersirsist/JDACT

sábado, 23 de outubro de 2010

Luís de Camões. Líricas XII: «Vejo-a na alma pintada, Quando me pede o desejo O natural que não vejo»

Cortesia de todostemosumceu

Onde acharei lugar tão apartado
Onde acharei lugar tão apartado
E tão isento em tudo da ventura,
Que, não digo eu de humana criatura,
Mas nem de feras seja frequentado?

Algum bosque medonho e carregado,
Ou selva solitária, triste e escura,
Sem fonte clara ou plácida verdura,
Enfim, lugar conforme a meu cuidado?

Porque ali, nas entranhas dos penedos,
Em vida morto, sepultado em vida,
Me queixe copiosa e livremente;

Que, pois a minha pena é sem medida,
Ali triste serei em dias ledos
E dias tristes me farão contente.
Luís de Camões

Glosa a mote alheio
«Vejo-a na alma pintada,
Quando me pede o desejo
O natural que não vejo».

Se só no ver puramente
Me transformei no que vi,
De vista tão excelente
Mal poderei ser ausente,
Enquanto o não for de mi.
Porque a alma namorada
A traz tão bem debuxada
E a memória tanto voa,
Que, se a não vejo em pessoa,
«Vejo-a na alma pintada».

O desejo, que se estende
Ao que menos se concede,
Sobre vós pede e pretende,
Como o doente que pede
O que mais se lhe defende.
Eu, que em ausência vos vejo,
Tenho piedade e pejo
De me ver tão pobre estar,
Que então não tenho que dar,
«Quando me pede o desejo»

Como àquele que cegou
É cousa vista e notória,
Que a Natureza ordenou
Que se lhe dobre em memória
O que em vista lhe faltou,
Assim a mim, que não rejo
Os olhos ao que desejo,
Na memória e na firmeza
Me concede a Natureza
«O natural que não vejo».
Luís de Camões

Cortesia de usersisristutl/JDACT

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Gil Vicente. Líricas: Nelas não se esgota o ingénuo «veio» do saudável lirismo popular. Descobre-se na realidade sadia da vida honesta e produtiva dos campos

Cortesia de joraga

Com a devida vénia a João de Almeida Lucas, publico algumas palavras.

Gil Vicente, poeta lírico? Decerto o foi, e um dos mais altos expoentes nacionais do género. Esqueçamos que o lirismo é apenas a exteriorização dos estados de alma e dos sentimentos íntimos do Poeta, que mais não é do que uma poesia restritamente pessoal e subjectiva, que mais não interessa do que sentir pulsar o eu poético do artista.
Como para nos recordar que acima do dramaturgo e do vibrante satírico mais alguma coisa existe, voluteia uma aragem suave de encantador lirismo, que neutraliza a rudeza do dardo cruciante, que torna, ainda que mais não fosse, a ideação dramática mais colorida e viçosa.
Cortesia de virtualismoavbl
Há rasgos de prodigioso lirismo nas obras de Gil Vicente, o que leva a considerá-lo como um dos nossos «mais ricos» poetas líricos.
Em Gil Vicente, somos forçados a considerar 3 espécies de lirismo:
  • Objectivo, em que o espírito poético do autor reage perante os dados percebidos pelos sentidos;
  • Subjectivo ou Pessoal,  em que o poeta nos dá a imediata representação das suas manifestações psíquicas, em que exterioriza os seus sentimentos íntimos, próprios;
  • Objectivo-Subjectivo, em que o artista-comediógrafo analisando o tipo psíquico, nos dá a expressão dos sentimentos alheios, penetrando-os e imitando-os na sua psicologia própria, com maior ou menor argúcia e espírito de observação.
 Em face da Natureza, Gil Vicente é de uma receptividade assombrosa. O gosto naturalista das suas «tiradas» líricas é tal que consegue dar, no tablado, as cores mais adequadas e expressivas ao quadro campesino. A paisagem campestre «salta» aos nossos olhos e dá-nos como verdadeiro espírito do renascimento, provas do seu interesse permanente pelos problemas universais. E daí provém o encanto para o seu lirismo objectivo.
Del rosal vengo, mi madre,
vengo del rosale.
Afuera, afuera, nublados,
neblinas y ventisqueros!
Reverdeen los oteros,
los valles, priscos y prados.
Sea el frio rebentado,
salgan los frescos vapores,
píntese el campo de flores,
alégrese lo sembrado.

O símbolo naturalista foi «cultivado» pelo grande génio de quinhentos. 
Gil Vicente desvenda abertamente o seu eu, desaparece o grande lutador para dar lugar a uma imagem mais simples e íntima, não condicionada pela finalidade social que na quase totalidade da sua obra, o movia irresistivelmente. Nas peças de lirismo religioso, mais do que em nenhumas outras, surge o lirismo subjectivo de Gil Vicente. 
Ó gloriosa Senhora do mundo,
excelsa Princesa do céu e da terra,
fermosa batalha de paz e de guerra,
da Santa Trindade secreto profundo!

O interesse pelas obras hieráticas vai-se esfumando no espírito do poeta. A sua atenção volta-se para o norte de África:
  • A farsa Quem tem farelos?;
  • A tragicomédia Exortação da Guerra.
Mas porque teria quebrado a sequência das suas obras religiosas e patrióticas com o Auto das Índias, em que o colonizador e propagador da fé nos surge transfigurado num assassino e ladrão, que chega ao reino triunfante e rico?
Ao trabalho honesto e produtivo sobrepunha-se a riqueza fácil. Aos cabedais adquiridos sobrevinha a ambição nobiliárquica. Da inércia ambiciosa manava a liberdade de costumes.

Cortesia de meloteca

Após a representação do Auto da Fama, Gil Vicente traça a definitiva linha de conduta no campo literário. Giza a acusação e o castigo dos crimes, com penas infernais na Trilogia das Barcas:
  • A Barca do Inferno;
  • A Barca do Purgatório;
  • A Barca da Glória.
A «cura» e o caminho para atingir a glória são ensinados no Auto da Alma. O que foi exposto traduz o lirismo subjectivo ou pessoal de Gil Vicente.

O lirismo em  Gil Vicente não é na maioria dos casos pessoal ou subjectivo, antes se compraz nos sentimentos íntimos das personagens por ele criadas ou imitadas. É o caso da célebre figura da Maria Parda, «porque viu as ruas de Lisboa com tão poucos ramos nas tabernas e o vinho tão caro, e ela não podia viver sem ele». Há cruel realidade nos lamentos da infeliz: 

Triste desdentada escura,
quem me trouxe a tais mazelas?
Oh! gengivas e arnelas,
deitai babas de secura;
carpi-vos, beiços coitados,
que já lá vão meus toucados,
e a cinta e a fraldilha;
ontem bebi a mantilha,
que me custou dous cruzados.

A cena da Comédia de Rubena, em que os pastorinhos, Pedrinho e Afonsinho, Cismena e Joane, discutem os seus haveres, naquela ingenuidade infantil de quererem ultrapassar o pequeno mundo de riquezas do seu antagonista, é relevante na sua simplicidade. A preocupação dos tipos colhidos da vida real, a amálgama entre os traços objectivos e subjectivos das suas personagens, dão permanente actualidade à obra de Gil Vicente.

Cortesia de teiaportuguesa

Cortesia de João de Almeida Lucas/Livraria Clássica Editora, 1943/JDACT 

domingo, 22 de agosto de 2010

Luís de Camões: Líricas, parte XI

Cortesia de planetanews

Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Quem presumir, Senhora, de louvar-vos
Com humano saber, e não divino,
Ficará de tamanha culpa dino
Quamanha ficais sendo em contemplar-vos.

Não pretenda ninguém de louvor dar-vos,
Por mais que raro seja, e peregrino:
Que vossa fermosura eu imagino
Que Deus a ele só quis comparar-vos.

Ditosa esta alma vossa, que quisestes
Em posse pôr de prenda tão subida,
Como, Senhora, foi a que me destes.

Melhor a guardarei que a própria vida;
Que, pois mercê tamanha me fizestes,
De mim será jamais nunca esquecida.
Luís de Camões

Posto me tem Fortuna em tal estado
Posto me tem Fortuna em tal estado,
E tanto a seus pés me tem rendido!
Não tenho que perder já, de perdido;
Não tenho que mudar já, de mudado.

Todo o bem pera mim é acabado;
Daqui dou o viver já por vivido;
Que, aonde o mal é tão conhecido,
Também o viver mais será escusado,

Se me basta querer, a morte quero,
Que bem outra esperança não convém;
E curarei um mal com outro mal.

E, pois do bem tão pouco bem espero,
Já que o mal este só remédio tem,
Não me culpem em querer remédio tal.
Luís de Camões


Cortesia de users.isr.ist.utl/JDACT

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Luís de Camões: Líricas, parte X.

Cortesia de fraternidaderosacruz

Quando me quer enganar

Quando me quer enganar
A minha bela perjura,
Pera mais me confirmar
O que quer certificar,
Pelos seus olhos mo jura.
Como meu contentamento
Todo se rege por eles,
Imagina o pensamento
Que se faz agravo a eles
Não crer tão grão juramento.

Porém, como em casos tais
Ando já visto e corrente,
Sem outros certos sinais,
Quanto me ela jura mais,
Tanto mais cuido que mente.
Então, vendo-lhe ofender
Uns tais olhos como aqueles,
Deixo-me antes tudo crer,
Só pela não constranger
A jurar falso por eles.

Luís de Camões

Cortesia de users.isr.ist.utl/JDACT

domingo, 20 de junho de 2010

Luís de Camões: Líricas, parte IX

Cortesia de eusouempreendedor
No mundo quis o Tempo que se achasse

No mundo quis o Tempo que se achasse
O bem que por acerto ou sorte vinha;
E, por exprimentar que dita tinha,
Quis que a Fortuna em mim se exprimentasse.

Mas por que meu destino me mostrasse
Que nem ter esperanças me convinha,
Nunca nesta tão longa vida minha
Cousa me deixou ver que desejasse.

Mudando andei costume, terra e estado,
Por ver se se mudava a sorte dura;
A vida pus nas mãos de um leve lenho.

Mas, segundo o que o Céu me tem mostrado,
Já sei que deste meu buscar ventura
Achado tenho já que não a tenho.
Luís de Camões

Cortesia de users.isr.ist.utl/JDACT

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Luís de Camões: Líricas, parte VIII

Cortesia de planetanews
Quando de minhas mágoas a comprida

Quando de minhas mágoas a comprida
Maginação os olhos me adormece,
Em sonhos aquela alma me aparece
Que pera mim foi sonho nesta vida.

Lá numa saudade, onde estendida
A vista pelo campo desfalece,
Corro pera ela; e ela então parece
Que mais de mim se alonga, compelida.

Brado: -- Não me fujais, sombra benina! --
Ela, os olhos em mim c'um brando pejo,
Como quem diz que já não pode ser,

Torna a fugir-me; e eu gritando: -- Dina...
Antes que diga: -- mene, acordo, e vejo
Que nem um breve engano posso ter.
Luís de Camões

Cortesia de users.isr.ist.utl/JDACT