Mostrar mensagens com a etiqueta Grande Guerra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Grande Guerra. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Linhagem de Ouro. Natasha Solomons. «Otto escutou em silêncio, observando com bastante suspeita a enorme barriga da baronesa a subir e a descer com a sua respiração»

jdact

«O estatuto de um homem podia ser medido pelo número de plantas decorativas que tinha nos seus canteiros, 10 000 se fosse um fidalgo rural, 20 000 se fosse um baronete, 30 000 se fosse um conde e 50 000 se fosse um duque; mas se fosse um Goldbaum, teria 60 000. Frase popular muito citada. 1911»

Viena. Abril
«O palácio dos Goldbaum era feito de pedra, não de ouro. As crianças que caminhavam pela Heugasse, com os seus casacos elegantemente apertados e de mão dada com a ama ou a Mutti, ficavam sempre desiludidas. Tinham-lhes prometido um palácio pertencente ao príncipe dos judeus, feito de ouro e marfim e supostamente cravejado de jóias e, em vez disso, ali estava uma casa enorme feita de pedra branca vulgar. Embora fosse da melhor pedra calcária de toda a Áustria, transportada dos Alpes até Viena numa linha ferroviária construída graças a um empréstimo do Banco Goldbaum, num comboio que era propriedade da Companhia Ferroviária Goldbaum, com as cores da família, azul e dourado, resplandecentemente pintadas, e adornado com o brasão da família: cinco pintassilgos a pousar num ramo de sicómoro. (Os mais espirituosos gostavam de descrever o brasão como os pássaros na árvore do dinheiro) No interior, o salão estava revestido de talha dourada desde o lambril até ao ponto mais alto da abóbada do tecto; assim, mesmo nos dias mais escuros, a luz que reflectia transbordava de sol. O poder e a riqueza dos Goldbaum era tal, dizia-se, que mesmo nos dias cinzentos eles contratavam o sol só para si.
De noite, luz eléctrica brilhava de todas as janelas e a casa reluzia como um transatlântico a atravessar as ruas de Viena. Por vezes, nas festas mais elegantes, centenas de pintassilgos eram soltos no sa1ão, esvoaçando com um trinar por cima dos convidados. (Os pássaros eram acompanhados de um contingente extraordinário de duas dezenas de criadas cuja única tarefa, nessa noite, era limpar os salpicos de excrementos de pássaro assim que tocavam no chão de mármore; até o poder dos Goldbaum, aparentemente, tinha limites) Ainda assim, quase nada acontecia na capital, e para além dela, sem o seu consentimento, e menos ainda sem o seu conhecimento. O próprio imperador desprezava e suportava os Goldbaum como quem suporta o mau tempo. Não havia nada a fazer. Eles controlavam a dívida do imperador.
O palácio da Heugasse era apenas a expressão da sua influência. A verdadeira origem da sua fortuna era um edifício pequeno e discreto na Ringstrasse. Por trás da porta negra ficava a Casa do Ouro: o ramo austríaco do banco da família. Os homens Goldbaum eram banqueiros, e as mulheres Goldbaum casavam com homens Goldbaum e produziam crianças Goldbaum. Contudo, a família não se considerava apenas uma dinastia de banqueiros, mas também uma família de coleccionadores.
Os Goldbaum gostavam de coleccionar coisas belas: elegante mobiliário Luís XIV quadros de Rembrandt, da Vinci e Vermeer, e ainda os grandes solares, châteaux e castelos para os guardar. Coleccionavam jóias, ovos Fabergé, automóveis, cavalos de corrida, e as obrigações financeiras de primeiros-ministros. Greta Goldbaum seguia esta tradição familiar. Ela coleccionava sarilhos. Era a característica que Otto Goldbaum mais apreciava na irmã. Antes de Greta nascer, a mãe tinha visitado um dos quartos do filho, sentara se inquieta numa cadeira destinada especialmente a explicar, com a ajuda da ama favorita de Otto, que dentro de algumas semanas ele teria um novo irmãozinho ou uma nova irmãzinha. Beberam chocolate quente de um serviço de chá em miniatura, de porcelana e adornado com o brasão de família em ouro de 24 quilates, e comeram pequenas fatias de Sachertorte com cobertura azul e rosa, encomendada especialmente do grande hotel.
Otto escutou em silêncio, observando com bastante suspeita a enorme barriga da baronesa a subir e a descer com a sua respiração. E contudo, quando Greta apareceu num dos quartos das crianças, quatro semanas mais tarde, acompanhada do seu próprio contingente de amas de bata engomada, não se sentiu nada incomodado. Pela primeira vez nos seus três anos de vida, Otto tinha um aliado. Não havia dúvida de que Greta parecia pertencer-lhe mais a ele do que aos pais, que viviam no andar de baixo. A baronesa era considerada uma mãe extremosa por ir visitar o novo bebé quase todos os dias e por Otto ser convocado para almoçar com o barão e a baronesa pelo menos duas vezes por semana. Ouvia a irmã a chorar e a balbuciar através da parede e, quando as enfermeiras dormiam, entrava discretamente no quarto dela e deitava-se no chão. Fazia-o tantas vezes que as enfermeiras finalmente desistiram de lhe ralhar ou de o levar ao colo para a sua cama e acabaram por instalar uma caminha para Otto ao lado do berço da bebé». In Natasha Solomons, Linhagem de Ouro, 2018, Bertrand Editora, 2019, ISBN 978-972-253-717-9.

Cortesia de BertrandE/JDACT

sábado, 1 de abril de 2017

Moscas nos Olhos. Luísa Beltrão. «Contei-lhes que tinha um cunhado e uma irmã na guerra e foi um sucesso. Não calculas como me senti orgulhosa! Todas a olharem para mim, cheias de inveja»

jdact

«(…) Além de descrever os preparativos para a festa da Ritinha, contava que o Manuel a enchia de mimos, a si e à filha, […] sinto-me muito feliz, minha querida Filippa! Só me pesa a tua ausência e o medo de que vos aconteça alguma coisa má. Tenho-me esquecido de te contar que em meados de Julho entrei numa Comissão Feminina para dar apoio aos soldados. Fazemos imensos cachecóis, barretes, luvas e mantinhas para os proteger do frio horrível que aí faz, como tens mandado dizer. Contei-lhes que tinha um cunhado e uma irmã na guerra e foi um sucesso. Não calculas como me senti orgulhosa! Todas a olharem para mim, cheias de inveja [...].
Quase no fim, referia a queda do avô, tinha sido preciso colocar-lhe gesso no pé, mas não era grave, […] acho-o cada vez mais zangado, cada vez mais sozinho la na quinta, coitado. Ninguém pode falar de ti à sua frente. O Zezinho, que está muito ligado a ele, como tu sabes, no fim-de-semana passado disse-lhe que tinha saudades da maman mesmo que o avô não quisesse, e o avô abraçou-o. Acho que quando voltares ele te perdoará imediatamente porque lhe fazes muita falta.
Filippa deixou as lágrimas correr, a mágoa que causara ao avô, velho e sozinho, ela, a neta tão amada. Abriu a carta da mãe e sorriu por entre as lágrimas, o estilo e o conteúdo contrastavam em absoluto com os da irmã. Queixava-se das revoluções que a impediam de sair à rua, das greves insuportáveis, dos dias tumultuosos que traziam sempre alguma notícia desagradável, como era possível viver-se assim, com a Europa em guerra e tantos portugueses a combaterem?, como era possível andarem a atacar-se uns aos outros?, republicanos, claro, como não podia deixar de ser, gentinha sem classe, davam cabo da vida das pessoas. De repente, Filippa deixou de sorrir quando o assunto se desviou para o neto mais velho, o Sébastien (vulgo Tião) estava insuportável, já não tinha idade para as birras infernais, impertinente e mal-educado, valia a paciência inesgotável de Maria Joana, ainsi que ton beau-frère. Manuel est une trouvaille, tellement compréhensif et bon vivantl! (tal como o teu cunhado, Manuel é um achado, tão compreensível e bem-disposto!). A irmã omitira qualquer referência a esta questão, omitia quanto podia os aspectos negativos. Filippa pousou a carta e pensou no menino de oito anos, abandonado pelos pais, sem saber se voltaria a vê-los, o menino que não era mau, apenas infeliz. Como de costume, a mãe invertera os papéis, transformara a vítima em algoz.
Apesar de se encontrar próxima do Nordeste francês, onde se combatia ferozmente, Amiens fora o destino fixado para Filippa, porque ali viviam uns primos de Eugénie que lhe tinham assegurado um apoio incondicional, adoramos conhecer a nossa priminha, acalmando os medos de Miguel. Como combinado, o tio Louis François fora-a buscar à estação de Montparnasse. És muito bonita, minha sobrinha. Parece surpreendido, meu tio, murmurou ela no desábito de elogios. Foi um encontro carinhoso, ela ávida de saber coisas sobre a mãe, ele ávido de saber coisas sobre a irmã, e no caminho para Amiens, onde Miguel os esperava, Filippa descobriu Eugénie Françoise d’Oriol Bourbon Nevers, quarta filha dos senhores de Corbigny, família antiga de Beaune, na Borgonha». In Luísa Beltrão, Moscas nos Olhos, Filippa na Grande Guerra, Edição Glaciar, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-877-600-6.

Cortesia EGlaciar/JDACT

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Moscas nos Olhos. Luísa Beltrão. «Miguel abençoava a ideia de a ter ali, duas vezes por semana, a abraçá-la, a amá-la, a sua doce Filippa, limpa, macia e, embora vergonhoso, a permitir-lhe aliviar-se do desejo»

jdact

«(…) O marido dormia enrolado num cobertor, depois de se ter lavado, a primeira coisa que fazia ao chegar da frente era esfregar-se todo a diluir o cheiro pestilento das trincheiras, não queria que Filippa o visse coberto daquele cheiro infecto, Filippa já o cheirara em tantos corpos, porque não no dele? Olhou-o com uma tristeza terna, o seu marido Miguel, o belo oficial venerador da honra e da disciplina que a levara ao altar, o pai dos seus filhos, aprisionado nesta teia destrutiva que nada tinha a ver com ele. Sentiu alívio por não ter que se sujeitar, como de costume, ao seu desejo tirânico, ali, de imediato, quase sem falarem. Mas logo sentiu culpa pelo alívio, pobre gladiador exaurido, mudámos os dois, no corpo e na alma. Ao longo de oito anos de casados, nunca Miguel dera sinais de volúpia, sempre comedido, executando os deveres conjugais com o cuidado respeitoso da castidade cristã, como era possível transformar-se de súbito num amante brutal e opressivo que a assustara no princípio e continuava a incomodá-la, embora o tolerasse como uma doença de guerra? Saciado, vinha-lhe a vergonha, pedia desculpa, sou um bruto, desculpa, regressando ao senhor cortês, de bigode à Kaiser.
Que estranho o bigode à Kaiser manter-se viçoso, disse em voz alta. De três em três dias, a não ser que houvesse algum contratempo, e havia-os com frequência, Miguel vinha passar a noite com ela, privilégio de oficial a combater na frente, tal como o posto de capitão lhe facultava um carro para transpor os quarenta quilómetros que separavam Arras de Neuve Chapelle, onde ele exercia a guerra. De início, o marido recusara a sugestão de Filippa ficar em Arras, demasiado próxima da frente de batalha, os alemães estão a 10 quilómetros, é uma loucura! Aí que te enganas, objectara o tio Louis François. Agora, quase três meses passados sobre a decisão, Miguel abençoava a ideia de a ter ali, duas vezes por semana, a abraçá-la, a amá-la, a sua doce Filippa, limpa, macia e, embora vergonhoso, a permitir-lhe aliviar-se do desejo, o quarto da casa de madame Seignier tornara-se um paraíso sonhado nas longas horas de espera nas trincheiras.
Pequenina e seca, madame Seignier usava o carrapito grisalho e o xaile preto dos lutos, o luto do marido na Bélgica, dia 30 de Agosto de 1914, logo no começo,
e a seguir, a 11 de Outubro, o luto da filha Ivette, do genro e do neto, mortos nos bombardeamentos de Lille, ocupada desde então pelos alemães, tantos lutos que nem dava para chorá-los. Os dois filhos homens combatiam na frente do Meuse e, num silêncio vazio, madame Seignier ia cumprindo as tarefas domésticas.
Só então reparou nas duas cartas colocadas na mesa do meio, notícias, ia ter notícias, o alvoroço afastou-lhe o cansaço. Uma era da mãe e a outra da irmã. Abriu primeiro esta, Maria Joana escrevia-lhe longas missivas carregadas de superlativos, como era de seu feitio, e narrava pequenas ocorrências que a enchiam de prazer, [...] o Tião já lê o jornal e sabe imenso da guerra, um dia destes escreve-te uma carta pela mão dele. O Zezinho tem uma paixão pelo pónei que o avô lhe deu pelos anos! Tem sido difícil convencê-lo que não pode trazê-lo para Lisboa. Dorme com a fotografia debaixo da almofada. Têm tantas saudades vossas, coitadinhos. É tão diferente educar rapazes e meninas! Mas cá me vou arranjando com a ajuda da Maman». In Luísa Beltrão, Moscas nos Olhos, Filippa na Grande Guerra, Edição Glaciar, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-877-600-6.

Cortesia EGlaciar/JDACT

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Moscas nos Olhos. Luísa Beltrão. «Filippa foi buscar a biciclette e saiu do hospital para a escuridão da noite. Apesar da peliça grossa, o frio penetrou-lhe no corpo como se estivesse nua, que saudades do sol e do calor, odiava aquele clima horrível»

jdact

Filippa na Grande Guerra
21 de Setembro de 1917
«Corria ofegante na aflição de chegar, sem saber aonde, perdida nos subterrâneos, nas encruzilhadas a abrirem-se à sua frente, vertiginosas, cada vez mais perdida, cada vez mais ofegante, tinha de chegar, tinha de chegar, um choque brusco abalou as paredes, outro bombardeamento, a chuva de caliça caía-lhe na cabeça, tenho de chegar, estão à minha espera... - Filippa! Fil! Filippa! Os abanões de Grace libertavam-na do pesadelo do costume nos túneis do Boves. Não tinhas de sair, Fil? São quase sete horas. Filippa levantou-se, ainda com a angústia colada à pele, lavou a cara na bacia de loiça, ao canto da sala, e só depois sorriu à amiga: Santo Deus, adormeci. Estava tão cansada que adormeci. O Miguel deve estar aflito com a demora. Vai, que eu assino a folha. Obediente, Filippa foi buscar a biciclette e saiu do hospital para a escuridão da noite. Apesar da peliça grossa, o frio penetrou-lhe no corpo como se estivesse nua, que saudades do sol e do calor, odiava aquele clima horrível, Setembro em Portugal era suave; aqui, a chuva e a humidade invadiam tudo, contaminavam tudo, esfacelavam tudo, como uma lula monstruosa, e aquele matraquear contínuo das armas ao longe que se calava às vezes dando lugar ao silêncio tumular, que saudades da paz. Respirou fundo e procurou um pensamento alegre para o marido, tal como fazia ao começar o trabalho junto dos doentes, o sorriso era um bálsamo, um bálsamo precioso naqueles lugares onde se sorria tão pouco. E o pensamento alegre surgiu-lhe na imagem da adorável sobrinha Maria Rita, de caracóis ruivos, 21 de Setembro, dia dos seus 3 anos, como devem estar contentes a festejar na quinta, será que fizeram a festa na quinta? Claro, o avô exigira. Que sorte estarem lá todos, mesmo que haja zanga, podem dar-se ao luxo de se zangarem, não correm o risco de morrer amanhã. Afluíram-lhe rugosas as saudades dos filhos, que má mãe lhes saíra na rifa, deixá-los por uma guerra que não era sua, uma guerra de morte, de podridão e lama, os filhos eram a vida, se conseguir voltar, volto estéril como os campos de batalha. Pedalava com perícia, adorava a sua biciclette, Brigitte ensinara-a e ela aprendera com facilidade surpreendente, abençoada farda que lhe permitia movimentar as pernas, a liberdade de movimentar as pernas era uma delícia, a liberdade do corpo era uma delícia, o que ela tinha mudado nestes meses, que sorte ter encontrado amigas tão sábias e já veteranas, que sorte teres chegado só agora, diria Grace. Apesar do negrume da noite, circulava segura pelo chão escorregadio das ruas, de tantas vezes fazer aquele caminho sabia-o de cor, conhecia as ruínas, as enormes crateras na calçada, habituara-se à mobilidade no escuro, a guerra obrigava a estar-se no mundo de um modo diferente, ou era o próprio mundo que se tornara outro?, o perigo vindo do céu, das entranhas da terra, do mar, o perigo vindo de todos os lados, ela aprendera a mover-se sem barulho por entre os perigos; ao contrário do pesadelo, não se perdia nos túneis e muito menos nas ruelas da vila». In Luísa Beltrão, Moscas nos Olhos, Filippa na Grande Guerra, Edição Glaciar, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-877-600-6.

Cortesia EGlaciar/JDACT