sexta-feira, 8 de maio de 2015

Moscas nos Olhos. Luísa Beltrão. «Filippa foi buscar a biciclette e saiu do hospital para a escuridão da noite. Apesar da peliça grossa, o frio penetrou-lhe no corpo como se estivesse nua, que saudades do sol e do calor, odiava aquele clima horrível»

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Filippa na Grande Guerra
21 de Setembro de 1917
«Corria ofegante na aflição de chegar, sem saber aonde, perdida nos subterrâneos, nas encruzilhadas a abrirem-se à sua frente, vertiginosas, cada vez mais perdida, cada vez mais ofegante, tinha de chegar, tinha de chegar, um choque brusco abalou as paredes, outro bombardeamento, a chuva de caliça caía-lhe na cabeça, tenho de chegar, estão à minha espera... - Filippa! Fil! Filippa! Os abanões de Grace libertavam-na do pesadelo do costume nos túneis do Boves. Não tinhas de sair, Fil? São quase sete horas. Filippa levantou-se, ainda com a angústia colada à pele, lavou a cara na bacia de loiça, ao canto da sala, e só depois sorriu à amiga: Santo Deus, adormeci. Estava tão cansada que adormeci. O Miguel deve estar aflito com a demora. Vai, que eu assino a folha. Obediente, Filippa foi buscar a biciclette e saiu do hospital para a escuridão da noite. Apesar da peliça grossa, o frio penetrou-lhe no corpo como se estivesse nua, que saudades do sol e do calor, odiava aquele clima horrível, Setembro em Portugal era suave; aqui, a chuva e a humidade invadiam tudo, contaminavam tudo, esfacelavam tudo, como uma lula monstruosa, e aquele matraquear contínuo das armas ao longe que se calava às vezes dando lugar ao silêncio tumular, que saudades da paz. Respirou fundo e procurou um pensamento alegre para o marido, tal como fazia ao começar o trabalho junto dos doentes, o sorriso era um bálsamo, um bálsamo precioso naqueles lugares onde se sorria tão pouco. E o pensamento alegre surgiu-lhe na imagem da adorável sobrinha Maria Rita, de caracóis ruivos, 21 de Setembro, dia dos seus 3 anos, como devem estar contentes a festejar na quinta, será que fizeram a festa na quinta? Claro, o avô exigira. Que sorte estarem lá todos, mesmo que haja zanga, podem dar-se ao luxo de se zangarem, não correm o risco de morrer amanhã. Afluíram-lhe rugosas as saudades dos filhos, que má mãe lhes saíra na rifa, deixá-los por uma guerra que não era sua, uma guerra de morte, de podridão e lama, os filhos eram a vida, se conseguir voltar, volto estéril como os campos de batalha. Pedalava com perícia, adorava a sua biciclette, Brigitte ensinara-a e ela aprendera com facilidade surpreendente, abençoada farda que lhe permitia movimentar as pernas, a liberdade de movimentar as pernas era uma delícia, a liberdade do corpo era uma delícia, o que ela tinha mudado nestes meses, que sorte ter encontrado amigas tão sábias e já veteranas, que sorte teres chegado só agora, diria Grace. Apesar do negrume da noite, circulava segura pelo chão escorregadio das ruas, de tantas vezes fazer aquele caminho sabia-o de cor, conhecia as ruínas, as enormes crateras na calçada, habituara-se à mobilidade no escuro, a guerra obrigava a estar-se no mundo de um modo diferente, ou era o próprio mundo que se tornara outro?, o perigo vindo do céu, das entranhas da terra, do mar, o perigo vindo de todos os lados, ela aprendera a mover-se sem barulho por entre os perigos; ao contrário do pesadelo, não se perdia nos túneis e muito menos nas ruelas da vila». In Luísa Beltrão, Moscas nos Olhos, Filippa na Grande Guerra, Edição Glaciar, Lisboa, 2014, ISBN 978-989-877-600-6.

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