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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «O vaticano vendeu terra suficiente a preços elevados para permitir aos italianos construir quinze estádios e concluir as obras no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci em Fiumicino»

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«(…) Ninguém além de Tisserant parecia demasiado preocupado com a destruição por Pascalina de milhares de páginas de documentos pessoais de Pio. Ao invés, todos se voltavam para Roncalli. Não é papa nenhum, disse o desbocado Spellman a alguns colegas quando regressava de Nova Iorque. Devia vender bananas. Spellman não conseguiu ver em Roncalli o talento necessário para ser um grande soberano. O cardeal de Nova Iorque e outros tradicionalistas acreditavam que os católicos comuns desejavam um papado régio. O pontificado de Pio coincidiu com o zénite desse poder absoluto. Roncalli poria fim à maior parte das marcas do papado imperial, acabando com elementos como a coroação de cinco horas e a exigência de que os católicos ajoelhassem diante de si e de que os seus auxiliares guardassem silêncio na sua presença. Os que apreciavam a nova simplicidade referiam-se à mudança dramática de estilo como desestalinização do Vaticano. Mas um Nobre Negro ecoou a opinião daqueles que consideravam que as reformas retiravam dignidade ao cargo. Parece que o papa tenta introduzir na Igreja um pouco da democracia que se tem revelado tão desastrosa em toda a parte. O cardeal Siri de Génova, o principal candidato tradicionalista no conclave, e Spellman também se mostravam preocupados por verem que o aprazível Roncalli não partilhava a sua paixão de combatentes na Guerra Fria. A CIA tinha as mesmas preocupações, concluindo que o papa João era politicamente ingénuo e indevidamente influenciado pelo punhado de clérigos liberais com quem se mantinha em contacto próximo. O novo papa acreditava que a Igreja deveria manter-se distante da política secular. Foi uma mudança dramática depois de Pio XII ter desempenhado um papel crucial nas eleições italianas de 1948, permitindo à Acção Católica a mobilização de votos e chegando mesmo a ocupar-se pessoalmente de iniciativas como o transporte em autocarro de freiras no dia da votação, dos conventos até às mesas de voto. João XXIII, ao invés, afastou a Igreja da sua parceria íntima com os democratas-cristãos. O novo pontífice não via o comunismo como uma ameaça mortal. Spellman e Siri recearam que um papel passivo da Igreja criasse uma oportunidade para o aumento do poder da esquerda. Mas, antes de haver alguma oportunidade de testar as credenciais de João XXIII como combatente na Guerra Fria, a 15 de Novembro, meros onze dias após a coroação, Bernardino Nogara morreu de colapso cardíaco aos oitenta e oito anos de idade. A notícia do seu falecimento acabou por se perder no rescaldo da eleição de um novo papa, merecendo apenas algumas linhas num punhado de jornais. Mas a morte de Nogara acabou por ser um momento fulcral para Maillardoz, Spada e Mennini, que tinham passado a gerir as finanças da Igreja segundo o modelo que criara. Mostraram-se apreensivos com a eleição de Roncalli. A especulação grassava acerca da possibilidade de o novo papa nomear apoiantes leais para posições de relevo, não ajudava que, quando questionado sobre o número de pessoas que trabalhavam na Cúria, o novo papa tivesse respondido: cerca de metade.
Apenas três meses após tomar posse, João XXIII chocou o mundo ao convocar o segundo Concílio Vaticano nos dois mil anos de História da Igreja. Todos os seus cardeais, prelados e dois mil e quinhentos bispos tiveram de rumar a Roma para participar em discussões amplas acerca da possível mudança de tudo, incluindo a liturgia, a forma de selecção dos bispos e a redução do poder da Cúria. Mesmo que não começasse até ao ano seguinte, confirmou o receio de Spellman, Siri e outros de que o aprazível João fosse, no mínimo, imprevisível. Mas, para alívio de Maillardoz, Spada e Mennini, o novo papa não interferiu com o IOR nem com a Administração Especial. Os vaticanologistas interpretaram a elevação de di Jorio a cardeal como apoio da sua gestão do IOR. Até os sobrinhos de Pio mantiveram os seus postos. Em contraste profundo com Pio, o papa João não tinha reputação de pretender gerir a instituição a que presidia até aos mais ínfimos pormenores. Durante o tempo que passou como cardeal de Veneza, tornou-se conhecido como um supervisor calmo e descontraído que sentia aversão pela administração, permitindo que assistentes capazes se ocupassem da burocracia da diocese. Não se sentia confortável com finanças ou até discutindo dinheiro. Maillardoz, Spada e Mennini estavam por sua conta.
Um dos primeiros passos que deram foi o reforço das reservas do IOR aproveitando a necessidade de terras do governo italiano para organizar os Jogos Olímpicos de 1960. venderam algumas das propriedades romanas da Igreja ao Comité Olímpico Italiano. A Igreja detinha mais de novecentos e quarenta milhões de hectares de propriedade à volta de Roma, tornando-a não só o maior proprietário de terras depois do governo, mas também o único Estado soberano do planeta cujo território era mais amplo fora das suas fronteiras. O vaticano vendeu terra suficiente a preços elevados para permitir aos italianos construir quinze estádios e concluir as obras no Aeroporto Internacional Leonardo da Vinci em Fiumicino. A esquerda política criticou os preços demasiados elevados. Por isso, quando o governo precisou de mais terra para construir a Autoestrada Olímpica que ligaria os complexos desportivos distantes, o Vaticano voltou a lucrar, usando dessa vez uma empresa de fachada para providenciar as propriedades necessárias. Mas os sucessores de Nogara não tinham ilusões. Perceberam que os ganhos volumosos com os preparativos frenéticos dos Jogos Olímpicos eram um evento isolado. Teriam de aplicar os princípios de Nogara acerca da acumulação regular de lucros através de investimentos cautelosos. Acolheram a crença de Bernardino de que o futuro das finanças do Vaticano residia nos homens de confiança. Essa decisão levaria a criação bem-sucedida de Nogara ao limiar da ruína, maculando durante o processo o próprio Vaticano». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «Mesmo que ninguém tivesse percebido o significado do facto, assumia o papado durante os primeiros anos da televisão. Seria o primeiro papa visto por dezenas de milhões de fiéis»

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«(…) O bispo de Bérgamo escolheu-o como secretário pessoal durante um período de dez anos, interrompido quando Roncalli foi recrutado como capelão do exército italiano durante a I Guerra Mundial. Em 1925, Pio XI nomeara-o arcebispo e recebeu a primeira das suas incumbências: partir para a Turquia como núncio papal. Seguiram-se a Grécia e França (em 1944, Roncalli recebeu um telegrama codificado em Istambul, informando-o da sua nomeação como núncio papal de Paris libertada; incrédulo, partiu para Roma; reuniu com o monsenhor Tardini na sede da Secretaria de Estado; enlouqueceu?, perguntou; como lhe ocorreu pedir-me que aceite um posto tão difícil?; o normalmente volúvel Tardini olhou-o em silêncio por um momento antes de responder; pode ter a certeza que a surpresa de todos nós aqui foi maior que a sua). No que dizia respeito à II Guerra Mundial e à questão do Holocausto, foi diferente do seu predecessor. Roncalli tinha insistido tão frequentemente com o secretário de Estado Maglione para que convencesse o papa a pronunciar-se acerca das atrocidades nazis que Maglione se queixara da sua persistência aos seus colegas em Roma. Em 1944, Franz von Papen, embaixador alemão na Turquia, abordou Roncalli, que era então o núncio papal em Istambul. Disse-lhe que, se o papa condenasse Hitler, um grupo de patriotas alemães negociaria uma trégua com os Aliados. Quando o núncio transmitiu a proposta de von Papen ao Vaticano, Pio e Maglione retiraram-lhe importância, acreditando que Roncalli era simplório e facilmente manipulado pelos alemães, que poderiam preparar uma armadilha ao papa.
O momento da verdade chegou no fim da Primavera de 1944. Roncalli foi o primeiro alto representante da Igreja a receber uma cópia do Protocolo de Auschwitz, relatório arrepiante de Maio elaborado por dois judeus eslovacos que tinham fugido do campo de extermínio. O documento deixava poucas dúvidas acerca da preparação pelos nazis do seu maior campo de morte para receber os judeus húngaros. Enviou-o por mala diplomática para o Vaticano. Quando Ira Hirschmann, o representante da Comissão de Refugiados de Guerra abordou Roncalli nesse Verão, os nazis tinham já iniciado as deportações em massa de húngaros. Roncalli perguntou a Hirschmann se os judeus húngaros aceitariam ser baptizados apenas para salvar as suas vidas..., não realmente para se converterem, compreende. Hirschmann disse que sim. Duas semanas mais tarde, Roncalli confirmou que enviara milhares de certificados de baptismo ao núncio papal em Budapeste. Esse acto simples salvou mais judeus num par de meses do que a hesitação de Pio durante os seis anos da guerra. Quando Pio XII o nomeou finalmente cardeal em 1953, a maioria considerara que o chapéu vermelho era um prémio pela longevidade e lealdade, não significando qualquer distinção pela sua carreira. Ao contrário de Montini ou Siri, Roncalli não tinha apoiantes de peso na cúria e não formara quaisquer alianças que promovessem a sua candidatura. Ninguém o via como predestinado para o trono papal. O que se destacara durante a sua carreira fora a reputação de simpatia. Onde quer que servisse, o jucundo e bonacheirão Roncalli tornava-se popular junto aos católicos comuns. Mesmo que ninguém tivesse percebido o significado do facto, assumia o papado durante os primeiros anos da televisão. Seria o primeiro papa visto por dezenas de milhões de fiéis através dos seus televisores. Era o meio de comunicação que mais se adequava à sua personalidade.
Mesmo que Roncalli tivesse conseguido reunir os votos necessários para ser eleito papa, havia quem questionasse a sua capacidade de liderança da Igreja. A irmã Pascalina afirmava que não era digno de suceder a Pio. O novo papa respondeu no dia após a sua eleição proibindo-a de entrar nos aposentos que lhe tinham sido atribuídos, anexos aos seus. Foi-lhe dito que deveria deixar o Vaticano. Antes da sua partida, um inimigo de longa data na cúria, o cardeal Tisserant, confrontou-a e exigiu saber porque tinha queimado três caixas repletas de documentos pertencentes a Pio XII. O santo Padre ordenou que fosse tudo queimado e assim foi. Alguns dos documentos eram rascunhos de discursos que tinha escrito durante as suas duas décadas como papa. Mas desconhecia o conteúdo e não se considerou autorizada a ler. Tisserant ficou furioso. Sabemos isso melhor do que ninguém, mas foi uma ordem do santo Padre, que considerámos sacrossanto durante toda a sua vida, não deixando de o ser após a morte». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «Nas primeiras vinte e quatro horas do seu papado, Roncalli demonstrou que não pretendia ser um mero gestor. No final do conclave, entregou o chapéu vermelho a monsenhor Alberto di Jorio o prelado responsável pelo IOR»

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Não é papa nenhum
«(…) Pio passou a dizer estar pronto para ir para o Céu. Os jornais italianos reforçavam a sensação de que algo não estava bem quando noticiaram as alegadas alucinações descritas pelo papa. Numa delas, via uma réplica do movimento giratório do Sol em Fátima e, noutra, Jesus surgiu-lhe no quarto para assegurar que o seu pontificado não tinha ainda chegado ao fim. Foi a primeira vez em mil anos que um papa afirmava ter visto o Filho de Deus. Alguns cépticos consideraram que, ao afirmar ter tido visões divinas, Pio fazia campanha pela sua canonização póstuma. Outros consideravam que seriam efeitos da doença e da idade avançada. Os leigos que herdaram o IOR e a Administração Especial afastaram-se de quaisquer rumores de bastidores acerca do papa. Sabiam que, independentemente do estado de saúde de Pio, a sua idade avançada significava que seria apenas uma questão de tempo até haver um novo papa. Porque a maioria nunca tinha trabalhado sob outro pontífice, essa possibilidade era suficiente para gerar uma angústia considerável. Apesar da especulação acerca da saúde de Pio, muitos elementos bem colocados manifestaram-se, mesmo assim, surpreendidos e entristecidos quando souberam que o papa sofrera um enfarte catastrófico no dia 6 de Outubro de 1958. Apesar das suas limitações e peculiaridades, liderara a igreja através de tempos difíceis. Durante o seu pontificado de dezanove anos, promovera o papado como posição de poder centralizado e inquestionável, um monarca divino que fazia recordar os papas mais arrojados de gerações anteriores. Três dias após o enfarte, o pontífice morria, vitimado por algo que o Vaticano descreveu como um fenómeno circulatório.
O conclave que começou a reunir-se era diferente do que tinha eleito Pio em 1939. Pacelli fora então o principal favorito. A eleição que o tornara papa foi a mais rápida em trezentos anos. Depois da sua morte, não havia favoritos. E, para grande consternação no Vaticano, a imprensa especulava pela primeira vez acerca do conclave como se fosse uma eleição secular. O próprio Spellman era referido como candidato destacado. Não tinha qualquer hipótese. Tinha demasiados inimigos na Cúria, que criaram o termo spellmanismo para referirem uma condição em que alguém tinha um ego demasiado grande e uma ambição demasiado evidente. Depois do início do conclave, os oitenta cardeais, vinte e nove dos quais eram italianos, dividiram-se por campos ideológicos. Os sucessores de Pio eram os conservadores, fortemente anticomunistas e autoritários, que acreditavam num papado todo-poderoso. Reuniam-se em torno de Giuseppe Siri, cardeal de Génova, o prelado em cuja arquidiocese o padre croata Draganovic gerira uma das suas rotas de fuga de criminosos de guerra do seu país. Os progressistas queriam reduzir o papel activo da Igreja na Guerra Fria e aceitariam algumas reformas modernistas. Estavam divididos entre viários candidatos, com o cardeal de Bolonha Giacomo Lercaro, parecendo deter uma vantagem momentânea.
A divisão entre cardeais tornou-se evidente para as multidões que enchiam a Praça de São Pedro. Durante três dias, fumo negro indicando que o papa não fora eleito saiu dez vezes da chaminé erigida sobre a sua sala de reuniões. O fumo branco seguiu-se à décima primeira votação. O compromisso do conclave divisão? O patriarca de Veneza, Angelo Roncalli, a um mês de completar o seu septuagésimo sétimo aniversário. Há mais de duzentos anos que não era eleito um papa acima dos setenta anos. Tinham-se reunido à sua volta como gestor de curto prazo. Afável e anafado, Roncalli era a antítese do seu antecessor reservado e esquivo. Apesar de não ter integrado quaisquer listas de favoritos, acreditava pessoalmente ser um candidato de peso. Quando a sua eleição foi anunciada para o exterior do conclave, retirou do bolso das suas vestes um longo discurso de aceitação que tinha escrito em latim. Quanto ao seu nome papal surpreendeu os colegas anunciando sem hesitar que seria João, um nome que todos os papas tinham evitado porque o ultimo João fora um antipapa fraturante em 1410 (Roncalli apreciava o nome por ser o da igreja paroquial em que fora batizado).
Nas primeiras vinte e quatro horas do seu papado, Roncalli demonstrou que não pretendia ser um mero gestor. No final do conclave, entregou o chapéu vermelho a monsenhor Alberto di Jorio o prelado responsável pelo IOR. Di Jorio fora o secretário do conclave e, elevando-o à dignidade de cardeal, Roncalli retomava a prática abandonada pelos dois papas anteriores. Acabando de colocar as vestes papais, anunciou que monsenhor Domenico Tardini seria o seu secretário de Estado, ocupando uma posição que Pio deixara vazia durante catorze anos. Roncalli era o terceiro de treze filhos, o rapaz mais velho, de uma família camponesa pobre da aldeia de Sotto Il Monte no Norte de Itália. Os seus pais tinham-no matriculado num seminário local quando tinha apenas onze anos. Um padre trazia algum prestígio às famílias. Era também uma boca a menos para alimentar. Aos dezanove anos, obteve uma bolsa para estudar na Accademia dei Nobili de Roma, um seminário que funcionava como centro de recrutamento da Cúria». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «Os vaticanologistas começaram a debater a sua saúde. Ricardo Galeazzi-Lisi, um oftalmologista, era o médico principal de Pio desde 1939. Fora o médico a quem Pio confiara o exame dos ossos de São Pedro»



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Não é papa nenhum
«(…) Apesar da idade avançada e da promessa de reduzir a sua carga laboral, Nogara continuava a ser administrador ou director administrativo numa dúzia das maiores empresas italianas. E, quando foi desafiado no interior da Cúria por outros homens de poder, demonstrou saber proteger o seu terreno. Em 1953, chocou com monsenhor Giovanni Battista Montini, que Pio nomeara pouco antes co-secretário de Estado. Tinham-se enfrentado mutuamente desde a guerra. Montini defendera que Pio levasse o Banco do Vaticano, a única fonte acessível de moeda estrangeira, a auxiliar o seu programa de refugiados. Bernardino não apreciava o papel passivo desempenhado pelo IOR nos programas que não controlava por completo. Décadas depois, o que fora uma inimizade contida tornara-se algo declarado. Montini queixava-se a colegas de que tinha sido um erro permitir que um leigo, mesmo que fosse um leigo talentoso, alcançasse tanto poder. E perguntava porque Nogara não se concentrava exclusivamente no IOR e na sua Administração Especial em vez de se intrometer na Cúria. O monsenhor afirmou também que o estatuto crescente dos sobrinhos de Pio sob patrocínio de Nogara, tresandava a nepotismo. Nogara e outros, sobretudo a irmã Pascalina, que não apreciavam Montini, justificaram-se directamente a Pio. Num consistório de 1953, o papa nomeou vinte e um novos cardeais. Montini estava em todas as listas. Mas Pio chocou os vaticanologistas não lhe atribuindo o chapéu vermelho.
E, no ano seguinte, o papa sanou o diferendo galopante entre Montini e Nogara nomeando o primeiro arcebispo e enviando-o para gerir Milão. Porque Milão era a maior arquidiocese italiana, era tradicionalmente administrada por um cardeal. A mensagem era clara. O papa de setenta e oito anos assegurara que Montini não poderia ser o seu sucessor. Em 1954, o mesmo ano em que Montini foi enviado para Milão, Nogara escolheu Henri de Maillardoz como Delegato do IOR. Era a posição que Nogara detivera sozinho desde a fundação do banco em 1942. Maillardoz, que tinha no seu currículo privado a gestão do portefólio industrial do Credit Suisse, sentia-se confortável no seu novo papel. Bernardino permaneceu no Vaticano durante a transição. Foram precisos dois anos, até 1956, para que Nogara sentisse que a sua equipa escolhida a dedo estava pronta para seguir em frente. Aposentou-se aos oitenta e seis anos, mas recordou aos seus colegas que vivia numa casa próxima pertencente ao Vaticano e teria todo o gosto em aconselhá-los. Durante os vinte e sete anos do seu mandato, Nogara revolucionou o mundo das finanças do Vaticano. Com o apoio total de dois papas, derrotara com sucesso os tradicionalistas fervorosos da Cúria e transformou a Igreja de uma instituição financeira primitiva numa holding internacional capaz e com um banco central próprio. Quando se afastou, as discussões intensas sobre a possibilidade de a Bíblia permitir ou não que a Igreja desempenhasse qualquer papel na especulação financeira pareciam arcaicas. A Administração Especial de Nogara era tão capitalista como qualquer banco de investimento de Wall Street. Nos onze anos desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a sua concentração na indústria italiana durante o pós-guerra revelou ser um investimento inspirado. A SNIA Viscosa tornou-se a mais lucrativa empresa têxtil do país. A SGI tornou-se um conglomerado internacional com projectos de construção gigantescos em cinco continentes.
Sem referir as participações em dúzias de empresas relacionadas. A Montecatini triplicou de tamanho e expandiu-se para a energia eléctrica e para o sector farmacêutico. A Italgas passara de uma pequena empresa de serviços regional ao maior fornecedor italiano de gás natural. Nogara zelou também pelos seus dois filhos, Paolo e Giovanni. Paolo era administrador de duas empresas propriedade do Vaticano, a empresa mineira Montefluoro e, mais tarde, a Ceramica Pozzi, uma fábrica de cerâmica. Giovanni geria uma empresa metalúrgica controlada pelo IOR, a Pertusola, sendo igualmente director do conglomerado de transportes Tarvisio. Tal como o seu pai, Giovanni era engenheiro e funcionava também como director-geral da empresa mineira Predil, na qual o IOR tinha também investido. Aos oitenta anos, o próprio Pio mostrava-se frágil aquando do afastamento de Nogara. Nunca fora robusto e, por vezes era difícil perceber ao certo se o pontífice estava tão doente como parecia. Uma infecção gastrointestinal grave (com vómitos e náusea constantes, como recorda a irmã Pascalina) durante o período natalício de 1945 deixara-o debilitado. Os vaticanologistas começaram a debater a sua saúde. Ricardo Galeazzi-Lisi, um oftalmologista, era o médico principal de Pio desde 1939. Fora o médico a quem Pio confiara o exame dos ossos de São Pedro, em 1942. Além de Pascalina, muitos dos que lhe eram próximos se mostravam apreensivos com Galeazzi-Lisi e com os tónicos e remédios herbais que fabricava. O seu tratamento falhado dos problemas de Pio com as gengivas usando ácido crómico (usado no tratamento de curtumes) provocou complicações no esófago que atormentavam o papa com soluços crónicos (ninguém dentro do Vaticano sabia que Galeazzi-Lisi era uma fonte de informação secreta acerca da saúde papal e, por vezes, de rumores acerca da Igreja, junto de jornais e revistas. Muitos faziam-lhe pagamentos pela sua colaboração. Paul Hoffman, então um repórter novato da secção romana do The New York Times, entregava num envelope o pagamento do doutor no seu consultório em Roma. Ao telefone, apresentava-se sempre como Dick..., porque os telefones do Vaticano estavam sob escuta da polícia papal, escreveu mais tarde Hoffman. O Times desconhecia então que recebia envelopes idênticos de outros clientes). E tinha sido Galeazzi-Lisi, juntamente com Pascalina, a recomendar Paul Niehans, um médico suíço que aplicava injecções terapêuticas de células vivas consistindo em fetos retalhados retirados a ovelhas acabadas de abater. Eram muitos os que, no Vaticano, não gostavam que Niehans fosse um pastor protestante ordenado e os tradicionalistas opunham-se à sua utilização de fetos animais no seu tónico injetável. Mas Pio simpatizava com ele e ignorava os relatos de que alguns dos seus pacientes sofriam crises de espasmos depois das injecções. O papa chegou mesmo a nomeá-lo para a prestigiosa Academia Pontifícia de Ciências. Durante uma indisposição particularmente grave, Pio perguntou-lhe: diga-me a verdade; acredita realmente que recuperarei por completo e conseguirei cumprir na totalidade os meus deveres? Se não acreditar, não hesitarei em resignar. Niehans assegurou que Pio melhoraria. Foi só em 1955, depois de o papa quase perder a vida na sequência de uma infecção, que dois médicos italianos conseguiram reunir provas suficientes para desafiar as teorias e os resultados de Niehans, convencendo Pio a proibi-lo de voltar a entrar no Vaticano. Com o agravar da sua saúde, acabou por mudar de ideias e, em 1958, Niehans tinha regressado aos aposentos privados do papa». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «Em 1950, Spada tornou-se um símbolo das relações emaranhadas entre o Vaticano e o sector privado italiano. Era administrador ou director em mais de trinta empresas…»

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«(…) Mas Nogara queria mais do que investimentos. Procurava também influenciar a forma como as empresas eram geridas. Investimentos consideráveis estavam condicionados à disponibilização de pelo menos um lugar no conselho administrativo. Enrico Galeazzi (mais tarde um conde papal) era o principal arquitecto do Vaticano, amigo pessoal do cardeal Spellman e membro do conselho mais próximo de Pio XII. Nogara indicou Galeazzi como um dos administradores do Vaticano na SGI, no Banco de Roma, no Credito Italiano e no gigante dos seguros RAS. Marcantonio Pacelli, outro sobrinho de Pio XII, integrava o conselho de administração de muitas empresas, incluindo a SGI, Giulio Pacelli, outro sobrinho, integrava também inúmeras administrações, incluindo a da Italgas e do banco BC1. Carlo Presenti, presidente de dois bancos importantes, tornou-se o administrador nomeado pela Igreja na Italcementi. Por seu turno, Presenti escolheu Massimo Spada para ser administrador e vice-presidente dos seus bancos. Nogara guardou para si a administração das empresas que considerava candidatas sérias à mudança de rumo ou com as quais mantinha relacionamentos de longa data, entre as quais se incluíam o gigante químico Montecanti, o conglomerado hidroelétrico SIP, a seguradora Generale Immobiliare, e o fornecedor de tubagens para água Società Italiana per Condotte d’Acqua. Estas nomeações junto de conselhos administrativos de empresas de topo significavam que o Vaticano desempenhava um papel histórico em negócios que teriam sido impensáveis meras décadas antes.
Em 1950, Spada tornou-se um símbolo das relações emaranhadas entre o Vaticano e o sector privado italiano. Era administrador ou director em mais de trinta empresas, incluindo os gigantes dos seguros Generali e RAS (o Vaticano reinvestira em ambos), a Banca di Roma, a Mediobanca, a Finelettrica, a Italmobiliare, a Finmeccanica e a Italcementi. O mercado bolsista italiano é controlado por cerca de vinte empresas financeiras com propriedade de tal forma entrelaçada que os seus administradores respondem sobretudo a si mesmos, referiu a Time num artigo sobre as incestuosas finanças italianas (Volpi acreditou que seria necessária uma geração para reconstruir o sector dos seguros italiano devastado pela guerra. Mas os Aliados queriam que todos os sectores, incluindo o dos seguros, fossem revitalizados com maior rapidez, preocupados com a Guerra Fria. Revitalizar o sector privado em Itália e na Alemanha era a forma de assegurar que os partidos comunistas nestes países não conseguiam beneficiar da exploração dos terríveis relatos de pobreza e paralisia económica do pós-guerra. Os Aliados devolveram a gestão do sector privado aos italianos em 1947. A Generali funcionava a pleno gás meses depois, com todos os seus activos apoiados por empresas americanas. Mesmo que o comando militar americano se tivesse queixado de que a nova liderança da Generali incluísse alguns fascistas convictos, deixara de ter a jurisdição necessária para fazer alguma coisa a esse respeito).
A dúvida no Vaticano era perceber qual dos homens que trabalharam para Nogara lhe sucederia. Antes da guerra, houvera especulação alargada de que Giovanni Fummi executivo da Morgan, seria o seu substituto. O patrício Fummi representara Volpi, o Vaticano e a maior parte dos aristocratas italianos. Mas Nogara vivera tempo suficiente para que Fummi, apenas um ano mais jovem, se tivesse tornado demasiado velho. Preparando o terreno para o seu sucessor eventual desde o início da década de cinquenta, Nogara formou um núcleo de conselheiros financeiros católicos. Estes novos consultores eram informalmente conhecidos como uomini di fiducia, homens de confiança. Há muito que os papas usavam Nobres Negros para os auxiliarem nos negócios. Bernardino socorrera-se durante décadas de um círculo de conselheiros próximos, composto por homens como Fummi e Volpi, conselheiros de confiança e parceiros de negócios ocasionais. Nogara esperou que os homens de confiança fundissem os melhores traços dos Nobres Negros e dos seus conselheiros próprios. Decretou que deveriam ser banqueiros ou financeiros de topo, escolhidos pela sua lealdade e habilidade. E pensou que seria importante que não trabalhassem para a Igreja, esperando que a sua independência pudesse libertá-los da asfixiante burocracia da Cúria e das guerras fracturantes pelo poder. As primeiras escolhas de Nogara foram dois sobrinhos de Pio, Giulio e Marcantonio Pacelli». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «Os primeiros investimentos de Nogara no pós-guerra foram no sector da construção, que acreditou ser o primeiro a recuperar já que as cidades destruídas e as infraestruturas demolidas…»

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Não é papa nenhum
«(…) Henri de Maillardoz, banqueiro do Credit Suisse com a base de operações em Genebra, foi outro dos primeiros banqueiros estrangeiros. Nogara confiara-lhe os investimentos da Igreja. Cosmopolita e distante, Maillardoz conhecia Nogara desde 1925. Foi o responsável pela decisão de consolidar algumas das reservas de ouro europeu da Igreja no Credit Suisse, o seu empregador anterior. Quando Nogara enfrentou os Aliados pela inclusão do Sudameris numa lista negra, enviou Maillardoz a Washington em Novembro de 1942 para fazer um apelo aos responsáveis pelo Departamento do Tesouro. No final da guerra, Pio conferira-lhe um título nobiliárquico honorário de marquês e foi nomeado secretário da Administração Especial e consultor especial de Bernardino. Foi Maillardoz o banqueiro cuja visita ao Vaticano no início da década de trinta alarmou o cardeal Domenico Tardini. Tardini receara que a simples presença de um banqueiro suíço fosse um presságio de que Nogara estaria prestes a envolver-se em especulação financeira proibida. O conflito motivado pela dimensão permissível do trabalho de Nogara tornou-se uma memória distante. Havia poucas restrições regendo o investimento além daquelas que o IOR decretava sobre si mesmo. Nogara e a sua equipa sabiam que os Balcãs e a Europa de Leste estavam fora do seu alcance enquanto permanecessem sob controlo de governos fantoche soviéticos. A Europa Ocidental protegida pelo manto da defesa nuclear americana, nunca estivera tão segura. Mas concordaram que o melhor investimento seria no país que melhor conheciam: Itália. Com a vitória democrata-cristã e a firmeza da aliança com os Estados Unidos, concluíram que era uma oportunidade rara. Itália estava, sem dúvida, no mesmo estado lamentável do resto do continente, arrasada pela recessão, pela inflação e pelo desemprego. Mas a equipa do Vaticano acreditava que o enorme influxo de biliões do Plano Marshall alimentaria um surto de reconstrução, revigorando a economia estagnada. Muitas empresas italianas de topo estavam disponíveis a preço de saldo, depois de o preço das suas acções ter sido devastado.
Os primeiros investimentos significativos de Nogara no pós-guerra foram no sector da construção, que acreditou ser o primeiro a recuperar já que as cidades destruídas e as infraestruturas demolidas precisavam de ser reconstruídas. Em 1949, a Igreja comprou quinze por cento da Società Generale Immobiliare (SGI), uma das holdings de construção e imobiliário mais antigas do país (alcançaria uma quota de mercado dominante ao longo de vários anos). Em seguida, o IOR investiu na Italcementi, a fábrica de cimentos em condição lastimável. Falta de alimento generalizada aliada a perturbações agrícolas motivaram fomes e aumentos dramáticos no preço dos bens de primeira necessidade. O Vaticano investiu nos sectores alimentar e agrícola. Nogara tornara-se administrador de uma das maiores empresas agrícolas italianas e a Igreja adquiriu uma participação em explorações de grande dimensão no mesmo sector, além de quatro unidades agrícolas. Os comunistas alegariam mais tarde que a Igreja detinha um controlo monopolista do fabrico de fertilizantes usando-o para explorar os agricultores italianos e para obter lucros gigantescos.
O IOR expandiu-se para lá destes sectores, com investimentos em empresas italianas de reputação sólida, incluindo a Italgas (gás natural), a Società Finanziaria Telefonica (telecomunicações), a Finelettrica (eletricidade), a Finmeccanica (defesa) e a Montecatini (minas). Nogara adquirira ainda quatro fábricas têxteis em dificuldades por preços reduzidos (Giuseppe Volpi, antigo ministro de Mussolini e amigo de longa data de Nogara, recomendara a partir do seu exílio suíço em 1947 as empresas a monsenhor di Jorio como bons investimentos a longo prazo). Nogara fundiu as quatro fábricas numa nova entidade, a SNIA Viscosa. Confiante de que qualquer recuperação incluiria o scetor financeiro, a equipa de Nogara iniciou uma onda de compras sucessivas de bancos italianos. Em 1950, o IOR detinha uma participação maioritária em setenta e nove bancos do país, de hordings de grande dimensão como a Mediobanca sustentada pelos Aliados a pequenos bancos regionais. Nenhum outro investidor detinha uma participação mais significativa nas finanças italianas do pós-guerra do que a Igreja. Alguns dos investimentos de Nogara, como a Italcementi, transformaram-se em equidade adicional no sector financeiro, enquanto formava a sua hording própria e adquiria bancos a partir do início dos anos sessenta». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT

sábado, 26 de dezembro de 2015

Os Banqueiros de Deus. Gerald Posner. «Mas não depositava nos clérigos a sua esperança no futuro das finanças do Vaticano. Confiava sobretudo num punhado de leigos mais jovens»

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Não é papa nenhum
«Enquanto sacerdotes católicos geriam redes de fuga de criminosos de guerra nazis e Pio XII e os seus cardeais travavam uma guerra contra o comunismo, Bernardino Nogara, conselheiro financeiro do Vaticano, aperfeiçoava o Instituto para as Obras da Religião (IOR). A Igreja preparava-se para beneficiar com a nova ordem resultante da Guerra Fria. Muitos dos piores receios de Nogara tinham sido concretizados pela devastação na Europa do pós-guerra. A produção industrial caiu a pique. O desemprego atingiu números nunca vistos. Havia mais de oito milhões de deslocados. Um quarto de toda a habitação urbana alemã tinha sido destruído e o produto interno bruto do país caíra uns impressionantes setenta por cento. A vitória democrata-cristã de 1948 em Itália animou Nogara, pondo fim à ameaça comunista de nacionalização de muitas indústrias. Se tal tivesse acontecido, teria destruído investimentos avultados do Vaticano e os esquerdistas mais empenhados teriam substituído os representantes da Igreja nos conselhos de administração das principais empresas. Mesmo que Nogara demonstrasse confiança na sobrevivência do IOR às nacionalizações, sabia que as perdas colossais a curto prazo seriam inevitáveis. Completara setenta e oito anos um par de meses antes das eleições. A boa saúde e a mente ágil não impediram que preparasse o dia em que passaria a estar ausente do Vaticano. Reuniu uma pequena equipa de clérigos e leigos de confiança. Monsenhor Alberto di Jorio trabalhava com ele há mais tempo que qualquer outro clérigo.
Di Jorio era o secretário da comissão de supervisão do IOR composta por três cardeais (e que pouco mais fazia do que rever anualmente um sumário de página única das actividades do banco). O seu chefe era Nicola Canali, um dos prelados que tinha investigado Nogara quando Pio XII fora eleito papa. Canali estava incumbido também de gerir a Administração Especial, responsável gela propriedade da Igreja recebida dos Acordos de Latrão. Referido de forma não oficial como ministro das Finanças, mantinha-se bastante activo na política da Cúria. Nogara apreciava Canali pelo seu apego rigoroso à disciplina. Bernardino acreditava que asseguraria que o IOR e a Administração Especial não se afastariam demasiado do seu rumo lucrativo. Mas não depositava nos clérigos a sua esperança no futuro das finanças do Vaticano. Confiava sobretudo num punhado de leigos mais jovens. O conde papal Carlo Pacelli era um dos três sobrinhos de Pio XII no Vaticano. Era o conselheiro geral da cidade-estado. Durante a guerra, Nogara confiara nele para obter conselhos abrangentes acerca dos negócios internacionais do IOR. Além de contar com a confiança de Bernardino, Pacelli era um dos poucos funcionários leigos com quem o papa reunia com regularidade.
Nogara pedira pessoalmente a Massimo Spada para se juntar ao departamento financeiro do Vaticano em 1929. Spada, que, pouco antes, se tornara corrector bolsista, nunca ouvira falar da Administração das Obras da Religião. Nogara disse-lhe que funcionava quase como um banco no que diz respeito à administração dos depósitos dos institutos religiosos e das obras de caridade eclesiásticas. Foi suficiente para Spada, cujo pedigree era imaculado. O seu bisavô fora o banqueiro privado de um Nobre Negro (nome dado aos aristocratas em luto pelo fim dos Estados Papais e consequente prisão auto-imposta do papa no Vaticano) de relevo, o príncipe di Civitella-Cesi Torlonia. O avô de Spada fora director do Banco de Itália e o seu pai chefiara uma agência de negócios externos que negociava com a Igreja. Com os seus célebres fatos cinzentos de lapelas sobrepostas e calças de cintura elevada, Spada era uma presença familiar no Vaticano. Tornara-se um favorito de prelados com destaque na hierarquia depois de liderar o movimento para contrariar uma apropriação hostil da Banca Cattolica del Veneto controlada pelo IOR. No final da guerra, tornara-se o secretário Administrativo do IOR, o leigo de posição mais elevada a seguir a Nogara. Lúgi Mennini, pai de catorze filhos, era um banqueiro privado experiente, a quem Nogara pedira também para trabalhar para o IOR. Tornou-se o conselheiro de maior confiança de Spada. Raffaele Quadrani, que trabalhara durante alguns anos em bancos de Paris e Londres, foi outra contratação de Nogaral. Foi recomendado pelo seu irmão, Bartolomeo, director do Museu Vaticano». In Gerald Posner, Os Banqueiros de Deus, 2015, Editora Self-Desenvolvimento Pessoal, 2015, ISBN 978-989-878-155-0.

Cortesia de Self/JDACT