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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

O Sonho do Delta. Mario Vargas Llosa. «O castelo, de pedras negras, torreões, escudos, lareiras e uma fachada catedralesca tinha sido construído no século XVII por Alexander Colville, um teólogo de cara maldisposta»

jdact

O Congo
«(…) Desde então, Roger raramente viu o pai e nunca mais o ouviu voltar a contar aquelas histórias da Índia e do Afeganistão. O capitão Roger Casement morreu de tuberculose em 1876, três anos depois da esposa. Roger acabava de fazer doze anos. Na Escola Diocesana de Ballymena, onde esteve três anos, foi um estudante distraído, que tirava notas regulares, excepto a Latim, Francês e História Antiga, disciplinas em que se destacou. Escrevia poesia, parecia sempre metido consigo mesmo e devorava livros de viagens pela África e pelo Extremo Oriente. Praticava desporto, sobretudo natação. Aos fins de semana ia ao Castelo de Galgorm, dos Young, para onde um colega da turma o convidava. Mas Roger passava ainda mais tempo com Rose Maud Young, bela, culta e escritora, que percorria as aldeias de pescadores e camponeses do Antrim, recolhendo poemas, lendas e canções em gaélico. Da sua boca ouviu pela primeira vez os épicos conflitos da mitologia irlandesa. O castelo, de pedras negras, torreões, escudos, lareiras e uma fachada catedralesca tinha sido construído no século XVII por Alexander Colville, um teólogo de cara maldisposta, segundo o seu retrato do vestíbulo, que, dizia-se em Ballymena, tinha feito um pacto com o Diabo e o seu fantasma deambulava pelo lugar. Tremendo, nalgumas noites de luar, Roger atreveu-se a procurá-lo pelos passadiços e aposentos vazios, mas nunca o encontrou.
Só muitos anos mais tarde aprenderia a sentir-se confortável em Magherintemple House, o solar dos Casement, que antes se tinha chamado Churchfield e fora uma reitoria da paróquia anglicana de Culfeightrin. Porque nos seis anos que ali viveu, entre os nove e os quinze anos, com o tio-avô John e a tia-avó Charlotte, e restantes parentes paternos, sempre se sentiu um pouco estranho naquela imponente mansão de pedras cinzentas, de três andares, altos tectos lisos, muros cobertos de hera, telhados de falso gótico e cortinados que pareciam ocultar fantasmas. Os vastos aposentos, os longos corredores e as escadas com gastos corrimãos de madeira e degraus que gemiam aumentavam a sua solidão. Em compensação, tinha prazer ao ar livre, entre os robustos olmos, sicómoros e pessegueiros que resistiam aos ventos ciclónicos e as suaves colinas com vacas e ovelhas das quais se avistava a localidade de Ballycastle, o mar, os escolhos que investiam contra a ilha de Rathlin e, nos dias claros, a esbatida silhueta da Escócia. Ia com frequência às aldeias vizinhas de Cushendum e Cushendall que pareciam o cenário de antigas lendas irlandesas, e aos nove glens da Irlanda do Norte, aqueles estreitos vales cercados de colinas e ladeiras rochosas em cujos cumes as águias traçavam círculos, espectáculo que o fazia sentir-se corajoso e exaltado. A sua diversão preferida eram as excursões por aquela terra áspera, de camponeses tão velhos como a paisagem, alguns dos quais falavam entre eles o irlandês antigo, acerca do qual o seu tio-avô John e os amigos faziam às vezes cruéis chacotas. Nem Charles nem Tom partilhavam o seu entusiasmo pela vida ao ar livre, nem tiravam prazer das caminhadas pelos campos ou a escalar as lombas escarpadas do Antrim; Nina, pelo contrário, e por isso mesmo, apesar de ser oito anos mais velha do que ele, foi a sua preferida e com quem sempre se daria melhor. Com ela fez várias excursões até à baía de Murlough, eriçada de rochas negras e com a sua praiazinha pedregosa, junto do Glenshesk, cuja recordação o acompanharia toda a vida e à qual sempre se referiria, nas suas cartas à família, como aquele recanto do Paraíso.
Mas ainda mais que dos passeios pelo campo, Roger gostava das férias de Verão. Passava-as em Liverpool, junto da tia Grace, irmã da sua mãe, em cuja casa se sentia querido e acolhido: pela tia Grace, claro, mas também pelo seu esposo, o tio Edward Bannister, que tinha corrido muito mundo e fazia viagens de negócios a África. Trabalhava para a companhia de navegação Elder Dempster Line, que transportava carga e passageiros entre a Grã-Bretanha e a África Ocidental. Os filhos da tia Grace e do tio Edward, os seus primos, foram melhores companheiros de brincadeira de Roger do que os seus próprios irmãos, sobretudo a sua prima Gertrude Bannister, Gee, com a qual, desde muito pequeno, teve uma proximidade que nunca foi manchada por um só desgosto. Eram tão unidos que uma vez Nina brincou com eles: vocês ainda vão acabar por casar. Gee riu-se, mas Roger corou até à ponta dos cabelos. Não se atrevia a erguer o olhar e balbuciava: não, não, porque é que dizes essa palermice? Quando estava em Liverpool, junto dos primos, Roger vencia por vezes a sua timidez e fazia perguntas ao tio Edward sobre África, um continente cuja simples referência lhe enchia a cabeça de florestas, feras, aventuras e homens intrépidos. Graças ao tio Edward Bannister ouviu falar pela primeira vez do doutor David Livingstone, o médico e evangelista escocês que andava há anos a explorar o continente africano, percorrendo rios como o Zambeze e o Chire, baptizando montanhas, paragens desconhecidas e levando o cristianismo às tribos de selvagens». In Mario Vargas Llosa, O Sonho do Delta, 2010, Editora Quetzal, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-564-919-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

O Sonho do Delta. Mario Vargas Llosa. «Os irmãos depressa se conformaram. E Roger também, aparentemente. Porque, embora tivesse recuperado a fala, era um tema que ele nunca referia»

jdact

O Congo
«(…) Quando aprendeu a ler, gostava de mergulhar nas histórias dos grandes navegadores, viquingues, portugueses, ingleses e espanhóis que tinham sulcado os mares do planeta volatilizando os mitos segundo os quais, chegadas a um certo ponto, as águas marinhas começavam a ferver, abriam-se abismos e apareciam monstros cujas fauces podiam engolir um barco inteiro. Contudo, entre as aventuras ouvidas e as lidas, Roger sempre havia preferido escutar as da boca do pai. O capitão Casement tinha uma voz quente, descrevia com rico vocabulário e animação as florestas da Índia ou os rochedos de Khyber Pass, no Afeganistão, onde a sua companhia de Dragões Ligeiros foi uma vez emboscada por uma massa de enturbantados fanáticos que os bravos soldados ingleses enfrentaram, primeiro a balázios, depois a baioneta, e, por fim, com punhais e com mãos nuas, até os obrigarem a retirar-se derrotados. Mas não eram os feitos de armas o que mais deslumbrava a imaginação do pequeno Roger, mas sim as viagens, abrir caminhos por paisagens nunca pisadas pelo homem branco, as proezas físicas de resistência, vencer os obstáculos da natureza. O seu pai era agradável, mas severíssimo e não vacilava em açoitar os filhos quando se portavam mal, mesmo Nina, a mulherzinha, pois assim se castigavam os erros no Exército e ele tinha verificado que só aquela forma de castigo era eficaz.
Embora admirasse o pai, de quem Roger verdadeiramente gostava era da mãe, aquela mulher esbelta que parecia flutuar em vez de andar, de olhos e cabelos claros e cujas mãos, tão suaves, quando se enredavam nos seus caracóis ou lhe acariciavam o corpo na hora do banho o enchiam de felicidade. Uma das primeiras coisas que aprenderia foi, teria cinco, seis anos?, que só podia correr a atirar-se para os braços da mãe quando o capitão não estava por perto. Este, fiel à tradição puritana da sua família, não era partidário de que as crianças crescessem com muitos mimos, pois isso tornava-os moles para a luta pela vida. Diante do pai, Roger mantinha-se à distância da pálida e delicada Anne Jephson. Mas quando aquele partia para se juntar aos amigos no seu clube ou para dar um passeio, corria para ela, que o cobria de beijos e carícias. Às vezes, Charles, Nina e Tom protestavam: gostas mais do Roger que de nós. A mãe garantia-lhes que não, que gostava igualmente de todos, só que Roger era muito pequeno e precisava de mais atenção e carinho que os mais velhos.
Quando a mãe morreu, em 1873, Roger tinha nove anos. Aprendera a nadar e ganhava todas as corridas com meninos da sua idade e até mais velhos. Ao contrário de Nina, Charles e Tom, que derramaram muitas lágrimas durante o velório e o enterro de Anne Jephson, Roger não chorou nem uma única vez. Naqueles dias tétricos, o lar dos Casement converteu-se numa capela funerária, cheia de gente vestida de luto, que falava em voz baixa e abraçava o capitão Casement e as quatro crianças com caras pesarosas, pronunciando palavras de pêsames. Durante muitos dias não conseguiu pronunciar uma frase, como se tivesse ficado mudo. Respondia com movimentos de cabeça ou gestos às perguntas e permanecia sério, cabisbaixo e com o olhar perdido, até mesmo de noite no quarto às escuras, sem conseguir dormir. Desde então e para o resto da sua vida, de quando em quando, nos seus sonhos, a figura de Anne Jephson viria visitá-lo com aquele sorriso convidativo, abrindo-lhe os braços, onde ele se ia encolher, sentindo-se protegido e feliz com aqueles dedos finos na sua cabeça, nas suas costas, nas suas faces, uma sensação que parecia defendê-lo das maldades do mundo.
Os irmãos depressa se conformaram. E Roger também, aparentemente. Porque, embora tivesse recuperado a fala, era um tema que ele nunca referia. Quando algum familiar lhe recordava a mãe, emudecia e mantinha-se encerrado no seu mutismo até aquela pessoa mudar de tema. Nas suas insónias, pressentia na escuridão, olhando para ele com tristeza, o semblante da infortunada Anne Jephson. Quem não se conformou nem voltou a ser o mesmo foi o capitão Roger Casement. Como não era efusivo e nem Roger nem os irmãos o tinham visto alguma vez ser pródigo em gentilezas para com a mãe, as quatro crianças ficaram surpreendidas com o cataclismo que o desaparecimento da esposa significou para o pai. Ele, tão bem ataviado, andava agora vestido de qualquer maneira, com a barba crescida, o sobrolho franzido e um olhar de ressentimento como se os filhos tivessem a culpa da sua viuvez. Pouco tempo depois da morte de Anne, decidiu deixar Dublin e despachou as quatro crianças para o Ulster, para Magherintemple House, a casa de família, onde, a partir de então, o tio-avô paterno John Casement e a sua esposa Charlotte se encarregariam da educação dos quatro irmãos. O pai, como que a querer desinteressar-se deles, foi viver a quarenta quilómetros dali, no Adair Arms Hotel de Ballymena, onde, como às vezes o tio-avô John acabava por dizer, o capitão Casement, meio louco de dor e solidão, dedicava os seus dias e noites ao espiritismo, tentando comunicar com a mulher morta através de médiuns, cartas e bolas de cristal». In Mario Vargas Llosa, O Sonho do Delta, 2010, Editora Quetzal, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-564-919-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Os Cadernos de dom Rigoberto. Mario Vargas Llosa. «Mas nem sequer agora arrebatou a Fonchito os afilados dedos que ele, estremecido pelos soluços, continuava beijando. O senhor tem de ir embora, menino Alfonso, disse a empregada»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Retorno de Fonchito
«Chamaram à porta, dona Lucrécia foi abrir e viu emoldurada no vão, sobre o fundo das árvores retorcidas e grisalhas do Olivar de San Isidro, a cabeça de cachos dourados e os olhos azuis de Fonchito. Tudo começou a girar. Estava com muita saudade, madrasta, entoou a voz que ela recordava tão bem. Continua aborrecida comigo? Vim pedir perdão. Me perdoa? Você, você? Agarrada à maçaneta, dona Lucrécia buscava apoio na parede. Não tem vergonha de se apresentar aqui? Escapuli da academia, insistiu o menino, mostrando o seu caderno de desenho e os seus lápis de cor. Estava com muita saudade, sério. Por que você ficou tão pálida? Meu Deus, meu Deus, cambaleou dona Lucrécia, deixando-se cair no banco imitação de colonial, contíguo à porta. Cobria os olhos, branca como um papel. Não morra!, gritou o menino, assustado. E dona Lucrécia, sentindo-se desfalecer, viu a figurinha infantil transpor o umbral, fechar a porta, cair de joelhos aos seus pés, pegar as suas mãos e massajá-las, com expressão aturdida: não morra, não desmaie, por favor. Fez um esforço para se dominar e recuperar o controle. Respirou fundo, antes de falar. E o fez devagar, sentindo que a qualquer momento a sua voz se embargaria: não foi nada, já estou bem. Vê-lo aqui era a última coisa que eu esperava. Como se atreve? Não tem remorso? Sempre de joelhos, Fonchito tentava  beijar-lhe a mão. Diga que me perdoa, madrasta, implorou. Diga, diga. A casa não é mais a mesma desde que você foi embora. Vim espiá-la um monte de vezes, na saída da aula. Queria tocar, mas não me atrevia. Nunca me vai perdoar? Nunca, respondeu ela, com firmeza. Nunca perdoarei o que você fez, malvado. Mas, contradizendo as próprias palavras, os seus grandes olhos escuros reconheciam com curiosidade e certa complacência, talvez até com ternura, a encaracolada desordem daquela cabeleira, as veiazinhas azuis do pescoço, as bordas das orelhas assomando entre as mechas louras, o corpinho gracioso, embutido no casaco azul e na calça cinza do uniforme. As suas narinas aspiravam aquele odor adolescente de partidas de futebol, de caramelos frutados e sorvetes d’Onofrio, e seus ouvidos reconheciam aqueles guinchos agudos e as mudanças de voz, que ressoavam também na sua memória. As mãos de dona Lucrécia se resignaram aos molhados beijos de passarinho daquela boquinha: gosto muito de você, madrasta, disse Fonchito, fazendo beicinho. E, mesmo que você não acredite, o pai também. Nisto apareceu Justiniana, ágil silhueta cor de canela envolta num avental florido, lenço na cabeça e espanador na mão. Ficou petrificada no corredor que levava à cozinha. Menino Alfonso, murmurou, incrédula. Fonchito! Não posso acreditar! Imagine, imagine!, exclamou dona Lucrécia, empenhada em mostrar uma indignação superior à que sentia. Atreve-se a vir a esta casa. Depois de arruinar a minha vida, de dar aquela punhalada em Rigoberto. Pedindo que eu o perdoe, derramando lágrimas de crocodilo. Já viu desfaçatez igual, Justiniana?
Mas nem sequer agora arrebatou a Fonchito os afilados dedos que ele, estremecido pelos soluços, continuava beijando. O senhor tem de ir embora, menino Alfonso, disse a empregada, tão confusa que, sem perceber, mudou o tratamento habitual: você não vê como deixou a patroa amofinada? Saia, vá, Fonchito. Eu vou se ela disser que me perdoa, rogou o menino, entre suspiros, a cara nas mãos de dona Lucrécia. Nem sequer me cumprimenta e já começa me insultando, Justita? O que eu lhe fiz? Pois se eu também gosto muito de você, se chorei a noite inteira no dia em que você foi embora lá de casa! Cale a boca, mentiroso, não acredito nem um tiquinho. Justiniana alisava os cabelos de dona Lucrécia. Trago um lencinho com álcool, patroa? Prefiro um copo d’água. Não se preocupe, já estou melhor. Ver este melequento aqui me transtornou toda. E por fim, sem brusquidão, retirou as suas mãos das de Fonchito. O menino continuava aos seus pés, já sem chorar, contendo a duras penas novos beicinhos. Tinha os olhos vermelhos e as lágrimas lhe haviam marcado sulcos nas bochechas. Um fio de saliva pendia da sua boca. Através da neblina que lhe velava os olhos, dona Lucrécia espiou o nariz de linhas finas, os lábios bem desenhados, o queixinho altivo e a sua covinha, os dentes tão brancos. Teve vontade de o esbofetear, de agadanhar aquela carinha de Menino Jesus. Hipócrita! Judas! E até de mordê-lo no pescoço e de lhe chupar o sangue, como um vampiro. Seu pai sabe que veio aqui? Que ideia, madrasta, respondeu no acto o menino, num tonzinho confidencial. Sabe lá o que ele me faria? Nunca fala de você, mas eu sei muito bem que tem saudade. Não pensa noutra coisa, dia e noite, juro. Vim escondido, escapuli da academia. Vou três vezes por semana, depois do colégio. Quer que eu lhe mostre osmeus desenhos? Diga que me perdoa, madrasta». In Mario Vargas Llosa, Os Cadernos de dom Rigoberto, 1997, Edição dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-385-4.

Cortesia EdQuixote/JDACT

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «O soutien, as meias, transpira, deita, se encolhe, se estica Pantita. O Tigre tinha razão: a humidade morna, a gente respira fogo, o sangue ferve»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Você passou todos estes dias feito um idiota, põe os óculos escuros, tira o casaco Pochita. Não falava nada, ficava sonhando de olhos abertos. Ai, que inferno. Nunca vi você tão mudado, Panta. Eu estava um pouco preocupado com o meu novo destino, mas já passou, tira a carteira, dá umas notas ao motorista Panta. Sim, chefe, número 549, o Hotel Lima. Espere, mãe, eu ajudo você a descer. Você é militar, não é?, joga a bolsa de viagem numa cadeira, tira os sapatos Pochita. Sabia que podia ser mandado para qualquer lugar. Iquitos não é nada mau, Panta, não está vendo que parece um lugar simpático? Tem razão, estou comportando-me feito um bobo, abre o armário, pendura um uniforme, um casaco Panta. Devia estar acostumado demais com Chiclayo; palavra de honra que já passou. Bem, vamos abrir as malas. Que calorzinho, não é, chola? Por mim, passaria a vida dentro do hotel, deita de costas na cama, se espreguiça Pochita. Aqui fazem tudo por você, não é preciso se preocupar com nada. E seria adequado receber o cadete Pantoja num hotelzinho?, tira a gravata, a camisa Panta. O cadete Pantoja?, abre os olhos, desabotoa a blusa, apoia um cotovelo no travesseiro Pochita. Sério? Já podemos encomendar, Pantita? Não prometi que seria quando chegasse o terceiro galão?, estica, dobra e pendura a calça Panta. Vai ser loretano, que coisa. Maravilhoso, Panta, ri, aplaude, toma impulso no colchão Pochita. Ai, que felicidade, o cadetinho, Pantita Júnior. Temos que encomendar o quanto antes, abre e estica as mãos Panta. Para que chegue rapidinho. Venha, chola, não fuja. Espere, espere, o que é isso?, salta da cama, corre para o banheiro Pochita. Ficou maluco? Vamos, vamos, o cadetinho, tropeça numa mala, derruba uma cadeira Panta. Vamos encomendar agora mesmo. Vamos, Pochita. Mas são 11 da manhã, acabamos de chegar, gesticula, afasta, empurra, fica zangada Pochita. Solte, a sua mãe vai-nos ouvir, Panta. Para estrear Iquitos, para estrear o hotel, ofega, luta, abraça, escorrega Pantita. Venha, amorzinho. Veja só o que ganhou com tanta denúncia e tanto comunicado, brande um ofício repleto de carimbos e assinaturas o general Scavino. O senhor também tem culpa disso, comandante Beltrán: veja o que esse sujeito veio organizar em Iquitos. Vai rasgar a minha saia, protege-se atrás do armário, joga um travesseiro, pede paz Pochita. Não o estou reconhecendo, Panta, sempre tão educadinho, o que há com você. Deixe, eu tiro. Queria curar um mal, não causar, lê e relê a cara compungida do comandante Beltrán. Nunca imaginei que o remédio seria pior que a doença, general. É inconcebível, iníquo. Vai permitir esse horror? O soutien, as meias, transpira, deita, se encolhe, se estica Pantita. O Tigre tinha razão: a humidade morna, a gente respira fogo, o sangue ferve. Vem, me belisque onde eu gosto. A orelhinha, Pocha. Sinto vergonha assim de dia, Panta, reclama, se enrola na colcha, suspira Pochita. Você vai adormecer, não tem que estar no Comando às três? Acaba sempre adormecendo. Tomo uma chuveirada, se ajoelha, se dobra, se desdobra Pantita. Não fale nada, não me distraia. Belisque minha orelhinha. Assim, assim. Ai, já sinto que vou desmaiar, chola, já nem sei quem sou. Sei muito bem quem você é e para que veio a Iquitos, resmunga o general Roger Scavino. E, de cara, quero logo dizer que não estou nem um pouco feliz com a sua presença nesta cidade. Gosto das coisas claras desde o começo, capitão. Desculpe, general, balbucia o capitão Pantoja. Deve haver algum mal-entendido. Não estou de acordo com o serviço que o senhor vem organizar, aproxima a careca do ventilador e abaixa os olhos por um instante o general Scavino. Eu me opus a ele desde o começo e continuo pensando que é uma barbaridade. E, acima de tudo, uma imoralidade sem nome, se abana com fúria o padre Beltrán. O comandante e eu não dissemos nada porque os superiores mandam, desdobra o seu lenço e enxuga o suor da testa, das têmporas, do pescoço o general Scavino. Mas não nos convenceram, capitão. Eu não tenho nada a ver com esse projecto, general, transpira imóvel o capitão Pantoja. Foi a maior surpresa da minha vida quando me comunicaram, padre. Comandante, corrige o padre Beltrán». In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «E desmoralização, nervosismo, apatia. Precisamos dar de comer a esses famintos, Pantoja, olha solene nos seus olhos o Tigre Collazos»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Se a generala ouvisse isto, diverte-se o general Victoria, ai das suas garras, Tigre. A princípio pensamos que era a alimentação, bate na barriga o general Collazos. Que nos quartéis se usava muito tempero, coisas que aumentam o apetite sexual das pessoas. Consultamos especialistas, até um suíço que custou os olhos da cara, esfrega dois dedos o coronel López López. Um nutricionista cheio de títulos. Pas d’inconvénient, anota numa caderneta o professor Bernard Lahoé. Vamos planejar uma alimentação que, sem reduzir as proteínas necessárias, enfraqueça a libido dos soldados em 85%. Não vá exagerar, murmura o Tigre Collazos. Também não queremos uma tropa de eunucos, doutor. Horcones chamando Iquitos, Horcones chamando Iquitos, parece impaciente o alferes Santana. Sim, muito grave, extremamente urgente. Não obtivemos os resultados previstos com a operação Rancho Suíço. Os meus homens estão morrendo de fome, ficando tuberculosos. Hoje desmaiaram mais dois na revista, comandante. Não é brincadeira, Scavino, segura o telefone entre a orelha e o ombro enquanto acende um cigarro o Tigre Collazos. Procuramos até cansar, e esta é a única solução. Vou-lhe mandar o Pantojita com a mãe e a mulher. Faça bom proveito. Pochita e eu já nos acostumamos com a ideia e estamos felizes de ir para Iquitos, dobra lenços, arruma saias, embrulha sapatos a senhora Leonor. Mas continua de crista caída. O que é isso, filhinho. O senhor é o homem certo, Pantoja, fica em pé o coronel López López e segura-o pelos braços. Vai acabar com essa dor de cabeça. Apesar de tudo é uma cidade, Panta, e parece que linda, joga panos no lixo, dá nós, fecha bolsas Pochita. Não faça essa cara, seria pior ir para a puna, não é mesmo? Na verdade, coronel, não tenho ideia como, engole saliva o capitão Pantoja. Mas farei o que me ordenarem, naturalmente. Por enquanto, vá para a selva, pega um ponteiro e indica um lugar no mapa o coronel López López. O seu centro de operações será Iquitos. Vamos chegar à raiz do problema e liquidá-lo na sua origem, bate o punho na mão aberta o general Victoria. Porque, como já deve ter adivinhado, Pantoja, o problema não é só das senhoras atacadas. Também é dos recrutas condenados a viver como castos pombinhos naquele calor pecaminoso, estala a língua o Tigre Collazos. Servir na selva é duro, Pantoja, muito duro. Nos povoados amazónicos todas as saias têm dono, gesticula o coronel López López. Não há bordéis nem garotas de acompanhamento, nem nada parecido. Passam a semana inteira isolados, cumprindo missões no mato, sonhando com o dia de folga, imagina o general Victoria. Caminham quilómetros até ao povoado mais próximo. E o que acontece quando chegam? Nada, pela maldita falta de fêmeas, encolhe os ombros o Tigre Collazos. Então, os que não batem pun… perdem o juízo e no primeiro copinho de aguardente jogam-se feitos pumas no que estiver à sua frente. Houve casos absurdos e até de bestialismo, precisa o coronel López López. Imagine que um cabo de Horcones foi surpreendido tendo vida marital com uma macaca. A símia responde pelo absurdo apelido de Chupa-chupa da Quinta Esquadra, prende a risada o alferes Santana. Ou melhor, respondia, porque a matei com um tiro. O degenerado está no calabouço, coronel. Enfim, a abstinência traz-nos uma corrupção dos diabos, diz o general Victoria. E desmoralização, nervosismo, apatia. Precisamos dar de comer a esses famintos, Pantoja, olha solene nos seus olhos o Tigre Collazos. É aí que o senhor entra, aí é que vai aplicar o seu cérebro organizador. Por que está tão aturdido e tão quietinho, Panta?, guarda a passagem na bolsa, pergunta: onde é a saída para o avião? Pochita. Vamos ter um grande rio, podemos tomar banho, visitar as tribos. Anime-se, bobinho. O que houve que está tão esquisito, filhinho, observa as nuvens, as hélices, as árvores a senhora Leonor. Não abriu a boca em toda a viagem. Por que está tão preocupado? Não é nada, mãe, nada, Pochita, aperta o cinto de segurança Panta. Estou bem, não é nada. Olhem, já estamos chegando. Este deve ser o rio Amazonas, não é?» In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

sábado, 27 de maio de 2017

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «Com madeira faz o fogo que cozinha os seus alimentos, com madeira constrói a casa onde mora, a cama onde dorme»

cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Meus soldados não, soldados da Nação, faz gestos apaziguadores o general Victoria. Calma, calma, senhor prefeito. O Exército lamenta muitíssimo o incidente com a sua cunhada e fará tudo o que puder para compensá-la. Agora chamam estupro de incidente?, se desconcerta o padre Beltrán. Porque foi isso o que aconteceu. Florcita foi dominada por dois homens uniformizados que vieram da chácara e a violaram no meio da trilha, rói as unhas, pula sem sair do lugar o prefeito Teófilo Morey. Com uma pontaria tão boa que agora está grávida, general. Agora vai identificar esses bandidos, senhorita Dorotea, resmunga o coronel Peter Casahuanqui. Sem chorar, sem chorar. Vai ver como eu ajeito isto. Acha que eu vou lá?, soluça Dorotea. Ficar sozinha na frente de todos os soldados? Eles vão desfilar por aqui, em frente à esquadra, esconde-se por detrás da treliça metálica o coronel Máximo Dávila. Fica espiando pela janela e os aponta para mim quando descobrir os salientes, senhorita Jesus.
Salientes?, salpica salivas o padre Beltrán. Depravados, canalhas e miseráveis, isto é o que eles são. Fazer uma infâmia dessas com dona Asunta! Macular assim o uniforme! Luisa Cánepa, minha faxineira, foi estuprada por um sargento, depois por um cabo e depois por um soldado raso, limpa os óculos o tenente Bacacorzo. Ela gostou da coisa ou sei lá, comandante, mas o facto é que agora se dedica à prostituição com o nome de Maminha e tem um veado chamado Milcaras como cafetão. Agora diga com qual destas pessoinhas se quer casar, senhorita Dolores, passeia em frente aos três recrutas o coronel Augusto Valdés. E o capelão faz o casamento neste instante. Escolha, escolha, qual deles prefere para pai do seu futuro filhinho?
Pegaram a minha esposa na própria igreja, permanece rígido na ponta da cadeira o carpinteiro Adriano Lharque. Na catedral não, na igreja do Santo Cristo de Bagazán, senhor. Pois é, queridos radiouvintes, brama o Sinchi. Esses sacrílegos lascivos não foram contidos pelo temor a Deus nem pelo respeito devido à Sua santa casa nem aos nobres fios grisalhos dessa digníssima matrona, semente já de duas gerações de loretanos. Começaram a puxar-me, ai meu Jesus, queriam jogar-me no chão, chora a senhora Cristina. Estavam caindo de bêbados e nem queira saber os palavrões que falavam. Na frente do altar-mor, juro.
É a alma mais caridosa de todo o Loreto, general, retumba o padre Beltrán. Foi ultrajada cinco vezes! E também a filhinha e a sobrinha e a afilhadinha, já sei, Scavino, sopra a caspa das ombreiras o Tigre Collazos. Mas esse padre Beltrán está connosco ou com eles? É ou não é capelão do Exército? Protesto como sacerdote e também como soldado, general, encolhe a barriga, estufa o peito o comandante Beltrán. Porque esses abusos fazem tanto dano à instituição quanto às vítimas. O que os recrutas pretendiam fazer com aquela senhora é muito errado, claro, contemporiza, sorri, faz vénias o general Victoria. Mas os parentes quase os mataram de pancadas, não se esqueça disso. Aqui está o laudo médico: costelas quebradas, hematomas, rasgão na orelha. Neste caso houve empate, doutorzinho. Iquitos?, pára de humedecer a camisa, levanta o ferro Pochita. Cruz, como nos mandam para longe, Panta.
Com madeira faz o fogo que cozinha os seus alimentos, com madeira constrói a casa onde mora, a cama onde dorme e a balsa em que atravessa o rio, paira sobre o bosque de cabeças imóveis, caras ofegantes e braços abertos o irmão Francisco. Com madeira você fabrica o arpão que pesca o peixe, a zarabatana que caça a capivara e o caixão onde enterra o morto. Irmãs! Irmãos! Ajoelhem-se por mim! É um grande problema, Pantoja, balança a cabeça o coronel López López. Em Contamana, o prefeito emitiu um comunicado pedindo à população local que deixe as mulheres trancadas em casa nos dias de folga da tropa. E, principalmente, como é longe do mar, solta a agulha, arremata o fio e o corta com os dentes a senhora Leonor. Será que lá na selva há muito pernilongo? Eles são o meu suplício, você sabe.
Olhe esta lista, coça a testa o Tigre Collazos. Quarenta e três grávidas em menos de um ano. Os capelães do padre Beltrán casaram umas vinte, mas, é claro, o problema exige medidas mais radicais que os casamentos forçados. Até agora, castigos e vinganças não mudaram o panorama: todo soldado que chega na selva vira logo um porra-louca. Mas você parece o mais desanimado com este lugar, meu amor, começa a abrir e sacudir as malas Pochita. Porquê, Panta? Deve ser o calor, o clima, não acha?, se anima o Tigre Collazos. Pode ser, general, gagueja o capitão Pantoja. A humidade morna, essa exuberância da natureza, passa a língua pelos lábios o Tigre Collazos. Sempre acontece comigo: é chegar na selva e começar a respirar fogo, sentir o sangue ferver». In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

terça-feira, 11 de abril de 2017

Cinco Esquinas. Mario Vargas Llosa. «Não, querida, respondeu-lhe a amiga: a ela, sim, não lhe tremia a voz nem parecia incómoda; estava como sempre, sem o menor rubor nas faces e um olhar absolutamente normal»

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O Sonho de Marisa
«(…) Marisa mergulhou a cara no emaranhado de cabelos que separava com movimentos de cabeça, até encontrar o pescoço e as orelhas de Chabela, e agora beijava-as, lambia as e mordiscava com prazer, já sem pensar em nada, cega de felicidade e de desejo. Uns segundos ou minutos depois, Chabela tinha dado a volta e ela mesma lhe procurava a boca. Beijaram-se com avidez e desespero, primeiro nos lábios e, depois, abrindo as bocas, confundindo as suas línguas, trocando as suas salivas, enquanto as mãos de cada uma tirava, arrancavam, à outra a camisa de dormir até ficarem nuas e enredadas; giravam de um lado para o outro, acariciando os seios, beijando-os, e depois as axilas e os ventres, enquanto cada uma trabalhava o se… da outra e sentiam-nos palpitar num tempo sem tempo, tão infinito e tão intenso. Quando Marisa, aturdida, saciada, sentiu, sem poder evitar, que mergulhava num sono irresistível, conseguiu dizer a si própria que durante toda aquela extraordinária experiência que acabava de acontecer nem ela nem Chabela, que parecia agora também arrebatada pelo sono, tinham trocado uma única palavra. Quando mergulhava num vazio sem fundo pensou de novo no toque de recolher e julgou ouvir uma explosão distante.
Horas mais tarde, quando acordou, a luz acinzentada do dia entrava pelo quarto um pouco coada pelas persianas e Marisa estava sozinha na cama. A vergonha estremecia-a dos pés à cabeça. Aquilo tinha verdadeiramente acontecido? Não era possível, não, não. Mas sim, claro que tinha acontecido. Ouviu então um barulho na casa de banho e, assustada, fechou os olhos, simulando dormir. Entreabriu-os e, através das pestanas, avistou Chabela já vestida e arranjada, prestes a partir. Marisita, mil perdões, acordei-te. Ouviu-a dizer com a voz mais natural do mundo. Que ideia!, balbuciou, convencida de que mal se lhe ouvia a voz. Já te vais embora? Não queres tomar antes o pequeno-almoço?
Não, querida, respondeu-lhe a amiga: a ela, sim, não lhe tremia a voz nem parecia incómoda; estava como sempre, sem o menor rubor nas faces e um olhar absolutamente normal, sem pitada de malícia nem picardia nos seus grandes olhos escuros e com o cabelo preto um pouco alvoroçado. Vou a correr para apanhar as miúdas antes de elas saírem da escola. Mil agradecimentos pela hospitalidade. Depois falamos, um beijinho. Atirou-lhe um beijo da porta do quarto e foi-se embora. Marisa encolheu-se, espreguiçou-se, esteve quase a levantar-se, mas voltou a encolher-se e a tapar-se com os lençóis. Claro que aquilo tinha acontecido, e a melhor prova disso é que estava nua, e a sua camisa de dormir enrugada, meio caída da cama. Levantou os lençóis e riu-se vendo que a camisa de dormir que tinha emprestado a Chabela estava também ali, um montinho aos seus pés. Irrompeu num riso que parou de repente. Meu Deus, meu Deus. Sentia-se arrependida? De todo. Que grande presença de espírito tem Chabela! Teria ela feito destas coisas, antes? Impossível.
Conheciam-se há tanto tempo, sempre haviam contado tudo uma à outra, se Chabela tivesse tido alguma vez uma aventura desta índole ter-lha-ia confessado. Ou será que não? A amizade delas mudaria por isto? Claro que não. Chabelita era a sua melhor amiga, mais que uma irmã. Como seria dali em diante a relação entre as duas? A mesma de antes? Agora tinham um segredo tremendo para partilhar. Meu Deus, meu Deus, não conseguia acreditar que aquilo tivesse acontecido. Toda a manhã, enquanto tomava banho, se vestia, tomava o pequeno-almoço, dava instruções à cozinheira, ao mordomo e à empregada, revoluteavam-lhe na cabeça as mesmas perguntas: fizeste o que fizeste, Marisita?» In Mario Vargas Llosa, Cinco Esquinas, Quetzal Editores, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-722-288-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Cinco Esquinas. Mario Vargas Llosa. «Quando voltou ao quarto, Chabela já a trazia vestida; era semitransparente, deixava-lhe os braços, as pernas…»


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O Sonho de Marisa
«(…) Movendo-se muito ligeiramente, com o coração agitadíssimo, simulando uma respiração que se parecesse com a do sono, virou-se um pouco de lado, de modo que, mesmo não lhe tocando, sentiu que agora sim, estava apenas a milímetros das costas, das nádegas e das pernas de Chabela. Ouvia melhor a respiração dela e julgava sentir um bafo recôndito que emanava daquele corpo tão próximo, chegava até ela e a envolvia. Apesar de tudo, como se não se apercebesse do que fazia, moveu muito lentamente a mão direita e poisou-a sobre a coxa da sua amiga. Bendito toque de recolher, pensou. Sentiu que o seu coração se acelerava: Chabela ia acordar, ia retirar-lhe a mão: afasta-te, não me toques, estás maluca? O que é que te deu? Mas Chabela não se mexia e parecia sempre mergulhada num sono profundo. Sentiu-a inspirar e expirar, teve a impressão de que aquele ar vinha na sua direcção, entrava-lhe pelas narinas e pela boca e lhe aquecia as entranhas. Por momentos, no meio da sua excitação, que absurdo!, pensava no toque de recolher, nos apagões, nos sequestros, sobretudo o de Cachito, e nas bombas dos terroristas. Que país, que país!
Sob a sua mão, a superfície daquela coxa era firme e suave, ligeiramente húmida, talvez devido à transpiração ou a algum creme. Será que Chabela tinha posto antes de se deitar algum dos cremes que Marisa tinha na casa de banho? Ela não a vira despir-se; emprestou-lhe uma camisa de dormir das suas, muito curta, e ela tinha-se mudado no quarto de vestir. Quando voltou ao quarto, Chabela já a trazia vestida; era semitransparente, deixava-lhe os braços, as pernas e um pouco da nádega despidos, e Marisa recordava ter pensado: que corpo bonito, como está bem conservada apesar das duas filhas, são as idas ao ginásio três vezes por semana. Tinha continuado a mover-se milimetricamente, sempre com o receio crescente de acordar a amiga; agora, aterrada e feliz, sentia que, por momentos, ao ritmo da sua respectiva respiração, partes da coxa, nádega, das pernas de ambas se roçavam e, logo a seguir, se afastavam. Ainda acaba por acordar, Marisa, estás a fazer uma loucura. Mas não retrocedia e continuava a esperar, o que é que esperava?, como que em transe, o próximo toque fugaz. A sua mão direita continuava pousada na coxa de Chabela, e Marisa apercebeu-se de que tinha começado a transpirar. Nisto, a sua amiga mexeu-se. Julgou que o seu coração ia parar. Por uns segundos deixou de respirar; fechou os olhos com força, simulando dormir. Chabela, sem se mover do sítio, tinha levantado o braço e agora Marisa sentiu que sobre a sua mão apoiada na coxa dela se poisava a mão de Chabela. Retirar-lha-ia bruscamente? Não, pelo contrário, com suavidade, dir-se-ia até que com carinho, Chabela, entrecruzando os seus dedos nos dela, arrastava. agora a mão com uma leve pressão, sempre colada à pele, para o meio das suas pernas. Marisa nem acreditava no que estava a acontecer. Sentia nos dedos da mão que Chabela agarrava os pêlos de um púbis ligeiramente levantado e a concavidade molhada, palpitante, contra a qual ela a pressionava.
Tremendo dos pés à cabeça, Marisa pôs-se de 1ado, encostou os seios, o ventre, as pernas contra as costas, às nádegas e pernas da amiga, ao mesmo tempo que com os seus cinco dedos lhe esfregava o sexo, tentando localizar o pequeno clí…, esgravatando, separando aqueles lábios molhados do seu sexo inchado pela ansiedade, sempre guiada pela mão de Chabela, a quem também sentia a tremer, acoplando-se ao seu corpo, ajudando-a a enredar-se e a fundir-se com ela». In Mario Vargas Llosa, Cinco Esquinas, Quetzal Editores, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-722-288-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

domingo, 5 de fevereiro de 2017

A Guerra do Fim do Mundo. Mario Vargas Llosa. «Ao entrar no pequeno despacho, lotado de papéis, periódicos e propaganda do Partido Republicano Progressista, Um Brasil Unido, Uma Nação Forte, está esperando-o um homem que o olha com uma curiosidade risonha»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Os vaqueiros e os peões do interior escutavam-no em silêncio, intrigados, atemorizados, comovidos; e assim o escutavam os escravos e os libertos dos engenhos do litoral; as mulheres; os pais; os filhos de uns e de outros. Alguma vez alguém, mas rara vez porque a sua seriedade, a sua voz cavernosa ou a sua sabedoria os intimidava, o interrompia para esclarecer uma dúvida. Terminaria o século? Chegaria o mundo a 1900? Ele respondia sem olhar, com uma segurança tranquila e, frequentemente, com enigmas. Em 1900 se apagariam as luzes e choveriam estrelas. Mas, antes, ocorreriam feitos extraordinários. Um silêncio seguia a sua voz, no que se ouvia crepitar as fogueiras e o bordear de quão insectos as chamas devoravam, enquanto os aldeãos, contendo a respiração, esforçavam de antemão a memória para recordar o futuro. Em 1896 um milhar de rebanhos correriam da praia por volta do sertão; e o mar viraria sertão, e o sertão mar. Em 1897 o deserto se cobriria de pasto, pastores e rebanhos se mesclariam e a partir de então haveria um só rebanho e um só pastor. Em 1898 aumentariam os chapéus e diminuiriam as cabeças e em 1899 os rios se tornariam vermelhos e um planeta novo cruzaria o espaço. Havia, pois, que se preparar. Teriam que restaurar a igreja e o cemitério, a mais importante construção depois da casa do Senhor, pois era sala de espera do céu ou do inferno, e teriam que destinar o tempo restante ao essencial: à alma. Acaso partiriam o homem ou a mulher lá com saias, vestidos, chapéus de feltro, sapatos de cordão e todos esses luxos de lã e de seda que não vestiu alguma vez o Bom Jesus? Eram conselhos práticos, singelos. Quando o homem partia, falava-se dele: que era santo, que tinha feito milagres, que tinha visto a sarça ardente no deserto, igual a Moisés, e que uma voz lhe tinha revelado o nome impronunciável de Deus. E se comentavam os seus conselhos. Assim, antes de que terminasse o Império e depois de começada a República, os aldeãos de Tucano, Soure, Amparo e Pombal, foram escutando-os; e, mês a mês, ano a ano, foram ressuscitando de suas ruínas as igrejas do Bom Conselho, de Geremoabo, de Massacará e do Inhambupe; e, segundo os seus ensinos, surgiram taipas e nichos nos cemitérios de Monte Santo, de Entre Rios, de Abadia e do Barracão; e a morte foi celebrada com dignos enterros no Itapicurú, Cumbe, Natuba, Mocambo. Mês a mês, ano a ano, foram-se povoando de conselhos as noites do Alagoinhas, Uauá, Jacobina, Itabaiana, Campos, Itabaianinha, Gerú, Riachão Lagarto, Simão Dias. A todos pareciam bons conselhos e por isso, ao princípio num, logo em outro e no final em todos os povos do Norte, ao homem que os dava, embora o seu nome fosse Antonio Vicente e seu sobrenome Mendes Maciel, começaram a chamá-lo o Conselheiro.
Uma grade de madeira separa os redactores e empregados do Jornal de Notícias, cujo nome destaca, em caracteres góticos, sobre a entrada, da gente que se chega até ali para publicar um aviso ou trazer uma informação. Os jornalistas não são mais de quatro ou cinco. Um deles revisa um arquivo embutido na parede; dois conversam animadamente, sem jaquetas mas com colarinhos duros e gravatas-borboletas de laço, junto a um calendário no que se lê a data, Outubro, segunda-feira, 2, 1896,  e outro, jovem, desajeitado, com grossos óculos de míope, escreve sobre uma carteira com uma pluma de ganso, indiferente ao que ocorre em torno dele. Ao fundo, depois de uma porta de cristais, está a Direcção. Um homem com viseira e punhos postiços atende uma fila de clientes no mostrador dos Avisos Pagos. Uma senhora acaba de lhe alcançar um cartão. A caixa, molhando o indicador, conta as palavras, Clisteres Giffoni// Curam as Gonorréias, as Hemorróides, as Flores Brancas e todas as moléstias das Vias Urinarias// Prepara-as Madame A. De Carvalho// Rua Primeiro de Março N.8, e diz um preço. A senhora paga, guarda o troco e, quando se retira, quem esperava atrás dela adianta-se e estira um papel à caixa. Vestido de escuro, com uma levita de duas pontas e um chapéu-coco que denotam uso. Uma anelada cabeleira avermelhada lhe cobre as orelhas. É mais alto que baixo, de largas costas, sólido, maduro. A caixa conta as palavras do aviso, deixando deslizar o dedo sobre o papel. De repente, enruga a testa, levanta o dedo e aproxima muito o texto aos olhos, como se temesse ter lido mal. Por fim, olha perplexo ao cliente, que permanece feito uma estátua. O caixa pestaneja, incómodo, e, por fim, indica ao homem que espere. Arrastrando os pés, cruzando o local, com o papel balançando-se na mão, toca com os nódulos o cristal da Direcção e entra. Uns segundos depois reaparece e por gestos indica ao cliente que passe. Logo, retorna a seu trabalho. O homem de escuro atravessa o Jornal de Notícias fazendo soar os tacos como se calçasse ferraduras. Ao entrar no pequeno despacho, lotado de papéis, periódicos e propaganda do Partido Republicano Progressista, Um Brasil Unido, Uma Nação Forte, está esperando-o um homem que o olha com uma curiosidade risonha, como a um insecto estranho. Ocupa o único escritório, usa botas, um traje cinza, e é jovem, moreno, de ares enérgicos. Sou Epaminondas Gonçalves, o Director do periódico, diz, Adiante.
O homem de escuro faz uma ligeira vênia e leva a mão ao chapéu, mas não o tira nem diz uma palavra. Você pretende que publiquemos isto?, pergunta o Director, agitando o papel. O homem de escuro assente. Tem uma barbicha avermelhada como seus cabelos, e seus olhos são penetrantes, muito claros; sua boca larga está franzida com firmeza e as narinas de seu nariz, muito abertas, parecem aspirar mais ar de que necessitam. Caso não custe mais de dois mil réis, murmura num português dificultoso É todo o meu capital». In Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo, 1981, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-392-2.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

A Guerra do Fim do Mundo. Mario Vargas Llosa. «Dava os seus conselhos ao entardecer, quando os homens retornaram do campo e as mulheres tinham acabado os afazeres domésticos e as criaturas estavam já dormindo»

Cortesia de wikipedia e jdact

«O homem era alto e tão fraco que parecia sempre de perfil. Sua pele era escura, seus ossos proeminentes e seus olhos ardiam com fogo perpétuo. Calçava sandálias de pastor e a túnica morada que lhe caía sobre o corpo recordava o hábito desses missionários que, de quando em quando, visitavam os povos do sertão baptizando multidões de meninos e casando aos casais amancebados. Era impossível saber a sua idade, a sua procedência, a sua história, mas algo havia na sua cara tranquila, em seus costumes frugais, em sua imperturbável seriedade que, até antes de que desse conselhos, atraía às pessoas. Aparecia de improviso, ao princípio sozinho, sempre a pé, coberto pelo pó do caminho, cada certo número de semanas, de meses. Sua larga silhueta se recortava na luz crepuscular ou nascente, enquanto cruzava a única rua do povoado, os grandes limiares, com uma espécie de urgência. Avançava resolutamente entre cabras que balançavam os sinos, entre cães e meninos que lhe abriam passagem e o olhavam com curiosidade, sem responder às saudações das mulheres que já o conheciam e lhe faziam vénias e se apressavam a lhe trazer jarras de leite de cabra e pratos de farinha e feijão. Mas ele não comia nem bebia antes de chegar até à igreja do povo e comprovar, uma vez mais, uma e cem vezes, que estava rota, despintada, com as suas torres truncas e as suas paredes furadas e seus chãos levantados e seus altares roídos pelos vermes. Entristecia-lhe a cara com uma dor de retirante ao que a seca matou filhos e animais; privado de bens, abandonou sua casa, os ossos de seus mortos, para fugir, fugir, sem saber aonde. Às vezes chorava e no pranto o fogo negro de seus olhos recrudescia com brilhos terríveis. Imediatamente ficava a rezar. Mas não como rezam outros homens ou as mulheres: ele se estendia de bruços na terra, ou nas pedras, ou nas louças lascadas, frente aonde estava ou tinha estado ou deveria estar o altar, e ali orava, às vezes em silêncio, às vezes em voz alta, uma, duas horas, observado com respeito e admiração pelos vizinhos. Rezava o Credo, o Pai Nosso e as Avé-marias sabidos, e também outras rezas que ninguém tinha escutado antes mas que, ao longo dos dias, dos meses, dos anos, as pessoas iriam memorizando. Onde está o pároco?, ouviam-lhe perguntar, por que não há aqui um pastor para o rebanho? Pois, que nas aldeias não houvesse um sacerdote, causava pena tanto como a ruína das moradas do Senhor. Só depois de pedir perdão ao Bom Jesus pelo estado em que tinham sua casa, aceitava comer e beber algo, apenas uma demonstra do que os vizinhos se dedicavam em lhe oferecer até em anos de escassez. Consentia em dormir sob o tecto, em alguma das moradias que os sertanejos punham ao seu dispôr; mas, rara vez lhe viu repousar na rede, na cama ou colchão de quem lhe oferecia estalagem. Tombava-se no chão, sem manta alguma, e, apoiando em seu braço a cabeça de emaranhados cabelos cor azeviche, dormia umas horas. Sempre tão poucas que era o último a deitar-se e quando os vaqueiros e os pastores mais madrugadores saíam para o campo já o viam, trabalhando em estancar os muros e os telhados da igreja.
Dava os seus conselhos ao entardecer, quando os homens retornaram do campo e as mulheres tinham acabado os afazeres domésticos e as criaturas estavam já dormindo. Dava-os nesses descampados desmantelados e pedregosos que há em todos os povos do sertão, no cruzeiro de suas ruas principais e que se puderam chamar praças se tivessem bancos, pracinhas, jardins ou conservassem os que alguma vez tiveram e foram destruindo as secas, as pragas, o descuido. Dava-os a essa hora em que o céu do Norte do Brasil, antes de obscurecer-se e estelar se, flameja entre abundantes nuvens brancas, cinzas ou azuladas e há como um vasto fogo de artifício lá no alto, sobre a imensidão do mundo. Dava-os a essa hora em que se prendem as fogueiras para espantar os insectos e preparar a comida, quando diminui o bafo sufocante e se levanta uma brisa que põe as pessoas de melhor ânimo para suportar a enfermidade, a fome e os padecimentos da vida. Falava de coisas singelas e importantes, sem olhar a ninguém em especial da gente que o rodeava, ou melhor, olhando, com seus olhos incandescentes, através do coro de velhos, mulheres, homens e meninos, algo ou alguém que só ele podia ver. Coisas que se entendiam porque eram obscuramente sabidas desde tempos imemoriais e que alguém aprendia com o leite que mamava. Coisas actuais, tangíveis, quotidianas, inevitáveis, como o fim do mundo e o Julgamento Final, que podiam ocorrer talvez antes do que demorasse o povoado em repôr direita a capela abatida. O que ocorreria quando o Bom Jesus contemplasse o desamparo em que tinham deixado sua casa? O que diria do proceder desses pastores que, em vez de ajudar ao pobre, esvaziavam-lhe os bolsos lhe cobrando pelos serviços da religião? Podiam-se vender as palavras de Deus, não deviam dar-se de graça? Que desculpa dariam ao padre aqueles pais que, pese ao voto de castidade, faziam sexo? Podiam lhe inventar mentiras, acaso, a quem lia os pensamentos como lê o rasto na terra do jaguar? Coisas práticas, quotidianas, familiares, como a morte, que conduz à felicidade se se entrar nela com a alma limpa, como uma festa. Eram os homens animais? Se não o eram, deviam cruzar essa porta engalanados com o seu melhor traje, em sinal de reverência Àquele a quem foram encontrar. Falava-lhes do céu e também do inferno, a morada do Cão, empedrada de brasas e serpentes e de como o Demónio podia manifestar-se em inovações de semblante inofensivo». In Mario Vargas Llosa, A Guerra do Fim do Mundo, 1981, Publicações dom Quixote, 2010, ISBN 978-972-204-392-2.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Cinco Esquinas. Mario Vargas Llosa. «… somos um país de mexeriqueiros. Queremos conhecer os segredos das pessoas e, de preferência, os da cama. Por outras palavras, e perdão pela grosseria…»

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«Suponho que o senhor saiba isso de sobra: somos um país de mexeriqueiros. Queremos conhecer os segredos das pessoas e, de preferência, os da cama. Por outras palavras, e perdão pela grosseria, quem se enrola com quem e de que maneiras o fazem. Meter o nariz na intimidade das pessoas conhecidas. Dos poderosos, dos famosos, dos importantes. Políticos, empresários, desportistas, cantores, etc. E, se há alguém que sabe fazer isso, digo-lhe com toda a modéstia do mundo, sou eu.

O Sonho de Marisa
Tinha acordado ou continuava a sonhar? Aquele calorzinho no peito do pé direito estava sempre ali, uma sensação insólita que lhe eriçava todo o corpo e lhe revelava que não estava sozinha na cama. As recordações surgiam em tropel na sua cabeça, mas iam-se ordenando como palavras-cruzadas que se preenchem lentamente. Depois do almoço tinham estado divertidas e um pouco alegres por causa do vinho, passando do terrorismo aos filmes e aos mexericos sociais, quando, de repente, Chabela olhou para o relógio e se pôs de pé de um salto, pálida: o toque de recolher! Meu Deus, já não me vai dar tempo de chegar a La Rinconada! Não nos apercebemos das horas! Marisa insistira para que ficasse a dormir com ela. Não haveria problema, Quique tinha partido para Arequipa por causa da reunião de direcção logo de manhã cedo na fábrica de cervejas, eram donas do apartamento do Golf. Chabela ligou para o marido, Luciano, sempre tão compreensivo, que disse que não havia inconveniente, que ele se encarregaria de que as duas meninas saíssem pontualmente para apanhar o autocarro do colégio. Que Chabela ficasse mesmo em casa de Marisa, isso era preferíve1 a ser detida por uma patrulha se infringisse o toque de recolher. Maldito toque de recolher. Mas, claro, o terrorismo era pior.
Chabela ficara a dormir e, agora, Marisa sentia a planta do pé dela sobre o peito do seu pé direito: uma leve pressão, uma sensação suave, morna, delicada. Como é que tinha acontecido estarem tão perto uma da outra naquela cama de casal tão grande que, ao vê-la, Chabela brincara: mas, vamos lá ver, Marisita, queres-me dizer quantas pessoas é que dormem nesta cama gigante? Lembrou-se de que ambas se tinham deitado nos seus respetivos cantos, separadas pelo menos por meio metro de distância. Qual delas havia deslizado tanto no sono ao ponto de o pé de Chabela estar agora poisado sobre o peito do seu pé? Não se atrevia a mexer-se. Aguentava a respiração para não acordar a amiga, não fosse ela retirar o pé e desaparecer aquela sensação tão grata que, do peito do seu pé, se expandia pelo resto do corpo e a mantinha tensa e concentrada. Pouco a pouco foi entrevendo, na escuridão do quarto, algumas ranhuras de luz nas persianas, a sombra da cómoda, a porta do quarto de vestir, a da casa de banho, os retângulos dos quadros das paredes, o deserto com a serpente-mulher de Tilsa, a câmara com o totem de Szyszlo, o candeeiro de pé, a escultura de Berrocal. Fechou os olhos e escutou: muito fraca, mas ritmada, era assim a respiração de Chabela. Estava a dormir, talvez a sonhar, e fora ela então, sem dúvida, quem se aproximara durante o sono do corpo da sua amiga.
Surpreendida, envergonhada, perguntando-se de novo se estava acordada ou a sonhar, Marisa tomou por fim consciência do que o seu corpo já sabia: estava excitada. Aquela delicada planta do pé a aquecer-lhe o peito do pé acendera-lhe a pele e os sentidos e, de certeza, se deslizasse uma das suas mãos por entre as coxas iria encontrá-1a molhadinha. Estás maluca?, disse para si própria. Excitares-te com uma mulher? Como é que é isso, Marisita? Tinha-se excitado sozinha muitas vezes, claro, e tinha-se masturbado também às vezes, esfregando uma almofada entre as pernas, mas sempre a pensar em homens. Que ela se recordasse, com uma mulher, jamais! No entanto, agora estava a tremer dos pés à cabeça e com uma vontade louca de que não só os seus pés se tocassem como também os seus corpos, e sentisse, como aquele peito do pé, por todo o lado a proximidade e o calor morno da amiga». In Mario Vargas Llosa, Cinco Esquinas, Quetzal Editores, Lisboa, 2016, ISBN 978-989-722-288-7.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

sábado, 2 de julho de 2016

Travessuras da Menina Má. Mario Vargas Llosa. «A mais alta parecia ser mais nova e vice-versa. A mais velha chamava-se Lily e era um pouco mais baixinha que Lucy, que tinha um ano menos. Lily devia estar com 14 ou 15 anos, no máximo»


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«Foi um Verão fabuloso. Pérez Prado e sua orquestra de 12 professores vieram animar os bailes de carnaval do Clube Terrazas de Miraflores e do Lawn Ténis de Lima, houve um campeonato nacional de mambo, na Praça de Acho, com grande sucesso apesar da ameaça do cardeal Juan Gualberto Guevara, o arcebispo de Lima, de excomungar todos os casais participantes, e meu bairro, o Bairro Alegre das ruas miraflorenses Diego Ferré, Juan Fanning e Colón, disputou um torneio de futsal, ciclismo, atletismo e natação contra o bairro da Rua San Martín e, naturalmente, ganhamos. Coisas extraordinárias aconteceram naquele Verão de 1950. Cojinoba Lafias se declarou pela primeira vez a uma garota, a ruiva Seminauel, e ela, para surpresa de todo Miraflores, disse que sim. Cojinoba esqueceu que era manco e a partir de então andava pelas ruas estufando o peito feito um Charles Atlas. Tico Tiravante desmanchou com a Ilse e se declarou à Laurita, Victor Ojeda se declarou à Ilse e desmanchou com a Inge, Juan Barreto se declarou à Inge e desmanchou com a Ilse. Houve tanta recomposição sentimental no bairro que estávamos todos meio zonzos, os namoros se desfaziam e refaziam e, aos sábados, os casais que saíam das festas nem sempre eram os mesmos que tinham entrado. Que sem-vergonhice!, dizia escandalizada minha tia Alberta, com quem eu morava desde a morte dos meus pais. As ondas nas praias de Miraflores rebentavam duas vezes, a primeira bem longe, a 200 metros da praia, e os mais valentes de nós iam até lá para descê-las de peito, e deslizávamos uns 100 metros até onde as ondas morriam e se reconstituíam em garbosos movimentos e então estouravam de novo, numa segunda arrebentação que nos empurrava, como navegantes de ondas que éramos, até às pedrinhas da praia. Naquele Verão extraordinário, nas festas de Miraflores todo mundo parou de dançar valsas, corridos, blues, boleros e huarachas, porque o mambo arrasou, O mambo, um terremoto que fazia todos os casais infantis, adolescentes e maduros se sacudirem, balançando, pulando e fazendo firulas nas festas do bairro. E certamente acontecia o mesmo fora de Miraflores, para além do mundo e da vida, em Lince, Brefla, Chorrillos, ou nos ainda mais exóticos bairros de La Victoria, o centro de Lima, o Rímac e o Porvenir, onde nós, miraflorenses, nunca tínhamos pisado nem pensávamos pisar jamais. E assim como havíamos passado das valsinhas e huarachas, dos sambas e das polcas para o mambo, também passamos dos patins e patinetes para a bicicleta, e alguns, Tato Monje e Tony Espejo por exemplo, para a moto e até mesmo, um ou dois rapazes, para o automóvel, como o grandalhão do bairro, Luchín, que às vezes roubava o Chevrolet conversível do pai e nos levava para dar uma volta pelo cais, de Terrazas até a quebrada de Armendáriz, a cem por hora. Mas o facto mais notável daquele Verão foi a chegada a Miraflores, directamente do Chile, seu distante país, de duas irmãs cuja presença marcante e inconfundível jeito de falar, rapidinho, esquecendo as últimas sílabas das palavras e arrematando as frases com uma exclamação aspirada que soava como um pueh, deixaram abobalhados todos os miraflorenses que acabavam de trocar as calças curtas pelas compridas. E eu, mais do que qualquer outro. A mais alta parecia ser mais nova e vice-versa. A mais velha chamava-se Lily e era um pouco mais baixinha que Lucy, que tinha um ano menos. Lily devia estar com 14 ou 15 anos, no máximo, e Lucy, com 13 ou 14. O adjectivo marcante parecia ter sido inventado para elas, mas, sem deixar de sê-lo, Lucy era menos marcante que a irmã, não só porque seu cabelo era menos louro e mais curto e se vestia com menos atrevimento que Lily, mas também porque era mais calada e, na hora de dançar, apesar de também fazer firulas e requebrar a cintura com uma audácia que nenhuma miraflorense se atreveria a assumir, parecia uma garota recatada, inibida e quase insípida em comparação com aquele pião, aquela labareda ao vento, aquele fogo-fátuo que era Lily quando, colocados os discos no prato, o mambo explodia e começávamos todos a dançar. Lily dançava num ritmo saboroso e cheio de graça, sorrindo e cantarolando a letra da canção, erguendo os braços, mostrando os joelhos e balançando a cintura e os ombros de tal maneira que todo o seu corpinho, modelado com tanta malícia e tantas curvas pelas saias e blusas que usava, parecia se encrespar, vibrar e participar do baile dos pés à cabeça. Quem dançava um mambo com ela sempre se saía mal porque, como acompanhá-la sem se atrapalhar no turbilhão endiabrado daquelas pernas e pezinhos saltitantes? Impossível! Você ficava constrangido desde o início, e totalmente consciente de que os olhos de todos os casais estavam concentrados nas façanhas mambeiras de Lily. Que menina!, indignava-se a tia Alberta, dança como uma Tongolele, parece uma rumbeira de filme mexicano. Bem, não vamos esquecer que é chilena, insistia, e o forte das mulheres desse país não é a virtude. Eu me apaixonei por Lily feito um bezerro, a forma mais romântica de se apaixonar, também se dizia queimar feito um tição, e naquele Verão inesquecível me declarei três vezes a ela. A primeira, depois da matiné de domingo, no balcão do Ricardo Palma, aquele cinema que ficava no Parque Central de Miraflores, e ela me disse que não, porque ainda era muito nova para ter namorado. A segunda, na pista de patinação inaugurada justamente naquele Verão perto do Parque Salazar, e ela também não me aceitou, precisava pensar, porque, por mais que gostasse um pouquinho de mim, seus pais lhe pediram para não arrumar namorado antes de terminar o quarto ano e ela ainda estava no terceiro». In Mario Vargas Llosa, Travessuras da Menina Má, Publicações dom Quixote, 2006, ISBN 978-972-203-146-2.

Cortesia de PdomQuixote/JDACT

domingo, 17 de abril de 2016

O Sonho do Celta Mario Vargas Llosa. «A África não se fez para os fracos, disse ele por fim, como se falasse consigo mesmo. As coisas que o preocupam são um sinal de fraqueza»

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O Congo
«(…) Poderei tomar um banho, hoje?, perguntou ele, antes de entrar. O obeso carcereiro negou com a cabeça, olhando-o nos olhos com a mesma repugnância que Roger tinha notado no olhar do estagiário. Não poderá tomar banho até ao dia da execução, disse o xerife, saboreando cada palavra. E, nesse dia, só se for a sua última vontade. Outros, em vez do banho, preferem uma boa refeição. Um mau negócio para mr. Ellis, porque então, quando sentem a corda, cagam-se. E deixam o lugar feito uma porcaria. Mr. Ellis é o verdugo, para o caso de não saber. Quando sentiu a porta fechar-se arrás de si, foi deitar-se de barriga para cima no pequeno catre. Fechou os olhos. Teria sido bom sentir a água fria daquele cano a arrepiar-lhe a pele e a azulá-la de frio. Na prisão de Pentonville, os réus, com excepção dos condenados à morte, podiam tomar banho com sabão uma vez por semana naquele jorro de água fria. E as condições das celas eram sofríveis. Em contrapartida, recordou com um calafrio a sujidade do cárcere de Brixton, onde se tinha enchido de piolhos e pulgas que pululavam no colchão do seu catre e o tinham coberto de picadas nas costas, nas pernas e nos braços. Procurava pensar nisso, mas voltavam várias vezes à sua memória a cara descontente e a voz odiosa do louro estagiário ataviado como um janota que maitre Gavan Duffy lhe tinha enviado em vez de vir ele em pessoa dar-lhe as más notícias.
Do seu nascimento, a 1 de Setembro de 1864, em Doyle's Cottage, Lawson Terrace, no subúrbio Sandycove de Dublin, não se lembrava de nada, é claro. Embora sempre tenha sabido que tinha sido dado à luz na capital da Irlanda, uma boa parte da sua vida deu como assente o que o seu pai, o capitão Roger Casement, que tinha servido oito anos com distinção no Terceiro Regimento de Dragões Ligeiros, na Índia, lhe inculcou; que o seu verdadeiro berço era o condado de Antrim, no coração do Ulster, na Irlanda protestante e pró-britânica, onde a linhagem dos Casement estava estabelecida desde o século XVIII. Roger foi criado e educado como anglicano da Igreja Irlandesa, tal como os seus irmãos Agnes (Nina), Charles e Tom, os três mais velhos que ele, mas intuiu, ainda antes de ter o uso da razão, que em matéria de religião nem tudo na sua família
era tão harmonioso como no resto. Até para um menino de poucos anos era impossível não reparar que a mãe, quando estava com as suas irmãs e primos da Escócia, agia de maneira que parecia esconder alguma coisa. Já adolescente, descobriria que, Anne Jephson, embora aparentemente, se tinha convertido ao protestantismo para casar com o seu pai, e às escondidas do marido continuava a ser católica (papista teria dito o capitão Casement), confessando-se, ouvindo missa e comungando, e, no mais cioso dos segredos, ele próprio tinha sido baptizado como católico quando fez quatro anos, durante uma viagem de férias que ele e os seus irmãos fizeram com a mãe a Rhyl, no Norte do País de Gales, e casa das rias e tios maternos que lá viviam.
Naqueles anos. em Dublin, ou nos períodos que passaram em Londres e em Jersey, Roger não lhe interessava nada a religião, ainda que, para não desgostar o pai, durante o ofício dominical rezasse, cantasse e seguisse o serviço com respeito. A mãe havia-lhe dado aulas de piano e tinha uma voz clara e temperada que costumava granjear-lhe aplausos nas reuniões familiares em que entoava velhas baladas irlandesas. O que verdadeiramente lhe interessava naquele tempo eram as histórias que, quando estava bem-disposto, o capitão Casement lhe contava a ele e aos seus irmãos. Histórias da Índia e do Afeganistão, sobretudo as suas batalhas contra os Afegãos e os Siques. Aqueles nomes e paisagens exóticos, aquelas viagens atravessando florestas e montanhas que escondiam tesouros, feras, alimárias, povos antiquíssimos de estranhos costumes, deuses bárbaros, disparavam-lhe a imaginação. Os seus irmãos, às vezes, aborreciam-se com aqueles relatos, mas o pequeno Roger poderia ter passado horas e dias a escutar as aventuras do seu pai nas remotas fronteiras do Império». In Mario Vargas Llosa, O Sonho do Celta, 2010, tradução de Cristina Rodriguez, Quetzal Editores, Lisboa, 2010, ISBN 978-972-564-919-0.

Cortesia de QuetzalE/JDACT

sexta-feira, 18 de março de 2016

Pantaleão e as Visitadoras. Mario Vargas Llosa. «… que ela exigia a paródia e a gargalhada. Foi uma experiência libertadora, que me revelou, só então!, as possibilidades da brincadeira e do humor na literatura»

Cortesia de wikipedia e jdact

«A história baseia-se num facto real, um serviço de visitadoras organizado pelo Exército peruano para desafogar as ânsias sexuais das guarnições amazónicas, que conheci de perto em duas viagens à Amazónia, em 1958 e 1962, magnificado e distorcido até se transformar numa farsa truculenta. Por incrível que pareça, pervertido como eu estava pela teoria do compromisso na sua versão sartriana, tentei, a princípio, contar esta história a sério. Descobri que era impossível, que ela exigia a paródia e a gargalhada. Foi uma experiência libertadora, que me revelou, só então!, as possibilidades da brincadeira e do humor na literatura. Ao contrário dos meus livros anteriores, que me fizeram transpirar, escrevi este romance com facilidade, divertindo-me muito e lendo os capítulos, à medida que os terminava. Alguns anos depois de publicado o livro, com um sucesso de público que não tive antes nem voltei a ter, recebi um misterioso telefonema, em Lima: sou o capitão Pantaleão Pantoja, disse a enérgica voz. Gostaria de vê-lo para que me explique como soube de minha história. Recusei, fiel à minha crença de que os personagens da ficção não devem se intrometer na vida real». In Londres, 29 de Junho de 1999

«Acorde, Panta, diz Pochita. Já são oito horas. Panta, Pantita. Já, oito horas? Puxa, que sono, boceja Pantita. Costurou o meu galão? Sim, meu tenente, se perfila Pochita. Ai, desculpe, capitão. Até eu me acostumar você vai continuar sendo tenentinho, meu amor. Sim, costurei, ficou ótimo. Mas levante-se de uma vez, sua reunião não é às...? Às nove, sim, Pantita se ensaboa. Aonde vão nos mandar, Pocha? Passe a toalha, por favor. Para onde você acha,chola? Aqui, em Lima, contempla o céu cinzento, as varandas, os automóveis, os pedestres Pochita. Ai, fico com água na boca: Lima, Lima, Lima. Não sonhe, Lima nunca, que esperança, se olha no espelho, amarra a gravata Panta. Se fosse pelo menos uma cidade como Trujillo ou Tacna, eu ficaria feliz. Que engraçada esta notícia no El Comercio, franze o rosto Pochita. Em Leticia um sujeito se crucificou para anunciar o fim do mundo. Foi mandado para o manicómio mas as pessoas o tiraram à força porque acham que ele é santo. Leticia é a parte colombiana da selva, não é? Que boa-pinta você está como capitão, filhinho, põe a geleia, o pão e o leite na mesa a senhora Leonor. Agora é da Colômbia, mas antes era do Peru, tiraram de nós, passa manteiga numa torrada Panta. Um pouquinho mais de café, mamãe. Se nos mandassem de novo para Chiclayo, junta as migalhas num prato, tira a toalha a senhora Leonor. Afinal, lá estávamos muito bem, não é mesmo? Para mim, o principal é que não nos mandem para muito longe da costa. Vá, filhinho, boa sorte, com a minha bênção. Em nome do Pai e do Espírito Santo e do Filho que morreu na cruz , ergue os olhos para a noite, abaixa os olhos até as tochas o Irmão Francisco. Minhas mãos estão amarradas, a madeira é oferenda, façam por mim o sinal da cruz! O coronel López López está à minha espera, senhorita, diz o capitão Pantaleão Pantoja. E dois generais também, abre os olhinhos a senhorita. Pode entrar, capitão. Sim, essa aí, a porta marrom. Aqui está o homem, se levanta o coronel López López. Entre, Pantoja, parabéns por esse novo galão. A melhor nota no exame de promoção, e por unanimidade do júri, aperta sua mão, dá um tapinha no ombro o general Victoria. Muito bem, capitão, assim é que se faz carreira para o bem da Pátria. Sente-se, Pantoja, aponta para um sofá o general Collazos. Fique à vontade e segure-se bem para ouvir o que vai ouvir. Não o apavore, Tigre, move as mãos o general Victoria. Assim ele vai pensar que o estamos mandando para o matadouro. Os chefões da Intendência vieram pessoalmente lhe comunicar o seu novo destino, isto significa que a coisa não é tão simples, faz uma expressão grave o coronel López López. Sim, Pantoja, trata-se de um assunto bastante delicado. A presença destes chefes é uma honra para mim, bate o calcanhar no chão o capitão Pantoja. Caramba, o senhor me deixa intrigado, coronel. Quer fumar?, tira uma cigarreira, um isqueiro o Tigre Collazos. Mas não fique aí em pé, sente-se. Como, não fuma? Está vendo, desta vez o Serviço de Inteligência acertou, acaricia uma fotocópia o coronel López López. Isso mesmo: nem fumante, nem pau-d’água nem olho-grande. Um oficial sem vícios, se admira o general Victoria. Já temos alguém para representar as armas no Paraíso, junto com Santa Rosa e São Martín de Porres. Não exagerem, enrubesce o capitão Pantoja. Devo ter alguns defeitos desconhecidos. Sabemos do senhor mais que o senhor mesmo, apanha uma pasta e torna a largar na mesa o Tigre Collazos. Ficaria pasmo se soubesse quantas horas passamos estudando a sua vida. Sabemos o que fez, o que não fez e até o que vai fazer, capitão. Podemos recitar sua folha de serviço de cor, abre a pasta, embaralha fichas e formulários o general Victoria. Nem uma punição como oficial, e como cadete só meia dúzia de advertências leves. Por isso foi escolhido, Pantoja. Entre quase oitenta oficiais da Intendência, nada mais, nada menos, levanta uma sobrancelha o coronel López López. Pode ficar inchado feito um pavão. Agradeço o bom conceito que têm de mim, se embaça a vista do capitão Pantoja. Farei tudo o que puder para corresponder a essa confiança, coronel. O capitão Pantaleão Pantoja?, sacode o telefone o general Scavino. Não estou ouvindo direito. Para que o mandou, Tigre? O senhor deixou uma magnífica lembrança em Chiclayo, folheia um relatório o general Victoria. O coronel Montes estava doido para que ficasse lá. Parece que o quartel funcionava como um relógio graças ao senhor. Organizador nato, senso matemático da ordem, capacidade executiva, lê o Tigre Collazos. Conduziu a administração do regimento com eficácia e verdadeira inspiração. Nossa, o mestiço Montes se apaixonou pelo senhor. Tantos elogios me deixam confuso, abaixa a cabeça o capitão Pantoja. Só procurei cumprir o meu dever, apenas isso. O Serviço das... quê?, solta uma gargalhada o general Scavino. Nem você nem o Victoria vão conseguir me deixar de cabelo em pé, Tigre, esqueceram que sou calvo? Bem, vamos aos factos, sela os lábios com um dedo o general Victoria. Este assunto exige a mais absoluta reserva. Falo da missão que vamos lhe confiar, capitão. Solte os bichos, Tigre. Em poucas palavras, a tropa da selva está comendo as cholas, toma fôlego, pisca, tosse o Tigre Collazos. Há estupros a granel e os tribunais já nem conseguem julgar tanto safado. Toda a Amazónia está em alvoroço. Diariamente nos bombardeiam com informes e denúncias, belisca o queixo o general Victoria. Chegam comissões de protesto dos povoados mais perdidos. Seus soldados abusam das nossas mulheres, espreme o chapéu e perde a voz o prefeito Paiva Runhuí. Fizeram mal a uma cunhadinha minha há poucos meses, e na semana passada quase abusaram da minha própria esposa». In Mario Vargas Llosa, Pantaleão e as Visitadoras, 1974, Editora Objectiva, tradução de Paulina Wacht e Ari Roitman, Alfaguara, Prisa Edições, ePub, 2012, ISBN 978-857-962-175-8.

Cortesia de Alfaguara/JDACT

A tia Júlia e o Escrevedor. Mario Vargas Llosa. «A minha teoria erótico-biológica, para além do mais, deixou a tia Julia bem incrédula: acreditava de verdade nessa idiotice? Sou contra o casamento, disse-lhe com o ar mais pedante que consegui»

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«(…) Ao inclinar-me para a beijar, sussurrei ao ouvido da boliviana com toda a ironia do mundo: que boa conquista, Julita., Ela piscou-me o olho e concordou, Durante o almoço, o tio Pâncracio. depois de dissertar sobre a música crioula, na qual era perito, nas festas familiares tocava sempre um solo de cajón, virou-se para ela e, meloso como um gato, contou: a propósito, todas as quintas-feiras à noite actua a Peña Felipe Pinglo, em La Victoria, o coração do crioulismo. Gostarias de ouvir um pouco da verdadeira música peruana? A tia Julia, sem vacilar um segundo e com uma cara de desolação que acrescentava calúnia ao insulto, respondeu apontando para mim: olha que pena. O Marito convidou-me para ir ao cinema. O tio Pancracio curvou-se, com espírito desportivo: cedo a vez à juventude. Depois, quando ele se foi embora, eu achei que ia escapar porque a tia Olga perguntou: a história do cinema era só para se livrar do velho safado? Mas tia Julia corrigiu com ímpeto: nada disso, minha irmã, estou louca para ver a fita do Barranco que é imprópria para senhoritas. Virou-se para mim, que estava escutando como se decidissem o meu destino nocturno e, para me acalmar, acrescentou este primor: não te preocupes com o dinheiro, Marito. O convite é meu. E lá estávamos, andando pela escura ladeira da Quebrada de Armendáriz, pela larga avenida Grau, ao encontro de um filme que, além de tudo, era mexicano e se chamava Mãe e Amante.
O ruim de ser divorciada não é que todos os homens se achem na obrigação de fazer propostas, informou-me a tia Julia. Mas sim que por ser divorciada pensam que podem dispensar o romantismo. Não namoram, não fazem gentilezas, propõem a coisa directamente, às primeiras, com a maior vulgaridade. A mim enoja-me. Então, em vez de me levarem para dançar, prefiro vir ao cinema contigo. Agradeci pela parte que me tocava. São tão burros que acham que toda a divorciada é uma mulher da rua, continuou, sem se dar por achada. E, além disso, só pensam em fazer as coisas. Quando o bonito não é isso, mas sim apaixonarmo-nos, não é verdade? Expliquei para ela que o amor não existia, que era invenção de um italiano chamado Petrarca e dos trovadores provençais. Que isso que as pessoas acreditavam ser uma fonte cristalina de emoção, uma efusão pura do sentimento, era o desejo instintivo dos gatos no cio dissimulado por trás de palavras bonitas e mitos da literatura. Não acreditava em nada disso, mas queria ser interessante. A minha teoria erótico-biológica, para além do mais, deixou a tia Julia bem incrédula: acreditava de verdade nessa idiotice?  Sou contra o casamento, disse-lhe com o ar mais pedante que consegui. Sou partidário do que chamam de amor livre, mas que, se fôssemos honestos, deveríamos chamar simplesmente de cópula livre. Cópula quer dizer fazer as coisas? Ela riu. Mas na mesma hora fez uma cara decepcionada. No meu tempo, os rapazes escreviam acrósticos, mandavam flores para as meninas, precisavam de semanas para se atreverem a dar um beijo. O amor tornou-se uma porcaria com os parvalhões de hoje, Marito.
Tivemos um começo de briga na bilheteria para ver quem pagava a entrada e, depois de suportar uma hora e meia de Dolores del Rio gemendo, abraçando, gozando, chorando, correndo pela selva com os cabelos ao vento, regressámos para a casa do tio Lucho, também a pé, enquanto a chuva miudinha nos molhava o cabelo e a roupa. Então falámos de novo de Pedro Camacho. Tinha a certeza de nunca tinha ouvido falar dele? Porque, segundo Genaro filho, era uma celebridade boliviana. Não, não o conhecia nem de nome. Pensei que tinham passado a perna em Genaro, ou que, talvez, a suposta indústria radioteatral boliviana fosse uma invenção sua para lançar publicitariamente um plumífero aborígene. Três dias depois, conheci Pedro Camacho em carne e osso. Acabava de ter um incidente com Genaro pai, porque Pascual, com a sua incontrolável predilecção pelo atroz, havia dedicado todo o boletim das onze horas a um terremoto em Ispahan. O que irritava Genaro pai não era tanto que Pascual ter deixado para trás outras notícias, para referir, com profusão de detalhes, como os persas sobreviventes aos desmoronamentos eram atacados por serpentes que, ao explodirem os seus refúgios, surgiam à superfície coléricas e sibilantes, mas sim o terremoto ter ocorrido há uma semana. Tive de concordar que Genaro pai tinha razão e desabafei chamando irresponsável a Pascual. De onde havia tirado aquela história requentada? De uma revista argentina. E por que havia feito uma coisa tão absurda? Porque não havia nenhuma notícia de actualidade importante e essa, pelo menos, era divertida. Quando lhe explicava que não nos pagavam para divertir os ouvintes, mas sim para lhes dar um resumo das notícias do dia, Pascual, abanando a cabeça de forma conciliatória, opunha-me o seu argumento imbatível: acontece que temos concepções muito diferentes de jornalismo, senhor Mario». In Mario Vargas Llosa, A tia Júlia e o Escrevedor, 1977, tradução de Cristina Rodriguez, Publicações dom Quixote, 1988, 2008, ISBN 978-846-123-866-8.

Cortesia PdQuixote/JDACT