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terça-feira, 6 de abril de 2021

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Não menos de quinze homens a vigiavam, espetando com espadas os sacos de cereal que as carroças queriam desembarcar perto das cozinhas»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure

«(…) Um trecho antes de chegar à Porta Ticinese, o mais nobre dos acessos desse burgo, um amável mercador se ofereceu para me acompanhar até a torre de Filarete, a entrada principal da fortaleza do Mouro. Situado num dos extremos da urbe, o castelo dos Sforza parecia uma réplica em miniatura das enormes muralhas da cidade. O mercador riu ao ver minha cara de espanto. Disse que era curtidor em Cremona, um bom católico, e que me acompanharia com prazer até ao interior da fortaleza em troca da minha bênção para ele e sua família. Aceitei o acordo. O bom homem me deixou diante do castelo do duque exactamente à hora nona. Aquele lugar era ainda mais magnífico do que eu havia imaginado. Bandeirolas com a terrível insígnia dos Sforza, uma espécie de serpente gigante devorando um pobre infeliz, pendiam das ameias. Fitas azuis ondulavam ao vento, ao passo que meia dúzia de enormes chaminés, cravadas em algum lugar do interior da fortaleza, exalavam grandes lufadas de uma fumaça negra e densa. A entrada de Filarete constava de uma ameaçadora ponte levadiça e duas comportas rebitadas de bronze, dobradas sobre si mesmas. Não menos de quinze homens a vigiavam, espetando com espadas os sacos de cereal que as carroças queriam desembarcar perto das cozinhas.

Um daqueles homens uniformizados me indicou o caminho. Devia dirigir-me ao extremo oeste da torre, já dentro da fortaleza, e perguntar pela área de recepção de visitantes e o gabinete de luto que havia sido instalado para receber as delegações que viriam ao funeral de donna Beatrice. Meu cicerone de Cremona já me havia advertido de que toda a cidade pararia quando chegasse esse momento. E, de facto, a essa hora não havia muita actividade. Fiquei surpreso ao ver que o secretário do Mouro, um espigado cortesão de rosto inexpressivo, não demorou a me receber. O servidor se desculpou por não poder conduzir este servo de Deus até ao seu senhor. Ainda assim, examinou minha carta de apresentação com ar céptico, comprovou que o selo pontifício era verdadeiro e a devolveu acompanhada de um gesto de desolação. Lamento, padre Leyre, Marchesino Stanga, assim se chamava, desmanchou-se numa torrente de desculpas. Deve entender que o meu senhor não receba ninguém após a morte da sua esposa. Suponho que possa imaginar o difícil momento que atravessamos e a necessidade que tem o duque de ficar sozinho. Claro, assenti com fingida cortesia.

Não obstante, acrescentou, quando passar o luto, eu lhe transmitirei a notícia da sua presença na cidade. Eu teria gostado de poder olhar nos olhos do Mouro e deduzir, como em tantos interrogatórios que havia presenciado, se ocultavam ou não as sinistras sombras da heresia ou do crime. Mas aquele servidor com um adorno de cabeça grená guarnecido de peles e gibão de veludo, que falava com ares de mesquinha superioridade, estava decidido a me impedir: também não podemos abrigá-lo, como é nosso costume, disse com secura.

O castelo está fechado e não recebemos hóspedes. Eu vos rogo, padre, que reze pela alma de donna Beatrice e que regresse passados os funerais. Então, nós o receberemos como o senhor merece. Requiescat in pace, murmurei enquanto me persignava. Assim farei. Também rezarei por vocês. Tive uma sensação estranha. Sem possibilidade de me acomodar perto do duque e sua família, frustrado no meu propósito de deambular com mais ou menos liberdade pelo seu castelo, minhas primeiras investigações tomariam mais tempo. Tinha de conseguir um alojamento discreto que me garantisse algum ambiente de estudo. Com os documentos de Torriani queimando na minha bolsa, precisaria de calma, três pratos de comida quente ao dia e uma boa dose de sorte para conseguir decifrar o seu segredo. Não era sensato que um frade buscasse pousada entre os laicos, de modo que minhas opções logo se reduziram a duas: ou me instalava no veterano convento de Santo Eustórgio ou no novíssimo de Santa Maria delle Grazie, onde a possibilidade de cruzar com o Áugure excitava a minha imaginação. Depois, com o tecto resolvido, teria tempo de me dedicar ao enigma que o mestre Torriani havia me entregue em Betânia.

Reconheço que a Divina Providência fez um trabalho exemplar. Santo Eustórgio logo se revelou como a pior das opções. Situado muito perto da catedral, junto ao mercado, costumava estar cheio de curiosos que não tardariam a se perguntar que tipo de assunto mantinha ali um inquisidor romano. Embora a sua localização pudesse dar-me certa perspectiva sobre as actividades do Áugure, poupando-me do risco de encontrá-lo cara a cara sem saber de quem se tratava, também sabia que me oferecia mais inconvenientes que vantagens. Quanto à outra opção, a de Santa Maria delle Grazie, além de ser o suposto refúgio do meu objectivo, só apresentava outro pequeno, mas superável, defeito: ali iam ser celebradas as multitudinárias exéquias de donna Beatrice. Sua igreja, reformada havia pouco tempo por Bramante, estava prestes a se transformar no foco de todos os olhares». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

JDACT, Javier Sierra, Literatura, Florença, Conhecimentos, 

sábado, 12 de outubro de 2019

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Naturalmente, obedeci, que outra coisa podia fazer? Cheguei a Milão passada a noite dos Reis Magos»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) O mestre indicou o pergaminho que encabeçava aqueles papéis. Nele, em caracteres grandes escritos com tinta vermelha, lia-se o enigma que continha a assinatura de nosso informante. Eu o havia visto muitas vezes, fechava cada uma das cartas do Áugure; mas, até esse momento, não lhe havia dado atenção. A minha vista quis se ofuscar ao pairar sobre aquelas sete linhas e sentir que se haviam transformado no meu principal problema. Diziam:

Oculos ėjus ḋinumera,
ṡed noli voltum ȧdspicere.
In latere nominis
mei notam rinvenies.
Contemplari et contemplata
aliis ṫradere.
Veritas

Naturalmente, obedeci, que outra coisa podia fazer? Cheguei a Milão passada a noite dos Reis Magos. Era uma dessas manhãs de sábado nas quais o brilho da neve nos cega e o ar limpo esfria sem piedade as nossas entranhas. Eu havia cavalgado sem descanso para chegar a meu destino, dormindo três a quatro horas em pousadas nauseabundas, intumescido e húmido em razão de uma viagem de três dias no meio do Inverno mais cruel de que tinha lembrança. Mas nada disso importava. Milão, a capital da Lombardia, a sede de intrigas palacianas e disputas territoriais com a França e os condados vizinhos, sobre a qual eu tanto havia estudado, já descansava aos pés da minha montaria. O lugar era impressionante. A cidade dos Sforza, a maior ao sul dos Alpes, ocupava o dobro da extensão de Roma; oito grandes portas franqueavam uma muralha impenetrável que contornava uma urbe de planta redonda que, vista do céu, devia parecer o escudo de um guerreiro gigantesco. Contudo, não foram as suas defesas que me impressionaram: aquele era um burgo novo, limpo, que transmitia uma intensa sensação de ordem. Os cidadãos não urinavam em cada esquina, como em Roma, nem as prostitutas assaltavam os transeuntes, oferecendo-se. Ali, cada canto, cada casa, cada edifício público parecia pensado para uma função suprema. Até a sua orgulhosa catedral, de aspecto frágil e esquelético, oposta em tudo aos maciços edifícios do Sul italiano, derramava as suas benéficas influências sobre o vale. Vista das colinas, Milão parecia o último canto do mundo onde pudessem se arraigar a desordem e o pecado». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Torriani abriu a porta do estúdio e desceu a escada até ao portão de entrada, sem responder. Saiu ao pátio das cavalariças e procurou a sua mula…»


Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Confuso, eu me persignei diante do funesto panorama que o prior geral traçava. Girolamo Savonarola era, como Roma inteira sabia, o grande problema de Torriani naquela época. Todo o mundo falava dele. Persistente leitor do Apocalipse, esse dominicano de verbo brilhante e grande capacidade de sedução havia acabado de instaurar uma república teocrática em Florença, para preencher o vazio deixado pela fuga da família Medici. De seu novo púlpito, arremetia contra os excessos de Alexandre VI. Savonarola era um louco, ou ainda pior um temerário. Fazia ouvidos moucos às reprimendas que recebia dos seus superiores e ignorava deliberadamente a legislação canónica. Os Dictatus Papae, que desde o século XI eximiam o pontífice e a sua cúria da possibilidade de errar, não o preocupavam, e, desafiando inclusive a sua 19ª sentença (Ninguém pode julgar o papa), gritava no altar que era preciso detê-lo em nome de Deus. O nosso prior geral se desesperava. Não só havia sido incapaz de deter a sede de grandeza daquele exaltado, como também a atitude de Savonarola comprometia toda a ordem perante Sua Santidade. O rebelde, orgulhoso como Sansão perante os Filisteus, havia rejeitado o capelo cardinalício que lhe ofereceram para calar as suas críticas, e havia inclusive recusado abandonar a sua tribuna no convento florentino de San Marco, alegando que tinha uma missão divina mais importante a cumprir. Essa e não outra era a razão pela qual o padre Torriani não queria que a lealdade dos pregadores de São Domingos fosse questionada em Milão. Se o Áugure era um dominicano e tinha razão ao advertir acerca dos planos pagãos do Mouro na nossa nova casa na cidade, nossa ordem seria de novo questionada.
Tomei uma decisão, irmão, sentenciou o prior geral, muito sério, depois de meditar um instante. Temos de afastar qualquer sombra de dúvida sobre as obras de Santa Maria delle Grazie, recorrendo à força do Santo Ofício (maldito), se for preciso. Pater! Não está pensando em julgar o duque de Milão, não é?, perguntei alarmado. Somente se for necessário. Você sabe que nada apraz mais os príncipes seculares que descobrir as debilidades de nossa Igreja e usá-las contra nós. Por isso, somos obrigados a nos antecipar aos seus movimentos. Outro escândalo como o de Savonarola e a nossa casa ficaria muito mal perante os Estados Pontifícios, compreende? E como pretende, se é que posso perguntar, chegar até ao Áugure, comprovar as suas afirmações e reunir a informação necessária para julgá-lo sem levantar suas suspeitas? Pensei muito nisso, meu querido padre Agustín, conjecturou enigmático. Você sabe melhor que eu que, se enviasse um dos nossos inquisidores, intempestivamente, o tribunal de Milão faria muitas perguntas e quebraria a discrição que o caso requer. E, se existir um complô de tanto alcance, todas as provas seriam ocultadas com celeridade pelos cúmplices do Mouro. E então?
Torriani abriu a porta do estúdio e desceu a escada até ao portão de entrada, sem responder. Saiu ao pátio das cavalariças e procurou a sua mula, dando por encerrada aquela reunião de urgência. A tempestade continuava recrudescendo com força lá fora. Diga-me, o que pretende fazer?, repeti. O Mouro previu que daqui a dez dias serão celebrados os funerais oficiais pela duquesa, respondeu por fim. Chegarão a Milão representações de todos os lugares, e então será fácil infiltrar-se em Santa Maria para fazer as averiguações pertinentes e localizar o Áugure. Não obstante, acrescentou, não podemos enviar um religioso qualquer. Deve ser alguém criterioso, que entenda de leis, de heresias e de códigos secretos. A sua missão será encontrar o Áugure, confirmar uma por uma as suas acusações e deter a heresia. E esse deve ser um homem desta casa. De Betânia.
O mestre olhou receoso para o caminho que estava prestes a empreender. Com sorte, levaria uma hora para percorrê-lo, e, se a mula não o derrubasse sobre alguma placa de gelo, chegaria a casa no calor do meio-dia. O homem que necessitamos, disse como se fosse anunciar algo importante, é você, padre Leyre. Nenhum outro resolveria com maior eficácia este assunto. Eu? Aquilo me deixou perplexo. Ele havia pronunciado o meu nome com mórbido deleite, enquanto procurava algo nos alforjes de sua montaria. Mas o senhor sabe que tenho trabalho aqui, obrigações… Nenhuma como esta! E extraindo um grosso maço de papéis amarrados com seu selo pessoal, entregou-o a mim, com sua última ordem: você partirá com presteza para Milão. Hoje mesmo, se possível. E, com isto, olhou o maço de documentos que eu já segurava nas mãos, identificarás o nosso informante, averiguará quanta verdade há por trás desse novo perigo e tratará de remediá-lo». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

segunda-feira, 27 de março de 2017

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Não, padre. Nada disso. Esse homem, seja quem for, pede-nos ajuda, e já não lha podemos negar por mais tempo»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Subimos até ao meu pequeno estúdio, um recinto escuro lotado de caixas e manuscritos, de onde se dominava Roma inteira, e, mal a porta se fechou, o padre Torriani confirmou os meus temores: claro que vim por causa dessas benditas cartas!, protestou arqueando as suas sobrancelhas brancas. E se me pergunta quem penso que é o seu autor? Justo você, padre Leyre? Torriani respirou fundo. A sua natureza doentia lutava para se aquecer enquanto o vinho o ia ruborizando aos poucos. Do lado de fora, a neve recrudescia sobre o vale. A minha impressão, prosseguiu, é que o nosso homem tem de ser alguém do séquito do duque, ou algum irmão do novo convento de Santa Maria delle Grazie. Trata-se de uma pessoa que conhece bem os nossos costumes e que sabe a quem está encaminhando as suas cartas. Contudo… Contudo? Veja, padre Leyre: desde que li a carta que lhe dei a conhecer ontem, mal tenho dormido. Ali fora há alguém que nos avisa de uma grave traição contra a Igreja. O assunto é muito sério, especialmente se, como receio, o nosso informante proceder da comunidade de Santa Maria. Acredita que o Áugure é um dominicano, padre? Tenho quase a certeza disso. Alguém de dentro, uma testemunha do avanço do Mouro, que não se atreve a denunciá-lo por medo de represálias. E suponho que já tenha pesquisado a vida desses frades em busca do seu candidato, estou enganado? Torriani sorriu satisfeito: todos. Sem excepção. E a maioria procede de boas famílias lombardas. São religiosos leais ao Mouro e à Igreja, homens pouco afeitos a fantasias ou conspirações. Bons dominicanos, em suma. Não posso imaginar quem deles pode ser o Áugure. Se é que seja algum deles. Evidente. Permita que lhe recorde, mestre Torriani, que a Lombardia sempre foi terra de hereges.
O prior geral da ordem, friorento, sufocou um espirro antes de responder: isso foi há muito tempo, padre. Muito. Há mais de duzentos anos que não resta nenhum rasto da heresia cátara na região. É verdade que aqueles malditos que inspiraram o nosso amado São Domingos a criar a Santa Inquisição (maldita) se refugiaram ali depois da cruzada albigense, mas todos morreram sem poder contagiar ninguém com as suas ideias. Contudo, não se pode descartar que a sua blasfémia tenha penetrado a mentalidade dos milaneses. Senão, por que estes são tão abertos a ideias heterodoxas? Porque haveria o duque de aceitar crenças pagãs se ele mesmo não houvesse crescido num ambiente predisposto a isso? E porque razão, prossegui, um dominicano fiel a Roma haveria de se esconder por detrás de mensagens anónimas, não fosse porque ele mesmo participa da heresia que agora denuncia? Aldrabice, padre Leyre! O Áugure não é um cátaro. Ao contrário: preocupa-se em manter a ortodoxia com mais zelo que o próprio inquisidor geral de Carcassonne. Esta manhã, antes de o senhor chegar, li outra vez todas as cartas desse indivíduo anónimo. E o Áugure tem clareza de seu objectivo desde a primeira que nos mandou: deseja que enviemos alguém para deter os planos do Mouro em Santa Maria delle Grazie. É como se o que o duque fez no restante Milão, as praças, os canais para a navegação interna, as eclusas, não tivesse importância… E isso abona a sua hipótese. Torriani assentiu satisfeito.
Mas, mestre, eu o contradisse, antes de agir, deveríamos avaliar se o seu pedido encerra alguma armadilha. Como? Ainda pretende deixar o Áugure desamparado, apesar das provas que nos ofereceu? Mas se você mesmo, há tempos, vem denunciando os desvios doutrinais da falecida esposa do Mouro! Justamente. Essa família é astuta. Não será fácil encontrar argumentos contra eles. O que digo, é que devemos extremar a prudência antes de dar um passo em falso. Não, padre. Nada disso. Esse homem, seja quem for, pede-nos ajuda, e já não lha podemos negar por mais tempo. Além disso, sabe que, por meio do cardeal Ascânio, irmão do duque, comprovei até os mínimos detalhes que aparecem em seus informes. E acredite: todos são exactos. Exactos, repeti, enquanto tentava pôr em ordem as minhas ideias. Sabe de uma coisa? Creio que o que mais me surpreende neste assunto é a sua mudança de atitude, mestre Torriani. Não há mudança, protestou. Arquivei as cartas do Áugure enquanto não tinha provas sólidas que as respaldassem. Se não tivesse acreditado nelas, eu as teria destruído, não lhe parece?
Então, mestre, se ao nosso informante lhe assiste a verdade, se é um dominicano preocupado com o futuro do seu novo convento, porque o senhor acredita que ele esconde a sua identidade quando lhe escreve? Frei Gioacchino encolheu os ombros, devolvendo-me uma careta de perplexidade: quem dera eu soubesse, padre Leyre. E isso me preocupa. Quanto mais tempo passo sem respostas, mais me incomoda este assunto. São muitas as frentes que a nossa ordem mantém abertas nestes dias, e abrir mais uma ferida no seio da Igreja equivale a fazê-la esvair em sangue irremediavelmente. Por isso, chegou a hora de agir. Não podemos permitir que se repita em Milão o que já ocorre em Florença. Seria um desastre! Mais uma ferida. Hesitei quanto a trazer o assunto à baila, mas o silêncio de Torriani não me deixou alternativa: suponho que se esteja a referir ao padre Savonarola. E a quem mais? O ancião inspirou antes de prosseguir. A paciência do Santo Padre já acabou e já pensa em excomungá-lo. Os seus sermões contra a opulência do papa crescem em acritude; ainda por cima, as suas profecias sobre o fim da casa dos Medicis se cumpriram, e agora, seguido por uma multidão, anuncia grandes castigos do Senhor contra os Estados Pontifícios. Diz que Roma deve sofrer para purgar os seus pecados, e o maldito se alegra por isso. O pior, sabe o que é? É que a cada dia tem mais seguidores. Se por um acaso o duque de Milão aderisse a essa ideia de desastre, ninguém poderia deter o descrédito da nossa instituição». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «O vaticínio tão preciso do Áugure sugeria a existência de algum sinistro plano ocultista, talvez idealizado pelo duque Ludovico»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Frei Giovanni cumpriu sem hesitar a segunda parte da missão que lhe atribuiu o prior geral. Depois de nossa conversa e de me mostrar a última carta do Áugure, voltou à sede da ordem e deixou Betânia antes do anoitecer. Torriani havia-lhe ordenado que voltasse para informá-lo da minha reacção. Queria, principalmente, saber qual a minha opinião sobre os rumores a respeito de graves anomalias nas obras de reforma da Santa Maria delle Grazie. O meu assistente devia-lhe transmitir a minha mensagem, clara e simples: se, finalmente, levassem em consideração os meus velhos temores, e se somassem a eles, como prováveis, as revelações do Áugure, havia de localizar esse sujeito em Milão e saber dele, directamente, o alcance dos projectos secretos que o duque tinha para aquele convento. Haveremos de examinar, especialmente, os trabalhos de Leonardo da Vinci, insisti com frei Giovanni. Em Betânia, já temos conhecimento da sua afeição por mascarar ideias heterodoxas em obras de aparência piedosa. Leonardo trabalhou muitos anos em Florença, manteve contacto com os descendentes de Cosme, o Velho, e, entre todos os artistas que trabalham em Santa Maria, é o mais inclinado a partilhar das ideias do Mouro.
Gozzoli somou a minha outra grande preocupação ao seu relatório para o mestre Torriani: insisti na necessidade de abrir uma investigação sobre a morte de donna Beatrice. O vaticínio tão preciso do Áugure sugeria a existência de algum sinistro plano ocultista, talvez idealizado pelo duque Ludovico ou pelos seus pérfidos assessores, para implantar uma república pagã no coração da Itália. Embora não fizesse muito sentido que o duque mandasse assassinar a sua esposa e seu filho nonato, a mente dos adeptos das ciências ocultas discorria muitas vezes por caminhos imprevisíveis. Não era a primeira vez que ouvia falar da necessidade de sacrificar uma vítima renomada antes de empreender uma grande obra. Os antigos, esses bárbaros da Idade do Ouro, faziam isso com frequência. Suponho que a minha determinação animou Torriani.
O prior geral avisou o irmão Gozzoli das suas intenções, e na manhã seguinte, com a geada ainda em Roma, abandonou as suas dependências no convento de Santa Maria, disposto a acabar definitivamente com aquele problema. Desafiando os acessos nevados à Cidade Eterna, Torriani subiu de mula até ao quartel de Betânia e solicitou que eu o recebesse com a maior brevidade. Ainda ignoro que termos empregou o irmão Gozzoli para informá-lo sobre as minhas ideias, mas era evidente que o havia impressionado. Eu jamais vira o nosso superior assim: duas bolsas roxas pendiam verticalmente sob o seu olhar cinza, apagando-o; as suas costas pareciam se vergar sob o peso de uma responsabilidade soturna, devorando pouco a pouco seu carácter alegre e afundando
uns ombros que também languesciam cada vez mais. Torriani, mentor, guia e velho amigo, consumia o que lhe restava de vida com as marcas da decepção gravadas no rosto. Contudo, por trás do brilho de seus olhos se denotava uma sensação de urgência: pode receber um pobre servo de Deus molhado e doente?, disse assim que me viu no átrio de Betânia. Eu mentiria se jurasse que não me surpreendi ao encontrá-lo ali tão cedo. Havia subido até ao nosso posto sozinho, sem séquito, com uma manta sobre o hábito e as sandálias cobertas por peles de coelho. Se o superior da Ordem de São Domingos abandonava assim a nossa sede e a sua paróquia e atravessava a cidade em pleno temporal para se encontrar com o responsável por seu serviço de informação, o assunto devia ser gravíssimo. E, embora o seu rosto sombrio convidasse a iniciar a conversa o quanto antes, não me atrevi a lhe perguntar nada. Aguardei até que tirasse os seus andrajos e terminasse a taça de vinho quente que lhe ofereci». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Cada vez que você admirar uma pintura, lembre-se de que penetra na mais sublime das artes. Não fique nunca na superfície: penetre a cena, movimente-se entre os seus elementos, descubra os ângulos inéditos, olhe nos fundos, e assim alcançará seu verdadeiro significado»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Jura, então, que escondeu um segredo neste muro? Marco d’Oggiono coçava o queixo, perplexo, enquanto olhava de novo o mural que o mestre pintava. Leonardo da Vinci divertia-se com aqueles jogos. Quando estava de bom humor, e nesse dia estava, era difícil encontrar nele o afamado pintor, inventor, construtor de instrumentos musicais e engenheiro favorito do Mouro e aplaudido em metade da Itália. Naquela fria manhã, o mestre tinha um olhar de menino travesso. Mesmo ciente de que
contrariava os frades, havia aproveitado a tensa calmaria que Milão vivia após a morte da princesa para inspeccionar o seu trabalho no refeitório dos padres dominicanos. Estava ali em cima, satisfeito entre apóstolos, montado num andaime de seis metros de altura e pulando de tábua em tábua como um rapaz. Claro que há um segredo!, gritou. Seu riso contagiante retumbou nas abóbadas vazias de Santa Maria delle Grazie. Só precisa olhar com atenção minha obra e considerar os números. Conta! Conta!, riu.
Mas, mestre… Está bem, Leonardo balançou a cabeça condescendente, arrastando a última sílaba a título de protesto. Vejo que será difícil ensiná-lo. Porque não pega a Bíblia que está ali em baixo, junto à caixa de pincéis, e lê o capítulo 13 de João, a partir do versículo 21? Talvez assim você encontre a iluminação. Marco, um dos jovens e belos discípulos do toscano, correu em busca do livro sagrado. Pegou-o do atril que estava no canto junto à porta e avaliou. Devia pesar vários quilos. Marco, com esforço, folheou aquele exemplar impresso em Veneza, de capa de couro negríssimo e entalhes de cobre, até que o Evangelho de João se abriu à sua frente. Era uma edição linda, com gravuras florais no cabeçalho, cheio de letras góticas grandes e pretas. Dito isto, começou a recitar, comoveu-se Jesus em espírito, e declarou: em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há-de trair. Os discípulos se entreolhavam, perplexos, sem saber de quem ele falava. Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava. A esse, pois, fez Simão Pedro sinal, e lhe pediu: pergunta-lhe de quem é que fala. Muito bem!, trovejou Leonardo no andaime. Olhe agora para cá e diz: ainda não entende meu segredo?
O discípulo negou com a cabeça. Marco já sabia que o mestre tinha preparado algum truque. Mestre Leonardo, sua recriminação veio com um tom de franca decepção, eu sei que está trabalhando nessa passagem evangélica. Não me revela nada de novo mandando-me ler a Bíblia. O que eu quero é saber a verdade. A verdade? Que verdade, Marco? Corre pela cidade o rumor de que o senhor demora tanto a terminar esta obra porque quer ocultar algo importante nela. Substituiu a técnica do afresco por outra, nova e mais demorada. Porquê? Eu vou-lhe dizer: porque assim pode pensar melhor no que quer transmitir. Leonardo não se alterou. As pessoas sabem de seu gosto pelos mistérios, mestre, e eu também quero conhecê-los todos! Três anos a seu lado, preparando misturas e auxiliando as suas mãos com os esboços e os papelões, acho que deveriam me dar alguma vantagem sobre os outros, não? Sim, sim. Mas quem diz todas essas coisas, posso saber? Quem, mestre? Todos! Até os frades desta santa casa param com frequência seus discípulos e lhes perguntam! E o que comentam, Marco?, gritou novamente do alto, cada vez mais divertido. Que seus Doze não são, na verdade, retratos dos apóstolos, como os pintaria frei Filippo Lippi ou Crivelli; que eles representam as doze constelações do zodíaco, que o senhor escondeu nos gestos de suas mãos as notas de uma de suas partituras para o Mouro… Dizem de tudo, mestre. E você? Sim, sim, você. Outro sorriso maroto tornou a iluminar o rosto de Leonardo. Tendo-me tão perto, trabalhando todos os dias num salão tão magnífico, a que conclusão você chegou? Marco ergueu a vista para a pintura na qual o toscano dava alguns retoques com um pincel de cerdas finíssimas. A parede norte estampava a representação da Última Ceia mais extraordinária que Marco jamais vira. Ali estava Jesus, presente em carne e osso, no centro exacto da composição. Tinha o olhar lânguido e os braços estendidos, como se estudasse de soslaio as reacções de seus discípulos à revelação que acabava de lhes fazer. A seu lado estava João, o amado, que escutava Pedro sussurrar. Afinando os sentidos, quase se podia ver os lábios se moverem. Eram tão reais!
Mas João já não estava recostado sobre o mestre como dizia o Evangelho. Dava até a impressão de jamais ter estado. Do outro lado de Cristo, Filipe, o gigante, mantinha-se em pé afundando suas mãos no peito. Parecia interrogar o Messias: acaso sou eu o traidor, Senhor?. Ou Tiago, o Maior, que abria o peito qual guarda-costas, jurando-lhe lealdade eterna. Ninguém lhe fará mal enquanto eu estiver por perto, fanfarronava. E então, Marco? Você ainda não me respondeu. Não sei, mestre, hesitou. Esta sua obra tem algo que me desconcerta. É tão, tão… Tão? Tão próxima, tão humana, que me deixa sem palavras. Muito bem! Aplaudiu Leonardo, secando as mãos no avental. Vê? Sem querer, você já está mais perto de meu segredo. Não o entendo, mestre. E talvez nunca o consiga, sorriu. Mas escute o que vou lhe dizer: tudo na natureza guarda algum mistério. As aves nos escondem os segredos de seu voo, a água encerra com cuidado o porquê de sua extraordinária força. E, se conseguíssemos fazer com que a pintura fosse um reflexo dessa natureza, não seria justo incorporar nela essa mesma e enorme capacidade de guardar informação? Cada vez que você admirar uma pintura, lembre-se de que penetra na mais sublime das artes. Não fique nunca na superfície: penetre a cena, movimente-se entre os seus elementos, descubra os ângulos inéditos, olhe nos fundos, e assim alcançará seu verdadeiro significado. Mas eu lhe aviso: é preciso ter coragem para isso. Não poucas vezes, o que encontramos num mural como este dista muito do que esperávamos achar. Tenho dito». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Pitágoras, um dos gregos defensores da Idade do Ouro que deslumbrou Cosme Medici, dizia que “os únicos deuses comprováveis são os números”»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Dediquei-me à mensagem ali mesmo. Não havia dúvidas de que a caligrafia delatavam seu autor. Leia-a, irmão!, insistiu. Logo compreendi tanta insistência. O Áugure revelava, mais uma vez, algo que ninguém esperava ouvir. Retrocedia quase sessenta anos, aos tempos do papa Eugénio IV, quando o patriarca de Florença, Cosme de Medici, chamado o Velho, decidira financiar um concílio que poderia ter mudado para sempre o rumo da cristandade. Era uma velha história. Ao que parece, Cosme promovera um infrutífero encontro entre delegações diplomáticas muito díspares, que durara vários anos, com o qual pretendia conseguir a reunificação da Igreja oriental e a de Roma. Os turcos ameaçavam, então, estender sua influência sobre o Mediterrâneo e era preciso detê-los de qualquer maneira. O velho banqueiro tivera a estranha ideia de unir todos os cristãos sob uma mesma cabeça e enfrentar o inimigo comum com a força da fé. Mas seu plano fracassara. Ou não. O que o Áugure revelava naquela mensagem é que existiu uma agenda secreta por trás do concílio. Um objectivo mascarado, cujos efeitos ainda se faziam sentir seis décadas depois em Milão. Segundo ele, além das discussões políticas da época, Cosme Medici empregou boa parte de seu tempo em negociar com as delegações provenientes da Grécia e de Constantinopla a compra de livros antigos, instrumentos ópticos e até manuscritos, atribuídos a Platão ou a Aristóteles, considerados perdidos. Mandou traduzir todos, sem excepção, e com eles aprendeu coisas surpreendentes. Assim, descobriu que já em Atenas acreditavam na imortalidade da alma e sabiam que os céus eram responsáveis por tudo o que se movia na Terra. Entendamos bem: os atenienses não acreditavam em Deus, e sim na influência dos corpos celestes. Segundo aqueles desprezíveis tratados, os astros influenciavam a matéria graças a um calor espiritual parecido ao que conecta corpo e alma nos seres humanos. Aristóteles falou disso depois de aprender nas crónicas da Idade do Ouro, e Cosme ficou fascinado com as suas lições.
Segundo o Áugure, o velho banqueiro fundou uma academia no estilo das antigas, só para ensinar esses segredos aos artistas. Por causa daquelas leituras, tinha certeza de que o desenho de obras de arte era uma ciência exacta. Uma obra realizada de acordo com certos códigos subtis actuaria como reflexo das forças cósmicas e poderia ser utilizada para proteger ou destruir quem a possuísse. Então? Já se deu conta, frei Agustín?, a pergunta de Gozzoli me tirou do aturdimento. O Áugure diz que a arte pode ser empregada como arma! De facto. Um parágrafo mais abaixo, a mensagem falava da força da geometria. O número, a harmonia, o som, eram elementos que podiam ser aplicados a uma obra de arte para que irradiasse influências benéficas à sua volta. Pitágoras, um dos gregos defensores da Idade do Ouro que deslumbrou Cosme Medici, dizia que os únicos deuses comprováveis são os números. O Áugure amaldiçoava todos. Uma arma, murmurei. Uma arma que o Mouro pretende esconder em Santa Maria delle Grazie. Exacto! Gozzoli estava orgulhoso. É exactamente o que diz. Não é incrível?
Eu estava começando a entender o repentino interesse de mestre Torriani por tudo isso. Anos atrás, o nosso amado superior geral havia condenado os trabalhos do pintor Sandro Botticelli por causa de uma suspeita similar. Acusara-o de empregar imagens inspiradas em cultos pagãos para ilustrar obras da Igreja, mas sua denúncia encerrava algo mais. Graças aos informantes de Betânia, Torriani soube que Botticelli, em Villa di Castello, da família Medici, havia representado a chegada da Primavera utilizando uma técnica mágica. As ninfas que dançavam no quadro haviam sido dispostas como as peças de um gigantesco talismã. Mais tarde, Torriani descobriu que Lorenzo di Pierfrancesco, patrão de Botticelli, havia-lhe pedido um amuleto contra o envelhecimento. O quadro era o remédio mágico solicitado. Na realidade, encerrava todo um tratado contra a passagem do tempo, que incluía metade das divindades do Olimpo dançando contra o avanço de Cronos. E pretendiam fazer passar por devota uma obra assim, propondo-a como decoração para uma capela florentina!
Nosso superior geral descobriu a infâmia a tempo. A chave foi dada por uma das ninfas de Primavera, Chloris, pintada com um ramo de trepadeira saindo de sua boca. Era o símbolo inequívoco da linguagem verde dos alquimistas, desses buscadores da eterna juventude, embebidos de ideias espúrias que o Santo Ofício (maldito) perseguia onde quer que despontassem. Embora em Betânia jamais tenhamos conseguido decifrar os detalhes dessa misteriosa linguagem, a suspeita bastou para que o quadro nunca fosse mostrado numa igreja. Mas agora, se o Áugure estivesse certo, essa história ameaçava repetir-se em Milão. Diga-me, irmão Giovanni, sabe por que o mestre Torriani me pede que analise esta mensagem? Meu assistente, que já se havia sentado a uma mesa contígua e se distraía olhando um livro de horas recentemente ilustrado, fez cara de quem não entendera a pergunta: como? Não chegou ao fim da carta? Tornei a fixar os olhos nela. No último parágrafo, o Áugure falava da morte de Beatrice d’Este e do quanto isso aceleraria a consecução do plano mágico do Mouro. Não vejo nada de particular, querido Giovannino, argumentei. Não lhe chama a atenção o facto de que cite a morte da duquesa em termos tão explícitos? E porque haveria de me chamar a atenção? O padre Gozzoli bufou: porque o Áugure datou e enviou esta carta em 30 de Dezembro. Três dias antes do infausto parto de donna Beatrice». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Marco ergueu a vista para a pintura na qual o toscano dava alguns retoques com um pincel de cerdas finíssimas. A parede norte estampava a representação da Última Ceia mais extraordinária…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Jura, então, que escondeu um segredo neste muro? Marco d’Oggiono coçava o queixo, perplexo, enquanto olhava de novo o mural que o mestre pintava. Leonardo da Vinci se divertia com aqueles jogos. Quando estava de bom humor, e nesse dia estava, era difícil encontrar nele o afamado pintor, inventor, construtor de instrumentos musicais e engenheiro favorito do Mouro e aplaudido em metade da Itália. Naquela fria manhã, o mestre tinha um olhar de menino travesso. Mesmo ciente de que contrariava os frades, havia aproveitado a tensa calmaria que Milão vivia após a morte da princesa para inspecionar seu trabalho no refeitório dos padres dominicanos. Estava ali em cima, satisfeito entre apóstolos, montado em um andaime de seis metros de altura e pulando de tábua em tábua como um rapaz. Claro que há um segredo!, gritou. Seu riso contagiante retumbou nas abóbadas vazias de Santa Maria delle Grazie. Só precisa olhar com atenção minha obra e considerar os números. Conta! Conta!, riu. Mas, mestre… Está bem, Leonardo balançou a cabeça condescendente, arrastando a última sílaba a título de protesto. Vejo que será difícil ensiná-lo. Por que você não pega a Bíblia que está ali em baixo, junto à caixa de pincéis, e lê o capítulo 13 de João, a partir do versículo 21? Talvez assim você encontre a iluminação. Marco, um dos jovens e belos discípulos do toscano, correu em busca do livro sagrado. Pegou-o do atril que estava no canto junto à porta e avaliou. Devia pesar vários quilos. Marco, com esforço, folheou aquele exemplar impresso em Veneza, de capa de couro negríssimo e entalhes de cobre, até que o Evangelho de João se abriu à sua frente. Era uma edição linda, com gravuras florais no cabeçalho, cheio de letras góticas grandes e pretas.
Dito isto, começou a recitar, comoveu-se Jesus em espírito, e declarou: em verdade, em verdade vos digo que um de vós me há de trair. Os discípulos se entreolhavam, perplexos, sem saber de quem ele falava. Ora, achava-se reclinado sobre o peito de Jesus um de seus discípulos, aquele a quem Jesus amava. A esse, pois, fez Simão Pedro sinal, e lhe pediu: pergunta-lhe de quem é que fala. Muito bem!, trovejou Leonardo no andaime. Olhe agora para cá e diz: ainda não entende meu segredo? O discípulo negou com a cabeça. Marco já sabia que o mestre tinha preparado algum truque. Mestre Leonardo, sua recriminação veio com um tom de franca decepção, eu sei que está trabalhando nessa passagem evangélica. Não me revela nada de novo me mandando ler a Bíblia. O que eu quero é saber a verdade. A verdade? Que verdade, Marco? Corre pela cidade o rumor de que o senhor demora tanto a terminar esta obra porque quer ocultar algo importante nela. Substituiu a técnica do afresco por outra, nova e mais demorada. Por quê? Eu vou lhe dizer: porque assim pode pensar melhor no que quer transmitir. Leonardo não se alterou. As pessoas sabem de seu gosto pelos mistérios, mestre, e eu também quero conhecê-los todos! Três anos a seu lado, preparando misturas e auxiliando suas mãos com os esboços e os papelões, acho que deveriam me dar alguma vantagem sobre os outros, não? Sim, sim. Mas quem diz todas essas coisas, posso saber? Quem, mestre? Todos! Até os frades desta santa casa param com frequência seus discípulos e lhes perguntam! E o que comentam, Marco?, gritou novamente do alto, cada vez mais divertido. Que seus Doze não são, na verdade, retratos dos apóstolos, como os pintaria frei Filippo Lippi ou Crivelli; que eles representam as doze constelações do zodíaco, que o senhor escondeu nos gestos de suas mãos as notas de uma de suas partituras para o Mouro… Dizem de tudo, mestre.
E você? Sim, sim, você. Outro sorriso maroto tornou a iluminar o rosto de Leonardo. Tendo-me tão perto, trabalhando todos os dias em um salão tão magnífico, a que conclusão você chegou? Marco ergueu a vista para a pintura na qual o toscano dava alguns retoques com um pincel de cerdas finíssimas. A parede norte estampava a representação da Última Ceia mais extraordinária que Marco jamais vira. Ali estava Jesus, presente em carne e osso, no centro exacto da composição. Tinha o olhar lânguido e os braços estendidos, como se estudasse de soslaio as reacções de seus discípulos à revelação que acabava de lhes fazer. A seu lado estava João, o amado, que escutava Pedro sussurrar. Afinando os sentidos, quase se podia ver os lábios se moverem. Eram tão reais! Mas João já não estava recostado sobre o mestre como dizia o Evangelho. Dava até a impressão de jamais ter estado. Do outro lado de Cristo, Filipe, o gigante, mantinha-se em pé afundando suas mãos no peito. Parecia interrogar o Messias: acaso sou eu o traidor, Senhor?. Ou Tiago, o Maior, que abria o peito qual guarda-costas, jurando-lhe lealdade eterna. Ninguém lhe fará mal enquanto eu estiver por perto, fanfarronava. E então, Marco? Você ainda não me respondeu. Não sei, mestre, hesitou. Esta sua obra tem algo que me desconcerta. É tão, tão…» In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «A chave foi dada por uma das ninfas de Primavera, Chloris, pintada com um ramo de trepadeira saindo de sua boca. Era o símbolo inequívoco da “linguagem verde” dos alquimistas»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Dediquei-me à mensagem ali mesmo. Não havia dúvidas de que a carta havia sido escrita pela mesma pessoa que as anteriores: os mesmos cabeçalhos e caligrafia delatavam seu autor. Leia-a, irmão!, insistiu. Logo compreendi tanta insistência. O Áugure revelava, mais uma vez, algo que ninguém esperava ouvir. Retrocedia quase sessenta anos, aos tempos do papa Eugénio IV, quando o patriarca de Florença, Cosme de Medici, chamado o Velho, decidira financiar um concílio que poderia ter mudado para sempre o rumo da cristandade. Era uma velha história. Ao que parece, Cosme promovera um infrutífero encontro entre delegações diplomáticas muito díspares, que durara vários anos, com o qual pretendia conseguir a reunificação da Igreja oriental e a de Roma. Os turcos ameaçavam, então, estender sua influência sobre o Mediterrâneo e era preciso detê-los de qualquer maneira. O velho banqueiro tivera a estranha ideia de unir todos os cristãos sob uma mesma cabeça e enfrentar o inimigo comum com a força da fé. Mas seu plano fracassara. Ou não.
O que o Áugure revelava naquela mensagem é que existiu uma agenda secreta por trás do concílio. Um objectivo mascarado, cujos efeitos ainda se faziam sentir seis décadas depois em Milão. Segundo ele, além das discussões políticas da época, Cosme Medici empregou boa parte de seu tempo em negociar com as delegações provenientes da Grécia e de Constantinopla a compra de livros antigos, instrumentos ópticos e até manuscritos, atribuídos a Platão ou a Aristóteles, considerados perdidos. Mandou traduzir todos, sem excepção, e com eles aprendeu coisas surpreendentes. Assim, descobriu que já em Atenas acreditavam na imortalidade da alma e sabiam que os céus eram responsáveis por tudo o que se movia na Terra. Entendamos bem: os atenienses não acreditavam em Deus, e sim na influência dos corpos celestes. Segundo aqueles desprezíveis tratados, os astros influenciavam a matéria graças a um calor espiritual, parecido ao que conecta corpo e alma nos seres humanos. Aristóteles falou disso depois de aprender nas crónicas da Idade do Ouro, e Cosme ficou fascinado com suas lições. Segundo o Áugure, o velho banqueiro fundou uma academia no estilo das antigas, só para ensinar esses segredos aos artistas. Por causa daquelas leituras, tinha certeza de que o desenho de obras de arte era uma ciência exacta. Uma obra realizada de acordo com certos códigos subtis actuaria como reflexo das forças cósmicas e poderia ser utilizada para proteger ou destruir quem a possuísse.
Então? Já se deu conta, frei Agustín?, a pergunta de Gozzoli me tirou do aturdimento. O Áugure diz que a arte pode ser empregada como arma! De facto. Um parágrafo mais abaixo, a mensagem falava da força da geometria. O número, a harmonia, o som, eram elementos que podiam ser aplicados a uma obra de arte para que irradiasse influências benéficas à sua volta. Pitágoras, um dos gregos defensores da Idade do Ouro que deslumbrou Cosme Medici, dizia que os únicos deuses comprováveis são os números. O Áugure amaldiçoava todos. Uma arma, murmurei. Uma arma que o Mouro pretende esconder em Santa Maria delle Grazie. Exacto! Gozzoli estava orgulhoso. É exactamente o que diz. Não é incrível?
Eu estava começando a entender o repentino interesse de mestre Torriani por tudo isso. Anos atrás, nosso amado superior geral havia condenado os trabalhos do pintor Sandro Botticelli por causa de uma suspeita similar. Acusara-o de empregar imagens inspiradas em cultos pagãos para ilustrar obras da Igreja, mas sua denúncia encerrava algo mais. Graças aos informantes de Betânia, Torriani soube que Botticelli, em Villa di Castello, da família Medici, havia representado a chegada da Primavera utilizando uma técnica mágica. As ninfas que dançavam no quadro haviam sido dispostas como as peças de um gigantesco talismã. Mais tarde, Torriani descobriu que Lorenzo di Pierfrancesco, patrão de Botticelli, havia lhe pedido um amuleto contra o envelhecimento. O quadro era o remédio mágico solicitado. Na realidade, encerrava todo um tratado contra a passagem do tempo, que incluía metade das divindades do Olimpo dançando contra o avanço de Cronos. E pretendiam fazer passar por devota uma obra assim, propondo-a como decoração para uma capela florentina!
Nosso superior geral descobriu a infâmia a tempo. A chave foi dada por uma das ninfas de Primavera, Chloris, pintada com um ramo de trepadeira saindo de sua boca. Era o símbolo inequívoco da linguagem verde dos alquimistas, desses buscadores da eterna juventude, embebidos de ideias espúrias que o Santo Ofício (maldito) perseguia onde quer que despontassem. Embora em Betânia jamais tenhamos conseguido decifrar os detalhes dessa misteriosa linguagem, a suspeita bastou para que o quadro nunca fosse mostrado em uma igreja. Mas agora, se o Áugure estivesse certo, essa história ameaçava se repetir em Milão. Diga-me, irmão Giovanni, sabe por que o mestre Torriani me pede que analise esta mensagem? Meu assistente, que já havia se sentado a uma mesa contígua e se distraía olhando um livro de horas recentemente ilustrado, fez cara de quem não entendera a pergunta: Como? Não chegou ao fim da carta? Tornei a fixar os olhos nela. No último parágrafo, o Áugure falava da morte de Beatrice d’Este e do quanto isso aceleraria a consecução do plano mágico do Mouro. Não vejo nada de particular, querido Giovannino argumentei. Não lhe chama a atenção o facto de que cite a morte da duquesa em termos tão explícitos? E por que haveria de me chamar a atenção? O padre Gozzoli bufou: porque o Áugure datou e enviou esta carta em 30 de Dezembro. Três dias antes do infausto parto de donna Beatrice». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «O plano do Mouro, sussurrou meu secretário, como se deixasse ali uma pesada carga. Não entende, frei Agustín? Explica o que pretende realmente fazer em Santa Maria delle Grazie. Quer fazer magia»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Áugure
«(…) Essa é a peça que falta para montar este quebra-cabeça. Sua presença merece uma explicação. É que, além de meus avisos ao santo padre e às mais altas instâncias da ordem dominicana sobre o rumo errático que tomava o ducado de Milão, existia outra fonte de informação que abundava em meus temores. Era uma testemunha anónima, bem documentada, que toda semana remetia a nossa Casa da Verdade cartas detalhadíssimas, denunciando a deflagração de uma gigantesca operação de magia nas terras do Mouro. Suas missivas começaram a chegar no Outono de 1496, quatro meses antes da morte de donna Beatrice. Eram enviadas à sede da ordem em Roma, no convento de Santa Maria sopra Minerva, onde eram lidas e guardadas como se fossem a obra de um pobre diabo obcecado com os pretensos desvios doutrinais da casa Sforza. E não os culpo. Vivíamos tempos loucos, e as cartas de um visionário não eram muito favoráveis a nossos padres superiores. Ou a quase todos. Foi o arquivista de Minerva que me falou dos escritos desse novo profeta na assembleia geral de Betânia. Deveria lê-las, disse. Assim que as vi pensei em você. Verdade? Lembro-me dos olhos de coruja do arquivista, pestanejando de emoção. É curioso: foram escritas por alguém com os mesmos temores que você, padre Leyre. Um profeta apocalíptico, culto, muito versado em gramática, como a cristandade não via desde os tempos de frei Tanchelmo de Antuérpia. Frei Tanchelmo? Oh… Um velho maluco do século XII, que denunciou a Igreja por ter se transformado em um bordel e acusava os sacerdotes de viver em concubinato permanente. Nosso Áugure não chega a tanto, mas, pelo tom de suas cartas, não creio que tarde muito a chegar. O arquivista, encurvado e resmungão, acrescentou algo mais: sabe o que o faz diferente de outros loucos? Balancei a cabeça negativamente. Que parece mais bem informado que qualquer um de nós. Esse Áugure é maníaco por precisão. Sabe de tudo! Aquele frade tinha razão. Suas folhas de papel amarelado e fino, escritas com uma caligrafia impecável e amontoadas em uma caixa de madeira com o carimbo de reservado, referiam-se com obsessiva insistência a um plano secreto paratransformar Milão em uma nova Atenas. Algo assim era o que eu suspeitava já fazia tempo. O Mouro, como os Medicis antes dele, estava entre esses dirigentes supersticiosos que acreditavam que os antigos possuíam conhecimentos do mundo muito mais avançados que os nossos. Era uma velha ideia, essa. Segundo ela, antes de Deus castigar o mundo com o dilúvio, a humanidade havia desfrutado de uma Idade do Ouro próspera, que primeiro os florentinos e agora o duque de Milão queriam reinstaurar a todo custo. E, para isso, não hesitariam em deixar de lado a Bíblia e os preconceitos da Igreja, cientes de que, naquele tempo de glória, Deus ainda não havia criado uma instituição que o representasse.
Mas ainda havia mais: suas cartas insistiam em que a pedra angular daquele projecto estava sendo colocada debaixo do nosso nariz. Sendo certo o que dizia, a astúcia do Mouro era infinita. Seu plano para transformar seu feudo na capital do renascimento da filosofia e da ciência dos antigos se apoiaria sobre uma coluna desconcertante: nada menos que nosso novo convento em Milão. O Áugure conseguiu me surpreender. Fosse quem fosse o homem que se escondia por trás dessas revelações, ele as havia levado mais longe do que eu jamais me teria atrevido. Como me advertiu o arquivista, parecia ter olhos em todos os lugares. Já não só em Milão, e sim na própria Roma, pois algumas de suas últimas cartas vinham encabeçadas por um Augur dixit que nos desconcertou. que tipo de confidente estávamos enfrentando? Quem, senão alguém muito enfronhado na cúria, poderia saber como o designavam os escrivães de Betânia? Nenhum de nós soube a quem apontar. Naqueles dias, o convento a que se referia em suas mensagens, o de Santa Maria delle Grazie, estava em obras. O duque de Milão havia designado os melhores arquitectos do momento para sua edificação: encomendou o púlpito da igreja a Bramante, os interiores a Cristoforo Solari, e não economizou uma moeda no pagamento dos melhores artistas para que decorassem cada uma de suas paredes. Queria transformar nosso templo no mausoléu de sua família, o lugar de repouso eterno, que imortalizaria sua memória pelos séculos dos séculos. Contudo, o que para os dominicanos era um privilégio, para o autor daquelas cartas era uma terrível maldição. Anunciava grandes penalidades para o papa, se ninguém pusesse fim àquele projecto, e augurava uma época negra, fatal, para a Itália inteira. O anónimo remetente daquelas mensagens havia conquistado a pulso, de facto, o apelido de Áugure. Sua visão da cristandade não podia ser mais nefasta.
Ninguém deu ouvidos àquele anónimo diabo até à manhã que chegou a sua 15ª missiva. Nesse dia, frei Giovanni Gozzoli, meu assistente em Betânia, irrompeu no scriptorium em grande alvoroço. Agitava no ar uma nova mensagem do Áugure, e, alheio aos olhares reprovadores dos irmãos que ali estudavam, dirigiu seus passos para minha mesa: frei Agustín, deve ver isto! Deve lê-lo de imediato! Eu nunca havia visto frei Giovanni tão alterado. O jovem frade passou a nova carta à frente dos meus olhos, e, com a voz muito afectada, sussurrou: é incrível, padre. In-crí-vel. O que é incrível, irmão? Gozzoli respirou fundo: a carta. Esta carta… O Áugure… Mestre Torriani pediu que a lesse de imediato. O mestre? O piedoso Gioacchino Torriani, 35º sucessor de São Domingos de Gusmão na Terra e principal responsável por nossa ordem, nunca havia levado a sério aquelas mensagens anónimas. Despachara-as com indiferença e, em algumas ocasiões, até me recriminara por lhes dedicar meu tempo. Por que havia mudado de atitude? Por que me enviava essa nova carta com o pedido de que a examinasse de imediato? O Áugure… Gozzoli engoliu em seco. Sim? O Áugure descobriu em que consiste o plano. O plano? A mão de frei Giovanni ainda segurava a mensagem. Tremia em razão do esforço. A carta, uma folha com o selo de lacre partido, pousou suavemente sobre minha mesa. O plano do Mouro, sussurrou meu secretário, como se deixasse ali uma pesada carga. Não entende, frei Agustín? Explica o que pretende realmente fazer em Santa Maria delle Grazie. Quer fazer magia! Magia?, eu estava atónito. Leia!» In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «… examinavam diariamente textos em todos os idiomas, alguns codificados com as artimanhas mais impensáveis. Nós os decifrávamos, classificávamos por prioridades…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Naquele dia, os médicos demoraram além da conta para chegar ao palácio. Foi necessário ir buscar a parteira extramuros da cidade, e quando a equipe necessária para auxiliar a princesa, finalmente, se reuniu a seu lado, já era tarde demais. O cordão umbilical que alimentava o futuro Leon Maria Sforza havia-se enroscado em volta do frágil pescoço do bebé. Pouco a pouco, com a precisão de uma corda, foi apertando sua pequena garganta até asfixiá-lo. Beatrice logo notou que alguma coisa estava errada. Seu filho, que um segundo antes lutava com força para sair de suas entranhas, paralisou-se. Primeiro se agitou com violência e, a seguir, como se o esforço o houvesse murchado, languesceu até expirar. Percebendo isso, os médicos abriram de lado a lado a mãe, que se retorcia de dor e desespero, apertando um pano banhado em vinagre entre os dentes. Foi inútil. Desesperados, só encontraram um bebé azulado e morto, com seus olhinhos claros já vidrados, enforcado no útero materno. E foi assim que, arrasada de dor, sem tempo para aceitar o duro revés que a vida acabava de lhe dar, a própria Beatrice decidiu-se extinguir horas mais tarde. Em seu informe, o prior Bandello dizia que chegou a tempo de vê-la agonizar. Ensanguentada, com as entranhas expostas e banhada em uma pestilência insuportável, delirava de dor, pedindo aos gritos para se confessar e comungar. Mas, felizmente para nosso irmão, Beatrice d’Este morreu antes de receber qualquer sacramento. E digo bem: felizmente.
A duquesa tinha apenas 22 anos quando deixou nosso mundo. Betânia sabia que ela havia levado uma vida pecaminosa. Desde os tempos de Inocêncio VIII, eu mesmo havia tido oportunidade de estudar e arquivar muitos documentos a esse respeito. Os mil olhos da Secretaria de Códigos dos Estados Pontifícios conheciam bem o tipo de pessoa que havia sido a filha do duque de Ferrara. Ali dentro, em nosso quartel-general do monte Aventino, podíamos nos orgulhar de que nenhum documento importante gerado nas cortes europeias escapava à nossa instituição. Na Casa da Verdade, dezenas de leitores examinavam diariamente textos em todos os idiomas, alguns codificados com as artimanhas mais impensáveis. Nós os decifrávamos, classificávamos por prioridades e os arquivávamos. Mas não todos. Os referentes a Beatrice d’Este havia tempo que ocupavam um lugar prioritário em nosso trabalho e eram armazenados em uma sala à qual poucos tinham acesso. Tão inequívocos documentos mostravam uma Beatrice possuída pelo demónio do ocultismo. E, o que era ainda pior, muitos aludiam a ela como a principal impulsora das artes da magia na corte do Mouro. Em uma terra tradicionalmente permeável às heresias mais sinistras, aquele dado deveria ter sido levado muito em conta. Mas ninguém o fez a tempo. Os dominicanos de Milão, entre eles o padre Bandello, tiveram várias vezes a seu alcance provas de que tanto donna Beatrice quanto sua irmã Isabela, em Mântua, coleccionavam amuletos e ídolos pagãos, e que ambas professavam veneração desmedida aos vaticínios de astrólogos e charlatães de toda espécie. E nunca fizeram nada. As influências recebidas por Beatrice foram tão nefastas que a pobre passou seus últimos dias convencida de que nossa Santa Madre Igreja se extinguiria muito brevemente. Frequentemente, dizia que a cúria seria arrastada até o Juízo Final e que ali, entre arcanjos, santos e homens puros, o Pai Eterno condenaria todos nós sem piedade. Ninguém em Roma conhecia melhor que eu as actividades da duquesa de Milão.
Lendo os informes que chegavam sobre ela, aprendi quão sibilinas podem ser as mulheres, e descobri quanto donna Beatrice havia mudado os hábitos e objectivos de seu poderoso marido em apenas quatro anos de casamento. Sua personalidade chegou a me fascinar. Crédula, entregue a leituras profanas e seduzida por todas as ideias exóticas que circulavam por seu feudo, sua maior obsessão era transformar Milão na herdeira do antigo esplendor dos Medicis de Florença. Acho que foi isso que me alertou. Embora a Igreja houvesse conseguido minar aos poucos os pilares de tão poderosa família florentina, debilitando o apoio que dera a pensadores e a artistas amigos do heterodoxo, o Vaticano não estava preparado para enfrentar um renascimento daquelas ideias na grande Milão do norte. As cidades com a marca dos Medicis, a recordação da academia fundada por Cosme, o Velho, para resgatar a sabedoria dos antigos gregos, ou sua protecção desmedida a arquitectos, pintores e escultores fecundaram tanto a fértil imaginação da princesa Beatrice quanto a minha. Mas ela as tomou como guias de sua fé e contagiou o duque com o veneno de seu fascínio. Desde que Alexandre vi chegara ao trono de Pedro, em 1492, passei a enviar mensagens a meus superiores hierárquicos para preveni-los sobre o que ali poderia ocorrer. Ninguém me deu ouvidos. Milão, tão próxima à fronteira com a França e com uma tradição política tão rebelde em relação a Roma, era a candidata perfeita para abrigar uma cisão importante no seio da Igreja. Betânia também não acreditou em mim. E o papa, manso com os hereges, apenas um ano depois de ter assumido a tiara já havia pedido perdão pelo acossamento a cabalistas como Pico della Mirandola, ignorou todas as minhas advertências. Esse frei Agustín Leyre, costumavam dizer de mim os irmãos da Secretaria de Códigos, dá muita atenção às mensagens do Áugure. Vai acabar tão maluco quanto ele». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

Cortesia de EPlaneta/JDACT

A Ceia Secreta. Javier Sierra. «Eram rápidos e eficazes como os de nenhum outro país. E, muito antes que o anúncio oficial da morte da princesa chegasse ao gabinete diplomático do Santo Padre, nossos irmãos já tinham todos os detalhes em seu poder»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Este enigma começa na noite de 2 de Janeiro de 1497, longe, muito longe do Egipto. Aquele inverno de quatro décadas atrás foi o mais frio de que se tem notícia. Havia nevado copiosamente e toda a Lombardia estava coberta por um grosso manto branco. Os conventos de Santo Ambrósio, São Lorenzo e Santo Eustórgio e, inclusive, os pináculos da catedral haviam desaparecido sob a névoa. As carroças de lenha eram a única coisa que se movia nas ruas, e metade de Milão cochilava envolvida em um silêncio que parecia estar instalado ali havia séculos. Foi por volta das 11 da noite do segundo dia do ano. Um grito lancinante de mulher quebrou a gelada paz do castelo dos Sforza. Ao grito logo se seguiu um soluço, e a estes o agudo pranto das carpideiras do palácio. O último estertor da sereníssima Beatrice d’Este, uma jovem na flor da vida, a bela esposa do duque de Milão, havia destruído para sempre os sonhos de glória do reino. Santo Deus! A duquesa morreu de olhos arregalados. Furiosa. Amaldiçoando Cristo e todos os santos por levá-la tão cedo para junto d’Ele e agarrando com força o hábito de seu horrorizado confessor. Sim. Definitivamente, foi aí que tudo começou.
Eu tinha 45 anos quando li pela primeira vez o informe do ocorrido naquele dia. Era um relato impressionante. Betânia, como era de hábito, o havia solicitado, por conduto secretissimus, ao capelão da corte do Mouro, e este, sem perder um só dia, enviara-o a Roma a toda velocidade. Os ouvidos e os olhos dos Estados Pontifícios funcionavam assim. Eram rápidos e eficazes como os de nenhum outro país. E, muito antes que o anúncio oficial da morte da princesa chegasse ao gabinete diplomático do Santo Padre, nossos irmãos já tinham todos os detalhes em seu poder. Naquela época, minha responsabilidade dentro da complexa estrutura de Betânia era de ad latere [assistente] do prior geral da Ordem de São Domingos. Nossa organização sobrevivia dentro das estreitas margens da confidencialidade. Em um tempo marcado por intrigas palacianas, envenenamentos e traições de família, a Igreja precisava de um serviço de informação que lhe permitisse saber onde podia pôr os pés. Éramos uma ordem secreta, fiel só ao papa e à cabeça visível dos dominicanos. Por isso, externamente, quase ninguém ouvira falar de nós. Escondíamo-nos atrás do amplo manto da Secretaria de Códigos dos Estados Pontifícios, um organismo neutro, marginal, de pouca presença pública e com competências muito limitadas. Contudo, das portas para dentro, funcionávamos como uma congregatio de informações. Uma espécie de comissão permanente para a análise de assuntos de governo que pudessem permitir ao Santo Padre se antecipar aos movimentos de seus muitos inimigos. Qualquer notícia, por menor que fosse, que pudesse afectar o status quo da Igreja passava imediatamente por nossas mãos, era avaliada e transmitida à autoridade pertinente. Essa era nossa única missão.
Nesse âmbito, tive acesso ao informe da morte de nossa adversária, donna Beatrice d’Este. Ainda posso ver o rosto dos irmãos celebrando a notícia. Ignorantes. Pensavam que a natureza havia nos poupado o trabalho de ter de matá-la. A mente deles era simples assim. Funcionava a golpe de cadafalso, de condenação do Santo Ofício ou de verdugo mercenário. Mas esse não era o meu caso. Diferente deles, eu não tinha tanta certeza de que a partida da duquesa de Milão significasse o final da longa cadeia de irregularidades, conspirações e ameaças contra a fé que pareciam se esconder na corte do Mouro e que havia meses alertavam nossa rede de informação. De facto, bastava citar seu nome em alguma das assembleias gerais de Betânia para que os rumores dominassem o resto da reunião. Todos a conheciam. Todos sabiam de suas actividades pouco cristãs, mas ninguém jamais se atrevera a denunciá-la. Era tal o temor que donna Beatrice inspirava em Roma que nem sequer o informe que recebemos do capelão do duque, que era também fiel prior de nosso novo convento de Santa Maria delle Grazie, se pronunciava a respeito de suas andanças pouco ortodoxas. Coube a frei Vicenzo Bandello, reputado teólogo e sábio condutor dos dominicanos milaneses, descrever o sucedido, mantendo-se afastado de questões políticas que o pudessem comprometer. Ninguém em Roma recriminou sua prudência. Segundo o informe assinado pelo prior Bandello, tudo esteve em ordem até às vésperas da tragédia. Até então, a jovem Beatrice tinha tudo: um marido poderoso, uma vitalidade exuberante e um bebé a caminho que logo perpetuaria o nobre sobrenome do pai. Ébria de felicidade, havia passado sua última tarde circulando de salão em salão, brincando com sua dama de companhia favorita no palácio Rochetta. A duquesa vivia alheia às preocupações comuns a qualquer mãe de seus territórios. Nem sequer amamentaria o bebé para não estragar seus seios pequenos e delicados; uma ama selecionada com cuidado se encarregaria de tutelar o crescimento da criança, de ensiná-la a caminhar, a comer, e madrugariapara acordá-la e limpá-la com água e panos quentes. Ambos, bebé e preceptora viveriam em Rochetta, em um aposento que Beatrice havia decorado com interesse. Para ela, a maternidade era um jogo salutar e inesperado, isento de responsabilidades e incertezas.
Mas foi justamente ali, no pequeno paraíso que havia imaginado para seu rebento, que lhe sobreveio a desgraça. Segundo frei Vicenzo, antes do anoitecer de São Basílio, donna Beatrice caiu desmaiada sobre um dos leitos do aposento. Ao voltar a si, sentiu-se mal. Sua cabeça girava e ao mesmo tempo seu estômago lutava para se esvaziar entre engulhos longos e estéreis. Sem saber que tipo de mal a acometia, ao vómito logo se seguiram fortes contracções no baixo-ventre que anunciavam o pior. O filho do Mouro havia decidido antecipar sua chegada ao mundo sem que ninguém houvesse previsto essa contingência. Pela primeira vez, Beatrice se assustou». In Javier Sierra, A Ceia Secreta, 2013, Editora Planeta, 2014, ISBN 978-854-220-327-1.

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