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sexta-feira, 31 de maio de 2019

O Herege no 31. Bernard Cornwell. «O duque iniciou um protesto, mas naquele exacto momento uma trombeta soou e os besteiros iniciaram a descida…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Ele se recusara a desmontar do seu corcel, equipado com uma testeira de aço para proteger-lhe o rosto e um caparazão de malha brilhante para proteger-lhe o corpo dos arqueiros ingleses que, sem dúvida, estavam colocando as cordas nos arcos nas trincheiras. A auriflama, majestade, disse o duque. Devia ser um pedido, mas de algum modo parecia uma ordem. A auriflama? O rei fingiu não entender. Posso ter a honra, majestade, de levá-la na batalha? O rei suspirou. Vocês têm em relação ao inimigo uma superioridade numérica de dez para um, disse ele, e por isso praticamente não precisam da auriflama. Deixe-a aqui. O inimigo já deve tê-la visto. E o inimigo iria ver o que a auriflama enrolada significava. Ela instruía os franceses a não fazer prisioneiros, a matar todos, embora não houvesse dúvida de que qualquer cavaleiro inglês rico ainda seria capturado em vez de morto, porque um cadáver não rendia resgate. Ainda assim, a bandeira de três tiras, enrolada, deveria incutir o terror nos corações ingleses.
Ela vai ficar aqui, insistiu o rei. O duque iniciou um protesto, mas naquele exacto momento uma trombeta soou e os besteiros iniciaram a descida. Eles vestiam túnicas verde e vermelho, com o emblema do cálice de Génova no braço esquerdo, e cada qual era acompanhado por um infante segurando um pavés, um escudo enorme que iria proteger o besteiro enquanto ele recarregava sua desajeitada arma. A uns oitocentos metros de distância, à margem do rio, ingleses corriam da torre para as trincheiras de terra que tinham sido cavadas há tantos meses, que agora estavam cobertas com uma camada espessa de capim e algas. V. vai perder a sua batalha, disse o rei para o duque que, esquecendo o estandarte escarlate, girou o seu grande corcel protegido por armadura em direcção aos homens de sir Geoffrey.

Montjoie St. Denis!
O duque soltou o grito de guerra da França e os timbaleiros bateram os seus grandes timbales e uma dúzia de trombeteiros clamou seu desafio para os ares. Ouviram-se estalos quando as viseiras foram abaixadas. Os besteiros já estavam no sopé da encosta, espalhando-se para a direita a fim de envolver o flanco inglês. Então as primeiras flechas voaram: flechas inglesas, de penas brancas, adejando sobre a terra verde, e o rei, inclinando-se à frente na sua sela, viu que do lado do inimigo os arqueiros eram muito poucos. Em geral, sempre que os malditos ingleses combatiam, os seus arqueiros estavam em superioridade numérica em relação a seus cavaleiros e soldados, no mínimo de três para um, mas o posto avançado de Nieulay parecia estar guarnecido, na sua maioria, por soldados. Que Deus os acompanhe!, gritou o rei para os seus soldados. Ele fora tomado por um súbito entusiasmo, porque sentia o cheiro da vitória. As trombetas tornaram a soar, e agora a onda metálica de soldados despejou-se encosta abaixo. Berravam o grito de guerra e o som tinha a concorrência dos tambores, que martelavam as peles de cabra esticadas, e dos trombeteiros que tocavam como se pudessem derrotar os ingleses apenas com o som. Deus e São Denis!, gritava o rei». In Bernard Cornwell, O Herege, 2003, Editora Record, 2011, ISBN 978-850-106-867-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

No 31. O Herege. Bernard Cornwell. «Ele odiava os ingleses. Odiava. O duque de Bourbon havia delegado a organização do assalto…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) Aquilo deixou Filipe melancólico. Seu novo astrólogo recusara-se a atendê-lo durante semanas, alegando estar febril, mas Filipe soubera que ele gozava de boa saúde, o que significava que devia ter visto algum grande desastre nas estrelas e simplesmente receava contar ao rei. Gaivotas gritavam sob as nuvens. Bem lá ao longe, no mar, uma vela desbotada enfunava-se em direcção à Inglaterra, enquanto outro navio ancorava ao largo das praias ocupadas pelos ingleses e, em pequenos barcos, transferia homens para terra, a fim de aumentarem as fileiras inimigas. Filipe olhou para trás, para a estrada, e viu um grupo de cerca de quarenta ou cinquenta cavaleiros ingleses cavalgando em direcção à ponte. Ele fez o sinal-da-cruz, rezando para que os cavaleiros fossem encurralados pelo seu ataque. Ele odiava os ingleses. Odiava. O duque de Bourbon havia delegado a organização do assalto a sir Geoffrey de Charny e Edouard Beaujeu, e isso era bom. O rei confiava em que os dois seriam sensatos. Ele não duvidava de que pudessem tomar a torre, embora ainda não soubesse do que aquilo adiantaria; mas achava que era melhor do que deixar seus nobres mais afoitos usarem as lanças numa carga alucinada pela ponte, para sofrerem uma derrota total nos pântanos. Ele sabia que nada lhes traria maior prazer do que um ataque daqueles. Eles pensavam que a guerra era um jogo, e cada derrota os deixava mais ansiosos por jogarem.
Tolos, pensou ele, e tornou a fazer o sinal-da-cruz, perguntando-se que funesta profecia o astrólogo estava escondendo dele. O que precisamos, pensou ele, é de um milagre. Algum grande sinal de Deus. Então estremeceu, assustado, porque um timbaleiro acabara de tocar o seu grande timbale. Uma trombeta soou. A música não pressagiava o avanço. Eram, isso sim, os músicos que faziam o aquecimento, prontos para o ataque. Edouard Beaujeu estava à direita, onde reunira mais de mil besteiros e outros tantos soldados, e era evidente que ele queria atacar os ingleses por um flanco, enquanto sir Geoffrey Charny e pelo menos quinhentos soldados atacavam montanha abaixo, contra as trincheiras dos ingleses. Sir Geoffrey percorria as fileiras mandando, em voz alta, que cavaleiros e soldados desmontassem. Eles obedeceram, relutantes. Acreditavam que a essência da guerra era a carga da cavalaria, mas sir Geoffrey sabia que cavalos de nada adiantavam contra uma torre de pedra protegida por trincheiras, e por isso insistia em que lutassem a pé. Escudos e espadas, gritou, nada de lanças. A pé! A pé! Sir Geoffrey aprendera as duras penas que os cavalos eram lamentavelmente vulneráveis às flechas inglesas, enquanto que homens a pé podiam avançar agachados, atrás de escudos compridos. Alguns dos homens de berço nobre recusavam-se a desmontar, mas ele não lhes deu importância. Um número ainda maior de soldados franceses apressava-se para participar da carga. O pequeno grupo de cavaleiros ingleses tinha atravessado a ponte agora. Parecia que pretendiam cavalgar pela estrada para desafiarem toda a linha de batalha francesa, mas em vez disso detiveram seus cavalos e olharam para a horda agrupada na crista do monte. O rei, observando-os, viu que eram comandados por um grão-senhor. Ele sabia disso devido ao tamanho do pavilhão do homem, enquanto que pelo menos uma dúzia dos outros cavaleiros levava as bandeiras quadradas de galhardetes nas suas lanças. Um grupo rico, pensou ele, que valia uma pequena fortuna em resgates. Ele esperava que cavalgassem até à torre e, com isso, ficassem encurralados. O duque de Bourbon voltou para perto de Filipe com o cavalo a trote. O duque vestia uma armadura que tinha sido raspada com areia, vinagre e arame até ficar branca de tanto brilho. O elmo, ainda pendurado no arção anterior da sela, tinha em cima penas tingidas de azul». In Bernard Cornwell, O Herege, 2003, Editora Record, 2011, ISBN 978-850-106-867-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O Herege. Bernard Cornwell. «O projéctil devia ter atingido o muro, mas Filipe estava muito longe para ver o efeito. Uma vitória aqui irá estimular a guarnição…»

Cortesia de wikipedia e jdact

«Vinte mil franceses alinhavam-se nas colinas, os estandartes abundantes ao vento que soprava do mar. A auriflama, o sagrado galhardete de guerra da França, estava lá. Era uma bandeira comprida, com três caudas pontudas, uma ondulação vermelho-sangue de preciosa seda, e se a bandeira tinha uma cor viva era porque era nova. A antiga auriflama estava na Inglaterra, um troféu apanhado na larga montanha verde entre Wadicourt e Crécy no verão anterior. Mas a nova bandeira era tão sagrada quanto a antiga, e em torno dela tremulavam os estandartes dos grandes senhores da França: os estandartes de Bourbon, de Montmorency e do conde de Armagnac. Bandeiras menos importantes eram vistas entre as nobres, mas todas proclamavam que os maiores guerreiros do reino de Filipe tinham ido combater os ingleses. No entanto, entre eles e o inimigo estavam o rio Ham e a ponte em Nieulay, que era defendida por uma torre de pedra, em volta da qual os ingleses haviam cavado trincheiras, as quais tinham enchido de arqueiros e soldados. Do outro lado daquela força estava o rio, depois os pântanos, e no terreno mais elevado, perto do alto muro de Calais e seu fosso duplo, havia uma cidade improvisada, de casas e tendas, onde vivia o exército inglês. E um exército como nunca se vira na França. O acampamento dos sitiantes era maior do que a própria Calais. Até onde a vista alcançava havia ruas margeadas por lonas, com casas de madeira e cercados para cavalos, e entre eles havia soldados e arqueiros. A auriflama bem que poderia ter ficado enrolada. Nós podemos tomar a torre, majestade. Sir Geoffrey Charny, soldado valente como qualquer outro no exército de Filipe, fez um gesto para baixo da montanha, no ponto em que a guarnição inglesa de Nieulay estava isolada do lado francês do rio, com que finalidade?, perguntou Filipe.
Ele era um homem fraco, hesitante em combate, mas a pergunta era pertinente. Se a torre caísse e, com isso, a ponte de Nieulay ficasse em seu poder, de que serviria ela? A ponte simplesmente levava a um exército inglês ainda maior, que já se dispunha em ordem de batalha na terra firme à beira do acampamento. Os cidadãos de Calais, com fome e sem esperança, viram os estandartes franceses na crista sul e responderam pendurando as bandeiras deles nas suas defesas. Eles exibiam imagens da Virgem, retratos de S. Denis da França e, no alto da cidadela, a bandeira real azul e amarelo, para dizer a Filipe que os seus súbditos ainda viviam, ainda lutavam. Mas a brava exibição não conseguia esconder o facto de que tinham ficado sitiados por onze meses. Eles precisavam de ajuda. Tome a torre, majestade, insistiu Sir Geoffrey, e depois ataque o outro lado da ponte! Meu bom Cristo, se os malditos nos virem conseguir uma única vitória, poderão perder o ânimo! Um grunhido de concordância veio dos senhores reunidos.
O rei estava menos optimista. Era verdade que a guarnição de Calais ainda resistia, e que os ingleses praticamente não tinham danificado os muros da cidade, ainda menos encontrado um meio de atravessar os fossos gémeos. Mas também os franceses não haviam conseguido levar suprimento algum para a cidade sitiada. O povo de lá não precisava de estímulo, precisava de comida. Um jacto de fumaça surgiu do outro lado do acampamento e, poucos segundos depois, o som de um canhão ecoou pelos pântanos. O projéctil devia ter atingido o muro, mas Filipe estava muito longe para ver o efeito. Uma vitória aqui irá estimular a guarnição, insistiu lorde de Montmorency, e implantar o desespero nos corações ingleses. Mas por que iriam os ingleses perder o ânimo se a torre de Nieulay caísse? Filipe achava que aquilo iria apenas enchê-los de vontade de defender a estrada no lado oposto da ponte, mas também entendia que ele não poderia manter seus cães contidos quando um inimigo odiado estava à vista, e por isso deu a permissão. Tomem a torre, disse, e que Deus lhes conceda a vitória. O rei permaneceu onde estava enquanto os senhores reuniam homens e se armavam. O vento que vinha do mar trazia um cheiro de sal, mas também um odor de decomposição talvez proveniente de algas que apodreciam nos longos alagadiços que recebiam a maré». In Bernard Cornwell, O Herege, 2003, Editora Record, 2011, ISBN 978-850-106-867-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

quarta-feira, 13 de março de 2019

1356. Bernard Cornwell. «A mensagem chegou à cidade depois da meia-noite, trazida por um jovem monge que tinha vindo da Inglaterra. Havia deixado Carlisle em Agosto com outros dois irmãos, os três com ordens de chegar à grande casa cisterciense em Montpellier…»

Cortesia de wikipedia

Carcassonne
«(…) O conde de Mouthoumet olhou para o falcão. Tinha ouvido falar daqueles pássaros, calades, que podiam prever a morte ou a vida de um homem. Se o pássaro olhasse directamente os olhos de uma pessoa doente, essa pessoa iria recuperar, mas se não olhasse ela morreria. Um pássaro que conhece a eternidade? perguntou o conde. Olhe para o pássaro, disse o padre, e diga: sabe onde la Malice está escondida? Não, sussurrou o velho. O falcão parecia estar olhando para a parede. Em seguida se remexeu no peito do velho, as garras apertando o cobertor puído. Ninguém falou. O pássaro ficou imóvel, mas então, inesperadamente, baixou a cabeça bruscamente e o conde gritou. Quieto, vociferou o padre. O falcão havia cravado o bico adunco no olho esquerdo do agonizante, transformando-o numa polpa, deixando uma trilha de geleia sangrenta em sua bochecha barbada. O conde gemia. O bico do falcão fez um barulho áspero quando o padre puxou-o para trás. A calade afirma que você mentiu, disse o padre. E agora, se quiser manter o olho direito, vai me contar a verdade. Onde está la Malice? Não sei, soluçou o velho. O padre ficou em silêncio um tempo. O fogo estalou e o vento soprou fumaça no quarto. Mente, insistiu o padre. A calade diz-me que mente. Você cuspiu no rosto de Deus e de seus anjos. Não!, protestou o velho. Onde está la Malice?
Não sei! O nome da sua família é Planchard, disse o padre em tom de acusação. E os Planchard sempre foram hereges. Não!, protestou o conde, e então, parecendo mais fraco: quem é o senhor? Pode chamar-me de padre Calade, e sou o homem que decide se você vai para o inferno ou para o céu. Então me absolva, implorou o velho. Eu preferiria lamber o rabo do diabo. Uma hora depois, quando o conde estava cego e chorando, o padre finalmente se convenceu de que o velho não sabia onde la Malice estava escondida. Atraiu o falcão para o pulso e colocou o capuz de volta na cabeça dele, depois fez sinal para um dos homens com cota de malha. Mande esse velho idiota para o senhor dele. Para o senhor dele?, perguntou o soldado, perplexo. Para Satanás, respondeu o padre. Pelo amor de Deus, implorou o conde de Mouthoumet, depois sacudiu-se impotente quando o soldado colocou um travesseiro de pelo de cordeiro no seu rosto. O velho demorou um tempo surpreendentemente longo para morrer.
Nós três vamos voltar a Avignon, disse o padre aos companheiros, mas o resto ficará aqui. Diga para revistarem este lugar. Ponham tudo abaixo! Pedra por pedra. O padre cavalgou para Avignon, a leste. Mais tarde, naquele dia, caiu um pouco de neve, macia e fina, cobrindo de branco as pálidas oliveiras no vale abaixo da torre do morto. Na manhã seguinte a neve havia sumido, e uma semana depois os ingleses chegaram.

Avignon
A mensagem chegou à cidade depois da meia-noite, trazida por um jovem monge que tinha vindo da Inglaterra. Havia deixado Carlisle em Agosto com outros dois irmãos, os três com ordens de chegar à grande casa cisterciense em Montpellier, onde o irmão Michael, o mais novo, aprenderia medicina e os outros estudariam na famosa escola de teologia. Os três haviam caminhado por toda a extensão da Inglaterra, navegado de Southampton a Bordeaux e depois se dirigido a pé para o interior, e, como qualquer viajante numa longa jornada, traziam mensagens. Havia uma para o abade de Puys, onde o irmão Vincent havia morrido de fluxo, depois Michael e seu companheiro tinham caminhado até Toulouse, onde o irmão Peter havia adoecido e fora levado ao hospital em que, pelo que Michael sabia, ainda se encontrava. Assim o jovem monge estava sozinho e tinha apenas uma mensagem consigo, um pedaço de pergaminho surrado, e tinham-lhe avisado que talvez não encontrasse o homem a quem ela era endereçada caso não viajasse naquela mesma noite. Le Bâtard move-se depressa, dissera o abade de Paville. Esteve aqui há dois dias, agora está em Villon, mas amanhã? Le Bâtard? É o nome dele por aqui, dissera o abade, fazendo o sinal da cruz, o que de certo modo sugeria que o jovem monge inglês teria sorte se sobrevivesse ao encontro com o homem chamado le Bâtard». In Bernard Cornwell, 1356, 2012, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-371-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

1356. Bernard Cornwell. «O conde estremeceu. Os pecados do meu pai não são meus. E os Senhores Negros possuíram la Malice. Dizem muitas coisas a respeito dos Senhores Negros, retrucou o conde…»

Cortesia de wikipedia

Carcassonne
«(…) O senhor deve ter fé, disse o padre. Vivi mais de 80 anos e tenho mais fé do que tempo restante. O senhor tem tempo suficiente para isso, disse o padre, sério. Os dois homens com cotas de malha ficaram parados no topo da escada, silenciosos. A calade soltou uma espécie de miado, mas quando o padre estalou os dedos o pássaro encapuzado ficou imóvel e quieto. O senhor já recebeu os sacramentos? O padre Jacques ia dá-los agora mesmo, respondeu o agonizante. Eu farei isso, disse o padre. Quem é o senhor? Venho de Avignon. Do papa? De quem mais? O padre andou pelo quarto, examinando-o, e o velho observou-o. Viu um homem alto, de rosto duro, com os mantos de padre muito bem-cortados. Quando o visitante levantou uma das mãos para tocar o crucifixo pendurado na parede, a sua manga abriu-se, revelando um forro de seda vermelha. O velho conhecia esse tipo de padre, duro e ambicioso, rico e esperto, do tipo que não ministrava aos pobres, mas subia a escada do poder clerical na companhia dos ricos e privilegiados. O padre se virou e espiou o velho com olhos verdes e duros. Diga, onde está la Malice? O velho hesitou um segundo além do que deveria. La Malice? Diga onde ela está, exigiu o padre, e, como o velho não disse nada, acrescentou: venho em nome do Santo Padre. Ordeno que me diga.
Não sei a resposta, sussurrou o velho. Então como posso dizer? Um pedaço de lenha estalou no fogo, soltando fagulhas. Os frades dominicanos têm espalhado heresias, disse o padre. Que Deus não permita, respondeu o velho. Você as ouviu? O conde balançou a cabeça. Ouço pouca coisa ultimamente, padre. O padre enfiou a mão numa bolsa pendurada à cintura e pegou num pedaço de pergaminho. Os Sete Senhores Negros a possuíram, leu em voz alta, e eles são amaldiçoados. Aquele que deve nos governar irá encontrá-la e será abençoado. Isso é heresia?, perguntou o conde. É um versículo que os dominicanos estão espalhando por toda a França. Por toda a Europa! Só existe um homem para nos governar, e é o Santo Padre. Se la Malice existe, é seu dever cristão me dizer o que sabe. Ela deve ser dada à Igreja! Quem pensa diferente é herege.
Não sou herege, disse o velho. Seu pai era um Senhor Negro. O conde estremeceu. Os pecados do meu pai não são meus. E os Senhores Negros possuíram la Malice. Dizem muitas coisas a respeito dos Senhores Negros, retrucou o conde. Eles protegiam os tesouros dos hereges cátaros, disse o padre, e quando, pela graça de Deus, esses hereges foram queimados, exterminados da terra, os Senhores Negros pegaram os seus tesouros e os esconderam. Ouvi dizerem isso. A voz do conde mal passava de um sussurro. O padre estendeu a mão e acariciou as costas do falcão. La Malice está perdida há muitos anos, disse ele, mas os dominicanos dizem que ela pode ser encontrada. E deve ser encontrada! É uma arma para trazer o reino de Cristo à terra, e você a esconde! Não escondo!, protestou o velho. O padre sentou-se na cama e inclinou-se perto do conde. Onde está la Malice? Não sei. Você está muito perto do julgamento de Deus, velho. Portanto, não minta para mim. Em nome de Deus, eu não sei.
E era verdade. Ele sabia onde la Malice estivera escondida e, temendo que os ingleses a descobrissem, mandara seu amigo, o frei Ferdinand, recuperar a relíquia, e presumia que o frade tivesse feito isso. E, supondo que o frei Ferdinand tenha conseguido, o conde não sabia mais onde la Malice estava. Logo, não havia mentido, mas também não dissera toda a verdade ao padre, porque alguns segredos deviam ser levados para a sepultura. O padre olhou o conde por um longo tempo, depois estendeu a mão para tirar a peia do falcão. O pássaro, ainda encapuzado, subiu cuidadosamente no pulso do padre. O homem levou-o até a cama e instigou o pássaro a ficar sobre o peito do agonizante, depois soltou gentilmente o laço do capuz e levantou o couro de cima dos olhos da ave. Esta calade é diferente, disse ele. Ela não revela se você viverá ou morrerá. E sim se morrerá em estado de graça e irá para o céu. Rezo para que eu vá. Olhe para o pássaro, ordenou o padre». In Bernard Cornwell, 1356, 2012, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-371-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Stonehenge. Bernard Cornwell. «Olha para isto!, exclamou subitamente Saban, segurando no pequeno losango. Olha! Lengar aliviou a pressão da corda enquanto espreitava…»

Cortesia de wikipedia

O Tempo do céu
«(…) Poder corrigiu Lengar. Olhou para o morto. Sabes o que se pode fazer com o ouro? Usá-lo na roupa?, sugeriu Saban. Imbecil! Podem comprar-se homens. Lengar recuou. As sombras das nuvens eram agora muito escuras e as aveleiras agitavam-se ao sabor do vento fresco. Compram-se lanceiros continuou. Compram-se archeiros e guerreiros! Compra-se poder! Saban apanhou um dos pequenos losangos, depois afastou-se do caminho, quando Lengar tentou recuperá-lo. O rapaz recuou através da pequena clareira e, quando lhe pareceu que Lengar não o perseguiria, acocorou-se e espreitou o bocadinho de ouro. Parecia uma coisa estranha para comprar poder. Saban conseguia imaginar os homens a trabalhar por comida, por vasos de barro, por sílex, por escravos ou por bronze, que poderia ser transformado em facas, machados, espadas e punhos de lanças, mas por este metal brilhante? Não podia cortar, existia simplesmente, porém, mesmo naquele dia nublado, Saban podia ver que o metal cintilava, cintilava como se um bocado de sol estivesse preso dentro dele; estremeceu de súbito, não por estar nu, mas porque nunca antes havia tocado em ouro, nunca tivera na mão uma raspa do Sol todo-poderoso. Temos de o levar ao pai disse em tom reverente. Para que esse velho tolo o acrescente ao seu tesouro?, perguntou Lengar em tom de desprezo. Voltou ao corpo e dobrou a capa por cima das hastes das flechas, vendo que as calças do morto estavam presas por um cinto com uma fivela de ouro maciço, enquanto tinha mais losangos pequenos ao pescoço pendurados num tendão. Lengar olhou para o irmão mais novo, lambeu os beiços e pegou numa das flechas que caíra das mãos do forasteiro. Segurava ainda o seu arco comprido, colocando na corda a flecha de penas pretas e brancas. Olhava para as aveleiras, evitando deliberadamente o olhar do meio-irmão, mas Saban percebeu imediatamente o que passava pela cabeça de Lengar. Se Saban sobrevivesse para contar ao pai acerca deste tesouro do Povo da Fronteira, então Lengar perdê-lo-ia, ou pelo menos teria de lutar por ele; mas se Saban fosse descoberto morto, tendo nas costelas uma flecha de penas pretas e brancas, pertencente ao Povo da Fronteira, ninguém suspeitaria que Lengar fosse o autor da morte, nem que este se tinha apropriado de um enorme tesouro em seu proveito. Os trovões ribombavam a ocidente e o vento frio achatava o cimo das aveleiras. Lengar esticava o arco, embora não olhasse para Saban.
Olha para isto!, exclamou subitamente Saban, segurando no pequeno losango. Olha! Lengar aliviou a pressão da corda enquanto espreitava e nesse mesmo instante, o rapaz partiu como se fosse uma lebre saltando das ervas. Correu através das aveleiras e pela vereda larga da entrada do Velho Templo pelo lado do Sol. Havia aí mais postes apodrecidos, tais como os que rodeavam a casa dos mortos. Teve de se desviar para ultrapassar os tocos e, enquanto girava por entre eles, a flecha de Lengar passou-lhe junto à orelha. Um trovão rasgou os céus e a chuva começou a cair. As gotas eram enormes. Um raio cintilou pela outra encosta. Saban correu, dando voltas e curvas, sem se atrever a olhar para trás, para ver se Lengar o perseguia. A chuva caía cada vez mais forte, enchendo o ar com o seu malévolo rugido, mas servindo de biombo para o esconder enquanto corria para norte e depois para oriente, em direcção à aldeia. Gritava enquanto corria, esperando que os donos dos rebanhos pudessem estar ainda nas pastagens, porém não viu ninguém até ter passado os túmulos no cimo da colina, atravessando o atalho lamacento entre os pequenos campos de trigo que eram açoitados pela chuva torrencial.
Galeth, tio de Saban e mais cinco homens, regressavam à aldeia quando ouviram os gritos do rapaz. Voltaram-se na direcção da colina, enquanto Saban corria à chuva agarrando-se ao gibão de pele de veado do tio. Que se passa, rapaz?, perguntou Galeth. Saban agarrou-se ao tio. Tentou matar-me!, exclamou ofegante. Tentou matar-me!
Quem?, perguntou Galeth. Era o irmão mais novo do pai de Saban, alto, de barba cerrada e famoso pelos seus feitos de força. Dizia-se que Galeth uma vez tinha erguido sozinho um poste do templo, que não era dos mais pequenos, mas sim um enorme tronco cortado, que sobressaía por cima dos outros postes. Tal como os companheiros, Galeth transportava um enorme machado de lâmina de bronze, pois estavam a derrubar árvores quando a tempestade chegara. Quem tentou matar-te?, perguntou Galeth. Foi ele!, gritou Saban, apontando para a colina onde Lengar acabara de aparecer com o arco na mão e uma nova flecha metida na corda. Lengar parou. Nada disse, limitando-se a olhar para o grupo de homens que agora abrigava o seu meio-irmão. Retirou a flecha da corda. Galeth olhou o sobrinho mais velho. Tentaste matar o teu próprio irmão? Lengar riu-se. Eu não. Foi um Fronteiriço. Desceu lentamente a colina. Tinha o longo cabelo negro molhado da chuva, muito liso e colado à cabeça, dando-lhe um ar assustador. Um Fronteiriço?, perguntou Galeth, cuspindo para afastar o azar. Havia muita gente em Ratharryn que achava que Galeth e não Lengar deveria ser o próximo chefe, mas a rivalidade entre tio e sobrinho empalidecia diante da ameaça de um ataque do Povo da Fronteira. Há Fronteiriços na pastagem?, perguntou Galeth. Só aquele, disse Lengar em tom descuidado. Meteu a seta do Fronteiriço dentro da bolsa. Só aquele repetiu. Agora está morto. Então estás a salvo, rapaz disse Galeth a Saban. Estás a salvo». In Bernard Cornwell, Stonehenge, 1999, Editora HarperCollins, 2008, Editora Record, tradutor Alves Calado, ISBN 978-850-107-985-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

quinta-feira, 24 de maio de 2018

1356. Bernard Cornwell. «Os dois homens com cotas de malha subiram a escada atrás dele e pareceram preencher a sala com a sua presença maligna»

Cortesia de wikipedia

Carcassonne
«(…) O que estava cego tropeçou para trás e caiu na pilha de esterco, e o seu companheiro brandiu a espada em desespero. La Malice encontrou-a, e a lâmina inglesa partiu-se ao meio. O frade moveu rapidamente a espada envolta em seda, cortando a goela do sujeito, e sentiu o sangue espirrar no rosto. Tão quente, pensou, e que Deus me perdoe. Um pássaro guinchou no escuro, e as chamas rugiam no bourg. Matou os três arqueiros, depois usou a seda para limpar a lâmina de la Malice. Pensou em fazer uma breve oração pelos homens que havia acabado de matar, depois decidiu que não queria compartilhar o céu com aquelas criaturas grosseiras. Em vez disso beijou la Malice, depois revistou os três corpos e encontrou algumas moedas, um pedaço de queijo, quatro cordas de arco e uma faca. A cidade de Carcassonne ardia e enchia com fumaça a noite de Inverno. E o frade caminhou para o norte. Ia para casa, para casa, na torre. Levava la Malice e o destino da cristandade. E desapareceu no escuro.
Os homens chegaram à torre quatro dias depois do saque de Carcassonne. Eram 16, todos com capas de boa lã grossa e todos montando bons cavalos. Quinze usavam cota de malha e tinham espadas à cintura, e o cavaleiro restante era um padre que carregava no pulso um falcão encapuzado. O vento descia áspero o desfiladeiro da montanha, agitando as penas do falcão, sacudindo os pinheiros e chicoteando a fumaça dos casebres na aldeia abaixo da torre. Fazia frio. Essa parte da França raramente via neve, mas o padre, olhando por baixo do capuz, achou que talvez houvesse flocos no vento. Havia muros arruinados em volta da torre, prova de que o lugar já fora uma fortaleza, mas tudo que restava do velho castelo era a torre e uma construção baixa, com tecto de palha, onde talvez morassem serviçais. Galinhas ciscavam na poeira, uma cabra amarrada olhava os cavalos e um gato ignorava os recém-chegados. O que já fora uma óptima fortaleza simples, que tinha por objectivo defender a estrada para as montanhas, era agora uma fazenda, mas o padre notou que a torre continuava em boas condições e que a pequena aldeia na reentrância abaixo da velha fortaleza parecia bastante próspera.
Um homem saiu correndo da cabana com tecto de palha e fez uma reverência profunda diante dos cavaleiros. Não porque os reconheceu, mas porque homens com espada exigiam respeito. Senhores?, perguntou o homem, ansioso. Guarde os cavalos, ordenou o padre. Primeiro caminhe com eles, acrescentou um dos homens com cota de malha. Ande com eles, escove-os, não os deixe comerem demais. Senhor, disse o homem, fazendo outra reverência. Isto aqui é Mouthoumet?, perguntou o padre enquanto apeava. Sim, padre. E você serve ao sire de Mouthoumet? Ao conde de Mouthoumet, sim, senhor. Ele está vivo? Deus seja louvado, padre, ele está vivo. Deus seja louvado mesmo, disse o padre descuidadamente, depois foi até à porta da torre, que ficava no topo de uma pequena escada de pedra.
Chamou dois dos homens com cota de malha para acompanhá-lo e ordenou que o resto esperasse no pátio, depois empurrou a porta e viu-se numa ampla sala redonda usada para guardar lenha. Presuntos e maços de ervas pendiam das traves. Uma escada subia por metade da parede, e o padre, não se incomodando em se anunciar ou em esperar que um empregado o recebesse, foi para o andar de cima, onde havia uma lareira junto à parede. Ali ardia um fogo, mas boa parte da fumaça permanecia na sala circular, empurrada de volta pelo vento frio. As antigas tábuas do piso eram cobertas por tapetes puídos; havia dois baús com velas acesas em cima, porque, mesmo sendo dia lá fora, as duas janelas da sala tinham cobertores estendidos para bloquear o vento. Sobre uma mesa estavam dois livros, alguns pergaminhos, um tinteiro, um feixe de penas, uma faca e um velho peitoral enferrujado de armadura, que servia como tigela para três maçãs murchas. Junto à mesa havia uma cadeira, e o conde de Mouthoumet, senhor da torre solitária, estava deitado numa cama perto das brasas na lareira. Havia um padre grisalho sentado junto dele, e duas mulheres idosas encontravam-se ajoelhadas ao pé da cama.
Saiam, ordenou aos três o padre recém-chegado. Os dois homens com cotas de malha subiram a escada atrás dele e pareceram preencher a sala com a sua presença maligna. Quem é o senhor?, perguntou nervoso o padre grisalho. Eu mandei sair, então saia. Ele está morrendo! Saia! O velho sacerdote, com um escapulário em volta do pescoço, abandonou os sacramentos e seguiu as duas mulheres descendo a escada. O homem agonizante olhou os recém-chegados, mas não disse nada. O seu cabelo era comprido e branco, a barba cheia e os olhos fundos. Viu o padre colocar o falcão na mesa, e as garras do pássaro rasparam na madeira. Ela é une calade, explicou o padre. Une calade?, perguntou o conde, com a voz muito baixa. Olhou as penas cor de ardósia e o peito claro e riscado da ave. É tarde demais para uma calade. O senhor deve ter fé, disse o padre». In Bernard Cornwell, 1356, 2012, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-371-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

domingo, 20 de maio de 2018

1356. Bernard Cornwell. «Os três tinham metade da idade do frei e, como eram arqueiros, provavelmente possuíam o dobro da sua força, mas frei Ferdinand havia sido um grande guerreiro…»

Cortesia de wikipedia

Carcassonne
«(…) Chamas consumiam tectos de palha que queimavam violentamente, cuspindo fagulhas ao vento nocturno. A fumaça retorcia-se sobre a cidade. Um soldado usando a cruz vermelha de São Jorge estava vomitando nos degraus da igreja, e um cachorro correu para lamber o vómito. O frade virou-se para o rio, esperando atravessar a ponte e subir para a Cité. Pensava que a muralha dupla, as torres e as ameias de Carcassonne iriam protegê-lo porque duvidava de que aquele exército feroz tivesse paciência para realizar um cerco. Eles haviam capturado o bourg, o bairro comercial que ficava a oeste do rio, mas aquele local jamais fora defensável. A maioria dos negócios da cidade era feita no bourg, lá estavam as oficinas de couro, os artesãos de prata, os armeiros, o matadouro de aves e os mercadores de tecidos, mas apenas um muro de terra cercava essas riquezas, e o exército havia passado em bando por cima dessa barreira risível, como uma enchente. Mas a Cité de Carcassonne era uma fortaleza, uma das maiores da França, um bastião cercado por enormes torres de pedra e muros altíssimos. Lá dentro ele estaria seguro. Encontraria um local para esconder la Malice até que pudesse devolvê-la ao dono. Esgueirou-se por uma rua que não tinha sido incendiada. Homens invadiam casas, usando marretas ou machados para arrebentar as portas. A maior parte dos cidadãos tinha fugido para a Cité, mas algumas poucas almas tolas haviam permanecido, talvez com esperança de proteger as suas propriedades. O exército havia chegado tão rapidamente que não houvera tempo de levar cada bem valioso para o outro lado da ponte, até às portas monstruosas que protegiam a cidadela no topo da colina. Havia dois corpos na sarjeta central. Usavam os quatro leões de Armagnac, besteiros mortos na defesa inútil do bourg.
O frei Ferdinand não conhecia a cidade. Agora tentava encontrar um caminho escondido até ao rio, usando becos sombreados e passagens estreitas. Deus estava com ele, pensou, porque não encontrou inimigos enquanto corria para o leste, mas então chegou a uma rua mais larga, muito iluminada por chamas, e viu a ponte comprida, e do outro lado, no alto do morro, as muralhas da Cité reflectindo o fogo. As pedras pareciam avermelhadas pelos incêndios que ardiam no bourg. Os muros do inferno, pensou o frade, e um sopro de vento da noite fez uma grande máscara de fumaça redemoinhar para baixo, amortalhando a sua visão da muralha, mas não da ponte, onde, vigiando a extremidade oeste, havia arqueiros. Arqueiros ingleses, usando as túnicas com cruzes vermelhas e portando os seus arcos longos e mortais. Dois cavaleiros, com cota de malha e elmo, estavam com eles. Não havia como atravessar, pensou. Não havia como chegar à segurança da Cité. Agachou-se, reflectindo. Depois voltou aos becos. Iria para o norte.
Precisou cruzar uma rua importante, iluminada por incêndios ateados recentemente. Uma corrente, uma das muitas que tinham sido colocadas atravessando a rua para conter os invasores, estava jogada na sarjeta, onde um gato lambia sangue. O frei Ferdinand correu à luz do incêndio, enfiou-se noutro beco e continuou correndo. Deus continuava com ele. As estrelas estavam obscurecidas pela fumaça pontilhada de fagulhas. Atravessou uma praça, foi contido por um beco sem saída, voltou e foi para o norte de novo. Uma vaca mugia numa construção em chamas, um cachorro atravessou o seu caminho com algo preto e pingando nos dentes. Passou por um curtume, pulando por cima das peles estendidas nas pedras do calçamento, e mais adiante estava o risível muro de terra que servia como única defesa do bourg. Subiu nele, ouviu um grito e olhou para trás, vendo três homens perseguindo-o. Quem é você?, gritou um deles. Pare!, berrou outro.
O frade ignorou-os. Desceu correndo o barranco, indo para o campo escuro que ficava além do amontoado de choupanas construídas do lado de fora do muro de terra, enquanto uma flecha passava sibilando por ele, errando-o, com a graça de Deus, pela distância de um dedo. Retorceu-se de lado, entrando numa passagem entre dois casebres. Ali havia um monte de esterco. Passou correndo pela bosta e viu que a passagem terminava numa parede. Virou-se de volta, vendo os três homens barrando o seu caminho. Estavam rindo. O que tem?, perguntou um deles. Je suis gascon, disse o frei Ferdinand. Sabia que os invasores da cidade eram gascões e ingleses, e ele não falava inglês. Je suis gascon!, repetiu, indo na direcção deles. É um dominicano, disse um dos homens. Mas porque o desgraçado fugiu?, perguntou outro inglês. Tem alguma coisa escondida, é? Dê aqui, disse o terceiro, estendendo a mão. Era o único que tinha o arco encordoado; os outros dois estavam com os arcos pendurados às costas e seguravam espadas. Anda, seu desgraçado, me dê logo. O homem estendeu a mão para la Malice.
Os três tinham metade da idade do frei e, como eram arqueiros, provavelmente possuíam o dobro da sua força, mas frei Ferdinand havia sido um grande guerreiro, e as habilidades da espada jamais o haviam abandonado. E estava com raiva. Com raiva por causa do sofrimento que tinha visto e das crueldades que tinha ouvido, e essa raiva deixou-o selvagem. Em nome de Deus, disse, e levantou la Malice como um chicote. A espada continuava enrolada na seda, mas a sua lâmina cortou fundo o pulso estendido do arqueiro, partindo os tendões e quebrando ossos. Frei Ferdinand segurava-a pela espiga, que oferecia um suporte precário, mas a espada parecia viva. O homem ferido encolheu-se, sangrando, enquanto os seus companheiros rugiam de fúria e golpeavam com as espadas. O frei aparou as duas com um único movimento e estocou, e la Malice, mesmo após mais de 150 anos na tumba, provou-se afiada como uma lâmina recém-polida. O seu gume frontal atravessou a túnica acolchoada do homem mais próximo, abriu as suas costelas e perfurou um pulmão, e, antes que o sujeito ao menos soubesse que tinha sido ferido, frei Ferdinand girou a lâmina de lado para acertar os olhos do terceiro homem. O sangue brilhou no beco, e agora os três recuavam, mas o frade não lhes deu chance de escaparem». In Bernard Cornwell, 1356, 2012, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-371-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

1356. Bernard Cornwell. «A nave da igreja estava iluminada pelas casas que ardiam na pracinha do lado de fora. Havia três homens dentro da igreja, e um deles gritou interpelando a figura de capa escura que surgiu vinda da escada da cripta»

Cortesia de wikipedia

Carcassonne
«Ele estava atrasado. Havia escurecido e ele não tinha lanterna, mas as chamas da cidade lançavam um brilho sinistro que chegava ao fundo da igreja e iluminava apenas o suficiente para mostrar as lajes de pedra na cripta funda onde o homem golpeava o chão com um pé de cabra. Estava a abrir uma pedra gravada com um brasão que mostrava um cálice cercado por um cinto afivelado onde estava escrito Calix Meus Inebrians. Raios de sol esculpidos no granito davam a impressão de que o cálice irradiava uma luz. O relevo e a inscrição estavam desgastados pelo tempo, e o homem mal os havia percebido, embora ouvisse os gritos vindos dos becos ao redor da igrejinha. Era uma noite de fogo e sofrimento, e os gritos abafavam os ruídos dos seus golpes no extremo da pedra, enquanto ele tentava lascar um pequeno espaço em que poderia enfiar o comprido pé de cabra. Golpeou com a barra de ferro, depois imobilizou-se ao escutar gargalhadas e passos na igreja em cima. Encolheu-se atrás de uma passagem em arco logo antes de dois homens descerem à cripta. Carregavam uma tocha acesa que iluminou o comprido espaço em arco e revelou que não havia saques fáceis à vista. O altar da cripta era de pedra simples, sem nada além de uma cruz de madeira como decoração, não tinha sequer um candelabro. Um dos homens disse algo numa língua estranha, o outro gargalhou, e os dois voltaram para a nave, cujas paredes pintadas e altares conspurcados estavam iluminados pelas chamas das ruas. O homem com o pé de cabra usava capa e capuz pretos. Por baixo da capa pesada havia um hábito branco manchado de pó, e era preso na cintura por uma corda com três nós. Era um frade, um dominicano, mas nesta noite isso não serviria de protecção contra o exército que devastava Carcassonne. Era alto e forte, e antes de ter feito os votos havia sido um homem de armas. Sabia como estocar com uma lança, cortar com uma espada ou matar com um machado. Na época chamava-se Sire Ferdinand de Rodez, mas agora era simplesmente o frei Ferdinand. Antigamente usara cota de malha e placas, cavalgara em torneios e matara em batalha, mas fazia 15 anos que era frade e rezava diariamente pelo perdão dos seus pecados. Agora estava velho, com quase 60 anos, mas ainda tinha ombros largos. Havia caminhado para chegar a esta cidade, mas as chuvas tinham prolongado a sua jornada, inundando os rios e tornando os vaus intransponíveis, e era por isso que estava atrasado. Atrasado e cansado. Enfiou o pé de cabra por baixo da pedra com relevos e fez força de novo, temendo que o ferro se dobrasse antes que ela cedesse, então houve um som áspero e o granito se levantou, em seguida deslizou de lado, oferecendo uma pequena abertura.
O espaço estava escuro porque a luz demoníaca da cidade em chamas não podia entrar na sepultura, de modo que o frade se ajoelhou junto ao buraco e enfiou a mão. Encontrou madeira, por isso usou o pé de cabra de novo. Um golpe, dois golpes, e a madeira lascou-se, e ele rezou para que não houvesse um caixão de chumbo ali dentro. Golpeou com o pé de cabra uma última vez, depois enfiou a mão e puxou pedaços de madeira para fora do buraco. Não havia caixão de chumbo. Os seus dedos, penetrando mais na tumba, encontraram um tecido que se desfez ao ser tocado. Depois sentiram ossos. Os dedos exploraram uma órbita ocular seca, dentes soltos, e descobriram a curva de uma costela. Deitou-se para esticar o braço mais fundo, tacteou no negrume da sepultura e encontrou alguma coisa sólida que não era osso. Mas não era o que ele procurava; tinha a forma errada. Era um crucifixo. De repente soaram vozes altas na igreja. Um homem gargalhou e uma mulher soluçou. O frade ficou deitado imóvel, ouvindo e rezando. Por um momento desanimou, pensando que o objecto que procurava não estava no túmulo, mas então estendeu a mão o mais longe que conseguia e os seus dedos tocaram algo envolto num pano fino que não se desfez. Remexeu-se desajeitadamente no escuro, segurou o pano e puxou. Havia um objecto pesado embrulhado no tecido, e ele puxou-o lentamente, depois segurou-o direito e soltou o objeto das mãos do esqueleto que o estavam prendendo. Tirou a coisa da tumba e levantou-se. Não precisava desembrulhá-lo. Sabia que havia encontrado la Malice e, agradecendo, voltou-se para o altar simples no lado leste da cripta e fez o sinal da cruz.
Obrigado, Senhor, disse num murmúrio, e obrigado, São Pedro, e obrigado, São Juniano. Agora me mantenham em segurança. O frade precisaria de ajuda celestial para se manter seguro. Por um momento pensou em esconder-se na cripta até que o exército invasor deixasse Carcassonne, mas isso poderia demorar dias, e, além do mais, assim que os soldados tivessem saqueado tudo que estivesse ao seu alcance, abririam os túmulos na cripta em busca de anéis, crucifixos ou qualquer outra coisa que rendesse uma moeda. A cripta havia abrigado la Malice durante um século e meio, mas o frade tinha consciência de que ela não lhe daria segurança por mais do que algumas horas. O frei Ferdinand abandonou o pé de cabra e subiu a escada. La Malice tinha o mesmo comprimento do seu braço e era surpreendentemente pesada. Antigamente era equipada com um cabo, mas restava apenas a fina espiga de metal, e ele segurou-a por esse suporte grosseiro. Ainda estava envolta no que ele achou que fosse seda.
A nave da igreja estava iluminada pelas casas que ardiam na pracinha do lado de fora. Havia três homens dentro da igreja, e um deles gritou interpelando a figura de capa escura que surgiu vinda da escada da cripta. Os três eram arqueiros, e os seus arcos longos estavam encostados no altar, mas, apesar da interpelação, não se interessaram realmente pelo estranho, só pela mulher que tinham posto de pernas abertas nos degraus do altar. Por um instante o frei Ferdinand ficou tentado a salvar a mulher, mas então quatro ou cinco outros homens entraram por uma porta lateral e gritaram de alegria ao ver o corpo nu estendido nos degraus. Tinham trazido outra jovem, uma garota que gritava e lutava, e o frei estremeceu ao ouvir o som do seu sofrimento. Ouviu as roupas dela sendo rasgadas, ouviu-a gemer e lembrou-se de todos os seus próprios pecados. Fez o sinal da cruz. Perdoai-me, Cristo Jesus, sussurrou e, incapaz de ajudar as jovens, passou pela porta da igreja e saiu para a pequena praça». In Bernard Cornwell, 1356, 2012, Editora Record, 2013, ISBN 978-850-140-371-1.

Cortesia de ERecord/JDACT

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Stonehenge. Bernard Cornwell. «Lengar! Saban agitava-se nas aveleiras. Deixa-me ir buscar o pai. Calado! Lengar retirara uma das suas flechas de penas negras da aljava e colocara-a no arco curto»


Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O forasteiro inclinou-se para diante e com dificuldade pegou nas flechas que tinham caído da aljava, formando com elas um pequeno feixe que segurou como uma faca, como se se quisesse defender. Traz-me um curandeiro implorou na sua língua. Os trovões rugiam a ocidente e as folhas das aveleiras estremeceram quando uma rajada de vento frio anunciou a tempestade. O forasteiro olhou de novo Lengar nos olhos e não viu neles piedade. Apenas a satisfação que Lengar encontrava na morte. Não, disse. Não, por favor. Lengar soltou a flecha. Estava só a cinco passos do forasteiro e a pequena seta atingiu o alvo com força doentia, empurrando o homem para o lado. A flecha enterrou-se profundamente, deixando apenas a ver-se sobre o peito do forasteiro um palmo da sua haste, enfeitada com penas pretas e brancas. Saban pensou que o Fronteiriço estava morto porque não se mexeu durante muito tempo, mas depois o feixe de setas que fizera cuidadosamente caiu-lhe da mão, quando se esforçou por se endireitar. Por favor disse em voz baixa.
Lengar! Saban agitava-se nas aveleiras. Deixa-me ir buscar o pai. Calado! Lengar retirara uma das suas flechas de penas negras da aljava e colocara-a no arco curto. Caminhou na direção de Saban, apontando-lhe o arco, sorrindo ao ver o terror no rosto do meio-irmão. O forasteiro olhava também para Saban, vendo um rapaz alto e bonito, com cabelo negro emaranhado, olhos ansiosos. Sannas implorou o forasteiro a Saban, leva-me a Sannas. Sannas não vive aqui disse Saban, entendendo apenas o nome da feiticeira. Nós vivemos aqui anunciou Lengar, apontando agora uma flecha sua ao forasteiro. És um Fronteiriço, dos que roubam o nosso gado, escravizam as nossas mulheres e enganam os nossos mercadores. Soltou a segunda flecha que, como a primeira, bateu no peito do forasteiro, desta vez nas costelas do lado direito. Mais uma vez o homem tombou para o lado e de novo se esforçou por se endireitar como se o seu espírito recusasse deixar-lhe o corpo ferido.
Posso dar-te poder disse, enquanto um fio de sangue borbulhante lhe escorria da boca para a barba curta. Poder murmurou. Mas Lengar não entendia a língua do homem. Disparara duas flechas e mesmo assim o homem recusava-se a morrer, de modo que pegou no seu arco, colocou uma flecha na corda e enfrentou o forasteiro. Esticou para trás a arma enorme. O forasteiro abanou a cabeça, mas já conhecia o seu destino; olhou então Lengar nos olhos para lhe mostrar que não tinha medo de morrer. Amaldiçoou o seu assassino, embora duvidasse que os deuses o escutassem, pois era ladrão e fugitivo. Lengar soltou a corda e a flecha de penas pretas enfiou-se no coração do forasteiro. Deve ter morrido imediatamente, porém tentara ainda erguer o corpo, como se quisesse desviar-se da seta de sílex; depois caiu, estremeceu enquanto lhe batia o coração e ficou imóvel. Lengar cuspiu na mão direita, esfregando depois o cuspo no interior do pulso esquerdo, onde o arco do forasteiro lhe tinha ferido a pele; ao olhar para o meio-irmão, Saban percebeu a razão por que o forasteiro usava a fita de pedra no braço. Lengar executou uns passos, celebrando a morte, mas estava nervoso. Não tinha a certeza se o homem estava realmente morto, pois aproximou-se do corpo com todo o cuidado, tocando-lhe com a extremidade de osso do arco, preparado para saltar para trás, se o corpo voltasse à vida e se atirasse a ele, mas o forasteiro não se mexeu.
Lengar aproximou-se de novo para arrancar a bolsa da mão do forasteiro já morto, afastando-a do corpo. Olhou por uns momentos o rosto acinzentado do cadáver e depois, confiante de que o espírito do homem tinha de facto partido, arrancou o cordão que atava a bolsa. Espreitou para dentro dela, ficou imóvel um instante e depois gritou de alegria. Tinham-lhe dado o poder. Saban, aterrorizado pelo grito do irmão, recuou, mas em seguida avançou de novo, enquanto Lengar esvaziava o conteúdo da bolsa na relva, junto à caveira esbranquiçada do boi. Para Saban, parecia que um raio de sol se tinha escapado dela. Havia dezenas de pequenos ornamentos de ouro, em forma de losango, cada um deles do tamanho da unha de um polegar e quatro placas grandes, também com a forma de losangos, com as dimensões de uma mão. Os losangos, grandes e pequenos, tinham pequenos orifícios feitos nos vértices, de modo a poderem ser metidos num tendão ou cosidos numa peça de vestuário; todos eles eram feitos de folhas de ouro muito finas, com linhas rectas gravadas, embora o padrão nada significasse para Lengar que arrancou a Saban um dos mais pequenos, que este se atrevera a apanhar da relva. Lengar juntou-os todos, grandes e pequenos, num monte. Sabes o que é isto? perguntou ao irmão mais novo, apontando para lá. Ouro respondeu Saban». In Bernard Cornwell, Stonehenge, 1999, Editora HarperCollins, 2008, Editora Record, tradutor Alves Calado, ISBN 978-850-107-985-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

Stonehenge. Bernard Cornwell. «O forasteiro atravessara a vala e subira a barreira, mas Lengar dirigiu-se à antiga entrada sul, onde uma estreita vereda levava ao frondoso interior»

Cortesia de wikipedia e jdact

«(…) O cavalo abandonado, assustado pela trovoada e pelo gado, trotou para ocidente da floresta. Lengar esperou até que o cavalo desaparecesse por entre as árvores, levantou-se da vala e correu em direcção às aveleiras, para onde o forasteiro se dirigira. Saban foi atrás, entrando onde nunca estivera nos seus doze anos de vida. No Velho Templo. Uma vez, há muitos anos, há tantos que ninguém vivo se lembrava desses tempos antigos, o Velho Templo fora o maior santuário da zona central. Nesses tempos, quando os homens vinham de longe para dançar no recinto do templo, a barreira de greda que o cercava era tão branca que parecia cintilar à luz da Lua. De um lado a outro do anel cintilante iam cem passos e, nos tempos antigos esse espaço sagrado fora percorrido pelos pés dos dançarinos que rodeavam a casa dos mortos formada por três anéis de troncos cortados de carvalho. Os troncos nus e macios tinham sido oleados com gordura animal e enfeitados com ramos de azevinho e hera.
Agora a barreira estava coberta de relva sufocada por ervas daninhas. Pequenas aveleiras haviam crescido na vala e outras invadido o enorme espaço dentro da barreira circular, de modo que, à distância, o templo parecia um bosque de pequenos arbustos. Os pássaros faziam os ninhos onde outrora os homens dançaram. Por cima do emaranhado de aveleiras, via-se ainda o poste de carvalho da casa dos mortos, mas este estava agora inclinado e a madeira, outrora lisa, apresentava-se picada, negra e grossa devido aos fungos. O templo fora abandonado, todavia os deuses não esquecem os seus santuários. Por vezes, em dias calmos quando a neblina se estende sobre as pastagens ou a lua cheia se mantém imóvel sobre o círculo de greda, as folhas das aveleiras estremecem como se o vento passasse por elas. Os dançarinos partiram, mas o poder ficou. E agora o Fronteiriço entrara no templo. Os deuses gritavam. As sombras das nuvens engoliam a pastagem, enquanto Lengar e Saban corriam em direcção ao Velho Templo. Saban tinha frio e estava assustado. Lengar também estava receoso, mas o Povo da Fronteira era famoso pelas suas riquezas e a ganância de Lengar era superior ao medo de entrar no templo. O forasteiro atravessara a vala e subira a barreira, mas Lengar dirigiu-se à antiga entrada sul, onde uma estreita vereda levava ao frondoso interior. Uma vez atravessada a vereda, Lengar pôs-se de gatas e rastejou por entre as aveleiras. Saban seguiu-o com relutância, sem querer ficar sozinho na pastagem quando estourasse a ira do deus da tempestade.
Para surpresa de Lengar, o Velho Templo não estava completamente coberto de arbustos, pois havia um espaço limpo no local onde se situara a casa dos mortos. Alguém da tribo deveria ainda visitar o Velho Templo, porque as ervas daninhas foram arrancadas, a relva cortada com uma faca e apenas uma caveira de boi se encontrava aí, no local onde se sentava agora o forasteiro, encostado à única coluna que restava do templo. O rosto do homem estava pálido e tinha os olhos fechados, mas o seu peito subia e descia com a respiração difícil. Trazia uma fila de pedras negras na parte interior do pulso, apertadas por atilhos de couro. Havia sangue nas suas calças de lã. O homem pousara o arco e a aljava das flechas junto da caveira do boi e agarrava agora um saco de couro junto ao ventre ferido. Havia três dias que fora apanhado numa emboscada, dentro da floresta. Não vira quem o atacara, apenas sentira uma dor atroz, resultante da lança que lhe atiraram, depois picara o cavalo e deixara que este o levasse para fora de perigo. Vou buscar o pai murmurou Saban.
Não vais sussurrou Lengar, mas o ferido devia tê-los ouvido, pois abriu os olhos e fez uma careta, inclinando-se para diante, de modo a pegar no arco. No entanto, o forasteiro estava mais lento devido à dor e Lengar foi muito mais rápido. Largou o arco saiu do esconderijo e correu pela casa dos mortos apanhando o arco do forasteiro com uma mão e a aljava com a outra. Com a pressa espalhou as flechas de modo que apenas restava uma na bolsa de couro. O rolar dos trovões soou a ocidente. Saban estremeceu, temendo que o som aumentasse, enchendo o ar com a raiva do deus, mas o trovão afastou-se, deixando o céu mortalmente calmo. Sannas disse o forasteiro, acrescentando depois palavras numa língua que nem Lengar, nem Saban falavam. Sannas? perguntou Lengar. Sannas repetiu o homem ansioso. Sannas era a grande feiticeira de Cathallo, famosa em toda a terra. Saban calculou que o forasteiro quisesse ser tratado por ela.
Lengar sorriu. Sannas não pertence ao nosso povo afirmou. Sannas vive a norte. O forasteiro não compreendeu o que Lengar disse. Erek pronunciou e Saban, ainda escondido nos arbustos, perguntou a si próprio se seria o seu nome, ou talvez o nome do seu deus. Erek disse o ferido com maior firmeza, mas a palavra nada significava para Lengar, que retirara uma flecha da aljava do forasteiro e a enfiava no arco. Este era feito de tiras de madeira e chifre, coladas e ligadas com tendões; o povo a que Lengar pertencia nunca usara uma arma assim. Preferiam um arco mais longo, feito de teixo, de modo que sentia curiosidade por aquela estranha arma. Esticou a corda, experimentando-lhe a força. Erek! gritou muito alto o forasteiro. És do Povo da Fronteira afirmou Lengar. Não tens nada a fazer aqui. Esticou de novo o arco, surpreendido pela tensão de uma arma tão curta. Traz-me um curandeiro. Traz-me Sannas disse o forasteiro na sua própria língua. Se Sannas estivesse aqui afirmou Lengar, reconhecendo apenas o nome matava-a primeiro. Cuspiu. Isto é o que eu penso de Sannas. É uma vaca enrugada, uma semente do mal, estrume de sapo feito carne. Cuspiu de novo». In Bernard Cornwell, Stonehenge, 1999, Editora HarperCollins, 2008, Editora Record, tradutor Alves Calado, ISBN 978-850-107-985-5.

Cortesia de ERecord/JDACT

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Stonehenge. Bernard Cornwell. «O forasteiro tinha a cabeça baixa e os calcanhares pendiam-lhe quase até ao chão. Vestia uma capa de lã tingida de azul e trazia um arco na mão direita, enquanto do ombro esquerdo…»

Cortesia de wikipedia e jdact

O Templo do Céu
«Os deuses falam por sinais. Pode ser uma folha caindo no Verão, o grito de um animal moribundo ou a ondulação feita pelo vento num lago. Pode ser o fumo junto ao solo, uma abertura nas nuvens ou o voo de uma ave. Mas naquele dia os deuses enviaram uma tempestade. Foi uma tempestade enorme, uma tempestade que seria recordada, embora o povo não nomeasse o ano por essa tempestade. Pelo contrário, chamaram-lhe o Ano em que chegou o Forasteiro. Isto porque um forasteiro chegou a Ratharryn no dia da tempestade. Era um dia de Verão, o mesmo em que Saban quase assassinou o seu meio-irmão. Naquele dia os deuses não falaram. Gritaram. Saban, como todas as crianças, andava nu no Verão. Tinha menos seis anos que o seu meio-irmão, Lengar, e como ainda não passara as provas da idade adulta, não tinha cicatrizes tribais nem marcas de morte. Mas as provas estavam apenas a um ano de distância e o pai instruíra Lengar para que levasse Saban à floresta e lhe ensinasse onde se encontravam os veados, onde se escondiam os javalis, onde ficavam as tocas dos lobos. Lengar ofendera-se com a tarefa, portanto, em vez de ensinar o irmão, arrastou-o por moitas de espinhos de modo a fazer sangrar a pele do rapaz queimada pelo sol. Nunca te vais tornar um homem, escarneceu, Lengar. Sensato, Saban nada disse. Havia já cinco anos que Lengar era um homem, de modo que tinha no peito as cicatrizes azuis da tribo e nos braços as marcas de caçador. Trazia consigo um arco feito de teixo, com pontas de osso e uma corda de tendão bem esticada e untada com gordura de porco. Vestia uma túnica de pele de lobo e tinha o cabelo comprido entrançado, atado com uma fita de raposa. Era alto, de rosto estreito, sendo considerado um dos grandes caçadores da tribo. O seu nome significava Olhos de Lobo, uma vez que o seu olhar tinha uma tonalidade amarelada. Tinham-lhe dado um nome ao nascer mas, como muitos na tribo, recebera outro ao tornar-se adulto.
Saban também era alto e tinha longo cabelo negro. O seu nome significava Favorito e na tribo muitos pensavam que era adequado, já que apenas com doze Verões, Saban prometia ser formoso. Era forte e esguio, trabalhava muito e sorria quase sempre. Lengar raramente sorria. Tem uma sombra no rosto, diziam dele as mulheres, apenas quando não as pudesse ouvir, pois era provável que Lengar viesse a ser o próximo chefe da tribo. Lengar e Saban eram filhos de Hengall, e este o chefe do povo de Ratharryn. Durante todo aquele longo dia, Lengar levou Saban através da floresta. Não encontraram veados, javalis, lobos ou ursos. Limitaram-se a caminhar, tendo chegado à tarde ao sopé da colina, para ver que toda a terra a ocidente estava sombreada por uma massa de nuvens negras. Os relâmpagos riscavam o monte de nuvens escuras em direcção à floresta longínqua, deixando o céu a arder. Lengar acocorou-se, com uma mão no arco polido, observando a tempestade que se aproximava. Devia ter já iniciado o regresso a casa, mas queria assustar Saban, de modo que fingiu não estar preocupado com a tempestade, que era uma ameaça dos deuses. Foi enquanto observavam a tempestade que chegou o forasteiro.
Montava um pequeno cavalo castanho, branco de suor. Como sela usava um cobertor de lã dobrado e as rédeas eram fios de fibra de urtiga, embora nem necessitasse delas, já que estava ferido e parecia cansado, deixando a sua pequena montada escolher o atalho que subia a escarpa íngreme. O forasteiro tinha a cabeça baixa e os calcanhares pendiam-lhe quase até ao chão. Vestia uma capa de lã tingida de azul e trazia um arco na mão direita, enquanto do ombro esquerdo pendia-lhe uma bolsa cheia de flechas ornamentadas de penas de gaivota e corvo. Usava uma barba negra e curta, e as marcas tribais do seu rosto eram cinzentas. Lengar sussurrou a Saban que ficasse em silêncio, seguindo depois o forasteiro para oriente. Lengar tinha uma flecha metida no arco, mas o forasteiro nem uma só vez se voltou para ver se estava a ser seguido, de modo que Lengar contentou-se em deixar a flecha descansar na corda. Saban gostaria de saber se o cavaleiro ainda vivia, pois parecia um morto, inerte, atirado para o lombo do cavalo. O forasteiro era um Fronteiriço. Até Saban o sabia, pois apenas o Povo da Fronteira montava pequenos cavalos peludos e usava cicatrizes cinzentas no rosto. O Povo da Fronteira era inimigo, porém Lengar não soltou a flecha. Limitou-se a seguir o cavaleiro, levando Saban atrás de si, até que por fim o Fronteiriço chegou à beira das árvores onde cresciam fetos. Aí, o forasteiro parou o cavalo e ergueu a cabeça para olhar a suave elevação, enquanto Lengar e Saban se acocoravam, escondidos por trás dele.
O forasteiro olhou os fetos e mais ao longe o pasto, onde o solo era mais fino, depois das marcações. Havia túmulos espalhados pela crista baixa do terreno. Os porcos comiam os fetos, enquanto o gado preferia a terra de pastagem. Aqui ainda havia sol. O forasteiro manteve-se muito tempo nos limites do bosque, em busca de inimigos, mas sem os ver. Para norte do sítio onde se encontrava, havia campos de trigo limitados por espinheiros, sobre os quais as primeiras nuvens, arautos da tempestade, seguiam a sua sombra; porém à sua frente havia sol. Havia vida diante de si e escuridão por trás. O pequeno cavalo, solto, agitou-se subitamente junto aos fetos. O cavaleiro deixou-se levar. O animal subiu a encosta suave até aos túmulos. Lengar e Saban esperaram até o forasteiro desaparecer no horizonte, depois seguiram e, chegando ao cimo, acocoraram-se numa vala funerária, para verem que o cavaleiro se tinha detido junto ao Velho Templo. Ouviu-se o ribombar de um trovão e uma rajada de vento alisou a erva em que o gado pastava. O forasteiro escorregou de cima do cavalo, atravessou a enorme vala do Velho Templo e desapareceu no meio das frondosas aveleiras que cresciam dentro do recinto sagrado. Saban percebeu que o homem vinha em busca do santuário. Mas Lengar estava atrás do Fronteiriço, e Lengar não era dado a piedade». In Bernard Cornwell, Stonehenge, 1999, Editora HarperCollins, 2008, Editora Record, tradutor Alves Calado, ISBN 978-850-107-985-5.

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