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sábado, 30 de março de 2024

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… o menino alçava-se em bicos dos pés a olhar maravilhado para o vaivém dos elefantes de trabalho que transportavam nas trombas os pesados troncos de madeira, cortados pelos lenhadores da casta dos revolons…»

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«Finalmente em Cochim, onde haviam desembarcado no primeiro dia de Novembro, a fortaleza de madeira, com a sua pequena povoação de casas de troncos e cobertura de folhas de palma, causara-lhe desilusão e temor. Enquanto António não era provido no seu cargo, ainda ocupado pelo oficial em funções, fora-lhe atribuída para moradia uma dessas cabanas, junto ao baluarte, onde ela vivera em contínuo sobressalto do fogo, dominando os medos para não enfadar o seu homem e acorrendo sempre ao toque do sino para combater as chamas.

Graças a Zobeida e Giauhare, não sentira solidão, apesar de ser a primeira portuguesa a pisar terra da Índia, uma proeza de que muito se orgulhava. Poucos dias após a sua chegada, apenas instalada na sua nova casa e com a ajuda das meninas e de uma parteira malabar, dera à luz o filho naquele mundo onde tudo lhe era estranho. Quase morrera de susto, quando a aparadeira gentia a lavara e ao filho, por três vezes, em água quente e fria e não enfaixara a criança, como era de uso em Portugal. Os homens fazem as leis, as mulheres os costumes!, pensara, decidida a aceitar os modos da terra que não fossem contra a sua religião e natureza e este do banho, sobretudo quando estava com as regras, o que era proibido pelos físicos portugueses como coisa prejudicial e muito perigosa, era afinal um preceito prazeiroso que adoçava os sentidos.

Não se queixara, nem se arrependera da sua vinda, porque, se era esse o preço a pagar para estar com o homem que amava, dava por bem empregue o sacrifício. No ano seguinte, Iria assistiria maravilhada à reconstrução da fortaleza em pedra e cal, ordenada por dom Francisco de Almeida, que lograra o grande feito de convencer el-rei a dar-lhe permissão para a fazer assim forte e cobrir de telha os seus edifícios e as casas da nova povoação. Como alcaide-mor de Cochim, António tivera direito a casa dentro da fortaleza, para onde Iria se mudara com o filho e as meninas.

Decorridos já oito anos sobre esses sucessos, Iria ainda gostava de passear ao longo das ameias e varandas das suas altas muralhas, levando Diogo pela mão e contando-lhe histórias. Era uma bela construção de forma quadrada, tendo nas duas esquinas do lado da praia cubelos de dois sobrados, cobertos com pasta de chumbo e guarnecidos de ameias; nas outras duas esquinas erguiam-se as torres quadradas também de dois sobrados, o de cima para as casas do capitão e do alcaide-mor com a sua gente, o de baixo para armazéns de mercadorias grossas.

Caminhando pelas varandas que ligavam as torres, mãe e filho podiam ver, no lado de dentro, o pátio com o grande poço no meio e a casa da tranqueira que fora reforçada, onde viviam o feitor e os restantes oficiais. A porta abria para o lado do mar e, no interior, tinham construído um vasto alpendre com bancos muito bem lavrados onde o vizo-rei vinha tomar o fresco com os seus fidalgos. Já não necessitava de levantar Diogo nos braços para ele ver a ribeira em que se varavam as naus, com os estaleiros para a sua reparação e também construção de navios tão bons como os de Portugal. Agora, o menino alçava-se em bicos dos pés a olhar maravilhado para o vaivém dos elefantes de trabalho que transportavam nas trombas os pesados troncos de madeira, cortados pelos lenhadores da casta dos revolons, para os locais indicados pelos cornacas seminus escarranchados nos seus cachaços». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Deana Barroqueiro, JDACT, Literatura, Fernão Mendes Pinto, Crónica,

sexta-feira, 29 de março de 2024

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «… os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés»

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Quando falares, cuida que tuas palavras sejam melhores que o silêncio (hindu)

Carta de Afonso de Albuquerque a el-rei Manuel I

«Senhor: Vossa Alteza me culpa, me culpa, me culpa em algumas cousas de cá da Índia, e creio que será por má informação que vos de mim darão algumas pessoas, com inveja e dor de meus feitos e meus serviços. Os que vos estas cousas escrevem, não andam em minha companhia, nem me vêem o rosto, nem são companheiros em meus trabalhos, perigos e fadigas, nem vestem as armas, (…) mas querem ganhar autoridade em vos escreverem mil enganos e falsidades; prognosticam e profetizam, falam com feiticeiras que lhes digam o que está por vir, e ajuntam toda essa massa, de que fazem esse pastel que lá mandam a vossalteza cada ano (…) e não vos deixam tomar verdadeiro assento nas cousas de vosso serviço, nem determinar o caminho que quereis que leve o negócio da Índia. Digo-vos, senhor, isto, porque se bem olhardes vossos regimentos e determinações, cada ano vem um contrairo ao outro, e cada ano fazeis uma mudança e haveis novo conselho, e a Índia não é o castelo da Mina, para cada ano bulirdes com ela, porque há nela muito grandes reis e senhores (…) que s’esforçam a vos defender que não segureis vosso estado nela, nem vos façais forte na terra, nem lhe ganheis os lugares principais; e estão confiados que haveis de leixar a Índia (…) E vossalteza ajuda-os a seu propósito, porque uma hora pondes um emplastro para este feito vir a furo, outra hora lhe pondes defensivos que não crie matéria; e tanto pode vossalteza ir por este caminho, que dareis com todo feito no chão. (…)

De Cananor ao primeiro dia de Dezembro de 1513.

Passavam já três relógios do quarto da prima quando Bento Castanho recomeça a saga de Iria Pereira e Fernão Mendes semicerra os olhos e deixa-se ir, no sabor das palavras do narrador, ao encontro do passado e daquela valente mulher, para lhe imaginar a vida e a luta em Cochim, longe da família que a trouxera ao mundo e da terra onde deixara as suas raízes.

Iria Pereira tomara a longa navegação do reino para a Índia, sete anos antes, como castigo e expiação dos seus pecados, sofrendo sem um queixume um terrível martírio durante mais de sete negregados meses escondida na S. Jerónimo, a nau de Francisco de Almeida, o vizo-rei da Índia. Muitos homens fortes haviam sucumbido às agruras da infernal viagem e só por milagre da misericordiosa Santa Iria, sua protectora, é que ela não morrera nem tivera um desmancho, encafuada num buraco malcheiroso, para não denunciar a sua presença, contando apenas com a ajuda do primo, presa de terríveis vagados que ora a deixavam prostrada, como desacordada, ora a faziam botar a comida e o estômago pela boca, mareada de morte.

O último mês de viagem, Outubro de mil quinhentos e cinco, coincidira com o fim da sua prenhez e, apesar do incómodo peso e do calor, fora menos penoso do que os anteriores. Por terem partido de Lisboa em Novembro, sofrera o primeiro Inverno quase até Cabo Verde, logo seguido de um Verão de grandes calmas, ao passarem a linha equinocial; contudo, fora muito pior o segundo Inverno, cerca do cabo da Boa Esperança, quando nevou no dia de S. João e seguintes, com tanta força que os grumetes passavam horas a lançar a neve dos navios às pazadas. O vizo-rei e os demais fidalgos não saíam dos seus aposentos, assando-se aos braseiros, por ser menor o perigo do fogo, e os homens que andavam nas fainas traziam todos os seus fatos vestidos, em camadas sobrepostas de saios e gibões, bragas e calças, botas, borzeguins e sapatos, barretes, boinas e sombreiros, e até cabeleiras de vestir! Iria fizera outro tanto, mas quase perdera os dedos das mãos e dos pés.

Depois adviera medonha tempestade quando, para fugir do frio, se tinham acercado de terra: ondas altíssimas pareciam querer engolir as naus e, no seu esconderijo, sobrepondo-se ao bramido do mar e ao estrondear da trovoada, chegavam-lhe os gritos e rogos que os matalotes lançavam aos céus, encomendando a salvação da sua alma a Jesus Cristo ou a Nossa Senhora, e ela orara também em silêncio, à espera da morte. As suas vozes haviam chegado aos céus, porque o temporal amansara antes de os navios se desfazerem e serem engolidos pelos mares». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

Deana Barroqueiro, JDACT, Literatura, Fernão Mendes Pinto, Crónica,

quarta-feira, 31 de agosto de 2022

Deana Barroqueiro no 31. O Corsário dos Sete Mares. «E Iria? Que parte teve nessa história?, pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas…»

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Cochim

«(…) E como haveis de o matar?, perguntara el-rei, rindo. Senhor, de um só golpe todo o matarei. Assi!, respondera dom Lourenço e, levantando a alabarda, desferira um golpe no chão com tamanha força que a lâmina toda se meteu pelo sobrado dentro, arrancando muitos aplausos e brados de espanto aos assistentes. Não há dúvida que com tal golpe já todo o fogo será morto, felicitara-o Huriabem, encantado.

Senhor, eu bem vejo que não posso escapar das chamas, dissera dom Francisco, em tom de profunda tristeza, aproveitando a boa disposição d’el-rei e dos cortesãos para apresentar um novo pedido. Mais tarde ou mais cedo, o fogo queimará as casas onde guardo as fazendas d’el-rei de Portugal, vosso irmão, e os aparelhos dos navios da armada, que será a maior perda. Eu fui criado na guerra e nunca tive receio dela, mas agora tenho medo do fogo que qualquer mouro de Calecut me poderá pôr na porta, o que não me deixa repousar nem de noite nem de dia. Rogo a Vossa Alteza, por grande mercê, que, em lugar das casas de canas e ola que nos arderam, mas deixe fazer de pedra e telha, à nossa maneira, onde tudo esteja seguro. Porque, se o não puder fazer, ainda que eu e todos os portugueses estejamos prontos para morrer por vosso serviço, teremos de ir invernar em Angediva. Huriabem acabara por ceder aos rogos do príncipe e dos caimais, para que não fizesse inimigos daqueles poderosos estrangeiros que o haviam socorrido na guerra, e dera o seu consentimento ao vizo-rei para a construção da fortaleza em pedra, com a condição de não cobrir imediatamente os edifícios com telha, a fim de não escandalizar os seus súbditos. Dom Francisco lançara logo mãos à obra, pondo a gente comum e os fidalgos a trabalhar lado a lado, sem lhes dar descanso, a acartar e assentar pedra, a escoar com baldes a água das fundações, que eram muito próximas do mar, ou a fazer qualquer outra tarefa necessária. O rajá e o príncipe vinham visitar as obras e pasmavam de ver os fidalgos cobertos de lama a partir pedra ou vergados sob o peso de cestos e baldes. Nobres cavaleiros a trabalharem como escravos!, exclamara Huriabem. Quem me dera ser rei de tal gente que assi se sacrifica pelo seu soberano, mesmo quando se acham no outro lado do mundo, longe das suas vistas!

Só lhes faz bem, Alteza, rira-se o vizo-rei, porque ficam com os braços mais compridos, o que lhes dará vantagem na guerra, quando empunharem a espada ou a lança. Vestido, como sempre, de um saio de lã e boleta aberta do mesmo tecido, carapuça branca na cabeça e uma caninha na mão, dom Francisco distinguia-se pela simplicidade do trajo e nobreza da figura, a percorrer a obra cada dia, provendo a todos e tudo vigiando. Dava pressa aos homens, ansioso por terminar os panos das muralhas e as fortificações, não fosse o rajá mudar de aviso e suspender as obras, escondendo as bombardas que mandava trazer desmontadas das naus, durante a noite, para não criar alarme nos gentios e mouros que poderiam denunciá-lo a Huriabem. A conclusão dos trabalhos, em tão breve tempo que aos próprios construtores admirara, fora festejada com procissão, muitos comeres, música e danças de moças gentias.

E Iria? Que parte teve nessa história?, pergunta a mulher do mercador, enfadada com os desvios que os homens davam constantemente à saborosa prática sobre as cativas, para murmurarem das invejas dos capitães e das lutas pelo poder. Contai-nos, por vossa vida, o resto da sua lenda. De início, como vos disse antes, a vida parecia correr-lhes bem, mas quando começaram as guerras entre Afonso Albuquerque e o bando de Cochim, Iria Pereira apartou-se de António Real ou ele dela…

O som de um apito interrompe-o e o grumete, que acaba de virar a ampulheta, diz com voz entoada: Uma hora passou,/ outra começou/ melhor há-de ser/ se Deus quiser. E logo brada: É meia-noite. A pé, grumetes, qu’é o quarto da modorra, a pé! Por momentos a Cisne anima-se com o movimento dos matalotes que trocam de turno e alguns dos assistentes erguem-se com pena de deixar a história por acabar. Bento Castanho conforta-os: Vejo que se fez tarde, meus amigos. Ide dormir, que amanhã aqui estarei para contar a história de Iria, se houver quem ainda me queira ouvir. Com muitos risos, bênçãos de bem haja!, Deus vos bendiga! e desejos de uma santa noite, todos se recolhem às câmaras, catres ou recantos onde têm lugar para estender a esteira ou a rede de dormir. Céu salteado, vento fresco e variado!, entoa ao longe uma voz, que muitos já não ouvem». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

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sábado, 20 de agosto de 2022

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «Mandou a alguns dos seus homens de confiança que escondidamente fossem lançar fogo às casas de madeira dos portugueses e da feitoria (que mantinha vigiadas para não deixar o fogo alastrar e consumir as mercadorias armazenadas)…»

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Cochim

«(…) Se quereis saber como tudo se passou, anui, agradado do elogio, eu vo-lo contarei com toda a verdade, porque a tudo fui presente. Com um murmúrio de aprovação, cada um se acomoda o melhor que pode no espaço exíguo e desconfortável da coberta para ouvir o soldado da Índia que, como aquela dona dizia, é um bom contador de histórias. Bento Castanho cerra os olhos por momentos, como para arrumar as ideias, e começa: Para conseguir a fortaleza de pedra, o vizo-rei jogou com a gratidão e o receio do soberano a quem, no ano de mil quinhentos e três, os portugueses tinham ajudado a vencer o exército do Samorim de Calecut, livrando-o da sua vassalagem e fazendo dele um rei muito mais poderoso. Em paga desse auxílio, Huriabem permitira aos primos Albuquerque a construção de um forte de madeira na boca do rio, o lugar escolhido pelo feitor Diogo Fernandes Correia, por ter uma bela baía onde se poderia fazer um amplo porto para carregar as naus. Ao longe, os três grandes rochedos, dispostos em fileira e seguindo a linha da costa, pareciam sentinelas vigilantes…

Pela sua privilegiada situação, a sul de Calecut, Cochim era a escolha óbvia para capital da Índia portuguesa, necessitando para tal de uma fortificação de pedra e cal, defendida por muralhas, uma forte artilharia, sustentada por uma boa povoação de gente lusa com cristãos da terra que, em pouco tempo, se convertesse numa cidade populosa e próspera. Francisco de Almeida viera determinado a fazê-la, recorrendo a todos os meios pacíficos, como odiaas, peitas e promessas de futuros benefícios, para vencer a relutância d’el-rei Huriabem, o qual, muito embora predisposto a satisfazer todos os pedidos dos seus aliados cristãos, achava que uma construção muralhada, armada com grossa artilharia seria uma clara manifestação de medo face aos seus potenciais inimigos e, portanto, uma grande perda da sua honra. Para mais, querendo o vizo-rei construir edifícios cobertos de telha, um privilégio de que em todo o Malabar apenas gozavam as casas dos reis ou os templos dos seus pagodes e que, por uma antiga lei de Calecut, era também interdito aos pouco poderosos reis de Cochim, que se arriscavam a perder o reino em caso de desobediência.

Não querendo de nenhum modo agravar quem lhe concedera o monopólio da pimenta, carregando-lhe em cada ano todas as naus do reino com a preciosa especiaria, Francisco de Almeida fingira acatar a determinação do soberano e fizera construir uma grande povoação de muitas ruas com casas de madeira sobradadas, cobertas de palha ao modo malabar, onde também havia boticas e tendas da gente da terra que vendiam toda a sorte de coisas de comer, boas e baratas. Ao mesmo tempo, peitava em segredo os caimais, os seus duques e condes, bem como os regedores do reino, fazendo-lhes grandes honrarias e cumulando-os de presentes; como o seu filho Lourenço conquistara a amizade do príncipe herdeiro, que lhe chamava irmão, contava ter nele um formidável aliado. O rajá, todavia, não se decidia a satisfazer-lhe o pedido e o vizo-rei recorreu a remédios mais extremos. Mandou a alguns dos seus homens de confiança que escondidamente fossem lançar fogo às casas de madeira dos portugueses e da feitoria (que mantinha vigiadas para não deixar o fogo alastrar e consumir as mercadorias armazenadas), recompensando os donos pelos seus prejuízos à custa do rei Huriabem que lhes pagava os soldos. Por fim, fizera incendiar a sua própria casa e a igreja, que deixara arder até ao fim, para ter maior razão de queixa contra os mouros de Calecut que, a mando do Samorim, queriam escorraçar de Cochim os portugueses que defendiam el-rei contra os seus inimigos.

Nessa tarde, apresentara-se com o seu filho na corte do rajá, para agradecer a preocupação e o pesar que Sua Alteza manifestara pelo desastre. Apesar de muito moço, Lourenço ganhara o cognome de Aquiles Português, por ser um formidável guerreiro e se mostrar indestrutível em combate, com a sua armadura branca e a portentosa alabarda. Quando ia aos paços reais, nunca deixava de levar a arma, por saber quanto a sua vista maravilhava o próprio rei, que sempre lhe pedia para fazer algumas demonstrações com ela. Não haverá mais trabalho nem medo do fogo, anunciara o príncipe, indicando Lourenço que se mantinha respeitosamente atrás de seu pai, porque este valente cavaleiro me confirmou que vem para o matar com a sua poderosa alabarda. Era a arma mais espantosa que gentios e mouros alguma vez haviam visto no Oriente: uma haste grossa, chapeada com uma barra de ferro, dourada e retorcida em redor dela, com uma lâmina de quase meio côvado de comprimento, tendo no revés um bulhão ou punhal de três pontas e um punção roliço; na outra extremidade da haste, brilhava o aço de um ferrão quadrado, também de meio côvado. Era tão pesada que nenhum outro homem na armada a conseguia menear». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

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segunda-feira, 16 de maio de 2022

Contos do Antigo Testamento. Deana Barroqueiro. «A caravana era numerosa e deslocava-se lentamente para Ocidente, deixando a idade para trás e seguindo pelos caminhos familiares das antigas pastagens…»

 

Cortesia de wikipedia e jdact

 Os Cuidados de Abraão

«(…) E o sonho repete-se?, interrompeu o sacerdote. Muitas vezes, mais nos últimos tempos: E é sempre o mesmo? Com pequenas diferenças. O vidente meditou longamente e disse: Também no teu sonho o oráculo fala claro pela voz do deus que se denomina a si mesmo El-Chadai, o Altíssimo. O arco-íris é a ponte entre o céu e a terra, assim tu és o mediador entre El-Chadai e a tua tribo. Vais fazer uma grande viagem, não só pelo mundo mas também dentro de ti mesmo, porque a montanha é símbolo de purificação e aperfeiçoamento. O rebanho representa os teus seguidores ou todos os nascidos da tua semente, pois o cajado que o menino te entrega e aponta para Ocidente confere-te a autoridade e a dignidade de um chefe, confirmadas pela águia que indicia riqueza e poder. Curvando-se diante do suplicante, o sacerdote acrescentou com humildade: Abraão, foste abençoado pelos deuses. Vai e cumpre o teu destino! Não sejas negligente nos cuidados com a tua casa, recomendou Tare a Sarai, na despedida. - Rogarei aos deuses que te ajudem para em breve me dares um neto. Envia-me notícias por viajantes ou comerciantes que venham para Harran. Sarai prometeu fazê-lo. Então Tare dirigiu-se ao filho: A tua vida vai ser a de um pastor nómade, errando pelo mundo. Não pretendo pôr em dúvida a sabedoria dos videntes, mas nunca ninguém ouviu falar do deus El-Chadai que quer ser adorado como único e verdadeiro! Esperemos que essa ideia blasfema não faça cair sobre a tua cabeça a ira e o castigo de todos os outros deuses. Abraão não respondeu, a fim de evitar nova disputa no momento da despedida e o pai prosseguiu com as suas queixas: Preferia que Lot ficasse a viver comigo, mas não quero desobedecer aos oráculos do Zigurate e ser amaldiçoado. Se o menino do sonho é Lot, como tu dizes, e quer ir contigo, não serei eu a impedi-lo. Ide, com a minha bênção! Abraão abandonou finalmente a casa paterna, levando consigo Sarai, o sobrinho Lot, alguns parentes e amigos, assim como todos os bens que possuía e os escravos por ele adquiridos em Harran.

A caravana era numerosa e deslocava-se lentamente para Ocidente, deixando a idade para trás e seguindo pelos caminhos familiares das antigas pastagens, adiando o medo do desconhecido e de um futuro incerto. Ao anoitecer, depois de armarem as tendas do acampamento, comeram junto das fogueiras, beberam o sumo das suas uvas, mas ninguém cantou, pois todos traziam um peso no coração pela mágoa e a saudade daquilo que deixavam (e tão cedo não voltariam a ver) em troca de uma vaga promessa de um futuro melhor. Sobre as peles de carneiro que lhes serviam de leito, no espaço exíguo da tenda, Sarai exibia a sua esplêndida nudez aos olhos do marido, abrindo o corpo como um fruto suculento ao toque dos seus dedos. E Abraão sentia na curva dos seios, na concavidade macia do ventre, o arrepio da pele de Sarai sob a sua mão, respondendo com um desejo igual ao seu desejo, crescendo dentro dele como o pulsar desordenado de um coração. Beijou-lhe a pele dourada, prendendo entre os lábios os mamilos rosados, até os sentir endurecer e inchar sob a língua e vibrar de anseio como o seu próprio ventre. Quando finalmente se fundiu no corpo da mulher, vergando-a com o seu peso e a sua fúria, Sarai gritou, gemeu e suspirou, libertando sem pejo os sons de prazer que há longos anos sufocava na garganta. Durante muito tempo Abraão guiou a tribo através de terras inóspitas, por vezes desérticas, montando e desmontando as tendas do acampamento, atardando-se um pouco mais nos melhores terrenos para apascentar o gado, sem que El-Chadai lhe mostrasse por qualquer sinal a terra prometida. As promessas do deus tardavam em cumprir-se, as murmurações de descontentamento dos familiares, amigos e servos aumentavam de tom e chegavam-lhe aos ouvidos. Sarai, que andava sempre de mau humor e cansada, continuava estéril e, por fim, também ele começou a deixar-se invadir pelo desânimo e a pensar se o sonho profético não teria sido obra de qualquer demónio malévolo para o fazer cair num terrível logro.

Por isso, quando avistou as férteis terras de Canaã quase duvidou do que os seus olhos viam e cobiçou-as como jamais havia desejado uma coisa na sua vida. Animou a tribo a seguir até ao lugar dos carvalhos de More, perto da cidade de Siquém, na amena planície situada entre os montes de Ebal e Garizim. Vendo a beleza do lugar, Abraão sentiu mais do que ouviu a voz do seu Deus dizer-lhe: Darei esta terra à tua descendência e vendo como a sua gente estava exausta, a ponto de se revoltar, recusando-se a ir mais longe, disse-lhes: Rejubilai! Esta é a terra prometida por El-Chadai. Ergamos aqui um altar ao Todo-Poderoso, pois Ele nos concedeu esta terra. Todos rejubilaram e um altar foi erguido em honra do Deus único de Abraão. Nessa noite, no acampamento, depois de montarem as tendas, sacrificaram oito borregos a El-Chadai, cantaram e dançaram como há muito tempo não faziam, aspergindo-se com o sangue do holocausto e o vinho, reanimando o prazer dos sentidos nos cultos ancestrais». In Deana Barroqueiro, Contos Eróticos do Antigo Testamento, 2003, Planeta Editora, 2018, ISBN 978-989-777-143-9.

Cortesia de PanetaE/JDACT

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domingo, 15 de maio de 2022

Deana Barroqueiro. Contos do Antigo Testamento. «Os augúrios são-te favoráveis. As volutas dos intestinos formam uma corda com poucos nós, indicando uma longa estrada que vais percorrer sem grandes obstáculos»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Cuidados de Abraão

«(…) A litania terminou antes do corpo do carneiro parar de tremer, no estertor da morte e a faca de Adda-Kalla rasgou-lhe o ventre, expondo as entranhas fumegantes ao olhar sabedor do vidente Lugal-apindu que as examinou em busca de indícios e falou sem olhar para Abraão: Os augúrios são-te favoráveis. As volutas dos intestinos formam uma corda com poucos nós, indicando uma longa estrada que vais percorrer sem grandes obstáculos. Enfiou as mãos por entre as vísceras, fez os intestinos desenrolarem-se para dentro de uma bacia e prosseguiu a sua leitura dos sinais ocultos: A tua vida será extraordinariamente longa e continuará por gerações sem conta, mas o teu destino não se cumprirá em Harran. Tare soltou uma exclamação e Abraão dominou-se a muito custo para não fazer o mesmo. Olhou o rosto de Sarai, mas a mulher manteve-se impassível, embora atenta à cerimónia. Lugal-apindu remexeu nas entranhas do carneiro, extraiu o fígado, abriu-o, examinou-o atentamente e, quando falou, havia surpresa na sua voz: O fígado deste animal sacrificado em holocausto representa o mundo onde vives, mas a teia das suas linhas é emaranhada como um labirinto e o saco do fel está fora do lugar! Grande poder comanda um oráculo assim tão estranho, capaz de obscurecer a minha visão. Ginil-Marduk trouxe-lhe o modelo em barro de um fígado marcado com linhas divisórias e anotações para guiar a interpretação dos sinais obscuros. O adivinho comparou cuidadosamente os dois e concluiu: Posso dizer-te, no entanto, que estes augúrios confirmam a tua errância pelo mundo, mas não andarás só, serás seguido por muitos e terás riquezas e poder. E tudo quanto vejo. O silêncio pesou entre os assistentes, depois de ouvido este oráculo auspicioso, mas ao mesmo tempo misterioso e assustador e Abraão leu no rosto de Sarai a surpresa maravilhada de quem vem em busca de uma dádiva e recebe mais do que o seu quinhão. Lugal-apindu falou novamente: Os deuses criaram os sonhos para indicar o caminho aos homens quando eles não podem ver o futuro. Conta-nos o teu sonho para que o interpretemos. Durante a semana anterior à consulta aos videntes, Abraão pensara demoradamente no sonho e ensaiara o seu discurso com a ajuda de Sarai, escolhendo bem as palavras para o poder descrever no templo com todos os pormenores, a fim de que nada daquilo que pudesse ter significado fosse esquecido. Assim, cerrou os olhos e falou com voz segura: Vejo-me com o meu rebanho num campo a perder de vista, mas não conheço o lugar. Há um arco-íris no céu, cujo extremo toca numa montanha a Ocidente e uma águia atravessa-o num voo majestoso. Uma criança vem ter comigo e aponta com um cajado a montanha ao longe. Ouço uma voz que me diz: Eu sou El-Chadai, o Todo-Poderoso, e falo-te para que Me conheças. Deixa a tua terra, a tua família e a casa do teu pai, e vai para a terra que Eu te indicar. Farei nascer de ti um grande povo, abençoar-te-ei, engrandecerei o teu nome e serás uma fonte de bênçãos. Abençoarei aqueles que te abençoarem e amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem. E todas as famílias da terra serão em ti abençoadas. Depois, o menino entrega-me o cajado e eu desperto do meu sonho». In Deana Barroqueiro, Contos Eróticos do Antigo Testamento, 2003, Planeta Editora, 2018, ISBN 978-989-777-143-9.

Cortesia de PanetaE/JDACT

JDACT, Deana Barroqueiro, Religião, Literatura,

Deana Barroqueiro. Contos do Antigo Testamento. «Os músicos silenciaram os instrumentos e os sacerdotes acercaram-se da ara do sacrifício. Lugal-apindu, o adivinho, tomou a cabeça do animal pelos cornos, puxando-a para trás...»

Cortesia de wikipedia e jdact

Os Cuidados de Abraão

«(…) Sentiu o desejo invadi-lo como uma onda, o coração bater acelerado e o sangue pulsar nas veias, quente como fogo, trazendo finalmente a vida e a seiva a um corpo há muito adormecido. Tomou Sarai com a força dos primeiros tempos, quando recebera no leito a virgem quase criança que o pai lhe entregara e o deslumbrara com sua beleza. Para seu espanto, ao penetrar o corpo da mulher sentiu a mesma resistência, como se o véu da virgindade se tivesse de novo cerrado e quando Sarai o recebeu dentro de si, gemendo e suspirando com a mesma intensidade da noite dos esponsais, Abraão deixou seu corpo abrir-se como um dique ao impulso das sensações e escondeu o rosto nos seios da mulher sufocando um grito de agonia. O zigurate erguia-se no meio da cidade, sobre uma enorme plataforma, com uma elevação de cerca de quatro metros, formando um átrio ou praça, com vários templos secundários e outros edifícios. Atravessando o átrio, chegava-se a uma nova plataforma, ainda mais elevada, sustentando a torre sagrada, com mais de cem metros de altura e dividida em três andares. Os dois primeiros, de forma quadrada, rasgavam-se em terraços abertos, plantados de árvores e flores que lhes davam o aspecto de jardins suspensos, de belíssimo efeito. Três lances de escadas de oitenta degraus convergiam do térreo para a porta monumental do primeiro andar e continuavam até ao último, onde se erguia o pequeno templo e por elas desfilavam as procissões de sacerdotes e sacerdotisas, nos seus trajes coloridos de festa, carregados de ofertas que iam depositar no altar do deus tutelar. Na Casa do Segredo, as ervas de cheiro ardiam nos incensários e, diante da família de Tare e de outros fiéis, os sacerdotes davam início às cerimônias do sacrifício do carneiro, entregue por Sarai no dia anterior, para lerem nas suas entranhas os augúrios do deus. O animal, de cornos untados com óleos sagrados, jazia amarrado sobre a ara, balindo de medo. Ao som das harpas, dos tamboris e das flautas dos músicos do Zigurate, os três sacerdotes depuseram no altar as oblações trazidas por Sarai e fizeram as libações aos deuses. Em seguida, ajoelharam-se diante do altar e, virando as cabeças para trás de si, lançaram um esconjuro contra os demónios e espíritos maléficos, para não prejudicarem a cerimónia com sua presença funesta. Liam em tabuinhas de argila o texto gravado na graciosa escrita cuneiforme do Templo, como uma cantilena alternada, terminando num coro a três vozes: Esconjuração: Demónios assassinos, bruxos enganadores que sujais o céu, a terra e as águas, que vos ergueis como o vento para matar os homens no deserto e secar o ventre das mulheres, Marduk, Senhor do Céu e da Terra, vos há-de perseguir com castigos terríveis para vos fazer sofrer como vós nos fazeis sofrer! Glória a Marduk, protetor dos homens!

Os músicos silenciaram os instrumentos e os sacerdotes acercaram-se da ara do sacrifício. Lugal-apindu, o adivinho, tomou a cabeça do animal pelos cornos, puxando-a para trás e expondo-lhe o pescoço revestido de sedoso pêlo branco, Ginil-Marduk, o esconjurador, segurou o vaso para recolher o sangue e Adda-Kalla, o purificador, cortou-lhe a garganta com a faca ritual. Enquanto o sangue corria, os sacerdotes prostraram-se diante da imagem do deus e iniciaram um salmo laudatório do suplicante, de modo a justificar o favor e as benesses que Marduk lhe iria conceder: Nunca Abraão ofendeu os deuses, ou foi acusado de mentir. Jamais desprezou pai e mãe ou semeou a discórdia entre pai e filho, entre o irmão e seu irmão. Marduk, concede-lhe o teu favor! Nunca Abraão vendeu animais doentes ou roubou no peso da sua carne, nem disse não em vez de sim, nem sim em vez de não. Marduk, concede-lhe o teu favor! Nunca Abraão entrou de má fé na casa do seu vizinho, não roubou nem fez correr o sangue do seu vizinho, jamais desejou a mulher do seu vizinho. Marduk, concede-lhe o teu favor! Abraão é um homem justo e piedoso Merecedor da protecção divina. Marduk, indica-lhe o caminho!» In Deana Barroqueiro, Contos Eróticos do Antigo Testamento, 2003, Planeta Editora, 2018, ISBN 978-989-777-143-9.

 Cortesia de PanetaE/JDACT

 JDACT, Deana Barroqueiro, Religião, Literatura,

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Contos Eróticos do Antigo Testamento. Deana Barroqueiro. «Sendo, todavia, um filho respeitador, não queria ferir os sentimentos do progenitor, mostrando-se ingrato e desobediente ao insistir no desejo de partir contra a vontade de Tare»

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Os Cuidados de Abraão

«(…) No início do II Milénio antes de Cristo, mais precisamente por volta do ano de 1700, na Caldeia, terra da baixa Mesopotâmia, dominava a dinastia dos Amorreus. Nesses tempos remotos, na cidade de Ur, vivia Tare, descendente em linha directa de Sem, filho de Noé. Tare cruzara o limiar dos setenta anos quando gerou Abraão, o seu primogénito, seguindo-se-lhe Nahor e Harran que morreu muito novo, deixando o filho Lot, ainda criança, a cargo do avô. As tarefas obrigatórias da construção e manutenção da imensa rede de canais que irrigavam as terras da Mesopotâmia com as águas dos rios gêmeos Tigre e Eufrates e os impostos pesadíssimos que tanto o rei como os sacerdotes do Templo de Ur lançavam sobre o gado tornavam a vida impossível aos pastores e agricultores, obrigando-os a endividar-se a tal ponto que, não podendo pagar aos credores, quase sempre os próprios sacerdotes que cobravam juros de vinte a trinta por cento, acabavam por ser vendidos como escravos juntamente com toda a sua família. Tare viu-se forçado a emigrar para Harran, a principal cidade da alta Mesopotâmia, levando consigo o neto, o filho Abraão e a mulher deste, a formosíssima Sarai. Aí se fixaram e viveram durante muito tempo com alguma prosperidade, apesar de estarem sob o domínio dos Urritas, um povo indo-europeu que a pouco e pouco se viera fixar na Mesopotâmia Superior, perseguindo os naturais da terra e provocando um grande movimento de fuga e migração para Ocidente. No entanto, aos setenta e cinco anos de idade, Abraão vivia muito descontente em casa do pai, ansiando pela independência e pelo dia em que se tornaria senhor da sua vida e da própria família. Esse sonho, porém, parecia-lhe impossível de realizar, visto Tare ainda não ter passado dos cento e quarenta e cinco anos, sendo portanto um homem na força da vida e nada disposto a largar as rédeas do poder nem a permitir a ida do filho para longes terras.

Abraão não podia deixar de sentir uma certa inveja do irmão Nahor a quem o pai obrigara a ficar em Ur, a fim de não perder a casa e cuidar da parte dos bens deixados à sua guarda, pois a sorte poderia não lhes sorrir em Harran e, nesse caso, teriam de regressar ao lar antigo. Assim, Nahor ganhara a sua liberdade e Abraão trocaria sem hesitar o seu lugar com o dele, apesar das dificuldades que teria de defrontar para sobreviver em Ur.

Sendo, todavia, um filho respeitador, não queria ferir os sentimentos do progenitor, mostrando-se ingrato e desobediente ao insistir no desejo de partir contra a vontade de Tare. De noite, o seu sono era intranquilo, povoado de pesadelos que o faziam despertar em sobressalto, alagado em suor e sem ânimo de viver. Se ao menos Sarai emprenhasse, talvez o pai os deixasse em paz e não o perseguisse com rogos que mais pareciam ordens para tomar uma segunda esposa: Sarai é estéril!, insistia Tare, todos os dias. Esse é muitas vezes o mal das mulheres demasiado belas. A admiração dos homens leva-as a não querer emprenhar, para não deformarem os corpos. Como ela não te dá filhos, a lei permite-te tomar uma nova esposa ou uma escrava concubina. Já é tempo de me dares netos e assegurares a tua geração. Nunca te devia ter dado Sarai por mulher, mas julguei que seria como a sua mãe, fértil e submissa. Abraão não respondia, desgostoso do modo cruel como Tare se referia a Sarai que também era sua filha, gerada numa escrava de grande beleza e, todas as noites possuía a mulher, rogando aos deuses da fecundidade para a abençoarem com uma desejada prenhez. Porém, apesar de amar a esposa e de continuar a admirar a sua beleza, parecia que o desejo por ela o havia abandonado e raramente lograva levar o acto até ao fim. Quando os seus corpos se uniam e Sarai sufocava um gemido de prazer, a voz do pai ressoava-lhe aos ouvidos e era como se um fantasma se viesse instalar entre eles no leito, o seu corpo amolecia subitamente e Abraão retirava-se da mulher, voltando-lhe as costas, envergonhado. Sarai suspirava de tristeza, mas nada dizia. Uma noite Abraão confiou-lhe a sua pena e desilusão: sonhei de novo com a nossa partida. Por vezes é tão real, parece mesmo que já fui embora! Rezo aos deuses para não me darem esses sonhos, porém mal adormeço ouço uma voz imperiosa a mandar-me seguir viagem. Mas nosso pai jamais me deixará partir. Desesperado, Abraão escondeu o rosto entre as mãos e chorou. Sarai, compadecida mas implacável, disse-lhe: também eu não sou feliz na casa de Tare, sujeita a servi-lo e a obedecer aos seus caprichos. De tanto dizer que sou estéril, parece ter-me lançado uma maldição! Só sei que, enquanto aqui viver, não serei capaz de conceber um filho da tua semente. Mas eu não posso desobedecer ao nosso pai! Isso, nunca! E se for ele a querer que partas?, perguntou Sarai quase num murmúrio. Mas como?, Abraão erguera o rosto ainda molhado de lágrimas e olhava a mulher com surpresa.

Essas vozes que ouves nos sonhos são as dos Elohim a indicar-te o rumo da tua vida e não deves fugir ao destino, nem desobedecer a uma ordem divina. Tens de consultar os videntes da Casa do Segredo, diante do nosso pai, para ele ouvir os oráculos que, certamente, te hão-de aconselhar a seguir o caminho indicado pelas vozes. Abraão sorriu, com uma leve esperança: os deuses falaram pela tua boca, Sarai, para me dares tão sábio conselho! Tare não se recusará a acompanhar-me ao Zigurate! O seu rosto ensombrou-se de novo e perguntou ansioso: e se os oráculos não nos forem propícios? Levaremos o carneiro mais gordo do nosso rebanho para os videntes o sacrificarem no altar de Marduk e lerem nas suas entranhas o teu destino; e eu mesma irei ao Templo entregar outras ricas ofertas aos sacerdotes para eles realizarem bem os ritos e fazerem uma boa interpretação dos oráculos. Por momentos, aflorou ao espírito de Abraão a suspeita de que Sarai se preparava para subornar os sacerdotes e os videntes do Zigurate de Harran (como ele sabia que podia ser feito), de forma a obter o melhor resultado para a sua empresa e a ideia de enganar Tare quase o fez desistir do seu propósito. Porém, o rosto de Sarai tão próximo do seu, iluminado pela luz oscilante da candeia suspensa por cima da enxerga, tinha uma beleza diferente, como nunca antes lhe vira, com um brilho estranho nos olhos tão negros e profundos que Abraão se sentiu atraído para eles como para um abismo e esqueceu todos os escrúpulos e remorsos. Sarai reclinara-se sobre ele, para lhe expor o seu plano e Abraão sentia contra o corpo o contacto quente dos seios, redondos e duros como os frutos do Jardim das Delícias e recebia no rosto o sopro da sua fala envolto no hálito perfumado e fresco das folhas de menta que se acostumara a mordiscar». In Deana Barroqueiro, Contos Eróticos do Antigo Testamento, 2003, Planeta Editora, 2018, ISBN 978-989-777-143-9.

Cortesia de PlanetaE/JDACT

JDACT, Deana Barroqueiro, Literatura, Religião,

Contos Eróticos do Antigo Testamento. Deana Barroqueiro. «Mesmo assim o processo era tão lento que os Filhos de Deus, contrariando os desígnios do Pai, decidiram sair da esfera celeste e contribuir para o acréscimo da Humanidade…»

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«Deus sentira-se de tal modo defraudado por a Sua criação mais auspiciosa, o Homem feito à Sua imagem e a Mulher feita segundo a imagem aperfeiçoada do Homem, para dominarem sobre todos os outros seres do Mundo, ter resultado tão defeituosa e rebelde que, depois de os fazer expulsar do jardim do Éden, apesar da insistência dos anjos, se mostrara inabalável na recusa de uma nova tentativa para criar a Humanidade. Apesar da Sua omnisciência (talvez devido ao cansaço de ter feito aquele imenso Mundo em apenas seis dias), no instante da criação do Homem sentira-se muito orgulhoso e satisfeito com a Sua obra e não lhe achara qualquer defeito ou mácula. Assim, na euforia que se seguiu, não vendo entre todos os animais desse Mundo uma companheira adequada para oferecer à Sua criatura, caíra na tentação de dar vida a um novo ser, feito à imagem do anterior, mas aperfeiçoando o modelo com a introdução de pequenas mas significativas diferenças. Como desejava um material mais raro do que o pó utilizado na primeira tentativa, adormeceu profundamente o Homem, nas margens do rio Tigre que limitava a Oriente o jardim do Éden, e tirou-lhe uma das costelas que substituiu por carne, esculpindo a partir do osso uma nova criatura em forma de Mulher. Ao contemplar a Sua obra, Deus achou-a tão bela que, em vez de lhe soprar a vida pelas narinas como fizera ao Homem, lha insuflou através dos lábios beijando-a e, com surpresa, sentiu pela primeira vez o Seu espírito vibrar de emoção nesse fugaz contacto com a matéria. Deus conduziu a Mulher para junto do Homem que despertara e observou cheio de curiosidade a sua reacção. Para Seu espanto, o Homem, ao ver diante de si aquele novo ser em toda a sua esplêndida nudez, não se ergueu do lugar, nem agradeceu a dádiva ao Criador, limitando-se a exclamar: esta é realmente osso dos meus ossos e carne da minha carne! Chamar-se-á mulher, visto ter sido tirada do homem! Ouvindo estas frases, Deus admitiu pela primeira vez que talvez a sua melhor criação não fosse afinal tão perfeita no espírito como era na carne e pensou se não seria um risco pôr a árvore da ciência do bem e do mal ao seu alcance. Porém como já era tarde, retirou-se para descansar ao sétimo dia e não voltou a pensar no assunto.

E, um dia, as Suas criaturas eleitas atraiçoaram-No e quando Deus os confrontou com o crime da rebeldia e da desobediência, o Homem culpou a Mulher e a Mulher culpou a Serpente pela tentação de provar o fruto proibido. E Deus, ferido no Seu orgulho e no Seu amor, vestiu-os com túnicas de peles e expulsou-os para sempre do Jardim das Delícias, antes que descobrissem o fruto da árvore da vida e vivessem eternamente. Apesar do seu arrependimento e das suas súplicas, Deus lançou-lhes terríveis maldições: tu, Mulher, por teres desejado ser mais inteligente do que o Homem e igual ao teu Deus, procurarás com paixão o teu marido, a quem serás sujeita. Aumentarei os sofrimentos da tua prenhez e parirás teus filhos com dor, suor e lágrimas. Chamar-te-ás Eva pois serás a mãe de todos os viventes. A Mulher chorou o Paraíso Perdido e a sua nova condição na terra. Em seguida, Deus amaldiçoou o Homem: tu, Homem, que provaste o fruto proibido da inteligência, procurarás o alimento, à custa de penoso trabalho, em todos os dias da tua vida e comerás o pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de onde foste tirado: porque tu és pó e em pó te hás-de tornar! E todo o Homem nascido da tua semente há-de ser tentado e enganado pela Mulher, por toda a Eternidade, como tu foste pela tua. E Deus enviou querubins armados de espadas flamejantes expulsá-los do Paraíso, pela porta do Oriente, para as terras desérticas da futura Babilónia, entre os rios Tigre e Eufrates que Adão, o primeiro homem, deveria tornar férteis pelo esforço do seu lavor e castigo. Quando Deus acalmou a Sua ira e pôde pensar com serenidade nas duas criaturas caídas em desgraça, viu que dispunha apenas do casal primordial, Adão e Eva, para povoar o mundo e, como não queria voltar com a palavra atrás, criando novos seres, foi forçado a prolongar as suas vidas miseráveis assim como a dos seus descendentes, tornando-as férteis durante séculos para que a Humanidade pudesse crescer e multiplicar-se com algum sucesso. Mesmo assim o processo era tão lento que os Filhos de Deus, contrariando os desígnios do Pai, decidiram sair da esfera celeste e contribuir para o acréscimo da Humanidade, escolhendo entre as mais belas filhas dos Homens as que bem quiseram para mulheres e da sua união nasceram os gigantes e os famosos heróis dos tempos remotos, paridos em grande dor pelas filhas dos Homens, pois a maldição divina jamais fora levantada.

Deus, tomando conhecimento da desobediência das forças celestes e da desordem cósmica que isso implicava, arrependeu-se mais uma vez de ter criado o Homem e a Mulher e, sofrendo amargamente, castigou de novo as Suas criaturas: não quero que o meu espírito permaneça indefinidamente no homem, pois o homem é carne, por isso, os seus dias não ultrapassarão os cento e vinte anos. E Deus enviou o Dilúvio e destruiu as terras da Mesopotâmia e todos os seres vivos, permitindo que apenas Noé com a sua família, a nona geração de Adão, e um casal de todos os animais em vias de extinção se salvassem numa arca, abrindo assim o caminho para uma nova Humanidade, num processo quase idêntico ao anterior. Deus contava com a efemeridade da vida a que havia condenado os homens e com a sua lentidão em crescer e se multiplicar, para tão cedo não ser importunado pelos seus erros e desacatos, nem ter de os vigiar, punir ou premiar pelos seus actos. E então Deus deixou os homens entregues a si próprios e esqueceu-se deles. Porém, contrariando os desígnios divinos, as forças celestes interessaram-se de novo pela Humanidade e, para acelerar o seu crescimento, concederam aos descendentes de Noé, tal como haviam feito aos de Adão, uma esperança de vida de mais de novecentos anos nos homens e uma juventude e fertilidade quase eternas nas mulheres, segundo consta nos registros do livro das gerações nascidas de Adão, de todos os Patriarcas de antes e depois do Dilúvio, no Livro do Génesis, que não enunciaremos aqui, por ser demasiado extenso e não servir os propósitos deste nosso conto». In Deana Barroqueiro, Contos Eróticos do Antigo Testamento, 2003, Planeta Editora, 2018, ISBN 978-989-777-143-9.

Cortesia de PlanetaE/JDACT

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domingo, 17 de fevereiro de 2019

O Espião de João II de Portugal. Deana Barroqueiro. «Tem o nome antigo das nossas rainhas, sussurra Schaban, deslumbrado pela recordação do rosto encantador, enxergado momentos antes»

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O corsário de Malabar

«(…) Desafio! Desafio!, reclamam os corsários, batendo com os pés e as armas como o rufar de um tambor. Que é isso?, pergunta Pêro. Que querem fazer? Lutar pelas donzelas, mas quem irá defendê-las? Timoja ergue de novo a mão a pedir silêncio. Seja, então, o Desafio. Que venha o escrivão. O homem que fizera o registo do saque acerca-se deles trazendo um estojo com estiletes de ferro e umas olas metidas entre duas talas de pau, como uma encadernação, trespassadas com um cordel e atadas para não se espalharem. Pêro vê escrever pela primeira vez nas folhas de palma usadas como papel, onde o escrivão grava os caracteres da sua letra, ao de leve, para não trespassarem ao outro lado da folha. O capitão dirige-se às prisioneiras. Aceitai o vosso destino, moças, com sorte e ajuda podeis alcançar a liberdade. Vinde para junto de mim e dizei os vossos nomes. Só a muito custo as assustadas donzelas se soltam dos braços das suas protectoras para obedecerem a Timoja, vindo postar-se diante dele. Chems ed Douha, diz a árabe de olhos de azeviche e Pêro sorri com mágoa ao ouvir o poético nome de Sol da Manhã. Gulnare, Flor da Romãzeira, um nome apropriado à donzela que se assemelha a uma iluminura. Nurunnihar, fala a outra persa, de pele cor de marfim e porte de princesa.
Tem o nome antigo das nossas rainhas, sussurra Schaban, deslumbrado pela recordação do rosto encantador, enxergado momentos antes. Como nos contos de As Mil e Uma Noites! Quem as pretende?, pergunta Timoja, enquanto o escrivão grava os nomes das donzelas na ola. Três punhais vêm cravar-se na cobertura diante de Nurunnihar e dois outros aos pés de Gulnare e de Chems ed Douha, e os corsários aplaudem em delírio os companheiros dispostos a bater-se pelo prémio. Quem as defende? Faz-se de novo silêncio e dois homens vêm pôr-se ao lado das prisioneiras persas. Pais ou tios, como se pode adivinhar pela idade e aparência, pacíficos mercadores que pouco conhecem de armas e combates, mas se oferecem para lutar por elas até à morte. Ninguém se apresenta em defesa de Chems ed Douha. Com quem viaja a árabe?, pergunta Timoja ao grupo dos viajantes. A mulher que protege a moça responde-lhe, a medo, sem sair do seu lugar: Al-Qadi é o tutor da menina, meu senhor, mas nunca se serviu de uma arme e, assi atagantado (ferido com tagante) vai morrer dos açoites.
O corsário ignora-a e fala aos dois persas, aconselhando-os com cortesia: não sois homens de peleja e o Desafio deve ser justo. As suas leis permitem a escolha de defensores, se o ofendido não souber combater, for idoso ou fraco. Aqui não conhecemos ninguém que o possa fazer, diz o pai de Nurunnihar, com desalento. Qualquer um pode oferecer-se para lutar, anuncia o capitão bem alto a fim de ser ouvido em todo o zambuco, seja corsário, passageiro ou tripulante. Escravo ou homem livre. Timoja dá-nos a ocasião por que esperávamos, diz Schaban, e grita: Schaban Bubaka defende Nurunnihar! Ali Moumen luta por Chems ed Douha!, brada o escudeiro, no mesmo instante, sem hesitar.
Timoja sorri, como se os dois homens tivessem correspondido àquilo que esperava deles. Os corsários fazem surriada e Mir Bubaka geme, escondendo o rosto entre as mãos, pois o filho desafiara o grupo mais numeroso de contendores. Sidi Ahmar aceita o Desafio por Guinare, oferece-se o jovem lugar-tenente do navio. Aproximem-se os defensores. Os corsários cortam as amarras das pernas de Schaban e Pêro e conduzem-nos, com chistes e ameaças de morte, para junto do oficial do zambuco, diante de Timoja. O escrivão regista os seus nomes, a seguir aos dos competidores. Aceitais estes homens como vossos paladinos?, pergunta aos mercadores que se curvam num agradecimento ante o persa e o moço oficial. Aceitamos, com toda a nossa gratidão». In Deana Barroqueiro, O Espião de D. João II, na Demanda dos Segredos do Oriente e do Misterioso Reino do Preste João, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-258-8.
Cortesia de Ésquilo/JDACT

O Espião de João II de Portugal. Deana Barroqueiro. «Fizera-se um silêncio pesado de ameaças, apenas ferido pelo choro das moças, no horror de se verem disputadas como peças de um saque»

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O corsário de Malabatr
«(…) Como se chama a estriga? Brisa da Madrugada - responde, com um suspiro, afastando-se com ela sob um coro de gargalhadas. Capitão, e as outras mulheres?, quer saber o lugar-tenente, quando o riso sossega. Se calhar, também têm jóias escondidas... Elas entregaram os cofres e as bolsas, diz Timoja com secura. O que fizeste aos outros serviu de lição. Queremos ver o que escondem! As mulheres são nossas. Temos esse direito! Tirem-lhes os véus! Dispam-lhes os panos!, bradam muitas vozes. Sim! Sim! Queremos vê-las! Pêro pressente a inquietação de Timoja ao ouvir o clamor dos piratas e compreende que o capitão procurara, com o entremez (de cariz cómico) da matrona e os castigos de alguns mercadores, satisfazer os instintos dos seus homens e gastar-lhes a fúria sem grandes custos em vidas, mas os corsários ainda não estão fartos.
Senhoras, estais a ouvi-los?, diz Timoja, dirigindo-se às seis mulheres. Tirai o vosso roubend e soltai o hyader, se não quereis que vo-los tirem à força. Por entre protestos indignados dos prisioneiros, que os piratas contêm a custo com pancadas e ameaçando-os com as armas, as seis mulheres soltam os mantos e retiram os véus, baixando as cabeças para ocultar a vergonha. Duas moças persas e uma árabe no melhor da sua juventude e beleza são um espectáculo capaz de tocar qualquer coração, mesmo os acostumados a bater mais ao som de guerra que de amor. Brilhantes como azeviche, as cabeleiras soltam-se dos barretes de tela de ouro que sustêm o véu e envolvem-nas como um manto de seda, emoldurando os rostos muito brancos das persas e moreno da árabe, onde se rasgam os mesmos olhos negros de um veludo de Meca. As outras três mulheres, de idade madura e honesta condição, são decerto mães ou governantas das donzelas, como o indicam os cuidados com que as rodeiam e os olhares de escândalo e ódio lançados aos corsários.
Como são belas!, murmura Schaban, contorcendo as cordas dos pulsos. Malditos sejam! Que lhes vão fazer? Não sei! Podem querer vendê-las ou ficar com elas. Não sei! Como posso ajudá-las, assim atado de pés e mãos? Não desesperes, que enquanto há vida há esperança, acode Pêro, voltando a sua atenção para Timoja e as prisioneiras. Quereis o adorno do nariz da minha Nurunnihar?, inquire com altivez a dama persa. Tomai-o e deixai a donzela cobrir o rosto, se tendes alguma honra em vossos corações. As duas moças levam a mão à argola de ouro muito bem lavrada, presa à asa do nariz, mas Timoja faz-lhes sinal para a deixar no lugar. Cobri-vos, ordena-lhes e, apesar dos protestos dos seus homens, as mulheres velam os rostos das donzelas e escondem a formosura dos seus corpos no sudário dos mantos.
As mulheres são parte do saque, meu capitão, desafia o piloto corsário. Quatro são velhas e as três moças não chegam para todos. Pensais em vendê-las? O melhor quinhão para os mais bravos, protesta o homem de tronco nu, coberto de escaras, avançando para o grupo. Tenho primazia na escolha... Eu fui o primeiro na abordagem, grita um tomba-lobos, barrando-lhe o passo, de sabre desembainhado. Ousas disputar-me o galardão? Não sois os únicos interessados, rosna Marakkar, metendo-se entre ambos. As fêmeas devem ser sorteadas, alvitra um mocetão que aguça o punhal contra a lâmina de uma espada curta. Ou irem a leilão. Timoja que decida. Querem as donzelas para eles!, murmura Schaban. Com os ânimos assim acesos, se Timoja recusar, arrisca-se a um motim.
Fizera-se um silêncio pesado de ameaças, apenas ferido pelo choro das moças, no horror de se verem disputadas como peças de um saque. Timoja ergue a mão para falar e todos os olhos se pregam nele, os gestos tensos, à espera. Pêro admira o moço corsário pelo poder que tem sobre esta chusma, curtida no medo e na morte, que lhe obedece com uma fé cega, quando ele a conduz ao assalto de um navio ou povoação. Combatestes bem e mostrastes como no Malabar ainda há homens livres que lutam para libertar a sua nação do jugo dos usurpadores estrangeiros. Tendes direito a uma parte do saque, sendo a outra parte destinada, como sabeis, a construir mais navios e manter esquadras cada vez mais fortes para expulsar os mouros das nossas terras. Por isso, jurámos que o nosso corso seria nobre, sem mortes desnecessárias e sem violações ou ofensas a donzelas e mulheres honestas. No entanto, se persistis em querer as prisioneiras, mesmo contra minha vontade e o nosso juramento, tereis de lutar por elas, segundo as leis da nossa nação, lançando os vossos desafios a quem as deseje defender. Como vai ser?» In Deana Barroqueiro, O Espião de D. João II, na Demanda dos Segredos do Oriente e do Misterioso Reino do Preste João, Ésquilo, Lisboa, 2010, ISBN 978-989-809-258-8.

Cortesia de Ésquilo/JDACT

sábado, 4 de novembro de 2017

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «Pela sua privilegiada situação, a sul de Calecut, Cochim era a escolha óbvia para capital da Índia portuguesa, necessitando para tal de uma fortificação de pedra e cal»

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Cochim
«(…) Se quereis saber como tudo se passou, anui, agradado do elogio, eu vo-lo contarei com toda a verdade, porque a tudo fui presente. Com um murmúrio de aprovação, cada um se acomoda o melhor que pode no espaço exíguo e desconfortável da coberta para ouvir o soldado da Índia que, como aquela dona dizia, é um bom contador de histórias. Bento Castanho cerra os olhos por momentos, como para arrumar as ideias, e começa: para conseguir a fortaleza de pedra, o vizo-rei jogou com a gratidão e o receio do soberano a quem, no ano de mil quinhentos e três, os portugueses tinham ajudado a vencer o exército do Samorim de Calecut, livrando-o da sua vassalagem e fazendo dele um rei muito mais poderoso. Em paga desse auxílio, Huriabem permitira aos primos Albuquerque a construção de um forte de madeira na boca do rio, o lugar escolhido pelo feitor Diogo Fernandes Correia, por ter uma bela baía onde se poderia fazer um amplo porto para carregar as naus. Ao longe, os três grandes rochedos, dispostos em fileira e seguindo a linha da costa, pareciam sentinelas vigilantes...
Pela sua privilegiada situação, a sul de Calecut, Cochim era a escolha óbvia para capital da Índia portuguesa, necessitando para tal de uma fortificação de pedra e cal, defendida por muralhas, uma forte artilharia, sustentada por uma boa povoação de gente lusa com cristãos da terra que, em pouco tempo, se convertesse numa cidade populosa e próspera. Francisco Almeida viera determinado a fazê-la, recorrendo a todos os meios pacíficos, como odiaas, peitas e promessas de futuros benefícios, para vencer a relutância d’ei-rei Huriabern, o qual, muito embora predisposto a satisfazer todos os pedidos dos seus aliados cristãos, achava que uma construção muralhada, armada com grossa artilharia seria uma clara manifestação de medo face aos seus potenciais inimigos e, portanto, uma grande perda da sua honra. Para mais, querendo o vizo-rei construir edifícios cobertos de telha, um privilégio de que em todo o Malabar apenas gozavam as casas dos reis ou os templos dos seus pagodes e que, por uma antiga lei de Calecut, era também interdito aos pouco poderosos reis de Cochim, que se arriscavam a perder o reino em caso de desobediência.
Não querendo de nenhum modo agravar quem lhe concedera o monopólio da pimenta, carregando-lhe em cada ano todas as naus do reino com a preciosa especiaria, Francisco fingira acatar a determinação do soberano e fizera construir uma grande povoação de muitas ruas com casas de madeira sobradadas, cobertas de palha ao modo malabar, onde também havia boticas e tendas da gente da terra que vendiam toda a sorte de coisas de comer, boas e baratas. Ao mesmo tempo, peitava em segredo os caimais, os seus duques e condes, bem como os regedores do reino, fazendo-lhes grandes honrarias e cumulando-os de presentes; como o seu filho Lourenço conquistara a amizade do príncipe herdeiro, que lhe chamava irmão, contava ter nele um formidável aliado. O rajá, todavia, não se decidia a satisfazer-lhe o pedido e o vizo-rei recorreu a remédios mais extremos. Mandou a alguns dos seus homens de confiança que escondidamente fossem lançar fogo às casas de madeira dos portugueses e da feitoria (que mantinha vigiadas para não deixar o fogo alastrar e consumir as mercadorias armazenadas), recompensando os donos pelos seus prejuízos à custa do rei Huriabem que lhes pagava os soldos. Por fim, fizera incendiar a sua própria casa e a igreja, que deixara arder até ao fim, para ter maior razão de queixa contra os mouros de Calecut que, a mando do Samorim, queriam escorraçar de Cochim os portugueses que defendiam el-rei contra os seus inimigos». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT

O Corsário dos Sete Mares. Deana Barroqueiro. «Albuquerque sabia bem o que se devia fazer para governar e conservar a Índia, contrapõe Castanho. Não desistiu de Goa, porque em todo o Malabar não havia outro porto…»

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Cochim
«(…) O Terríbil conhecia bem a Índia e sabia como e manter, concorda o capitão. Mais do que pela força das armas, as terras conquistadas só quedariam em nosso poder se tivéssemos gente nossa a viver nelas e a criar raízes. Para tal havia mister de mulheres e, à míngua de portuguesas, decidiu lançar mão das cativas mouras e das gentias. António Real ganhou-lhe um ódio mortal e buscou por todos os meios fazê-lo cair em desgraça, intrigando junto dos fidalgos e capitães da Índia do partido do vizo-rei Francisco Almeida, que era também inimigo do governador. Feia aleivosia!, indigna-se o mercador. A inveja e a inimizade que os portugueses têm uns aos outros dão quase sempre causa a que se danem os negócios importantes, sobretudo quando topam com alguém que trabalha para o bem de todos e da nação. Lembro-me dessa guerra entre o governador e o vizo-rei, porque Afonso Albuquerque lhe requeria o governo da Índia e Francisco Almeida recusava-se a entregar-lho, apesar de ter terminado o seu mandato e das ordens de Manuel I para lho largar. Castanho, que servira como soldado da armada no tempo em que Albuquerque ainda era capitão-mor, recorda com alguma amargura: Francisco ficara muito ufano pela sua grande vitória sobre os rumes e trabalhara muito para que os capitães e fidalgos seus amigos escrevessem a el-rei Manuel I uma carta assinada por todos pedindo para ele continuar como vizo-rei da Índia. Contudo, pior do que a oposição dos fidalgos que não queriam perder os seus privilégios, foi a conspiração do bando de Cochim, com o António Real à cabeça, que lhe levantou falsos testemunhos de roubos e conluios com os reis mouros e gentios, mal Albuquerque entrou no cargo de governador. El-rei Manuel I, que Deus tenha em sua glória, era mui crédulo e deu razão aos mexeriqueiros, causando tamanha paixão ao Terríbil que lhe apressou a morte.
As conversas são como as cerejas, cogita Fernão, puxa-se uma e vem logo uma dúzia atrás: Diu e Cochim, Iria e Real, Francisco Almeida e Afonso Albuquerque! Do Terríbil, sabia algumas histórias ouvidas na casa do senhor Jorge, que atribuía as razões da animosidade de Manuel I para com Albuquerque, por este ter sido estribeiro-mor, amigo e admirador de João II. O Venturoso, assim que subira ao trono começara a desfazer tudo o que o cunhado fizera e a afastar todos os homens da sua confiança. Albuquerque só pensava no serviço d’el-rei e do reino, não deixando essa gente roubar como queria. Ele nunca guardou nada para si, toda a gente sabe isso na Índia!,-volve o aveirense que sentia muita sanha dos oficiais e fidalgos que se dedicavam ao corso e ao comércio privado, em vez de se empenharem na defesa da Fazenda d'el-rei. …'té os presentes e jóias que os sultões lhe ofereciam ele enviava a Manuel I ou à rainha dona Maria. Podia ter ficado podre de rico, como quase todos os que para cá vêm com ofícios e cargos da Coroa, mas morreu sem nada, pedindo a el-rei para lhe proteger o filho!
Os de agora fazem o mesmo, comenta um tratante (mercador), natural de Ormuz que falava bem português. Castanho concorda: esses capitães e feitores roubavam tanto que Albuquerque, quando tomou posse da governação da Índia, nem dinheiro tinha para a mantença e soldos dos homens que andavam nas batalhas, chegando a oferecer as suas barbas, a uns ricos mercadores gentios, como penhor de um empréstimo, a fim de lhes pagar. O mercador de Aveiro acrescenta, como quem conhece bem aqueles sucessos: vendo que o governador tomava Goa para fazer dela a capital da Índia, António Real e o seu bando moveram céu e terra para que el-rei ordenasse o seu abandono, pois só assim Cochim poderia manter a sua importância e eles os seus privilégios e proveitos. Albuquerque sabia bem o que se devia fazer para governar e conservar a Índia, contrapõe Castanho. Não desistiu de Goa, porque em todo o Malabar não havia outro porto que se lhe pudesse comparar para manter vigia sobre os mouros guzarates. Muito me prazeria conhecer essa história de Cochim e da inimizade de Albuquerque com o vizo-rei assim como com António Real e o seu bando, roga Fernão. E a de Iria Pereira e do seu filho também, suplica a mulher, já que vossa mercê abriu o apetite à minha curiosidade, pelo modo como sabe contar uma história, que até parece que estamos lá a ver e a ouvir». In Deana Barroqueiro, O Corsário dos Sete Mares, Casa das Letras, Oficina do Livro, 2012, ISBN 978-972-462-117-3.

Cortesia de CdasLetras/JDACT