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quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. « Temos de desviar tudo isto, pois o meu pai escondeu a entrada até poder assentar lajes de pedra novas. Quando acabámos de afastar tudo, o suor escorria-me em bica pela cara»

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Castelo de Montmerle. Região da Borgonha. 25 de Julho de 1094
«(…) Já nas imediações do mosteiro, tentámos ocultar a nossa presença contornando a zona de maior densidade do bosque para chegarmos à igreja de S. Tiago, cerca de meia légua afastada das obras. Os homens trabalhavam no claustro e havia grande azáfama de pedreiros, serventes, canteiros, carpinteiros e gente dos restantes ofícios. Ouvia-se, como ruído de fundo, o barulho próprio da construção, mas os trabalhadores estavam demasiado longe para conseguirem ver-nos. Além disso, a maior parte deles estava concentrada nas suas tarefas ou encontrava-se na parte de dentro dos muros do claustro. O pai de Ernaud trabalhava nas colunas que sustentavam o tecto abobadado da sala do capítulo, pelo que não corríamos o risco de que nos visse. Não deixaria as suas tarefas antes do entardecer, altura em que iria trabalhar para a capela à qual nos dirigíamos, o que nos deixava tempo suficiente para a nossa aventura particular. Vimos o oratório de pedra encimado por uma cobertura de madeira e tinha seis janelas, três em cada parede, por onde entrava apenas uma nesga de luz. A portada era o que estava em pior estado de conservação e Gerverto Aurillac tinha colocado umas tábuas para que ninguém entrasse.
Depois de nos assegurarmos de que não estava ninguém por perto, corremos para a entrada da capela, retirámos uma das pranchas e entrámos. Deixámo-nos ficar calados por alguns instantes, ofegantes por causa da corrida e da preocupação que nos descobrissem. Aquilo era tão emocionante como perigoso e eu sabia que o castigo poderia ser exemplar! Dei graças a Deus pelo ar fresco que se conservava no interior devido às paredes de pedra e à escuridão. Pelas janelas passava apenas um pouco de luz sob a forma de feixes fugazes que trespassavam o duro alabastro, desaparecendo em seguida, engolidos pela escuridão. A igreja tinha três naves estreitas, com colunas recuperadas de construções anteriores. O pequeno presbitério, de forma semicircular, ficava à parte, separado por três arcos em que se colocavam cortinados para ocultar o oficiante dos olhos dos fiéis durante as liturgias, embora ninguém celebrasse missa naquele altar havia muito tempo. Ernaud encaminhou-se para a direita. Junto à entrada encontrava-se todo o arsenal de pedras meio aparelhadas, pranchas, ferramentas de trabalho e areia.
Temos de desviar tudo isto, pois o meu pai escondeu a entrada até poder assentar lajes de pedra novas. Quando acabámos de afastar tudo, o suor escorria-me em bica pela cara. Tratava-se de um alçapão estreito, feito de três pranchas presas umas às outras com apoios de ferro, com duas argolas a servirem de maçanetas. Ernaud rodou a da direita e, naquele momento, ouviu-se o ruído áspero de um ferrolho a abrir-se. Depois, agarrou as duas argolas e puxou com força, mas o alçapão não se moveu nem um milímetro! Preciso da tua ajuda. Não consigo levantar isto sozinho; é demasiado pesado.
Fu pouca força tinha, mas esforcei-me ao máximo e puxei juntamente com ele. Demorámos um bom bocado a conseguir que o alçapão se erguesse. Porém conseguimo-lo, ainda que muito lentamente, e encostámo-lo ao muro, libertando assim a entrada. Fitámos ambos o buraco escuro que se abria aos nossos pés. Apenas se viam uns degraus toscos, que se perdiam nas entranhas da terra. Ernaud abriu a bolsa de pano que levava a tiracolo e retirou de lá uma pedra, um pouco de palha e uma grossa vela de sebo. Em seguida, bateu com a pedra até as faíscas acenderem o pavio da vela. Por fim, olhou-me e sorriu, nervoso. Vou à frente. Tem cuidado, não escorregues». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «Quando saímos do castelo, o silêncio letárgico era quebrado apenas pelo zunido contínuo e estridente das cigarras, que parecia advertir-nos para a canícula insuportável»

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Castelo de Montmerle. Região da Borgonha. 25 de Julho de 1094
«(…) Ernaud era dois anos mais velho do que eu e tinha uma cabeleira farta, de cor alaranjada, que lhe dava um certo ar de inocência. A sua pele era coberta de sardas e tinha uns olhos grandes e castanhos. Era filho de Gerverto Aurillac, um canteiro que trabalhava nas obras do mosteiro de São Pedro. O conde de Montmerle, meu pai, desenvolvera um afecto especial por ele porque, três anos antes, me tinha salvado a vida ao retirar-me, exausta, do rio em que eu tinha caído acidentalmente e no qual me teria afogado se não fosse o arrojo daquele rapaz. Desde então, o meu pai passou a tratá-lo como a um filho, e, o que era mais importante para mim, a deixar-me participar nas suas brincadeiras de miúdo e a permanecer na sua companhia, acabando assim com o tédio terrível que me invadia durante os longos dias em que não tinha mais o que fazer senão bordar, ler textos em latim em livros aborrecidos e impossíveis de compreender e desenhar letras em pedaços de pele gordurosa que me eram dados por Munia que, desde o casamento com o meu pai, se tornara a minha mestra. No entanto, passado o tempo da infância, tenho de reconhecer que foi graças ao esforço daquela mulher e à sua paciência infinita que aprendi a ler e a escrever correntemente em latim, a bordar os tecidos mais delicados com arte e a fazer cálculos mentais com os jogos de números que também ensinava a Ernaud.
Quando saímos do castelo, o silêncio letárgico era quebrado apenas pelo zunido contínuo e estridente das cigarras, que parecia advertir-nos para a canícula insuportável. Percorremos as duas léguas que nos separavam do mosteiro de São Pedro, um cenóbio que se encontrava sob a protecção do condado de Montmerle desde a sua origem. Passámos dias a planear a forma de entrarmos sem sermos vistos na igreja de S. Tiago um pequeno oratório que, aquando das obras de ampliação, tinha ficado fora do recinto do grande claustro, já na fase dos acabamentos e no qual se tinha erguido um grande templo, digno da comunidade que já vivia no cenóbio, para além das restantes dependências monacais, de acordo com as estritas regras de construção beneditinas. A igreja de S. Tiago fora a origem do mosteiro. Mandada construir havia mais de trezentos anos por um dos primeiros condes de Montmerle, encontrava-se num estado de conservação lamentável e Gerverto Aurillac dedicara os três meses anteriores a trabalhos de restauro para a manter de pé. É que o pai de Ernaud gostava daquela capela, que já não era utilizada para nenhuma liturgia. Fizera aqueles trabalhos por sua conta, já que nem o abade, nem muito menos o meu pai, estavam dispostos a pagar uma moeda que fosse para salvá-la da ruína em que se encontrava. Gerverto tinha chegado a um acordo com o abade Edgardo: todos os dias poderia dedicar o final da jornada a remodelar e escorar os periclitantes muros da capela sem cobrar nada. Quem o ajudava nessas tarefas era Ernaud, o único disposto a trabalhar sem receber. O pai estava a ensinar-lhe o ofício, mas o sonho dele era tornar-se cavaleiro, pois o meu pai tinha-lhe metido na cabeça que o faria seu escudeiro quando completasse quinze anos de idade e, se visse que tinha valor, armá-lo-ia cavaleiro. A perspectiva de vir a ter espada e cavalo parecia-lhe mais emocionante do que passar a vida a aparelhar pedra e a erguer muros, apesar da paixão que o seu pai lhe transmitia quando lhe falava do oficio de canteiro.
Alguns dias antes, ao levantarem o chão de uma das naves laterais, tinham descoberto um alçapão de madeira escondido sob as lajes de pedra. Custara-lhes muito levantá-lo mas, quando o conseguiram, depararam-se com uma pequena cripta escavada na rocha. O pai decidiu manter em segredo a descoberta daquele túmulo subterrâneo e obrigou-o a prometer que não falaria daquilo a ninguém. Ernaud não pôde aceder ao interior porque o pai lho proibiu, pelo que teve de ficar à espera, de vigia, circunstância que lhe despertou uma curiosidade quase obsessiva pelo subterrâneo. Quando me propôs a estranha visita, aquilo pareceu-me uma aventura fascinante. Porém, obrigou-me a dar-lhe a minha palavra em como não falaria dela a ninguém. Será o nosso segredo, Mabilia. Ninguém deve ficar a saber da existência desse lugar. Promete-me que não dizes a ninguém! Será o nosso segredo, confirmei. Promete!, insistiu. Prometo-te que não falarei disto com ninguém. Nem com Orengarda ou com Munia... Com ninguém! - atalhei, com um gesto irritado e completamente segura do que lhe dizia.
Ernaud era meu amigo e eu jamais o trairia! O meu pai ensinara-me pouca coisa ao longo da minha vida, mas eu aprendera com ele que um homem sem palavra não era verdadeiramente um homem, e, apesar de ser menina, assumi o dever de fidelidade para com aqueles que gostavam de mim e Ernaud era uma dessas pessoas. Portanto, tinha a certeza de que jamais desvendaria o nosso segredo. Confio em ti..., murmurou». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «Era o momento ideal para que ninguém nos impedisse de sair e a oportunidade de nos movimentarmos com a liberdade de que necessitávamos sem levantarmos qualquer suspeita»

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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) Muito bem... Pedirei audiência ao rei Afonso para lhe comunicar esta descoberta tão surpreendente. Decidirei, com ele, o que fazer em relação a este lugar e, sobretudo, a esta inventio, declarou, alçando a vista e fixando a todos com o olhar. Guardareis segredo até ao meu regresso, disse, concentrando-se na figura do eremita. Ouviste-me bem, Paio?! Será como desejais, Eminência, exactamente como desejais! Não quero alimentar esta questão enquanto não souber exactamente como a vou conduzir. Nada receeis, Eminência, respondeu o eremita. Asseguro-vos que serei como um túmulo. Limitar-me-ei a dar graças a Deus por esta descoberta milagrosa. A história recordar-vos-á como o descobridor de tão excelsas relíquias. O bispo olhou-o enquanto assentia com um ligeiro movimento da cabeça, mas o seu gesto transmitia a sombra de uma dúvida amarga. Martín sentiu pena dele, mas teria tempo de o convencer de que aquele prodígio, como lhe chamava Paio, poderia vir a ser altamente benéfico para todos. Seria uma questão de tempo. Intimamente, sentia-se muito satisfeito com o que tinham decidido. Era uma boa solução.
A visita ao rei Afonso, a quem chamavam O Casto por causa da sua manifesta recusa em ter contacto com mulheres, foi tão frutífera quanto o bispo podia esperar de um assunto tão falho de argumentos. Pôs o monarca ao corrente da descoberta milagrosa e deu por certo que o apóstolo S. Tiago tinha pregado por aquelas terras. Como justificação para o esquecimento terrível a que tinham sido votadas as sagradas relíquias, Teodomiro argumentou com o facto de os discípulos do apóstolo que guardavam o seu túmulo se terem visto obrigados a manter um silêncio prudente sobre a existência e o paradeiro do mesmo devido ao perigo evidente de este ser profanado e os restos do santo destruídos, para que não pudessem ser venerados. Graças a esta ignorância, a este esquecimento das consciências, o corpo ficara resguardado, durante séculos, de possíveis afrontas. Os rumores sobre o paradeiro dos restos mortais ter-se-ão transformado numa vaga lenda, que foi passando quase inadvertida de geração em geração até que, com o tempo, Beato, o monge de Liébana, acabou por a retomar nos seus escritos. Disse ainda que, para se chegar a estas conclusões, foram necessárias as sugestões de Martín de Bilibio, que se mostrava entusiasmado com a descoberta milagrosa do locus Sancti Iacobi, descoberta essa que ia sendo aceite pelos fiéis com o mesmo entusiasmo que lhe embargava a voz à medida que se ia tornando conhecida.
O rei Afonso entendeu os argumentos de Teodomiro, apesar de ter feito alguns reparos, pois ele próprio tentava transformar Oviedo num lugar de peregrinação, com relíquias importantes. Não obstante, também compreendeu a súplica do bispo iriense, que sentia a necessidade imperiosa de proporcionar um chamariz aos seus fiéis. Além do mais, com isto esperava apaziguar as revoltas que, de vez em quando, eclodiam na Galiza e o obrigavam a desviar homens e esforços que eram melhor empregues em assuntos de maior importância. Uma vez convencido, o rei aceitou acompanhar o bispo ao lugar a que já chamavam de locus Sancti Iacobi, na clareira do bosque de Libredón. Aí, ordenou a construção de uma igreja de madeira, pedra e argamassa para albergar e amparar o túmulo em que jaziam os supostos restos mortais do santo, construção essa que, no parecer do próprio Teodomiro, não se assemelhava, nem de longe, aos admiráveis edifícios que se erguiam em Oviedo. Limpou-se toda a zona em redor, aplanou-se o terreno cortaram-se árvores e, com o passar dos anos, acabou por se erguer, nas proximidades, um mosteiro, onde foram instalados os monges encarregues de cuidar da sepultura e de organizar os crentes, que logo começaram a afluir para se prostrarem diante das relíquias do Santo Apóstolo.

Castelo de Montmerle. Região da Borgonha. 25 de Julho de 1094
Trago presente o dia em que entrámos naquela cripta com tal clareza como se o tivesse gravado com um cinzel na minha memória. Tinha ficado na companhia de Ernaud depois do almoço, altura em que a maior parte dos habitantes do castelo dormitava à fresca sombra interior dos muros por causa da terrível canícula que se fez sentir naquele 25 de Julho. Era o momento ideal para que ninguém nos impedisse de sair e a oportunidade de nos movimentarmos com a liberdade de que necessitávamos sem levantarmos qualquer suspeita. Saí do quarto em segredo numa altura em que Munia, a mulher do meu pai, se concentrava num livro que pareceu prender toda a sua atenção durante horas a fio, como se tudo em seu redor tivesse deixado de existir e ela só encontrasse interesse no que as letras lhe contavam. Estava completamente segura de que não se distrairia da sua leitura quando eu saísse, nem sequer quando ouvisse os gritos abafados de Orengarda que, ao ver-me descer as escadas íngremes, protestaria pela minha atitude descarada em vez de me revelar uma menina bem comportada e comedida. Tinha acabado de completar dez anos de idade e continuava a não aceitar a condição que me obrigava a pentear as minhas grandes tranças diariamente ou a envergar um incómodo vestido até aos pés, com o qual asfixiava de calor em vez de umas calças e uma camisa solta, como usavam os rapazes e que me permitiam movimentar-me com facilidade, tal como eles». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «Os olhares que Teodomiro e Paio trocaram entre si chegaram a provocar arrepios em Martín, sem que este compreendesse muito bem porquê. Em seguida, o bispo ordenou aos soldados…»

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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) Há lugares em que as relíquias dos santos aumentam a importância das igrejas que as guardam, interveio Paio, dirigindo-se ao bispo. Porque não ter na nossa diocese relíquias que resgatem os fiéis ao ostracismo em que vivem? Não negará Vossa Eminência que necessitamos de um estímulo que sacuda as consciências dos crentes, que há algum tempo lho reclamam. As gentes sentem-se atemorizadas pelo perigo muçulmano e a sua fé quebra-se quando assistem, indefesas, à destruição dos seus lares ou à morte dos seus entes queridos sob as espadas dos infiéis sem que ninguém lhes valha e perante a passividade geral. Teodomiro fez uma pausa para digerir este discurso. Ninguém acreditaria em nós..., murmurou o bispo, cabisbaixo e pensativo enquanto passava a mão pelo altar. O que pensas de tudo isto, Martín?, perguntou, cruzando o olhar com o do escriba. Martín ficou pensativo e com o olhar perdido durante alguns instantes. Apesar da sua desconfiança, não deixava de reconhecer que não lhe parecia má ideia a possibilidade de recorrer à existência de relíquias tão importantes como as do apóstolo S. Tiago. A proposta milagrosa era tentadora. Eminência, começou, comedido e prudente, como bem sabeis, fui vítima desta violência quando era criança e asseguro-vos que, se não fosse a firmeza e profundidade da minha fé, teria duvidado até do próprio Deus! Temos de pensar em proporcionar uma âncora aos fiéis indefesos, abandonados e perdidos, que facilmente se entregam às práticas pagãs enraizadas nestas terras, às quais se sentem demasiado apegados para as fazerem desaparecer. Talvez..., hesitou, olhando para Paio por momentos, talvez estejamos perante alguma grande inventio, Eminência; talvez esta seja a descoberta milagrosa de relíquias num lugar em que se desconhecia a sua existência. Devemos dar graças a Deus por isto.
Teodomiro olhou para ele, abatido. Sabia que o seu escriba tinha razão, pois, para seu desespero, o desânimo disseminara-se demasiado. A propagação de rituais pagãos baseados em tradições ancestrais e dedicados a divindades da natureza trazia-o assaz preocupado. As pessoas não encontravam motivos para apegar-se à fé num Deus que parecia abandoná-los a cada razia. O desânimo geral era evidente e o bispo sentia-se incapaz de encontrar uma forma de convencer os espíritos atribulados de tantos inocentes. Nem sequer sabemos o que há debaixo deste altar! Mas podemos descobrir, retorquiu Martín. Não será melhor deixarmos os mortos dormirem em paz o seu sono eterno?, perguntou Paio, pela primeira vez inquieto perante a possibilidade de se abrir a sepultura. Já que nos preparamos para venerar estes restos mortais como os do Santo Apóstolo, respondeu o bispo, determinado, pelo menos quero saber o que está dentro deste túmulo! Chamai os soldados e ordenai-lhes que removam o altar.
Tiveram de afastar-se para permitir que os homens tornassem a fazer força para erguer a pedra. Em menos de nada, o ar tornou-se tão irrespirável que estiveram a ponto de sair, mas o altar foi deslocado sem grande dificuldade, deixando a descoberto um buraco revestido de pedra com dois palmos de profundidade, quatro de largura e mais de seis de comprimento, em cujo fundo se via um monte de ossos desordenados. Contaram três corpos, visto que havia três caveiras. Teodomiro olhou pensativo para o interior da sepultura. O que vos apoquenta?, perguntou Martín. O bispo olhou-o demoradamente, com os olhos brilhantes e um ar grave. Eis aqui a minha condenação, Martín. Não será assim, pois o fazeis para maior glória de Deus. A descoberta destas relíquias atrairá a atenção da cristandade para esta terra. É um milagre!, acrescentou Paio. Um milagre..., murmurou Teodomiro, com um gesto abatido, um milagre que me condena para sempre ao Inferno!
Os olhares que Teodomiro e Paio trocaram entre si chegaram a provocar arrepios em Martín, sem que este compreendesse muito bem porquê. Em seguida, o bispo ordenou aos soldados que tornassem a colocar a pedra que servia de altar no sítio. Quando saíram para o exterior, já quase amanhecia. O bispo manteve-se em silêncio por um bocado, concentrado nos seus próprios pensamentos. Os soldados, esgotados pelo tempo passado sem dormir e pelo esforço realizado, afastaram-se um pouco, resmungando entre dentes. Paio e Martín continuaram à espera, até que o bispo acabou por falar, em tom firme. Tinha tomado uma decisão». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A Brisa do Oriente. Paloma Sanchez-Garnica. «… escorregando e caindo sobre o chão de mármore da Casa de Deus por causa dos próprios excrementos, que sujavam e maculavam o edifício mais glorioso da cristandade no Oriente»

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Constantinopla. Abril do ano de 1204
«(…) Tu não precisas de entender coisa nenhuma, retorquiu, num tom algo exasperado, apenas tens de agir de acordo com o que a Igreja te impuser! Não te cabe perguntar qual é a vontade do Senhor! Não era minha intenção... Então basta de filosofias absurdas! A fé é a maior virtude de que um homem se pode gabar! Tem fé e concentra-te em servir a Nosso Senhor Jesus Cristo. Nada mais interessa. E ninguém te pede que penses! Vê se aprendes de uma vez que a humildade, virtude muito necessária, te deve levar apenas a obedecer ao que te ordena o teu superior! O silêncio daquele amanhecer nefasto contrastava com o ruído dos dias anteriores, em que, em ambos os campos, se podia ouvir o martelar constante dos que fabricavam as máquinas da morte. Não havia vento quando os barcos zarparam da margem ocidental do Bósforo para cruzarem o Corno de Ouro e se aproximarem o mais que lhes fosse possível da muralha que defendia a cidade. Em poucas horas, os gritos dos homens que se viam diante de uma morte dolorosa, as ordens dos comandos militares, que tentavam controlar as manobras das suas tropas, o tilintar das espadas, o sibilar das flechas e o choque dos projécteis contra a muralha envolveram todo o horizonte com o seu estridor.
Assisti àquela batalha cruel do outro lado do Corno de Ouro, a salvo das flechas e dos artefactos lançados pelos hereges gregos contra os bravos que levavam a Cruz gravada no peito. Naquele dia, transformei-me num espectador mudo e cobarde de um tremendo e real espectáculo de morte, destruição, sangue e sofrimento. Passadas horas de uma angústia pesada, chegou a tarde e, com ela, a vitória dos latinos, que nos abriu as portas da cidade. O abade Martín fez-nos sinal para que o seguíssemos para embarcarmos num navio que nos levasse à outra margem. Já era possível aceder, com alguma segurança, à Princesa das Cidades, como eu já tinha ouvido alguns chamarem à grandiosa Constantinopla. Caminhámos pelas ruas, e o que nelas vi horrorizou-me tanto que será impossível apagar essas imagens da minha memória até ao dia em que o Senhor me chame à sua presença. Os latinos, os mesmos que, no dia anterior, tinham recebido o sacramento da penitência, confessando os seus pecados, e tornado a hóstia sagrada, os mesmos que levavam por bandeira a Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, agiam como se uma loucura tornada fervorosa em nome da causa santa lhes tivesse transtornado a consciência. A gula da pilhagem e a embriaguez do sangue e do poder da espada estavam a levar ao saque total da cidade e ao massacre das gentes que nela moravam. A crueldade mais brutal estendia-se a todo o lado; anciãos assustados e indefesos caíam diante das patas dos cavalos, que lhes passavam por cima, trucidando-lhes os corpos fracos e cansados; os filhos eram arrancados dos braços das mães e atirados ao chão, perante o horror dos rostos maternais. Toda a gente era vítima da barbárie e eu limitava-me a olhar atónito, absorvido pelo horror, incapaz de impedir sequer uma daquelas mortes! Como que numa loucura colectiva, foram profanados lugares sagrados, espalhados objectos de culto e espezinhadas todas as imagens sagradas, sem escaparem, sequer, as imagens de Jesus Cristo e da Sua Mãe Santíssima. Ao passar diante da Igreja de Santa Sofia, pude ver as bestas de carga, ajoujadas com o saque, escorregando e caindo sobre o chão de mármore da Casa de Deus por causa dos próprios excrementos, que sujavam e maculavam o edifício mais glorioso da cristandade no Oriente». In Paloma Shanchez-Garnica, A Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís Coputinho, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-411-2.

Cortesia SEmergência/JDACT

A Brisa do Oriente. Paloma Sanchez-Garnica. «Custa-me a entender, padre, repeti eu várias vezes, abanando a cabeça com o olhar perdido na massa humana que ia assentando no acampamento erguido em Gálata»

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Constantinopla. Abril do ano de 1204
«(…) As ruas da cidade encontravam-se repletas de corpos mutilados, cobertos de sangue, com feridas profundas provocadas pelo golpe certeiro da espada. Eu caminhava lentamente, cambaleando, mergulhado na embriaguez que me provocava aquela loucura desenfreada. Seguia com dificuldade a figura firme do abade Martín, que abria caminho por entre aquele marasmo de morte e crueldade. A manhã rompera clara e o céu abria-se, aos meus olhos, pintado de um azul intenso. Nada me fazia prever os acontecimentos que se seguiram e de que fui testemunha obrigada e horrorizada. Tínhamo-nos levantado de madrugada, respondendo à chamada do abade. Bernardo e eu dormíamos ao pé da sua cama, no abrigo que os soldados tinham preparado para nos acomodar havia mais de um mês. A ofensiva estava preparada e os homens tinham-se confessado e comungado no dia anterior. O abade Martín, a quem, desde que chegara ao acampamento, erguido diante das muralhas da cidade sitiada, tinha sido atribuído o comando de todos os clérigos que participavam da expedição, terminara os seus deveres a altas horas da noite, entregue à difícil missão de reconfortar as almas dos homens, conscientes de que enfrentavam uma morte terrível e impiedosa. Os sermões dos clérigos para animar as tropas para o combate tinham-se concentrado na afirmação de que os gregos da cidade de Constantinopla eram traidores e hereges, chegando a compará-los com os judeus. Ao ouvirem estes discursos, os corações enalteciam-se e a convicção de que Deus estava connosco ia aumentando à medida que as prédicas se estendiam naquele ambiente rarefeito por uma calma tensa. Os homens tinham sido obrigados a jurar, sobre relíquias sagradas, que, tanto durante a batalha como depois, procederiam de forma honesta e cristã, respeitando os adversários e, sobretudo, os cidadãos que se vissem envolvidos no combate. Foram obrigados a jurar que não cometeriam violações e que respeitariam os monges e os sacerdotes, a não ser que agissem em defesa própria, e foi-lhes proibido invadir igrejas ou mosteiros. O castigo para os que não cumprissem aquele juramento era a excomunhão, chegando-se, inclusivamente, a ameaçá-los com a execução, nos casos mais graves. Mas depois de os latinos controlarem a cidade, os meus olhos viriam a constatar que aquele juramento, feito perante o sagrado, se revelaria sem sentido.
Tanto os cavaleiros como os soldados a pé tinham de se lembrar que os inimigos que iam enfrentar também eram cristãos, apesar de serem considerados apóstatas. Eu não compreendia muito bem o contrassenso de lutarmos contra irmãos de fé, em vez de lançarmos as nossas torças contra o muçulmano, que continuava senhor da Terra Santa, mas o abade explicara-me alguns dias antes que, desde 1054, os gregos tinham renegado a autoridade do papa de Roma, e isso fazia deles hereges. É fácil, Umberto, disse-me, com um ar paciente, os homens devem seguir os desígnios de Deus, e é o próprio Cristo que exige que nos vinguemos destes inimigos da nossa fé. Portanto, os santos guerreiros da Igreja são obrigados a defender as nossas crenças acima de tudo. É isso que está a fazer o exército que aqui vês, explicou, estendendo a mão na direcção do mar de homens que se movia para um lado e para o outro numa actividade frenética, ocupados nos preparativos para a batalha, que já se avizinhava. Custa-me a entender, padre, repeti eu várias vezes, abanando a cabeça com o olhar perdido na massa humana que ia assentando no acampamento erguido em Gálata». In Paloma Shanchez-Garnica, A Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís Coputinho, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-411-2.

Cortesia SEmergência/JDACT 

A Brisa do Oriente. Paloma Sanchez-Garnica. «Ubertino dirigiu-se ao único baú que ali havia, uma caixa enorme de madeira talhada e guarnecida com tachões de metal dourado nas quinas»

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Dezembro. 1265
«(…) A qualidade de bibliotecário permitira a Ubertino retirar do cinturão do abade o chaveiro de ferro que continha duas chaves, uma que abria a porta da biblioteca, da qual já tinha uma cópia, e outra que abria o baú que se encontrava no seu interior, chave esta que, até àquele momento, só o abade possuíra. Aproveitou a tranquilidade do momento para se dirigir ao scriptorium. Entrou naquele espaço, onde copistas e iluminadores iniciavam já o seu trabalho, colocando sobre as mesas em forma de púlpito, com uma minúcia serena, os utensílios de trabalho necessários. Atravessou aquele espaço comprido, de tectos altos e janelões amplos que se abriam, de um lado, sobre a galeria do claustro e, do outro, sobre o pomar. As carteiras tinham sido colocadas perto das janelas para que os monges desfrutassem de toda a luz possível. Apesar de o silêncio ser uma regra imprescindível para uma adequada concentração dos copistas no seu trabalho, Ubertino apercebeu-se de que, naquele dia, o silêncio era ainda mais profundo, como se uma tristeza plúmbea embargasse a vontade daqueles homens dedicados a registar o saber em pergaminhos para que este perdurasse pelos tempos fora.
Ao fundo do scriptorium encontrava-se a porta que dava acesso à biblioteca, ampliada várias vezes desde que Ubertino fora nomeado librarium e, agora, com as dimensões e a solenidade adequadas para albergar o seu conteúdo único e portentoso. Ubertino abriu a porta com a sua chave e tornou a trancá-la depois de entrar, para que ninguém o incomodasse. Levava na mão uma pequena candeia com uma vela acesa, para iluminar a estreita escada que o levaria ao andar de cima. Subiu e entrou no recinto. Esperou alguns instantes, observando, à luz bruxuleante da sua vela, aquele lugar de culto ao conhecimento. Era um espaço escuro, com tectos muito altos graças a uma abóbada erigida recorrendo à técnica que se tornara tão famosa na construção de algumas catedrais que pareciam chegar ao céu. Porém, ao contrário destas, a biblioteca não tinha janelões enormes. Em lugar daquelas enormes janelas, as paredes que admirava Ubertino estavam cobertas de prateleiras de madeira, estantes que iam do chão à base do próprio arco, e de armários fechados, tudo isto servindo de zeloso regaço ao saber de todo o mundo, reunido em códices. Apenas havia três pequenas janelas na parte superior da cúpula, suficientes para deixarem passar alguma claridade, evitando, no entanto, que a intensidade da luz e as variações de temperatura afectassem o conteúdo daquele lugar sagrado.
Ubertino dirigiu-se ao único baú que ali havia, uma caixa enorme de madeira talhada e guarnecida com tachões de metal dourado nas quinas. Encontrava-se ao pé de uma carteira onde vira o abade inúmeras vezes, lendo e escrevendo sozinho, à luz de uma candeia que só ele podia utilizar. Aquele era um privilégio seu no mosteiro, porque ninguém, para além dele, podia permanecer naquele local durante mais tempo do que o estritamente necessário, e sempre com a companhia do librarium ou do seu ajudante. Ubertino acendeu a candeia de azeite que se encontrava sobre a carteira, esquecida pelo respectivo dono desde havia meses, e apagou, de um sopro, a vela que levava na mão. Em seguida, pôs-se diante do baú e acariciou-o como se de um objecto sagrado se tratasse. Introduziu a chave na fechadura de ferro e ergueu a tampa, que produziu um chio tão cortante que parecia que se abriam as portas do Universo.
Ficou a olhar para o interior, forrado com um tecido vermelho algo puído nos lados. No fundo, lá estava a bolsa de pele que vira o abade transportar em tantas ocasiões. Recordou que o ancião à levava às costas, pendurada, no dia em que o conheceu. Pegou nela e colocou-a sobre a carteira. Sentiu um calafrio, sem saber se se devia ao facto de se sentir psicologicamente abalado ou à dolorosa visão daquelas coisas que faziam já parte do passado. Meteu a mão no interior escuro e deu com um manuscrito volumoso, encadernado com uma capa simples de madeira, forrada a couro de cabra curtido de cor parda e com os cantos gastos pelo uso. Não tinha qualquer inscrição. Abriu o manuscrito com cuidado, ouvindo, assustado, os estalidos da pele e abrandou o movimento para evitar que o pergaminho se rasgasse ou estragasse. Sentiu-se algo desconcertado, porque sentiu o coração bater mais forte. A letra era miúda e muito clara e o texto estava escrito em latim culto em ambas as páginas de cada folha, para aproveitar ao máximo o espaço do couro. Sentou-se no banco de madeira, aconchegou a túnica de frade para se proteger do frio e começou a ler. A primeira folha continha a seguinte inscrição, a tinta vermelha e com letra tremida: Brisa do Oriente». In Paloma Shanchez-Garnica, A Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís Coputinho, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-411-2.

Cortesia SEmergência/JDACT

quarta-feira, 22 de junho de 2016

A Alma das Pedras Paloma Sanchez-Garnica. «O que pensas de tudo isto, Martín? Teodomiro conhecia a capacidade de raciocínio do seu escriba. Fora este que, em muitas ocasiões, o livrara de problemas graves com os seus conselhos sábios e reflectidos»

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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) Teodomiro olhou-o com indulgência. Os Santos Evangelhos nada dizem acerca dessa pregação, Paio, e, enquanto cristãos, é ao Livro Sagrado que nos devemos ater. Tendes toda a razão, concordou Paio, mas isto pode ser o milagre necessário para que a Igreja volte o olhar para esta terra. O Santo Apóstolo está enterrado debaixo dessa laje, Eminência. Não estais a perceber?! Todos viriam prostrar-se diante do seu túmulo e estas seriam as relíquias mais famosas e importantes da cristandade! Já ouvi falar de outras venerações não tão devotas que ocorrem nesta terra, Paio, retorquiu Teodomiro em tom de crítica. Eu só oiço a voz que Deus me envia, Eminência. Espero e creio na Sua misericórdia. É o Senhor Todo-Poderoso quem nos envia este milagre para atenuar a indigência em que vive o espírito cristão neste canto do mundo e também é Ele quem nos obsequia com o prodígio. Aproveitemos estas coisas e façamos delas realidades. A firmeza segura de Paio desconcertou Martín Bilibio e provocou-lhe ainda mais desconfiança. Paio continuou a falar, mantendo uma humildade prudente. Sabeis, melhor que ninguém, que a fé pode mover montanhas, e a existência de relíquias de tamanho valor neste lugar constituiria um incentivo enorme para os corações arrasados dos fiéis que vivem neste fim do mundo. O bispo olhou de lado para Martín, que escutava o diálogo entre ambos em silêncio.
O que pensas de tudo isto, Martín? Teodomiro conhecia a capacidade de raciocínio do seu escriba. Fora este que, em muitas ocasiões, o livrara de problemas graves com os seus conselhos sábios e reflectidos. Graças ao seu escriba, conseguira resolver conflitos importantes e, muitas vezes, salvara o prestígio diante do rei por ter seguido as recomendações do monge. Martín Bilibio demorou algum tempo a responder. Não sei muito bem o que pensar, Eminência. Não esperava uma descoberta destas... Mas achas que pode estar aqui o corpo do apóstolo S. Tiago? O monge escriba abriu as mãos e arqueou as sobrancelhas, exprimindo dúvida. Eminência há alguns anos visitei uma biblioteca do mosteiro de San Martín de Turieno, situado na província de Liébana, à vista das montanhas que nos separam das terras dos cantábricos. Já ouvi grandes elogios à quantidade e qualidade das obras que se encontram no scriptorium dessa biblioteca, comentou Teodomiro.
É verdade que as possui, e em grande quantidade, confirmou Martín, agradado. Aí encontrei formosos manuscritos caligrafados e iluminados por um monge chamado Beato, que há alguns anos foi abade do referido mosteiro e que, depois de falecer foi considerado santo por piedade do povo. Um desses manuscritos era um comentário ao Apocalipse. Posso dizer-lhe que tive o privilégio de ler por alto o seu conteúdo e é verdade que esse documento afirma que S. Tiago pregou por toda a Península e, mais concretamente, nestas terras. Pelo que constatei, Beato era um homem culto, que sabia o que escrevia. Quero com isto dizer que não era um simples copista, pois o conteúdo dos seus escritos resulta da sua profunda e alargada cultura. Está muito bem o que me dizes, Martín, mas falas-me das prédicas do apóstolo de Cristo por estas terras e isso ainda que pouco provável, até poderia dar-se por certo mas o facto de eventualmente ter chegado até aqui em vida não prova que o seu túmulo se encontra justamente neste lugar coberto de terra e de ervas daninhas nem, sobretudo, e mais importante ainda, escondido sob a capa do esquecimento. Seria impensável que algo desta natureza tivesse passado despercebido a toda a Igreja durante tanto tempo.
Neste ponto, Paio interveio, dando uma veemência surpreendente às suas palavras. Talvez tenha chegado a hora de devolver a esta sepultura toda a dignidade que merece. Descobrimo-la, por isso anunciemo-la ao mundo! É vontade de Deus recuperar, de alguma forma, este reino perdido e sois vós, senhor bispo o eleito para levar este rebanho extraviado de volta ao redil da cristandade. Que importa que nada tenhamos sabido do túmulo? É o próprio Deus quem no-lo revela neste momento! Tomemos como verdadeiros os sinais que Ele nos envia ou ainda nos arriscamos a apodrecer na agonia do Inferno por ignorarmos o que tão claramente nos revela! Teodomiro voltou-se para o eremita e perscrutou-lhe o olhar. Estás a insinuar que inventemos relíquias que não existem?! Às vezes, Eminência, respondeu o eremita, tranquilo, a fé tem de socorrer-se dos chamarizes mais insólitos para se manter viva... O bispo tornou a olhar para Martín, que lhe falou em tom sereno. Beato compôs um formoso hino para a liturgia do apóstolo S. Tiago intitulado O Dei Verbum, no qual o considera defensor e poderoso padroeiro hispânico, e acredita que, por intermédio do santo, é possível evitar a peste, as doenças, as calamidades e o crime. Com o seu hino, roga-lhe que se mostre piedoso e proteja o rebanho que Deus lhe destinou e termina solicitando a sua intervenção no sentido de nos salvar das chamas eternas do Inferno». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

quarta-feira, 25 de maio de 2016

A Alma das Pedras Paloma Sanchez-Garnica. «É possível que esteja aqui alguém enterrado, mas não vejo nenhuma inscrição gravada na pedra. Quando se preparava para se levantar, viu algo que lhe despertou a atenção. Era uma marca lapidar…»

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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) O escrivão dirigiu-se imediatamente aos soldados e ordenou-lhes que arrancassem a vegetação que tinha engolido aquele monumento. A espera foi tensa e os homens passaram um bom bocado a arrancar ramos, silvas e outras ervas daninhas e tiveram até de cortar talos quase tão grossos como troncos de árvores. Martín olhava para o bispo Teodomiro pelo canto do olho porque o notava inquieto incomodado, o que era muito pouco comum num homem cuja serenidade muito poucos assuntos alteravam. Perguntava a si mesmo o que lhe estaria a passar pela cabeça. Talvez os efeitos do jejum o tenham afectado mais do que o habitual. Já estavam há mais de três dias naquele 1ocal húmido e inóspito, dormindo no chão, à espera de um milagre que nunca mais se materializava. Talvez fosse o esgotamento, de que ele também começava a padecer, o que estava a levar o bispo a perder a sua tranquilidade habitual. Sentiu pena dele. Considerava-o um bom homem, um homem justo e cauteloso nas suas decisões que lutava contra ventos e tempestades para acabar com o desânimo e, portanto, o abandono em que se encontrava a sede episcopal iriense, que regia, bem como com o desânimo dos seus fiéis, desamparados e apegados às habituais práticas druídicas e pagãs.
Quando, finalmente, conseguiram libertar a frente do monumento, Teodomiro inspeccionou o que lhe parecia ser uma entrada e ordenou que tentassem abri-la. Os soldados esforçaram-se por mover a pedra que impedia o acesso ao interior do túmulo, mas a sua vontade de pouco lhes valeu, porque o pedregulho parecia impossível de mover. Depois de várias tentativas, conseguiram usar um tronco como alavanca e, muito lentamente, foram deslocando a enorme pedra que lhes impedia o acesso. Quando o vão se tornou suficientemente amplo para permitir a passagem de um homem, o bispo ordenou-lhes que se afastassem. Pegou numa das tochas e virou-se para Paio, que, arrebatado pela emoção, tinha os olhos a brilhar. Vamos lá ver o que há aqui dentro. Um momento, Eminência, pediu Martín. Permiti que eu entre primeiro, pois não sabemos o que pode estar aí dentro e podeis ferir-vos. Teodomiro esboçou um sorriso de gratidão para com o seu escrivão. Sentia um grande afecto por aquele monge que se mostrava sempre tão preocupado com o seu bem-estar. Fez-lhe um gesto e deixou-o passar primeiro.
Martín introduziu a mão com a tocha no buraco estreito e passou ao interior, iluminando o espaço em seu redor. Encontrava-se num espaço estreito e de tecto baixo, com uma espécie de altar de pedra no centro. Aproximou-se dele e inspeccionou-o. O que vês, Martín? Entrai, Eminência. Parece que não há perigo. Martín viu a mão do bispo trazendo a luz da tocha. Quando este acabou de entrar, olharam-se ambos por instantes, percorrendo em seguida aquele espaço diminuto com o olhar. Logo a seguir a Teodomiro, surgiu o vulto miúdo do eremita. Martín fixou o olhar naquele homem. Nunca se tinha fiado nas suas palavras, porém ele revelara-se tão insistente ao longo de tantos anos que considerara conveniente a visita àquele sítio do monte de Libredón como única forma de dar credibilidade às suas visões e alucinações de velho louco e solitário. No entanto, quando o eremita entrou naquele lugar, Martín vislumbrou-lhe um brilho especial nos olhos e a sua expressão revelava um regozijo impossível de ocultar. Era um sentimento comedido, mas evidente. Santo Deus!, exclamou Paio. Que o Senhor seja louvado! Está enterrado aqui!
Não me vais dizer, Paio, começou Teodomiro, olhando para ele, que conheces a identidade daquele que dorme aqui o seu sono eterno, disse, aproximando-se do altar, sob o qual parecia existir uma sepultura. Paio nada respondeu. Entretanto, Martín examinava, de cócoras, o que havia debaixo do altar de pedra aproximando a chama da pequena tocha que trazia na mão. É possível que esteja aqui alguém enterrado, mas não vejo nenhuma inscrição gravada na pedra. Quando se preparava para se levantar, viu algo que lhe despertou a atenção. Era uma marca lapidar gravada na linha do ângulo que formava a pedra do altar. Ouviu Paio sussurrar algo que não conseguiu perceber, a Teodomiro. Observou o sinal demoradamente e, quando ergueu os olhos, o seu olhar cruzou-se com o de Paio. O eremita dirigiu-se ao bispo sem desviar os olhos do monge escrivão. Eminência, como já lhe disse, um anjo revelou-me que, há séculos, o corpo do apóstolo S. Tiago foi trasladado para esta terra.
Martín levantou-se. Continuava inquieto e receoso com a atitude daquele homem, que se fazia passar por iluminado mas que, de repente, passou a suscitar a sua desconfiança. Nem sequer sabemos se isto é realmente um túmulo e já queres dar nome ao cadáver!, censurou o bispo. Eminência, replicou Paio, com humildade, não sou eu quem diz, mas Deus quem o põe diante de vossos olhos. Não achas que é demasiada presunção imaginar tal coisa, Paio?, indagou Teodomiro, manifestando o incómodo evidente que lhe causaram as palavras do eremita. Além disso, o Apóstolo S. Tiago morreu na Terra Santa e aí foi enterrado. Não há nada que indique que o seu corpo tenha sido enterrado nestas terras. Isto é a finis terrae, portanto estamos nos confins do mundo, esquecidos por todos. Como poderia estar aqui o corpo do apóstolo sem que ninguém tivesse reparado nisso? É uma noção insustentável... Eminência, insistiu Paio, há fontes que indicam que S. Tiago Maior pregou nesta zona. Está incluído no Breviário dos Apóstolos um manuscrito anónimo com mais de dois séculos de existência». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

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sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «À primeira vista, parecia tratar-se de um monumento de pedra e terra, de pequenas dimensões e cujo acesso, ao que parecia, se encontrava firmemente selado. Tentaram arrancar as ervas, mas essa era uma tarefa inútil»


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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) Teodomiro passou os três dias seguintes, e as respectivas noites, orando e caminhando de um lado para o outro, sem beber uma gota de água e comendo apenas, ocasionalmente, uma peça de fruta ou castanhas assadas na brasa para minorar a fraqueza que a abstinência lhe provocava no corpo. Havia anos, sobretudo desde que tinha sido nomeado bispo, que não fazia um jejum tão prolongado, pelo que o seu corpo estava pouco habituado a esse sacrifício e a sua fraqueza aumentava a cada hora que passava. A sua alimentação sempre fora frugal, mas não privava o estômago de pratos requintados nem de bom vinho. Ao anoitecer do terceiro dia, Martín Bilibio dormitava um sono inquieto quando abriu os olhos e viu o bispo conversando com Paio ao longe. Sentou-se, aturdido, e perguntou-se o que estaria o eremita a dizer a Sua Eminência. Teodomiro ouvia com atenção as palavras do seu interlocutor. Martín levantou-se cambaleante e dirigiu-se a eles, convencido de que aquele homem empenhado em desencantar algum milagre para seu proveito pessoal estaria a molestar o seu senhor. Contudo, para sua surpresa, calaram-se quando o viram aproximar-se. Eminência, passa-se alguma coisa?
Nada que possa resolver, Martín, retorquiu Teodomiro, esquivando-se a uma resposta mais concreta. Paio olhou de través para Martín e afastou-se, com uma atitude de quem tinha sido interrompido pela presença do monge. É melhor verificar se o meu espírito está preparado para receber a mensagem de Deus..., murmurou o bispo. Se é que há alguma mensagem divina a receber. As suas palavras pareciam cansadas, pouco animadas. Dirigiram-se ao local que Paio lhes tinha indicado alguns dias antes, atravessando a penumbra do bosque por um bocado. O ambiente era muito húmido e o ar parecia mais espesso por causa da neblina rente à terra. Teodomiro seguia alguns passos mais adiante. Atrás de si iam o seu fiel escriba Martín Bilibio e, ao lado deste, colocara-se Paio, atento a todas as reacções do bispo. De repente, Teodomiro julgou ver sair da terra pequenas luminárias em movimento. Surpreendido, nada disse e manteve-se calado, com receio de que se tratasse apenas de alucinações causadas pelo estado de fraqueza em que se encontrava. Abriu e fechou os olhos e avistou algumas mais.
Eram como resplendores na escuridão, umas luzes pálidas esverdeadas ou azuladas, tão leves e subtis que pareciam flutuar no vazio do ar, quase rente ao solo. Ouviu a respiração de Martín e de Paio, que o seguiam de perto, num silêncio prudente. Vistes aquilo?, acabou por perguntar, convencido de que havia algo estranho naquelas luminescências. É a prova, senhor meu!, respondeu Paio, adiantando-se. É o ignis fatuus, interveio Martín Bilibio, em tom calmo. Ocorre amiúde nos cemitérios ou em zonas pantanosas e muito húmidas. E a que se deve o fenómeno? Não sei exactamente, Eminência. Há muitas lendas sobre a sua origem: alguns dizem que são almas penadas que vagueiam na escuridão para se limparem dos seus pecados, outros dizem que são almas de recém-nascidos mortos que se encontram entre o Céu e o Inferno. Também já ouvi dizer que são os espíritos maus à espera dos incautos que entram em campos santos à noite para lhes roubarem as almas...
É o sinal, senhor!, insistiu Paio. É Deus que vos fala... O que é que tu achas, Martín?, perguntou o bispo sem ligar às palavras do eremita. Tens alguma explicação para estas..., luzes? Eu, senhor?!, perguntou Martín, surpreendido com a pergunta. Bem..., não tenho provas de nada, mas ouvi um sábio dizer que estas luzes são provocadas pela putrefacção dos corpos, e talvez seja por isso que se vêem nos campos santos. Teodomiro olhou-o por momentos, com um ar reticente. O seu olhar continuou a penetrar a neblina, observando de vez em quando, essas luzes pálidas refulgentes que iam aparecendo aqui e ali, das quais tentava aproximar-se sem nunca o conseguir, porque ou pareciam afastar-se ou desapareciam engolidas pelo ar. Paio, ouvi dizer que nesta zona existiu um cemitério? Sabes alguma coisa disto? Eminência, há quem o afirme. De facto, existe um lugar, ali, atrás daqueles matagais, onde já me pareceu ver a entrada de um túmulo. Mas entraste? Não, senhor, porque o acesso é intransponível para as minhas poucas forças. Mostra-me esse lugar. Martín Bilibio não percebeu porque é que aquele eremita não tinha falado daquilo antes.
Seguiram-no até aos matagais para que apontava. Aqui está!, exclamou o eremita enquanto afastava a vegetação com a mão. Paio e Martín aproximaram as tochas que levavam na mão. O túmulo estava tão escondido pela vegetação frondosa daquela paisagem que era quase impossível dar com ele para quem não soubesse onde se encontrava. À primeira vista, parecia tratar-se de um monumento de pedra e terra, de pequenas dimensões e cujo acesso, ao que parecia, se encontrava firmemente selado. Tentaram arrancar as ervas, mas essa era uma tarefa inútil, visto que estavam profundamente enraizadas na terra em redor do túmulo. Algo impaciente, Teodomiro dirigiu-se a Martín Bilibio. Martín, ordena aos soldados que limpem a área em torno do túmulo. É a única forma de sabermos se isto é realmente o que parece. Martín afastou-se do local para ir chamar os soldados, que permaneciam tranquilos junto ao oratório de Paio. Quando o viram, ergueram-se a custo. Era noite e não tinham muita vontade de deambular por bosques dos quais tinham ouvido dizer coisas estranhas. Não obstante, pegaram nas tochas e seguiram Martín. Quando estava a chegar ao lugar do túmulo, viu Teodomiro conversando novamente com Paio mas, desta feita, pareciam discutir sobre alguma coisa. Achou aquilo estranho. Acelerou o passo para tentar ouvir sobre que falavam mas, para sua surpresa calaram-se assim que o viram, tal como da primeira vez. O bispo chegou, inclusivamente, a tentar disfarçar o seu evidente estado acalorado mas em vão. Passa-se alguma coisa, Eminência?, perguntou Martín ao bispo, enquanto se aproximava. Nada, Martín, não se passa nada». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

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domingo, 13 de setembro de 2015

A Brisa do Oriente. Paloma Sanchez-Garnica. «O enterro foi silencioso e rápido. Cumprindo a sua vontade expressa, a terra cobriu o corpo do defunto, que ia envolto numa manta de lã simples. Não quisera caixões nem madeiras que o isolassem da terra em que devia repousar»

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Dezembro. 1265
«(…) Partirei, tal como já aconteceu com outros muito melhores do que eu, e garanto-te que a vida seguirá o seu passo. Ninguém, seja o melhor ou o mais malvado dos homens, é imprescindível. A voz serena, tranquila, carregada de melancolia, escorria-lhe, embalada, por entre os lábios finos e embranquecidos, num grato murmúrio. Quero que me ouças bem, pois não sei de quanto tempo disponho..., nem sequer sei se disponho de algum, pediu, com os olhos enterrando-se nas rugas de uma expressão melancólica. Lembras-te da bolsa com que eu andava sempre? Claro. Está guardada no baú da biblioteca. Ficarás com a chave no momento em que eu morrer. Quando eu partir, quero que fiques com o conteúdo dessa bolsa. Farei como me pedis. É uma coisa que te deixo entregue, e não quero que passe pelas mãos de outros, nem sequer daquele que vier a substituir-me nas funções de abade. Ubertino assentiu com a cabeça. Farei como quereis. Guarda-a, sussurrou, cansado. É todo o meu património, meu querido Ubertino..., disse, com a voz embargando-se-lhe na garganta, a minha herança, a única coisa que posso deixar-te... Os seus olhos entristeceram e os lábios, trementes, voltaram a semicerrar-se-lhe, remetendo-se ao silêncio.
Não vos preocupeis, pater. Guardá-la-ei como se fosse o tesouro de uma criança. O ancião esboçou um ligeiro sorriso e permaneceu calado, envolto, para sempre, na letargia da espera, de que nunca mais tornou a emergir. O voltear monótono dos sinos anunciava que tinha chegado o fim. Outros monges entraram em silêncio, com os apetrechos necessários à preparação do corpo. Ubertino levantou-se e ajudou-os naquela tarefa. Lavaram e secaram o cadáver, de aspecto esquelético devido aos constantes jejuns que lhe tinham deixado a pele colada aos ossos. Vestiram-lhe a túnica branca e ficou pronto para ser velado. Fizeram tudo com o cuidado típico de quem maneja o corpo frágil e indefeso de um recém-nascido, como se a vida voltasse às suas origens, ao princípio de tudo. A manhã rompeu carregada de nuvens negras, prenúncio dos dias cinzentos e tristes que esperavam a comunidade. Começaram a cair alguns flocos brancos no preciso instante em que oito monges removiam o corpo do abade do edifício da enfermaria. Atravessaram o pátio principal e entraram pelo corredor do claustro que dava acesso ao templo. Entraram na igreja e dirigiram-se, solenes, ao túmulo, que já estava instalado diante do altar e sobre o qual depositaram o cadáver. Tinham sido acendidas centenas de velas a todo o comprimento do coro e em torno do presbitério. Os monges posicionaram-se diante das suas misericórdias e foi dado início aos cânticos dos salmos funerários, dirigidos pelo sacristão.
Tinha passado meio dia e o eco da morte já tinha chegado a todos os arredores, levado pelo rebate do sino. Durante todo o dia, homens, mulheres e crianças foram-se dirigindo ao templo para prestarem as suas homenagens particulares ao falecido abade. Ubertino tinha ficado sentado na primeira fila, junto ao túmulo, de onde podia observar o perfil pétreo e solene do cadáver. Entretanto, chegou uma freira idosa ao templo. Os seus olhos, claros como a água e tragados pelas maçãs salientes do rosto no vazio das órbitas oculares, observaram prudentemente o interior por um breve instante. Cobria o corpo diminuto com o hábito branco da ordem beneditina e tinha o rosto delimitado pela touca, que lhe apertava as feições envelhecidas. Havia poucos meses que tinha entrado naquela igreja. Olhou, receosa, para um lado e para o outro e, com o requiem de fundo entoado pelos monges, aproximou-se, prudente, do estrado sobre o qual jazia o corpo do abade. Ubertino fixou o olhar nela assim que a viu. Os olhos de ambos encontraram-se por um instante e o monge estremeceu perante aquele olhar. Ajustou a sua túnica de frade ao pescoço, pensando que os tremores se deviam ao frio que invadira o templo.
A mulher deteve-se diante de quem jazia, como se se tratasse de um Cristo dolente ali colocado para que o venerasse. Uma lágrima quase impercetível resvalou-lhe pela face. Pegou na mão inerte do abade. Ubertino levantou-se, alarmado, mas não saiu de onde se encontrava, como se tivesse ficado petrificado por uma espécie de força interior que o impedisse de interromper aquele momento entre os dois. A mulher olhou-o de soslaio e esboçou um sorriso melancólico. Depois, deu meia-volta e afastou-se. Ubertino tornou a sentar-se, desconcertado, vendo a idosa encaminhar-se para a porta com passos curtos e lentos, encurvada e pesarosa, até que acabou por a perder de vista. Olhou para o cadáver e perguntou-se quem poderia ser aquela mulher. Um estranho impulso fê-lo desejar sair dali a correr para lhe perguntar quem era, pois era evidente que conhecia o abade, mas a cerimónia fúnebre iniciava-se naquele instante e foi obrigado a manter-se no seu lugar. Nunca mais voltou a vê-la.
O enterro foi silencioso e rápido. Cumprindo a sua vontade expressa, a terra cobriu o corpo do defunto, que ia envolto numa manta de lã simples. Não quisera caixões nem madeiras que o isolassem da terra em que devia repousar. Sobre a tumba, foi colocada apenas uma simples cruz feita com dois paus de madeira de cedro, atados com uma corda. Depois, cada um dos monges afastou-se, pesaroso, para se dedicar aos seus afazeres habituais, interrompidos havia dias pela morte. A calma e o sossego pareceram regressar com o retomar implacável da vida pelos vivos e o inevitável abandono do defunto à solidão da morte». In Paloma Shanchez-Garnica, A Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís Coputinho, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-411-2.

Cortesia SEmergência/JDACT

A Brisa do Oriente. Paloma Sanchez-Garnica. «O ancião riu discretamente. Meu filho, não me queiras tanto mal, que já não posso com os ossos e a minha cabeça vai sentindo cada vez mais dificuldade em submeter o corpo à sua vontade!»

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Dezembro. 1265
«Ainda não tinha amanhecido quando a morte acabou, finalmente, com a agonia que se estendera por dois dias eternos, num longo adeus. No domingo, depois das Completas, Ubertino apercebeu-se de que o abade cambaleava levemente, como se fosse um edifício frágil, a ponto de se desmoronar. Agarrou-o, com força, pelo braço no preciso momento em que caía, evitando que o ancião caísse de todo. A mão frágil e ossuda do velho abade agarrou-se ao braço do monge, e este pôde ver o adeus definitivo naquele olhar vetusto. A neve, que caíra durante toda a noite, tinha coberto o mosteiro com um fino lençol branco e já só se via a sombra escura das paredes de pedra que se erguiam naquele cenário desolador e embranquecido. Corria um vento gélido e forte, em rajadas esporádicas que faziam rodopiar as folhas secas nos cantos mais recônditos do claustro.
Havia várias horas que toda a comunidade, incluindo os noviços e todos os irmãos leigos que viviam no mosteiro, bem como todos aqueles que, sabendo da iminência da morte do abade, se tinham dirigido ao templo, rezava, no oratório, vários ofícios pela alma do moribundo. Os seus tristes salmos rompiam o silêncio, acariciando a escuridão nocturna, e mantinham no ar a melodia doce, pausada e harmónica, sustentada por um halo comedido, quase eterno. Mas tudo isto foi interrompido pelo tanger repentino dos sinos, que dobravam a finados num voltear constante e melancólico. De repente, Ubertino sentiu-se esgotado. Havia mais de dois dias que não saía da enfermaria, agarrado à mão macilenta daquele ancião que fora o seu guia desde a infância. Não quisera separar-se dele, pois, na ânsia desesperada de não o perder, desejava estar ao seu lado quando soltasse o último suspiro. Sentia-se extenuado, com o corpo dorido, mas o que lhe custava mais era o sofrimento agonizante que se lhe cravara no coração.
No meio daquele torpor que transmite a presença etérea da morte, observando a figura esquelética, quase cadavérica do velho abade, Ubertino recordou a última conversa consciente que pudera manter com ele havia menos de uma semana, pouco antes de o ancião ter mergulhado no estado febril que prenunciava o fim inevitável. Encontrara o abade sentado sobre a pedra do montículo que havia junto à parede do lado oeste da igreja, em cuja ladeira se estendia o cemitério, lugar escolhido pelo ancião sempre que o Sol, generoso, aquecia a terra. Passava horas ali, fitando o horizonte infinito com uma agradável sensação de placidez, em total solidão, apenas com a companhia muda dos amigos já perdidos. Ubertino aproximara-se dele porque fazia frio, apesar de aquela manhã parecer um presente de um Outono já passado, como se o Sol estivesse a despedir-se do ancião. Pater, devíeis entrar... Faz demasiado frio para se estar aqui.
O ancião nem se mexeu. Repara, Ubertino... Olha-me só para este céu... Os olhos do ancião pareciam fitar algum ponto para lá do horizonte, e um sorriso sereno começou a desenhar-se-lhe no rosto. Pater, ficareis doente, se continuardes aqui sentado. Foi então que o abade se virou para ele e o olhou surpreendido, como se, de repente, se tivesse apercebido da sua presença e se alegrasse por o ver ali. Ubertino, meu filho, quero que me faças uma coisa, quando eu morrer. A sua voz rasgada deslizava-lhe por entre os lábios. Farei o que quiserdes, pater, mas tenho a esperança de só o fazer daqui a muito tempo.
O ancião riu discretamente. Meu filho, não me queiras tanto mal, que já não posso com os ossos e a minha cabeça vai sentindo cada vez mais dificuldade em submeter o corpo à sua vontade! Ubertino agachou-se ao seu lado para ficar à altura dos seus olhos e poder olhá-lo a direito. Apesar de tudo isso, preciso da vossa presença ao meu lado. Por um instante, os olhares de ambos foram além dos respectivos rostos, ao fundo dos olhos, até chegarem aos sentimentos mais profundos. Meu querido Ubertino, estou muito velho e sinto-me cansado, disse o abade, com a expressão quebrada pela nostalgia. Chegou a minha hora e aceito o meu destino tranquilo e em paz. Esta frase fez estremecer o monge. O abade suspirou, como se a vida já lhe pesasse. Pater, o que será de nós...? O monge apertou a mão do ancião contra o peito, contendo um soluço emocionado. Depois de um momento de silêncio, Ubertino fechou os olhos e ergueu a cara, soltando um suspiro profundo e disposto a ouvir o ancião». In Paloma Shanchez-Garnica, A Brisa do Oriente, 2009, tradução de Luís Coputinho, Saída de Emergência, 2012, ISBN 978-989-637-411-2.

Cortesia SEmergência/JDACT

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «Havia já alguns dias que pensava recolher-se a um lugar tranquilo para meditar sobre o caos em que se encontravam os territórios da diocese, sujeitos à ameaça constante dos normandos, por mar, e dos sarracenos, que nada respeitavam»

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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) É como se centenas de velas iluminassem aquele lugar específico. É um facto milagroso, senhor, não pode ser coisa natural! Além disso, há também o meu sonho sobre o túmulo de S. Tiago Maior... Bem, bem, interpôs Teodomiro, com um gesto enérgico da mão, não ponhamos o carro à frente dos bois, Paio. Os sonhos são apenas isso..., sonhos, e não têm necessariamente significados racionais. Paio aprestava-se a responder, mas o escrivão fez-lhe sinal para que se mantivesse em silêncio. O eremita respeitou-o recuou prudentemente alguns passos e, adoptando uma atitude submissa, aguardou pacientemente a decisão do bispo. Observou atentamente a cabeça do ministro da Igreja, coberta por um barrete algo deteriorado pelo uso. Tinha as orelhas grandes e brancas como o resto da pele e os olhos pequenos e brilhantes, de uma cor obscura, quase negra, o que lhe proporcionava um olhar intenso e difícil de sustentar. O bispo permaneceu pensativo, com a expressão perdida nas suas reflexões, e Paio pensou que o clérigo voltaria a despachá-lo com palavras simpáticas, no sem antes lhe dar algo para meter no estômago. O eremita cruzou então as mãos sobre o peito e sussurrou uma oração. Está bem, disse a voz ténue do bispo arrancando-o à sua reza. Iremos ao bosque de Libredón para comprovar o que dizes, Paio. Martín, chamou, levantando-se decidido e voltando-se para o escrivão, prepara tudo para a partida. Vamos verificar o que vêem os olhos deste bom homem.
Já anoitecia quando o cortejo chegou à clareira do bosque onde se erguia a cela do eremita. O céu encontrava-se quase limpo e um manto de estrelas começava a engalanar a escuridão do firmamento com pequenos pontos de luz. É ali, senhor. Segui-me, rogo-vos. Paio indicou o lugar ao bispo, que o seguia no seu cavalo negro como azeviche, cuja pele brilhava à luz do crepúsculo. A comitiva tinha-se detido à porta da choupana que servia de morada a Paio. Os outros desmontaram cansados e conscientes de que lhes tocaria dormir no chão. Teodomiro não desmontou e moveu as rédeas para que o animal seguisse os passos de Paio que se afastava com o braço estendido para diante, apontando o local exacto aonde queria chegar. É aqui. Paio voltou-se e esperou pelo bispo. O cavalo avançava devagar, manifestando a mesma insegurança que o seu dono. Quando chegou ao pé do eremita, o bispo olhou em redor sem dizer nada.
Comprovai vós mesmo que o que eu vos dizia era verdade, Eminência. Atento à reacção do bispo, as palavras saíram-lhe balbuciantes. Paio, é certo que, neste lugar as estrelas se vêem mais claramente... Porém, não vejo nisto nenhum milagre. Há que observar com os olhos da fé... Estás a dizer-me que não tenho fé suficiente para distinguir as obras de Deus dos embustes dos farsantes?! Não é minha intenção ofendê-lo, senhor, murmurou o eremita, curvando-se cabisbaixo, em sinal de respeito, apenas lhe rogo que prepare o espírito para receber a mensagem de Deus. O bispo Teodomiro suspirou, cansado. Tinha cavalgado durante toda a tarde, as suas costas ressentiam-se do esforço e encontrava-se algo enjoado.
Talvez tenhas razão, retorquiu, sussurrando pensativo. É melhor preparar o meu espírito. Farei três dias e três noites de jejum para saber se Deus Nosso Senhor pretende manifestar-nos algo relacionado com este lugar. Preciso desse jejum para limpar o corpo e a alma. Havia já alguns dias que pensava recolher-se a um lugar tranquilo para meditar sobre o caos em que se encontravam os territórios da diocese, sujeitos à ameaça constante dos normandos, por mar, e dos sarracenos, que nada respeitavam. Os fiéis reclamavam-lhe uma solução para devolver a tranquilidade às famílias que, com grandes dificuldades, mantinham uma fé frágil. Tinha de encontrar alguma forma de lhes transmitir a certeza de que não tinham sido abandonados por Deus nem pela própria Iqreja, que parecia alheia a todo o seu sofrimento, às mortes e às suas perdas de possessões. Mas o que poderia ele fazer, o pobre bispo de Iria Flavia, naquela terra considerada o fim do mundo, uma terra com a qual se havia desentendido o resto da cristandade? Tinham-lhe chegado notícias de que o rei Afonso havia pedido ajuda ao imperador franco para deter o avanço imparável dos infiéis e rechaçar os seus ataques, mas esses eram assuntos de carácter político, questões de guerra e de defesa do território que tinham a ver com a garantia da segurança dos habitantes do reino.
Teodomiro sabia que sob o seu amparo estavam os fiéis da sua diocese, por cujos espíritos tinha de velar, mantendo viva a chama da fé e da esperança. Por esse motivo,  decidiu orar enquanto se submetia a um jejum voluntário de três dias naquele lugar tranquilo, afastado de todos os problemas quotidianos e terrenos da diocese, com o objectivo de, assim, preparar a mente e o espírito para ouvir a Deus, caso este se apiedasse dele e fizesse por bem aclarar os seus pensamentos confusos. Depois de despachar a maior parte dos homens que o tinham acompanhado na comitiva, ordenando-lhes que voltassem à sede episcopal de Iria, ficou apenas com a companhia de Martín e de uma guarnição composta por três soldados, suficiente para a sua protecção. Iniciou o jejum naquela mesma noite». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

A Alma das Pedras. Paloma Sanchez-Garnica. «Peço-vos apenas, Eminência, que me acompanheis ao lugar de que vos falo. Tenho a certeza de que, na clareira que existe junto ao humilde oratório que me serve de morada, ocorre um facto milagroso que sou incapaz de explicar sem a vossa douta opinião»

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Ano da Era do Senhor de 824. A origem de tudo
«(…) Porém, naquele dia tudo se tinha precipitado. Paio apresentara-se muito cedo na residência episcopal. Depois de ouvir a primeira missa da manhã celebrada pelo bispo na pequena capela que havia junto aos seus aposentos, à qual assistiram alguns membros do círculo da diocese iriense, o eremita passou, com Teodomiro, ao salão onde eram recebidas as visitas. Iam acompanhados de Martín Bilibio, o assistente pessoal do bispo. Teodomiro sentou-se diante de um janelão grande, do qual se avistava o mar. O dia apresentava-se claro e solarengo, após quase uma semana de chuvas ininterruptas. Respirou fundo, observando o horizonte, enquanto Paio aguardava pacientemente junto à porta, dependente de Sua Eminência achar por bem atendê-lo. Passados alguns instantes em silêncio, o bispo fez-lhe sinal para que se aproximasse com um ténue gesto da mão. Diz-me, Paio, o que te traz de novo por cá, perguntou, sem sequer desviar os olhos da janela, sabendo de antemão qual era a resposta. O eremita voltou a expor-lhe as suas alucinações. Tentou manter um discurso comedido, porém, desta feita, o seu fervor ultrapassava a necessidade de relatar ao seu interlocutor o que tinha a dizer-lhe. Teodomiro virou-se para ele e apercebeu-se de que no rosto avantajado daquele homem ardia uma segurança indubitável. O mesmo não só lhe manifestou as suas já conhecidas visões, como lhe asseverou, além disso, que um anjo enviado pelo Senhor lhe tinha falado em sonhos para lhe dizer que o túmulo do apóstolo S. Tiago Maior se encontrava no lugar onde ele via o campo de estrelas. Segundo Paio, o sinal era evidente. O bispo não podia continuar a recusar-se a responder a um chamamento tão claro do Senhor Todo-Poderoso. Não faça Vossa Eminência caso de mim, disse Paio, num tom cortês; considerai-me antes uma humilde ferramenta da obra de Deus na Terra. Fazei caso dos sinais que Ele vos mostra com esta revelação que eu me limito a fazer-vos chegar. Sou o instrumento de que se serve Nosso Senhor para vos fazer chegar tamanha notícia. Teodomiro olhou-o enfastiado.
Como compreenderás, Paio, se eu fizesse caso de todos os que, como tu, vêm dizer-me que testemunharam algum facto milagroso, que lhes apareceu diante a Virgem ou que julgam ter tido uma revelação divina não faria outra coisa em todo o dia senão tentar descobrir o que de verdadeiro ou falso podiam ter tais testemunhos. Sei que alguns de vós agem de boa-fé em tudo o que se refere às aparições e relíquias, mas também é verdade que alguns miseráveis se aproveitam das vossas santas intenções com o objectivo de se enriquecerem com a fé da Igreja e com a ignorância dos fiéis, apresentando relíquias, milagres ou aparições portentosas, tudo coisas impossíveis de verificar, mas às quais as pessoas se apegam candidamente como se fossem verdades reveladas.
Peço-vos apenas, Eminência, que me acompanheis ao lugar de que vos falo. Tenho a certeza de que, na clareira que existe junto ao humilde oratório que me serve de morada, ocorre um facto milagroso que sou incapaz de explicar sem a vossa douta opinião. Martín Bilibio aproximou-se do ouvido do bispo sem deixar de olhar de soslaio para o eremita. Eminência, sussurrou, nada tendes a perder em acompanhá-lo. O bosque de Libredón fica a pouca distância daqui e poderíamos lá chegar antes do anoitecer. Desta forma, comprovareis, finalmente, se há algo de certo nas suas insistentes palavras e se não houver, podereis despachá-lo definitivamente, com a consciência tranquila. A sugestão de Martín fê-lo vacilar. Olhou para o secretário e este assentiu com um ligeiro movimento da cabeça. Martín Bilibio era um monge instruído nas melhores bibliotecas monacais, tinha um carácter prudente e cauteloso e havia mais de dez anos que estava ao serviço do bispo. Com o tempo, acabou por se tornar o seu homem de confiança para a redacção de qualquer documento que tivesse de ser transcrito no bispado. O bispo ficou pensativo medindo as consequências da sua decisão. Dizes que esse campo de estrelas se vê à noite?, perguntou Teodomiro, pouco convencido». In Paloma Sanchez-Garnica, A Alma das Pedras, tradução de Miguel Coutinho, Saída de Emergência, 2010, ISBN 978-989-637-288-0.

Cortesia SEmergência/JDACT