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segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A Política Matrimonial da dinastia de Avis. Maria Helena C. Coelho. «… as festas do casamento da infanta dona Leonor no reino e a sua viagem por Itália até chegar à Alemanha, intitulado Historia Desponsationis Frederici III cum Eleanora Lusitanica»

Cortesia de wikipedia e jdact

Leonor e Federico III da Alemanha
«(…) Declaravam-se, inicialmente, as etapas do casamento, naquele momento ele ficava desde logo ajustado por palavras de futuro, para depois ter lugar, no espaço de seis meses, por palavras de presente, à face da Santa Madre Igreja. O dote da noiva seria de 60 000 florins de ouro de câmara, correntes na cúria romana, sendo as arras do noivo (donatio propter nuptias) do mesmo valor, segundo os costumes da Alemanha. Ficava ao critério do imperador a doação matutina (donationem matutinam in crastinum scilicet nuptiarum), um acréscimo simbólico à compra do corpo virgem da noiva, o verdadeiro dom da manhã, após a consumação do acto, dos costumes germânicos. O dote, satisfá-lo-ia o rei de Portugal, em Bruges, na Flandres, ou em Florença, na Itália, conforme o determinasse o rei dos Romanos, no prazo de 15 meses após a consumação do matrimónio, devendo ser-lhe descontados 10000 florins, que se afectavam às despesas de viagem da noiva. O imperador comprometia-se a discriminar os bens cujos réditos reverteriam para a infanta, no espaço de quatro meses, o que de facto virá a concretizar, por carta de 16 de Março de 1451, afectando-lhe o vicedomínio de Laibach, no ducado de Carníola, o castelo e vila de Bliburgo, no ducado de Caríntia, e o castelo de Stuchsenstein, no ducado de Áustria. A segurança da noiva, neste acto de passagem, traduzia-se no montante de 120 000 florins, usufruindo a infanta plenamente de bens nesse valor para manter a sua honra e estado. A infanta devia estar em Itália até inícios de Novembro, vinda por mar, desembarcando no porto que o imperador determinasse, entre Pisa e Nápoles. Tudo foi jurado, sob a palavra de honra dos procuradores e o testemunho de Deus, pondo eles as mãos nos Evangelhos, assim comprometendo o nome e a alma dos seus reis.
Mais inexoravelmente comprometendo a vida futura de dona Leonor, escandida, toda ela, por marcantes e simbólicas passagens. Acordado deste modo o casamento por palavras de futuro, imperioso era avançar para o passo seguinte, a sua efectivação por palavras de presente. Por carta de 14 de Março de 1451, o rei dos Romanos credita como procuradores, para tal acto, os seus capelães Tiago Motz, bacharel em Teologia, e Nicolau Valckenstein. Embaixada assaz reduzida e pobre para um imperador, como já tem sido amplamente notado, bem expressiva de alguns dos seus traços de carácter, como a parcimónia, se não mesmo a avareza, acumulada da astúcia, já que pelo estado eclesiástico dos seus procuradores justificava a humildade da delegação. Como se sabe, o capelão Nicolau Lanckmann Valckenstein escreveu um diário sobre a sua viagem até Portugal e depois sobre as festas do casamento da infanta dona Leonor no reino e a sua viagem por Itália até chegar à Alemanha, intitulado Historia Desponsationis Frederici III cum Eleanora Lusitanica.
Somos então informados que a jornada dos embaixadores alemães foi atormentada, atravessando o ducado de Sabóia (com ida a Genebra), o reino de França (aí visitando Chartreuse, Saint-Antoine, Montpellier, Toulouse) e seguindo depois por Narbona e Perpignão para a Catalunha. Já na Península percorreram os reinos de Aragão, Navarra, Castela e Leão, passando por Gerona, Barcelona, onde receberam salvos-condutos da rainha de Aragão, Saragoça, S. Domingos (de la Calzada, próximo de Logronho), Burgos, Leão e Astorga. Aqui, havendo guerra, disfarçaram-se de peregrinos e avançaram para a Galiza, mas acabaram por ser atacados, ficando sem roupa, dinheiro, cavalos e até mesmo sem as cartas do imperador». In Maria Helena Cruz Coelho, A Política Matrimonial da dinastia de Avis, Leonor e Federico III da Alemanha, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, XXXVI, 2002-2003, Wikipedia.

Cortesia de RevistaPdeHistória/JDACT

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

A Política Matrimonial da dinastia de Avis. Maria Helena C. Coelho. «Aliás, segundo parece, Leonor exprimiu a sua própria vontade, declarando que só se casaria com a majestade imperial e cesárea»

Cortesia de wikipedia e jdact

Leonor e Federico III da Alemanha
«(…) Não foram, porém, estes agentes, mas justamente os da facção contrária, que vieram a concretizar a aliança com o Império. Nem foram tão-pouco aquelas as peças jogadas. Em vez de Joana e Ladislau serão Leonor e o próprio imperador Frederico III a entrarem em cena. Em Julho de 1448, o infante Pedro deixa o regimento do reino a Afonso V e retira-se para o seu ducado de Coimbra. Ora, por cartas da rainha de Aragão de 14 de Outubro de 1448, que recomendava aos reis e rainhas de Castela, Portugal e Navarra e ao duque e duquesa de Coimbra os embaixadores de Frederico III a Portugal, o barão austríaco Jorge Volrestorf e o cónego de Augsburg Ulderico Riedrer, sabemos que o próprio imperador tinha em vista contrair matrimónio com uma infanta deste reino, que se afamava com a expansão ultramarina e avultava cada vez mais nas rotas comerciais. Mas as rédeas da acção estariam já em poder do rei e rainha de Aragão, os adversários do infante Pedro, que se concertavam com o principal parceiro deste jogo de alianças, o irmão da infanta, o rei de Portugal, Afonso V. Afonso, o Magnânimo, rei de Aragão e de Nápoles, apadrinha este matrimónio tendo em vista a segurança das suas possessões italianas, sempre ameaçadas por França e pelo Papado, e o reforço do seu poder no reino de Aragão. Não menos, como já foi notado, se assume, em grande parte, como o tutor dos filhos de sua irmã, em especial de dona Leonor, a quem diz amar, não como uma sobrinha, mas como filha. O monarca português, se bem que talvez preferisse a união de uma das suas irmãs com o Delfim da França, não negligenciaria, como outra hipótese possível, o reforço dos seus laços com Aragão e a creditação do seu poderio e prestígio pela união da casa de Portugal com o Império. Para, alguns anos mais tarde, em 1455, sedimentar ainda mais as suas redes de apoio peninsulares ao casar a sua irmã Joana com Henrique IV de Castela.
Entretanto, no reino português, os acontecimentos precipitam-se. Agudizam-se as facções opostas do duque de Coimbra e do duque de Bragança, manobrando este intensamente na corte, junto do monarca. Cresce a tensão e o ódio entre partidos rivais. O desenlace será o enfrentamento militar entre a hoste régia e a de Pedro, no campo de Alfarrobeira, que terá, como epílogo, a morte do infante, em Maio de 1449. Os seus partidários serão considerados traidores, vendo os bens confiscados. A tristeza e a dor toldariam os ânimos de alguns portugueses. Nada melhor para que Afonso V se impusesse, acima de tudo e de todos, que oferecer ao reino um magno e prestigiado acontecimento. A semente estava lançada com a prévia embaixada do imperador da Alemanha. O fruto amadurecido colher-se-á com muita alegria por dentro de um elaborado cerimonial e uma ostentatória pompa. Os esponsórios de dona Leonor de Portugal com Frederico III, imperador da Alemanha, serão, a todos os títulos modelares, segundo os cânones civis e eclesiásticos. Para servirem de exemplum legitimador do rei de Portugal e dos Algarves e senhor de Ceuta e do imperador, rei dos Romanos.
O casamento assumia-se, nestes finais da Idade Média, como uma união sacramental que devia decorrer sob a benção da Igreja. Acto de vontade dos nubentes, em que, no pleno uso da liberdade, tão cara a estes alvores da modernidade, se lhes exigia o respectivo consentimento. Comummente aceite era já então a ideia de que a plena efectivação do matrimónio ocorria só com a sua consumação. Mas as uniões régias exigiam mais delongas e não excluíam sequer o consensus, no verdadeiro sentido da palavra no direito romano, o acordo dos progenitores, que, como vimos, verdadeiramente o ditava. E depois havia de ser formalizado o contrato nupcial, com a especificação das doações que em tal ocasião eram devidas. Tudo conhecemos, com pormenor, nos esponsórios de Leonor com Frederico III. Talvez fruto da primeira embaixada alemã a Portugal, as ideias clarificaram-se. Arredou-se do pensamento afonsino a hipótese do casamento da irmã com o herdeiro da França e prefigurou-se a união com o Imperador da Alemanha. Aliás, segundo parece, Leonor exprimiu a sua própria vontade, declarando que só se casaria com a majestade imperial e cesárea. Nas Cortes de Santarém de 1451, o monarca consultou as forças sociais do reino sobre este enlace, que foi aceite, sendo outorgados à coroa, para a sua despesa, dois pedidos e meio e uma dízima e meia. Parte então para Nápoles, em Junho, o procurador do soberano, João Fernandes Silveira, pois, aí, segundo a vontade do imperador, seria acordado o contrato nupcial, sob os auspícios de Afonso, o Magnânimo. Reúne-se, então, com os procuradores de Frederico III, Eneas, bispo de Trieste, Jorge Vollesdorff, barão do ducado de Áustria, seus conselheiros, e Miguel Phullendorf, seu secretário. O contrato virá a ser outorgado a 10 de Dezembro de 1450, na presença de autoridades ilustres, como o duque da Calábria e de Clèves e os embaixadores das repúblicas de Veneza e Florença». In Maria Helena Cruz Coelho, A Política Matrimonial da dinastia de Avis, Leonor e Federico III da Alemanha, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, XXXVI, 2002-2003, Wikipedia.

Cortesia de RevistaPdeHistória/JDACT

domingo, 4 de agosto de 2019

A Política Matrimonial da dinastia de Avis. Maria Helena C. Coelho. «O herdeiro virá a ser o seu terceiro rebento, Afonso, que é ainda menor quando recebe o reino, em 1438. Cabendo a tutoria da criança e a regência do reino…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Leonor e Federico III da Alemanha
«(…) Esta estratégia política, que o próprio movimento expansionista impulsionava, abriu os membros da linhagem aos mais variados caminhos por entre os meandros da política dos reinos da cristandade. Assim a diáspora dos herdeiros do infante Pedro, o Condestável e Mestre de Avis, Pedro, veio a ser, por alguns anos, rei de Aragão; João, pelo seu casamento com a rainha de Chipre, Catarina de Lusignan, tornou-se príncipe de Chipre; já Jaime ascenderá a cardeal de Santa Maria in Portico; e dona Beatriz unir-se-á a Adolfo von Kleve. Por sua vez, o infante João, Mestre de Santiago, e sua mulher Isabel, filha do conde de Barcelos e duque de Bragança e de dona Brites Pereira, descendente de Nuno Álvares Pereira, serão os pais da infanta Isabel que desposará João II, rei de Castela, de quem nascerá Isabel, a Católica.

Situemo-nos, porém, agora, na linhagem do sucessor ao trono joanino, Duarte I. Teve este monarca, do seu matrimónio com Leonor de Aragão, quatro filhos e quatro filhas. O herdeiro virá a ser o seu terceiro rebento, Afonso, que é ainda menor quando recebe o reino, em 1438. Cabendo a tutoria da criança e a regência do reino, por vontade de Duarte I, expressa no seu testamento, à viúva dona Leonor de Aragão, esta situação política não foi bem aceite. Temiam-se uns quantos desta rainha estrangeira, que podia defender mais interesses outros externos e menos os de Portugal, e não viam com bons olhos a educação do príncipe entregue a uma mulher. Decidiram, então, os grandes do reino e a burguesia lisboeta entregar a regência do reino e a tutoria do herdeiro ao seu tio mais velho, o infante Pedro. Que será regente de 1439 a 1448, para, no ano de 1449, já afastado da corte, vir a acabar os seus dias em trágicas circunstâncias. Esta contextualização política é fundamental para nos aproximarmos de dona Leonor, a futura esposa do imperador alemão.
Nasceu a infanta em Torres Vedras, a 18 de Setembro de 1434. Ficou órfã de pai aos quatro anos e um ano depois viu-se sem mãe, quando esta, ao exilar-se para Castela, a deixou doente em Almeirim. O regente assume, então, as rédeas do seu destino e entrega-a a uma aia, dona Guiomar Castro. Mais tarde, após a morte da mãe, em 1445, terá vivido em casa própria, com as suas irmãs Catarina e Joana. Este conjunto de infantas era riqueza a ser potencializada em conjugada e hábil política matrimonial. Concertam-se neste propósito os dois tios das infantas, a duquesa de Borgonha e o regente Pedro. A Borgonha conhecia dois suseranos, o rei de França e o Imperador da Alemanha. Buscou com eles alianças matrimoniais que a favorecessem. Projectou então a duquesa o casamento da sua sobrinha Leonor com o herdeiro do trono da França e oferecia a mão da sua outra sobrinha, Joana, ao pequeno Ladislau, neto do imperador Segismundo, ao serviço de quem Pedro lutara contra os turcos, e que Frederico III havia tomado sob a sua tutela. Esta estratégia matrimonial serviria também os objectivos políticos do regente Pedro, que, hostilizado e hostilizando os infantes de Aragão, se aliava a Castela e assim alargaria os seus apoios a França e ao Império». In Maria Helena Cruz Coelho, A Política Matrimonial da dinastia de Avis, Leonor e Federico III da Alemanha, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, XXXVI, 2002-2003, Wikipedia.

Cortesia de RevistaPdeHistória/JDACT

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

A Política Matrimonial da dinastia de Avis. Maria Helena C. Coelho. «Enalteceu-se graças a uma propaganda política suportada por ritos, cerimoniais, crónicas, poesias, retratos e túmulos, representações simbólicas do prestígio, feitos…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Leonor e Federico III da Alemanha
«(…) A dinastia de Avis, que tem a sua matriz fundacional na escolha, que não sucessão, de um rei, para mais um bastardo, procurou legitimar-se no ser e parecer. Entreteceu-se pelos laços de família, cultivou-se nas letras e ciências, engrandeceu-se por valorosos feitos guerreiros, santificou-se pela moral e bons costumes e até mesmo pelo martírio. Os actos fundamentaram, desde a raiz, essa árvore genealógica de ilustres vergônteas. O rei João I o os infantes de Avis, a Ínclita Geração, assumem-se e representam-se com uma família unida, santa e culta. Ela se fez ao mar e conquistou Ceuta, como mais tarde Arzila e Tânger, cristianizando o Norte de África. Esforçou-se por povoar e humanizar espaços virgens e selvagens, como os das ilhas da Madeira, Açores, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe. Afrontou mitos e lendas e sulcou o oceano Atlântico, aproveitando-se das riquezas que a África lhe oferecia e, agigantando-se, deu a conhecer ao mundo uma estrada marítima para a Índia. Perenizou-se pela escrita em obras sobre a montaria e equitação ou sobre a moral e valores da nobreza. Santificou-se no exemplum de uma família unida e devota, na morte redentora pela pátria de um dos seus infantes e na santidade monástica de uma das suas princesas. Imortalizou-se pela arte, reunindo-se, depois da morte, num mesmo panteão dinástico, o mosteiro da Batalha, penhor de uma memória régia plurissecular. Enalteceu-se graças a uma propaganda política suportada por ritos, cerimoniais, crónicas, poesias, retratos e túmulos, representações simbólicas do prestígio, feitos, valores e imorredouro poder da realeza. Enfim, redimensionou-se e ancorou-se no variegado xadrez político da cristandade, graças a uma ponderada e sábia diplomacia. Diplomacia orquestrada com diversos meios e agentes, mas superiormente dirigida pelo jogo político das alianças matrimoniais.
Um casamento entre as famílias nobres era, como se sabe, um acto de estratégia familiar e patrimonial, de transmissão e valorização da linhagem e de resguardo ou engrandecimento da riqueza herdada. Mas entre as famílias régias era, para além de tudo isso, e predominantemente, um acto político Com as uniões matrimoniais buscavam-se os aliados, no intuito de um reforço do poder político, que se queria firmado no interior de um reino, mas maximamente projectado na constelação internacional das realezas. Um casamento, mais do que qualquer outro acto diplomático, unia partidos ou casas reais, não apenas pelo vínculo político, mas pelo vínculo de sangue, dos herdeiros e das heranças. Matrimónio fértil era, pois, laço político indestrutível, para o bem, numa conseguida aliança, ou para o mal, se os objectivos se malograssem. Acto talvez só remediável com uma nova aposta de consórcio matrimonial por entre outras casas reinantes.
Ponderadamente, o rei fundador de Avis pensou as estratégias matrimoniais da sua linhagem. Antes de mais planeou a sua própria, consorciando-se com dona Filipa de Lencastre, revivificando a sua preferencial aliança com a Inglaterra, para se fortalecer, também por essa via, face ao poderio castelhano. Os infantes diversificaram, porém, a rede internacional de apoios ao escolherem as suas noivas. O herdeiro do trono, Duarte, congraçou-se com outro tradicional aliado de Portugal, o reino de Aragão, matrimoniando-se com dona Leonor. O infante Pedro também aí, ainda que em facção rival, buscou a sua noiva, unindo-se a dona Isabel, filha do conde de Urgel. A infanta dona Isabel comprometer-se-á com o duque de Borgonha, Filipe, o Bom, facilitando ao reino português as relações económicas, diplomáticas e artísticas com muitas casas reais europeias. Finalmente a filha ilegítima de João I, dona Brites, protagonizará dois matrimónios internacionais, um com o conde de Arundel e outro com o barão de Irchenfield. A casa de Avis viu-se, assim, enlaçada, pelo sangue, com a coroa inglesa e aragonesa e com o ducado da Borgonha, entre outros». In Maria Helena Cruz Coelho, A Política Matrimonial da dinastia de Avis, Leonor e Federico III da Alemanha, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, XXXVI, 2002-2003, Wikipedia.

Cortesia de RevistaPdeHistória/JDACT

sábado, 27 de julho de 2019

A Política Matrimonial da dinastia de Avis. Maria Helena C. Coelho. «... despois de vistos e examinados os contratos do dito casamento, e assy os poderes que traziam (os procuradores) pera o fazer, o recebimento antre a Emperatriz e o Procurador do Emperador…»

Cortesia de wikipedia e jdact

Leonor e Federico III da Alemanha
«Na narratividade deste nosso texto, uma história de caso. Mas de um caso que, na sua densidade, condensa facetas múltiplas do individual e colectivo, afigurando-se pertinente resgatá-lo do passado para a memória do presente. Ouçamos as palavras de uma crónica. A pena é do cronista régio Rui de Pina:

... despois de vistos e examinados os contratos do dito casamento, e assy os poderes que traziam (os procuradores) pera o fazer, o recebimento antre a Emperatriz e o Procurador do Emperador se ordenou de fazer, e fez sollenemente per pallavras de presente nos paços do Duque, que sam junto com Sam Cristovam a hum Domyngo IX, dias d'Agosto de mil e quatrocentos cinquenta e hum, ao qual foram El Rey, e o Yfante Dom Fernando seu Irmaaõ, e ho Ifante Dom Anrrique seu Tio, e Condes e Perlados e muytos Senhores, e assy foy a Raynha com a Yfante Dona Joana, e com muitas outras donas e donzellas de grande condyçam.

Contemplemos agora as formas e personagens de um fresco da catedral de Siena. O pintor é Pintorrichio:
e eis que deparamos, sob o pano de fundo urbano de uma cidade, uma centralidade média demarcada por um símbolo. Trata-se de um padrão, onde se inscrevem os escudos de Portugal e da Alemanha. Para então nos aproximarmos de um primeiro plano axializado sobre um homem com as insígnias de Imperador e uma bem ataviada senhora, enquadrados ambos pelos seus ricos e vistosos séquitos de cavaleiros e donzelas, os quais, com alguma presteza da parte do homem e um grande encanto e recato por parte da mulher, procedem à immixtum manum, na presença santificadora de um alto dignitário da Igreja, uma figura de bispo. E assim, pela escrita e pela imagem, desenha-se perante nós, no primeiro quadro, o casamento por palavras de presente da infanta dona Leonor de Portugal com o procurador do imperador Frederico III, em Lisboa, a 9 de Agosto de 1451, e, no segundo, o primeiro encontro, ao vivo, dos esposos, na cidade de Siena, onde Frederico III, acompanhado do seu irmão, o duque Alberto, e do seu sobrinho, o pequeno Ladislau, se apressa a ractificar a união, agora com o entrelaçar das mãos direitas, e com o assentimento espiritual de Eneas Sílvio Piccolomini, prelado de Siena. Dois passos do consórcio entre a filha do rei Duarte e de dona Leonor de Aragão e o imperador da Alemanha Frederico III, que será a estirpe fundadora da casa dos Habsburgo de onde, a partir de Maximiliano I, descenderão todos os membros da família imperial da Austria-Hungria, como o grande imperador Carlos V, que também acabará por casar com uma infanta portuguesa. Na realidade, a dimensão política do matrimónio da princesa portuguesa com o imperador alemão pode bem aferir-se pelas numerosíssimas fontes, documentais, literárias e iconográficas, sobre ele produzidas, que, felizmente, até nós chegaram. Por certo nenhuma união da família real portuguesa ficou tão bem documentada, prova cabal do seu magno significado». In Maria Helena Cruz Coelho, A Política Matrimonial da dinastia de Avis, Leonor e Federico III da Alemanha, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra, Revista Portuguesa de História, XXXVI, 2002-2003, Wikipedia.

Cortesia de RevistaPdeHistória/JDACT

terça-feira, 19 de junho de 2012

Homens, Espaços e Pobres. Séculos XI-XVI. Notas do Viver Social. Maria Helena Coelho. «O mundo rural à volta de Coimbra possui fortes potentados eclesiásticos citadinos como, entre outros, Santa Cruz e a Sé, promoveram e enquadraram a colonização e arroteamento destas terras do Mondego que se retalharam em múltiplos senhorios de abadengo»


jdact

Apontamentos sobre a Comida e a Bebida do Campesinato Coimbrão em Tempos Medievos
«O pão nosso de cada dia, ontem como hoje, não é igual para todos. Afirmação banal que não deixa de ser insofismavelmente uma verdade. Na sociedade de ordens os “laboratores” trabalhavam para sustento dos que rezavam pela comunidade, os “oratores”, ou dos que pegavam em armas para a sua defesa, os “bellatores”. Com o cansaço do seu corpo e suor do seu rosto ganhavam o pão alheio e era esse “labor-dolor” que lhes assegurava a salvação. A justificação ética da sua função na sociedade servia igualmente os interesses da economia feudal que vive e se estrutura em função da terra e dos seus rendimentos. Os camponeses lavram e semeiam as terras dos senhores e entregam-lhes, em rendas e foros, o pão e o vinho que do seu trabalho brotaram. O quadro é típico dos tempos medievais, mas perdura durante todo o Antigo Regime, ou mesmo mais além.
O mundo rural à volta de Coimbra não foge a estes parâmetros. Fortes potentados eclesiásticos citadinos como, entre outros, Santa Cruz e a Sé, promoveram e enquadraram a colonização e arroteamento destas terras do Mondego que se retalharam em múltiplos senhorios de abadengo. E ao longo dos séculos outros institutos religiosos ou membros da nobreza, a par de ricos vizinhos da cidade e vilas, foram tutelando o campo e os seus homens. O campesinato coimbrão não se define, assim, por aquela elite de homens-bons dos concelhos rurais, alguns cavaleiros-vilãos, que têm alódios ou disponibilidade para arrendar os grandes domínios senhoriais. A tónica é dada pela massa de lavradores, seareiros e cavões que amanham casais ou terras dos senhores e lhes entregam anualmente uma quota-parte da sua colheita e ainda alguns outros géneros, animais ou dinheiro, a título de foros ou direitos eclesiásticos.
Eram estes, na verdade, os camponeses-produtores que cultivavam o "pão" que os senhores arrecadavam, permitindo-lhes que o mesmo se transformasse em carne, pescado ou iguarias, enquanto na sua mesa ele se tornava apenas em pão de segunda. O cereal e o vinho constituíam, pois, a essência da dieta alimentar dos homens do campo. Mas, como diz Louis Stouff, a hierarquia das pessoas define-se pela cor do seu pão e a qualidade da sua bebida. O pão do camponês é escuro, no geral de mistura, meado, terçado ou quartado, conforme o número de cereais que o compõem. O pão alvo, só de trigo, era mimo de ricos ou guloseima de pobres em dias festivos. Grande variedade de pão saía de um forno da cidade, situado na freguesia de Santa Justa, onde a forneira cozia pão alvo e de segunda, tanto grandes como pequenos e ainda "rellam" (talvez pão de rala, ou seja, de certos fragmentos de trigo) e "massamilho" (certamente pão de milho, equivalente à boroa que, aliás, também se conhecia). À volta da cidade, nas boas terras do campo, cultivava-se, muitas vezes rotativamente, o trigo (mourisco, espécie de trigo duro, ou o galego e tremès, trigos moles) e o milho e nas terras do monte o centeio e a cevada, dispondo-se, assim, na região, de todos os cereais panificáveis.

O homem do campo consumia, no dia-a-dia, grandes porções de cereal, e por isso fabricava, desde logo, pães grandes, que os senhores cobiçavam e exigiam nos foros que arrancavam aos lavradores. O mosteiro de Celas, num aforamento de um casal em Miranda, estipulava, entre os foros, "pães grandes de calo". A colegiada de São Salvador contendia com os lavradores de um casal, em Eiras, pelo facto de as regueifas, que constituíam o foro da pedida, serem pequenas e determinava que de um alqueire, pela medida velha coimbrã, de farinha de trigo mourisco peneirada pela antemão, fizessem 12 regueifas (portanto, com cerca de 833 g). Mais explícito é ainda o mosteiro lorbanense, que reclama de dois moleiros, em cada ano, 4 pães alvos, bons e grandes como aqueles que faziam em suas casas para comer. Só que tais pães não seriam de trigo, mas de mistura.
Tão imprescindível como o pão era o vinho, que abundava nesta área. Não havia casa que não se rodeasse de vinha entre as culturas circundantes. Entretanto cultivava-se maciçamente no aro citadino, ombreando com a oliveira, nas encostas dos povoados do Mondego e ainda na fachada marítima desta região. Conhecia-se o vinho vermelho e branco, se bem que, para o século XVIII, Manuel Dias Baptista afirme que "nesta Comarca a maior parte das uvas são brancas, de sorte que as negras apenas bastão para tingir o mosto branco" e talvez por esta razão as duas variedades de vinhas se cultivassem indistintamente nos terrenos. O vinho era bebido simples, mas também misturado com água, duas partes de vinho e uma de água, para os mais afortunados, ou mesmo metade de vinho e metade de água. Despendia-se muito vinho no acompanhamento das refeições ou apenas em matar a sede, pois "beber" não tinha outro sentido que não beber vinho». In Maria Helena Cruz Coelho, Homens, Espaços e Pobres, Séculos XI-XVI, Notas do Viver Social, Livros Horizonte, 1990, ISBN 972-24-0756-2.

Cortesia de L. Horizonte/JDACT

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Oliveira Marques: Um «Notável» em História. Considerado um dos grandes historiadores portugueses contemporâneos. As suas obras, que se destacam em diversos domínios, são instrumentos de grande importância para os estudiosos da História de Portugal

(1933-2007)
S. Pedro do Estoril
Cortesia de publico
António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques, foi um destacado Professor universitário e historiador português. Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, apresentando uma dissertação intitulada A Sociedade em Portugal nos séculos XII a XIV. Depois de ter estagiado na Universidade de Würzburg (Alemanha) iniciou funções docentes na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde se doutorou em História com a dissertação, Hansa e Portugal na Idade Média.
Em 1962 participou na greve académica, ao lado dos estudantes, o que esteve na base do seu afastamento da Universidade.
Em 1965, partiu para os Estados Unidos da América, leccionando como professor associado e catedrático nas universidades de Auburn, Flórida, Columbia, Minnesota e Chicago, e percorrendo grande parte daquele país como conferencista.
Em 1970 regressou definitivamente a Portugal, embora só depois do 25 de Abril de 1974 se lhe voltassem a abrir as portas da Universidade. De Outubro de 1974 a Abril de 1976 foi Director da Biblioteca Nacional de Lisboa. Em 1980 fundou o Centro de Estudos Históricos da UNL.
Em 1997 recebeu o doutoramento honoris causa pela Universidade de La Trobe, Melbourne, Austrália. Em 1998 foi condecorado pelo Presidente da República com a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade.
Cortesia de leiloes.net
O número total das suas obras de tomo ultrapassa 60 volumes. A colaboração, com artigos, em revistas, dicionário e enciclopédias ultrapassa o milhar. Proferiu numerosas conferências em universidades da Europa, Estados Unidos, Brasil e Argentina. É hoje considerado um dos grandes especialistas em história da Idade Média portuguesa, como mostra a sua notável produção na área, onde se salientam, entre outras, as seguintes obras:
  • Hansa e Portugal na Idade Média;
  • Introdução História da Agricultura em Portugal;
  • A Sociedade Medieval Portuguesa (também traduzida para inglês);
  • Guia do Estudante de História Medieval Portuguesa;
  • Ensaios de História Medieval Portuguesa;
  • Novos Ensaios de História Medieval Portuguesa;
  • Portugal na Crise dos séculos XIV e XV;
  • O «Portugal» Islâmico;
  • Colaboração abundante no Dicionário de História de Portugal, dirigido por Joel Serrão.
O seu labor de historiador fez com que Oliveira Marques se debruçasse sobre outros aspectos e épocas da história, nomeadamente sobre a história contemporânea:
  • A Primeira República Portuguesa;
  • Afonso Costa (diversas obras sobre este político);
  • História da República Portuguesa;
  • Guia de História da 1ª República Portuguesa;
  • Portugal, da Monarquia para a República;
  • História da Maçonaria em Portugal, 3 vol. publicados;
  • A Maçonaria Portuguesa e o Estado Novo; Dicionário de Maçonaria Portuguesa.
Porém, o seu livro mais famoso é a História de Portugal, inicialmente em dois volumes e refundida depois em três tomos (l981) e que foi traduzido para inglês, francês, japonês, castelhano e polaco; uma versão abreviada saíu também em português, francês, inglês, chinês, romeno e alemão.
Cortesia de porterrasdoreiwamba
A 25 de Junho de 1982, aquando dos 25 anos sobre a data da publicação do seu primeiro estudo histórico, e do início da sua carreira docente, foi alvo de uma sessão solene de homenagem, presidida pelo Presidente da República, sendo publicados em sua honra dois volumes com a colaboração de categorizados historiadores nacionais e estrangeiros:
  • Estudos de História de Portugal : Homenagem a A. H. de Oliveira Marques.
Em 2003, aquando dos seus 70 anos de idade, a comunidade universitária (Universidade do Porto, Universidade de Coimbra e Universidade Nova de Lisboa) dedicou-se diferentes homenagens, tendo sido publicada a obra Na Jubilação Universitária de A. H. de Oliveira Marques, coordenação de Armando Luís de Carvalho Homem e Maria Helena Cruz Coelho, Coimbra, MinervaCoimbra, 2003, com a seguinte colaboração:

  • A. H. de Oliveira Marques: Percurso Biográfico (A. L. de Carvalho Homem);

  • A Medievalidade na Obra de A. H. de Oliveira Marques (Maria Helena Cruz Coelho);

  • Paleografia e Diplomática na Obra de A. H. de Oliveira Marques (Saul António Gomes);

  • A Expansão Portuguesa na Obra de A. H. de Oliveira Marques (João Marinho dos Santos);

  • As Relações Luso-Alemãs na Obra de A. H. de Oliveira Marques (Thomas Denk);

  • Oliveira Marques y la Historia de I República Portuguesa (Hipólito de la Torre Gómez);

  • A. H. de Oliveira Marques Investigador e Historiador de la Masoneria (José A. Ferrer Benimeli);

  • Oliveira Marques Historiador da Franquia Postal (João Alves Dias);

  • História de Portugal e Historiografia na Obra de Oliveira Marques (Luís Miguel Duarte);

  • Bibliografia do Prof. Doutor António Henrique Rodrigo de Oliveira Marques / continuação 1982-2003 (Maria Fernanda Macedo Nogueira de Andrade e João J. Alves Dias.
De parceria com Joel Serrão, dirigiu duas colecções de História Portuguesa, intituladas Nova História de Portugal, e Nova História da Expansão Portuguesa.
Devem-se-lhe a introdução ou a difusão em Portugal de temas históricos, alguns deles em franco desenvolvimento hoje:
  • História da vida quotidiana;
  • História urbana medieval;
  • História das técnicas;
  • História do clima;
  • História dos animais;
  • História da 1ª República Portuguesa;
  • História da Maçonaria Portuguesa.
Entrando para a Maçonaria ainda durante o período da clandestinidade (1973), desempenhou acção de relevo naquela instituição, sendo eleito seu Grão-Mestre Adjunto (1984-86) e seu Soberano Grande Comendador do Supremo Conselho do Grau 33 (1991-94).
Cortesia de guitarradecoimbra
Em 1998 recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade pelo então Presidente da República, Jorge Sampaio.
Morre aos 73 anos de idade.
(Oliveira Marques_Maria Helena Coelho)
Cortesia de wikipédia/Guitarras de Coimbra/JDACT