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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Paraíso Triste. O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial. Maria João Martins. «Toda esta gente parou aqui, onde começam as ondas do mar. Nesse tempo, de Lisboa, saíam os últimos navios que os alemães deixaram passar. Estes barcos são velhos, incómodos, mas cheios: as pessoas pagam tudo só para não ficarem na Europa»


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Quotidianos excepcionais
Os refugiados
«Diante das tépidas águas que banham a praia do Estoril, sob as palmeiras que ornamentam o jardim do Casino, a ameaça alemã parecia longínqua como uma praga de ficção científica. Mas a memória das perseguições sofridas não deixava descansar esses banhistas de ocasião. A noite deixara de ser o tempo onde, com lume no coração, se admiram tesouros. Nela, parecia já não haver lugar senão para a morte e para os parentes dela, que são a miséria e o medo. Que gente era esta que esperava ordem de partida para a América, sentada nas esplanadas do Estoril? As vezes, senhoras tão bonitas como Ingrid Bergman e homens tão bem parecidos como Paul Henreid. Outras vezes, nem tanto. A maioria eram judeus fugindo a um lugar cativo num campo de concentração. Alguns deles trouxeram consigo parte dos bens, aliás, indispensáveis para a entrada na América que, dos refugiados, exigia a posse comprovada de um mínimo de quatrocentos dólares. Outros, perderam-nos, na fuga, e pensavam num meio de arranjar o indispensável para prosseguir viagem.
Os portugueses orgulhavam-se desse cosmopolitismo por força das circunstâncias. No Verão que se seguiu à ocupação da França, 1940, já os aviadores, diplomatas, estrelas de cinema e até pessoas de sangue real, entre outros comuns mortais à procura de um lugar literalmente ao sol, buscavam as areias do Estoril. Em Lisboa, as refugiadas vindas da Europa Central introduziam novas modas e sacudiam uma Lisboa mentalmente parada no século XIX. No romance O Cavalo Espantado, Alves Redol evoca essa atmosfera, bruscamente renovada:
  • O relógio do Carmo insinuava as horas. Foi então, aí por 1939, que do outro lado da praça, e a pedido dos estrangeiros sem sol para os aquecer na vida, se puseram cadeiras no Passeio (...) E as estrangeiras sentaram-se por ali, a ler e a conversar, matando o tempo de ansiedade naquele trampolim que tanto poderia levá-las mais depressa ao lar abandonadas, como atirá-las para um exílio em terras americanas (...) Ficou ali uma montra de pernas e de coxas para todas as gulas lisboetas, às escâncaras, sem pudores recalcados.
Os transeuntes profissionais do Chiado, ainda nessa época o melhor miradouro do que de público e privado havia na cidade, enlevavam-se facilmente com tais palminhos de cara branca e com essas cabeleiras louras ou ruivas como as das estrelas de cinema. Eram russas, alemãs, holandesas, francesas, polacas, inglesas e espanholas, tal como os contemporâneos de Eça, os lisboetas continuavam a perder a cabeça e a bolsa por nuestras hermanas e eles imaginavam-nas cheias de passado, rosas de fogo e volúpia, como lhes chamava Guedes Amorim numa crónica publicada no magazine O Século Ilustrado. Um dos diplomatas refugiados em Portugal no ano de 1941, o jugoslavo Miloch Tsrnhanski, conta na sua autobiografia, Embaixadas, a agitação vivida no Estoril nessa época em que os alemães ainda dominavam a Europa.
  • Toda esta gente parou aqui, onde começam as ondas do mar. Nesse tempo, de Lisboa, saíam os últimos navios que os alemães deixaram passar. Estes barcos são velhos, incómodos, mas cheios: as pessoas pagam tudo só para não ficarem na Europa.
Mas Miloch Tsrnhanski recorda ainda outro género de refugiadas: as jovens, nomeadamente inglesas, que ficaram sem casa e desconheciam o paradeiro dos familiares. Foram testemunhas de atrocidades de que, em circunstâncias normais, nem suspeitavam. A Legação Inglesa concedia-lhes uma ajuda semanal, mas tal quantia raramente lhes permitia comprar o fato de banho, indispensável nas praias da 1inha.
Que atractivos tinha o Estoril para oferecer a esses turistas forçados? Aparentemente, muitos hotéis e outros tantos cafés, com nomes tão sugestivos como Miramar, Grande Hotel, d'Angleterre ou Clipper Café.
Na prática, estes lugares ditos de evasão ocultavam armadilhas ou, na melhor das hipóteses, incomodidades várias. Como se não bastasse a possibilidade não muito remota de os alemães invadirem Portugal, os espiões de ambas as partes beligerantes estavam atentos. Por outro lado, os hotéis não eram instituições filantrópicas, capazes de pôr as mesmas condições de conforto, à disposição de todos os clientes, independentemente das respectivas contas bancárias. Miloch Tsrnhanski e esposa, instalados em Portugal quando estavam a braços com uma grave crise financeira, tudo quanto conseguiram arranjar foi um quarto, no Hotel d'Angleterre, onde ambos os canos de água jorravam água quente como um vulcão. Todavia, no mesmo estabelecimento pernoitavam também a filha e o genro de um ex-Presidente da República espanhola». In Maria João Martins, O Paraíso Triste, O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial, Vega, Colecção Memória de Lisboa, 1994, ISBN 972-699-474-8.

Cortesia de Vega/JDACT

domingo, 9 de dezembro de 2012

O Paraíso Triste. O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial. Maria João Martins. «As últimas “tipoias”, abandonadas décadas antes, quando o automóvel se tornara um sinal exterior de modernidade, voltaram à rua, devidamente polidas. O carvão, essencial quer aos transportes quer à vida doméstica onde era utilizado, especialmente nos grandes antepassados dos fogões, os fogareiros…»

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«Se a guerra nos poupa, por que não havemos de conservar a nossa casa em ordem, cada qual trabalhando, de modo que o quinhão de sofrimento que nos cabe não seja avolumado com apetites de chacal?... Como se impunha, o Governo tomou medidas para este género de situações. De quando em vez, os jornais noticiavam a chegada de um carregamento especial de qualquer bem indispensável. Assim aconteceu, por exemplo, em Junho de 1942, quando, numa manhã, chegaram à estação de Santa Apolónia nada mais nada menos que quarenta vagões carregados com quinhentas toneladas de batata. Na cena participavam os empregados que enchiam as sacas, que pesavam as batatas, os marçanos que as vinham comprar para as respectivas mercearias e agentes policiais que zelavam para que decorresse dentro da normalidade a transacção do precioso tubérculo.
Os comerciantes apanhados em flagrante delito de consumo corriam, por sua vez, o risco de pagar tais actos com a prisão. O que, para a população muitas vezes ludibriada, ainda era pouco. Os protestos, oriundos de todo o país, chegavam à Assembleia N……. e às páginas dos jornais. O mal-estar social, tão temido pelo ditador Salazar, começava a fervilhar, o que a oposição, nomeadamente o Partido Comunista, remetido para uma clandestinidade feroz, não deixou de aproveitar.
Como se não bastasse, algumas manifestações de protesto dos utentes foram violentamente acalmadas pela polícia-política do Estado Novo, o que, como se imagina, redobrou a tensão acumulada. Por causa disso mesmo, o ditador Salazar resistiu com todas as forças à implantação de uma política de racionamento. Mas em finais de 1943 teve de ceder. A Intendência-Geral de Abastecimentos passou então a tratar da distribuição das famosas senhas que davam acesso aos bens racionados, muitos deles de primeira necessidade (açúcar, azeite, pão, bacalhau, arroz, massas e batatas). Esta escassez durou muito para além do final da Guerra, pelo menos até 1947. Em casa da avó da autora deste livro, as famosas senhas de racionamento, nomeadamente para o açúcar, foram preciosidades que quase atingiram o início da década de 50.

Combustíveis
Se, na normalidade, os transportes públicos de Lisboa já deixavam muito a desejar, a Guerra agravou a situação. As últimas tipóias, abandonadas décadas antes, quando o automóvel se tornara um sinal exterior de modernidade, voltaram à rua, devidamente polidas. O carvão, essencial quer aos transportes (nomeadamente ao caminho-de-ferro) quer à vida doméstica onde era utilizado, especialmente nos grandes antepassados dos fogões, os fogareiros, determinaria, no primeiro caso, a redução de carreiras e, no segundo, a preferência por alimentos de confecção rápida.
Em 1940, ainda antes de as coisas piorarem em matéria de abastecimentos, já alguns restaurantes e outros estabelecimentos do género procuravam adaptar-se à nova situação. Surgiria, pois, um forno económico que Lisboa veria pela primeira vez numa pastelaria da Rua Voz do Operário. Tratava-se de um forno aerotérmico construído pela Empresa de Fornos Modernos, de que era director técnico Marcelino Fortunato, mestre da que fora a panificação da Manutenção Militar e, muito importante, das padarias da Grande Guerra. Ou seja, sabia, por experiência própria, o que significava a escassez de combustível em tempo de guerra. Este forno, em vez do gás ou do carvão habituais, consumia lenha, e não muita, por sinal. Como o Diário de Lisboa noticiava, entusiasmado, em 14 de Outubro de 1940, ele consumia, por hora, dez quilos de lenha, que custam 1$50 dando a garantia de cozer 150 quilos de pão e podendo, ao mesmo tempo, fornecer águas quentes e aquecimento central. A gradual instalação destes fornos nos estabelecimentos hoteleiros de Lisboa constituía, pois, segundo este jornal, um assunto;
  • ‘de interesse nacional e de interesse para os proprietários de padarias, pastelarias, fábricas de biscoitos, hotéis, cafés, restaurantes e internatos e para as administrações de quartéis, hospitais, asilos, grandes escolas internas oficiais, etc.’.
Os restaurantes de Lisboa não viviam, aliás, um bom momento. Nesse mesmo mês de Outubro, em que alguns pensavam instalar um forno que lhes permitisse enfrentar as agruras da guerra sem percalços de maior, desapareciam nomes simbólicos da Lisboa boémia. O Leão Triste da Rua l.º de Dezembro seguia o mesmo caminho que, anos antes, fora trilhado pelo Vigia da Avenida, o Silva do Chiado, o Gibraltar de Corpo Santo e o Estrela de Ouro da Rua da Prata. O Vigia vinha de 1832 e o Gibraltar, muito frequentado pela marinhagem inglesa, fora contemporâneo da Taverna Ingleza, a que Eça se referia. Como se não bastasse esta necrologia, nesse mesmo mês de Outubro de 1940, o Tavares Rico e o Tavares Pobre entraram, com todos os seus pergaminhos, em leilão judicial. A esta crise não seriam estranhas as dificuldades sentidas pela maioria da população. Cálculos apresentados pelo Diário de Lisboa provavam que só 7% da população alfacinha tinha o extravagante hábito de se sentar à mesa dum restaurante.
  • Compreende-se assim que o restaurante seja como uma espécie de lareira vazia, escrevia o jornalista, desgostoso com tanta tradição desperdiçada.
Açambarcava-se e especulava-se com o petróleo e derivados, nomeadamente com a gasolina. O Governo, mais uma vez, mostrou-se impotente para resolver o problema. Se chegou a pôr em prática uma política de construção de petroleiros próprios, se estabeleceu acordos com os aliados para obtenção de privilégios na exportação, se favoreceu a produção de combustíveis de substituição (óleos de peixe e de bagaço), tudo isso, no entanto, se revelaria extremamente insuficiente». In Maria João Martins, O Paraíso Triste, O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial, Vega, Colecção Memória de Lisboa, 1994, ISBN 972-699-474-8.

Cortesia de Vega/JDACT

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O Paraíso Triste. O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial. Maria João Martins. «… tem-se verificado, apesar da intensificação da respectiva fiscalização e das rigorosas penalidades aplicadas pelo Tribunal Colectivo dos Géneros Alimentícios, que o número de infractores é cada vez maior»

Crianças refugiadas em Lisboa
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E a Guerra aqui tão perto
«Em Janeiro de 1944, já a guerra contava quatro anos, uma sociedade de abastecedores de leite veio ao encontro das aspirações da população, deliberando que as bilhas de leite chegariam às leitarias de Lisboa devidamente seladas, depois de um condigno processo de higienização e filtração. Assim, escrevia o Diário de Lisboa em Março de 1944, terminaria a ‘mixórdia, o desolador aspecto da sua transvasão na via pública e as bilhas seladas garantiam, enfim, ao público lisboeta que, em lugar duma mistela adulterada, verdadeiro caldo de cultura microbiana, se ia, finalmente, beber leite’. Mas outros valores mais baixos se levantaram. Como verificava o mesmo Diário de Lisboa, ‘foram em vão as nossas legítimas esperanças. O leite continua adulterado, pois todos os dias o Tribunal condena leiteiros por falsificação do produto. O leite também continua infecto, sujo e perigoso, visto que a sua transvasão na via pública não cessou’.

NOTA: Um número do Notícias Agrícolas, publicado, justamente, em Março de 1944, elucidava sobre a forma como era tratado o leite que Lisboa bebia durante os anos da Guerra. Vacas mal instaladas, instaladas em estábulos infectos, mugidas por vaqueiros andrajosos e porcalhões; leites recolhidos e guardados em cerrados contaminados, mantidos, qual caldo de cultura microbiana, em meio eminentemente favorável à desenfreada multiplicação microbiana, transportados para Lisboa sem os mínimos resguardos, baldeado na via pública poeirenta, ao mesmo tempo que os outros serviços municipais (que também se chamam de Higiene) fazem despejar os lixos da cidade: leites que, por motivo de economia, só são transportados até Lisboa uma vez por dia, forçando-se assim a um amadurecimento mínimo de doze horas sem prévio arrefecimento, leites tratados com esta falta de escrúpulo científico nunca poderão chamar-se higienizados. Os saudosos dessa instituição que eram os leiteiros lisboetas esquecem quase sempre estes pormenores menos agradáveis.

Por incrível que pareça, escreveu o Diário de Lisboa na sua edição de 21 de Fevereiro de 1944, tem-se verificado, apesar da intensificação da respectiva fiscalização e das rigorosas penalidades aplicadas pelo Tribunal Colectivo dos Géneros Alimentícios, que o número de infractores é cada vez maior.
A situação era tal que os jornais propunham soluções. O Diário de Lisboa, nesta mesma edição, escrevia:
  • ‘Mas como arranjar os fundos necessários para a construção da Central Leiteira? Independentemente das verbas que o Estado e a Câmara pudessem destinar-lhe, há uma que é legítimo e compreensível que nela seja empregada: a proveniente das multas aplicadas por falsificações de leite, que, só no ano passado, renderam mais de 3 000 contos’.
O pão era objecto do mesmo tipo de atentados. A 28 de Janeiro de 1944, por exemplo, subiu ao Tribunal Colectivo dos Géneros Alimentícios um caso de falsificação do pão, em que era arguida a padaria Celeste, de Lisboa. Acusado de fazer introduzir no pão farinhas de qualidade inferior, o proprietário do estabelecimento declarou que a falsificação era da exclusiva responsabilidade do amassador e do caixeiro. Mas este não tardou em declarar que ouvira ao proprietário esta lamentação: - A casa dá pouco rendimento e as concorrentes rendem mais -. Daí à ludibriação do pobre cliente foi um passo.

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Outros comerciantes tomaram, por sua vez, a iniciativa de desenvolver acções de racionamento antes do Ministério da Economia as decretar. A situação atinge uma tal gravidade que os leitores do Diário de Lisboa chegarão a propor a aplicação da pena de trabalhos forçados para os chamados mixordeiros.
No mesmo dia, 15 de Janeiro de 1942, dois jornais de grande circulação, O Século e o Diário de Lisboa, debruçavam-se sobre tais problemas. O Diário de Lisboa dessa mesma tarde publicaria, em editorial, estas palavras:
  • ‘As cobiças não vacilam, porque são insaciáveis e multiplicam-se com a tolerância e a cumplicidade dos compadres. Ganhar, ganhar muito, embora o consumidor fique à míngua, eis o que convém às espécies açambarcadoras e roedoras. Valha-nos, Sr. Ministro da Economia! Por que não se vende carne nos talhos? Quem se encarrega de a arredar de Lisboa, como se fosse artigo de contrabando? Para os grandes males, grandes remédios. Para os inimigos do povo, a justiça e o castigo (...) A alimentação pública, em ocasião como a presente, é um problema sério que não se presta, portanto, a habilidades lucrativas nem a torpores inertes. Torna-se, porém, complicada, assoberbante e fatigante, quando se intrometem nela mãos industriosas. A pasta da Economia tem uma esmagadora missão a cumprir, visto que sobre ela impende uma tripla função, cada vez mais difícil, abastecer, distribuir e evitar que os milhafres comam o pão e a carne, à maneira dos corvos que baixam sobre os cadáveres abandonados. Se a guerra nos poupa, por que não havemos de conservar a nossa casa em ordem, cada qual trabalhando, de modo que o quinhão de sofrimento que nos cabe não seja avolumado com apetites de chacal?...’
In Maria João Martins, O Paraíso Triste, O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial, Vega, Colecção Memória de Lisboa, 1994, ISBN 972-699-474-8.

Cortesia de Vega/JDACT

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Paraíso Triste. O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial. Maria João Martins. «Em 1 de Abril de 1942, um jornalista do Diário de Lisboa comparava a situação vivida diariamente, entre as seis e as onze da manhã, no Frigorífico de Santos, onde se realizava a lota do chamado ’peixe do alto’»



E a guerra aqui tão perto. Crianças refugiadas em Lisboa
corsinoneto e jdact

E a Guerra aqui tão perto
«A 13 de Janeiro de 1942, o Diário de Lisboa noticiava ‘a carestia e a alta injustificada de preços’. ‘Uma galinha mediana custa 20$00. Compreende-se? Um coelho médio atinge um preço dos láparos de há meia dúzia de meses. Fixou-se e muito bem o preço dos ovos. Mas o Natal já passou e eles continuam a 8$40. O bacalhau, alimento quase base e que foi anunciado como suficiente para alguns meses, não se encontra. A província, a este respeito, vive em regime quase de privação. A falta de carnes, nas quais se verificaram há meses a esta parte duas altas de preço, continua e não se vê uma solução para o problema’. Em 1 de Abril de 1942, um jornalista do mesmo jornal comparava a situação vivida diariamente, entre as seis e as onze da manhã, no Frigorífico de Santos, onde se realizava a lota do chamado ’peixe do alto’, com a situação anterior à Guerra. Segundo dizia, o antes era assim:
  • ‘Antigamente, a lota era feita de cima para baixo, mas de muito alto e cada caixa era arrematada por alguém que pronunciava o "chui", sinal de que se conformava com o preço apresentado pelo pregoeiro. O peixe abundava na maior parte do ano’.
Em 1942, a situação era já muito diferente:
  • ‘[…] como a procura é enorme, escreve o mesmo jornalista, acontece que quasi sempre, logo que é pronunciada a importância máxima pelo pregoeiro, são numerosas as pessoas que gritam "chui". Estas aglomeram-se, gritam na galeria, num espaço manifestamente insuficiente, em condições impressionantes que é necessário modificar, não só porque é desumano mas porque, gritando muitas pessoas ao mesmo tempo "chui", e impossível fazer uma distribuição equitativa do peixe’.
Para além do pescado, também faltava o açúcar, o arroz, o bacalhau e a manteiga, para referir apenas os alimentos mais habituais na mesa dos portugueses. Ante esta situação que, rapidamente, se generalizaria em diversos sectores, os constituídos Serviços de Fiscalização contra Açambarcamento e Especulação não tinham mãos a medir. Numa economia de guerra há que não fazer concessões. No entanto, não faltavam os comerciantes que arriscavam para melhor aproveitar a escassez reinante. O açambarcamento torna-se prática corrente (a 13 de Janeiro de 1942, o Diário de Lisboa comentava assim a escassez de alguns géneros:
  • ‘Não se trata de outra coisa que não seja produto de movimentos artificiais de retenção ou de cotação’.
Mas há outros crimes económicos a afectarem o quotidiano do cidadão comum. Numa notícia publicada no Diário de Lisboa de 1 de Junho de 1943 falava-se das autênticas fortunas conseguidas graças à venda, em mercado negro, do ferro, do café, do cacau e do grão. Como escrevia o jornalista, ‘são dos tais negócios feitos à mesa do "café", em que os intermediários e negociantes têm pouco ou nenhum trabalho na sua colocação ou aquisição. Quando um artigo falta no mercado, as pessoas que dele necessitam não dão pela sua falta, desde que o paguem por qualquer preço, e ainda ficam a dever um favor a quem lho vende...’
Por outro lado, como, infelizmente, sempre acontece nestas ocasiões de escassez, comerciantes houve que praticaram verdadeiros atentados contra a saúde pública. Em Maio de 1943, por exemplo, foram condenados no Tribunal Colectivo dos Géneros Alimentícios quatro comerciantes das mais diversas regiões do país.
Os seus crimes foram vender leite falsificado com água bem como garrafas com rótulos de aguardente de bagaço, quando se verificou conterem, sim, aguardente, mas de medronho e figo e açúcar falsificado com farinha». In Maria João Martins, O Paraíso Triste, O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial, Vega, Colecção Memória de Lisboa, 1994, ISBN 972-699-474-8.

Cortesia de Vega/JDACT

terça-feira, 4 de setembro de 2012

O Paraíso Triste. O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial. Maria João Martins. «As dificuldades eram reais e sentiam-se nos principais mercados da cidade, como no resto do país. Na lota, a quantidade de peixe diminuía. Não porque os peixes tenham demandado águas menos perigosas, mas porque a escassez de combustível para os barcos levava os pescadores a permanecer mais tempo em terra»


E a Guerra aqui tão perto. Filme 'Casablanca'
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E a Guerra aqui tão perto
«Em Junho de 1940, Portugal descobria que a guerra não era uma preocupação longínqua para povos de estranhas latitudes. Nesse mês, a França perdia em casa a sua própria batalha e os alemães, de estandartes erguidos, entravam, marciais e orgulhosos, na cidade de Paris. Depois dessa vitória que Bismarck não ousara imaginar, quem garantiria que os tanques alemães não se decidissem a transpor os Pirenéus e a partir à conquista da Península Ibérica? Quem garantiria, depois, que as posições alemãs em Portugal e Espanha não viessem a ser violentamente bombardeadas pela aviação aliada?

A estas conjecturas quotidianas associaram-se outros factores de perturbação da normal existência ‘alfacinha’, os milhares de refugiados que, espoliados de tudo, passaram por Lisboa, rumo às Américas, sem vontade nem tempo para apreciar as vistas, a vasta propaganda estrangeira distribuída aos habitantes da cidade, os problemas suscitados pela escassez de géneros tão essenciais como o pão, a carne, o peixe, o café e, claro está, o azeite para temperar o ‘amigo’ bacalhau.
Distribuíam-se à população folhetos com indicações sobre o que fazer em caso de ataque súbito, organizavam-se exercícios com alarmes antiaéreos, treinavam-se operações de evacuação e ensinavam-se as pessoas a calafetar os vidros das janelas com tiras de papel.
O curso da Guerra não era, com efeito, de molde a tranquilizar o cidadão. Mesmo com o país convictamente neutral, vários navios mercantes foram atacados no alto mar, nomeadamente por submarinos alemães. A 5 de Julho, o bacalhoeiro português ‘Maria da Glória’, oriundo de Aveiro, foi afundado a tiros de canhão por um submarino ‘sem bandeira’ (Século Ilustrado, 10Julho1940). À tripulação atacada não restou outra alternativa senão o recurso aos frágeis doris com que o ‘Maria da Glória’ fora dotado.
Lisboa ia ao cinema, ao teatro, à praia, à Feira Popular e às compras mas sabia que não lhe era possível viver numa redoma de vidro.

As dificuldades de abastecimento
As dificuldades de abastecimento de bens essenciais, desencadeadas pela Guerra, à imagem do que já acontecera em 1914 / 18, tornaram-se quotidianas. Os lisboetas habituaram-se a viver com elas e as conversas ressentiam-se disso mesmo.
  • ‘- Sabes o que diz o bacalhau às batatas? - ?... - Ai que saudades, ai, ai...’ Anedota publicada em o Século Ilustrado, 14Janeiro1944.
O anedotário começaria a brincar com estas novas situações, como sempre acontece quando a crise se instala na vida de todos os dias. Sobre o problema do azeite que não chega para as necessidades de um povo particularmente apreciador do bacalhau com batatas, o Século Ilustrado publicava, em 4 de Julho de 1942, esta piada:
  • ‘- Vês aquele tipo? E um felizardo. - Felizardo, porquê? - Porque tem uma nódoa de azeite no casacão’.
Mas esta fleuma não desdramatiza a situação. O corte radical que a Guerra infligiu nas exportações, incluindo as das nossas colónias, pôs a nu as imensas lacunas e insuficiências da produção agrícola, pecuária e industrial portuguesa. As dificuldades eram reais e sentiam-se nos principais mercados da cidade, como no resto do país. Na lota, a quantidade de peixe diminuía. Não porque os peixes tenham demandado águas menos perigosas, claro está, mas porque a escassez de combustível para os barcos levava os pescadores a permanecer mais tempo em terra.
A inflação crescia mais do que os pés-de-meia familiares podiam suportar e a falta de coordenação governamental foi, durante a maior parte do conflito, um factor favorável ao agravamento do problema. A 3 de Agosto de 1944, o jornal Diário de Lisboa dava conta de que, nos mercados da cidade, não havia quem chegasse à fruta.
  • ‘Só graças aos vendedores ambulantes, escrevia-se nessa edição, é que se pode comprar fruta mais barata. Nos outros mercados é proibitiva’.
A crise remontava a 1940, ano em que a França caiu na mão dos boches (malditos) e a drôle de guerre cedeu lugar ao conflito mais mortífero da Historia. Os bens essenciais tornaram-se objecto de especulação, roubo e açambarcamento. A 31 de Agosto de 1940, por exemplo, os jornais noticiavam o roubo de um carregamento de açúcar pertencente a um navio grego que, tempos antes, sofrera um incêndio no Tejo». In Maria João Martins, O Paraíso Triste, O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial, Vega, Colecção Memória de Lisboa, 1994, ISBN 972-699-474-8.

Uma visão rara. Lisboa com neve, em Janeiro de 1945.
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Cortesia de Vega/JDACT

sábado, 1 de setembro de 2012

Leituras. O Paraíso Triste. O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial. Maria João Martins. «A Lisboa que se engalana para a festa domingueira das suas celebrações vive no instante antes do abismo. Nela, por mais que a encenação política do regime procurasse fazê-lo esquecer, instalou-se o sinal de um tempo em que a clandestinidade foi morada e a roleta, muitas vezes, russa»



Luíseme e jdact

Tinha os olhos pregados no navio. Fundeado no Teio, a alguma distância do cais, iluminava-o um clarão vivíssimo. Se bem que estivesse havia já uma semana em Lisboa, ainda me não habituara à luminosidade extravagante da cidade. Nas terras donde eu vinha, a noite fazia das cidades negros blocos de carvão, onde o foco de uma lanterna representava mais perigo do que a peste na Idade Média. Eu vinha da Europa do século XX”. In Erich Maria Remarque, Uma Noite em Lisboa.

«A noite fez-se para esconder tesouros. Nela, acontecem as conspirações que mudam a face da História, os amores que dinamitam os sentidos e os filmes que não podemos esquecer. Concedem-se direitos aos segredos e corpos às recordações.
Na noite do 1.º de Dezembro de 1940, as cidades da Europa do século XX tinham, de facto, o aspecto de negros blocos de carvão evocado por Erich Maria Remarque em ‘Uma Noite em Lisboa’. A Wehrmacht ocupara Paris, a Luftwaffe bombardeava ferozmente Londres, Southampton e Conventry, os judeus desapareciam, aos milhões, nos campos de concentração, sem que nada de humano ou divino lhes valesse.
Vivia-se de cócoras, o riso era uma indecência e o amor uma extravagância. A vida, qualquer coisa que, de repente, se descobria ter desperdiçado enquanto fora tempo. Nessa noite, no entanto, Lisboa festeja, como uma louca sem noção do tempo, do espaço ou das circunstâncias, o duplo centenário. Vive-se a última oportunidade para visitar essa obra-prima da arquitectura para ver e deitar fora que é a Exposição do Mundo Português, em Belém. Centenas de lisboetas não perdem tempo e tratam de se extasiar com o simulacro de Império erguido à beira-Tejo, para maior glória do Estado Novo.

‘O céu estava como se nada fosse, falso. Ouviu-se algures uma explosão. Gilles lembrou-se de uma frase feita: Os deuses são impassíveis’. In Drieu de La Rochelle, Giles.

No dia seguinte, quando soarem as doze badaladas da meia-noite, será já demasiado tarde. Sob a presidência de Óscar Fragoso Carmona, apagar-se-ão as luzes, enquanto um monumental coro entoará o hino nacional. Os Pavilhões da Fundação, Formação e Conquista, Independência, a Secção Colonial e a Nau Portugal, entre outras obras-primas da propaganda, passarão a ser uma saudade.
Festejam-se, de ume assentada, os trezentos anos da restauração da independência, os oitocentos da fundação da nacionalidade e o ressurgimento da ‘gloria pátria’ pela mão fria do Estado Novo. Dão-se vivas a (ditador) Salazar e graças a Deus. Rezam-se ‘Te-Deum’ nas principais igrejas de Lisboa, ouvem-se discursos inflamados pelo fervor nacionalista, […]
Enquanto se festejavam tão nobres efemérides com a pompa e circunstância prezadas pelo regime, o Belenenses vencia o Sporting por três a um, o Benfica fazia outro tanto contra o União Lisboa, mas por quatro a dois, e os Unidos derrotavam o simpático Carcavelinhos por duas bolas sem resposta. No cinema, passava, por sua vez, um cartaz de luxo: entre outros, filmes como Ninotchka, de Lubitsch, com a Garbo (São Luís), O Grande Êxito, com Ann Sothern e Edmund Lowe (condes), A Minha Mulher Favorita com Cary Grant e Irene Dunne (Tivoti), Garra de Ferro, com James Cagney (Palácio) e Piedosa Mentira com Edwige Feuillére e George Rigaud (Eden). A guerra parecia longínqua e um problema dos outros.
Mas não o era. Nessa mesma noite, enquanto o fogo-de-artifício ribomba sobre Belém, Saint-Exupéry, o escritor-aviador que acreditou em ‘Principezinhos’, assina uma carta angustiante. Está instalado no Hotel Palácio, no Estoril, e escreve:

  • ‘Guillaumet est mort, il me semble ce soir que je n’ai plus d’amis. (...) Je n’ai plus un seul camarade au monde à qui dire: Te rappel-les-tu? (...) Je croyais que ça n’arrivait qu’aux très vieilles gens, d’avoir semé sur leur chemin, tous leurs amis, tous. Il y a toute la vie à recommencer. Aidez-moi, je vous en supplie, à voir le paysage. Je suis désemparé d’avoir passé la crête. Dis-moi quoi faire. S’il faut revenir, je reviens’.(Guillaumet morreu. Esta noite parece-me que já não me resta nenhum amigo. Já não tenho nenhum camarada a quem dizer: "Lembras-te?" (...) Pensava que isto só acontecia às pessoas muito velhas, deixar todos os amigos pelo caminho, todos. Há toda uma vida a recomeçar. Suplico-te que me ajudes a ver a paisagem. Fui abandonado no cume. Diz-me o que devo fazer. Se for preciso voltar, volto).

Mas este homem apaixonado que, de repente, se via sem ninguém que lhe percebesse os desenhos e estimulasse os sonhos é, na sua genialidade, apenas um símbolo. Nessa noite, e noutras que se seguiram, muitas cartas, com tamanha angústia, foram dirigidas de Lisboa para a tal Europa do século XX, onde os destinatários nem sempre se mantinham vivos para as receber. A ‘capital do Império’ afigurava-se, então, um paraíso (bem) triste (na expressão também de Saint-Exupéry) para os que, procurando um espaço de tranquilidade, não conseguiam, todavia, esquecer o que ficara para trás.
A Lisboa que se engalana para a festa domingueira das suas celebrações vive no instante antes do abismo. Nela, por mais que a encenação política do regime procurasse fazê-lo esquecer, instalou-se o sinal de um tempo em que a clandestinidade foi morada e a roleta, muitas vezes, russa.
Pela Lisboa dos pátios das cantigas, da Praça da Figueira, dos teatros de revista e das esplanadas soalheiras, passavam várias dezenas de milhares de judeus fugidos ao extermínio certo, vedetas sem palco, reis sem trono, apaixonados só com memórias e gente determinada a espremer os amanhãs até que eles cantassem. Passou, por exemplo, Leslie Howard a bater-se pela causa da liberdade e passou, pelo menos duas vezes, Louise Rainer, secreta e desesperadamente à procura do pai que ficara na Áustria. Ante estes e outros dramas, a ditadura persuadia a população a viver habitualmente, a ler os livros, e ver os filmes, A ouvir a rádio que a sua censura livrara de intuitos subversivos e, sobretudo, a deixar-se conduzir, pobrezinha mas honrada, para o ‘ressurgimento nacional’. Mas a geografia colocara Lisboa no coração de uma História em turbilhão, e contra esse facto nem mesmo (o ditador) Salazar podia agir». In Maria João Martins, O Paraíso Triste, O Quotidiano em Lisboa durante a II Guerra Mundial, Vega, Colecção Memória de Lisboa, 1994, ISBN 972-699-474-8.

Cortesia de Vega/JDACT